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quarta-feira, novembro 09, 2011

Uma síntese simples mas lúcida

«A União Europeia está a esboroar-se e os sábios discutem o sexo dos anjos. Anteontem, saímos aterrados do programa Prós e Contras. A questão já não é de ficar ou não ficar no euro. A questão é de sair e de como sair. Mas qualquer das portas conduz-nos à desgraça. Não conseguimos evitar as armadilhas da violência e da miséria, e a emocionante ideia dos "fundadores" do projecto está posta de lado. Politicamente, a União não existe; a solidariedade, imaginária; e o desenvolvimento económico caracterizado pela supremacia da Alemanha sobre todos os outros países. Sem esquecer que o nacionalismo ressurge com uma força inesperada e que a extrema-direita manifesta assustadoras práticas de reprodução.

A Europa das nações foi um mito, nascido das exigências pessoais e morais de alguns homens que haviam sofrido duas guerras. Há qualquer coisa de poético neste almejo; mas há, igualmente, algo de impraticável. O caso da Grécia é, somente, um incidente à espera de acontecer. Resulta de diferenças culturais e de opostas concepções políticas. Uma comunidade não é sinónimo de exclusão e de pobreza, se os seus dirigentes souberem e quiserem controlar as diversidades. A União nasceu desse equívoco. Afinal, não somos todos diferentes e todos iguais. Opuseram-se-lhe não só a subjectividade dos protagonistas políticos como a nova e tumultuosa ordem económica e uma juventude distanciada de uma definição comunitária.

Torna-se pungente assistir aos salamaleques de Pedro Passos Coelho ante os senhores do mando, e o afã com que se apressa a ser um zeloso cumpridor das ordens emanadas de fora. Há um défice de dignidade e de orgulho que a desenvoltura do primeiro-ministro não consegue dissimular, e se espelha, afinal, em todos nós. O conceito de inferioridade nasce daquele que se considera como tal. E esse conceito, levado ao limite, transforma num ser alienado aquele que a isso se submete. Se a Grécia expressou uma auto-afirmação simbólica, logo os países que se encontram na mesma linha de dificuldades demonstraram uma animosidade clara. A assimilação do medo faz parte das desigualdades de que a União é cada vez mais fértil.

Portugal, este Governo, exclui qualquer alternativa que abandone as regras impostas de fora. Todas as possibilidades que se combinem entre si são imediatamente eliminadas, numa lógica de alienação e de negação que chega a ser repugnante. Nada nos diz que a situação melhore nos próximos anos. Independentemente da vontade dos povos, dos protestos que façamos, das indignações que protagonizemos, das censuras que lavremos, os poderes que nos amarram são extremamente poderosos. Os estorvos que consigamos causar não chegam para alterar o projecto passadista e profundamente reaccionário que está em curso.»



domingo, outubro 23, 2011

Já basta de tantas palavras!

Os economistas, que deveriam ter conhecimento e lucidez, não se entendem (ou não querem entender-se). E os opinadores para todos os gostos fazem um barulho ensurdecedor.
O povo português é atordoado pelas chantagens das ditas inevitabilidades e pelas estratégias do medo, restando-lhe difíceis intuições e a pergunta: será que o destino do país está entregue a governantes competentes, ou não são estes mais do que irresponsáveis atrevidos que quiseram governar sem estudo e sem abertura à ponderação de propostas alternativas a medidas que tomem para além do compromisso com a dita troika?

Sinceramente, já só sou capaz de escrever o que agora escrevi no topo deste blogue.

(Quanto à Europa, esse é também um problema aflitivo e primordial. Contudo, vamos tendo um governo empenhado em ser mais papista do que a papista-troika)

terça-feira, outubro 04, 2011

Respondendo à crítica de um amigo

Tenho um grande amigo, que não é autor de blogue, que me critica por agora escrever muito pouco, por agora denunciar muito pouco...
Talvez tenha alguma razão, dado que escrevi muito no tempo de MLR e rebati muito a sua política educativa apoiada por José Sócrates. Mas, nessa altura, este meu cantinho centrava-se essencialmente nas questões da Educação. Ora, acontece que, no actual momento, por mais que me preocupe o rumo da Educação, o meu pensamento, as minhas preocupações, os meus desgostos e as minhas revoltas não conseguem isolar um pouco a política educativa porque a global é (para mim) demasiado triste,  preocupante, revoltante e destituída de qualquer boa perspectiva.
A minha esperança (que nunca perco) passou para longo prazo.
Há, sim, alternativa ao actual rumo (e esse é o meu grito, que não preciso de repetir pois permanece bem "audível" aí no topo do meu blogue).  Mas não basta haver alternativa: É precisa uma lucidez generalizada, que não existe; é precisa uma tomada de consciência muito ampla, que gere aquela Liberdade que Marx definia como "a consciência da necerssidade"; é preciso que o povo português deixe de ser matraqueado por comentadores que o alienam ou lhe instalam o medo a fim de que permaneça dócil perante os verdadeiros objectivos do neoliberalismo exacerbado; é preciso, muito provavelmente, que também os outros povos da Europa gritem em uníssono um enorme NÃO aos senhores que comandam, nomeadamente os povos que até deram o poder aos mais soturnos líderes (como também cá, com a diferença que os líderes de cá  nada mandam, apenas são subservientes, com gosto e crença).

O que tenho respondido ao meu amigo? Tenho respondido que a minha escrita não tem visibilidade, pelo que não faz sentido andar a repetir mais do mesmo. Não que não seja preciso que as vozes imprescindíveis, as que conseguem ter alguma audição,  não se cansem de repetir mais do mesmo enquanto for sempre mais do mesmo (e sempre a somar) os actos governamentais a denunciar. Quanto à minha quase invisível pessoa, quem por aqui passar que ouça o meu grito aí acima. E, se quiser saber o que penso, o que denuncio nos últimos tempos de poucos escritos (poucos, saliento, não só no tempo mais recente de novo governo ), pois tem as "etiquetas" aí ao lado, é só clicar nas de "política" que logo fica disponível o meu pensamento.

ACORDAI! 

quinta-feira, setembro 29, 2011

Quando um governo perfilha ideologicamente os reais objectivos de "troikas"...

«(...)O objectivo dos ideólogos, escondidos sob o “manto diáfano” da competência técnica, como Vítor Gaspar e outros membros deste Governo, a começar por Passos Coelho, é o lançamento irreversível das bases económicas que permitam construir um outro modelo de sociedade. Um modelo que nada tem de novo – um modelo repescado do que começou a ser posto em prática, com outros meios e noutras conjunturas, principalmente a partir das últimas duas décadas do século XIX com o desenvolvimento do capitalismo è escala transnacional. Numa palavra o que hoje se pretende é: assegurar ao capital a maior liberdade de movimentos, fazer regressar o trabalho à condição de mercadoria igual a qualquer outra e reconduzir o Estado ao exercício de funções mínimas: defesa da propriedade e garantia da liberdade de acção dos titulares dos meios de produção. E mais uma ou outra função imposta pelas específicas situações do tempo presente.(...)
Claro que as alternativas existem. Mas fora do sistema, não dentro. Por isso não serão fáceis de pôr em prática e levarão anos a consolidar-se…»
JM Correia Pinto
(O meu agradecimento ao Francisco pelo texto, que pode ser lido na íntegra aqui)

terça-feira, setembro 13, 2011

Visão necessária que talvez não agrade a professores

Começo por acentuar o que é dito no documento entregue por Mário Nogueira a Passos Coelho:
(...) A crise não pode servir de justificação para que se destrua o essencial, a base da construção do futuro; a Educação é, efetivamente, a base dessa construção! (...)

Não tive acesso ao jornal, mas Paulo Guinote mostra no seu blogue um caderno incluído no Público, no qual Mário Nogueira terá dito, em entrevista, o que, em parte, a seguir se lê, e que, por muito que pese aos professores, especialmente aos "umbiguistas", na minha opinião revela a honesta coragem de uma visão necessária, sabendo MN que não será a visão "popular" para muitos(?) dos associados na FENPROF.


Não falo assim por agora estar de fora como professora aposentada, nem por continuar a ser sindicalizada no maior sindicato da FENPROF - o SPGL. Falo como cidadã muito preocupada (e muito triste) com o rumo e o futuro do meu país, e toda a minha vida, embora lutando sempre pela Educação na Escola Pública, mantive a consciência da responsabilidade da cidadania.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Aos netos da madrugada...

Zeca cantou 'Filhos da Madrugada'. Vinde, também, netos da madrugada!
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"O que faz falta é animar a malta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta é empurrar a malta"
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"Não me obriguem a vir para a rua gritar"

Ainda trabalhei no tempo da ditadura; vivi com indescritível alegria aquela "madrugada", agarrando as mãozinhas das minhas filhas pequenotas e repetindo, repetindo a mim mesma: Elas vão viver num país livre!
Agora sou velhota, mas disposta a ainda ir para a rua gritar.
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(Publicado previamente no FB mas tendo como
 ttítulo o que agora se lê no topo desta página) 

segunda-feira, junho 06, 2011

Imensa tristeza. Mas luto, não!

É fácil iludir um povo assustado quando se faz uma campanha em que são omitidas-escondidas as medidas concretas que vão ter que ser tomadas e, ainda mais, as outras para além das impostas externamente. E são feitas promessas de intenções em abstrato para bem do povo, salientando o povo mais desfavorecido, quando, na realidade, se é por profunda convicção a favor do neoliberalismo extremado, ainda que não convenha dizê-lo.
Como se pudessem renunciar à proteção dos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros, cujo apoio é o seu sustentáculo na posse do poder da governação.
Como se fossem capazes ou estivessem dispostos a, por exemplo, compensar o  abaixamento da Taxa  Social Única, imposto no acordo que assinaram, mediante taxação dos escandalosos lucros não taxados, contra o sustentáculo referido acima, evitando assim que seja o povo a compensar, evitando assim mais fome e miséria.

Imensa tristeza por ver o cravo de Abril em perigo de murchar. Mas luto, não, porque o povo pode ter sido iludido, mas o povo português não quer que esse cravo de Abril murche para sempre, e saberá regá-lo pela tomada de consciência que conduz ao NÃO, que conduz à luta que for necessária.

Há sempre os homens e mulheres que lutam... Aqui... na Europa... no Mundo...

Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis
.
B. Brecht
 
É preciso saber esperar, sim. Mesmo que a mudança qualitativa aconteça sem que os que lutam toda a vida cheguem a vê-la - mas vêem e vivem os filhos ou netos. E agora a História até "anda" mais depressa.

Para os que não se acomodem: Jamais percam a ESPERANÇA!

sexta-feira, junho 03, 2011

Enquanto candidato a novo 1º Ministro pretende eliminar Ministério da Cultura...

... movimentos de cidadania na Europa manifestam-se contra as ameaças de morte contidas em planos de cortes nos orçamentos da Cultura. E em Portugal? Ficamos (ou continuamos) indiferentes???

(Precisava de mais uns dias para voltar ao meu blogue, mas senti o DEVER de vir, mesmo sabendo que este cantinho é pouco lido)

terça-feira, maio 17, 2011

Beco...

Beco sem saída.
Beco sem saída?

(...)
Levanta-te meu Povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta  é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.

(Do Soneto do Trabalho, de Ary dos Santos)

terça-feira, abril 12, 2011

Portugal visto lá fora versus Só males o que nos mostram cá dentro

Agradeço ao meu amigo Francisco os dados que me enviou relativos apenas a um período de um mês - de  1 de Fevereiro a 2 de Março do corrente ano de 2011. Desculpa, Francisco, e desculpem os meus eventuais leitores, mas perdi a paciência, não vou trancrever os textos, nomeadamente em Inglês, das fontes como o Eurostat, Comissão Europeia, etc., fico por um curto post  em jeito de índice de notícias. Deixo a quem estiver interessado e duvidar a procura das fontes (legítimo direito à dúvida,  mas eu também tenho direito à falta de paciência e, portanto, a enunciar o que poderão procurar para se certificarem, como o Francisco fez. Ver também no blogue fado positivo).

O povo português merecia que certos dados lhes fossem divulgados ou escritos em destaque em vez de em notícia secundária (e reparem que só referirei um período tão recente e tão curtinho), para ao menos poderem ter uns grãozinhos de orgulho no seu país numa fase em que nada nos orgulhamos dele via políticos,  politiqueiros e comentadores.

01-Fev-2011  Inovação: Nos últimos cinco anos, Portugal foi o país da UE que mais cresceu no ranking europeu. (A rubrica em que Portugal mostra um melhor resultado - e está mesmo em terceiro lugar face os países da Europa a 27 - é no item "Inovadores", isto é, dos países com empresas que declaram ter introduzido produtos ou processos inovadoras no mercado, conseguindo com eles uma maior eficiência na utilização de recursos ou na diminuição dos custos de produção.)

03-Fev-2011  Comércio português com maior crescimento em toda a Europa
Eurostat diz-nos que o volume de vendas no comércio caiu 0,6% em Dezembro face ao mês anterior, mas destaca Portugal como dos poucos países onde houve uma melhoria. As vendas do comércio cresceram 4,7%, praticamente o dobro do segundo país com melhor comportamento, a Polónia com 2,4%.

07-Fev-2011  Encomendas estrangeiras à indústria nacional sobem 47,5% em Dezembro
INE diz que em Dezembro (na realidade a média móvel dos últimos 3 meses), o índice de Novas Encomendas na Indústria voltou a aumentar 24,7% face ao mês homólogo. A parte devida ao mercado externo cresceu mesmo 47,5%, depois de já ter crescido 44% em Novembro, sendo que houve crescimento em todos os séctores da indústria.

15-Fev-2011   Eurostat destaca indústria portuguesa como tendo o segundo maior crescimento


01-Mar-11  2010 Um excelente ano para o turismo
Banco de Portugal via Público
Eurostat
 Público:
Apesar dos receios iniciais, o turismo conseguiu alcançar o melhor resultado de sempre em 2010.

02-Mar-2011  Instituto Gulbenkian Ciência entre os melhores do mundo para trabalho de investigação
The Scientist:
O The Scientist sondou vários doutorados a fazer investigação em todo o mundo sobre a qualidade do centro de investigação onde estão a fazer o seu postdoc. O IGC em Oeiras, aparece nos TOP10 das melhores instituições fora dos EUA, com o nono lugar.
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Aparte meu: Que terão pensado lá fora quando se preferiu e se consentiu  chamar o FMI para vir aplicar uma agenda neoliberal de emagrecimento do estado e privatização dos serviços públicos? (Que o que quer vir a ser 1º Ministro preferiu isso mesmo, não tenho dúvidas; que o que quer continuar 1º Ministro preferiu, não sei, mas não me admira se preferiu passar a bola dos disparates e dos erros cometidos pelas tendências do seu pé direito; que o Presidente da República consentiu, disso é que não há dúvidas)

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Cuidado, que andam a empurrar o País para o mais visceral neoliberalismo!

Até há pouco tempo, não me imaginaria a escrever o que vou mesmo escrever. Mas começo por esclarecer duas coisas:
1. Tenho o mesmo direito de expressar o que ando pensando que têm todos os que pensem o contrário - direito que respeito e defendo para todos.
2. Nunca gostei, nem gosto de José Sócrates (como político/governante), nem nunca votei no Partido Socialista - nem penso votar, pois mesmo 'voto útil' para mim não é esse - porque meteu na gaveta bastantes dos princípios (ou ideais, ou utopias, se assim lhes quiserem chamar) que tenciono manter até morrer, dado que o mundo continuará, mesmo que a mudança para a justiça e o humanismo seja longínqua - ficarão cá por mim os netos, depois os bisnetos, e os bisnetos dos bisnetos...

O ódio cega. E a comunicação social nada nos diz de verdades (seleciona meias verdades, omite verdades que no momento não são (ou já não são) convenientes, ajusta-se às suas conveniências futuras mais previsíveis; comentadores e mais comentadores... são ardilosos; e, pior que tudo, nunca como agora o poder político foi tão inexistente, não só cá mas por toda a União Europeia (para falar só desta), nunca como agora foi tão impotente perante o verdadeiro poder que está governando o mundo (sempre esteve, mas hoje muito mais ainda) nos meandros subterrâneos e tentaculares dos interesses económicos gananciosos e indiferentes ao mundo do futuro dos próprios netos ou bisnetos.
De repente, desde há não muito tempo, fiquei mais do que assustada, quase que diria aterrorizada. Não por causa da dita "crise". Porque, como já disse, o ódio cega, e são ardilosas as campanhas veladas para fomentar ódio no povo português (o povo, mesmo povo, em que não é genuino esse sentimento), bem como para manter e alimentar, alimentar, alimentar ódios individuais e ódios de corporações (sim, corporações, chamemos as coisas pelos seus nomes). E até a classe política à esquerda do PS parece ter ficado cega!!

Jamais me imaginei a escrever o que vou continuar a escrever, nem há uns tempos acreditaria que alguma vez o fizesse, pois não gosto do PS, muito menos de Sócrates. Mas, desde que o líder do único partido que, sozinho ou de braço dado com seu apêndice, realisticamente poderá ser alternativa de governo, desde que esse líder, dizia, se revela sem grande pudor ideologicamente bem enraizado no mais acérrimo neoliberalismo, as tendências do pé direito de Sócrates para escorregar para esse lado (que tanto foram salientadas criticamente nesta blogosfera, inclusive por mim própria) não têm comparação - perante um perigo que não é mortal e um perigo de morte, hoje não hesito em dizer que o ódio cegou os que não querem a morte, e pode ser inculcado (ou já está a ser) no povo português que não quer essa morte de que falo. Falo da morte do Estado Social (o possível neste momento, mas acho que ninguém vai chegar ao extremo de acusar o PS, ou mesmo Sócrates, de também o querer abater); falo da morte da Escola Pública, que, é verdade, está doente e Sócrates bem contribuiu cretinamente para a doença (pelo menos por consentimento), mas não pretendeu assassiná-la; e falo até da morte ou da profunda mutilação do bem mais precioso que temos como garante do Abril que tivemos e que é a nossa Constituição - revista, com algumas alterações provavelmente adequadas, mas sempre garantia das nossas esperanças, ainda que com alguns desrespeitos (é verdade) dos governos de Sócrates, todavia com a condescendência de quem tem o supremo dever de garantir o seu respeito.
Não, não gosto de Sócrates. Sim, considero que cometeu bastantes erros graves e que se preocupa demais com as suas propagandas e de menos com o país. Mas não vou ao ponto de cegar, e pergunto-me como é que a própria esquerda parlamentar parece ter cegado, parece não ver os perigos de morte acima dos perigos da ala direita mais a ala silenciosa do Partido Socialista, perigos que, apesar de tudo, comparativamente, se tornam perigositos.
 Até porque ninguém na comunicação social lembra ao povo português que Sócrates não fez só disparates. É preciso ir fora do país para se ser lembrado de que também fez coisas bem prestigiadas no exterior e até apontadas como exemplos a seguir por entidades insuspeitas, como me dizia hoje um amigo.
Não, nunca me passara pela cabeça até há pouco tempo vir chamar a atenção, como quem defende o nosso actual Governo,  para que, se entre todos  os governos presentemente tão manietados como o nosso, vários não gostam do jugo,  o nosso também não, apesar de tudo. Enquanto que o líder da alternativa não sentirá como jugo aquilo de que visceralmente gosta e que defenderá e praticará tanto quanto lhe dêem oportunidade para isso.

Bolas, até a classe política à  esquerda do PS cegou?!
Sinto-me quase aterrorizada, e apetece-me gritar a pergunta a todos os ventos. Mas só me restam os ouvidos das paredes deste meu cantinho.
 Não tenho poder para gritar um alerta. Mas sim, estou sim a escrever o que ainda há um ou dois meses não acreditaria vir a escrever. Sim, estou sim a desejar que, entre as duas alternativas realisticamente possíveis, ganhe as eleições legislativas, sejam lá quando forem, este  PS que até detesto - detesto, mas não perco a lucidez. Sim, estou sim a temer que a percam, por ódios ou ressentimentos, os que, como eu, afinal também temem uma possível maioria absoluta de um acérrimo neoliberalismo à solta.
Disse.

sexta-feira, outubro 29, 2010

Tão actual... que desesperança!

Soneto quase inédito

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.


Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.


E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,


Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.

JOSÉ RÉGIO - Soneto escrito em 1969

terça-feira, julho 20, 2010

Já não podemos dizer "venha o diabo escolher"

Acusámos Sócrates, no seu primeiro mandato (eu acusei), de tendências, seguidismos ou sujeições ao neoliberalismo. Com razão, mas hoje (neste preciso dia) isso parece-me tão relegado para plano secundário!

Não sei se posso falar do PSD globalmente, mas pelo menos o seu líder (por esse partido escolhido) hoje revelou-se ideologicamente de forma clara.

Fico-me por estas palavras pois não creio que haja razão para susto dado que não acredito que se permita a destruição da nossa Constituição e a mudança do regime saído do nosso 25 de Abril. Só quis salientar a verdadeira face ideológica do actual líder do PSD.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Democracia...



Não existe ideal político mais bonito que a democracia! Porque ele se baseia na ideia de que o povo tem o direito de decidir sobre os rumos desse barco em que navegamos, e que se chama país! É preciso cuidar dele porque há suspeitas de que o seu casco esteja furado ... Os partidos políticos são as várias tripulações que disputam o controlo do barco. O problema é que todas as tripulações dizem a mesma coisa. Todas prometem consertar os furos do barco, todas prometem navegar na direcção do mesmo porto! E é o povo que deverá escolher a tripulação que vai cuidar do barco e fazê-lo navegar na direcção do porto prometido ... Se o povo escolher a tripulação errada, ai de nós: barco furado, naufragando, o povão afogando-se ... O que os partidos dizem não faz diferença, porque todos prometem a mesma coisa. A coisa complica-se quando a gente examina a composição das tribulações. Meu Deus! Que lapso freudiano acabo de fazer! A minha cabeça queria escrever "tripulação", mas_ meus dedos escreveram "tribulação" ... Com quem estará a verdade? Com a cabeça ou com os dedos? O futuro dirá ... O facto é que se consumam alianças que se acreditavam impossíveis: lobos pastando erva com cordeiros, gaviões chocando ovos de relinchas, antigos piratas abraçados e pacíficos navegantes ... Coisa complicada é a democracia, fácil de ser louvada, difícil de ser executada. No final de contas, o ideal da democracia entra pelo esgoto. O facto é que os eleitores nem sabem o que está a acontecer e nem sabem quem é quem. O que eles sabem são as montagens que aparecem na televisão, produzidas segundo a psicologia das massas, a mesma que se usa para vender cerveja, sabão em pó e absorventes higiénicos. Aquilo que o povo sabe é o que as imagens produzidas mostram. O resultado das eleições vai ser, na realidade, a entrega do "Óscar" ao melhor filme: ganha o melhor actor, o melhor roteiro, o melhor director ... Cumpre-se o dito por Maquiavel: o que importa na política não é que o governante seja justo, mas que ele parece justo.

Rubem Alves

domingo, setembro 27, 2009

Eleições: Pelo menos uma coisa positiva...

Não houve maioria absoluta (fosse de um lado ou do outro). Apesar dos argumentos contra maiorias relativas por poderem ocasionar instabilidade governativa, para mim têm maior peso os riscos de maiorias absolutas para a democracia. Sobretudo quando um primeiro mimistro é arrogante e prepotente, parecendo não ouvir nada nem ninguém senão ele próprio. E o que tivemos durante toda a legislatura que hoje terminou foi (a meu ver), não digo um país em ditadura, mas foi um país como se tivesse partido único.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Regresso (mas devagarinho...)

Depois das minhas férias na praia, continuei em férias não só do meu blogue, mas de toda a blogosfera que frequento. De tudo precisamos de vez em quando de férias.

E este meu regresso vai ser ainda muito devagarinho, pois o clima político, mais ainda agora que começaram as campanhas eleitorais, não é propício aos motivos e conteúdos deste meu blogue.
Não é que não me interesse muito por política geral (pelo contrário, acompanho-a atentamente, interessada mesmo que desgostosa), mas simplesmente porque este blogue não foi pensado para isso. Ele foi criado pensando nos alunos, não em ebstracto, mas como seres concretos, cada um único, pensando na Educação e no Ensino lá no terreno, lá mesmo dentro de cada escola, pensando também no seu futuro quer pessoal, quer como cidadãos de cuja qualidade de formação tanto depende o futuro e o progresso do nosso país - o país em que viverão quando adultos e que progredirá ou permanecerá na mediocridade consoante a formação dos actuais jovens. Daí que também a política educativa é decisiva, por isso ela esteve muito presente neste blogue.
Mas, neste momento a política educativa está estagnada, num tempo de espera até ao futuro Governo no seu todo e, em particular, na decisão de quem será o próximo titular da pasta da Educação. Neste âmbto, o tempo até Outubro é um tempo de espera e um tempo parado no que respeita aos conteúdos deste blogue, que incluem a política para a Educação. E eu, como não farei aqui "campanha eleitoral", e nunca votei no PS e muito menos votaria alguma vez em partidos à sua direita (tenho a minha opção desde sempre), estou num momento em que não são oportunos os temas próprios do meu blogue.
Por tudo isto, o meu regresso por enquanto será para postagens e visitas a blogues espaçadas, pondo aqui apenas coisinhas soltas, abstidas da política ( a qual, aliás, mais que nunca me desgosta pois não vejo políticos elegíveis - sabemos com realismo que só há duas alternativas - que estejam à altura das responsabilidades, competência e seriedade de que o país necessita, e que me dêem confiança em que porão a preocupação pelo futuro deste e pelos problemas sociais acima dos seus interesses partidários ou de poder).

A terminar esta minha introdução ao meu (semi)regresso, deixo um trabalho no Scratch com que andei entretida ultimamente - trabalho que não foi nada fácil para mim que ainda pouco mais sou do que iniciante nesse programa.

Clicar na imagem para ver, e pôr o som alto

sábado, janeiro 24, 2009

Quando a desconfiança sufoca a esperança...

Não sou economista, portanto não tenho competência para avaliar correctamente a adequação de certas medidas com que o Governo se propõe enfrentar e vencer a actual crise (bem como de certas propostas que as oposições contrapõem). Não é difícil discernir diferentes opções ideológicas, mas já bem difícil é, para o cidadão comum, ajuizar sobre determinadas medidas concretas do domínio da economia, tomadas ou preconizadas em nome dos superiores interesses nacionais face à mesma crise. Por isso, seria importante poder ter confiança não só no saber e na competência daqueles que decidem (ou se candidatam a decidir), como também na sua vontade de sobrepor às lutas pelo poder os interesses, o progresso e o bem-estar dos portugueses. O problema é que essa confiança não se sente, e até me parece que, estando-se numa crise internacional, Portugal tem a infelicidade acrescida de tal acontecer em ano de eleições.
Ouço discursos gritados (tenho a sensação de que o 1º Ministro José Sócrates só fala a gritar, não sei se por pensar que as audiências são surdas, se por problema próprio de surdez); vejo obsessiva propaganda de sucessos conseguidos, muitos dos quais mais não são do que sucessos balofos; ouço e vejo também certas oposições que igualmente se movem demagogicamente rumo às eleições; sinto, enfim, a desconfiança a sufocar a esperança - essa esperança em que persisto a longo prazo, mas que não é cega perante as realidades que se perspectivam a curto e mesmo a médio prazo.
Eu até já nem sonho com alternativas em que me reveja ideologicamente, já me fico pela pergunta: onde estão (se é que estão nalgum lado) homens (e mulheres), sejam de que quadrantes forem, capazes de, com saber, visão estratégica, transparência e humanismo, governar este nosso país merecendo ganhar as eleições seguintes, e não governar para as ganhar.

Mas isto são conversas minhas com os meus botões em dias em que ouço e leio notícias, das mais variadas, sobre jogos de poder - também de poderzinhos a todos os níveis.
______
Adenda
No Público de hoje vem um artigo de Manuel Alegre cujo começo vem a propósito: «A moção de José Sócrates ignora a descrença e insegurança de grande parte do eleitorado».
Não estou a fazer "campanha" por Manuel Alegre, apenas me apeteceu deixar aqui três destaques (podendo ler-se todo o artigo aqui, já que só é acessível online a assinantes)
- « Não há uma análise da importância da cultura, da língua e da história para um novo modelo de desenvolvimento de Portugal. As questões geo-estratégicas também são omissas. Não se fala de paz nem de guerra, nem das desigualdades no mundo.»
- «Na parte da moção intitulada "A acção do PS", fala-se sobretudo da acção do Governo. E transmite-se a ideia de um partido contente consigo mesmo. Enunciam-se as reformas realizadas. Se algumas delas correspondem de facto a um avanço na sociedade portuguesa (...), outras, em meu entender, representam um retrocesso (...)»
- « Falta uma ruptura com a cultura do poder pelo poder, que leva ao afunilamento do Partido Socialista e à ausência de debate.»

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Pausa (mas para, a seguir, continuar)


Bom fim de semana!


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Pela necessidade com que ando de ter fins de semana em que a mente relaxe com "aragens leves e frescas" e coisas simples, teria feito a pausa na escrita depois do penúltimo post se não tivesse visto o desafio divertido sobre manias. Entretanto, penso tentar dar o meu ínfimo contributo para a discussão, após a pausa do fim de semana, trazendo da caixa de comentários para primeiro plano excertos do que já nela foi escrito, se for capaz de uma certa síntese - nisso pensarei na altura.
O que quero para já salientar é que não escrevi como quem pensou prolongadamente e chegou a alguma conclusão, mas sim como o começo (sublinho COMEÇO) de que tenho andado a sentir necessidade pessoal para, a partir de uma ponta, tentar prosseguir devagarinho algum fio desbaralhado e coerente.
Eliminar ou evitar confusões não clarifica, por si, o caminho. A função do professor e a função da escola no tempo actual constituem, no seu conjunto, uma questão bastante complexa, que requer estudo e contributo de muitos saberes, mas uma questão complexa é uma coisa, confusões prévias sobre ela são outra. Além de que não é uma questão resolúvel isoladamente de outras, as políticas governamentais (e também a participação de todos os elementos intervenientes na sociedade) não podem ser vistas como que atribuídas a pelouros a que coubesse, a cada um deles, tricotar o seu quadrado de lã para uma manta de retalhos e depois pretender-se cosê-los a dar o aspecto de uma política global.
E, acrescente-se, as confusões podem ser o meio conveniente para os governos (e não só) quando estes não têm a vontade política necessária, ou não são capazes de resolver as questões prioritárias, ou simplesmente não podem (até incluo esta hipótese benevolente, o que não admito é que deitem poeira para os olhos do país ou queiram fazer da escola o bode expiatório dos males daquele).
Em suma, no post de 5ª feira, eu comecei a escrever apenas na necessidade pessoal de proteger a minha mente de confusões. A minha neta, por vezes, ao brincar na minha salinha de trabalho, ocasiona que eu tenha que fazer o percurso desta para a cozinha com cuidado para não tropeçar nas suas construções de brincar, para não me desequilibrar ao saltar por cima delas ou para não as deitar ao chão. Mas isso é ocasional, o normal é ir sem me deparar com e precaver de "confusões" no caminho, porque o que tenho a fazer não é atingir a cozinha, é sim preparar nela um jantar para os netos (quando se trata deles) saudável, de que gostem e não fique estorricado. E trata-se só desse pormenor do jantar, não se trata de cuidar da saúde e bem estar dos portugueses TODOS nem de diligenciar para que o futuro das nossas crianças e jovens não fique estorricado.