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sábado, outubro 08, 2011

Mia Couto recebe prémio Eduardo Lourenço


Embora Mia Couto já tenha sido galardoado com vários prémios literários, li a notícia e vim direita aqui ao meu cantinho. Porque Mia Couto e a sua obra literária fascinam-me.
E, enquanto o novo acordo ortográfico me exaspera, sabe-me bem recordar como Mia Couto, ao contrário de desvirtuar a Língua Portuguesa, mas usando tanto o léxico de regiões moçambicanas, a enriquece, como que a recria de uma forma  extasiante.




Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato
morro
no mundo por que
nasço

Setembro de 1977. In Raiz de Orvalho e Outros Poemas, Ed. Caminho, 1999

sábado, abril 24, 2010

Maravilhosa Biblioteca Itinerante

Não há carros? Muito menos novas tecnologias? Mas as crianças adquirem gosto e hábitos de leitura...



Com o meu agradecimento ao Francisco

terça-feira, março 23, 2010

Das minhas leituras

João Negreiros - uma minha descoberta recente...




intervalo

o ar é mais doce nos intervalos da água
mas para o peixe a água é mais doce nos intervalos do ar
mas para o peixe de água doce a água é mais doce nos intervalos do mar

João Negreiros in obra citada

domingo, dezembro 27, 2009

Minha prenda de Natal para mim própria

A menos de duas semanas do Natal, descobri na WOOK um livro que procurava há algum tempo: uma colectânia de poesia portuguesa que fosse bastante completa. E eis que vejo esta Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, prefaciada por Vasco Graça Moura.
Ao fim de quatro dias tinha-a em casa, mas guardei-a sem abrir para pôr junto da minha árvore de Natal, pois uma pessoa tem o direito de oferecer também uma prenda a si própria!
São 2095 páginas, mais um índice alfabético de autores e um extenso índice geral por ordem cronológica dos mesmos.

Comecei por procurar Eugénio de Andrade (54 poemas).


No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

(Ofício da Paciência, 1994)


Também já contei os poemas de Fernando Pessoa e Heterónimos (cerca de 130) e os da Sophia (31).

sábado, novembro 21, 2009

Que bom o YouTube fazer esta publicidade!

É a minha sugestão de prenda de Natal para pré-adolescentes e adolescentes que não tenham lido o Principezinho. (Para adultos também, mas que adulto dos nossos conhecidos não o terá lido?)

segunda-feira, junho 30, 2008

Apenas o prazer de ler

Acabo de ler o último livro de Mia Couto. É sempre uma delícia e um fascínio. Sempre que leio um livro de Mia Couto, acontece-me com frequência ir parando, não sei bem se a repetir, se só a contemplar as palavras. Como se o seu sentido fosse mágico, ou me hipnotizasse. Como aqui:

A casa só é nossa quando é maior que o mundo.

E há as palavras que (re)inventa e parecem imprescindíveis, insubstituíveis.
E há também, por vezes, como que um brincar com os ditos da nossa língua, fazendo deliciosamente sorrir. Como aqui:

Depois, calou-se pelos cotovelos.

Não é a primeira vez que aqui refiro uma obra de Mia Couto, que, nos últimos anos, se tornou um escritor enorme. Mas trago-o ao meu cantinho não para falar dele - não é preciso -; trago só uma emoção que a sua leitura me causa.

quinta-feira, março 01, 2007

Quimeras (Leituras soltas que de repente me apetece vir registar)

(Trechos soltos, versos soltos, pensamentos soltos, metáforas soltas, memórias soltas... Começo a descobrir que ganhei tendência para coisas soltas ao acaso - mas o meu pensamento lá sabe que não é por acaso que se detém nelas...)

Sous un grand ciel gris, dans une grande plaine poudreuse, sans chemins, sans gazon, sans un chardon, sans une ortie, je rencontrai plusieurs hommes qui marchaient courbés.

Chacun d'eux portait sur son dos une énorme Chimère, aussi lourde qu'un sac de farine ou de charbon, ou le fourniment d'un fantassin romain.

(...)

Je questionnai l'un de ces hommes, et je lui demandai où ils allaient ainsi. Il me répondit qu'il n'en savait rien, ni lui, ni les autres; mais qu'évidemment ils allaient quelque part, puisqu'ils étaient poussés par un invincible besoin de marcher.

(...)

Et le cortège passa à côté de moi et s'enfonça dans l'atmosphère de l'horizon, à l'endroit où la surface arrondie de la planète se dérobe à la curiosité du regard humain.

Et pendant quelques instants je m'obstinai à vouloir comprendre ce mystère; mais bientôt l'irrésistible Indifférence s'abbatit sur moi, et j'en fus plus lourdement accablé qu'ils ne l'étaient eux-mêmes par leurs écrasantes Chimères.

Charles Baudelaire, Chacun sa chimére.
('Poema em prosa' que pode ler-se na íntegra aqui, por ex.)

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Pois... mais virada para leitura do que para escrita.

Fechei a última página de A Varanda do Frangipani, de Mia Couto, que li quase de uma assentada.

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"Foi então que uma explosão se tremendeou pelo forte, parecia o mundo se fogueirava. Nuvens espessas escureceram o céu. Aos poucos, os fumos se dispersaram. Quando já tudo clareava sucedeu que, daquele depósito sem fundo, se soltaram andorinhas, aos milhares, enchendo o firmamento de súbitas cintilações. As aves relampejavam sobre as nossas cabeças e se dispersaram, voando sobre as colinas azuis do mar. Num instante, o céu ganhava asas e escoava para longe do mundo."

"Era a árvore do frangipani. Dela restava um tosco esqueleto, dedos de carvão abraçando o nada. Tronco, folhas, flores: tudo se vertera em cinzas. (............)
Recordei ensinamentos do pangolim. A árvore era o lugar de milagre. Então, desci do meu corpo, toquei a cinza e ela se converteu em pétala. Remexi a réstia do tronco e a seiva refluiu, como sémen da terra. A cada gesto meu o frangipani renascia."

"_Espere, eu vou consigo, meu irmão.
Era Navaia Caetano, o velho-menino. (...)
Segurei a sua mão. Mas então reparei que ele trazia, a tiracostas, o arco de brincar. Lhe pedi para que deixasse fora o inutensílio. Lá os metais eram interditos. Mas a voz do pangolim me chegou, corrigente:
_Deixe o brinquedo entrar. Este não é um caso de última vez..."

____________
Me perdoe Mia Couto (que, na minha humilde opinião, é um grande, acho que me atrevo a dizer um enorme escritor) por usar excertos* retirados subjectivamente do contexto do último capítulo (e mais ainda do contexto de todo o livro), mas não os uso como marcas desta obra, retiro-os pelo último pensamento que ficou em mim, sempre tão pessoal da parte de cada leitor.
E antes de o pensamento regressar ao quotidiano, despeço-me da árvore perfumada que renasce de monte de cinzas e também das andorinhas que saiem voando de abismo que engoliu armas - quanto ao arco de brincar, há muitos sótãos que guardam brinquedos de infâncias longínquas...
(Mas não me despeço de A Varanda do Frangipani, esse fica comigo ao lado de outros, belos também)
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* Excertos: pp 149; 150, 151; 151, 152 (Ed. Caminho, 8ª edição)

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Outras leituras:
Porque nem se trata de obra literária, nem é temática dentro dos assuntos deste blogue, não deixo aqui o link para uma entrevista com Arno J. Mayer - é já de 2002, encontrei agora -, interessantíssima (a meu ver), que li de um fôlego. Mas deixei o link ali.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Alternativas...

Como o dia em que a minha neta tirou o gesso da perna era de festa para ela, arranjei um bocadinho para ir, numa corrida, levar-lhe uma prenda especial - um livro oferecido pela própria autora. E li-lhe um dos "Provérbios Despenteados" - ela já lê, mas devagar, quis ler-lho eu e ela riu e gostou (só tem sete anos, tem que ficar para mais tarde o gostar de outra maneira).

Filho de peixe
sabe nadar...


Mas se não souber
inventa umas asas
e aprende a voar

ou afina a voz
e põe-se a cantar


ou sai do provérbio


pega na mala
apanha boleia


e vai viajar!
Teresa Martinho Marques

quarta-feira, novembro 02, 2005

Pequenos tijolos que também fazem alicerces

Estou a ler o livro de memórias de infância de Alice Vieira (Bica Escaldada, 2004, Ed. Casa das Letras). Apeteceu-me registar o que, em dois dos contos-memórias (cada um com pouco mais do que uma página), me causou uma associação de ideias... nas diferenças com o Hoje - associações que me acontecem ao ler um conto não lendo nele apenas e à letra o que conta, mas lendo-o como que uma metáfora.

Em O Anjo, a autora conta que a avó Ana, que nunca fora à ecola, um dia, passava ela já dos 70 anos, anunciou, no silêncio de uma refeição: "_ Apareceu-me um anjo esta noite. (...) _ O anjo mandou-me aprender a ler." E prossegue Alice Vieira, um pouco adiante: "Nunca mais voltou a falar do assunto, que as mulheres nunca repetiam uma ordem ou um desejo: o que se dizia uma vez, dito ficava. Ela própria se encarregou de arranjar uma professora. (...) Se o anjo voltou a ter interferência na aprendizagem da avó Ana, não se sabe nem ela o disse. Sabe-se apenas que a avó Ana aprendeu a ler e a escrever no espaço de um mês. _ Foi o anjo - era a sua única explicação" E a autora termina logo a seguir o conto, assim: "Dizem que, desde essa altura, um anjo passou a velar pelos destinos das mulheres da nossa família. Entre a comunidade celestial devemos gozar da fama de sermos exemplarmente obedientes."

Em Cheiros Perdidos, Alice Vieira lembra o tempo "em que as coisas cheiravam àquilo que eram", os cheiros genuínos das maçãs, dos morangos, do pão, dos soalhos das casas... . Refere como as nossas casas hoje cheiram aos ""purificadores do ar"" que prometem vários aromas e "se ficam todos pelo mesmo odor plastificado a coisa nenhuma que, como toda a gente muito bem sabe, é o pior cheiro que existe à face da terra" (Sublinhado meu). E, quase no final do conto: "Acreditem que eu até tenho saudades do terrível sabor do óleo de fígado de bacalhau (antes de ele ter sido adocicado para os paladares das sensíveis crianças dos nossos dias), do azedo genuíno dos primeiros iogurtes (...) e da intragável canja de galimha, à qual, antes de partirmos para a praia, a tia Clara juntava o então indispensável óleo de rícino. Aquilo sim, aquilo eram sabores a sério, puros e duros. Aquilo (...) formava o carácter de uma pessoa."