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terça-feira, julho 01, 2008

Recordando uma canção

Há dias, como agora, em que preciso de me lembrar das flores, de falar delas, de acreditar nelas. Assim neste cantinho quieto, que não é só para pensar na Educação, é também um lugarzinho só meu.

Gosto muito desta canção. Tinha-a em vinil; depois vieram os cds, procurei-a, mas nunca encontrei nova gravação à venda. Até que, um dia, um amigo ma enviou em mp3 (eu ainda não conhecia o Emule e outros meios de obter músicas na net).
Já a deixei algures neste cantinho, mas agora, com o YouTube, (quase) tudo se encontra em vídeo.

É uma canção datada? Pois é, mas nunca há data para acreditar nas flores.
Como também nunca há data para dizer:

Quem sabe faz a hora não espera acontecer
Vem, vamos embora que esperar não é saber


Geraldo Vandré: Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores...


sábado, junho 14, 2008

Até logo! (E cuidem dos vossos jardins!)

Pausa para o dr. cirurgião me libertar de um percalço de há dez meses atrás. Mais uma operação delicada, mas trivial e sem nada de maligno.
Não é meu jeito trazer para aqui estas coisas de vida particular, mas em Setembro passado houve amigos que andaram preocupados com o meu desaparecimento da blogosfera e não resposta a emails, pelo que, como desta vez não é coisa imprevista e súbita, acho melhor dizer. Mas é coisa para ficar inteirinha e de boa saúde ;)

Entretanto, já que durante este tempo também criei e cuidei um jardim na minha varanda, deixo algumas das minhas flores a embelezar o cantinho. A jardineira é ainda muito inexperiente e as suas flores são vulgares, pois outras menos comuns esperam por melhor sucesso. Mas... ora! Todas as flores são bonitas!



_ Ó Isabel! Vais deixar aqui esses vasos simplórios?! Depois das flores tão lindas que alguns colegas teus mostram dos seus jardins?!
_ Mas estas são as minhas!!! E só não mostro mais vasos, porque começaste a troçar! Que coisa... era o que faltava uma pessoa não poder ter um jardim lá porque só tem uma varandinha num sétimo andar!!

_______

Adenda

«Menino, os jardins eram o lugar da minha maior felicidade. Dentro de casa os adultos estavam sempre a vigiar: "Não mexa aí, não faça isso, não faça aquilo...". O Paraíso foi perdido quando Adão e Eva começaram a vigiar-se. O inferno começa no olhar do outro que pede que eu preste contas. E como as crianças são seres paradisíacos, eu fugia para o jardim. Lá eu estava longe dos adultos. Eu podia ser eu mesmo. O jardim era o espaço da minha liberdade. (...) No pé de nêspera fiz um balanço. Já disse que balançar é o melhor remédio para a depressão. Quem balança torna-se criança de novo. Razão por que eu acho um crime que, nas praças públicas, só haja balancinhos para crianças pequenas. Há-de haver balanços grandes para os grandes! Já imaginaram o pai e a mãe, o avô e a avó, balançando? Riram? Absurdo? Entendo. Vocês estão velhos. Têm medo do ridículo. O seu sonho fundamental está enterrado debaixo do cimento. Eu já sou avô e me rejuvenesço balançando até tocar a ponta do pé na folha do caquizeiro onde o meu balanço está amarrado!"

Rubem Alves (2004). Gaiolas ou asas. Edições Asa, pp 71-72

Não posso, nem me atreveria a pôr um balouço na minha varanda. Mas RA anima-me a lembrar o que "está enterrado debaixo do cimento" para, quando voltar, ir recuperar um equivalente ao balouço das crianças. ;o)

quarta-feira, maio 07, 2008

Pequenos poemas que me tocam depois das memórias

Eu e os "meus" haikus... Mas eles exprimem momentos, estados de espírito... E eu fico assim como que sem presente quando escrevo memórias de professora... memórias de um tempo que já só é passado...

Mando embora a tristeza, mas, primeiro, preciso destes pequeninos poemas que a expressam...

sementes de algodão
agora são de vento
as minhas mãos

Nenpuku Sato

Dias que se alongam —
Cada vez mais distantes
Os tempos de outrora!

Buson



Este caminho!
sem ninguém nele,
escuridão de outono.
Bashô

quinta-feira, maio 01, 2008

Chega um tempo...

Um poema, enquanto tento parar o tempo. Tempo para reencontrar um fio; tempo para preencher vazios; tempo à deriva; tempo ferido; tempo, só tempo.

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade, Os Ombros Suportam o Mundo

quinta-feira, abril 24, 2008

Saturação... tédio... vazio...

...de ligar a televisão, de abrir o jornal, e mais a avaliação que professores querem e não querem, e etc. e tal.

Já só leio os títulos, de tanto que se escreve, uns a dizer o mesmo, outros a dizer outro mesmo.

(Hoje devo ter acordado mal disposta, queiram desculpar-me. Se calhar foi por ter acordado com a rádio a falar da ratificação do Tratado de Lisboa...)


___

No campo queimado
ainda uma leve fumaça
Tronco resistindo

Eunice Arruda


___

Rosto no vidro
uma criança eterna
olha o vazio


Alphonse Piché
Tradução de Carlos Seabra

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Momentos meus... Deixo só...

...dois dos "meus" haikus

Doente de viagem,
meus sonhos vagueiam
pelo campo seco.


Bashô
Eu e meu aquecedor —
Lá fora o Senhor do Feudo
Passando ensopado.

Issa

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Ei!

(…)
Ei você,
Não os ajude a enterrar a luz
Não se entregue sem lutar
(…)
Ei você,
Não me diga que não há nenhuma esperança
Juntos nós resistimos, separados nós caímos




(Sou do tempo dos discos de vinil. Se calhar estou desfasada nisto dos 'tempos' ao deixar essa tradução acima. Mas... pronto, apetece-me deixar a canção.)




In YouTube: "Hey You - Pink Floyd (Vinyl Recorded)"

domingo, fevereiro 03, 2008

Carnaval...

Os alunos estão em férias de Carnaval. Portanto, nas escolas é período de Carnaval.

O Sr. Presidente da República, interpelado pelos jornalistas sobre uma determinada notícia e recusando comentá-la, acrescentou que estamos em dias de nos distrairmos, de deixar preocupações para aproveitarmos os dias de Carnaval (não foram exactamente estas as palavras, não as anotei, mas o sentido foi esse).

Fiquei a pensar cá com os meus botões que, então, devemos fazer umas feriazinhas nas preocupações com a Educação. Mas senti-me um tanto perplexa... É que eu julgava que o nosso querido Ministério da Educação tinha instituído o carnaval na Educação para o ano todo!

Bem... devo andar confusa...


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Pronto... Volto-me para a arte (mas confesso que não escolho ao acaso)...



M. Cassatt (1873). On the Balcony During Carnival

W. Homer (1877). Dressing for the Carnival

sábado, novembro 03, 2007

... (Poema *)

A hora do cansaço

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade


_______________

* Foi-me facultado pela Amélia Pais

quinta-feira, julho 05, 2007

...


____
In Albano Martins (1995). Com as Flores do Salgueiro. Homenagem a Bashô. Ed. Universidade Fernando Pessoa.

quinta-feira, abril 19, 2007

Momentos...

Lembro-me ou não ? Ou sonhei ?

LEMBRO-ME ou não ? Ou sonhei ?
Flui como um rio o que sinto.
Sou já quem nunca serei
Na certeza em que me minto.

O tédio de horas incertas
Pesa no meu coração,
Paro ante as portas abertas
Sem escolha nem decisão.

Fernando Pessoa, Poesias Inéditas


___________________

Feodor Vasilyev. Maré.

sábado, março 17, 2007

E já que falei da matemática...

[Quatro posts seguidos a falar dela... mas que coisa! Pois agora, para mais um fim de semana prolongado do meu cantinho - ou pretexto para intervalo -, deixo um pensamento ainda sobre a matemática ;)]

"A Matemática pura é, à sua maneira, a poesia das idéias lógicas.”

Albert Einstein               


sexta-feira, março 09, 2007

Deixando um poema (e votos de bom fim de semana)

Hoje, não só o poema, também a voz do poeta.
(Memórias soltas, poemas soltos, enfim... as coisas soltas deste cantinho...)

Memória


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Memória (voz do autor)

sábado, novembro 18, 2006

Bom fim de semana e... semana paciente e perseverante a seguir ;)

O quadro que deixo faz-me bem... na tranquilidade da natureza, o meu pensamento detém-se na fonte e inventa-lhe simbolismos. (Às vezes suspeito que o meu pensamento é um caso perdido, mas não vou preocupar-me com suspeitas, até às provas deixo-o andar em liberdade)

Feodor Vasilyev ( 1872). A Fonte.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Derrapando sobre versos de um poema (Momentos passageiros)

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?


Carlos Drummond de Andrade. José.

terça-feira, outubro 24, 2006

Voltando sempre a... utopia e realidade.

De escritos meus, este cantinho continua em intervalo (depois contarei como a falta de horários obrigatórios pode gerar o caos na organização do tempo e... falta de horas suficientes em cada dia, numa incoerência - pelo menos aparente - com a quase total ausência de obrigações!!!)
No entanto, não gosto de ter este cantinho em prolongado silêncio, por isso venho deixar dois poemas da Sophia de Mello Breyner Andresen. Porque ontem, antes de adormecer, apeteceu-me reler um pouquinho dela e um poema estava a mover-me a pô-lo aqui, mas... logo quatro páginas adiante, outro pequenino fez-me desistir. Hoje, acabei por optar por pôr os dois.

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

(A Forma Justa)


Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos

Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga


(Poema)

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Duas faces da mesma moeda...

... crença versus realismo?

Num dia, neste cantinho, a metáfora continha a crença...




Juntos,

um homem e a brisa

viram uma página


Betty Drevniok


Claude Monet (1873), Sunrise


Noutro dia, continha o realismo...



Lua cheia!
Por mais que caminhe,
O céu é de outro lugar
.

Chiyo-jo



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Nesta semana, o meu estado de espírito pende mais para cansaço de caminhar.
Talvez seja porque sou uma preguiçosa para andar a pé e nem me tenho metido no carrito para ir olhar ao menos a lua cheia [riso, que sempre vou conseguindo fazer humor comigo mesma] . Mas, já que à 5ª feira às 18.30 entro em fim de semana, pelo sim, pelo não, é melhor não me fiar na capacidade de humor e deixar este cantinho quieto para organizar um fim de semana propício a essa crença mais acima... então o Homem não há-de parar de fazer besteiras e começar a virar a página? Os cientistas dizem que ainda só aproveita uma parte do cérebro... não sei é o que lhe dará para fazer se vier a conseguir aproveitá-lo todo - não me parece que seja propriamente o céu, tal oportunidade deixou-a perdida algures no tempo.
(Decididamente, a mim é que só me saiem hoje besteiras, devo ter batido com a testa nalgum pensamento que me fez um "galo"... desejo já a todos bom fim de semana e vou ver se encontro gelo para o galo)