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sexta-feira, novembro 18, 2005

Contrastes

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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A fuga

Mário Eloy Pereira

segunda-feira, outubro 17, 2005

...





No escuro da noite
o sol
aguarda a sua vez.

Mésseder












William Glen Crooks, As the Sun Rises

ADENDA

Não imaginava que isto de ter um blog viesse a ser benéfico ao meu estado de espírito. Pensamentos e reacções que saiem de momento vão não só encadeando-se, vão também repensando-se, num pensar escrevinhando. E a verdade é que poetas de poemas que não saberia escrever ou pensar, e mestres da pintura que não saberia pintar, me vão permitindo também uma espécie de fala metafórica apenas de mim para mim, libertadora de estados de espírito menos positivos que inevitavelmente me causam as situações dentro das quais vivo constantemente como profissional, e também como cidadã num país e num mundo. Cada um só tem um momento de vida para viver, por isso é natural que se viva muitas vezes o presente como se fosse tudo - passado, futuro, até História -, e que o que nos afecta tenda a tornar-se o centro, reduzindo-nos a capacidade de reparar nas flores, no olhar das crianças, nas coisas bonitas que serenam, bem como nos processos dialécticos por que passa o evoluir, enfim, nesta coisa toda que é a vida, cada geração com muita gente a ter sonhos mesmo que sejam só para que o mundo pule e avance para os netos e bisnetos.

sexta-feira, outubro 07, 2005

...

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, setembro 23, 2005

Vestígios

Joan Miró (1918), The Waggon Tracks

Aonde irei neste sem-fim perdido,
Neste mar oco de certezas mortas? —
Fingidas, afinal, todas as portas
Que no dique julguei ter construído...

Mário de Sá-Carneiro, Ângulo (extracto)

sexta-feira, setembro 16, 2005

Assim não está a dar!

Lembro-me de me sentir sufocada neste país (já era adulta).
Porque estou hoje a sentir o ar irrespirável?
Afinal, O Poder agora é dado por regras democráticas... faz parte dessas regras o risco de ser dado ao Engenheiro Posso, Quero e Mando.
Há que procurar os locais respiráveis, mas como a escola tem um portão que não a protege, estou mesmo a precisar de 2ª feira... da minha sala de aula. (Claro, também está na escola, mas tem estado de porta fechada, não está contaminada)

terça-feira, setembro 06, 2005

...



Em seus caramujos,
os tristes sonham silêncios.
Que ausência os habita?

...

A vida bloqueada
instiga o teimoso viajante
a abrir nova estrada.

In: KOLODY, Helena.(Antologia, 1999)

Paul Cezanne (1902-06), Route tournante en sous-bois

terça-feira, agosto 30, 2005

Hora de intervalo

Tú querías que yo te dijera
el secreto de la primavera.

Y yo soy para el secreto
lo mismo que es el abeto.

Árbol cuyos mil deditos
señalan mil caminitos.

¡Ay! No puedo decirte, aunque quisiera,
el secreto de la primavera.

Federico García Lorca

sábado, agosto 27, 2005

Calma

Domingo
Andava também a esquecer que, mesmo quando parece parado, o mundo pula e avança (até porque não se extinguem os homens que sonham) ;)



Imóvel,
o barco.
No entanto, viaja.
Yeda Prates Bernis


Claude Monet (1887), La Barque

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Sábado
Ando a esquecer que "a História nunca parece História quando a estamos a viver".
Vou aproveitar o último fim de semana das férias...

Calm

(Foto de Marc Appezzato)

sexta-feira, agosto 26, 2005

Porquê?

Porque temos sempre a esperança com cerca??
Porquê também a mediocridade consegue ser ditadura?



...Neste país do pouco. Neste país do pouco.
(Manuel Alegre, 1981)

quarta-feira, agosto 17, 2005

Caminhar, sonhar e voar




"Os pés ... caminhos para seguir sempre; o professor e os alunos ... o sonhar e voar constante necessário à nova escola."





Mural cerâmico modelado pelos alunos
numa escola modelo no estado de Paraíba, 2002/2003
Centro Estadual de Ensino-Aprendizagem Sesquicentenário

terça-feira, agosto 16, 2005

Do saco de viagem

Da cidade, passei a ponte para a montanha... as árvores... o rio. Também para outras gentes, que nos cruzam sem nos conhecerem e nos dizem bom dia.
Como disse abaixo, já pendurei em casa os ambientes que a memória trouxe no saco de viagem.
IC
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Jamais levaria para estas férias leituras sobre escola, excepto quando a leitura antes começada é de narrativa divertida (oportuna também). Por isso, entre os livros de férias, levei o Diário da Stôra Lili.
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Música, levei só em português. Não de Portugal... deve ter sido um acto falhado, o trauma do deficit já me faz ver deficit em tudo.
E, não só pelo deficit, como podia este país ser agora uma canção?

Mas...
Eu sei que há momento
que se casa com canção
(Bethânia)
E...
Já murcharam tua festa, pá,
mas certamente
esqueceram uma semente
nalgum canto de jardim.
(Chico)
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P.S. São apenas simbólocos os ambientes de férias que tenho deixado aqui. Para reparar nas coisas simples e na poesia que falta. Também para a serenidade de olhar os momentos agitados na perspectiva dialéctica de ser o progressivo e inevitável desiquilíbrio até à ruptura que sempre foi a condição para a mudança qualitativa e o progresso, e para a serenidade de nos sabermos num processo longo com a certeza (ou esperança) de que há luz no fim do túnel, ainda que demasiado longínqua para a vislumbrarmos no nosso presente.

quarta-feira, julho 27, 2005

Ambientes de férias

(...)
Uma fada madrinha e um duende na mesa ao lado no café
(...)
(Constantino Alves)

Vincent van Gogh (1888), Terrasse du café le soir
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Preso na cascata
um instante:
o verão.

Matsuo Bashô


Thomas Moran (1905), Cascade Falls

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Curiosity


Bryce Brown

(...)
Tenho nove anos professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!
(...)
Alice Gomes

sexta-feira, julho 22, 2005

Pausa??

Nicole Parigo

(...)
Um pouco mais de brasa. Ou se preferem
(como diria Mário Sá-Carneiro)
um pouco mais de golpe de asa. Pois falta ó Breton
um amor louco (laico e louco).
Neste país do pouco. Neste país do pouco.

(...)

Pois falta aqui o verbo ser. E sobra o ter.
Falta a sobra e sobra a falta. Ó proletários da tristeza
falta a ciência mais exacta: a poesia.
E há muito já que um poeta disse: É a Hora.
Neste país de aqui. Neste país de agora.

Manuel Alegre, 1981

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E o essencial não muda com o mudar dos tempos... Torna-se um lugar comum...
Como em qualquer outro país, entre nós o problema essencial do sistema de ensino é o político. (Rui Grácio, 1973)


blogosphere



Pus a discussão em férias, mas os passeios pela blogosfera docente atraem-me para interrupções nas minhas pausas ;)


sábado, julho 16, 2005

E pronto...

... encerro exames... resultados... réus e mais réus... passando pela poesia oriental do hai-kai sem precisar de sair dos nossos poetas.

Pensar incomoda
como andar à chuva
quando o vento cresce...
(Alberto Caeiro)

(Andô Hiroshige, 1797-1858)

terça-feira, julho 05, 2005

Metáforas poéticas


A nuvem atenua
O cansaço das pessoas
Olharem a lua.
(Matsuo Bashô)
Posted by IC 11:10 PM

Com o deficit e outras coisas bem pouco poéticas que nos rodeiam, opto por me lembrar também de um nadinha de poesia - em formato mini, são só uns haikus...
Imóvel,
o barco.
No entanto, viaja.
(Yeda Prates Bernis)

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É muito silêncio
enquanto as flores não crescem
e os poetas dormem.
(Eolo Yberê Libera)
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Para onde
nos atrai
o azul?
(Guimarães Rosa)

terça-feira, junho 28, 2005

"Chega mais para perto"

Pedimo-lhes que equacionem, que demonstrem, que expliquem por expressões matemáticas, e surgem respostas que do princípio ao fim estão matematicamente erradas. Temos que passar um risco vermelho, pois o exame é mesmo de Matemática... apesar de haver aquela questão ainda difícil para os 14 anos.
Ontem um colega ao meu lado dizia-me, face a uma "resolução" dessa tal questão: Eu não dou zero ao que leio por detrás disto!!
Não sei bem a que propósito (ou despropósito) me lembrei:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Chega mais para perto e contempla as palavras.
Carlos Drummond de Andrade
(Que o autor perdoe o recorte)