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quinta-feira, julho 14, 2011

Silêncio... não perturbar...

Meditation

Simone Martini (1312-1317), Meditation

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ADENDA POSTERIOR
Comentário do Professor Álvaro Gomes, que, com o meu agradecimento, trancrevo para aqui pois foi escrito, alusivo a este post, numa posterior (mais actualizada) postagem minha.

«Presenteou-nos, há dias, a I. C. com um belíssimo quadro de Simone Martini. A ausência de comentários a uma obra-prima como aquela dever-se-á, quero imaginar, à meditação profunda que esse quadro em nós provoca. Permita-me, no entanto, I. C., que rompa este silêncio e, mesmo se com algum atraso, aqui venha agradecer-lhe aquele precioso brinde.

Primeiro, pela representação. Martinho, personalidade escolhida pelo pintor, acaso por ser seu homónimo (Martini), é aquela figura popular que está na base dos nossos “S. Martinho, castanhas e vinho.”, “Em dia de S. Martinho, vai à adega e prova o vinho...” ou o “Verão de S. Martinho”, etc. Mas nele assenta também a ideia de solidariedade, pois é uma das primeiras representações deste conceito. Conta a lenda que, ao ver um pobre, não lhe deu uma esmola: rasgou o seu manto a meio e partilhou-o com ele. Impressiva lição esta! Quem há, entre nós, que consiga partilhar, 'a meias', o muito ou o pouco que possui?
Ora, ao contemplarmos este quadro, o que verdadeiramente surpreende é aquele olhar, fechado mas sereno, em meditação profunda, estático e quase extático, num recolhimento alheio ao contexto que o envolve. E surpreende-nos tanto mais, quanto uma das marcas mais impressivas deste pintor é, para quem conhece a sua obra, a força expressiva que ele imprime ao olhar das suas personagens, que exibem, genericamente, olhares vivos (directos, uns; oblíquos, outros), mas de uma força interior que marca e toca, vivamente, quem as contempla...

Depois, pela substância. A meditação parece ser a força daquele olhar que se recolhe, se alheia, se interioriza... numa espécie de som do silêncio, de que, contraditando algumas tecnocracias da moda, nós falávamos em obra já longínqua. “Um educador – escrevíamos – é aquele que, por excelência, sabe criar momentos de silêncio profundo, nos seus alunos. [...] É nesses momentos de assombro que a sua acção vibra neles, em ressonâncias sentidas de uma comunicação ímpar, de uma comunicação única, de uma comunicação irrepetível.” [In Á. G. (2000). Do Som do Silêncio. Lisboa: Didáct. Editora, p. 97.]”
Ora, a palavra meditação tem muito a ver com a ideia de avaliação. Ambas são palavras oriundas da medicina. Ambas têm a ver com a saúde. Com efeito, se meditação (*i-e. med-) é cognata de medicação, médico, medicina, medicamento, mezinha..., a avaliação (*i-e. val-) é, por seu lado, cognata de valer, convalescer, válido, inválido, valência, validar, valimento, valioso, valor, valorizar...
É, pois, de saúde, de vigor, que falamos: saúde biológica, saúde institucional, saúde política.


Por fim, pela essência e pela fragrância. Este Martinho, de barba já grisalha, era um amadurecido bispo [em grego, [epi]scopein significa ver de cima, equivalendo ao latim [super]videre – com idêntico significado; cf. supervisor); paradoxalmente, neste quadro, se bem que ostentando os sinais exteriores, Martinho “não olha de cima”; alheio, absorto e como que distanciando-se da sua condição, ele “olha para dentro”, em profunda introspecção, buscando os sinais interiores da sua humanidade.
Num tempo em que tanto se fala da avaliação externa (dos professores e dos alunos, mas raramente dos sistemas e dos políticos – nesses confia-se ou fia-se!), Simone Martini (1284/1344) convida-nos, há 700 anos!, à ponderação, à meditação, ao recolhimento, à auto-análise, ao exame interior...
E é para a urgência desta meditação interior, deste repensar, que, num tempo de decisões imponderadas e imponderáveis, de enxurradas mediáticas, da banalização de cursos, concursos ou discursos, Isabel Campeão etereamente nos convida e nos convoca, através do subtil e sublime quadro que nos propõe. Gratos lhe deveríamos ficar, por isso. Eu estou. Porque ‘este’ Martini é um grande aperitivo...

Á. G.
27/7/11 10:46 AM »

quarta-feira, março 23, 2011

Pensamento breve


Há duas maneiras
de governar:
pela força
ou pela farsa.
Glauco Mattoso














Michael de Ghelderode, Farsa

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

hasta que todo sea y sea canto






Adios, resbalan
Tantos adioses como las palomas
Por el cielo, hacia el Sur, hacia el silencio (…)
                                                                                                              Joan Miro (1918) The Waggon Tracks
  
(…)
y adiós,
hasta más tarde:
hasta más pronto:
hasta que todo
sea
y sea canto.

Pablo Neruda

  






      Paul Klee (1926), Reconstruction







segunda-feira, novembro 08, 2010

Momentos pensativos



Quando eu morrer, voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar

Sophia Andresen




                                                                                      Monet, 1888

domingo, junho 06, 2010

...

Desolação


Nas linhas das palmas das tuas mãos
foi escrito o destino do sol

Nasce,
ergue a tua mão -

a longa noite está a sufocar-me.


Cabul, Junho 1994
Partaw Naderi

Via Amélia Pais

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Um poema... momentos... pensamentos...

VOZES DE CRIANÇAS

O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste,
é uma teia de luz cansada
onde recordo quando iam dormir.
Ainda lhes leio naquele quarto,
debaixo da lâmpada ao lado da cama,
os contos com capas duras de cores brilhantes.
De súbito, em alguma madrugada,
ouço uma criança que me chama e incorporo-me,
mas não há ninguém, só um velho
que ouviu o rumor da memória,
um leve fragor de ar na escuridão
como se uma bala atravessasse a casa.
Ao apagar a luz guardava um tesouro.

Joan Margarit

(Via Amélia Pais)

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

...

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.

- Como quereis o equilíbrio?

David Mourão-Ferreira

sábado, dezembro 13, 2008

A estrada morta (Momentos com os 'meus' escritores)

Assim começa um dos livros de Mia Couto...

A estrada morta
Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir.
Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. (...)
(*)

(Talvez tenha sido só o título que se cruzou com a minha memória de uma estrada que já não percorro mas que olho afigurando-se-me a soterrar. Oxalá seja perturbação da minha visão. Meus pensamentos andam a fugir-me para o lado triste da(s) realidade(s), o melhor é libertá-los para dar espaço ao optimismo, que anda um tanto apertadinho, e a uma visão para além do 'hoje')
________
(*) Mia Couto (1992). Terra Sonâmbula. Editorial Caminho

quinta-feira, novembro 20, 2008

sexta-feira, setembro 05, 2008

Momentos... (E uma adenda)

Talvez O Vento Saiba

Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.

As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.

Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam
sequer em mastigar como bagaços.

Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.
Ivan Junqueira

(Mais um poema que devo à Amélia Pais )


ADENDA
Quando 'só vejo sobre a areia vagos traços', prefiro voltar a pôr o cantinho em pausa até que meus olhos fiquem mais sãos.
Talvez o poema não me tocasse tanto se eu tivesse menos anos, mas talvez também eu não fosse precisando apenas de umas pausas e este cantinho já estivesse demolido se eu não tivesse amigos com bem menos anos do que eu (e a blogosfera é um espaço onde também paira a palavra amigo e nos faz chegar palavras de amigos) que me ajudam a não me enredar e quedar nos sussurros do vento.