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sábado, junho 09, 2012

Gostar do professor - II

Creio que não tem sentido perguntar se um aluno gosta do professor sem uma pergunta prévia: O professor gosta do aluno?


Que impressão me causava ouvir um(a) colega dizer, num Conselho de turma, “não gosto nada dele(a)”! E, mesmo que disfarce, não há aluno que não “sinta”, para não falar daqueles alunos que, tendo baixo autoconceito, a investigação constata que tendem para grande desconfiança mesmo quando não é verdade que o professor não gosta dele.

Neste segundo post sobre o tema, propus-me focar o aspecto da exigência do professor quanto aos comportamentos: Os alunos gostam de professores não permissivos, e severos face a maus comportamentos, nomeadamente faltas de respeito?

A minha resposta é segura: Sim, gostam, mas com a condição de que constatem que o professor os respeita sempre e que gosta deles – costumamos dizer que se trata do professor que pune com uma mão (em sentido figurado, claro) tendo sempre a outra pronta a encorajar e ajudar.

Não me vou deter em relatos dos poucos casos em que um aluno me faltou ao respeito em toda a minha vida profissional. Mas não omito uma verdade: depois de ter tratado os casos com grande (muito grande!) severidade (e muito à minha maneira, indiferente quanto a sanções legisladas), esses foram dos alunos que mais ganhei em respeito e consideração. Porquê? Porque, por muitos erros que tenha cometido como professora, nunca a condição que referi acima faltou a um aluno meu, acho que isso era inato em mim.

Prefiro deixar o relato de um caso que tem muito a ver com a tal pergunta prévia: “O professor gosta do aluno?”

O M. começara o 5º ano, e eu não comecei da melhor forma com ele. Era pouco amigo do estudo e mostrava-se agressivo. Nas primeiras semanas, a nossa relação falhou, foi má. E o caso andava na minha cabeça.

Planeei então falar com o M. daquela maneira que às vezes usei – perguntas de chofre, frontais e com autenticidade.

Na primeira oportunidade em que o encontrei no recreio (íamos ter aula), detive-o e disse-lhe que tínhamos que falar. Comecei por dizer que a nossa relação não estava nada boa e, logo de seguida: “Não gostas nada de mim, pois não?” Lembro-me bem de que ele ficou hesitante, eu disse-lhe que podia ser sincero, que não ficaria aborrecida senão não perguntava, e o M. então respondeu “Não gosto muito...”. De imediato (eu cá tinha a minha ideia), perguntei: “E achas que também não gosto de ti, não é?”

Pronto, estava começada a conversa pelo lado que eu pretendia.

Já não recordo os pormenores dela, sei que lhe expliquei que não era verdade, que eu gostava muito de ser professora e gostava de todos os meus alunos, mas que tinha que ser severa com maus comportamentos, que isso não significava que não me preocupasse com todos e que estava a conversar com ele porque gostava dele e era preciso que ele colaborasse,….. enfim, terá sido mais ou menos isto.

Penso que basta contar o fim: Estávamos perto da sala de aula, a turma esperava à porta, e o M. disparou a correr para junto dos colegas : “A professora de matemática gosta de mim!” – ouvi-o repetir, aos saltos.

Diz-se que quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto. Mas não, não estou a ampliar nadinha. Isto foi há muitos anos, ficou na minha memória, e o M., que até é meu vizinho, ainda hoje é  meu amigo. Na altura, logo a nossa relação mudou, o M. nunca mais voltou a ser agressivo e tive nele um colaborador durante os seus 5º e 6º anos, como lhe pedira.




sábado, setembro 04, 2010

Não há receitas, mas certos ingredientes ajudam...

Não há receitas para socializar e melhorar os comportamentos dos alunos problemáticos, mas há ingredientes importantes a usar.
Foi há uns anos. Algumas turmas preparavam, sob a orientação dos directores de turma ou de outros professores, uma festividade para o último dia do 2º Período Lectivo. Ia haver uma peça de teatro, exposição de trabalhos e outras iniciativas, e a festa ia prolongar-se para a noite pois os pais estavam convidados.
Na aula da Ana um dos alunos mais problemáticos da escola lembrou que era preciso uma boa vigilância para não haver desacatos e tudo correr bem. E a Ana veio logo ter comigo, não só para me contar de quem tinha vindo aquela "preocupação", mas também já com uma ideia na cabeça (éramos almas gémeas nestas coisas). Fomos ao então chamado Conselho Directivo pedir autorização para levarmos à prática a ideia que eu logo tinha perfilhado.
Eram conhecidos os alunos mais "cadastrados" da escola e nós já tivéramos algum contacto com eles, mesmo não sendo nossos alunos. Escolhemos os mais velhos para os convocar para uma pequena reunião connosco e o pretexto/justificação foi o de serem os mais crescidos, portanto os mais aptos para a missão que pretendíamos (nessa altura ainda só tínhamos 2º Ciclo na escola e, por terem todos repetências, tinham já 15-16 anos). Perguntámos se poderíamos contar com eles para colaborar na vigilância e também para estarem atentos e irem em socorro de algum dos pequenotes que tinha tarefa na festa e se visse atrapalhado nessa tarefa. Propusemos que tivessem uma braçadeira a identificar a sua missão.
Disseram que sim e que podíamos ficar descansadas, ao que respondemos que se não confiássemos que podíamos ficar descansadas desde que se comprometiam, não lhes tínhamos pedido essa ajuda.
Estávamos a usar uma táctica, sim, mas isso é irrelevante. O importante é que estávamos a ser sinceras, acreditámos neles (e "eles" sentem isso).
Correu muito bem (para espanto dos adultos). Foram impecáveis na sua responsabilidade e não se "armaram" em mandões.
(Claro que a Ana e eu estávamos, de longe, atentas a eles, mas... foi mais um daqueles casos em que, apesar de sinceras boas expectativas, "eles" as ultrapassam)

ADENDA
No início do ano lectivo seguinte propusemos que fossem escolhidos alunos dos mais velhinhos, incluindo os "problemáticos", para, rotativamente, ajudarem na vigilância e sobretudo no apoio aos pequenotes recém-chegados, mas a nossa proposta apenas foi considerada "gira" pelo Conselho de Directores de Turma, sendo, no entanto, rejeitada por qualquer coisa como complicada ou utópica (já não me lembro bem)
E dispenso-me de comentar esta adenda.

terça-feira, abril 15, 2008

Memórias de alunos problemáticos - III

Vasco

Foi meu aluno no nono ano. Com 16 anos, perto dos 17, já tinha vivências diferentes dos colegas de turma, tais como sair frequentemente à noite até altas horas.

Falador e contestatário, percebi logo que teria que usar tacto e bastante presença de espírito ao chamar-lhe a atenção ou mesmo repreendê-lo, senão ele facilmente resvalaria para algum incidente disciplinar. Mas não levámos muito tempo a estabelecer uma boa relação, e o curioso deste caso é que foi a matemática - em que ele vinha com fundas lacunas e bastante desistente - que tornou o Vasco um aluno algo original nessa minha disciplina.

O Vasco assumia declaradamente que não estudava nem fazia tpcs, tinha outros interesses a ocupar-lhe o tempo, no entanto tinha uma considerável intuição para a matemática e um excelente cálculo mental, o seu raciocínio acabava por ser notável na turma, no que a idade também ajudava. Negava teimosamente que pudesse recuperar nas lacunas que trazia, era renitente em aceitar os meus apoios, mas resolvia por vezes problemas à sua maneira, fugindo aos procedimentos que não dominava, abstraía-se dos processos que os colegas seguiam e acabava por chegar às soluções correctas. E o meu estímulo quando tinha esses sucessos foi conquistando nele momentos de empenhamento nas aulas cada vez mais frequentes. Os seus testes começaram a ser positivos e nisso já não regrediu nunca, embora mantivessem características muito 'à Vasco', pois ele lia-os e decidia logo quais os itens que nem tentaria e deixaria em branco. Um dos motivos por que eu disse acima que se tornou um aluno original, diferente do comum, era o facto de se ter tornado um bom aluno nalgumas unidades do programa e um desastre em certos conteúdos que punha de parte devido às lacunas de anos anteriores - embora, claro, tivesse colmatado algumas essenciais, sem o que não teria sido possível alcançar nível positivo, por interessantes que fossem as estratégias em que se metia e com as quais conseguia resolver certos problemas. (Não resisto a dizer que o Vasco se integraria bem nessas ideias tontas que alguns atribuem ao "eduquês", segundo as quais o ensino seria centrado nos interesses dos alunos, com o programa a seu gosto. Mas isto foi só uma piadinha minha, entre parêntesis, àcerca de tolices que já vi serem atribuídas ao tal "eduquês", embora eu nunca tenha visto colega algum praticar tal coisa)

Outra coisa incomum que me acontecia com o Vasco era de vez em quando deter-me junto dele a conversar sobre a sua vida, as suas vivências e as suas perspectivas, com a aula a decorrer, enquanto os colegas trabalhavam - coisa incomum, pois normalmente se queremos conversar com um aluno fazêmo-lo após a aula. Mas o Vasco era diferente, era como que um aluno mais velho, ainda que com garotices à mistura, inicialmente tendência mesmo para mau comportamento, por isso o englobei em "alunos problemáticos".

Na aprovação do Vasco no final do ano pesou bastante a Matemática, e eu trouxe esta memória - não antiga, já havia exames no 9º ano, que ele fez sem riscos - porque é uma memória que me faz sorrir até com algum divertimento, pois aquela matemática do Vasco era engraçada, boa numas 'coisas' mas um desastre nalgumas outras.

sexta-feira, abril 11, 2008

Memórias de alunos problemáticos - II

Eles eram 13, os mais "cadastrados" da escola. Esta ainda era só de 2º Ciclo, mas eles tinham 14, 15 anos, um ou outro a caminho dos 16. Já há tempos lhes dediquei dois posts, mas, dado que encetei este título - memórias de alunos problemáticos -, não consigo deixar de me reportar àquela memória antes de trazer outras, pois é talvez a mais forte da minha vida profissional, e foi o projecto mais "louco" em que me meti no âmbito dessa mesma vida.
Não vou reescrever o que já escrevi, basta seguir os links: Aos "Engenhocas" - Uma memória (I) e Aos "Engenhocas" - Uma memória (II)
Do primeiro desses dois posts, transcrevo somente esta consideração final: dê-se-lhes responsabilidades, confie-se quando afirmam que as aceitam, e eles superam-se e revelam-se. E, do segundo, também o final: Confio que experiências de valorização, em que sobretudo tenham oportunidade de se sentirem valorizados aos seus próprios olhos, não são inúteis.

Mas quero acrescentar agora uma outra consideração - ou talvez seja uma pergunta...

Há iniciativas que uma pequenina equipa de professores consegue levar a cabo uma ou duas vezes, mas seria irrealista pensar que poderiam os mesmos professores continuarem a repeti-la em muitos mais anos lectivos, a não ser que se alargassem as condições e os recursos humanos. Porque, ao assumir-se a responsabilidade de certo tipo de iniciativas, é necessário dedicar-lhes bastante tempo para além do horário de trabalho e manter grande disponibilidade. No caso dos Engenhocas (nome que os próprios escolheram para o seu grupo), que eram de turmas diferentes e não eram nossos alunos (nossos - equipa de quatro professoras), o tempo semanal e comum de 50 minutos que nos foi concedido era praticamente simbólico, só encontros com eles e outras formas de comunicação requeriam muito, tanto mais que tínhamos como decisivo que se mantivessem sempre com pequenos projectos distribuídos consoante os perfis dos moços - isso era decisivo para o sucesso da iniciativa ao menos em termos de integração na escola e de cessarem os comportamentos problemáticos.
No entanto, é possível e bastante mais fácil promover e concretizar iniciativas mais simples e mais pontuais sob as mesmas perspectivas (que a experiência até demonstrou não serem meras crenças de professores ou de "eduquês"), perspectivas tais como as que se subentendem no que acima transcrevi dos meus próprios posts anteriores. Contudo, uma das constatações que fui fazendo ao longo da minha vida profissional foi a de morrerem certas experiências (com alunos problemáticos e com quaisquer outros), tidas como "mais arrojadas" ou simplesmente diferentes das rotinas instaladas, quando os respectivos promotores mudam de escola ou as cessam por qualquer outro motivo, ao invés de ficarem nas escolas como património de experiências a aproveitar, a alargar e a continuar, ainda que mais simples devido a escassez de condições.
Porquê? Nunca compreendi bem, o que sei é que esse facto, que tantas vezes se verifica, acaba por desiludir e levar professores a começarem a pouco e pouco a diminuir os seus empreendimentos para a escola e a preferirem fechá-los entre as quatro paredes da sua sala de aula, onde não há resistências de adultos e onde vale sempre a pena investir trabalho e tempo - e entusiasmo também.

domingo, abril 06, 2008

Memórias de alunos problemáticos - I

Agostinho

Foi pelos finais da década de 70 do anterior século. O Agostinho era meu aluno no 2º Ciclo, eu era a directora de turma.
Ele não era um aluno violento, nem propriamente o que se chama malcriado. Mas era muito agitado, nas aulas falava a despropósito talvez por necessidade de chamar a atenção, causava nelas pequenos desacatos e, no recreio, mais e maiores.
Como acontece em geral com os directores de turma, comigo era mais dócil. No entanto, eu andava com ele na cabeça, pensando como resolver as queixas que recebia de professores e funcionários, quase sempre só orais pois, com excepção de um professor com quem o Agostinho entrara um tanto em conflito, todos procuravam lidar com ele com muita paciência dado que pressentiam nele uma perturbação emocional cujas causas não eram perceptíveis. Eu já recebera manifestações de preocupação de um ou outro encarregado de educação inquieto porque aquele aluno prejudicava o funcionamento das aulas, mas as crianças da turma também achavam, como os professores, que devia haver algum problema, talvez em casa, e, num dia em que o Agostinho faltara e eu falara com elas pedindo que ajudassem o colega a andar calmo e a integrar-se, a turma já estava disponível para isso.
Vivia só com a mãe, uma senhora com pouca instrução mas mãe preocupada e dedicada, e o ambiente social, embora economicamente baixo, não era degradado. A mãe era mãe solteira e o Agostinho nunca conhecera o pai, mas não falava dele, o assunto não parecia presente no seu espírito.

Não alongo este relato, passo já para o dia em que se revelou a causa - ou uma das causas - do comportamento do menino. Aconteceu na minha própria aula que o Agostinho se levantou de repente atirando ao ar o material escolar e começando a fazer o mesmo com o dos colegas de mesa. Ao dirigir-me de imediato a ele, ainda fugiu para o meio da sala, repetindo "setôra, deixe-me, setôra deixe-me" e outras frases de que já não me lembro, em estado de grande agitação. Consegui reconduzi-lo ao lugar com a ajuda de duas ou três crianças a que fizera sinal para ajudarem, não porque houvesse propriamente resistência física da parte do Agostinho (embora fosse alto e parecesse um pouco mais velho do que os seus 11 anos), mais como quem apazigua um estado de espírito fora de si. E o resto da aula decorreu com os colegas de grupo procurando acalmá-lo e integrá-lo no trabalho. Creio que não passou pela cabeça de nenhum dos alunos que eu devesse ter expulsado o colega da aula ou mencionado sequer alguma sanção - o estado perturbado do Agostinho era evidente.
À saída, tinha a mãe do Agostinho à minha espera. Estava perturbada e chorava. O que acontecera fora que descobrira nessa manhã que o filho trazia por dentro da camisa, encostada ao peito, uma fotografia do pai - uma fotografia de que a senhora mal se lembrava de existir em casa e que o menino encontrara no fundo de uma gaveta sem ter feito qualquer comentário ao achado. A mãe deduzira que ele traria a foto consigo há algum tempo sem nada dizer, e, nessa manhã, o filho ficara muito perturbado pela descoberta da mãe.
O Conselho Directivo já conhecia bem o Agostinho, ele já tivera repreensões registadas propostas por mim. Encetou de imediato diligências para um acompanhamento psicológico - tal apoio ainda não existia nas escolas e já não me lembro por intermédio de quem ou de que instituição local foi conseguido -, ajudei a mãe a convencer o Agostinho a aceitar o acompanhamento e, passado algum tempo, o menino começou a pouco e pouco a andar mais sereno.

Nota final:
Este nem foi um caso muito difícil de ultrapassar. Trago para aqui esta memória porque, sendo dos princípios da minha vida profissional (embora já efectiva), penso hoje (tanto mais que, sendo a minha memória muito má para nomes, ela guarda ainda o deste aluno) que terá contribuído para que eu olhasse sempre os casos de alunos problemáticos - meus alunos ou outros com que contactei - procurando empaticamente perceber o que estava por detrás dos maus comportamentos, ou no íntimo das crianças mesmo que pouco conscientemente nelas (o que, aliás, creio que quase todos os professores tentam perceber). E, se em muitos casos as causas são facilmente detectáveis pelos degradados meios sociais e familiares em que nasceram e crescem, nem em todos é assim, como não era no caso do Agostinho.

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Adenda:
Curiosa coincidência!... Eu, que me lembro de bastantes alunos, mesmo antigos, mas não dos seus nomes, guardo na memória o nome deste e de outro "aluno problemático", de tempo posterior, também esse, por coincidência, de nome Agostinho - um dos 13 Engenhocas de que já falei algures e não deixarei de voltar a falar se se seguirem mais memórias com o título deste post.

Regressando às minhas memórias? (Ponto prévio)

Hum... não me parece que seja bem um regresso... talvez só uma breve passagem por algumas memórias...

De tanto se falar agora de maus comportamentos de alunos a propósito de um caso filmado cujo vídeo foi mostrado ao país até à exaustão e causou uma overdose de comentários e debates, é natural que me viessem à mente memórias de alunos problemáticos - alunos que tive, outros com quem contactei nas escolas onde estive.

Jornalistas, comentadores, professores, psicólogos, políticos e até juristas discutiram ou pronunciaram-se. Por mim, não me vou meter nem por teorias nem por análises do referido caso, para mais tendo escassos dados sobre o contexto de aula e de escola em que ocorreu. E, se por associação de ideias me veio à mente o tema alunos problemáticos, as minhas memórias quase nada têm a ver com o episódio mencionado. Apenas estou a recordar alunos, e, com este cantinho tão abandonado enquanto cantinho de memórias, porque não descrever dois ou três casos?

Se ainda estivesse na escola, as memórias que escreveria seriam da véspera, ou da semana passada - não era preciso serem desactualizadas. Mas... memórias são isso mesmo: memórias.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Respeito. II - Uma questão de raciocínio

Veio-me uma memória (não terá sido por acaso) que passo a relatar - descrevo só um dos três ou quatro episódios bastante parecidos que me lembro de me terem acontecido.

Eu dava habitualmente aula numa 'sala de Matemática' bastante pequena, pelo que, a menos que frio e vento o não permitissem, mantinha a porta aberta para que o ambiente interior não ficasse abafado. A porta dava para um dos pátios da escola.

Um aluno que eu não conhecia, daqueles que se escapam às aulas e andam fugindo à vigilância dos funcionários, passou, parou, entrou mesmo um pouco para além do limiar da porta, para lançar "bocas" provocatórias para a turma, tendo também uma atitude algo provocatória para mim e não me obedecendo à ordem de ir embora. Mas, quando, logo a seguir, me aproximei para lhe falar, fugiu sem arriscar saber se eu iria apenas dialogar ou chamar um funcionário que o encaminhasse para alguma admoestação com maiores consequências. No entanto, não desisti e exigi que fosse levado à minha presença.
Veio com ar hostil e resmungos até eu lhe poder dizer que apenas queria conversar - "Nem nos conhecemos, não podemos conversar?" Pedi-lhe então que pensasse e me respondesse sinseramente o que sentiria e faria se tivesse a porta da sua habitação entreaberta ou esta tivesse uma janela acessível da rua e alguém, sem o conhecer nem à família, aproveitasse para tentar entrar e faltar ao respeito, a ele e aos pais. A resposta pronta foi: "Ia ter que se haver comigo!" (Uma resposta provável, se fosse um aluno mais novito, seria "ia ter que se haver com o meu pai"). Pedi-lhe que me confirmasse se isso queria dizer que considerava ter o direito a que lhe não faltassem ao respeito, a ele ou aos pais, adultos. Resposta afirmativa e, nesta linha, continuou o pequeno diálogo, terminando o mesmo com um "está certo" e a promessa de não repetir a atitude que tivera perante a minha aula.
O mais certo é que tenha continuado a não resistir à tentação de portas de aula abertas, mas lembro-me de ter voltado a passar umas duas vezes junto da minha sala e, ao encontrarem os seus olhos os meus, fazer um aceno de mão como quem, simultaneamente, diz adeus e comunica um "está tudo bem, não vou perturbar". E lembro ainda muito bem de atravessar um dia o recreio, ouvir um "olá stôra" e deparar-me com o olhar do moço, isento de hostilidade.
Afinal, foi apenas uma questão de raciocínio...

Tratava-se de um daqueles alunos que rejeitam a escola e entram nela de pé atrás e "sete pedras" na mão, prontas a atirar a qualquer adulto, funcionário ou professor, numa agressividade que mais não é que a forma que têm de se afirmarem e de extravasar a revolta escondida que as suas condições de vida fazem trazer dentro de si. No entanto, esses alunos sabem raciocinar como os outros, recusam é, em geral, fazê-lo, a menos que não sintam qualquer hostilidade da parte de quem tenta conversar e sintam até cordialidade.

[Mas, notem-se duas coisas. A primeira é que a sua permanente desconfiança os faz perceber hostilidade mesmo quando não há (por isso é menos difícil que adiram a um diálogo com alguém que não é seu professor pois este, provavelmente, já teve que repreender severamente, já teve que se zangar, dado que sabemos como são os comportamentos que estes alunos reincidentemente experimentam ter nas aulas).
A segunda nota, é que o professor é um ser humano como os outros, nem sempre consegue controlar uma imediata irritação e impulso para punir. Ninguém é perfeito, eu de certeza que estou muito longe disso, também tal me aconteceu noutras situações - no entanto, a experiência foi-me facilitando o hábito de distinguir, sem descontrolo, face a um mau comportamento ou um início de falta de respeito, os casos em que até é adequada uma "zanga" imediata e, enventualmente, alguma punição (não há nenhum aluno que não precise de firmeza e que até não a aprecie se a sentir justa e não aliada a sentimento de que o professor não gosta dele), distinguir, dizia, das situações em que tal não é (pelo menos de imediato) o caminho eficaz, antes dando azo a uma reacção que agrave o comportamento havido.]

Infelizmente, alguns vão crescer e tornar-se adultos assim agressivos, já que a vida (e as políticas "sociais") lhes dão pouca oportunidade de se afirmarem de formas mais positivas - como também outros adultos são agressivos não pelas condições de vida em que cresceram, mas por alguma experiência de que não sabem libertar-se e lhes bloqueia o bom senso e o raciocínio, tornando-os frustrados e azedos contra tudo e todos.


_____________
P.S.:
Repetindo o que já disse no post abaixo, prefiro lidar com os putos como este aqui referido, a encontrar esses outros adultos que acabei de mencionar em segundo lugar, no parágrafo anterior - pelos primeiros vale a pena lutar e passar pelas dificuldades que criam aos professores, vale a pena lutar para que venham a tornar-se Homens e Mulheres.


When I Grow Up

Ed Wade

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Aos "Engenhocas" - Uma memória (II)

(Continuação do post anterior)
O investimento (e desafio) na preparação das actividades do final do 1º Período foi na colocação nas mãos dos Engenhocas todas as tarefas de organização das mesmas.
O torneio de futebol, com a colaboração de um colega de Educação Física, teve participantes de todas as turmas - já não me recordo da metodologia, só me lembro que mobilizou várias e numerosas claques.
Para a quermesse (também uma ideia deles), angariaram nas turmas muitas ofertas de objectos vários, pedidos sob alguns critérios e todos registados num caderno. E a véspera, uma tarde a entrar pela noite, é uma das memórias mais marcadas que guardo da minha vida profissional. O Agostinho era o mais problemático, porque tinha com frequência, nas aulas, súbitos assomos de comportamento perturbado. A directora de turma apenas possuía um relatório médico vago, falava-se de uma suspeita de sintomas de esquisofrenia, mas ao certo nada se conseguia saber por parte da família. Por isso duvidámos do seu pedido de liderar a organização final da sala da quermesse, por isso começámos a observar com olhos incrédulos a sua iniciativa activa na marcação dos objectos, no registo organizado por categorias, na distribuição de tarefas incluindo o enrolamento de rifas, na meticulosa disposição segundo os critérios estéticos dele - que originaram uma grande mesa vistosa e apelativa. Preocupou-se também com folhas de registo para a caixa do dinheiro a entrar. (A verba que se obtivesse destinava-se a um melhoramento na escola que já não recordo qual foi). Em suma, a capacidade de organização do Agostinho foi uma revelação inesquecível e um espanto para os seus profesores quando a descrevemos.
A quermesse decorreu com sucesso e terminou em divertida animação decorrente da ideia de outro Engenhoca de leiloar os últimos objectos - fez rir professores e encarregados de educação e assim conseguiu despachar as sobras todas.
Não faltou, nas actividades do dia, uma visita à sala de professores, com discurso de votos de boas festas e distribuição de cartões.
Por último, um pormenor que faz sorrir: os nossos rapazes, habitualmente dos que maior vigilância requeriam no recreio, lembraram que ia haver visitantes, que era preciso assegurar a segurança e vigiar os alunos à solta para não haver perturbações, decidindo escalonarem-se para a vigilância (funcionários e professores que não se preocupassem...).

P.S. Integrar na escola pode não chegar a significar integrar na escola das aulas ou da maioria das aulas, aumentar o trabalho nalgumas destas e não ter atritos com professores. Trata-se de adolescentes à partida desconfiados dos adultos, que permanecem "de pé atrás", e os rótulos com que os professores os conhecem fazem que também alguns permaneçam de pé atrás, o que torna, nesses casos, o conflito ou atrito sempre à beira de acontecer.
Mas eles terminaram nesse ano o 2º Ciclo, já perto do limite da idade da escolaridade obrigatória, obviamente que houve atenção ao caminho que iam seguir, tivemos inicialmente notícias de todos, depois perdemo-los de vista.
Confio que experiências de valorização, em que sobretudo tenham oportunidade de se sentirem valorizados aos seus próprios olhos, não são inúteis.

Aos Engenhocas: Que, estejam onde estiverem, nenhum ande perdido, que todos estejam bem.

Aos "Engenhocas" - Uma memória (I)

Terá sido logo pelos princípios da década de 90, a minha escola ainda não tinha 3º Ciclo. A Ana e eu costumávamos estar metidas nalgum projecto conjunto, mas esse foi o mais "louco".
Apresentámo-lo no Conselho Pedagógico no final do ano lectivo anterior, que o aprovou apesar de, definido o habitual - finalidade, objectivos, etc. -, assumir, em vez de um plano de trabalho a desenvolver, que tinha precisamente que partir de um plano totalmente em aberto. Tratava-se de uma iniciativa com um grupo de alunos que seleccionáramos como os mais "cadastrados" da escola - alunos repetentes, com pelo menos um processo disciplinar decorrido, problemáticos nas aulas e nos recreios. Ganháramos para o projecto mais duas colegas e a disponibilidade de um colega de Educação Física para eventuais (mas previsíveis) iniciativas desportivas.
No início do ano lectivo, os nossos rapazes receberam cada um um convite para uma reunião que, aliás, foi a única que decorreu com todos conseguindo permanecer sentados, ao princípio timidamente disciplinados, depois de se terem olhado e decerto percebido mais ou menos o critério de escolha, mas sem se pronunciarem sobre isso, até porque apresentámos logo a nossa ideia: Formarmos um grupo que fosse tendo ideias e iniciativas para animar a escola e, dentro do possível, tornar também mais agradável o seu aspecto físico; era um convite, a adesão seria voluntária, dissemos que pensáramos neles por serem dos mais velhos, portanto mais capazes de corresponderem à nossa ideia.
Todos aderiram, eram 13, nenhum era nosso aluno (se a memória não me falha, isso foi mesmo um critério nosso). E logo decidiram não sair da reunião sem um nome para o grupo, o qual, depois de algumas propostas (deles, claro), foi aprovado de imediato por unanimidade como "Os Engenhocas" quando um deles o sugeriu. Combinámos também organizar um correio - que veio a ser um folheto com o respectivo logotipo, que deixávamos no porteiro com marcações de encontros gerais ou parcelares, notícias do decorrer das iniciativas, respostas do CD a propostas que vieram a fazer, etc. Ficaram ainda esboçadas nessa reunião pequenas primeiras iniciativas, definidos os encarregados das mesmas e marcados encontros, para melhor definição delas, com, respectivamente, uma de nós quatro (professoras).
Guardo para próximo post o único relato que farei para não me alongar demasiado - uma daquelas memórias que jamais se apagam: o segundo dos dois dias de actividades de final de 1º Peíodo, no âmbito das festividades de Natal, habitualmente realizando-se num só dia com paragem das aulas, mas dessa vez em dois porque o segundo veio a ser aprovado como "a cargo" dos Engenhocas face ao plano e à preparação havida.
Mas ainda conto qual a convicção que nos levou a este projecto (convicção que sei que é partilhada por muitos professores): dê-se-lhes responsabilidades, confie-se quando afirmam que as aceitam, e eles superam-se e revelam-se.

P.S. Lembro-me muitas vezes dessa experiência com os Engenhocas, não deixaria de aparecer neste meu cantinho de memórias, mas (há uma hora atrás, constipada e a tomar medidas preventivas de gripe, até tencionava não escrever nos próximos 3 ou 4 dias) não será que me pus agora a escrevê-la por ter na mente as projectadas turmas de repetentes?

terça-feira, janeiro 10, 2006

Despachar os repetentes...

James Meyer, drifting youth

Pelo
despacho normativo nº1/2006 se despacharão os repetentes, só incomodam, que o que incomoda é a taxa de insucesso a dar tão má imagem do país...

O V. é meu aluno do 9º, conheci-o este ano, um adolescente já com 16 anos (não deve estar muito longe dos 17). Pelo que me disseram, não terá tido comportamento exemplar no seu passado escolar, e pela idade logo se vê que algumas vezes "chumbou". Mas mudou. Damo-nos bem, percebe-se que é um adolescente que não está completamente fora de risco, mas já repensa a vida e pensa no futuro. Nem teve plano de recuperação, numa turma em que houve 16 planos em 25 alunos. Começou pouco crente na Matemática, mas ganha a confiança e como cabecinha não lhe falta, singrou e o nível que justamente lhe atribuí no final do 1º Período foi aquele 3 que costumamos indicar ao aluno e ao director de turma como 3+.

Que teria feito ao V. o despacho que vai pôr em turmas de repetentes, com currículos alternativos, alunos até aos 15 anos com insucesso escolar repetido?