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sábado, março 15, 2008

Pensando em voz alta (nas últimas posições dos sindicatos)

(Pensar em voz alta/escrevendo ajuda a raciocinar)

1.
A proposta de António Vitorino de haver um período experimental no processo de avaliação de desempenho dos professores foi largamente considerada uma boa proposta (e recorde-se que AV não foi, de modo nenhum, o primeiro a apontar esse caminho). Mas, face a ela, importa que seja bem esclarecido o que significa um período experimental de um decreto.
Ora, eu não sou jurista, mas julgo que tal não significa usar umas tantas pessoas (neste caso, professores) como cobaias que possam ser (menos ainda só essas) vítimas de experiências. A ideia que tenho de um período experimental é que ele se destina a testar o processo, os métodos e os respectivos instrumentos, e a tirar conclusões sobre o que é adequado e o que não serve e até eventualmente contribua para obstáculos à seriedade e credibilidade que se deseja para uma avaliação exequível, isenta e justa. Não me tinha passado pela cabeça que desse período resultasse necessariamente avaliação de professores - então, seriam escolhidos para cobaias?! -, mas sim a avaliação do modelo. E acho que não preciso de ser jurista e saber exactamente em que termos seria decretado o período experimental para considerar que não seria lógico nem legítimo que determinados professores sofressem mesmo uma avaliação ao mesmo tempo que se tirariam conclusões sobre erros do modelo a requererem ser corrigidos antes da sua aplicação à generalidade dos professores.

2.
Não compreendo o argumento do ME de não poderem deixar de ser avaliados os professores contratados e os que estão em condições de progressão no presente ano lectivo (estes, aliás, num muito pequeno número, segundo ouvi Jorge Pedreira dizer).
Há algum impedimento legal a que os contratos sejam renovados segundo as normas que vigoravam anteriormente, dispensando também, portanto, avaliação neste ano lectivo dos respectivos professores?
Quanto aos que estão em condições de progredir, lembro-me do sucedido quando esteve instituída a candidatura ao então 8º escalão (e lembro-me muito bem pois fui abrangida por ela). Esperámos muitos meses para que os nossos currículos pormenorizados e trabalhos de natureza educacional fossem analisados e fôssemos chamados a exame, mas o atraso não nos trouxe prejuízo significativo em termos remuneratórios pois foi simplesmente decidido pelo governo o pagamento do aumento salarial por acesso ao 8º escalão com rectroactivos reportados ao momento em que atingíramos as condições de mudança de escalão.

3.
Da reunião negocial de ontem entre ME e FENPROF, declarou Mário Nogueira, em nome desta, a não aceitação do que o ME propôs. (Pelo pouco que li, creio que também a FNE tomou posição semelhante). Dispenso-me de resumir as declarações de MG, todos já as conhecemos.
Não as ouvi sem algumas interrogações iniciais cá para comigo mesma (daí o título deste post). Depois reflecti e, além das considerações anteriores, perguntei-me o que é isso de "procedimentos mínimos" de que fala o ME. Volto a dizer que não sou jurista, gostava que algum jurista viesse a público explicar que figura legal é essa de aplicação simplificada de um decreto-lei, ou de procedimentos mínimos na aplicação do mesmo. E concluí que os sindicatos não podiam deixar de tomar a posição que tomaram (ainda que corram o risco de à primeira vista parecer intransigência quando se pretende transigência por parte do ME), pois de facto um decreto ou se aplica, ou se revoga, ou se suspende, não me consta que exista a figura legal da tal aplicação simplificada mediante "procedimentos mínimos" (agravada ainda por simplificação ao critério de cada escola, em nome dessa palavra autonomia que agora anda a servir para tudo, e com todos os riscos de critérios desiguais entre os professores de escolas diferentes)

Nota: Relembro que disse estar apenas a pensar em voz alta, até nem é meu costume pronunciar-me antes de ler as propostas e respectivos fundamentos divulgados com precisão nos locais e documentos próprios - locais que não são a comunicação social, mas nesta já ouvi directamente Jorge Pedreira e Mário Nogueira após a reunião. Assim, o que escrevi é o que, para já, me parece, podendo uma informação mais pormenorizada e precisa melhorar os meus raciocínios imediatos ou corrigir algumas questões sobre isto de legalidades, nomeadamente quanto ao significado legalmente correcto seja de período experimental de um decreto, seja de aplicação simplificada ou mínima do mesmo (se é que este segundo caso pode ter qualquer ponta de cabimento legal).

sábado, março 01, 2008

No dia 8 participarei porque...

...porque quero uma Escola Pública que proporcione aos meus netos e a todas as crianças e adolescentes - e em igualdade de oportunidades - Ensino e Educação de qualidade. Para isso, quero que as reformas necessárias no Sistema Educativo sejam preparadas e implementadas:

- com objectivos transparentes,


- com o respeito pela mais alta prioridade do trabalho dos professores, que é o trabalho para e com os alunos,

- sem medidas precipitadas, cuja pressa origina, para além de atropelos e contradições legais, a desestabilização do funcionamento das escolas pelo lançamento de profundas mudanças com os anos lectivos já a decorrerem.

Quero, sim, uma Escola Pública exigente quanto à formação/competência dos docentes, para o que a avaliação dos mesmos deve concorrer e é necessária, mas uma avaliação de desempenho mediante um processo formativo, estimulante, credível, justo e exequível, e não um processo burocratizado e absorvente do tempo dos docentes e dos orgãos de gestão das escolas, inevitavelmente desviante da mais alta prioridade acima referida.

Quero, sim, o que contribua para o verdadeiro sucesso educativo, sem escamoteamento desse objectivo por urgências em melhorar resultados estatísticos quaisquer que sejam os significados destes e custe o que custar, mesmo que esse custo, na verdade, venha a recair na Educação e no Futuro dos alunos, seja por facilitismo, seja por economicismo e deterioração das condições de trabalho dos professores, nomeadamente condições de tempo e exequibilidade, de colaboração, de estímulo e de respeito,
e também de salvaguarda de uma gestão democrática.

domingo, fevereiro 24, 2008

Um esclarecimento que faço questão de prestar

Este meu cantinho anda muito parado desde há bastante tempo, como sabem os que me liam. E os motivos são, em parte, por alguma falta de disposição para escrever por razões da minha vida particular, mas também e sobretudo porque (como disse mais do que uma vez) não quero alterar-lhe o título, iniciei-o para guardar memórias da minha vida de professora e também numa perspectiva de partilha - memórias sobretudo da minha prática com e para os alunos -, mas a desestabilização causada nas escolas pela política do actual ME e as suas medidas em catadupa, caracterizadas muitas vezes por uma enorme precipitação (o que já de si é insensato) (logo nos primeiros tempos do mandato desta equipa ministerial escrevi mais do que uma vez sob o título "a carroça à frente dos bois") e revelando inaceitável desconhecimento do terreno onde pretendeu implementar essas medidas, para não falar do crasso erro de pensar que qualquer reforma no ensino pode ser bem sucedida sem ganhar minimamente para ela, ou para a crença nela, os principais e fundamentais intervenientes - os professores -, muito menos numa atitude pública contra eles, essa desestabilização, dizia, e para a qual o afogamento em papelada muito contribui, torna o momento nada propício a pensar e a escrever as referidas memórias.
(Talvez eu não queira mudar o título do meu blogue e a intenção de escrita que lhe está subjacente por ter esperança de que venham a cessar todas as trapalhadas em que o actual ME se tem mostrado exímio nas regulamentações das suas medidas - a cessar e a serem corrigidas por outra equipa mais competente -, regressando-se a clima e condições mais propícias a que os professores possam, e lhes deixem tempo, para centrarem as suas atenções no que é primordial e que é o trabalho efectivamente útil com e para os alunos, continuamente reflectido, auto-avaliado, renovado e desejavelmente colaborativo. Mas "só o tempo dirá", como já escrevi em título de um post)

Mas o que quero esclarecer é o seguinte:
1º - Estou aposentada, sim, mas nadinha alheada das questões da Educação-Ensino. Portanto, também nadinha alheada das legítimas lutas dos professores.
2º - Muitas vezes tenho vontade de divulgar aqui posições e movimentações (mas não deixo de o fazer por mail aos meus contactos que sejam professores não "bloguistas"), bem como de colocar sugestões de leitura de algumas entradas pelo menos de dois blogues muito activos quanto à analise crítica da actual acção do ME - entradas que, umas, proporcionam aos professores acesso e elucidação em cima da hora sobre tudo o que vai sendo emitido pelo ME, desde decretos a despachos (e não só) - e o meu destaque vai principalmente para os blogues do JMA e do PG -, outras são divulgação de importantes materiais/documentos/artigos que elucidam e são verdadeiramente formativos - e destaco novamente o JMA, que considero prestar no seu blogue um autêntico e precioso serviço público.
Mas, já que a minha opção (ou necessidade) de momento é continuar com este meu cantinho bastante parado, raramento cedo à vontade de simplesmente sugerir as referidas leituras pela razão simples de que, sendo este um blogue insignificante e menos lido ainda do que já foi quando escrevia memórias ou escrevia assiduamente, as referidas menções/divulgações que faria não se justificariam, não são precisas dado que se tornaram amplamente conhecidas.

Em suma, o que quis esclarecer a quem vai visitando este meu cantinho é que a sua (quase) paragem não significa alheamento dos problemas e da defesa da nossa Escola Pública. E não esclareço isso porque sinta qualquer necessidade de me justificar, mas apenas para manifestar a minha solidariedade, activa no que ainda está ao meu alcance, para todos os que resistem e pugnam autenticamente por uma escola pública que de verdade progrida e melhore no seu serviço pela educação e futuro de todas as crianças e todos os adolescentes, o que, aliás, é também serviço pelo progresso do nosso país.

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Adenda
Acrescento aos meus destaques o blogue do RM - blogue mais recente que, inclusivamente pelos materiais que disponibiliza, também constitui, a meu ver, um valioso contributo.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Só o tempo dirá...

O ar que se respira no interior das escolas públicas já não é o que respiro no meu quotidiano, mas parece que ele me entra pela casa dentro quando leio mais e mais legislação que vai surgindo, projectos desta e regulamentações. E o que pressinto é uma atmosfera que gera desgastes, que empurra para inversões das prioridades que seriam desejáveis, que sufoca o gosto por educar e ensinar e que até torna impossíveis objectivos necessários (basta pensar no decreto da avaliação do desempenho dos professores e nos prazos absurdos determinados no respectivo decreto regulamentar).

Se outros vêem no que está a acontecer uma "reforma", eu talvez esteja com perda de visão, pois só consigo ver uma correria de decretos, lançados com a precipitação que decorre sempre das pressas, alguns cerceando objectivos expressos noutros (veja-se a questão da autonomia), mais uns tornando a sua operacionalização e a sua prática séria num quebra-cabeças (veja-se a já referida avaliação de desempenho), e mais uns ainda requerendo debate para que não há tempo (veja-se a mudança de modelo de gestão, e até o novo programa de Matemática do Ensino Básico homologado sem que quase ninguém se tenha dado conta). E uma imensa papelada a ter que se elaborar para que a inspecção veja, mesmo que só dê para ler e arquivar.

Porque tempo é preciso, e tempo é o que cada vez menos anda a restar nas escolas para ponderar, discutir, pensar nos que deveriam ser os destinatários de tantas medidas cujas justificações nem sequer começam por ser claras - não é preciso dizer que nada fará sentido se os destinatários não forem os alunos, a bem de um sistema de educação-ensino de efectiva qualidade para todas as crianças e todos os adolescentes do nosso país.

E só o tempo dirá qual o saldo de tudo isto que está a acontecer em nome da, e na, nossa escola pública.


Entretanto, qualquer gosto meu por este cantinho tem vindo a eclipsar-se. Porque o que eu gostaria de falar (ou recordar) nele seria principalmente e directamente sobre ensinar, educar, formar crianças e adolescentes, discutir sobre como encorajar, motivar, envolver, disciplinar e incutir hábitos de trabalho e esforço, enfim, sobre coisas destas que a sociedade tem parecido andar a assumir tão pouco. Mas agora instila-se nessa mesma sociedade pouco respeito pelos professores ao mesmo tempo que se desmoralizam os melhores deles e se tomam medidas que, ao invés de estimularem o trabalho colaborativo e formativo, ameaçam punições esvaziadas de conteúdo formativo ou de condições para a vertente formativa sem a qual nenhuma avaliação de professores, por si, melhorará o trabalho de ninguém.


Termino repetindo o que já disse acima: Só o tempo dirá qual o saldo de tudo isto que está a acontecer em nome da, e na, nossa escola pública.


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W.G.Barry (1864-1941). Time Flies


terça-feira, janeiro 01, 2008

Em jeito de balanço

No início de novo ano é costume fazerem-se balanços sobre o ano findo. Não me meto a tentar fazer um sobre a política educativa, pois seria exaustivo e repetitivo do muito que foi escrito na blogosfera "docente". Limito-me a umas considerações simples e somente sobre alguns dos aspectos dessa política.

Todos sabemos que a prioridade de Maria de Lurdes Rodrigues como ministra da Educação foi de natureza economicista, o que, por muito que se compreenda o problema do deficit, se afigurou desde logo muito pouco conciliável com uma verdadeira prioridade à Educação no sentido de uma efectiva melhoria do nosso sistema de ensino público, tão necessária ao progresso do país. Mas, até é possível que Maria de Lurdes Rodrigues também tenha tido algumas boas intenções com vista a essa melhoria. De qualquer modo, boas intenções não bastam, elas precisariam de ser baseadas quer num profundo conhecimento das questões em causa - o que não consigo vislumbrar que esta ministra tenha - e das realidades das escolas, quer numa visão de futuro a médio prazo e respectivo planeamento, em vez de uma precipitação em medidas avulsas, numa pressa de mostrar trabalho e de propagandear resultados mediante números obtidos a quase qualquer preço e de significados pouco claros.
Como diz Reijo Laukkannen (perito e conselheiro do Ministério da Educação da Finlândia, citado no artigo que podem ler aqui): "É crucial compreender que em educação não é possível reformar de um momento para o outro. Leva tempo, muita paciência e coerência. Primeiro que nada é preciso decidir aonde se quer ir". E diz também: "Temos vindo a trabalhar nisto desde finais dos anos 60 e desde o início tomamos a direcção que hoje seguimos. Um rumo que mantivemos apesar da mudança de sucessivos governos". (Destaques meus)

Do montão de decretos, despachos e ofícios emanados do nosso actual Ministério da Educação, vou referir-me apenas a duas medidas tomadas. Escolho-as porque, para elas, os professores estariam totalmente disponíveis e receptivos em princípio, não tivesse Maria de Lurdes Rodrigues uma enorme falta de noção de quanto é incompatível com um trabalho docente preparado e exercido com a competência, a iniciativa, a criatividade e a dedicação que a profissão requer para ser bem sucedida, de quanto isso é incompatível, dizia, com, por um lado, a burocracia, a papelada em resmas, por outro lado, com a falta de convicção dos professores em medidas tomadas arrogantemente no desprezo pela sua opinião fundada no conhecimento das realidades das escolas e na experiência, e, por outro lado ainda, com pressões ameaçadoras como se a baixa do insucesso e do abandono escolar apenas dependesse dos docentes e devessem estes (e só estes) ser punidos pelo não alcance dos objectivos desejados.

A primeira medida que quero referir é a da avaliação de desempenho. A generalidade dos professores já reconhecia a necessidade de implementação de uma avaliação de verdade; mas também sabia que não é fácil instituir um sistema de avaliação sério e justo, garantindo a isenção e sendo exequível nas condições de trabalho das escolas. Além de que uma avaliação que não tenha condições para ser essencialmente formativa não será, decerteza, uma avaliação útil ao próprio sistema de ensino.
Mas, Maria de Lurdes Rodrigues achou que tinha a chave na mão. E não parece ter qualquer noção lúcida do que contribui para um factor muito importante, que é o de um bom "clima" de escola, e do que, ao contrário, pode gerar "climas" insuportáveis e perniciosos.
E não vale a pena dizer mais sobre o decreto da avaliação de desempenho, pois todos conhecem e têm já descrito os erros e as dificuldades de cumprimento sério desse decreto.

A outra medida que refiro é a do plano de acção para a Matemática. Ela abrange directamente apenas os professores dessa disciplina, mas todos os outros reconhecem quer a necessidade de um reforço de investimento nela, quer o facto de o insucesso em Matemática não ter a ver apenas com essa disciplina nem ter só consequências no âmbito dos respectivos conhecimentos propriamente ditos.
Também aqui não vale a pena lembrar a questão da formação de professores - todos se recordam decerto do novo regime de formação para a docência. (Mas voltarei ao assunto noutro post). Detenho-me agora apenas no plano de cada escola para a Matemática.
Um aspecto, embora talvez menos relevante, foi o das minúcias tão ao gosto deste ME - que muito passou a falar de autonomia das escolas depois de as ter enchido de imposições e sugestões pormenorizadas. Estou a lembrar-me de um pequeno exemplo, uma sugestão que pressionou muitos professores e escolas a encherem os alunos, até à saturação, de matemática e mais matemática nas horas destinadas ao Estudo Acompanhado e à Área de Projecto, mais aulas de apoio mesmo que os alunos só precisem de se esforçar um bocadinho, mais salas de estudo de frequência obrigatória, enfim, um contributozito para aumentar a já alargada aversão àquela disciplina em vez de serem os professores estimulados a, com autonomia e condições de trabalho colaborativo, investirem em métodos e estratégias que criem nos alunos gosto pela mesma e gosto pelo 'pensar'.
Outro aspecto, que considero de efeitos muito perniciosos, foi o da pressão sempre ameaçadora àcerca dos resultados de exames e provas de aferição, como se a aquisição de competências pelos alunos fosse uma questão de treino para exames. Pressionados e muitos não conseguindo escapar ao medo dos efeitos desses resultados na sua própria avaliação e na opinião pública, dificilmente os (bons) professores mantêm com segurança e firmeza os objectivos que sabem serem primordiais no processo de ensino-aprendizagem daquela disciplina, a importância que atribuem à avaliação formativa e até os critérios de avaliação que consideram correctos. Acresce que não vi preocupação do ME ou dos seus colaboradores em que sejam estudados (porque não junto dos alunos?) o comportamento dos nossos estudantes em situação de exame, nas idades do Ensino Básico, e os múltiplos factores que possivelmente contribuem para desempenhos nessa situação inferiores aos habituais, já que tantos obtêm nas provas de exame classificações inferiores às que habitualmente obtêm na avaliação interna.

Quanto a tudo o mais nas medidas de Maria de Lurdes Rodrigues, limito-me a repetir que (na minha opinião) o mais crasso e profundo erro desta ministra foi o de ignorar arrogantemente que nenhuma reforma pode ser bem sucedida sem se ganhar uma convicção mínima nessa reforma por parte dos professores, e muito menos impondo-a contra eles. E, se é verdade que não há só professores muito bons ou bons, se é verdade que também há os assim assim e até maus mesmo, se é ainda verdade que não sabemos contabilizar isso, outra verdade se constatou já - a maioria dos melhores professores foram desmoralizados, assoberbados de acréscimos de trabalho de utilidade duvidosa, e bastantes foram injustiçados na sua carreira. O sistema educativo não se podia dar ao luxo de perder o entusiasmo e empenho de muitos dos seus melhores docentes, mas nem cuidado houve para que tal não acontecesse ou não aconteça a curto prazo.

Termino voltando ao artigo sobre a Finlândia acima indicado, não porque não saiba que a diferença abissal entre as condições desse país e as do nosso não se ultrapassam do pé para a mão nem pouco mais ou menos, mas porque as medidas viáveis a curto prazo não deveriam deixar de se inserir numa visão de futuro para a qual se procure caminhar a passo e passo (mas essa visão é ideologicamente variável, claro... - infelizmente para os que nascem em condições desfavorecidas):
"O ano de 1985 regista um importante marco na reforma da educação finlandesa. Naquele ano o Governo decidiu eliminar o sistema conhecido como 'streaming', muito expandido na Europa, segundo o qual as crianças de idade mais avançada são classificadas em diferentes níveis e tipos de educação de acordo com o seu rendimento. (...) Mas simultaneamente decidimos concentrar o grosso do nosso orçamento da educação nos primeiros anos da secundária (nos estudantes de 12 a 15 anos). Cancelar o 'streaming' sem aumentar os recursos para contar com mais professores e organizar turmas com menos alunos (...). Teríamos obtido um sistema de oportunidades iguais, mas de duvidosa qualidade." (destaque meu)
Dispenso-me de comentar - acho que não é preciso...
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Adenda
E, para (mau) começo do Novo Ano, temos o projecto de Novo Modelo de Gestão das Escolas. Por agora, remeto os meus eventuais leitores para aqui e para aqui, sugerindo veementemente que acompanhem os posts do Paulo Guinote que se seguirão a esses.

Adenda 2
Ainda sobre a Gestão das Escolas, destaco também os posts de JMA - aqui - e o debate no Aragem.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Educação para a sustentabilidade

Estava hoje vagueando pelo portal da UNESCO (opção em espanhol) - por acaso hoje, dia em que parece que houve interpelação ao governo sobre Educação. (Digo "parece que houve" porque, numa vista de olhos ao jornal Público, o que encontrei sobre o assunto foi um destaque para Paulo Portas como se este fosse a grande e única figura do dia no que respeita à dita interpelação, e, assim, não me dei ao trabalho de procurar noutros jornais).
Lembrei-me então de fazer uma pergunta, ao ler esta breve declaração:
"El objetivo del Decenio de las Naciones Unidas de la Educación con miras al Desarrollo Sostenible (2005-2014) consiste en integrar los principios, valores y prácticas del desarrollo sostenible en todas las facetas de la educación y el aprendizaje. Esta iniciativa educativa fomentará los cambios de comportamiento necesarios para preservar en el futuro la integridad del medio ambiente y la viabilidad de la economía, y para que las generaciones actuales y venideras gocen de justicia social." (Aqui)

A minha pergunta (porque eu sou muito distraída, às vezes não me dou conta de importantes iniciativas governamentais aqui pelo nosso país), é esta: Que medidas tomou Maria de Lurdes Rodrigues com vista ao objectivo acima referido, definido pelas Nações Unidas para o decénio de 2005 a 2014?

Hum... já estou a achar que é uma pergunta ingénua e também pouco importante já que os nossos políticos não a têm feito... Nem sei o que me deu para voltar a este meu cantinho, mas, pronto... já estou em retirada!

segunda-feira, junho 25, 2007

Desculpem lá, mas não sou capaz de passar a semana só a dizer bem!!! Ora vejam isto...

Pensava eu que tinha conseguido mandar embora o mau humor, como se prova no meu post anterior. Mas logo uma horinha depois vou ao blogue do Paulo Guinote e leio estas notícias!
Se há assunto que me põe a ferver é isso do professor generalista para o 2º Ciclo, e cada vez o panorama parece pior.

Sim, há muita iniciativa positiva, e há muitos professores maravilhosos, mas a verdade é que isso tudo junto não tem força contra as confusões e descalabros a que estamos assistindo.

Pronto, vou mas é tentar, durante esta semana, ler só as coisas boas. Prometo que, depois, tentarei fazer uma lista para publicar.

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Adenda

Desculpem os meus impulsos.

Já passou...

sábado, março 17, 2007

Ainda sobre a Matemática: Culpabilização dos professores e pressão externa podem produzir actuações contraproducentes

Todos sabemos que desde há alguns anos se vem verificando uma cada vez mais ampla falta de hábitos de trabalho, de estudo e de esforço por parte dos alunos do ensino básico. Culpabilizar a escola porque não os motiva ou culpabilizar os pais porque não os educam e responsabilizam são, a meu ver, atitudes fáceis e simplistas, pelo que não refiro aquela constatação para sequer apontar causas - refiro-a apenas porque, independentemente de várias e provavelmente complexas causas (sobre elas deveria toda a sociedade reflectir), é um facto que muitas e muitas turmas exigem um enorme esforço por parte dos professores sem que muitas vezes esse esforço consiga diminuir o insucesso escolar, muito especialmente nas disciplinas em que este é maior, das quais a matemática está "à frente" (aliás, sempre esteve).

O "escândalo" dos resultados dos exames do 9º ano - exames realizados apenas nos dois últimos anos lectivos - tornou particularmente os professores de matemática do ensino básico alvo, primeiro, de ataque à sua competência, e, depois, de pressão inclusivamente para a elaboração dos tão falados planos de acção para a matemática a nível de escola. Não ponho em questão a pertinência desses planos, mas sim a pressão psicológica que tudo isto não deixou de gerar. E, por muito que saibamos da elevada percentagem de alunos que chegam aos anos terminais do 3º ciclo já desistentes em matemática ou com grandes dificuldades de recuperação (mesmo quando já mais responsabilizados e preocupados devido até à idade) porque foram transitando com insucesso naquela disciplina tão marcadamente sequencial, não deixa de ser também um facto que são os professores do 9º ano que de algum modo se sentem visionados com os resultados dos exames, mesmo se nas respectivas escolas ninguém os culpa ou, até fora delas, as causas várias de elevadas taxas de insucesso acabem por ser correctamente equacionadas.
Tudo o que foi dito publicamente sobre os professores de matemática na altura dos primeiros exames, por mais que seja evidente o absurdo da ideia que chegou a "passar" como se fossem eles a "ovelha ranhosa" do sistema educativo (ou o "rebanho ranhoso", no caso), foi uma atitude pública muito infeliz que, além de injustiçar muitos e muitos bons profissionais, não deixou também de colocar professores sob pressão psicológica e stress.

Tudo isto me vem outra vez a propósito de um pequeno e pontual caso que me aconteceu hoje. Ao encontrar-me com uma amiga e ao comentarmos a actual política educativa e seus reflexos no próprio clima das escolas e no estado de espírito de muitos professores, referiu-me ocasionalmente desabafos de alunos do 9º ano da sua escola. Posso mencioná-los aqui dado que são alunos de uma escola anónima entre tantas, obviamente não a identifico nem isso interessa absolutamente nada, é apenas um exemplo, entre possíveis e diferentes outros, do que escrevi como título deste post. Os referidos alunos têm matemática nos tempos a ela destinados e - dentro do próprio plano de acção para a matemática da sua escola - também regularmente em Estudo Acompanhado (até aqui, eu ainda nem levantaria muito grande questão) e... ainda na Área de Projecto (!) - portanto, duas áreas convertidas, no caso referido, em leccionação da matemática -, além de alguns deles terem ainda aulas suplementares de apoio incluídas nos ditos planos de recuperação (nos quais alguns professores as incluem mesmo quando do que a recuperação de facto depende é de mais atenção e empenhamento dos alunos e de preocupação da família com isso).
E, assim, o resultado é que os referidos alunos já não podem "ver" matemática à sua frente; o resultado é uma saturação e uma falta de gosto por essa disciplina ainda maior do que a que muitos já traziam.

Não trouxe este caso (provavelmente até pontual) para censurar ninguém. Trouxe-o, repito, como um pequeno exemplo do que a pressão sobre os professores de matemática pode ocasionar, inclusivamente em medidas de reforço contraproducentes, principalmente sobre aqueles mais fragilizados e com turmas mais difíceis (para não falar da dificuldade que a indisciplina cria aos professores no sentido de as aulas serem rentáveis).

Termino com uma questão bem mais geral, que mais do que uma vez apontei neste meu cantinho como um dos maiores erros do actual ministério da educação. Ainda que este tenha de algum modo retrocedido na atitude inicial de culpabilização dos professores e, em particular, dos de matemática, a campanha dos seus acólitos na comunicação social prolongou-se. Nem falando agora de toda uma política educativa que, ao invés de ganhar os professores, os pôs contra ela e foi decretada contra eles, quem vai remediar as consequências desse profundo erro que foi a culpabilização dos professores, o denegrimento da sua imagem perante a opinião pública e a sua desautorização aos olhos da mesma?

sábado, fevereiro 24, 2007

"Animar a malta", "acordar a malta"...

É totalmente compreensível o desânimo que o novo ECD trouxe aos professores. Mas eu não acredito que o tempo (e não muito) não venha a impor a evidência dos seus erros e a sua correcção (desde que os professores não deixem de lutar por isso). Maria de Lurdes Rodrigues destruiu o anterior ECD em poucos meses, o actual também poderá ser alterado - esta ministra mais a sua equipa têm os seus dias contados.
Mas há decretos bem mais difíceis de virem a ser emendados, além de as suas consequências demorarem muito mais tempo a tornar-se evidentes e a acordar, inclusivamente, os pais deste país cujos filhos vão ser cobaias em experiências gravemente insensatas. Estou a pensar especialmente no novo regime jurídico da formação de professores.

Não me apetece escrever, não vou alongar-me, mas este post impôs-se-me ao recordar como era a "carreira" de professor quando nela ingressei, inclusivamente no aspecto remuneratório - isso não foi eterno, e as lutas não foram inúteis! Ao recordar também que mesmo no tempo do "Estado Novo" (no qual ainda vivi já como professora) "
sempre existiu um respeito pelo saber próprio, disciplinar, dos docentes. Poderia existir um esforço de inculcação ideológica, mas não era negado o valor do saber académico e científico, a que se juntava uma formação pedagógica" - uso as palavras do Paulo Guinote não só porque, como disse, não me apetecia escrever, mas também porque o Paulo tem feito um extenso trabalho de análise e desmontagem cuja leitura recomendo a quem eventualmente não esteja a acompanhá-lo.

A degradação do ensino público no nosso país não começou, como todos sabemos, com Maria de Lurdes Rodrigues e, se a qualidade desse ensino não desceu ainda mais, tal deve-se aos professores, à sua dedicação, ao seu empenhamento (àqueles que não se podem honrar disso, avalie-se, forme-se, e excluam-se até da profissão os que eventualmente se fechem a qualquer avaliação formativa).
Penso, pois, que é preciso "animar a malta". Mas penso também que é preciso que esse ânimo se volte para o "acordar a malta" - "malta" aqui muito mais ampla, estendendo-se à tomada de consciência de uma opinião pública que a actual equipa do Ministério da Educação tacticamente começou por manipular a ponto de a senhora Maria de Lurdes Rodrigues poder atrever-se a essa frase insana "Perdi os professores mas ganhei a população".

E mais não escrevo - deixo o "animar" e o "acordar" para os mais novos (e também para os que ainda estão nas escolas por serem menos 'velhos') do que eu.

segunda-feira, setembro 25, 2006

A visão que falta a quem não está no "terreno"

É estranho isto de já não estar numa escola. Não é que uma só escola dê uma visão representativa do geral, mas sempre fornece algum indicador.
Sobre a actual política educativa no nosso país, continuo a poder saber tudo, e sobre a acção dos acólitos que diligentemente se esforçam por manter o apoio da opinião pública a essa política (penso que já com menos facilidade), também é fácil continuar actualizada. Mas já não ouço, não observo, não sinto o lá de dentro mesmo da escola. E suponho que permanece em vigor a proibição de professores responderem a jornalistas, se interrogados na qualidade de professores de uma escola A ou de uma escola B.

É verdade que no próximo dia 5 muitos professores 'falarão' na rua, mas vão falar essencialmente do projecto de ECD - e com toda a legitimidade -, mas o que a generalidade dos professores pensa desse projecto já eu sei, e queria saber também outras "coisas". Queria saber indícios dos efeitos das medidas da actual ministra da educação, provavelmente até já perceberia alguns se tivesse estado presente numa qualquer amostrinha dos conselhos de turma deste mês. Sua excelência não mandou que estes se organizassem logo em Julho para elaborar projectos de turma? Ou estarei equivocada, pois as turmas são constituídas por alunos, cada uma por estes e não por aqueles, e isso de projectos adequados a cada uma quando vários professores nem a cara dos alunos viram pareceu-me esquisito... Se calhar, Maria de Lurdes Rodrigues não os distingue, não são eles afinal números estatísticos?

E assim, neste não estar no terreno e, ainda por cima, com as escolas a serem silenciadas, não me está a ser fácil o silêncio que, do dentro delas, me chega, bem como a falta de sentir, de "apalpar". Contudo, eu deixei de estar na escola há apenas dois meses e, mesmo que fossem bastantes mais, não deixo, por isso, de conhecer bem e directamente o sistema educativo português desde os tempos da reforma Veiga Simão, conheço os efeitos das sucessivas políticas educativas, das reformas e das várias e diferentes medidas - efeitos na escola pública e no sucesso-insucesso dos seus alunos. Conheço directamente o crescimento das dificuldades e problemas resultantes da massificação do ensino no contexto das realidades sociais do nosso país e, acerca destas, as prioridades e não prioridades políticas, ou as vontades políticas e as faltas de vontade política. Conheço também directamente as sucessivas questões laborais e os comportamentos da classe docente face a elas, bem como as constituições dos sindicatos, evoluções e respectivas acções , tanto mais que não só sou a sócia número 198 do SPGL, como fui delegada sindical durante cerca de 20 anos consecutivos e me mantive, depois disso, muito atenta. E conheci ainda diferentes gerações de professores - não que cada geração seja uniforme, mas não deixa de ter alguma tipicidade -, e, nessas diferentes gerações, não deixaram de ter reflexos os respectivos modelos de formação-profissionalização.
Conheço essencialmente o ensino básico, tenho uma menor percepção do ensino secundário, mas ninguém negará esta afirmação: Não sendo suficiente para garantir a formação dos jovens portugueses, a sua preparação para a vida e o mundo do trabalho (especialmente nesta época em que devem ser preparados para uma contínua formação profissional, para uma constante actualização), não sendo suficiente, dizia, um sistema de ensino básico ou de escolaridade obrigatória de qualidade e exigência e que dê resposta adequada quer à época actual, quer às realidades sociais, tal é, indubitavelmente, condição necessária sem a qual ficará "aleijada" a restante escolaridade, ou a formação profissional subsequente.

Ora, se eu até já sinto falta de continuar no "terreno" para intuir efeitos das medidas da actual ministra da educação, como podem os cidadãos que não são nem nunca foram professores pronunciarem-se tão facilmente como o fazem sobre estas e aquelas medidas e distinguirem as válidas e adequadas das meramente hipócritas? E a pergunta maior é como podem os acólitos, fazedores da opinião pública ou influentes nesta, dormir de consciência tranquila depois de diligentemente propagarem as suas "análises" sem nada conhecerem directamente do referido "terreno"?
É verdade que, no estado em que está o país, serão necessárias algumas medidas ditas economicistas, mas o cidadão comum não aderirá de boa vontade a sacrifícios enquanto vê os escandalosos exemplos de tantos dos que mais podem. Como também os professores não aderirão, pelo menos com a mesma motivação, o mesmo entusiasmo e até com a paixão pelo ensino que caracteriza tantos, nem a medidas sobre as quais nem são ouvidos, impostas com recurso a uma "táctica" já reconhecida noutros países como erro colossal e que é a de denegrir a sua imagem, nem a justificações, em nome da educação-ensino para todos, que percebam eivadas de enorme hipocrisia.

E, já que referi reflexos dos modelos de formação de professores nas respectivas gerações, considero, por exemplo, também insólito o projecto de um exame para ingresso na carreira docente do ensino não superior quando prioridades economicistas já antigas alteraram uma formação inicial exigente quer na vertente científica, quer na vertente da profissionalização, juntando ambas no mesmo tempo de duração que tinha a primeira e retirando, para um ensino tão fundamental ao subsequente como é o do 2º Ciclo, a formação através da prática em estágios em que o professor se formava leccionando, sob orientação, turmas que para o efeito lhe eram atribuídas (para não falar das alterações propostas pela actual ministra aos estágios para 3º Ciclo e Secundário). Das duas, uma: Ou é de qualidade credível a formação ministrada pelas instituições formadoras, ou, se não é (ou nos casos em que não é) os governos não podem alhear-se disso por conveniências economicistas ou por compadrios e não podem deitar-se as responsabilidades exclusivamente para cima dos professores sem se exigir a responsabilização por parte das referidas instituições.
Não podem, em suma, ser compatíveis intenções de melhorar e adequar o sistema de educação e ensino com utilização do ensino público para amealhar tanto dinheiro quanto se consiga.

Que sabe a opinião pública em geral de tudo o que fui referindo em termos de reflexos na escola, na educação, no ensino? Que sabem disso tudo boa parte dos militantemente comentadores quer sobre a "bondade" desta ministra, quer sobre a "maldade" dos professores?

segunda-feira, junho 26, 2006

Plano de Acção para a Matemática - I

Nota prévia:
Neste meu comentário (e na sua continuação noutro post), cingir-me-ei às medidas para o 2º Ciclo ou para escolas com 2º e 3º ciclos, e a serem implementadas desde o início do ano lectivo de 2006/2007.

Medida 1 -
Elaboração de Planos de escola de combate ao insucesso na Matemática
[Em síntese - Um conjunto de medidas que possibilitem, a médio e longo prazo (final do ciclo) melhorar os resultados dos alunos, partindo da análise dos resultados destes e de cada turma].
Nada poderia ter a objectar, obviamente, se, na restante redação desta medida, alguns "pormenores" prescritos me não parecessem perigar de conduzirem a uma grande diferença entre uma orientação de trabalho correcta e o desvio desse trabalho do essencial para o acessório de mais papelada a redigir, sob ordens exteriores, e a enviar (no que está implícita a ideia de controlar) a quem, provavelmente, nada sabe sobre causas de insucesso ou de desmotivação relativas à Matemática, sobre os diversos porquês de resultados em exames e sobre estratégias para minimizar tudo isso.
O que eu vejo de pernicioso e desviante do essencial não é, claro, a concepção de planos e de projectos, nem sequer uma necessária redacção que defina as suas linhas essenciais, mas sim o efeito perverso, que sobejamente tenho constatado, da feitura imposta do exterior de documentos com todos os rr e ss e, pior ainda, se para serem exibidos, ou submetidos à apreciação de quem não intervém na execução do que é planeado.
Precisamente para explicar esse efeito perverso é que escrevi um Preâmbulo em entrada que antecede a presente e no qual descrevi dois exemplos, seguidos de outro alusivo à diferença entre conceber (um plano) e burocratizar (um plano).
Em suma, a Ministra da Educação não se limita, como devia, a traçar uma orientação, que é correcta. Quer papeis para controlo, esses papeis cuja redacção acaba por passar a primeiro plano, e cuja imposição de fora parece advir da irrealista ideia de que o empenhamento e a superação de eventuais não empenhamentos dependem da escrita de um plano.
Outro "pormenor" acresce: o plano e seu cumprimento será supervisionado por um Supervisor do GAVE. Quem? Um competente professor de Matemática, experiente no respectivo nível de escolaridade?

Saltando a medida 2 (relativamente inócua),

Medida 3 - Desenvolvimento, no âmbito do Plano a apresentar ao ME, de projectos de trabalho conjunto entre os professores de Matemática e de Português.
Eu diria: finalmente!!! Mas... aquelas palavrinhas no meio - "no âmbito do Plano a apresentar ao ME" - levam-me a temer 'projectos' = 'projectos' + 'papelada bonitinha acessória', ou seja, a considerar também um pouco o que já disse a propósito da Medida 1.
(Sem que este reparo invalide não só a importância de não ser esquecida pelos professores de Matemática e de Português a interacção entre o desenvolvimento do pensamento lógico-matemático e o do uso compreensivo e preciso da línguagem, mas também a pertinência, direi mesmo necessidade urgente de, ao menos em conselhos de turma, os referidos professores sairem dos seus compartimentos - e também os outros, que não estão dispensados de concorrererm para o desenvolvimento, nos alunos, de competências quer no domínio do português, quer no âmbito de algumas competências que certas pessoas parecem entender como específicas da Matemática, mas que não são de facto desenvolvíveis só nesta.)
Quanto a estas, paro por hoje os meus comentários.
Paro, porque eu nem tenho nada contra supervisores numa perspectiva de avaliação - formativa -, muito menos tenho contra a formação contínua ser proporcionada, foi sempre uma reivindicação dos professores, mas esta ministra tem o jeito de tornar o que seria natural e desejado em algo que eu já tinha na cabeça como título de outro post - Humilhação?
Adianto apenas que uma coisa é formação contínua, outra é pôr em causa a formação académica de que partiu a preparação do professor (sem, no entanto, note-se, pôr em causa nenhuma instituição formadora), e anda a parecer-me que a Ministra tem um especial jeitinho para dar a ideia de que os professores de Matemática não sabem Matemática (ao que não vão escapar os do 3º Ciclo e do Secundário, tal como os muitos que leccionam essa disciplina no 2º Ciclo com uma licenciatura universitária específica ou afim. (Alguns colegas, formados para o ensino do 2º Ciclo posteriormente à década de 80, se acaso carecem de formação científica, foi porque os formadores de ESEs e Institutos congéneres não a tinham, ou, aos que a tinham, foram dadas umas escassas horas para a ministrar, que as outras todas eram precisas para as Ciências da Educação!).
Mas, como disse, não tencionava comentar hoje aquelas medidas, já escrevi, portanto, umas linhas a mais, um comentário com alguma maior ponderação fica para outro dia em que, para tal, tenha disposição e... calma.

P.S
.:
Bem, esfreguei os olhos, voltei a lê-la, era mesmo o que tinha lido à primeira vez. Embora não faça parte das que serão implementadas no início do próximo ano lectivo, já não ficarei apenas por mais uma entrada a concluir a presente, vai mesmo sair-me outra só dedicadinha à Medida 12.
____________________
ADENDA
O comentário do Miguel Pinto a esta entrada fez-me tomar consciência de que, neste meu modo de escrever depressa, "ao correr da pena", quando escrevo na blogosfera, deixo pensamentos pouco claros para quem lê. Assim, esclareço que, ao ter feito referência à formação ministrada por "ESEs e Institutos congéneres" e às horas destinadas às Ciências da Educação (conjuntamente com as destinadas às disciplinas específicas, no caso, Matemática e Ciências da Natureza), de modo nenhum considero que, mesmo face à escassez de tempo para tantas disciplinas, as chamadas disciplinas das Ciências da Educação possam ser prescindíveis. Tratando-se de licenciaturas para o ensino com profissionalização integrada, não seria pensável que abrangessem apenas disciplinas de Matemática e Ciências. A questão está, a meu ver, é no 'início de tudo isto', início subsequente à Lei de Bases do Sistema Educativo, com a institucionalização de um novo modelo de formação específico para a leccionação do 2º Ciclo e com a estruturação e ministração dos respectivos cursos pelas ESEs e outros Institutos, sendo do conhecimento geral que a própria qualidade varia e é criticável em bastantes casos, ressalvando-se que nem é justo 'meter no mesmo saco' todas as ESEs quando se referem deficiências, nem esquecer que, paralelamente às ESEs, proliferaram Institutos, sendo também do conhecimento geral que alguns deles têm prestado um mau serviço. Mas, esta questão ultrapassa o assunto da presente entrada, pelo que apenas saliento o esclarecimento acima.

domingo, maio 28, 2006

ECD isolado do contexto/fundo para que não querem olhar

De casa da filha, enquanto as crianças estão entretidas, venho tentar contribuir para o apelo urgente feito no Aragem, de uma forma pouco desejável que é a da pressa, mas destacando o que essencialmente já pensava. E não me detenho no articulado inaceitável ou mais gravoso, pois esse está a ser apontado por outros, pelo menos no Aragem e, julgo, no OutrÒÓlhar - vou para o "antes disso".
1.
O ECD faz parte da história da luta e das conquistas dos professores, e, de repente, uma ministra arrogou-se o direito de, sem um sério estudo e uma credível fundamentação, começar por o torpedear preparando terreno para, num ápice, de facto o revogar. Que deve ser revisto, que, nomeadamente, a questão da formação contínua, da avaliação dos professores e da consequente progressão na carreira deve ser assumida e discutida, é verdade. Mas esta ministra, além de não ter na sua "natureza" o sentido do diálogo, já revelou sobejamente a sua obsessão fanática de perseguição dos professores. Porque, sem os professores e contra eles, é provocar o suicídio do sistem educativo, a minha primeira proposta a quem, eventualmente, tenha influência junto de Sócrates, é que use, nem que seja como táctica, o que penso que foi a táctica de Eduardo Prado Coelho no artigo recente que todos lemos: Sem pôr Sócrates em causa, antes pelo contrário, insinuou a necessidade de demisssão da ministra como estando a prestar àquele um mau serviço, o que o mesmo não teria tempo para observar atentamente.
2.
A população, que não está "por dentro", louva a ministra por ver nela uma determinação em melhorar o sistema de ensino, e isso compreende-se. Mas nós sabemos que, se é necessário resolver o problema dos maus professores, desleixados e desinteresssados de uma formação contínua (que os há, embora eu continue crendo que são uma minoria), sabemos também que, para uma avaliação correcta e isenta do trabalho dos professores, urge primeiro rever/avaliar alguns modelos de formação inicial e repor um sistema de formação contínua (o direito a ela foi uma reivindicação dos professores, ainda se lembram?) que não volte a degradar-se pela formação de "pelouros" nos centros de formação, centros que nunca procederam a levantamentos das necessidades concretas dos professores das escolas que abrangem, e que se foram fechando e privilegiando as ofertas que ao grupinho dos formadores instalados convinha manter e repetir (trabalho já feito, só fazer render considerável remuneração em anos consecutivos) - esta é uma realidade, não sei se geral, mas sei que bastante existente. Por isso, a minha segunda proposta a quem, eventualmente, tenha influência junto de Sócrates, é que lhe aponte a prioridade de avaliar e, corajosamente, escolher um novo ministro e respectivos acessores, não vinculados a interesses, que se debrucem sobre os sistemas de formação (inicial e contínua) e ajam sobre os que, instalados, muito mau serviço têm prestado ao ensino.
3.
Que o eventual novo ECD, estabelecendo uma carreira sobre a hierarquização agora proposta e lançando a competição entre professores, terá consequências muito nefastas na vida e ambiente das escolas, com o negativo reflexo nos alunos, inevitável numa escola desestabilizada, parece evidente. Mas não o é para a cabeça de uma ministra que, além de agir sob preocupações prioritariamente economicistas e coadjuvada por um secretário a quem pessoalmente interessa tudo menos "mexer" nalguns males, opta pelo mais fácil (mas ineficaz), que é pôr ( e pela intimidação e prepotência) para cima dos professores o que a estes compete e mais tudo o que compete à política educativa e social, assim levando ao extremo a desresponsabilização, que já era tendência de outros governos. Assim, a minha terceira proposta a quem, eventualmente, tenha influência junto de Sócrates, é que lhe abra os olhos para as evidentes consequências negativas que referi no início deste ponto 3.
(Terceira e última proposta, por agora, nesta corrida sobre as teclas)

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Da minha leitura no serão de ontem

Li quase de ponta a ponta o 1º número da nova revista sobre política educativa, Pontosnosii, cujo anúncio também recebera no mail. Há opiniões sobre vários subtemas, e opiniões não deixam de ser provocadoras de pensamento, pontos de vista contribuem para que este não permaneça estanque sobre as questões que nos tocam ou preocupam. Mas, nesta como noutras publicações, mesmo separando de opiniões pouco ou nada sólidas outras mais sólidas, estas últimas não deixam de ser o que são: opiniões. Assim, o que eu mais destacaria no que li é uma frase, logo no editorial, pois ela tem implícito um princípio que não é uma questão de opinião, mas sim inquestionável - a necessidade de fundamentação. "Continuaremos a aceitar comodamente que opções determinantes para o futuro dos nossos filhos e da nossa terra sejam tomadas pelos «tudólogos», (os que sabem tudo e de tudo) que não sentem necessidade de fundamentar coisa alguma?"
Fundamentar... eis a questão, o princípio. De qualquer equipa ministerial espera-se responsabilidade e rigor intelectual, espera-se que as opções sejam tomadas depois de fundamentadas. E fundamentos são estudos, conhecimento, procura, inclusivamente, de experiências internas ou de outros países para análise das bem sucedidas e não repetição das que provaram ineficácia. E fundamentos requerem recurso a colaborações especializadas e validadas, isento de favoritismos nas irmandades de cores político-partidárias. Espera-se ainda não precipitação, ponderação das realidades a que se vão aplicar as opções, pesagem também de efeitos que possam reverter em consequências negativas o que potencialmente comporte resultados positivos.
Qualquer equipa ministerial que mexa em coisas tão fundamentais como a educação, a formação e o futuro das nossas crianças e jovens, começará por ser imaturamente atrevida se não se nortear por tais princípios. Passará a ser irresponsável se, ao traçar directivas ao trabalho dos profissinais de ensino, passar por cima dos saberes e experiência existentes nessa profissão (profissão, não apenas teoria sobre ela). E passará finalmente a ser culpada se desprezar os referidos princípios quando pretender ir mais longe e mais fundo que meras medidas avulsas e reversíveis ou corrigíveis - pois ir mais longe e mais fundo sem esses princípios leva a que cobaias de reformas se tornem irremediavelmente vítimas das mesmas.
Mas, aqui como pelo mundo, a classe política tem o privilégio da impunidade, pelo que nos resta esperar seriedade, fundamentação fidedigna, e também uma coisa simples que se chama bom senso.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Repetindo: carroça à frente dos bois.

Permito-me transcrever os dois extractos abaixo, do artigo de João Rangel de Lima publicado no Inquietações Pedagógicas. Permito-me porque o primeiro traduz o que sempre considerei o maior erro da actual ministra da educação e escrevi, por outras palavras (menos suaves), em 27 de Setembro: (...)Poderá a Srª Ministra da Educação ter tido boas intenções, possíveis de virem a dar frutos. Mas, a sua precipitada e obsessiva preocupação prioritária de estarem os alunos sempre ocupados na falta de professores, sobrepondo essa obsessão à viabilização, nas escolas, de ocupações pedagógicas (que, se acaso sabe o que isso é, pelo menos não faz a mínima ideia de que não se improvisam, mas sim se preparam mediante projectos e recursos) destruiu o que, eventualmente, poderia corresponder a intenções válidas.(...)

"A Srª Ministra não fala com os agentes educativos antes de decidir e tem um péssimo sentido de timing. Se assim não fosse, teria tido a calma de, durante este ano lectivo, apresentar o seu projecto de componente não lectiva e teria tido a dita de ouvir sugestões úteis e as Escolas teriam tido tempo de estruturar os tempos referidos em respostas úteis e realmente transformadoras da Escola. No próximo ano lectivo concretizar-se-ia o projecto."
(...)
"Não podemos continuar a oscilar entre estes dois desgraçados polos que têm marcado a nossa História: diálogo permanente sem decisão ou decisionite autista e arrogante. A primeira cria a deriva e o caos, a segunda uma ordem inoperante e crispação social - no próximo dia 18 há greve de professores."

sexta-feira, outubro 07, 2005

Reflexos da passagem de uma ministra pelo ME

Um comentário-resposta do Miguel Pinto a um meu comentário (pergunta) relativo ao seu texto [Ex]citação, embora eu partilhe do essencial do seu ponto de vista, suscitou-me um receio.
Tendo começado por lembrar que tentativas de soluções e erros, no domínio da educação, dos nossos administradores (actuais e anteriores) não são originais, mas repetições do que já foi testado em países mais desenvolvidos que o nosso, o Miguel diz: "O problema é que o nosso atraso educacional é imenso quando comparado com esses mesmos países e não nos podemos dar ao luxo de perder mais tempo. Já que os nossos ministros insistem em andar de costas voltadas para a investigação em educação seria bom que os professores se antecipassem e agissem em conformidade com os resultados desses trabalhos."
Mas o que interrogo, nesta perspectiva do Miguel, é a ideia, que também expressa, de que, tal como a dos antecessores, a passagem desta ministra pelo ME "deixará um rasto mais ou menos inócuo".
Ora, embora admitindo que o meu receio enferme de uma subjectividade decorrente da minha pessoal e muito forte reacção a determinadas atitudes que me lembram ambientes sufocantes do passado, receio de facto que a passagem desta ministra pelo ME seja bem menos inócua que outras, pelas marcas que poderá deixar nos professores, na sua disponibilidade e no seu modo de encarar a sua participação em mudanças no sentido da qualificação da educação dos jovens portugueses.
Por um lado, cada professor que tenha a consciência e o reconhecimento externo de cumprir a sua missão com profissionalismo e dedicação não terá deixado de sentir o direito à protecção do seu bom nome lesado por fazedores da opinião pública, sobretudo por altura de Junho-Julho últimos - e não sei se será fácil esquecer isso. Foi um primeiro grave erro da presente administração, pois não deixou de ser conivente com tal.
Por outro lado - e outro grave erro - foi a extrema prepotência, fortemente agressiva para os que se norteiam por princípios democráticos, caracterizada pelo desprezo quer por uma apresentação prévia de projectos aos intervenientes no processo educativo, quer por qualquer diálogo com os mesmos.
Cingindo-me neste post às medidas directamente dirigidas à educação e ensino (e até independentemente de, em nome da sua melhoria, serem arremedos de educação ou de pedagogia), não esqueço que os sindicatos têm um papel próprio e um âmbito negocial delimitado por esse mesmo papel. Mas, que se saiba, também não houve consulta nem diálogo quer com entidades individuais ou colectivas de reconhecido conhecimento da investigação em educação (insistência em lhe manter as costas voltadas, como lembra o Miguel, numa preferência por conselheiros mais convenientes e de duvidosa credibilidade), quer com as associações profissionais de professores, vocacionadas não para a vertente sindical, mas para a recolha do património nacional e internacional no âmbito do conhecimento em matéria de educação, ensino e aprendizagem e para a sensibilização dos professores para o mesmo. No entanto, estas associações têm estatuto legal como parceiros no âmbito de pareceres e diálogo. (Um parêntesis para esclarecer que a APM foi chamada a participar na elaboração do programa de reforço da formação em Matemática dos professores do 1º Ciclo, mas essa chamada insere-se numa colaboração técnica, escandaloso seria se fosse esquecida dado o seu conhecimento dos amplos e valiosos trabalhos feitos no âmbito da educação matemática. No entanto, não eram ouvidas as suas chamadas de atenção para as insuficiências e deficiências - degradação, digo eu menos delicadamente - dos cursos de formação de professores do 1º e do 2º Ciclos). Não houve, igualmente, qualquer auscultação aos que, no terreno, bem conhecem medidas prioritárias que urgiria serem tomadas.
Este desprezo pelo diálogo foi demasiado ostensivo para que venha também a ser fácil aos professores esquecer o que foi, em suma, público desprezo por eles mesmos. E, por mais que saibamos que as medidas são economicistas e não de verdadeira preocupação com a educação, há limites que têm a ver com a dignidade profissional e não só, também com, globalmente, a dignidade pessoal.

São estes os receios que deixei dito ao Miguel que expressaria.
________________________________
Adenda:
Acrescento a sugestão de leitura do Miguel:
Philippe Perrenoud (2002). Aprender a negociar a mudança em educação.

E transcrevo também este extracto do comentário que aqui deixou:
"Na contracapa diz o seguinte: […] uma reforma conduzida sem ou contra os actores não só falha como deixa feridas e contribui para o desenvolver de mecanismos de defesa contra toda a inovação. […]
A Dra. Maria de Lurdes estará preparada para lidar com os efeitos das mudanças que pretende operar no sistema?"

terça-feira, outubro 04, 2005

A que (des)propósito terei sorrido?

(Ao reler esses princípios)



In Convenção sobre os Direitos da Criança, 20 de Novembro de 1989, Nações Unidas - ractificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990 (destaques meus):
"
A Convenção assenta em quatro pilares fundamentais ...
(...)
• o interesse superior da criança deve ser uma consideração prioritária em todas as acções e decisões que lhe digam respeito.
(...)
• a opinião da criança que significa que a voz das crianças deve ser ouvida e tida em conta em todos os assuntos.

Artigo 1
Nos termos da presente Convenção, criança é todo o ser humano menor de 18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade mais cedo.

Artigo 18
1. Os Estados Partes diligenciam de forma a assegurar o reconhecimento do princípio segundo o qual ambos os pais têm uma responsabilidade comum na educação e no desenvolvimento da criança. A responsabilidade de educar a criança e de assegurar o seu desenvolvimento cabe primacialmente aos pais e, sendo caso disso, aos representantes legais. O interesse superior da criança deve constituir a sua preocupação fundamental.
2. Para garantir e promover os direitos enunciados na presente Convenção, os Estados Partes asseguram uma assistência adequada aos pais (...)

Artigo 31
1. Os Estados Partes reconhecem à criança o direito ao repouso e aos tempos livres, o direito de participar em jogos e actividades recreativas próprias da sua idade e de participar livremente na vida cultural e artística.
"

terça-feira, setembro 27, 2005

Ao menos nisto, passividade... Não!

Do abaixo assinado lançado pela FenProf, recorto e transcrevo apenas o que se segue porque se refere ao "ao menos nisto" do título deste post. (Os destaques são meus)
"Abrir um processo negocial sério, objectivo e participado que permita reverter (...) a construção de horários dos docentes que descaracterizam profundamente os aspectos essenciais da sua profissionalidade, provocam um incalculável desgaste físico e psicológico tanto mais trágico quanto em nada contribui para uma melhoria real do funcionamento das escolas nem para a melhoria do ensino e das aprendizagens dos alunos."

Que Sócrates e seus ministros, face às sua prioridades economicistas pressionadas por um alarmante déficit (aonde ele remonta nem é dito), tomem medidas correctas ou incorrectas, favoráveis ou prejudiciais ao objectivo, ou mesmo justas ou injustas, não prepotentes ou prepotentes, disso pode dizer-se que têm uma (mesmo que só esta) legitimidade: a da maioria - e absoluta - concedida democraticamente nas urnas de voto.

Mas já legitimidade alguma vejo na intromissão na educação e ensino de quem revela ignorância dos objectivos educacionais e do que concorre para os favorecer e reforçar.
(Qanto ao seu manual, Dr. Valter Lemos, este podia 1º ter mostrado o seu brilhante curriculum na oportunidade que teve de intervir na fraude que são várias ESEs e institutos onde os futuros profesores de 1º e 2º ciclos têm que se conformar com a formação que lhes é proporcionada)
Poderá a Srª Ministra da Educação ter tido boas intenções, possíveis de virem a dar frutos. Mas, a sua precipitada e obsessiva preocupação prioritária de estarem os alunos sempre ocupados na falta de professores, sobrepondo essa obsessão à viabilização, nas escolas, de ocupações pedagógicas (que, se acaso sabe o que isso é, pelo menos não faz a mínima ideia de que não se improvisam, mas sim se preparam mediante projectos e recursos) destruiu o que, eventualmente, poderia corresponder a intenções válidas. Destruiu, porque exigiu dos professores a ocupação do tempo em tarefas inevitavelmente mais anti-pedagógicas do que pedagógicas (porque os professores não conseguem fazer omeletes com ovos podres e ficaram sem tempo disponível para encontrar os ovos sãos) ; destruiu ainda mais (também por ignorância pedagógica?) ao desrespeitar a dignidade profissional do professor (que é também a dignidade do ensino); destruiu mais ainda pelo ambiente de confusão em que obrigou o ano escolar a iniciar-se (não vislumbrando mais nenhuma condição para que ele comece bem senão a colocação atempada dos professores); e finalmente, matálo-à definitivamente se não descobrir a tempo que é impossível dignificar o ensino desprezando os professores.
Coloco este post, porque ninguém poderá insinuar que não quero trabalhar : tenho na escola as 23 horas mais as horas das reuniões (e com mais 2 horas lectivas a substituir uma redução por cargo pedagógico que continuo a exercer), em vez das 14 + horas das reuniões que tinha (num horário total que nunca ficou aquém das 35 h e agora ainda não fiz as contas a quantas chega), bastante cansada mas pelo menos com o gosto de estar, por acaso, com uma tarefa pedagogicamente válida, numa equipa que está a concretizar um projecto de integração de alunos "problemáticos", já aprovado e preparado antes de a escola imaginar as medidas que se avizinhavam.
E, pese o inconveniente da extensão do texto, não termino sem demosntrar a justeza das acusações que acima fiz à Srª Ministra (pena que não venha até à bolgosfera docente), com um pequeno mas bem elucidativo exemplo. Face às preocupações com a Matemática, fiz em Julho, ao saber do aumento das horas na escola, o levantamento dos alunos (em número alarmante) que iam ingressar no 8º e no 9º sem nunca, incluindo o 2º Ciclo, terem tido mais que nível 2 nesta disciplina, para que se desse um apoio suplementar destinado a aquisição daquelas bases mínimas sem as quais fica impossível a qualquer profesor, nas horas curriculares, conseguir recuperá-los e integrá-los, mesmo quando estão receptivos a isso. Soube posteriormente que tinha sido impossível conseguir essas horas porque não sobrava nenhuma, das necessárias para ter professores disponíveis em todos os tempos com vista à prioridade imposta de serem ocupados os alunos em qualquer falta de um professor.
Quem tiver tido paciência de me ler até aqui, vê bem nisto uma amostra da cegueira da Srª Ministra quanto às prioridades.
Mas... fica-se passivo???!!!

sexta-feira, agosto 26, 2005

Preparando-me...

Com o regresso à escola a aproximar-se, já recortei dos catálogos de livros as compras mais urgentes.

Este último
(O Feiticeiro de OZ)
não é para mim, é para ofercer à Milu R.

Ah! E também não me posso esquecer de comprar esse recipiente que falta na sala de professsores, que o presidente do C.E. não consegue pensar em tudo, apesar de se desvelar na protecção do ambiente.


P.S. Tudo compras para consumir na primeira quinzena de Setembro, claro. Depois, tenho os alunos, portanto, depois, não me chateie, Senhora Ministra, que só repararei em si se acaso fizer alguma coisa por eles.

terça-feira, agosto 16, 2005

Ainda em férias

Com mais dezena e meia de dias, agora quase todos cá pela cidade, vou já pendurar em casa coisas que a memória trouxe no saco de viagem, para manter o ambiente. Até ao regresso à escola, a que decerto não resistirão penduradas face ao clima ventoso previsível. Na sequência da já ocorrida precipitação ministerial, confesso que antevejo denso nevoeiro a dificultar a distinção entre medidas pedagógicas para diminuir o deficit das aprendizagens dos alunos e camuflagens hipócritas de medidas apressadas por ditames europeus para redução de outro deficit - o DEFICIT.
De tão súbitas preocupações com o sistema educativo eu até diria que repararam na carroça com seu burro há tempo de mais estacionada, mas disto de pô-la a andar à frente do burro é melhor não dizer nada para não perturbar as minhas imprescindíveis férias!

segunda-feira, julho 04, 2005

Só coisitas soltas (vassourada)

Ao iniciar este blog não previa que o final do ano lectivo, já relativamente próximo, viesse varrer, para um canto adiado, memórias de professora de Matemática com a vassourada decorrente do caso geral e de fundo que é o sistema educativo português, de súbito a saltar de boca em boca, para muitos perfeitinho se não fossem os professores, para alguns (que haja alguns, ao menos!) com as suas profundas mazelas.
Vassourada, porque o caso traz outras memórias, não de professora de Matemática, mas de professora (ponto final); vassourada, também porque não deixei de ser atingida pela vassoura que procurou varrer para o banco dos réus os professores – ao molho, sejam os maus exemplos que sei que há (e há em todas as profissões), sejam os tantos e tantos que se dedicam ao ensino com profissionalismo, competência e muitas vezes persistência e sempre persistência, sem qualquer apoio, em iniciativas que tentam colmatar problemas escolares (melhor dizendo, de desmotivação e desinserção escolar) de cada vez maior número de alunos, que, como toda a gente sabe, mais não são que o reflexo de problemas sociais que a sociedade não resolve (mas esta não se senta no banco dos réus).
E esta segunda vassourada stressou a minha memória. Stressou sobretudo porque o eterno stressa e eternamente são precisos réus e eternamente é preciso que encham bem o banco para que não fique espaço para lá sentar (também) os primeiríssimos responsáveis – os de hoje, os de ontem, os de há bastantes anos, neste caso da esfera da educação no nosso país.
Por isso aqui vão ficando, até uns dias de férias para relaxar, nem memórias soltas de professora de Matemática nem outras memórias soltas de professora – só coisitas soltas. Apetecia-me até ter à mão coisas poéticas, que a poesia faz-nos falta e o deficit não é nada poético
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