domingo, outubro 30, 2005

Adenda à adenda

The Mirror

Sergei Samsonov









Ai estes adolescentes...










Giovanni F. Caroto, Youth Holding a Drawing

Adenda...

... Duas histórias.
(Não as vou contar por considerar que sejam significativas no conjunto das provas nacionais, mas porque uma me doeu pela menina de que se trata, e a outra fez-me pensar que teria sido educativo para a aluna que o resultado não se limitasse a ser um 3 em vez do 4 de frequência, mas que fosse uma negativa mesmo. E a 1ª história já a tinha contado ao Rui no (In)Docentes , a propósito de critérios discutíveis de alguns items, só que ainda não tinha analisado o resto da prova).

1ª história
A S. era uma aluna com algumas dificuldades, no 8º ano dei-lhe sempre nível 2. Mas era uma menina com uma baixa auto-imagem quanto às suas capacidades, pelo que dizia que em Matemática nem valia a pena tentar melhorar, que era a disciplina mais difícil. Preocupei-me em tirar-lhe essa ideia, encorajei-a e, depois de ter conseguido resultado positivo no penúltimo teste do 9º ano, foi feliz no teste global (não os dispensei dele, ainda que estivessem dispensados da formal prova global), embora com uma positiva baixinha. Não hesitei em atribuir-lhe nível 3 final, apesar de pensar que não se aguentaria num exame que, previsivelmente (e correctamente) incidiria bastante em competências mais gerais que a S. ainda não tinha. Mas ela até não ia precisar mais de estudar Matemática, o que ia precisar, sim, era de mais autoconfiança.
Ao ver a classificação zero num item em que o critério fora criticado pelos correctores, fiquei triste, porque bastava terem atendido ao que os correctores consideravam para que a S. não se visse na pauta da sua turma com aquele marcante nível 1, ali único, isolado. Certo que não teria nível positivo, mas face aos resultados gerais nacionais, não era isso que faria que voltasse a sentir-se inferiorizada. Mas hoje, ao completar a análise, apeteceu-me ir ver na escola se ainda lá existiria o contacto dela (não o farei, é um assunto complicado). Porque o corrector da sua prova cometeu um erro, desrespeitando claramente os critérios do respectivo item, a que atribuiu zero em vez do sete devido, o que tiraria sobejamente aquele 1 à menina.
(Que esta história não sirva para acusar correctores, um erro acontece e alguns critérios requeriam muita atenção. No meu blog também entram sentimentos e afectos que desabafo, histórias pessoais ou humanas que têm significado para mim (neste caso para uma menina também), mas não têm significado no tema "resultados dos exames, critérios e causas")

2ª história
A C. era uma aluna dotada mas com uma enorme preguiça. Só por esta preguiça é que chegou a oscilar comigo entre o 3 e o 4, mas depois de mais do que uma vez termos conversado, lá se empenhou e fixou-se no 4 (com uns cincos nalgumas disciplinas). Não apareceu nas aulas que mantivemos na escola após o fim oficial do ano lectivo para o 9º ano. Depois do exame, percebi logo que não lhe tinha ligado nadinha. Agora, ao ver a prova dela, verifico que foi um exemplo exagerado relativamente ao menor esforço que muitos alunos fizeram por o resultado "não contar". A C. só teve nível positivo na prova porque respondeu correctamente aos items que apenas requeriam raciocínio, mas não se deu ao trabalho de responder a nenhum dos que requeriam cálculos escritos. Até a inequação deixou em branco (o que suponho que mais nenhum aluno meu fez, e vi provas de alguns que eram alunos daquele 3 não médio e seguro). Em suma, esta história só para imaginar que a mãe e encarregada de educação lhe aplicaria um valente sermão educativo se a soubesse. (Mas não deixo de me lembrar de alunos até bastante necessitados das aulas suplementares que demos, cujos pais não os obrigaram sequer a aproveitá-las - a C. até nem precisava nada dessas aulas). (E não se interprete que acredito que esta atitude tão excessiva da C. tenha sido frequente)

Uff!!

Afinal... já tenho dois dos meus três testes elaborados, as próximas aulas preparadas e o montinho das 10 provas de exame analisado! E, afinal também, nenhum grande drama nestas, que os putos já costumam ser uns distraídos, no exame ainda mais que não valia a pena concentrarem-se muito pois o nível final estava garantido (testemunhos deles). Embora eu até não pense que, mesmo que o próximo exame se mantenha com o peso dos 25%, essa atitude se repita, pois (como um deles mesmo me disse quando o encontrei por acaso), face ao desastre nacional que levou a que também eles fossem comentados, não deixaram de se sentir envergonhados e decerto os próximos vão querer ser mais briosos.
Erro aqui porque não lêem bem qual é a pergunta, penalização forte ali porque até sabem resolver uma inequação e aplicar os princípios de equivalência, mas lá vem o esquecimento de um sinal ou um erro de cálculo com números relativos depois de outros cálculos sem erro, e o resultado fica estragado, conclusão errada e lá se vão os 7 pontos quase todos, mais o zero em vez de 8 na demonstração já por todos reconhecida como excedendo as exigências do programa, mais os pontitos descontados porque não atenderam a recomendações sobre a forma de apresentar a resposta, etc. Descontos justos, que sem dúvida têm que ser educados no alerta para que um dia, na profissão, uma falta de atenção pode ser grave, mas erros não graves, que eles ainda são muito putos.
Atenção: claro que não há só isto. Há outro facto que estamos fartos de constatar, esse sim bem relevante e preocupante, mas cuja causa é complexa. Com excepção dos alunos do nível 5 ou do 4 estável, é geral a dificuldade em interpretar problemas que requerem a mobilização de conhecimentos e a evocação que leve a identificar com qual ou quais se relaciona o problema. É o caso do item da proporcionalidade, em que, com alguma frequência (não me estou a reportar só a estas 10 provas, mas a uma amostra maior, de 3 escolas diferentes, que tive como correctora) aquela palavrinha "proporcionalidade" tão deles conhecida e tão trabalhada não lhes ocorreu. É o caso também do problema que resolveriam facilmente por um sistema de equações se fosse proposto no contexto em que estão a aprender a resolver sistemas e os aplicam em problemas, ou até numa prova global em que a matriz previamente distribuída lhes lembra quais os conteúdos que serão incluídos, mas que é bem difícil de entender porque não se lembraram que equações e sistemas de equações permitem resolver facilmente problemas daqueles (em todas as provas que corrigi, só me lembro de terem usado um sistema de equações as duas alunas que tiveram resultado de nível 5; quatro ou cinco outros seguiram uma estratégia por tentativa e erro e os restantes... item em branco!!!
Mas esta questão é mais séria, fica para depois do relatório em que vamos falar de causas (não vou ficar por só as enumerar, ainda que o mais certo seja que os relatórios não passem das reuniões onde os vamos levar). E quanto às estratégias para as ultrapassar (que desde Setembro reforçámos e redigimos para uso interno), também alguma coisa comentarei sobre o assunto.
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A.L., amiga e colega de tantos anos, aqui te deixo o desejo de que esta análise de provas das nossas turmas do 9º que ambas fizemos agora não te tenha reavivado mais ainda a tua memória recente. Sou mãe, é impossível duvidar que não possa haver drama maior que ele estar ali contigo ainda na véspera e deixar de estar de repente... e tão difícil compreender porquê! E àquelas duas turmas de 9º que recebeste sem as conhecer, uma a chegar-te tão perdida em Matemática, estoicamente não as deixaste, deste-lhes aulas suplementares a compensar aquelas a que seria humanamente impossível não teres faltado. Eu sei que adoras estar com os alunos, que eles ainda estão a ser neste momento o teu refúgio, não podia deixar de colocar aqui - mesmo que não dês por isso - a minha homenagem à tua força.
E como, sendo já tão absurda a conclusão que alguns mentecaptos apregoaram publicamente (e continuam a apregoar, só que menos publicamente), por causa de um exame, da incompetência geral dos professores de Matemática, fica isso mais absurdo ainda, não é?

sexta-feira, outubro 28, 2005

Interrupção por uns dias

Carlos Botelho (1935), Lisboa e o Tejo, Domingo

Até costumo ser organizada, mas esta semana não me tem apetecido pegar nas provas de exame, e não me servia de nada aproveitar a dispensa que podemos ter da componente não lectiva na escola, que levar para lá as provas para lhes pegar 45 minutos agora, mais logo outros tantos não me dá jeito, certas tarefas prefiro fazê-las numa ou duas assentadas e no sossego de casa. Mas, às provas (e ao relatório) juntam-se testes para elaborar, conselhos de turma, mais as tarefas habituais, profissionais e não profissionais, incluindo "a" de dormir diariamente.
Por isso, aqui o meu cantinho vai ficar abandonado nos próximos dias. Mas deixo acima uma confissão - o que gostava de ter em frente da janela da minha salinha de trabalho.

quarta-feira, outubro 26, 2005

contrastes...

Calm Sea

Hebry Moret (1896), Calm Sea at L’lle de Groux

Angry Sea

Thomas Moran (1911), The Angry Sea

Infiltrados??

Estava dialogando com um colega, noutro blog, sobre um assunto muito específico de um seu post decorrente da tarefa que ambos temos em mãos, como todos os professores que leccionam Matemática do 3º Ciclo - assunto relativo a critérios de classificação de respostas a alguns dos items da prova do 9º ano, critérios que na altura não só foram criticados pelos correctores, como também mereceram reparos da prestigiada APM. Espero poder continuar o diálogo (interrompido por intruso que não deve ter aprendido em pequenino o significado da palavra respeito) quando, após a análise que estamos a fazer de provas de alunos das nossas próprias escolas, aqui colocar um post relativo a algumas conclusões sobre pelo menos algumas das várias causas que considero concorrentes para certos resultados.
Acentuo aqui para dizer que, não me passando pela cabeça apagar alguma vez qualquer comentário que exprima opiniões opostas às minhas, passar-me-à sim de imediato não só pela cabeça como também pela mão enviar para a lixeira insultos - os quais, como é de esperar, só surgem sob a capa de anonymous. Anónimos que invadem um espaço alheio para comentários em que insistem repetidamente (alardeando até a qualidade de anónimo!), com afirmações injuriosas e gratuitas sobre quem não conhecem e que (no caso), dizendo-se professor, extravasam uma estranha raiva que legitima perguntar se será contra os colegas ou contra si próprio, pois, de facto, não devia ter o nome de professor/educador quem de educação dá o exemplo contrário.

Ganhei o dia

Não quero fazer campanhas neste blog (política... só política educativa - aqui, claro), por isso não ponho o link. Mas acabei de ir parar por acaso a um blog onde li um texto - "Que fizeram dos nossos sonhos, Manuel?" - que contém (também) um momento pouco conhecido da nossa História, década de 60. Emocionou-me... ganhei o dia.

terça-feira, outubro 25, 2005

domingo, outubro 23, 2005

domingo com jogos

Até foi uma tarde divertida. Eles brincaram sem pedir para irem para "aquelas" máquinas, também participei pois houve partida de bowling, e na hora do "tenho fome", "eu também", nem insistiram em ir ao McDonald's. Assim, foi só um nadinha pelos jogos e muito mais pelo post aqui, de Suzana Toscano, no blog Quarta República , que me lembrei de um texto que recebi há uns meses no mail (desses que correm de mail em mail, autoria perdida). Transcrevo-o, não tanto pela descrição - impossível de ser hoje real e impossível de não ser hoje insensatamente perigosa -, mas pela sua frase final.

"Será que nasceste nos anos 60 ou 70 ?
Como conseguiste sobreviver?
Os carros não tinham cinto de segurança, nem apoio de cabeça nem seguramente airbags.
No banco de trás era a festa, era divertido e não era perigoso.
As barras das camas e os brinquedos eram multicolores ou pelo menos envernizadas e com tintas contendo chumbo ou outros produtos tóxicos.
Não havia protecção infantil nas tomadas eléctricas, portas das viaturas, medicamentos e outros produtos químicos de limpeza.
Podia-se andar de bicicleta sem capacete.
Bebia-se água da mangueira de rega, num chafariz ou não importa qualquer outro sítio, sem que fosse água mineral saída de uma garrafa estéril.
Fazíamos carros com caixas de sabão e aqueles que tinham a sorte de ter uma rua asfaltada inclinada junto de casa podiam tentar bater records de velocidade e aperceberem-se, tarde demais, que os travões tinham sido esquecidos... Após alguns acidentes, o problema era normalmente resolvido!
Tínhamos o direito a brincar na rua com uma única condição: estar de volta antes de anoitecer. E não havia telemóvel e ninguém sabia onde estávamos nem o que fazíamos... Incrível!
A escola fechava ao meio-dia para almoço, podíamos ir comer a casa.
Arranjávamos feridas, fracturas e às vezes até partíamos os dentes, mas ninguém era levado a tribunal por isso. Mesmo quando havia grande bagunça, ninguém era culpado excepto nós mesmos.
Podíamos engolir toneladas de doces, torradas com toneladas de manteiga e beber bebidas com Açúcar de verdade, mas ninguém tinha excesso de peso, porque nos fartávamos de correr na rua.
Podíamos partilhar uma limonada com a mesma garrafa sem receio de contágio.
Não tínhamos Playstation, Nintendo 64, X-Box, jogos vídeo, 99 programas de TV por cabo ou satélite , nem vídeo, nem Dolby surround , nem GSM , nem computador , nem chat na internet , mas nós tínhamos.... amigos !
Podíamos sair, a pé ou de bicicleta para ir a casa de um colega, mesmo se ele morasse a alguns km , bater à porta ou simplesmente entrar em casa dele e sair para brincarmos juntos. Na rua, sim na rua no mundo cruel! Sem vigilância! Como é que isso era possível?

Jogávamos futebol só com uma baliza e se um de nós não era seleccionado uma vez, não havia traumas psicológicos, nem era o fim do mundo!
Por vezes um aluno talvez um pouco menos bom que os outros tinha que repetir. Ninguém era enviado ao psicólogo ou ao pedopsiquiatra. Ninguém era disléxico, hiperactivo nem tinha " problemas de concentração". O ano era repetido e pronto, cada um tinha as mesmas oportunidades que os outros.

Nós tínhamos liberdades, erros, sucessos, deveres e tarefas ... e aprendíamos a viver e a conviver com tudo isso.
A pergunta é então: mas como conseguimos sobreviver ? Como pudemos desenvolver a nossa personalidade ?
Será que tu também és desta geração?

Se sim, envia esta descrição aos teus contemporâneos, mas também aos teus filhos sobrinhos e sobrinhas, etc. para que eles vejam como era, naquele tempo!

Eles vão achar que a nossa época era aborrecida .... ah, mas como éramos felizes !"


sexta-feira, outubro 21, 2005

"End of the day"

D. W. Tryon (1883), End of the day

Mais um escape

Fim de dia, fim de semana. Não me vai apetecer escrever. Já li a entrevista da Srª Ministra, já vi o último candidato à presidência da República, estou a entrar em fim de semana... não me apetece escrever, nem trabalhar, nem ter na cabeça governos, sistemas educativos, coisas dessas.
Já folheei as provas de exames de alguns dos meus alunos do ano passado e, a seguir, meti provas, grelhas e outra papelada num envelope e guardei-o fora da minha sala de trabalho, para não ter tentações, pois quero fim de semana!!

Para domingo, já o neto me propôs programa, a pretexto de que haverá novidades naquela coisa pouco a meu gosto e da minha bolsa, ali ---->


Mas haverá compensação, que terminamos numa partidinha aqui -->
Há 3 meses que não jogamos, vamos ver se ele já fez progressos e desta vez me ganha ;)

quarta-feira, outubro 19, 2005

Afinal...

Lamentara eu não poder ter acesso às provas de exame de Matemática da minha turma de 9º ano do ano anterior, para as analisar dado que tive descidas, no exame, de níveis que atribuíra (análise que, penso, todos os professores que leccionaram o 9º ano têm interesse em fazer relativamente aos seus próprios alunos, independentemente do número de descidas que tenham tido). E, afinal, as provas estão ali mesmo perto de mim, guardadas no cofre da escola sob a ideia de confidencialidade! (Até supunha que tivesssem sido reenviadas ao GAVE).
Foi preciso o GAVE desencadear um trabalho de análise das provas dos alunos das nossas próprias escolas para lhes termos acesso, trabalho que já podia estar feito, e que agora será realizado com aparato (reunião prévia, autorização para entrega das provas aos professores de Matemática que leccionam 3º ciclo, distribuição de grelhas de análise, entrega de relatório final e mais uma reunião pelo menos). Mais uma vez, uma ideia implícita de que é necessário dar ordens para que os professores se preocupem com o trabalho necessário, e, provavelmente, mais alguma passagem televisiva para a opinião pública da ideia de que eles precisam de ser ensinados sobre as competências matemáticas que importa desenvolver nos alunos - o mesmo que insinuar que a culpa é toda dos professores, que nem se esforçam por isso???
Srª Ministra, quando lhe ocorre que quem, mais que ninguém, conhece as lacunas dos alunos e as suas causas são mesmo os professores? Ou não são os mesmos (pelo menos na maior parte), os professores que, no 3º Ciclo, preparam, para serem bem sucedidos no Ensino Secundário, aqueles alunos que aspiram a prosseguir estudos em áreas em que a Matemática é fundamental e aí têm os dezoitos e dezanoves nessa disciplina, e os que só conseguem preparar outros para se "aguentarem" numa Matemática menos exigente que não seja decisiva para as aspirações que até são ajudados a definir no trabalho de orientação profissional que é relizado ao longo do 9º ano, e ainda os que se esforçam para que os outros ao menos terminem o 9º ano com essas competências gerais que tanto importava que adquirissem todos, mas lidando com condições que em nada ajudam - não só sociais, não só também as decorrentes da demissão educativa de bastantes famílias, mas igualmente (se não principalmente) as decorrentes de enormes deficiências e erros sucessivos no nosso sistema educativo, como se fossem os professores (sozinhos) que o governam desde há anos e anos de sucessivos Governos?
Srª Ministra, espero que desta vez tenha o bom senso de não associar a este trabalho de análise que vai decorrer e que, em si, é importante, aquele seu jeito de abrir campo aos fazedores da opinião pública em prol do desprestígio de uma classe profissional fundamental - foi o erro maior de todos os que cometeu, srª Ministra, espero que já tenha conseguido percebê-lo.

terça-feira, outubro 18, 2005

Preparando-me para novidades em Matemática

Num "olhar crítico" sobre as passadas provas de Matemática do 9º ano, em artigo publicado na revista Educação e Matemática da APM (nº 84, Setembro/Outubro 2005), pode ler-se: "A análise dos resultados alcançados pelos alunos neste exame é sem dúvida outro dos aspectos que nos merece toda a atenção. Neste momento só é possível fazê-lo em termos gerais, pois não é ainda conhecido um estudo estatístico que nos revele quais os itens que obtiveram maior sucesso e maior insucesso" (destaque meu).

Estão a decorrer reuniões parcelares, cobrindo os professores de Matemática que leccionam 3º Ciclo. Porque ainda não tenho uma informação completa e precisa, esta fica para amanhã, mas a que me chegou leva-me a preparar-me/prevenir-me para a eventualidade de mais uma medida que forneça o referido estudo de forma cómoda e gratuita para o GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério da Educação).

segunda-feira, outubro 17, 2005

...





No escuro da noite
o sol
aguarda a sua vez.

Mésseder












William Glen Crooks, As the Sun Rises

ADENDA

Não imaginava que isto de ter um blog viesse a ser benéfico ao meu estado de espírito. Pensamentos e reacções que saiem de momento vão não só encadeando-se, vão também repensando-se, num pensar escrevinhando. E a verdade é que poetas de poemas que não saberia escrever ou pensar, e mestres da pintura que não saberia pintar, me vão permitindo também uma espécie de fala metafórica apenas de mim para mim, libertadora de estados de espírito menos positivos que inevitavelmente me causam as situações dentro das quais vivo constantemente como profissional, e também como cidadã num país e num mundo. Cada um só tem um momento de vida para viver, por isso é natural que se viva muitas vezes o presente como se fosse tudo - passado, futuro, até História -, e que o que nos afecta tenda a tornar-se o centro, reduzindo-nos a capacidade de reparar nas flores, no olhar das crianças, nas coisas bonitas que serenam, bem como nos processos dialécticos por que passa o evoluir, enfim, nesta coisa toda que é a vida, cada geração com muita gente a ter sonhos mesmo que sejam só para que o mundo pule e avance para os netos e bisnetos.

domingo, outubro 16, 2005

Preparar só para a sociedade/mundo vigente?

Apenas uma memória

(Alguém - já não consigo precisar quem - contava que, pensando em debates com alunos sobre valores, uma aluna dissera que pertencia a uma juventude sem valores. Eu vivi acompanhada por uma geração - ou várias seguidas - norteada por valores; hoje, entre muitos jovens que ainda vemos/ouvimos defendendo valores de sempre, já me aconteceu ouvir directamente a um ou outro (crescido, estudos já cumpridos) respostas que se podem resumir assim: Quais valores? Com os vossos (vossos, leia-se os dos velhotes) não me safo; mas isto tudo já aconteceu numa só vida em que ainda posso esperar ter tempo para observar uma terceira, nova fase).

Era o ano lectivo de 72/73 - o meu 3º ano de ensino no então chamado Ciclo Preparatório - numa escola de Lisboa (Leccionara antes um ano, mas no ensino nocturno, a adultos, numa escola do Barreiro). "Novas correntes pedagógicas" chegavam do exterior - a censura não via motivos para se preocupar com assuntos de mera pedagogia. Eu ainda não tinha ligações políticas, funcionava "inocentemente" de forma natural e intuitiva, apenas, na escola, tinha afinidades "profissionais" com duas colegas que, embora suspeitasse, só de facto soube no 25 de Abril que tinham contactos clandestinos.
Suponho que bastantes professores, com suporte nas (ou a pretexto das) novas correntes pedagógicas, proporcionaram aos seus alunos vivências democráticas na sala de aula, à revelia de uma sociedade interna não democrática. Eu, embora considerando já a metodologia do trabalho em grupo especialmente adequada à aprendizagem da Matemática, também não me limitava ao objectivo dessa aprendizagem. As alunas participavam na análise do funcionamento das aulas, havia assembleias de aula (não me lembro se já lhes chamava assim), e também assembleias de turma no âmbito da direcção de turma. Mas os temas não excediam as questões escolares (só de vez em quando elas abordavam o autoritarismo do ensino noutras aulas), pelo que não chegava a ser uma professora suspeita - soube no 25 de Abril que a directora tinha o cuidado de se certificar disso indo de vez em quando escutar à porta da minha sala de aula, situada no fundo de um corredor.
No entanto, um dia, depois de eu ter promovido, a pedido das alunas da minha direcção de turma, uma reunião com todas as professoras da turma (reunião que estas não tiveram argumentos para recusar mas prepararam de modo a inibir as alunas de colocarem as questões que queriam), a directora quis falar comigo, e a pergunta que me ficou na memória foi: Não acha que não está a preparar as suas alunas para a sociedade em que vivem? Respondi apenas que não, que não achava, e a conversa ficou por aí.
Talvez, de facto, não estivesse a prepará-las, talvez as vivências democráticas da sala de aula fossem decepcionantemente cerceadas na sociedade a que, mais crescidas, teriam que adaptar-se - sociedade que muitos ainda esperavam que permanecesse. Mas, apenas um ano depois acontecia o 25 de Abril.

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Nada É Impossível De Mudar

Desconfiai do mais trivial , na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.


Bertold Brecht

Sugestão de leitura

Aqui.

sexta-feira, outubro 14, 2005

...

G. H. Levade, On the way Home from School

Aulas

Uff! A primeira etapa parece ter sido percorrida, no essencial!
Uma das minhas duas turmas de 9º não tinha sequer que a percorrer - tenho-a desde o 7º, eles estão há que tempos integrados no método de funcionamento da aula. Alguns "trabalhos" que me dão decorrem de que são adolescentes - mas há melhor do que isso, a não ser ser-se criança?
Quanto à minha outra turma de 9º, é aquela que já designei aqui por "a minha turma difícil", dizendo então: "Uma das turmas de 9º que vou ter, e que já tive no 8º, já me anda na cabeça antes de começarmos. A pergunta "como vou fazer?" segue-se à pergunta que me fazia no 3º Período do ano anterior, "posso fazer alguma coisa?". No ano passado, até não chegava a ter 20 alunos, e agora lá teve que recomeçar a etapa devido a um número considerável de novos alunos - etapa de eliminação de hábitos estranhos de comportamento em certas aulas (estranhos dado que já as frequentaram durante vários anos, mas o conceito de permissividade anda muito variado), etapa de "contratos" de não desestabilização, etapa de passagem de um alheamento inicial (de que a Matemática é alvo privilegiado nos alunos repetentes) para uma integração facilitada pela dinâmica de grupo e pelos reajustamentos na composição dos grupos que a turma foi encarregada de propor (ao que os alunos mostram sempre corresponder com sabedoria). Além disto, tenho este ano a "minha turma difícil" também em Estudo Acompanhado, o que me proporciona uma relação professor - alunos mais abrangente e uma acção mais cativante para eles. (Ao menos, que valha para alguma coisa passar a dar esta aula para completar o meu horário lectivo devido à retirada do direito a redução por cargo pedagógico). E, a verdade (que prova que o pessimismo é sempre um erro) é que até vou começar a próxima aula com a afixação no quadro de um A4 com letras gordas intitulado Avaliação, para dizer uma coisa que a turma em geral está a merecer: que está a revelar progressos em relação ao desgraçado ano anterior (sem o "desgraçado", claro).
Finalmente, a minha nova turma, um 8º ano, igualmente com um número considerável de alunos repetentes pouco fáceis, também está com a etapa percorrida no essencial - com essa só hoje consegui que começassem a funcionar em termos propriamente de trabalho em Matemática, por isso é que foi hoje que me saiu o uff!! do início deste post (e o próprio post).
Claro, continuo (e é previsível que continuarei todo o ano) a ter alguns alunos (o alguns "arredondado" por defeito) a que tenho que estar sempre tão atenta como à minha neta quando se aproxima o atravessar de uma rua, senão seria mais que certo que atravessariam aulas em completa distracção, mas isso já faz parte do cuidar de rotina, que sem cuidar destes e daqueles a profissão ficava assim como aquela pessoa que eu seria se não agarrase a mão da minha neta antes de chegarmos à berma do passeio.
_____________________________________________
(Adenda no post abaixo.)

Para além (ou aquém) de ideologias

Peço perdão pela batota que vou fazer na hora/ordem de publicação deste post, mas o "Aulas" significou em definitivo o meu distanciamento da confusão reinante (em que me agride movimentar-me) até que a evidência das consequências obrigue à desconfusão. Mas, esqueci-me de justificar esta decisão de distanciamento com uma máxima pessoal, que se segue.

Pior que ideários em que valores de justiça e equidade social não são os mais prioritários, e que finalidades distorcidas, ou objectivos hipócritas, ou estratégias erradas/ineficazes, pior que isso ainda é, para mim, a incompetência técnica, a ignorância e a proa desta - a arbitrariedade -, isto a qualquer nível de governação: do país, de um sector, de uma autarquia, de uma empresa, de uma escola, ou até de um chefe de família. E, quaisquer medidas globais podem ser controversas, mas pior que tudo é se incluem medidas específicas avulsas, completamente desnecessárias no âmbito dos objectivos das medidas globais, inúteis e até prejudiciais, e bloqueadoras de outras possíveis de serem válidas, mesmo que no quadro discutível de uma prioridade economicista.
Em suma, penso que incompetências/ignorâncias, mesmo que no âmbito de boas intenções em termos teóricos, são factores que podem concorrer para colocar um sistema sectorial ou mesmo um país na fila da mediocridade.

Acrescento, a propósito, os seguintes extractos:

quarta-feira, outubro 12, 2005

E agora...

vou dormir, que preciso de ter sonhos cor de rosa.

Foi há muitos anos, ainda pela década de 70, mas a frase ficou-me gravada na memória.
Estávamos numa aula de fim de Período, a turma fazia o balanço. E, claro, a professora também ia a balanço, que essa aula chamava-se mesmo uma assembleia (da aula) de Matemática. Quando chegou a vez disso, depois de outras apreciações, uma aluna - devagar, como quem escolhe as palavras certas - teve esta frase espectacular (ela tinha, no máximo, 12 anos): "Bem... também há aqueles dias em que a stôra não teve sonhos cor de rosa".

...

Feodor Vasilyev

A História anda a passo de caracol...

... digo que anda pois eu até acredito que mesmo a passo de caracol, ela anda.

(No meu mail tive hoje a informação detalhada de mais uma escandalosa-choruda reforma aos 50 anos, razão porque vim ao meu blog com mais uma irritaçãozinha)

sexta-feira, outubro 07, 2005

...

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Reflexos da passagem de uma ministra pelo ME

Um comentário-resposta do Miguel Pinto a um meu comentário (pergunta) relativo ao seu texto [Ex]citação, embora eu partilhe do essencial do seu ponto de vista, suscitou-me um receio.
Tendo começado por lembrar que tentativas de soluções e erros, no domínio da educação, dos nossos administradores (actuais e anteriores) não são originais, mas repetições do que já foi testado em países mais desenvolvidos que o nosso, o Miguel diz: "O problema é que o nosso atraso educacional é imenso quando comparado com esses mesmos países e não nos podemos dar ao luxo de perder mais tempo. Já que os nossos ministros insistem em andar de costas voltadas para a investigação em educação seria bom que os professores se antecipassem e agissem em conformidade com os resultados desses trabalhos."
Mas o que interrogo, nesta perspectiva do Miguel, é a ideia, que também expressa, de que, tal como a dos antecessores, a passagem desta ministra pelo ME "deixará um rasto mais ou menos inócuo".
Ora, embora admitindo que o meu receio enferme de uma subjectividade decorrente da minha pessoal e muito forte reacção a determinadas atitudes que me lembram ambientes sufocantes do passado, receio de facto que a passagem desta ministra pelo ME seja bem menos inócua que outras, pelas marcas que poderá deixar nos professores, na sua disponibilidade e no seu modo de encarar a sua participação em mudanças no sentido da qualificação da educação dos jovens portugueses.
Por um lado, cada professor que tenha a consciência e o reconhecimento externo de cumprir a sua missão com profissionalismo e dedicação não terá deixado de sentir o direito à protecção do seu bom nome lesado por fazedores da opinião pública, sobretudo por altura de Junho-Julho últimos - e não sei se será fácil esquecer isso. Foi um primeiro grave erro da presente administração, pois não deixou de ser conivente com tal.
Por outro lado - e outro grave erro - foi a extrema prepotência, fortemente agressiva para os que se norteiam por princípios democráticos, caracterizada pelo desprezo quer por uma apresentação prévia de projectos aos intervenientes no processo educativo, quer por qualquer diálogo com os mesmos.
Cingindo-me neste post às medidas directamente dirigidas à educação e ensino (e até independentemente de, em nome da sua melhoria, serem arremedos de educação ou de pedagogia), não esqueço que os sindicatos têm um papel próprio e um âmbito negocial delimitado por esse mesmo papel. Mas, que se saiba, também não houve consulta nem diálogo quer com entidades individuais ou colectivas de reconhecido conhecimento da investigação em educação (insistência em lhe manter as costas voltadas, como lembra o Miguel, numa preferência por conselheiros mais convenientes e de duvidosa credibilidade), quer com as associações profissionais de professores, vocacionadas não para a vertente sindical, mas para a recolha do património nacional e internacional no âmbito do conhecimento em matéria de educação, ensino e aprendizagem e para a sensibilização dos professores para o mesmo. No entanto, estas associações têm estatuto legal como parceiros no âmbito de pareceres e diálogo. (Um parêntesis para esclarecer que a APM foi chamada a participar na elaboração do programa de reforço da formação em Matemática dos professores do 1º Ciclo, mas essa chamada insere-se numa colaboração técnica, escandaloso seria se fosse esquecida dado o seu conhecimento dos amplos e valiosos trabalhos feitos no âmbito da educação matemática. No entanto, não eram ouvidas as suas chamadas de atenção para as insuficiências e deficiências - degradação, digo eu menos delicadamente - dos cursos de formação de professores do 1º e do 2º Ciclos). Não houve, igualmente, qualquer auscultação aos que, no terreno, bem conhecem medidas prioritárias que urgiria serem tomadas.
Este desprezo pelo diálogo foi demasiado ostensivo para que venha também a ser fácil aos professores esquecer o que foi, em suma, público desprezo por eles mesmos. E, por mais que saibamos que as medidas são economicistas e não de verdadeira preocupação com a educação, há limites que têm a ver com a dignidade profissional e não só, também com, globalmente, a dignidade pessoal.

São estes os receios que deixei dito ao Miguel que expressaria.
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Adenda:
Acrescento a sugestão de leitura do Miguel:
Philippe Perrenoud (2002). Aprender a negociar a mudança em educação.

E transcrevo também este extracto do comentário que aqui deixou:
"Na contracapa diz o seguinte: […] uma reforma conduzida sem ou contra os actores não só falha como deixa feridas e contribui para o desenvolver de mecanismos de defesa contra toda a inovação. […]
A Dra. Maria de Lurdes estará preparada para lidar com os efeitos das mudanças que pretende operar no sistema?"

quinta-feira, outubro 06, 2005

"Diálogo"

Sonja Svete (2001), Dialogue

Maquilhagem ou bravata?


E como se vai poder saber (?) se, enquanto o consciente de Sócrates falava, via jornalistas, aos cidadãos eleitores, o seu subsconciente não murmuraria: - Até podia haver mais guerra, para eu mostrar como os abateria a todos com a minha prepot..., perdão, com a minha maioria absoluta! (Intervenção atempada do inconsciente a fazer certa palavra soar como nada democrática).

terça-feira, outubro 04, 2005

A que (des)propósito terei sorrido?

(Ao reler esses princípios)



In Convenção sobre os Direitos da Criança, 20 de Novembro de 1989, Nações Unidas - ractificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990 (destaques meus):
"
A Convenção assenta em quatro pilares fundamentais ...
(...)
o interesse superior da criança deve ser uma consideração prioritária em todas as acções e decisões que lhe digam respeito.
(...)
a opinião da criança que significa que a voz das crianças deve ser ouvida e tida em conta em todos os assuntos.

Artigo 1
Nos termos da presente Convenção, criança é todo o ser humano menor de 18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade mais cedo.

Artigo 18
1. Os Estados Partes diligenciam de forma a assegurar o reconhecimento do princípio segundo o qual ambos os pais têm uma responsabilidade comum na educação e no desenvolvimento da criança. A responsabilidade de educar a criança e de assegurar o seu desenvolvimento cabe primacialmente aos pais e, sendo caso disso, aos representantes legais. O interesse superior da criança deve constituir a sua preocupação fundamental.
2. Para garantir e promover os direitos enunciados na presente Convenção, os Estados Partes asseguram uma assistência adequada aos pais (...)

Artigo 31
1. Os Estados Partes reconhecem à criança o direito ao repouso e aos tempos livres, o direito de participar em jogos e actividades recreativas próprias da sua idade e de participar livremente na vida cultural e artística.
"

segunda-feira, outubro 03, 2005

O dia de escape


Bunn, Escape
Terminou o meu domingo.
Ao domingo as tarefas para a escola já estão terminadas (por norma, que todas as normas têm excepções), pois não tenho computador senão à noitinha (podia ter de manhã, mas essa é para dormir). Tenho-o disputado à vez, numa gestão de tempos nem sempre fácil, mas não sobra para mim (nem quereria que sobrasse). Também não tenho nem ministério da educação, nem governo, nem... país, pois não vejo telejornal - às 8 estou a dar o jantar às crianças, às 10 estou a regressar de as levar a casa, e não vou depois procurar outro, nem quero saber a que horas há (também por norma, com as ditas excepções, nalgum momento extraordinário).
Neste momento, apetece-me particularmente prolongar o escape do domingo. Sobre o que se passa nas escolas, até já tinha "decretado" pausa, quando comecei as aulas. Escrevi, então: "o momento presente é confuso e preocupante. Mas, nele, já houve o tempo para prever, conjecturar consequências, interrogar. Agora, opto por parar e esperar. Porque o tempo está nublado, não há visibilidade para vislumbrar o evoluir deste momento. Resta, portanto, aguardar. (E desejar que o que for trigo cresça e o que for joio vá para a lixeira)"
Não cumpri o meu decreto, mas agora acho que vou cumpri-lo. Até porque não tenho estado imune a tensões - ter amigos que não são professores (ou que são sindicalistas) torna este momento propício a uma ou outra discussão acesa, com divergências que excedem as habituais, estas naturais e estimulantes. Distancio-me sempre de ambientes de tensões interpessoais, mas de amigos não, e era só o que faltava permitir que a Srª Ministra da Educação ocupasse a minha cabeça a ponto de ter tensões (ainda que momentâneas) com dois dos meus maiores amigos!!!
E, ao meu domingo que terminou, sucede-se uma semana em que o tempo de escola é ocupado fundamentalmente com alunos - não são as minhas crianças do domingo, que fazem menos barulho que eles - claro, eles são muitos mais duma vez, que não tenho 25 netos ;), e já são adolescentes - mas é um barulho que é silêncio de política e políticos. Eu até não teria nada contra o barulho da política, em tudo presente, se não fosse feito por políticos (leia-se políticos como equivalente a interesses político-económicos, que não são propriamente os interesses da anónima humanidade, de que existe uma pequena parcela cá, e o resto todo pelo mundo).
Mas, como também o conteúdo inicialmente previsto para este blog não é oportuno por agora, pois a grande confusão do presente já me dificulta discernir, sobre memórias de prof de Mat (ou mesmo sobre pensamento que não preciso de ir buscar à memória), o que ainda é relevante, e o que já não é nem prioritário, nem sequer de alguma importância.
Assim... neste momento apetece-me, como disse no início, prolongar o escape, cumprir também o meu decreto de pausar para aguardar, mas fico sem saber o que faça no meu blog!!!

domingo, outubro 02, 2005

Adenda: Mas foi só uma vez

"Grito" e assunto terminados, da minha parte.
Até porque, além de o assunto andar pouco sintonizado, o exercício do silêncio é tão importante quanto a prática da palavra (dizia William James).


D. Gehrman, Crackling Silence

sábado, outubro 01, 2005

Chegou a minha vez

Na situação criada nas escolas, temos lido reacções de colegas resultantes de revolta (por isso naturalmente emotivas, provavelmente daquelas que gritamos nada convencidos de que vamos levá-las à prática), em que se afirmam disposições, formuladas diferentemente mas com uma tónica comum que traduzo: contar as horas de trabalho e, esgotadas as 35 semanais... parou, a correcção de testes é adiada, a preparação do material para as aulas é suspensa, aos alunos diz-se: não há, não reclamem.

Chegou a minha vez do "grito", só que não foi esse. Direi qual foi depois de descrever a gota de água que me encheu, e que é o facto de (além das 10 horas marcadas no meu horário como componente não lectiva) estar com um trabalho esgotante, nas aulas de duas das minhas turmas e em casa por causa delas (um 8º novo e um 9º que já fora a minha "dor de cabeça" no ano passado, descrita AQUI), trabalho que poderia ficar atenuado e com maior probabilidade de ter algum sucesso se não estivesse a minha escola subjugada às prioridades da Srª Ministra da Educação.
Transcrevo a última parte de um meu post anterior (parte essa que é a tal gota de água) :
"Um pequeno mas bem elucidativo exemplo. Face às preocupações com a Matemática, fiz em Julho, ao saber do aumento das horas na escola, o levantamento dos alunos (em número alarmante) que iam ingressar no 8º e no 9º sem nunca, incluindo o 2º Ciclo, terem tido mais que nível 2 nesta disciplina, para que se desse um apoio suplementar destinado a aquisição daquelas bases mínimas sem as quais fica impossível a qualquer profesor, nas horas curriculares, conseguir recuperá-los e integrá-los, mesmo quando estão receptivos a isso. Soube posteriormente que tinha sido impossível conseguir essas horas porque não sobrava nenhuma, das necessárias para ter professores em todos os tempos, destinadas à prioridade imposta de serem ocupados os alunos em qualquer falta de um professor. Quem tiver tido paciência de me ler até aqui, vê bem nisto uma amostra da cegueira da Srª Ministra quanto às prioridades.
Mas... fica-se passivo???!!!"

E o meu grito foi o final de um documento que redigi ontem, dirigido ao CP da minha escola, em que descrevo a razão de ficarem inviabilizados dois projectos que tinha sugerido (duas ideias muito bem recebidas pelo CP, para a escola preparar actividades efectivamente de reforço educativo, a que qualquer professor substituto poderia conduzir as turmas). E ficaram inviabilizados devido a que necessitavam de tempo para que equipas de professores interessados (e havia) trabalhassem neles em termos de lhes dar conteúdo, planificar, e definir os materiais a executar - e esse tempo não há. Não há por razão óbvia: com 24 horas já preenchidas nos horários (fora as das reuniões) (a maior parte, da componente não lectiva, nas tais substituições para actividades avulsas com alunos), com as 35 horas ultrapassadas por aqueles que já as totalizavam ou excediam e que são aqueles (bastantes) que costumam mostrar-se mais disponíveis e entusiastas para estas "coisas", não sobra tempo (para montar tais projectos não basta meia dúzia de horas, pois tratava-se de recursos a criarmos na escola para toda a escola), nem alento (nem horas comuns necessárias).
A essa descrição, acrescentei o relato resumido do caso que aqui comecei por (re)descrever - a minha gota de água a tranbordar a taça.

E o tal final do documento (a que acima chamei o meu grito, caso - pouco provável - em que não venha a ser o grito da minha escola) é assim:
"Caso o Conselho Pedagógico não subscreva este relatório com a finalidade de envio ao gabinete adequado do Ministério da Educação (de preferência ao gabinete da Srª Ministra), desejo usar o meu direito de o enviar a título individual por intermédio da escola, acompanhado portanto de ofício adequado a essa formalização." (O documento, por agora, é assinado como professora e coordenadora do 3º Ciclo de Matemática)

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Adenda

Um esclarecimento, decorrente de possível mal entendido em que um comentário me fez reparar: independentemente de o CP da minha escola entender ou não adequado o envio do meu documento em seu nome, não estará em causa o seu acordo com o conteúdo do mesmo, incluindo o do presidente do meu CE, também presidente do CP. Este esclarecimento deve-se a que, dadas as notícias de que alguns conselhos executivos cumpriram o mais gravosamente possível para os professores as normas impostas superiormente ou até as excederam, na minha escola não temos esse caso, temos sim o caso do cumprimento o menos gravoso possível dentro da (muito pouca, mas alguma) margem de maleabilidade que foi dada aos conselhos executivos, nomeadamente na decisão do número de horas da componente não lectiva para trabalho individual.