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terça-feira, julho 10, 2012

Só nas Honduras?...

A liberdade é isto?

Carlos, um rapaz das Honduras, é uma das cerca de quarenta milhões de crianças que, por não terem lar, vivem abandonadas à sua sorte nas ruas das cidades latino--americanas. Muitas delas ainda têm pais, mas estes são tão pobres que não podem tomar conta dos filhos. Há cinco anos que Carlos ganha o sustento como engraxador de sapatos. Não é nada fácil sobreviver.

O meu maior problema é dormir. Não é nada fácil encontrar um lugar seguro onde não seja incomodado. Eu não quero juntar-me a nenhum bando e começar a roubar. Isso não é futuro. Mas como não estou em nenhum bando, também não tenho ninguém que me proteja. Às vezes é horrível não ter ninguém no mundo que goste de mim. É preciso ser-se muito forte para aguentar.

Há dias em que tenho a impressão de que toda a gente me detesta. Alguns olham-me, furiosos, quando pergunto: “Quer engraxar os sapatos?” Outros insultam-me porque estou sujo. Mas já me habituei a ser insultado só por ser pobre. A vida na rua é difícil. Quando comecei a trabalhar, havia rapazes mais velhos e mais fortes que me tiravam o dinheiro todo e até me batiam. Os polícias também me bateram várias vezes. Uma vez, meteram-me num lar, mas era como estar numa prisão. Ao fim de algumas semanas, fugi. A maioria das pessoas não fala comigo quando me manda engraxar os sapatos. Lê o jornal ou olha em frente. Mas também há quem me diga: “Dá-te por feliz por poderes viver em liberdade, por ninguém te dar ordens”, ou coisas parecidas. Isto põe-me furioso.

É liberdade ter fome?

É liberdade não poder ir à escola por ter de trabalhar?

É liberdade não poder aprender uma profissão e ser talvez condenado a passar a vida inteira na rua?

Hannelore Bürstmayr

Grün wie die Regenzeit

Mödling, Verlag St. Gabriel, 1986

(Tradução e adaptação)
Via Clube das Histórias




















quinta-feira, agosto 11, 2011

Será o consumismo produto da inveja?

(Moral desta estória: Afinal, todos seríamos mais felizes seguindo os conselhos da Grande Coruja!)



Os esquilos Diogo e Diego moravam perto um do outro. Eram como irmãos gémeos, embora Diogo tivesse uma cauda totalmente ruiva e a cauda de Diego tivesse alguns pêlos brancos. Diogo tinha construído a sua casa no buraco de uma nogueira e Diego tinha escolhido uma aveleira. Cada um tinha decorado o ninho a seu gosto e ambos gostavam muito de cozinhar. Um dia, Diego levou um frasco de compota de avelãs a Diogo e este ofereceu-lhe licor de noz. Foi um comportamento gentil, não foi? E, contudo, nenhum deles pensou nisso. Enquanto provava a compota, Diogo ia pensando: "Estas compotas de avelã têm um sabor delicioso de madeira recém-cortada, de manteiga e de trigo." E a inveja apoderou-se dele. Enquanto sorvia o seu licor de noz, Diego resmungava: "Realmente, há quem tenha tudo. Este licor de noz é verdadeiramente suculento! Quando penso que o Diogo pode bebê-lo todas as noites." E o seu coração encheu-se de amargura.
A partir desse dia, cada um olhava o outro com inveja. Quando Diego pensava no ninho soberbo de Diogo, com uma cobertura mole de penas de avestruz, tinha vontade de amuar até ao raiar do sol. Quando Diogo pensava na cama de rede que Diego tinha fabricado, tinha vontade de lhe morder o nariz até fazer sangue.
Um dia, Diego cheirou um odor delicioso de Pinhão nº 5.
— Cheira tão bem em tua casa — disse, sem conseguir esconder o descontentamento.
— Foi uma prenda da minha tia — respondeu Diogo, que semicerrou os olhos para ver melhor o boné de Diego, feito de plumas de avestruz cosidas à mão. "Trá-lo de propósito para me fazer inveja", pensou logo Diogo.
— Que boné! — exclamou, fazendo uma careta.
— Oh, é uma coisinha de nada — respondeu Diego, que era muito vaidoso. — Uma prenda da minha tia costureira.
Nessa mesma noite, Diego pensou na despensa de Diogo e Diogo pensou no guarda-roupa de Diego. Quanto mais o tempo passava, mais eles pensavam no que não tinham: uma colecção de conchas de noz, um bocado de vaso encontrado num campo, uma espiga de milho para decorar a casa… A menor quinquilharia punha-os verdes de inveja. Tudo o que um deles tinha, o outro também
queria ter. Chegavam a brigar duramente para arrancar das mãos do outro uma casca de noz ou um pedacinho de castanha.
Um dia, quando Diego encontrou um trevo de quatro folhas, Diogo pôs-se a choramingar: o trevo era seu, fazia parte do seu território. E quando Diogo apanhou um ramo de papoilas, Diego bateu à porta do amigo para lhe pedir metade do ramo. Diego teve ciúmes do aniversário de Diogo e Diogo teve ciúmes da tosse convulsa de Diego. Diogo teve ciúmes da varicela de Diego e Diego teve ciúmes da constipação de Diogo.
Os ciúmes e a inveja davam-lhes dores de barriga. "Alguém me quer mal", pensava Diego, "a floresta já não gosta tanto de mim, já não me dá tantas coisas como outrora". Acabaram por fazer tanta algazarra que todos os vizinhos do bosque (as rolas, as andorinhas, as pombas e os ratos) se reuniram para trocar impressões.
— Não estamos para aturar as vossas disputas!
— Falem mais baixo!
— Já ninguém se entende!
Toda esta barulheira acabou por chegar aos ouvidos da Grande Coruja, que se deslocou pessoalmente para avaliar a disputa.
Ouviu então as queixas dos dois esquilos.
— O ninho dele é mais macio do que o meu!
— O dele é maior do que o meu!
— Até teve a varicela!
— E ele teve a tosse convulsa!
— Pois, mas a varicela é melhor do que a tosse convulsa! Faz comichão, mas não dói tanto!
A Grande Coruja ria-se por detrás dos seus óculos.
— Daqui a pouco quem tem ciúmes de vocês sou eu. Têm tantas coisas! E, no entanto, nunca estão contentes. Isso é pena! Se fosse a ti, Diego, teria orgulho em ter um amigo como o Diogo. E tu, Diogo, devias estar contente por teres um amigo que faz compota de avelãs tão bem! Vou ensinar-vos como uma pessoa aprende a gostar ainda mais de outra. Diego, tu vais dar compota de avelãs ao Diogo e vais fazer para ele um boné de plumas. Quanto a ti, Diogo, vais fazer licor de noz para o Diego e algumas almofadas para ele decorar o seu pequeno ninho. Sugiro ainda que, de vez em quando, troquem de casa. Terão assim a impressão de ir de férias.
E foi o que aconteceu.
Diego fez um boné de plumas soberbo para o seu amigo Diogo usar no Inverno e Diogo fez pequenas almofadas cheias de lasquinhas de avelã trituradas para Diego. De vez em quando, durante o fim-de-semana, trocavam de casa, só para sentirem como as suas próprias casas eram confortáveis. E Diogo e Diego tornaram-se os melhores amigos do mundo!

Cent histoires du soir
Paris, Ed. Marabout, 2000
Sophie Carquain
(Tradução e adaptação via Clube das Histórias)

domingo, junho 12, 2011

UBUNTU

UBUNTU
 
A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz, em Floripa (2006), nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu.


Ela  contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando  terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo; então, propôs uma brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva.

Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele  chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.

As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", instantaneamente todas   as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.

O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.

Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós  poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?"
 

Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda  não havia compreendido, de verdade,a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?

Ubuntu significa: "Sou quem sou, porque somos todos nós!"

Atente para o detalhe: porque SOMOS, não pelo que temos...

sexta-feira, março 25, 2011

Jacob pensa no que quer ser...


Jacob pensa no que quer ser
Jacob pensa no que pode ser quando for grande.
— Talvez carpinteiro — diz Jacob. — Lixar bem as arestas para que ninguém se magoe.
— Por exemplo… — diz Catarina.
— Talvez cobrador de autocarro — diz Jacob. — Alguém que sabe quando se deve sair e mudar.
— É possível — diz Catarina.
— Talvez palhaço — diz Jacob — com uns sapatos enormes, para fazer rir as pessoas.
— Também pode ser — responde Catarina. — Podes ser muitas coisas, quem sabe? Mas, em todo o caso, tens de ser alguém que escute com atenção. Alguém que saiba guardar um segredo. Alguém que não se ria quando vir alguém a chorar. Alguém que seja capaz de ajudar os outros. Alguém de quem se goste… Se fores assim, tanto faz que profissão possas ter.
— Tens razão — diz Jacob.

Lene Mayer-Skumanz,1986 - Via Clube das Histórias

quinta-feira, outubro 14, 2010

Mensagem aos aposentados

DESAPOSENTAR
(Domingos Pellegrini)


Ele chegou à praça com uma marreta. Endireitou a estaca de uma muda de árvore e firmou batendo com a marreta.
Amarrou a muda na estaca e se afastou como pra olhar uma obra de arte.
Não resisti a puxar conversa:
- O senhor é da prefeitura?
- Não, sou da Alice, faz quarenta e dois anos. Minha mulher.
- Ah... O senhor foi quem plantou essa muda?
- Não, foi a prefeitura. Uma árvore velha caiu, plantaram essa nova de qualquer jeito, mas eu adubei, botei essa estaca aí. Olha que beleza, já está toda enfolhada. De tardezinha eu venho regar.
- Então o senhor gosta de plantas.
- De plantas, de bicho, até de gente eu gosto, filho.
- Obrigado pela parte que me cabe...
Ele sorriu, tirou um tesourão da cinta e começou a podar um arbusto.
- O senhor é aposentado?
- Não, sou desaposentado. Foi podando e explicando:
- Quando me aposentei, já tinha visto muito colega aposentar e murchar, que nem árvore que você poda e rega com ácido de bateria... Sabia que tem comerciante que rega árvore com ácido de bateria pra matar, pra árvore não encobrir a fachada da loja? É... aí fica com a loja torrando no sol!
Picotou os galhos podados, formando um tapete de folhas em redor do arbusto.
- É bom pra terra... tudo que sai da terra deve voltar pra terra... Mas então, eu já tinha visto muito colega aposentar e murchar. Botando bermuda e chinelo e ficando em casa diante da televisão. Ou indo ao boteco pra beber cerveja, depois dormindo de tarde. Bundando e engordando... Até que acabaram com derrame ou infarto, de não fazer nada e ainda viver falando de doença.
Cortou umas flores, fez um ramalhete:
- Pra minha menina. A Alice. Ela é um ano mais velha que eu, mas fica uma menina quando levo flor. Ela também é desaposentada. Ajuda na escola da nossa neta, ensinando a merendeira a fazer doce com pouco açúcar e salgados com os restos dos legumes que antes eram jogados fora. E ajuda na creche também, no hospital. Ihh... A Alice vive ajudando todo mundo, por isso não precisa de ajuda, nem tem tempo de pensar em doença.
Amarrou o ramalhete com um ramo de grama, depositou com cuidado sobre um banco.
- Pra aguar as mudas eu tenho que trazer o balde com água lá de casa.
Fui à prefeitura pedir pra botarem uma torneira aqui. Disseram que não, senão o povo ia beber água e deixar vazando. Falei pra botarem uma torneira com grade e cadeado que eu cuidaria. Falaram que não. Eu teria que ficar com o cadeado e então ia ser uma torneira pública com controle particular, e não pode.
Sorriu, olhando a praça.
- Aí falei: então posso cuidar da praça, mas não posso cuidar de uma torneira? Perguntaram, veja só, perguntaram se tenho autorização pra cuidar da praça! Nem falei mais nada. Vim embora antes que me proibissem  de cuidar da praça... Ou antes que me fizessem preencher formulários em três vias com taxa e firma reconhecida, pra fazer o que faço aqui desde que desaposentei... Ta vendo aquele pinheiro fêmea ali? A Alice que plantou.
Só  tinha o pinheiro macho. Agora o macho vai polinizar a fêmea e ela vai dar  pinhões.
- Eu nem sabia que existe pinheiro macho e pinheiro fêmea.
- Eu também não sabia, filho. Ihh... aprendi tanta coisa cuidando dessa praça! Hoje conheço os cantos dos passarinhos, as épocas de floração de cada planta, e vejo a passagem das estações como se fosse um filme!
- Mas ela vai demorar pra dar pinhões, hein? - falei, olhando a pinheirinha ainda da nossa altura. Ele respondeu que não tinha pressa.
- Nossa neta é criança e eu já falei pra ela que é ela quem vai colher os pinhões. Sem a prefeitura saber... e a Alice falou que, de cada pinha que ela colher, deve plantar pelo menos um pinhão em algum lugar. Assim, no fim da vida, ela vai ter plantado um pinheiral espalhado por aí. Sem a prefeitura saber, é claro, senão podem criar um imposto pra quem planta árvores...
- É admirável ver alguém com tanta idade e tanta esperança!
Ele riu:
- Se é admirável eu não sei, filho, sei que é gostoso. E agora, com licença, que eu preciso pegar a Alice pra gente caminhar. Vida de desaposentado é assim: o dinheiro é curto, mas o dia pode ser comprido, se a gente não perder tempo!


Publicado na GAZETA DO POVO, de 22/05/05, Fortaleza-CE

sábado, setembro 25, 2010

Onde está escondida a Felicidade

Um dia, no princípio dos tempos, alguns demónios reuniram -se para fazer uma diabrura.
Um deles disse:
“Estava a pensar que poderíamos tirar algo aos humanos, porém... O quê?”

Depois de muito pensar, um deles respondeu:
“Já sei!, poderíamos tirar-lhes a felicidade...   Porém, claro, o problema será onde escondê-la,   para que não possam encontrá-la”.
Propôs o primeiro demónio: "Vamos escondê-la em cima do monte mais alto do mundo...!”
...do que imediatamente discordou um outro:  “Não, lembra-te que eles têm força e vontade. Algum dia, alguém poderá subir e encontrá-la, e se um a encontra, pronto! Todos saberão onde está".
Logo propôs outro: "Então, vamos escondê-la no fundo do mar!”.
E outro contestou: "Não, lembra-te que eles têm curiosidade. Algum dia, alguém  construirá algum aparelho para poder baixar até o fundo e, então, encontra-la-á".
Um outro deles disse: "Escondamo-la num planeta longe da Terra!".
Disseram-lhe: "Não, lembra-te que eles têm inteligência. Um dia, alguém construirá uma nave para viajar para outros planetas e, então, descobri-la-ão".

Um dos demónios tinha permanecido em silêncio, escutando atentamente as propostas.
Então, disse: "Creio saber onde devemos colocá-la para que nunca a encontrem".
Todos o olharam e perguntaram ao mesmo tempo: “Onde?".
“Escondamo-la DENTRO deles mesmos... Estarão tão ocupados a procurá-la fora que nunca a encontrarão".

Todos ficaram de acordo e, desde então, sempre tem sido assim.

Autor desconhedido