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quinta-feira, novembro 01, 2007

Do Inimaginável... Um conselho de turma disciplinar

É o título de um post do JMA, ao qual acrescentou um comentário testemunho que lhe deixei. Como a esse post já se seguiram outros, destaco-o (ler aqui) porque a situação descrita pelo JMA não é tão pouco frequente como se possa pensar, e talvez o testemunho que dei possa ser sugestivo de actuações firmes e eficazes sobre comportamentos inadmissíveis de alguns alunos, embora saiba que ficam outros casos por resolver - casos que a escola nunca poderá resolver sozinha, nunca poderá resolver ou atenuar sem apoios especializados e vontade política dos governos de implementar medidas que conduzam de facto à integração social.

sexta-feira, março 17, 2006

"Venham os Bárbaros!"

Quando, na quarta feira, propus "um tempo sem temas sérios, só humor", excedi o possível - a menos que fôssemos passar esse tempo em Marte. Mas rectifico: um tempo entremeando com humor os temas sérios (creio que foi isso que o Miguel Pinto aceitou ao proporcionar-nos de imediato o riso, ou seja, a desintoxicação). O riso, sobretudo partilhado, liberta cargas indevidamente a mais nas nossas costas.

Tratando-se, então, de um entremear e já que não tenho jeito para entradas humorísticas (mas, para isso, também o
Miguel Sousa aceitou a proposta - um exemplo aqui), deixo hoje uma "coisa séria" para quem, eventualmente, tenha deixado escapar o pontosnosii deste mês (Revista Mensal de Política Educativa, suplemento do jornal O Público, dia 14) - excertos do Editorial Venham os Bárbaros, de Santana Castilho:

"O que está errado? O que se pode fazer?
Errada está a quebra do consenso secular entra a família e a escola e esta e a sociedade em geral, quanto à orientação das gerações mais novas. A escola não se realiza sem sacrifício, disciplina e trabalho. Mas, fora da escola, a indústria da comunicação e do espectáculo faz a apologia do prazer imediato, do consumo supérfluo, da extravagância e do efémero. O absolutismo moral e vários dogmas éticos tradicionais e universais foram substituídos por «morais» aberrantes, que derivaram da preponderância dos «direitos individuais» sobre os pilares seculares da vivência colectiva. Os pais deixaram de ser os aliados primeiros do professor na modelação dos filhos. Hoje, delegam neles todas as responsabilidades, mesmo as indelegáveis. E depois acusam e exigem. (...)
O que se pode fazer? Sem negar a complexidade das razões económicas, sociais, morais e outras que estão na origem de um modelo de convivência violenta e indisciplinada na comunidade escolar, exigir dos responsáveis pela definição da política educativa duas coisas, a saber: que contribuam para pôr cobro ao histerismo colectivo que aponta os professores como os responsáveis pelo descalabro do sistema, em vez de o fomentar maliciosamente; e que assumam, de forma consequente, que os problemas nucleares do seu ministério são hoje o facilitismo e a indisciplina. *
A continuarmos assim, estamos quase prontos. Venham os bárbaros!"
* (destaque meu)

segunda-feira, março 13, 2006

A Srª Ministra faz alguma ideia disto?

Na semana passada tive reunião de Departamento (que abrange o 2º e o 3º Ciclos). Saí dela a olhar mais uma vez para a evolução da nossa população escolar do 2º Ciclo nos muito poucos últimos anos.
A Srª Ministra ocupa os seus informadores sobre a realidade das escolas na procura de escolas modelo, de experiências modelo, de aplicações modelo de algumas das suas medidas, para mostrar que os não modelos gerais se devem tão somente a que os respectivos professores e gestores são maus. Não que haja algum mal em mostrar modelos, o mal existirá se a Srª Ministra (como parece) não se preocupar em indagar se esses modelos têm os mesmos obstáculos que os mais gerais não modelos. E, pior que não pedir informações sobre a realidade que decorre dos problemas sociais que invadem as escolas e turmas do Básico, é não fazer mesmo ideia nenhuma dessa realidade. Será que tem alguma ideia dela?

A minha escola já beneficiou daquela heterogeneidade, relativa à população escolar, propícia ao "puxar para cima" os alunos de estratos sociais desfavorecidos, mas a construção de escolas numa zona em acelerado crescimento, que abrangia, habitada por classe média e mesmo média-alta, alterou significativamente as características da nossa população escolar. No entanto...

No entanto, sempre tivemos grande número de alunos habitando quer em bairros degradados (daqueles que uma pessoa não deve atrever-se a visitar sozinha), quer em zonas cujas famílias residentes tinham condições económicas difíceis e muito pouca instrução. Dos primeiros sempre nos vieram aqueles casos chamados problemáticos, em que lemos facilmente o que está por trás dos problemas e que sempre nos fizeram juntar ao papel de professor os papeis de mãe ou pai, de psicólogo e de assistente social - o que não somos, mas eles não têm e então fazemos o melhor que sabemos. Mas, dos segundos, vinham-nos os filhos dos tantos pais ou mães que, apesar de não instruídos, apesar das suas condições difíceis, quando vinham à escola a primeira preocupação que tinham era perguntar ao director de turma O meu filho (a minha filha) porta-se bem? E, eram bastantes aqueles cuja vinda à escola não era inútil se convocados por algum motivo de comportamento.
De há poucos anos para cá, os quintos anos que a minha escola recebe (principalmente os quintos, mas não só) estão a tornar o trabalho dos professores muitíssimo desgastante nas aulas, e nem tempo têm decerto para avaliar as consequências desse desgaste pois, em casa, cada vez é mais o trabalho para produzir materiais diversificados e inventar estratégias. Ou é uma turma inteira que calhou assim se formar por falta de informação atempada, ou são, às vezes, apenas dois ou três alunos espalhados por todas as turmas que inviabilizam um normal funcionamento das aulas. Mas...

Mas, a isto junta-se um fenómeno que eu chamo da actualidade: a propagação da (apenas, mas enorme) indisciplina (no estar na aula e no trabalho/estudo) como que por imitação ou contágio - note-se que grande parte desse tipo de indisciplina não se pode atribuir a condições familiares/sociais degradadas que deixam os meninos a crescer sós aprendendo as regras de rua dos seus bairros. E, mais uma vez, ao ouvir os relatos da situação na reunião de Departamento, eu penso: Ou bem que políticos e sociedade acordam, ou há que perguntar quanto tempo terão de resistência muitos (e bons, e dedicados) professores dos primeiros dois ciclos de ensino?

A Srª Ministra faz ideia disto?

P.S.: O assunto é "mais do mesmo" e eu até estou em tempo de semipausa neste cantinho e na blogosfera "docente" em geral. Mas, a leccionar só 3º Ciclo, senti que ao menos devo este post aos meus colegas do 2º Ciclo da minha escola - a todos também que, no 2º e no 1º ciclos, vivem quotidianamente excessivos desgastes em esforços por vezes impossíveis de resultarem, o que a Srª Ministra da Educação despreza, acrescentando mais tarefas, em vez de cuidar.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Outra vez... é demais.

Adenda:
E a Srª Ministra da Educação tem a certeza de que, com as suas teimosas precipitações, não está a contribuir para que mais alunos distingam com a tão pouca precisão abaixo exemplificada noções como aula e recreio, ou trabalho e lazer, ou concentração e distracção?
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Escrevi no post anterior que agora é "tempo de dizer também, honestamente, que ninguém está totalmente isento de pecado."
Aparte casos de agentes de ensino que talvez devessem estar a fazer outra coisa - que existirão, ou então esta profissão seria uma excepção a todas as outras -, não se pode deixar de reconhecer que existem práticas a corrigir. No aspecto específico em que tocará este post, não se esquece as dificuldades e o stress que certas turmas causam, sobretudo no início do 2º Ciclo (também certamente no 1º Ciclo), pela existência nelas de alunos que são o reflexo do seu meio sócio-familiar extremamente desfavorecido e problemático. Não se esquece que, antes de se ter condições para ensinar as matérias escolares, há por vezes um tempo longo em que os objectivos são o saber estar numa aula em posturas minimamente razoáveis, o motivar para a escola e o integrar em tarefas escolares. Mas os dois casos que aqui vou focar já não são esses.

Mais uma vez os professores de uma turma, por um acaso em que todos ou quase todos a recebe pela 1ª vez no 8º ano, se depara com ela sem ter sido educada a saber estar numa aula, revelando hábitos de aí estar em grande barulho e agitação mesmo quando a professora explica, e mesmo com comportamentos de quem está num recreio - e sem vigilante. Não se trata em geral de alunos chamados "problemáticos", não se trata em geral de alunos com procedimentos que requerem sanções disciplinares por, por exemplo, frontais faltas de respeito aos professores. Trata-se de alunos que puderam passar o 7º ano na atitude e no ambiente referidos. Não que eu pense que não foram admoestados. Penso, sim, que existe um problema de confusão, de não consenso e sobretudo, talvez, de grande insegurança quanto à questão da permissividade. E esta é uma questão que precisa de ser debatida nas escolas. Não para acusar, mas para reflectir e construir. Não para estigmatizar, como faz ou permite fazer a actual ministra da Educação, mas para concertar actuações e consciencializar todos de consequências irremediáveis que estas situações podem ter quando só se colmatam num ano tão tardio como o 8º.

Foi assim que me chegou a turma que, no ano lectivo anterior, recebi no 8º - turma de que já aqui falei em Setembro, chamando-lhe a minha prioridade e contando que a minha pergunta "como vou fazer?" se seguia à pergunta que me fazia no 3º Período do ano anterior: "posso fazer alguma coisa?" (Também depois voltei a mencioná-la para contar que já me estava a dar alegrias).
Foi novamente assim que me chegou a minha turma de 8º deste ano. Mais uma vez, foram necessárias algumas semanas (a mim e decerto aos meus colegas) para conseguir (sem recurso a sanções disciplinares) o ambiente minimamente indispensável a um normal funcionamento. E, após essa etapa, nada mais fiz até ao fim da 1ª semana deste mês de Novembro senão tentar colmatar algumas grandes lacunas do 7º ano - lacunas inevitáveis quando os respectivos alunos são os primeiros a reconhecer que não prestavam atenção no ano anterior; lacunas em matéria essencial, mas apenas, por agora, relativa a pré-requisitos indispensáveis para a aprendizagem do que vamos tratar no início do 8º. No entanto, nem esta acção de recuperação tem resultado para bastantes alunos dado que, embora agora já razoavelmente disciplinados, hábitos de concentração e de trabalho na própria aula, motivação e sentido de responsabilidade não se adquirem de um momento para o outro.
No entanto, o mais problemático nestas situações, o que referi poder ter consequências irremediáveis, é que para alunos, em considerável número, que, por essa desatenção permitida ou não ultrapassada atempadamente, foram transitando com nível negativo em disciplinas sequenciais como Matemática e Inglês, ao modificarem a sua atitude (até porque a idade facilita que comecem a preocupar-se), as grandes e por vezes longínquas lacunas já lhes torna verdadeiramente difícil a recuperação, porque o professor não vai contar com grande esforço em casa e o trabalho diferenciado e individualizado na sala de aula para conseguir a recuperação minimamente indispensável faz muito, mas não faz milagres.