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quinta-feira, outubro 06, 2011

"Mudaste a minha vida"

Há poucas semanas encontrei-me com duas amigas, mãe e filha, encontro onde conheci o recente marido da última. Nessas coisas que se dizem em apresentações, a mãe mencionou-me como tendo sido "professora" de Matemática da I.
Entre aspas, pois não fui professora da I. Apenas a acompanhei quando, com 11 anitos, começou a vir a minha casa porque a mãe estava preocupada não só com o muito pouco gosto da I. pela Matemática, como também com a professora, com formação para a lecionação de Ciências e pouco dada ao ensino da referida disciplina.
E a I. (agora já na casa dos 30) aqui continuou a vir até meados do seu 10º ano, em que já ia longe o tempo da nota positiva "pequenina". E ainda bem que esse tempo ia longe, pois precisou de alta média em Matemática para o curso que seguiu.

Até aqui, nada de especial nesta estória. Mas, o que foi especial, o que foi não digo revelação, mas alguma surpresa, foi a I. ter-me dito: "Sem dúvida que mudaste a minha vida, e sei isso bem; eu detestava a Matemática e hoje é com ela que lido todos os dias".

Não, não fui eu, foi ela, pois o mérito do trabalho e da responsabilidade foi dela desde pequenita. Contudo, ainda agora estou a vê-la ali na mesa comigo, e a ouvi-la logo num dos primeiros dias em que cá veio, 11-12 anitos: "Ah! Que engraçado! Nunca me tinham explicado isso assim!" Como também ainda me lembro que foi essa expressão "que engraçado" que me fez logo pensar que não ia ser difícil mudar a sua aversão à matemática em gosto.

Por favor, não deixem avançar a ideia dos professores generalistas para o 2º Ciclo! Sendo muito importante um bom 1º Ciclo, não deixa de ser verdade que é no 2º que verdadeiramente se inicia a Matemática, e que este ciclo pode ser decisivo para o bem ou para o mal do futuro de muitos alunos.

terça-feira, junho 14, 2005

Rita e o ódio à Mat

A Rita foi minha aluna nos 8º e 9º anos. Transitara com negativa em Matemática e declarou logo que detestava esta disciplina.
No 1º teste (realizado cedo e entregue em branco nas questões), escreveu: Não gosto de Matemática, detesto, odeio. Não estudo e ninguém me convence. Também não valia a pena, agora já não conseguia nada.
Retive a última afirmação – as outras não comentei, já lhas tinha ouvido. Retive porque, no meio da habitual assertividade dela, me pareceu uma daquelas frases com que o pensamento por vezes nos trai. (A Rita não era agressiva comigo, nunca tivemos má relação, o seu alvo era apenas a Matemática).

Embora sem deixar de ir falando com ela, deixei deliberadamente passar mais um pouquinho de tempo com a Rita alheada. Até ao dia em que lhe disse que devia ser uma tortura, dado que tinha que estar nas aulas, passar cada hora à espera do toque, sem poder conversar, apenas a fazer desenhos. E sugeri: Ao menos para não estares desocupada, porque não participas um pouco no teu grupo?
Creio que a Rita já estava a desejá-lo e que concordou com a sugestão porque não implicava nem “dar o braço a torcer” quanto ao seu "ódio", nem ficar em evidência o insucesso que ela antevia. E, a partir daí, teve uma atenção e um apoio meus muito intensos (era uma situação de desafio a mim mesma), a par da validação dos raciocínios correctos que fazia.
As turmas nestas idades são coesas, e os grupos na sala não precisam que o peçamos directamente para se empenharem também, numa espécie de conivência com o professor. A Rita (que tinha um aproveitamento suficientemente satisfatório nas outras disciplinas) começou, aos pouquinhos, a integrar-se, até chegar de vez em quando a intervir e a colocar dúvidas. Veio a aceitar também, finalmente, para recuperação de bases que lhe faltavam, alguma ajuda do padrasto, que algumas vezes ela dissera que sabia Matemática mas não a convencia a estudar.

Fim da “história”:
No ano seguinte (9º), um dia notei de longe que o grupo da Rita estava conversando, aparentemente distraído da tarefa. Ao começar a aproximar-me sem que dessem conta, ouvi a Rita, com o seu habitual tom assertivo: Não podemos estar distraídos, temos que puxar pela cabeça, a Matemática é uma disciplina muito importante, das mais importantes para nos desenvolvermos.
(Confesso que fiquei um pouco atónita, pois as minhas expectativas não tinham ido tão longe. Afastei-me sem mostrar ter ouvido - apenas contei à directora da turma).

A Rita terminou o 9º ano com um aproveitamento bastante razoável em Matemática e, por acaso, a área para que seguiu, após a habitual orientação profissional da psicóloga escolar, incluía Matemática no currículo do Secundário.

P.S. Também aqui acentuo: Ao professor cabe criar o “ambiente propício e um tudo-nada de confiança” (e às vezes aceitar desafios que, inicialmente, se colocam mais a ele do que aos alunos), mas depois, se eles dão uma volta de 180º, o mérito pertence-lhes.