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sábado, junho 11, 2011

Adequação aos tempos actuais ou acomodação aos tempos desumanos? I

Fui professora no tempo da ditadura. Um ano no ensino nocturno numa escola do Barreiro, com esses maravilhosos operários(as)-estudantes de então, que regressavam do trabalho em Lisboa para irem directamente para as aulas, com uma sanduíche engolida  a correr como jantar. Depois ingressei no então recente "Ensino Preparatório". Tive um director no primeiro caso, a seguir uma directora até ao 25 de Abril de 1974.
Ambos me manifestaram consideração como professora, acho que porque nasci com vocação para o ensino, ou seja, eu tinha algo mais inato do que meritório. Assim, não me incomodaram, muito menos me ameaçaram por as minhas aulas terem sido sempre democráticas.
No entanto, no Ensino Preparatório, o meu método para a aprendizagem da Matemática já foi o que segui  em toda a minha vida profissional, baseado numa estrutura cooperativa de aula, além de que já fazia o que  veio a chamar-se "assembleias de turma", nas quais as alunas participavam activamente, quer sobre o seu trabalho, quer sobre o funcionamento das minhas aulas, e, como directora de turma, sobre o seu trabalho escolar em geral. Por isso, a directora escutava frequentemente à porta da minha sala de aula (só o soube quando do 25 de Abril pelas funcionárias que, antes, tiveram medo de mo dizer).

Um dia, a directora veio ter comigo para me falar sobre as minhas aulas. A fim de me chamar a atenção para que eu não estava a preparar as minhas alunas para a sociedade em que iriam crescer e viver. Não usou a expressão "sociedade não democrática", mas era isso que queria dizer. Claro que não me demoveu e... passado um ano aconteceu Abril (o que ela não previa, e eu não esperava para tão cedo). Afinal, não era verdade que eu não estava a preparar as minhas alunas ao proporcionar-lhes vivências de aprendizagem da democracia.

A ditadura durara 48 anos - eram então os tempos longos "actuais" em Portugal. E mais se prolongariam se não houvesse os homens e mulheres que resistiam, tantos enfrentando a prisão e a tortura, muitos arriscando a própria vida e até perdendo-a mesmo.  Pois, se a Revolução foi feita pelos capitães de Abril, as condições de enfraquecimento e apodrecimento do regime que permitiram o sucesso foram sendo criadas por aqueles outros que nunca se "acomodaram".

(Post a continuar)

terça-feira, maio 17, 2011

Beco...

Beco sem saída.
Beco sem saída?

(...)
Levanta-te meu Povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta  é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.

(Do Soneto do Trabalho, de Ary dos Santos)

sábado, março 12, 2011

Hoje apeteceu-me recordar Portugal no Festival da Eurovisão...

... talvez porque estou a sentir-me constrangida?


1973 - a canção que a censura não percebeu!



6 de Abril de 1974 - seria a 1ª senha pouco mais de duas semanas depois



1975 - interpretada no festival por um dos capitães de Abril



terça-feira, fevereiro 15, 2011

Podem passar os séculos... a política repete-se!



*Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!
*Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?
*Mazarino: Criam-se outros.
*Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
*Mazarino: Sim, é impossível.
*Colbert: E então os ricos?
*Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
*Colbert: Então como havemos de fazer?
*Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.

(Texto linkado para o post-fonte do respectivo blogue)

sábado, setembro 04, 2010

homens artificiais cheirando rosas de plástico

Soneto na morte do homem que inventou as rosas de plástico

O homem que inventou as rosas de plástico morreu.
Reparem na sua importância:
as suas flores imperecíveis e imaculadas nunca murcham
mas resolutamente velam o seu túmulo através da escuridão.
Ele não compreendeu a beleza nem as flores,
que enredam os nossos corações em redes suaves como o céu
e nos prendem com um fio de horas efémeras:
as flores são belas porque morrem.
A beleza sem o seu lado perecível
torna-se seca e estéril, um palco abandonado
com uma floresta de enganos. Mas a realidade
dá razão à invenção deste homem; ele conhecia a sua época:
uma visão do nosso tempo impiedoso revela-nos
homens artificiais cheirando rosas de plástico.

Peter Meinke


(Via Amélia Pais)

domingo, fevereiro 14, 2010

Leitura a não perder...

... e a reflectir.
Un tsunami de regalos (Miguel Santos Guerra)

O JMA publicou
aqui uma parte (As Crianças e os Tsunami de Presentes), eu sugiro a leitura de todo o artigo.

terça-feira, maio 19, 2009

Pelos vistos, já é tempo de não nos queixarmos dos jovens ;)

Com o agradecimento à Amélia Pais, de quem recebi estas citações.

QUATRO CITAÇÕES SOBRE A JUVENTUDE. SURPREENDENTE!

1ª citação:
"A nossa juventude ama o luxo, é mal educada, zomba da autoridade e não tem nenhuma espécie de respeito pelos velhos. As crianças de hoje são tiranas. Não se levantam quando um velho entra numa sala, respondem a seus pais e são muito simplesmente más"
- Sócrates (430-399 a.C.)

2ª citação:
"Não tenho nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o mando amanhã, porque estes jovens são insuportáveis e não têm moderação. Simplesmente terrível".
- Hesíodo (720 a.C.)

3ª citação:
"O nosso mundo atingiu um estado crítico. Os filhos não escutam os seus pais. O fim do mundo não pode estar longe".
- Inscrição no túmulo dum sacerdote egípcio (2000 a.C.)

4ª citação:
"Esta juventude está podre desde o fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Não serão nunca a juventude de outrora. Os jovens de hoje não serão capazes de manter a nossa cultura".
- Inscrição numa olaria de Babilónia (2500 a.C.)

Fonte: Ronald Gibson, British Medical Journal, cit. por "Revista da Armada", s.d.

segunda-feira, abril 06, 2009

Neste tempo de desconfiança e decadência

Hoje evoco e deixo três poemas(*)

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam

________

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
_______

Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos

Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga


____________________
(*) Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, agosto 14, 2008

...







Eu vou estando mais ou menos por aqui, mas Agosto é para deixar rotinas e máquinas (computadores) e procurar a Natureza. "Nossa cultura provocou uma transformação perversa nos seres humanos de forma que eles acreditam que, para estar bem, é preciso estar acoplado a objetos tecnológicos", como diz Rubem Alves; e, sobre a minha cidade, eu sinto como ele: "E assim foi acontecendo: a velha Campinas desaparecendo, as casas velhas sendo demolidas, o teatro municipal foi derrubado, desapareceram os bondes, e os pedestres perderam o direito às ruas, tomadas pelos automóveis... Como as andorinhas, já não encontro os cheiros de antigamente: as jabuticabeiras floridas, atrás dos muros, as murtas, nas praças, os jasmins, nos jardins... ". Os cheiros de antigamente não voltam mais, resta saber procurar recantos com cheiro a férias - férias de tecnologia sofisticada, de shopping, de ruído...

segunda-feira, setembro 18, 2006

Ponto prévio ao post posterior

Já não vou estar no terreno, pelo que me faltará a observação e o conhecimento, por amostra(s), do sentir dos professores, dos ambientes das escolas e dos efeitos para os alunos da política do actual Ministério da Educação - efeitos bons e efeitos maus, quais predominarão? Assim, este blogue voltará à sua principal intenção inicial de memórias de professora, intenção desviada para o tempo presente durante o (e devido ao) ano lectivo anterior. Mas isso não será para já, e explico porquê.

As minhas memórias são essencialmente de outros tempos (sim, no plural, cada 'tempo' tem andado a mudar depressa). Não penso que as memórias de "velhos" professores estejam necessariamente ultrapassadas, mas, para terem alguma pertinência actualmente, têm que ser ponderadas e escolhidas, entre muitas, as que ainda sejam adequadas.
A actual sociedade da Informação e Comunicação, ou, mais propriamente agora (? hum...), do Conhecimento, traz, por si só, novas exigências à Educação e ao Ensino, e isso nada teria de preocupante se não acontecesse que a globalização (de inevitável efeito nas políticas nacionais) decorre sob um pensamento neo-liberal desenfreado, que teoriza, defende, e se assume e se autoproclama condição indispensável e irreversível para o desenvolvimento/progresso económico, ao mesmo tempo que reformula conceitos e valores tais como Liberdade - o direito à "liberdade individual" -, ausentando desta um outro valor, que é o serviço a bem do colectivo humano, nomeadamente sem qualquer referente ético (ao menos em "teoria") sobre o livre empreendimento lucrativo mesmo que este cave o fosso da desigualdade ou acentue a pobreza e a marginalização. A democracia torna-se caricatura, ou luxo dos que a podem pagar, e também o(s) Estado(s) não se aguenta(m) no papel que deles se espera, passando "a bola" e deixando os imensos cidadãos que têm condições desfavorecidas cada vez mais desprotegidos.

Ora, a que propósito vem este meu "discurso"? Pois vem a propósito de que, se é irrecusável que a escola tem que ser capaz de preparar os jovens para corresponderem às exigências da actual sociedade, é também, penso, imprescindível que se não limite a instruir e a preparar para um contínuo aprender e que não esqueça que a educação não está cumprida se não atingir uma finalidade essencial: a aquisição de autonomia de pensamento e de capacidade e instrumentos para análise crítica. Se assim não for, a escola manter-se-à instrumento de reprodução de "valores" vigentes ao serviço dos intereresses dos pequenos senhores de países como o nosso e dos grandes senhores do mundo.

Tenho, nos últimos dias, citado uma afirmação de Hargreaves e volto a citá-la porque me parece urgente que ao menos os professores a assumam: "Ensinar para a sociedade do conhecimento e educar para além dela constituem dois objectivos que não são necessariamente incompatíveis". E penso que é sobretudo para esta segunda vertente que todos os contributos, em forma de memórias ou testemunhos, não serão demais - desde os pequeninos como os de professores anónimos como eu até aos bem maiores de docentes cujo prestígio não permite que lhes seja recusada a publicação da voz.

Contudo, e para finalizar explicando que não será para já que retomarei a escrita de memórias, mesmo uma pessoa que, como eu, é lida apenas por um número insignificante de colegas sente neste momento que já não deverá escrever por impulso deste ou daquele dia ou motivado por este post ou aquele comentário noutros blogs. Ora, estou num período bastante monopolizado por reorganizações, quer de vida na minha nova fase, quer de "cabeça", pois (embora não se note devido a este cantinho estar voltado para a educação e o ensino) eu tenho uma muito maior necessidade pessoal e de fundo de reflectir em "coisas" mais abrangentes do que as circunscritas à "coisa" educativa para poder manter um entendimento optimista sobre o futuro da sociedade em que viverão os meus netos (ou em que eles lutem pelo dos seu filhos) e não cair nalguma conclusão, que recuso, da inutilidade de tudo - e isso não tem a ver com os conteúdos específicos deste blog, tem sim com necessidade de tempo para mais informação e novas leituras, agora que... tenho tempo!

Entretanto, este cantinho sempre foi também um "sítio" onde me dá jeito exprimir a mim mesma estados de espírito ou breves pensamentos, seja para os salvaguardar, seja para os contrariar, pelo que o "até..." indefinido do post acima (que ia publicar quando resolvi teclar este "ponto prévio") provavelmente não significará silêncio, já que eu gosto de poemas e de imagens a quebrar o silêncio. ;)

quarta-feira, junho 21, 2006

E porque hoje é um dia qualquer...

Não me apetece escrever, vou para a cama ler. Tenho um livro para acabar, pois meti pelo meio um poema em prosa (estava a precisar), mas vou acabá-lo hoje - O Século Chinês*. Ainda não tinha lido um ponto da situação tão completo e, se já andava com dificuldade em imaginar este século com os vertiginosos "progressos" da China (que me sejam desculpadas as aspas, mas o conceito de progresso cá para mim anda desvirtuado pelo planeta inteiro), agora, com este relato, se tento conceber previsões, quem fica doida sou eu.
(Eu sempre achei que o universo não é doido, portanto o nosso planeta também não, mas o nosso planeta é habitado, os seres que nele habitam perderam os sonhos, uns porque se embriagam em banhos de notas, outros porque não têm nem uns trocos para sobreviver, e os primeiros são loucos e põem os segundos loucos. Mas ainda há uns terceiros que têm a sorte de não ter nenhum monte ou montinho de notas, mas ficam-lhes umas moeditas até para ir comprando livros, acho que ainda são os que conseguem ir arranjando protecções para não virarem doidos)

Afinal, escrevi umas palavritas, mas é mesmo verdade que não me apetece escrever até ao fim de semana.
Bom trabalho para todos!
_________
*Federico Rampini (2006). O Século Chinês. Editorial Presença. (Original publicado em 2005)

quinta-feira, março 30, 2006

Adenda: Crescer, hoje...




Preferia poder olhar só esta imagem, mas...













Crescer não é fácil.
Nunca foi fácil aos pais ajudar a crescer, nem à escola ajudar também. Mas era mais fácil, e a sociedade dava uma ajuda, falava de perspectivas e de valores.
"As grandes corporações empresariais e seus personagens tomaram conta do circuito cultural da infância e da juventude", e eu acrescento... com a ajuda dos media. E acrescento também que aos valores vigentes não chamo Valores, e que às perspectivas oferecidas aos jovens chamo aliciamento ao Salve-se quem puder (com valores ou contra eles), drogue-se quem não puder.

Assim curtinho, que é só uma adenda.

E olho outra imagem, que é mais complexa que a primeira.

Diane Tremblay, Adolescence

P.S. E acho que agora o "open-closed" fica do lado direito ;)

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Tempo de desencanto II

Sergei Samsonov
________________________

Vivi o tempo em que acontecimentos e mudanças começaram a suceder-se muito depressa. Vivi num só tempo de vida várias grandes mudanças, inclusive pessoais - nos hábitos e ritmos, nos modos de convívio e comunicação, nos meus instrumentos de trabalho e em muito mais. Vivi, num só tempo de vida, vertiginosos avanços tecnológicos. Vivi, num só tempo de vida, diferentes Tempos. Vivi muito, pois nunca fiquei parada em nenhum desses tempos.

O terrível paradoxo é o de tudo ter mudado no mundo e o mundo nada ter mudado. Não é preciso mostrar estas estatísticas aqui, pois todos as conhecem.

Alguém que já viveu também tantos Tempos num só tempo de vida - Amélia Pais - deixou no meu post anterior um comentário lindo, como lindo igualmente o que escreveu no seu blog: "Volte sempre -por aqui navega-se entre flores." Refiro-o porque revela esse olhar positivo semelhante ao que sempre teimei, e teimei, e teimei manter. Mas a realidade no presente é mesmo essa que afirmei acima: o mundo nada mudou, as estatísticas nada mudaram - as estatísticas da pobreza e do sofrimento e também as da riqueza que violentamente afrontam tão enorme parte da humanidade. E há estatísticas por fazer, uma delas, a dos jovens delinquentes por raiva e desespero.
Eu sei que tanto tempo numa vida é um nada, eu sei que o progresso é processo historicamente lento, eu sei que a transformação pode requerer um caminho primeiro, até ao bater no fundo. Por isso, pude teimar e teimar num pensamento positivo, por isso o manterei sempre ao pensar o mundo humano. Mas, porque é um pensamento para além do meu tempo, e eu vivo o dia a dia do meu tempo, nem sempre o dia a dia consegue fugir ao desencanto.

Também porque é um pensamento sobre o mundo, e eu vivo num pequeno país em que não deixam de ser pequenas aquelas diferenças estatísticas, face à enormidade das mundiais.
Eu vivo num pequeno país em que um dia agarrei a mãozinha de cada uma das minhas filhas com a indizível emoção que gritava dentro de mim: elas vão crescer num país livre! Mas o país não se manteve à altura dos homens e mulheres de então - dos que saíram das prisões, dos que já nelas tinham morrido, dos que puderam regressar para fazer um país novo. E, ainda que alguns dos que tinham lutado contra um poder tenham depois afrouxado perante poderes exteriores, ainda que o pequeno país não tivesse condições para não estar hoje na cauda da Europa em desenvolvimento económico, teve as condições para não ser um medíocre país no desenvolvimento cultural. Cultura que significa consciência, inclusive política, cultura que significa visão e humanismo, cultura que significa lucidez e capacidade de dizer não, cultura que significa também património dos valores daqueles homens e mulheres - patrinómio que os filhos não parecem ter tomado dos pais.
Eu vivo num país em que não são diferentes cores partidárias que o tornam medíocre, são sim algumas escolhas individuais medíocres que se propõem para mexerem os cordéis do poder político, escolhas que por sua vez vão fazendo algumas outras escolhas mais medíocres ainda para completar as governações. País em que igualmente escolhas dos que mexem os cordéis do portentoso poder da comunicação social são medíocres ou subjugadas, ou simplesmente demissionárias do papel que poderiam ter na consciência e na cultura de um povo, do papel que poderiam ter também na educação, ao invés de alienação dos nossos jovens. Eu vivo hoje num país que se deixou tornar medíocre, apesar de possuir muitos homens e mulheres lúcidos e sabedores, mas deixados na prateleira ou sem voz pública.

É também tempo de Natal. E, se na intimidade da família e na alegria das minhas crianças ele é bom, não deixa de ser o momento do ano em que o exterior me parece mais alienado, o que deve estar a concorrer um pouquito para esta minha "crise" de desencanto.

domingo, outubro 23, 2005

domingo com jogos

Até foi uma tarde divertida. Eles brincaram sem pedir para irem para "aquelas" máquinas, também participei pois houve partida de bowling, e na hora do "tenho fome", "eu também", nem insistiram em ir ao McDonald's. Assim, foi só um nadinha pelos jogos e muito mais pelo post aqui, de Suzana Toscano, no blog Quarta República , que me lembrei de um texto que recebi há uns meses no mail (desses que correm de mail em mail, autoria perdida). Transcrevo-o, não tanto pela descrição - impossível de ser hoje real e impossível de não ser hoje insensatamente perigosa -, mas pela sua frase final.

"Será que nasceste nos anos 60 ou 70 ?
Como conseguiste sobreviver?
Os carros não tinham cinto de segurança, nem apoio de cabeça nem seguramente airbags.
No banco de trás era a festa, era divertido e não era perigoso.
As barras das camas e os brinquedos eram multicolores ou pelo menos envernizadas e com tintas contendo chumbo ou outros produtos tóxicos.
Não havia protecção infantil nas tomadas eléctricas, portas das viaturas, medicamentos e outros produtos químicos de limpeza.
Podia-se andar de bicicleta sem capacete.
Bebia-se água da mangueira de rega, num chafariz ou não importa qualquer outro sítio, sem que fosse água mineral saída de uma garrafa estéril.
Fazíamos carros com caixas de sabão e aqueles que tinham a sorte de ter uma rua asfaltada inclinada junto de casa podiam tentar bater records de velocidade e aperceberem-se, tarde demais, que os travões tinham sido esquecidos... Após alguns acidentes, o problema era normalmente resolvido!
Tínhamos o direito a brincar na rua com uma única condição: estar de volta antes de anoitecer. E não havia telemóvel e ninguém sabia onde estávamos nem o que fazíamos... Incrível!
A escola fechava ao meio-dia para almoço, podíamos ir comer a casa.
Arranjávamos feridas, fracturas e às vezes até partíamos os dentes, mas ninguém era levado a tribunal por isso. Mesmo quando havia grande bagunça, ninguém era culpado excepto nós mesmos.
Podíamos engolir toneladas de doces, torradas com toneladas de manteiga e beber bebidas com Açúcar de verdade, mas ninguém tinha excesso de peso, porque nos fartávamos de correr na rua.
Podíamos partilhar uma limonada com a mesma garrafa sem receio de contágio.
Não tínhamos Playstation, Nintendo 64, X-Box, jogos vídeo, 99 programas de TV por cabo ou satélite , nem vídeo, nem Dolby surround , nem GSM , nem computador , nem chat na internet , mas nós tínhamos.... amigos !
Podíamos sair, a pé ou de bicicleta para ir a casa de um colega, mesmo se ele morasse a alguns km , bater à porta ou simplesmente entrar em casa dele e sair para brincarmos juntos. Na rua, sim na rua no mundo cruel! Sem vigilância! Como é que isso era possível?

Jogávamos futebol só com uma baliza e se um de nós não era seleccionado uma vez, não havia traumas psicológicos, nem era o fim do mundo!
Por vezes um aluno talvez um pouco menos bom que os outros tinha que repetir. Ninguém era enviado ao psicólogo ou ao pedopsiquiatra. Ninguém era disléxico, hiperactivo nem tinha " problemas de concentração". O ano era repetido e pronto, cada um tinha as mesmas oportunidades que os outros.

Nós tínhamos liberdades, erros, sucessos, deveres e tarefas ... e aprendíamos a viver e a conviver com tudo isso.
A pergunta é então: mas como conseguimos sobreviver ? Como pudemos desenvolver a nossa personalidade ?
Será que tu também és desta geração?

Se sim, envia esta descrição aos teus contemporâneos, mas também aos teus filhos sobrinhos e sobrinhas, etc. para que eles vejam como era, naquele tempo!

Eles vão achar que a nossa época era aborrecida .... ah, mas como éramos felizes !"


terça-feira, setembro 20, 2005

Tempo para pausa

Comecei as minhas aulas.




De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume...

Matsuo Bashô

M. L. Esgueva (2001), Simplicity

Comecei as minhas aulas. Terá que decorrer algum tempo para que possa chamar "memórias" ao que trouxe do reencontro.
Quando iniciei este blog, queria escrever memórias de prof de Mat. Mas o momento presente, confuso, agitado e interrogado, nem me deixa disponibilidade mental para olhar para trás, nem me permite discernir o que ainda é relevante do que deixou de o ser.
E, desviando o pensamento da Educação para olhar o mais que vai acontecendo no palco da Governação, começo (como já disse por aqui) a sentir-me sufocada.
Por tudo isto, é tempo de fazer uma pausa. Uma pausa para aguardar. Uma pausa nos posts resultantes de pôr de imediato os dedos no teclado perante uma nova medida, uma notícia que me faz murmurar aos meus botões a palavra prepotência, um artigo que me faz saber que mais outra pessoa está a sentir o mesmo que eu, e também uma discussão com algum amigo que não é prof, que só não acaba aos gritos porque acaba no pedido mútuo de desculpas pelos gritos.
Em suma, o momento presente é confuso e preocupante. Mas, nele, já houve o tempo para prever, conjecturar consequências, interrogar. Agora, opto por parar e esperar. Porque o tempo está nublado, não há visibilidade para vislumbrar o evoluir deste momento. Resta, portanto, aguardar. (E desejar que o que for trigo cresça e o que for joio vá para a lixeira)