segunda-feira, novembro 21, 2005

Outra vez... é demais.

Adenda:
E a Srª Ministra da Educação tem a certeza de que, com as suas teimosas precipitações, não está a contribuir para que mais alunos distingam com a tão pouca precisão abaixo exemplificada noções como aula e recreio, ou trabalho e lazer, ou concentração e distracção?
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Escrevi no post anterior que agora é "tempo de dizer também, honestamente, que ninguém está totalmente isento de pecado."
Aparte casos de agentes de ensino que talvez devessem estar a fazer outra coisa - que existirão, ou então esta profissão seria uma excepção a todas as outras -, não se pode deixar de reconhecer que existem práticas a corrigir. No aspecto específico em que tocará este post, não se esquece as dificuldades e o stress que certas turmas causam, sobretudo no início do 2º Ciclo (também certamente no 1º Ciclo), pela existência nelas de alunos que são o reflexo do seu meio sócio-familiar extremamente desfavorecido e problemático. Não se esquece que, antes de se ter condições para ensinar as matérias escolares, há por vezes um tempo longo em que os objectivos são o saber estar numa aula em posturas minimamente razoáveis, o motivar para a escola e o integrar em tarefas escolares. Mas os dois casos que aqui vou focar já não são esses.

Mais uma vez os professores de uma turma, por um acaso em que todos ou quase todos a recebe pela 1ª vez no 8º ano, se depara com ela sem ter sido educada a saber estar numa aula, revelando hábitos de aí estar em grande barulho e agitação mesmo quando a professora explica, e mesmo com comportamentos de quem está num recreio - e sem vigilante. Não se trata em geral de alunos chamados "problemáticos", não se trata em geral de alunos com procedimentos que requerem sanções disciplinares por, por exemplo, frontais faltas de respeito aos professores. Trata-se de alunos que puderam passar o 7º ano na atitude e no ambiente referidos. Não que eu pense que não foram admoestados. Penso, sim, que existe um problema de confusão, de não consenso e sobretudo, talvez, de grande insegurança quanto à questão da permissividade. E esta é uma questão que precisa de ser debatida nas escolas. Não para acusar, mas para reflectir e construir. Não para estigmatizar, como faz ou permite fazer a actual ministra da Educação, mas para concertar actuações e consciencializar todos de consequências irremediáveis que estas situações podem ter quando só se colmatam num ano tão tardio como o 8º.

Foi assim que me chegou a turma que, no ano lectivo anterior, recebi no 8º - turma de que já aqui falei em Setembro, chamando-lhe a minha prioridade e contando que a minha pergunta "como vou fazer?" se seguia à pergunta que me fazia no 3º Período do ano anterior: "posso fazer alguma coisa?" (Também depois voltei a mencioná-la para contar que já me estava a dar alegrias).
Foi novamente assim que me chegou a minha turma de 8º deste ano. Mais uma vez, foram necessárias algumas semanas (a mim e decerto aos meus colegas) para conseguir (sem recurso a sanções disciplinares) o ambiente minimamente indispensável a um normal funcionamento. E, após essa etapa, nada mais fiz até ao fim da 1ª semana deste mês de Novembro senão tentar colmatar algumas grandes lacunas do 7º ano - lacunas inevitáveis quando os respectivos alunos são os primeiros a reconhecer que não prestavam atenção no ano anterior; lacunas em matéria essencial, mas apenas, por agora, relativa a pré-requisitos indispensáveis para a aprendizagem do que vamos tratar no início do 8º. No entanto, nem esta acção de recuperação tem resultado para bastantes alunos dado que, embora agora já razoavelmente disciplinados, hábitos de concentração e de trabalho na própria aula, motivação e sentido de responsabilidade não se adquirem de um momento para o outro.
No entanto, o mais problemático nestas situações, o que referi poder ter consequências irremediáveis, é que para alunos, em considerável número, que, por essa desatenção permitida ou não ultrapassada atempadamente, foram transitando com nível negativo em disciplinas sequenciais como Matemática e Inglês, ao modificarem a sua atitude (até porque a idade facilita que comecem a preocupar-se), as grandes e por vezes longínquas lacunas já lhes torna verdadeiramente difícil a recuperação, porque o professor não vai contar com grande esforço em casa e o trabalho diferenciado e individualizado na sala de aula para conseguir a recuperação minimamente indispensável faz muito, mas não faz milagres.

10 comentários:

Miguel Pinto disse...

A escola começa a virar as costas às atitudes e dos comportamentos dos alunos. E quando digo há sinais de que as atitudes e comportamentos não merecem a atenção da escola, refiro-me concretamente ao “peso” [que palavrão] que o domínio sócio-afectivo tem na classificação dos alunos.
Há conselhos pedagógicos que [pressionados pela estória dos inquéritos do básico a Matemática?] decidiram, a meio do primeiro período, reforçar o peso do domínio cognitivo. Estranho?

Anónimo disse...

A escola onde estive recebeu durante largos meses uma assistente de línguas no âmbito de um programa europeu. A assistente deu aulas de inglês aos alunos interessados, reforçando sobretudo a oralidade (que é bastante descurada em Portugal). Ora, a colega lidava com os alunos mais receptivos e interessados - aqueles que se voluntariaram. Soube, no final do ano, que esteve prestes a desistir ao fim de duas semanas. Estranhou (ou ficou em estado de choque com) o comportamento dos alunos. Os melhores alunos da escola - porventura os mais bem comportados, os mais interessados em aprender - pura e simplesmente não a ouviam. Havia sempre alguém a sussurrar, a falar, a interromper as instruções dela. pedro

pedro disse...

Acrescento:

1. A escola onde estive o ano passado;

2. A colega era de um país de leste, dos que recentemente aderiram à UE.

IC disse...

Miguel, confesso que não entendo o que querem dizer (na prática)esses CPs com reforçar o peso do domínio cognitivo (não dando ou dando pouca atenção às atitudes), não faz sentido para mim. As atitudes reflectem-se nos resultados ou desempenhos dos alunos, o trabalho do professor passa por uma acção constante de modificar/melhorar atitudes no âmbito de interesse, atenção/disciplina no trabalho, esforço e persistência, autoconfiança, responsabilidade, etc. Não é no momento da classificação que isso tem que merecer maior ou menor atenção, é ao longo de todo o antes da classificação, por isso não faz sentido para mim dar menos atenção às atitudes para reforçar o domínio cognitivo. Dar peso ao domínio cognitivo sem trabalhar (e sempre mais e mais, dado que se nota uma crescente desresponsabilização ou não educação dos alunos) sobre o que concorre para que adquiram/desenvolvam competências cognitivas???????? Creio que esses sinais que referes de a escola dar cada vez menos atenção a atitudes e comportamentos reforça o meu post, incluindo a minha consideração de que "há um problema de confusão", e agora já não estou só a referir-me à questão da permissividade.
(Suspeito que estás de acordo comigo)

IC disse...

Pedro, que os alunos destas idades não conseguem manter atenção a longas exposições, isso é mesmo assim. Mas não é a isso que se refere, julgo que se refere ao que eu foco: a não educação desde cedo para hábitos indispensáveis não só ao sucesso escolar em sentido estrito, mas à formação dos futuros cidadãos. E quando a colega que menciona estranhou, até ficou em estado de choque... pois é isso mesmo, por isso acho que urge reflectir no que anda a acontecer em turmas, em demasiados alunos.

IC disse...

P.S. Mas esclareço que não penso que sejam só os professores que têm que reflectir sobre isso; são também os pais, e é a sociedade toda - esta, fundamentalmente, porque os miúdos de hoje são o produto dela toda (acho eu).

Miguel Sousa disse...

concordo com a IC....acho as atitudes um centro de tudo: da transformação do aluno (como produto da aprendizagem); do trabalho do professor e da família; do ambiente (propício ou não) para que o aluino aprenda

Anónimo disse...

Bem, eu não falei em longas exposições, falei em instruções para determinada tarefa... instruções que não demorariam mais do que meio minuto a dar. E asseguro que, nas aulas, a colega recorria a tudo menos a longas exposições (ela recoria ao método comunicativo, que assenta sobretudo na troca de informação professor/aluno e aluno/aluno). Mas o não prestar atenção ao professor é o menos: este método exige uma disponibilidade para ouvir/compreender/responder para a qual os nossos alunos não foram ou não estão a ser educados. A situação chegou a um ponto exasperante. Basta ouvir as conversas nas salas de professores. pedro

Anónimo disse...

Escrevi num comentário anterior que a oralidade é bastante descurada no ensino das línguas estrangeiras, enquanto que noutros países ela corresponde a 60 a 70% das aulas/conteúdos/avaliação. Ora, será que a oralidade é descurada porque ela é impossível em Portugal? pedro

IC disse...

Pedro, eu compreendi que não se referia a longas exposições e agradeço o seu testemunho pois eu sinto que até em 3 ou 4 anos se nota um agravamento da situação e era importante que muitas vozes alertassem para que está a ser alarmante isso que confirma: que os alunos não foram e não estão a ser educados para a disponibilidade de ouvir e compreender - e muito menos para um mínimo de autodisciplina para algum estudo ou realização com atenção de pequenos trabalhos de casa. Mas só os professores observam isso, e não têm voz para alertar publicamente. Os professores podem e devem fazer muito para corrigir isso, mas não creio que o consigam sozinhos.