Eastman Johnson (1860)quinta-feira, maio 25, 2006
Tanta gente... e tão poucos...
Tanto fervor desviado e perdido!
Tanta gente ajoelhando à passagem do tempo
e tão poucos lutando para lhe abrir caminho!
(...)
Jorge de Sena (Panfleto)
terça-feira, maio 23, 2006
Caça às bruxas ou paranóia?
Não temos medo de avaliação individual, não recusamos (pelo contrário) uma avaliação de desempenho efectivamente correcta, mas que seja baseada em critérios e meios fidedignos (e, já agora, também queremos uma avaliação de todo o sistema, incluindo a avaliação das instituições e modelos de formação de professores, da adequação dos currículos e da eficácia das medidas até aqui tomadas.
Para o acaso de alguém estranhar a nossa indignação, permito-me transcrever, como pequeno exemplo, extractos dos comentários deixados pela Teresa na minha recente entrada "Testes, testes e mais testes" :
sexta-feira, maio 19, 2006
:)

Lá porque tenho três turmas de testes em mãos, não vou deixar o cantinho com o tema provas-exames pendurado na janela enquanto ando em crise de escrita!
Prefiro uma flor...
Claude Monet (1883), White Poppy
felizmente, as flores
tinham acabado de florir.
Hokushi
Adenda:
Adenda 2:
quinta-feira, maio 18, 2006
Adenda
(Cabeçalho de documento de arquivo, in www.apm.pt/apm/revista/pabrantes/EM16-1990.pdf )(Quando ponho o meu cantinho em pausa, gosto de deixar uma imagem bonita. Mas, em tempo de provas globais e, a seguir, exames, porque não deixar esta?)
Testes, testes e mais testes
Tive o cuidado de deixar marcado nas respectivas folhas dos livros de ponto um (UM) teste de Matemática para os meus nonos anos, antes de entrar em férias da Páscoa. Mas, pelos vistos, devia ter tido esse cuidado logo em Setembro, pois foi uma complicação! Não têm prova global porque têm exame, mas é importante (para eles, muito mais do que para mim) terem um teste global antes de passarem por um exame que até abrange o programa de todo o 3º Ciclo.
Tenho uma das turmas desde o 8º, a outra desde o 7º, bolas (!), um professor não sabe já bem o que cada aluno sabe e o que não sabe, as competências que já desenvolveu ou não? O curto 3º Período (encurtado para os nonos) era-me muito mais preciso e precioso para (além de cumprir o programa, que é preciso acabar todo, todinho, não é? - não vá sair nesse tal exame logo um temazinho deixado para o fim porque eu o acho pouco relevante, mas quem elabora o exame pode não achar), repito, era-me muito mais precioso este tempo de recta final para umas "coisas" que a minha cabeça pensa serem mais importantes, a saber: Apelar a um esforço de mais trabalho e concentração na aula e aproveitar a receptividade ao apelo devida ao momento de proximidade de uma avaliação final ; insistir em mostrar-lhes, em cima da resolução de mais problemas, as causas de não os resolverem, tantas vezes residentes apenas nesse flagelo que é o lerem enunciados a correr e depois procurarem na memória algo que pareça servir ao problema, em vez de lerem atentamente e soltarem o raciocínio que até têm - e esse tempo de resolver problemas sempre a provar-lhes isso até já, finalmente, os fez parecerem outros; dizer àqueles a quem dei negativa no 2º Período que ainda estavam a tempo, que teriam oportunidades de recuperar, de colmatar lacunas significativas, e, sobretudo, provar isso com uma medida que é sempre muito encorajadora para eles - essas aulas a que chamamos (eu e eles) de recuperação, nas quais faço mais ginástica do que no ginásio, porque as dificuldades de cada um são de cada um e o apoio tem que ser individualizado - mas valendo, como ajuda, que os putos são solidários, pois, nessas aulas, os outros a quem entrego por exemplo uma ficha de problemas, procuram mesmo apresentá-la terminada no fim da aula, "desembrulhando-se" sem me chamarem e ajudando-se uns aos outros, pois sabem que se os vir parados tenho que tirar tempo aos colegas que estão "em recuperação".
Mas, porque estarei eu a escrever estas linhas todas, alguém me impede de aproveitar o tempo assim? - perguntará quem eventualmente me leia. Impede(m), sim. Ainda hoje me zanguei com a minha melhor turma, na realidade, verdade se reconheça, excessiva e algo injustamente, por estarem muitos deles desatentos na própria véspera do meu teste. Eles estão desconcentrados, cansados, a pensarem nos testes que terão a seguir, que requerem mais estudo com memorização do que a Matemática e que, para alguns, são decisivos (o decisivo é UM teste?), eles há mais de uma semana que quase não há dia em que não tenham um teste, o que seria normal se não fosse esta a semana que precede imediatamente aquela em que começam as provas globais. Começam 3ª feira, até na 2ª têm um teste (só por acaso não são dois testes em dias seguidos nessa disciplina porque não calhou a primeira prova global ser a da dita. E EU NÃO ENTENDO! (E não me contive, disse-o há dias nas turmas em voz alta - os miúdos lamentam-se e, quando têm razão, seria feio dizer-lhes, ou dizer-lhes somente, qualquer coisa no género Se estudassem regularmente, não andavam agora tão aflitos)
Testes antes das provas globais, eu entendo, claro, mas com um tempinho de intervalo, até porque o teste só é a última prova de que não aprenderam quando já não há tempo para esse importante momento que é o da aprendizagem na correcção individual dos testes, aproveitando os erros para os compreenderem, aproveitando o professor para mais um 'forcing' para que compreendam ou corrijam noções mal assimiladas. Agora, dois testes seguidinhos, multiplicados por n disciplinas, preenchendo considerável percentagem do tempo de um curto 3º Período... e os professores de Matemática e de Português que apanhem depois com o alarido das taxas de insucesso nos exames - sim, esses professores que tiveram as turmas, com tantos alunos difíceis e fraquitos, preocupadas com TESTE, TESTE durante semanas em que ainda era o tempo de ensinar um bocadinho mais e, para alguns, dado ser a altura em que se sentem mais responsabilizados, de aprenderem talvez dois ou três bocadinhos mais. Eu consegui um "buraquinho", ou seja, um dia sem terem outro teste, para o meu, mas não estou nada preocupada por ter feito só UM (enquanto colegas fazem dois e mais prova global), estou é aborrecida comigo por - em vez de ter perguntado a mais professores do que àqueles dois a quem cheguei a perguntar, afobados com matrizes, testes e provas globais, se pensavam que os professores de Matemática e de Português não precisavam de fazer teste nenhum e se achavam que nada tinham a ver com estas duas disciplinas - ir ainda zangar-me com a minha melhor turma, como hoje, cheinha de testes desde a semana passada, nervosos, alguns com essa coisa bloqueadora que é o medo ou ansiedade perante uma situação 'diferente' porque para a semana terão outros com um nome diferente, que até não faria grande diferença se não fosse envolvido por um ambiente também diferente, todo formal, onde nem haverá a presença do seu professor (não ajudaria a resolver a prova, mas um sorriso tranquilizador ao passar e olhar ou uma simples expressão no olhar, daquelas que eles entendem como 'Pensa mais um bocadinho', até ajuda sem qualquer fraude).
Às vezes dizemos: já têm 15 anos, já não podem ser tão pouco responsáveis. Mas era bom que, nessa história dos exames nacionais que virá a seguir, se pensasse um pouco: ainda têm 15 anos, alguns 14, e, ainda por cima... isso bonito, mas difícil, que se chama adolescência.
O artigo que me deu algum apoio, fazendo-me desatar a escrever o desabafo, em vez de ir para a cama, artigo de João Filipe Matos - até o conheço, foi meu professor de metodologias de investigação qualitativa, "pegámo-nos" numa das primeiras aulas, mas depois demo-nos muito bem, coisa que também acontece comigo e alguns alunos indisciplinados ;) - está aqui
segunda-feira, maio 15, 2006
O pequeno Azul
- Como chegar ao amanhã?
E o velho sábio responde:
Primeiro, para chegar ao amanhã, é preciso querer chegar lá ...
Em seguida, devemos escolher as pousadas aonde descansar e refletir acerca do próximo caminho a percorrer.
Depois, a cada passo do caminho, perguntar o que fazer com as pedras encontradas na estrada, nas margens e no horizonte.
Manter o olhar alternadamente no futuro e a um metro dos pés.
Finalmente e sempre:
- sentir e caminhar, caminhar e sentir, sentir e caminhar...
Como o pequeno Azul, caminhando e, sobretudo, sentindo, chegaremos ao amanhã..."
Autor desconhecido, Como chegar ao amanhã. Em www.metaforas.com.br
domingo, maio 14, 2006
Um ano depois (ou Um projecto desviado)
Não frequentava a blogosfera, não costumava ler nenhum blog, mas a modalidade atraiu-me como meio prático de ir teclando uns escritos, aliado a um aspecto motivador da escrita que era o de me propiciar também ter um cantinho onde, além de ir nele guardando esses escritos, de vez em quando libertar este ou aquele estado de espírito mediante uma imagem ou um poema - já que não sei pintar nem escrever poesia, a procura de uma expressão metafórica de um pensamento ou estado de espírito ora me diverte, ora me permite extravasar uma zanga, ora me proporciona tranquilidade ou silêncio.
Criei o blogue prematuramente em Maio devido a ter-me posto a experimentar o manejo técnico, pois, como então disse, na entrada inicial, era um projecto a começar verdadeiramente só nas férias, dado que não queria ficar por memórias ou episódios, precisava da disponibilidade dessas férias para começar a rebuscar alguns fundamentos (nas minhas fontes de teoria/investigação), do que, com alguns dos relatos soltos, implicitamente defenderia, tendo em mente referências ou curtas notas, ao mesmo tempo que aproveitaria para ir organizando uma "revisão-síntese" pessoal, independente de uso para o blogue. Na verdade, pensei neste entretenimento como pequeno baú de "soltos" para mais tarde o abrir - nesse tempo de reformada que nem estava projectado para tão próximo como afinal ficou pelo repentino "tirem-me deste filme" - e então pensar em "sim ou não" fazer alguma coisa com as minhas memórias de prof. (Mas, este relato também é, já, somente uma memória)
Entretanto, pesquisei por blogues de professores, já não me lembro se terei deixado algum comentário ao Miguel Pinto, mas ele descobriu-me (é perito na descoberta de cantinhos de colegas) mais ou menos ao mesmo tempo, julgo, que Julho desviava o meu projecto antes do Agosto em que imaginara prossegui-lo "direitinho" (e devagar). Esse Julho em que começou, a meu ver, o maior erro no sistema educativo que vi em toda a minha vida adulta - a partir do "escândalo" dos resultados em Matemática dos exames nacionais realizados pela primeia vez no 9º ano, começou o achincalhar da classe docente, já que seria pouco lógico ficarem pelos professores de Matemática, elegendo-os como espécie aparte, vocacionada para a incompetência.
E, assim, neste meu cantinho, já não sei, agora, o que escrever. Mais do mesmo sobre esse descalabro, não vale a pena - é repetitivo, cansa e desmoraliza. Quanto ao meu projecto inicial sobre o ensino-aprendizagem, particularmente da Matemática, e também sobre experiências ou memórias relativas ao acto educativo global, isso pareceria insólito neste momento caótico, como embrulho lançado por extraterrestre num ambiente nada oportuno caracterizado pelo tudo ser feito para humilhar, desmotivar e desviar os professores de disponibilidades para dialogar e reflectir sobre os seus modos de ensinar e educar. Além de que uma prioridade se está tornando cada vez mais urgente - a reflexão e busca de soluções face ao problema da indisciplina dos alunos nos seus vários aspectos, incluindo a simples, mas generalizada indisciplina de trabalho. Problema, a meu ver, a requerer cada vez mais urgência, como disse, (se acaso não passa primeiro pelo problema da educação do cidadão adulto), e também mais urgente do que assuntos que entravam no meu pequeno projecto de escrita.
Já que pus de parte esse projecto, humilde, mas decorrente de experiência de uma vida profissional inteira, não vou terminar esta entrada sem, ao menos, referir uma das questões que me são mais caras, uma questão em torno da qual pugnaram (pugnámos) bastantes professores de Matemática do Básico - a dos métodos de ensino-aprendizagem da matemática nas idades da escolaridade obrigatória. Deve ter sido pela década de 80 (?, não me apetece fazer contas) que vimos essa questão fortemente assumida e apoiada pela Direcção Geral do Básico, através do seu Departamento de Matemática, num governo de que nem estou certa da cor (lá teria que fazer contas), o que é (deveria ser) irrelevante nesse âmbito. E há que deixar de omitir que certas inovações, que requerem (re)aprendizagens e procedimentos faseados que alteram os "timings" que professsores estão habituados a querer rápidos para terem depressa uma turma a funcionar "bem", tenderam à imediata desistência de também bastantes colegas, após um "vou experimentar". Tal como há que deixar de omitir, de forma mais geral, isto é, não circunscrita à matemática, que, se é verdade que o 25 de Abril eliminou aqueles métodos expositivos e controladores dirigidos a turmas que se queriam passivas, não deixa de ser ainda pertinente cada um perguntar-se até que grau foi significativa a mudança (embora havida, obviamente), pois, provavelmente, os que mudam e inovam sempre o fizeram por predisposição, mas também haverá os que precisam de criar disposição, aceitando perguntar primeiro a si próprios se as sucessivas roupinhas novas, que até, por exemplo, a força das novas tecnologias acaba por obrigar a vestir, significam sempre, de facto, mudança por baixo da roupa.
P.S.:
Mas também há uma pergunta a saber-se fazer a si próprio ao fim (e ao longo) de um percurso: Estas ou aquelas perspectivas de um tempo ainda são adequadas a situações de outro tempo? Sob pena de, não se sabendo fazê-la, não se ter percebido que são os novos que saberão responder aos novos tempos (e, se não souberem, mais ninguém poderá dar, por eles, as respostas).
Building Memories
Jack Sorenson
quarta-feira, maio 10, 2006
Fases...
(No domingo explicarei melhor, hoje fica só a fase em "quadradinhos".



P.S.: Autores não identificados? Não tenho culpa que ponham à disposição na net imagens sem assinatura, nem sei a quem pedir desculpa por uns "toques" em duas delas!
segunda-feira, maio 08, 2006
Rótulos (Adenda)
Uma memória escrita (II)
(...) E, soubera-me tão bem encontrar, em português - nosso, original - se não poesia, pelo menos o belo no horizonte projectado pelo olhar do próprio cientista, sociólogo, professor, que outro não procurei.
Não caberá dentro do programa de Psicologia Educacional. Mas só porque, creio, é esta que cabe, como ciência humana, em "Um discurso sobre as ciências".
Boaventura de Sousa Santos desculpar-me-ia, decerto, esta composição de extractos da sua Oração de Sapiência, pois creio não ter, em nada, deturpado o seu pensamento ao retirá-los do restante contexto.
-
Tenho comigo uma criança(1) que há precisamente duzentos e trinta e cinco anos fez algumas perguntas simples sobre as ciências e os cientistas. Como ela, estamos de novo perplexos; instalou-se em nós uma sensação de perda irreparável tanto mais estranha quanto não sabemos ao certo o que estamos em vias de perder; admitimos mesmo, noutros momentos, que essa sensação de perda seja apenas a cortina de medo atrás da qual se escondem as novas abundâncias da nossa vida individual e colectiva. Mas mesmo aí volta a perplexidade de não sabermos o que abundará em nós nessa abundância.
Estamos de novo regressados à necessidade de perguntar pelas relações entre a ciência e a virtude, pelo valor do conhecimento dito ordinário ou vulgar que nós, sujeitos individuais ou colectivos, criamos e usamos para dar sentido às nossas práticas e que a ciência teima em considerar irrelevante, ilusório e falso.
De novo, como aquela criança, temos de perguntar pelo papel de todo o conhecimento científico acumulado no enriquecimento ou no empobrecimento prático das nossas vidas, ou seja, pelo contributo positivo ou negativo da ciência para a nossa felicidade. Duvidamos suficientemente do passado para imaginarmos o futuro, mas vivemos demasiadamente o presente para podermos realizar nele o futuro. Afinal, se todo o conhecimento é autoconhecimento, também todo o desconhecimento é autodesconhecimento.
Vivemos num tempo atónito que ao debruçar-se sobre si próprio descobre que os seus pés são um cruzamento de sombras, sombras que vêm do passado que ora pensamos já não sermos, ora pensamos não termos ainda deixado de ser, sombras que vêm do futuro que ora pensamos já sermos, ora pensamos nunca virmos a ser.
Tal como noutros períodos de transição, difíceis de entender e de percorrer, é necessário voltar às coisas simples, à capacidade de formular perguntas simples, perguntas que, como Einstein costumava dizer, só uma criança pode fazer mas que, depois de feitas, são capazes de trazer uma luz nova à nossa perplexidade.
Tenho comigo uma criança...
-
(Colagem de extractos de:
Boaventura de Sousa Santos, 1985,(2))
_____________
(1) Referência a Rousseau.
(2) Boaventura de Sousa Santos (1987). Um discurso sobre as ciências (6ª ed.). Coimbra: Ed. Afrontamento. pp. 6, 7, 8, 9, 58, 5, 6.
Nota: São adicionais ao texto do autor as palavras em letra reduzida: & 1,l & 3, l .
domingo, maio 07, 2006
Uma memória escrita...
A que propósito, aqui, esse meu escrito de então? E porque não (?), já que o encontrei há quatro dias, numa pequena operação de limpeza - ver conteúdos de disketes para deitar fora ou eventualmente guardar em disco - e este cantinho é para guardar recordações e, ao ler a primeira parte desse TPC (facultativo), parte em jeito de introdução ao pedido propriamente dito de uma professora... romântica (?), até sorri como quem pisca o olho a si mesma por achar que há 10 anos (também há 20 ou 30, julgo), apesar das consideráveis diferenças, ao mesmo tempo era igualzinha a mim agora ;) (Também porque ando com pouca apetência para escrever, não sei sobre que escrever)
A Professora Ester Luisa pediu que trouxéssemos uma pequena peça literária de alguma forma relacionada com a disciplina de Psicologia Educacional. Pareceu-me que nos estava a sugerir - a nós que, professores por profissão e educadores, quiçá, pelo prazer de contemplar o crescer, voltamos agora aos assentos da aula para (re?)encontrarmos os fundamentos da nossa prática e para aprendermos a questioná-la mais e melhor - que não deixássemos lá fora, ao entrarmos nos corredores da fria objectividade científica, a componente humana, de sensibilidade e empatia, indissociável de quem o humano estuda.
Confesso que a sugestão da professora me trouxe à mente, por contraste, "cinzento + laboratório", assim mesmo, como quando se pede _ olhe para a imagem e diga, de imediato, o que lhe ocorre. (Suspeito que o cinzento tem mais a ver com as resmas de textos em Inglês do que com o laboratório - este, talvez, de Pavlov ou de Skinner).
Metodologias... métodos... métodos quantitativos... E eu (que teria dificuldade em me imaginar sem uma formação em matemática, e que até estou a gostar muito das aulas das metodologias de investigação) estou agora a lembrar-me de que humano e medida são dois atributos que só forçadamente associo. (Aliás, detesto fazer contas. Virá a propósito o poema?)
(Descoberta da "outra" matemática)
Ai o ponteiro da tortura
naquela sala
que a matemática tornava mais escura
em vez de iluminá-la.
Felizmente só o nada-de-mim ficava lá dentro.
O resto corria no pátio-em-que-nos-sonhamos,
pássaro a aprender os cálculos do vento
aos saltos do solo para os ramos.
Mas só quando voltava para casa à tardinha
encontrava a minha verdadeira matemática à espera
na lógica dura das teclas do piano,
no perfil-oiro-pedra da vizinha,
na flauta de água macia do tanque
- chuva de Mozart nos zincos da Primavera...
Matemática cantante.
-
(José Gomes Ferreira, 1957-58)
Lembro-me de William James. Ignoro se poderá tornar-se ciência essa arte de ensinar e educar que, dia a dia, vamos exercendo - não sei se nascida em cada um, se aprendida por partilha, ou se promovida por eles, os miúdos, tantos, que já tivemos. Mas, ciência ou arte (será tão grande a diferença?), educação permanecerá, decerto, objecto e fonte de conhecimento e de interrogação na medida em que o humano, individual e social, assim também permaneça. Jamais, creio, o saber e a investigação lhe poderão ser alheios.
Não é por isso que, professores, aqui estamos alunos de novo? (Faltava acrescentar isto, claro, não fossem aquelas associações, ao correr do pensamento, parecer o considerar investigação do humano uma ironia!)
Não trago um poeta (José Gomes Ferreira foi só um parêntesis). Tinha ainda comigo o encantamento de uma leitura de há dias apenas. E, soubera-me tão bem encontrar, em português - nosso, original - se não poesia, pelo menos o belo no horizonte projectado pelo olhar do próprio cientista, sociólogo, professor, que outro não procurei.
Não caberá dentro do programa de Psicologia Educacional. Mas só porque, creio, é esta que cabe, como ciência humana, em "Um discurso sobre as ciências".
sexta-feira, maio 05, 2006
Fim de semana

E deixo som para não parecer abandonado enquanto...
... eu ando também a arejar...
"A Steven Spielberg film
E.T."
(Spielberg me perdoe o abuso da imagem)
_______________________________
Bom fim de semana ;)
quarta-feira, maio 03, 2006
Adenda: Pensamento oscilante
este papel de parede
ou ele se vai
ou eu me vou
(Oscar Wilde)
Pensamento 2
Já é primavera:
Uma colina sem nome
Sob a névoa da manhã.
(Matsuo Bashô)
Não me apetece falar de escola...
As aulas estão a funcionar bem (!!!). Manda a superstição popular que bata com os nós dos dedos aqui na madeira da mesa dizendo Diabo seja surdo, cego e mudo, não vá o diabo ouvir e amanhã ou depois eu levar outra vez as mãos à cabeça no fim da aula com alguma das minhas turmas...
Vão acontecendo episódios, uns gostosos, outros que dão para (re)interrogar , mas não é sensato fazer relatos indvidualizados do presente num espaço público, ainda que sejam favoráveis aos visados, que, mesmo sem nome, se identificam.
E, saindo da sala de aula para a escola em si (a minha e a geral), dela(s) não me apetece falar. Foi uma grande parte do ano lectivo aquela em o tema estava na cabeça e nos dedos, primeiro a comentar de impulso, depois a achar necessário aguardar para uma análise mais objectiva, lúcida e equilibrada da acção do ME e de tudo o que, directa ou indirectamente dela decorreu, depois ainda a deparar com meadas emaranhadas na cabeça e a agarrar pontas de novelos para tentar pensar direitinho, até que o terreno escola-sistema educativo me ficou irrespirável - necessidade de algodões nos ouvidos e óculos bem escuros, e, se calhar, dever passar a usar adesivo na boca para a fala não levantar pó. E, neste terreno actual, pôr memórias não faz, de momento, sentido, é perfeita inutilidade, ou é como falar de extraterrestres.
Se o Miguel Pinto não relança umas tertúlias, ainda fico muda.
terça-feira, maio 02, 2006
Exercício físico (Sermão a mim mesma)

Se tivesse um cão, estou mesmo a ver que o levaria à rua assim...
De casa à escola não demoro mais do que cinco minutos a pé, mas todos os dias tenho uma "forte" razão para ir de carro: Depois das aulas tenho que ir aqui, ou ali, ou acolá (até sei que muitas vezes, cansada de tanta deslocação na sala de aula, acabarei por vir mas é directa a casa). E, nesta minha preguicite aguda para andar a pé, até fico muito previdente: Hoje não preciso de ir a lado nenhum, mas nunca se sabe, depois das aulas pode apetecer-me. E há ainda o subconsciente, que sabe que tenho o carrito à porta e me faz atrasar até um minuto antes do toque de entrada, nesses dias ponho-me lá num minuto, mas a pé já não dá.
E o ginásio? Eu que andava tão certinha nos dois dias por semana, desde Janeiro que não ponho lá os pés. É à noite, estar já no quentinho de casa com tanto frio lá fora... e começou a ficar sempre no Para a semana recomeço. Agora, que já não está frio... Isabel, vê se largas a preguiça! Não bastou, no liceu, escapares quase sempre às aulas de ginástica? (Nesse tempo ainda não havia propriamente Educação Física). Pois escapava mesmo, que a professora quando me via aproximar-me com ar de pedido já dizia Está bem, menina, não é preciso dizer o que lhe dói hoje.
Adenda:
Adenda 2:
segunda-feira, maio 01, 2006
Memória do 1º de Maio de 1974
É uma memória única: Não houve mais em Portugal outro 1º de Maio assim. O que, aliás, é natural, pois festejava-se a libertação, os abraços eram entre todos, mas, por essa libertação começava a democracia, seguir-se-iam, pois, oposições entre partidos, divergências ideológicas/políticas, divisões, tal é inerente a um sistema democrático. Evoco esse 1º de Maio de 1974 porque, simplesmente, ele de facto foi único.
Porque as filhotas eram pequenitas e eu queria que "vissem", comecei por as levar de carro, no meu saudoso boguinhas de motor a dois tempos, a elas e aos seus avós paternos, pela Avenida de Roma, antes de ir eu para o estádio que se chamou 1º de Maio (a que se acedia a pé, pela avenida paralela). Carros e multidão mal se deslocavam.
Todas as mãos se agitavam com dois dedos em V, todos os rostos sorriam e riam para os rostos desconhecidos do lado, parecia que ninguém tinha ficado em casa ou deixado de acenar à janela, a não ser os que fugiam para o Brasil ou permaneciam, de persianas cerradas, fazendo o luto pelo 24 de Abril. Não se pensava em divisões partidárias, a euforia era a da libertação. O banho de carros e de multidão que, a pé, atalhava o caminho para o estádio, os braços e os dedos no ar, as buzinas, os sorrisos e risos de todos para todos, essa manifestação assim foi tão inesquecível que ficou também gravada na memória das minhas pequenitas. Quando consegui desviar e deixar as crianças entregues, era como abaixo se vê.
(Para o meu próprio arquivo documental, fui pesquisar as fotos na net, pois é muito difícil encontrar jornais da época naquelas prateleiras junto ao teto tão cheinhas de livros e documentos que já uma vez desmoronaram e foi um pandemónio cá em casa)
![]() | ![]() |






