Vim estudar para Lisboa com 15 anos, na minha vila natal não havia onde prosseguir os estudos mesmo ainda liceais, foi com essa idade que passei a ter a responsabilidade de tomar conta de mim (embora com o controlo que meus pais pediam aos meus hospedeiros). E tenho bem presente na memória essa Lisboa de então, lembro como sentia os sons e cheiros matinais de uma capital em que tudo se podia saborear devagar - os eléctricos com o tlin tlar isento da poluição sonora de businas, deslocando-se nos carris sem altas velocidades, as pessoas que desciam à rua ao encontro dos vendedores quando escutavam os pregões das varinas, leiteiros e ardinas e que diziam 'bom dia', 'bom dia vizinha', 'bom dia menina', ainda não tornadas anónimas ou indiferentes nas pequenas multidões de hoje, também as ruas, largos, fontes por onde se não passava de automóvel, por onde não se passava sem nelas sequer já reparar, e ainda os cafés não em grande quantidade mas que não fechavam às 21 horas, hoje encerrados no tempo que se conseguia que sobrasse para o café com amigos após o jantar, empurrando assim os jovens para mil e um bares e os adultos para casa a nesta substituirem por alguma comunicação (por vezes anónima) via Internet aqueles pontos de encontro onde não era preciso combinar para se saber que alguns amigos e conhecidos lá estariam de certeza.
Já que me reportei aos meus 15 anos, comparo o tempo dos adolescentes de então com os de hoje. É verdade que as horas no liceu eram lentas porque quase todas as aulas eram chatas, algumas a parecerem infindáveis, mas até nestas se ia arranjando tempo para ler, escrever ou divertir a jogar a batalha naval com a colega do lado ou da frente perante uma ou outra professora que, lá de cima do seu estrado, expunha o tempo quase todo para uma turma que não olhava com olhar de ver, abstraída na sua exposição. Mas o horário do liceu terminava cedo, dava para ir para casa fazer os tpcs e depois sentar confortavelmente, pernas estendidas, na entrega ao enorme prazer de ler que era comum a tantos estudantes. E, os que não estudavam nem tinham livros (muitos mais, eu sei), também tinham tempo, que parecia tanto, para esses jogos de rua hoje apenas chamados jogos tradicionais do antigamente, jogados naquelas algumas ruas em que raramente passava um carro e nos pátios e terrenos trazeiros aos prédios, ainda não tranformados em parques de estacionamento a abarrotar.
Hoje, os adolescentes passam dias inteiros na escola com pequenos intervalos entre aulas nos quais, em muitos casos, não há espaços senão para encontrões e atropelos. E chegam cansados e tarde a casa, o tempo já só dá para os tpcs ou, para os que optam pela TV, a playstation ou a conversação oca no msn mais não resta do que pensar à pressa numa desculpa a dar ao professor. Depois chega o fim de semana, os que ainda saem com a família são arrastados por esta para um dos centros comerciais que nascem por todo o lado como ervas, de preferência, aqui na capital, para o atordoante e alienador Colombo, há sempre pretexto para aí passar uma preciosa tarde, um qualquer objecto é inventado como pretexto de ir 'às compras' para mais um gasto não indispensável a aumentar a dívida que o cartão de crédito vai acumulando, além de que para captar a companhia do adolescente é preciso arranjar tempo para a escolha de uns ténis de marca ou mais um jogo para a playstation - que decepção se a proposta fosse a aquisição de um livro -, e para as crianças lá se concedem 15 minutos, da tarde de atordoamento por corredores de montras, para brincarem nos pequenos espaços a elas destinados.
Este post não significa saudosismo, apenas saudade; não significa que eu tenha ficado no passado a criticar o progresso, somente uma pergunta sobre se tudo o que parece progresso aumenta de facto a qualidade de vida. Eu até vivo mais devagar desde há alguns anos (embora poucos), a necessidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo numa ginástica para caberem em cada 24 horas já ficou para trás enquanto obrigação - filhas com a sua vida autónoma, outros empreendimentos já com a experiência a fazer ponderar melhor em termos do que são investimentos com significado ou utilidade, para não falar da profissão, pois só agora chegou ao fim. Todavia, neste tempo a poder usar com mais vagar, não deixaram de permanecer as tantas coisas adiadas que referi acima. Por isso, me suscitaram memórias e (mais uma vez) reflexão sobre a ocupação do nosso tempo estas palavras da Tit que me permito reproduzir, a terminar: "Mas... corremos afinal para quê? Para chegar onde?... Poupamos Tempo por uma vida com mais Qualidade, ou queremos apenas Tempo pelo Tempo?"
segunda-feira, julho 10, 2006
Nas horas de cada dia
sábado, julho 08, 2006
sexta-feira, julho 07, 2006
Intercalando
O R. foi meu aluno apenas neste ano. Veio para uma das minhas turmas do 9º com mais seis colegas (no ano anterior a turma tivera só 19 alunos, havia vagas para alunos transferidos ou repetentes).
Revelou-se um aluno com insuficiente desempenho, era muito pouco participativo e parecia não se esforçar em casa até pelos TPCs algumas vezes trazidos em branco.
Sete alunos novos, alguns repetentes, numa turma com diversos casos a requererem constante atenção individual, uns por frequentes recaídas no fingir trabalhar na aula e nem a fingir em casa, outros por lhes ser a Matemática difícil e o pedido de apoio um bom hábito, além de, no mais geral, ter os grupos funcionando em dinâmica já há muito adquirida, mas, claro, solicitando sucessivamente a professora e reclamando "stôra, então, agora nós!". Em suma, uma turma em que já não era fácil o tempo e a minha atenção darem para tudo.
Foi tardiamente que percebi que o R. tinha mesmo dificuldades, além das lacunas de anos anteriores que eu ia detectando - provavelmente transitara de ano para ano com nível negativo em Matemática. Pedi-lhe para não deixar de colocar as suas dúvidas e, já a meio do 2º Período, disse-lhe que lhe proporcionaria actividades de recuperação, teria era que corresponder com trabalho em casa - o que não teve ainda nenhum comentário sobre a minha ideia de que era pouco trabalhador. Procurei ir mais vezes junto dele e pedi particularmente a um colega de grupo que me chamasse (o R. não o fazia) quando achasse que ele ocultava que não estava a perceber algo.
O R. estava frágil em várias disciplinas, foi admitido a exame porque, dos três níveis negativos na avaliação interna final, dois foram em Português e em Matemática - ainda não se conhecem os resultados dos exames nestas duas disciplinas, mas é quase óbvio que reprovará neste seu 9º ano.
Pode ser verdade que havia um contexto que explica que a professora de Matemática (eu mesma, claro) tenha passado quase dois períodos com a ideia de que este aluno era dos que não se esforçam - ideia afinal decorrente de uma inibição que antes parecia ser um insuficiente envolvimento no trabalho nas aulas e de um silêncio sobre esforço para fazer vários TPCs trazidos em branco sem dizer que apagara por verificar que estavam errados. Pode ser verdade que, numa turma com certas características, o tempo não dá para tudo e que essas características dificultam que se repare que um aluno não é o que parece. Pode haver muita justificação que um professor dê a si mesmo. Mas... também é verdade que eu sei que há alunos inibidos pela falta de autoconfiança, por sucessivos insucessos numa disciplina como Matemática, por lhes custar dizerem que estudam mas não se sentem capazes. Um aluno diz-me tardiamente "estudo, mas não consigo, stôra" e fico surpresa, percebo que me enganara no juízo que até aí fizera. Será verdade, como já disse, que o tinha a ele e mais seis novos para conhecer e intuir já num nono ano e numa turma cheia de solicitações. Mas... deixei-o no único grupo que não tinha um aluno "forte", embora grupo de alunos médios - deixei porquê?, deixei só porque cada um dos melhores alunos já tinha colegas para ajudar e o R. não parecia suficientemente interessado; mas... .......; mas... o facto é que não intuí esse menino, foi preciso ele dizer-me.
Este relato não significa um sentimento de culpa pois culpa é um tipo de sentimento que racionalizo e rejeito. No entanto, significa que ainda soa na minha mente a frase tardia e comovente "estudo, mas não consigo, stôra", significa, em resumo, que falhei.
Fresca ainda a derrota da selecção portuguesa no jogo com a França, vem a propósito dizer que terá feito o seu melhor e que terá jogado globalmente bem, mas não ganhou e isto implica assumir que, nesse jogo, falhou, não se pode escamotear esse facto. Também o professor, por mais esforçado e empenhado que seja, quando não intui a tempo um aluno, com esse aluno falhou - mesmo que não possa garantir que, se tivesse intuído a tempo, teria podido fazê-lo superar as dificuldades, pois o professor falhou antes de poder dizer que não foi possível, falhou na intuição em tempo oportuno. E é esse o risco quando, numa sala, se multiplica uma atenção particular por n alunos que dela precisam e afinal são n+1 que necessitam.
quarta-feira, julho 05, 2006
Intervalo
Dalida, Le temps des fleurs.

...
C'était le temps des fleurs
On ignorait la peur
Les lendemains avaient un goût de miel
Ton bras prenait mon bras
Ta voix suivait ma voix
On était jeunes et l'on croyait au ciel
La, la, la...
...
Tout comme au temps des fleurs
Où l'on vivait sans peur
Où chaque jour avait un goût de miel...
Renoir (1864)
terça-feira, julho 04, 2006
Sortes e azares no acaso - I
Iam começar as aulas, soubemos uns dois dias antes que havia naquela nova turma de 5º ano uma aluna com uma deficiência, mas ninguém sabia dizer qual a aluna e de que deficiência se tratava. A professora do apoio comunicara apenas essa informação e ainda não pudera comparecer na escola.
Calhou ser a minha aula a primeira da turma, pelo que me coube fazer a identificação do caso. Mas, recebendo os alunos e conversando, nada notei - nos anos anteriores tinha tido um aluno com deficiência visual acentuada e duas alunas com paralisia cerebral, pelo que esperava uma deficiência facilmente detectável. Recorri então a um expediente: Ao distribuir umas fichas habituais para preenchimento de alguns dados, disse aos alunos que mas viessem entregar ao terminarem, um de cada vez, e que se alguém tivesse algum problema (dei o exemplo de não ver ou não ouvir bem) mo dissesse então (o que era fácil de suceder privadamente, pois a sala era grande, havia suficiente distância entre a minha mesa e as primeiras dos alunos).
Quando a Helena me veio entregar a sua ficha, disse _Eu tenho um problema. E, quase de imediato, declarou, exactamente assim: _Sou atrasada mental.
Salto, neste relato, o choque que procurei não evidenciar perante afirmação tão crua e o diálogo com ela, também a confirmação do atraso pelo relatório médico que a professora de apoio finalmente trouxe, e ainda o período que decorreu até ao acaso que veio a suceder.
A Helena era tímida, tinha um ar triste, e inibia-se de intervir se não fosse solicitada, sendo também nítida a inibição para responder, mesmo sabendo. No entanto, trabalhando em Matemática no grupo em que estava a melhor aluna (simpática, dinâmica e com grande espírito de ajuda), foi perdendo a inibição com os colegas de grupo e, curiosamente, em particular com essa colega - ou não tão curiosamente assim, pois tive muitos alunos a quem cheguei a dizer, brincando, que tinha que partilhar o meu salário com eles ;)
Depois de intervir, não deixando de dar os parabéns bem sinceros à Helena pelo seu bom raciocínio no exercício, só desejava que a aula acabasse para correr à procura da Luisa - a directora de turma - e, mal a vi, disse-lhe que tinha acontecido uma coisa extraordinária, uma prova de que a Helena conseguia raciocinar normalmente. Contei-lhe o caso, com a descrição do exercício em pormenor, e a Luisa ficou tão excitada quanto eu. Ela também já andava a reparar que, fora do contexto da sua disciplina, em debates 'não curriculares' que se proporcionam mais a um director de turma, a Helena começava a desinibir-se e a manifestar as suas opiniões e argumentos com uma inteligência normal, isto é, não revelando aí atrasos em relação aos colegas.
Entretanto, ambas já tínhamos começado a ter uma suspeita, embora nos parecesse ilógica. A suspeita era de que a Helena ouvia mal, mas parecia-nos ilógica porque, apesar de família pobre, tivera diagnóstico médico e acompanhamento, viera para o 2º Ciclo por se considerar que não adiantava continuar retida, mas estava a ser apoiada escolarmente num centro especializado onde ia umas duas vezes por semana, pelo que nos parecia impossível que, a haver uma deficiência auditiva, não tivesse sido detectada - a nossa suspeita era ainda incipiente pois, embora a Helena, quando interpelada, pedisse com frequência para repetirmos, tal podia dever-se a estar distraída ou a dificuldade de compreender a pergunta.
Face ao caso sucedido na minha aula, lembrámo-nos logo daquela suspeita e a Luisa pediu de imediato a comparência da mãe para lhe perguntar se não tinha nenhuma indicação de que a menina pudesse ouvir mal. À mãe nunca tal tinha ocorrido, mas disse que, de facto, a filha muitas vezes começava por dizer 'anh?' quando lhe falava um pouco de longe, o que atribuía a ela estar frequentemente distraída, pensando até que o 'anh?' se tornara uma espécie de hábito. Claro que a Helena foi logo a uma consulta e... foi mesmo detectada uma deficiência auditiva!!!!!!
Salto de novo este relato já tão longo. O Conselho de Turma decidiu que a Helena transitasse para o 6º ano com alguns níveis "esticados", e ela, informada de que as suas dificuldades de aprendizagem logo no 1º Ciclo podiam ter sido devidas a não ouvir bem e não o dizer (ou não se aperceber), perdeu o seu ar triste, foi ultrapassando a grande inibição e veio a fazer o percurso do 6º ano com um desempenho progressivamente mais satisfatório, sendo aprovada com níveis positivos que já não precisavam de ser "esticados".
Aprovada, mas não só. A Helena viu realizado o seu sonho de conseguir obter o 6º ano e começar a preparar-se para ser costureira, para o que tinha muito jeito e era a sua ambição, pois não a deixámos ir embora sem obtermos a colaboração da Junta de Freguesia para que lhe fosse oferecida a máquina de costura que as posses da família não permitiam adquirir - máquina de costurar e bordar, pois claro, não íamos deixar que a Junta diligenciasse menos! :)
(Brian Cody)
segunda-feira, julho 03, 2006
Sortes e azares no acaso - Preâmbulo
sábado, julho 01, 2006
sexta-feira, junho 30, 2006
Mais intermitências
Feodor Vasilyev (1870). After a Heavy Rain.Andam irregulares as minhas visitas na "blogosfera docente" e, por vezes, visito em silêncio. Tal nada tem a ver com os blogs ou escritos de amigos e colegas. Também tenho escrito dividida entre o impulso dos dedos para as teclas e a vontade de dormir, ler, ir olhar o rio. Na verdade, tenho andado numa ressaca, não sei se de uma tempestade, se de um soco que levei na cabeça (ou de um grande soco que dei eu quando saía porta fora antes do final de um filme que até era apaixonante?), se, simplesmente, de uma bebedeira sem alcool, mistela qualquer para adormecer algum despontar de perguntas tais como 'Tempo queimado, anos inúteis por um ensino e por um país?', 'É gosto ou é parvoíce continuar a amar a profissão da minha vida?' Mas a ressaca está em vias de passar (sempre curei todas, e empenhada em o fazer com rapidez!).
Bem, isto foi só para prevenir ou explicar mais intermitências possíveis no meu estar aqui pela blogosfera. E não é pensamento negativo, antes é um jeito de o afugentar.
[Até não é a primeira vez que trago o 'caminho para relaxação', para ficar aqui no cantinho bem à frente da minha vista ;)]
Barbara Aliaga, Road to Relaxation quinta-feira, junho 29, 2006
Num dia especial - II

É na quadra dos santos populares, no dia de um deles, dia de S. Pedro, o aniversário de minha mãe. Foi também numa rua chamada de S. Pedro que viveu parte de sua vida, como foi nessa Rua de S. Pedro que nasci, e vivi a minha infância. Por isso, hoje, deixo aqui essa rua e a que foi a nossa casa, aí mesmo à frente, à direita, num quadro de João Mário.
quarta-feira, junho 28, 2006
E para esquecer o Plano de Acção para a Matemática...
Ai, o ponteiro da tortura
naquela sala
que a matemática tornava mais escura
em vez de iluminá-la.
Felizmente só o nada-de-mim ficava lá dentro
O resto corria no pátio-em-que-nos-sonhamos,
pássaro a aprender os cálculos do vento
aos saltos do chão para os ramos.
Mas só quando voltava para casa à tardinha
encontrava a minha verdadeira matemática à espera
na lógica dura das teclas do piano,
no perfil-oiro-pedra da vizinha,
na flauta de água macia do tanque
- chuva de Mozart nos zincos da Primavera...
Matemática cantante.
José Gomes Ferreira
Plano de Acção para a Matemática - III
é só uma questão de treino!
Medida 12 -
Compilação e divulgação na página do Gave de 1000 items de exame para o exame de 9ª Ano e de sugestões de trabalho, de forma a proporcionar uma maior familiaridade de professores e alunos com o tipo de exercícios proposto.
Desisti de comentar. Ou teria muito a dizer sobre a diferença entre compreender/aprender e treinar, ou descambava para pensamentos esquisitos que me estão a vir sem eu querer, sem eu buscar... palavras terríveis que me bateram na cabeça sem minha autorização... Pavlov... estímulo-resposta...reflexos condicionados... cãezinhos amestrados... Pobres crianças, vejam lá o que vão fazer delas com a fixação nos resultados, a exibir, de um exame (apenas um exame)!
terça-feira, junho 27, 2006
Plano de Acção para a Matemática - II...
Medida 7 -
Lançamento de um Programa de Formação Contínua em Matemática para Professores de 2º Ciclo (...)
Medida 8 -
Apoio a Programas de Formação Contínua em Matemática para professores do 3º Ciclo e do Secundário.
Desconheço ainda sob que critérios vão se executadas estas medidas. Voluntariado? Dependendo dos cursos de formação inicial? Acções de actualização em matérias específicas, ou acções indiscriminadas/gerais, para todos?
Para o 2º Ciclo, serão entidades formadoras Escolas Superiores de Educação e Universidades. Não vou ao ponto de perguntar se professores dos Quadros de 2º Ciclo com cursos universitários, concretamente, licenciaturas em Matemática, (não, ainda não estão todos 'velhos', ainda há bastantes nesses quadros, longe da aposentação) vão ser chamados a "corrigir" a sua formação na ESE mais próxima, como também me abstenho de perguntar se professores formados em determinada ESE vão ser chamados à mesma que, segundo parece insinuar a Medida 7, lhes deu formação insuficiente.
Mas deixemos todos estes "pormenores".
Formação contínua é natural, desejada e desejável.
Recordo as frequentes acções promovidas pelos ministérios da educação no tempo em que o 2º Ciclo se chamava Ciclo Preparatório. Para a Matemática especificamente, tinham a designação de Encontros - Encontros de delegados da disciplina, que deles voltavam para as escolas com a missão de "passar" aos colegas o enriquecimento neles recebido, bem como a documentação. Esses encontros, em que não estavam em questão os conhecimentos científicos propriamente ditos, mas sim a didáctica específica e os métodos, eram frequentados com gosto até porque se trabalhava em grupos, discutia-se, trocavam-se experiências e novas ideias. E, nota importante, não eram notícia nos jornais.
Recordo também uma ampla acção, em 1974/75, para professores do Ensino Primário (assim designado na altura). Visava a Matemática, eu era nova, com estágio feito no ano lectivo anterior, talvez por causa dele me chamaram a participar como formadora, essa ainda juventude poderia ser constrangedora para as colegas 'formandas' (no grupo que me coube só havia elementos femininos), mas não foi, porque a convocatória (ou convite, não lembro se tinha carácter obrigatório) não transmitia a ideia de necessidade de colmatar falta de saber, nem que fosse por delicadeza e respeito pelas pessoas, tais insinuações não se faziam, as participantes vinham com entusiasmo e era natural para elas que a dinamizadora da acção fosse uma professora do Ciclo Preparatório pois era para ele que preparavam os seus alunos, a ideia veiculada (mesmo que houvesse e se previsse que haveria alguns participantes com insuficiências na formação para o ensino da Matemática no Primário) era a de uma ligação entre os dois ciclos, uma acção de formação que actualizasse os professores do 1º para o ensino dos alunos a caminho do 2º (Teria uns sete anos a reformulação do programa do Ciclo Preparatório sob a corrente da 'Matemática Moderna'). Em suma, eram acções de formação contínua naturais, desejadas e desejáveis, como já disse atrás. E, não me lembro de serem notícia nos jornais, não lembro, mas sei que não eram.
O que quero dizer com este 'vício' que aqui ganhei de escrever tanta linha, é simplesmente isto:
Maria de Lurdes Rodrigues não revela ter na sua personalidade, quer política, quer humana, umas "coisas" a que era costume chamar qualidades, com designações tais como 'tacto', 'bom senso', 'delicadeza', 'respeito pelas pessoas e pela sua sensibilidade'. A Ministra Maria de Lurdes Rodrigues apregoa, faz notícia, insinua por todo o lado que os professores de Matemática precisam de acções de formação, no que sub-repticiamente se veicula que os professores de Matemática não sabem suficiente matemática para a ensinar. É verdade que, para poderem ensinar bem, embora de forma adequada às idades, têm que saber bastante mais do que a que ensinam, mas a Ministra insinuou que os professores do 1º Ciclo ("os", que isso de distinguir "uns" e "outros" é coisa que só faz quando se vê apertada) não sabem nada que baste de Matemática, agora igualmente insinua sobre os do 2º Ciclo, e não fica por aí, os do 3º e Secundário também precisam de voltar à Universidade... ah, já me esquecia, pode não ser à Universidade, alguns, se calhar pensará a Ministra que saberão de menos para isso e irão ter acções nos Centros de Formação de Professores (só não percebi bem quais centros, não está especificado se são alguns daqueles em que se instalaram os tachinhos financiados pelo hoje tão "acreditado" FOCO.
_Isabel, lá te estás outra vez a estender! _ Queres dizer espalhar, pronto, pronto, então agora digo só o que afinal somente queria dizer, e até "grito", para os eventuais leitores não perderem tempo com essas linhas acima:
A Ministra Maria de Lurdes Rodrigues humilha os professores (e deu-lhe para privilegiar, na humilhação, os de Matemática).
segunda-feira, junho 26, 2006
Plano de Acção para a Matemática - I
Neste meu comentário (e na sua continuação noutro post), cingir-me-ei às medidas para o 2º Ciclo ou para escolas com 2º e 3º ciclos, e a serem implementadas desde o início do ano lectivo de 2006/2007.
Medida 1 -
Elaboração de Planos de escola de combate ao insucesso na Matemática [Em síntese - Um conjunto de medidas que possibilitem, a médio e longo prazo (final do ciclo) melhorar os resultados dos alunos, partindo da análise dos resultados destes e de cada turma].
Nada poderia ter a objectar, obviamente, se, na restante redação desta medida, alguns "pormenores" prescritos me não parecessem perigar de conduzirem a uma grande diferença entre uma orientação de trabalho correcta e o desvio desse trabalho do essencial para o acessório de mais papelada a redigir, sob ordens exteriores, e a enviar (no que está implícita a ideia de controlar) a quem, provavelmente, nada sabe sobre causas de insucesso ou de desmotivação relativas à Matemática, sobre os diversos porquês de resultados em exames e sobre estratégias para minimizar tudo isso.
Saltando a medida 2 (relativamente inócua),
Medida 3 - Desenvolvimento, no âmbito do Plano a apresentar ao ME, de projectos de trabalho conjunto entre os professores de Matemática e de Português.
Eu diria: finalmente!!! Mas... aquelas palavrinhas no meio - "no âmbito do Plano a apresentar ao ME" - levam-me a temer 'projectos' = 'projectos' + 'papelada bonitinha acessória', ou seja, a considerar também um pouco o que já disse a propósito da Medida 1.
Medida 4 -
Equipamento das Escolas com Laboratórios da Matemática, através de financiamento à aquisição de materiais manipuláveis, meios informáticos, software específico e do apoio à organização destas actividades nas escolas. Este equipamento deve estar incluído nos planos de escola.
Óptimo!!!!! Venha esse equipamento!
Medida 5 (Designação, por parte do ME, de um interlocutor privilegiado para acompanhar.....), Medida 7 (Lançamento de um Programa de Formação Contínua em Matemática para Professores de 2º Ciclo) e Medida 8 ( Apoio a Programas de Formação Contínua em Matemática para professores do 3º Ciclo e do Secundário) -
Paro, porque eu nem tenho nada contra supervisores numa perspectiva de avaliação - formativa -, muito menos tenho contra a formação contínua ser proporcionada, foi sempre uma reivindicação dos professores, mas esta ministra tem o jeito de tornar o que seria natural e desejado em algo que eu já tinha na cabeça como título de outro post - Humilhação?
Adianto apenas que uma coisa é formação contínua, outra é pôr em causa a formação académica de que partiu a preparação do professor (sem, no entanto, note-se, pôr em causa nenhuma instituição formadora), e anda a parecer-me que a Ministra tem um especial jeitinho para dar a ideia de que os professores de Matemática não sabem Matemática (ao que não vão escapar os do 3º Ciclo e do Secundário, tal como os muitos que leccionam essa disciplina no 2º Ciclo com uma licenciatura universitária específica ou afim. (Alguns colegas, formados para o ensino do 2º Ciclo posteriormente à década de 80, se acaso carecem de formação científica, foi porque os formadores de ESEs e Institutos congéneres não a tinham, ou, aos que a tinham, foram dadas umas escassas horas para a ministrar, que as outras todas eram precisas para as Ciências da Educação!).
P.S.:
Papelada (Um preâmbulo)
Começo por recordar dois exemplos do que fui observando e me fez, bastante indisciplinada, alinhar o menos possível no que acabava por me levar a chamar papelada.
1º exemplo (começo por este, actual e de efeitos perversos, devido à designação "planos" também usada na Medida 1 do Plano de Acção para a Matemática, pretendendo-se, em ambos os casos, melhorar os resultados dos alunos): Os planos de recuperação.
Nenhum professor negará a pertinência de os conselhos de turma se debruçarem sobre medidas e estratégias de recuperação dos alunos com resultados insatisfatórios. E, apesar da tendência para o fechamento de cada disciplina em si própria, não deixavam os conselhos de turma de definir algumas medidas e até de aprovar determinadas iniciativas extracurriculares, após análise conjunta das respectivas situações. Com os malfadados papeis, impostos do exterior para controlo e pressão, bem como para ser dito por escrito o que devia ser assumido por todos - professores, alunos e encarregados de educação -, nos conselhos de turma de final de 1º e de 2º Período deixou de ser discutido conjuntamente fosse o que fosse, na quase inevitável necessidade de cada um preencher os seus espaços na papelada, de preferência em silêncio sobre o que ia escrevendo para não perturbar as escritas dos outros. Enfim, planos de recuperação sempre fiz constantemente no meu próprio trabalho individual, não me lembro de ter redigido algum, tinha era que pensar, preparar as aulas com os respectivos materiais e investir dentro delas - ou deveria andar com algum papel na mão (?) a dizer-me: Não te esqueças de trabalhar para o sucesso, controla-te!.
(Não tenho emenda, foge-me sempre alguma piadinha à inefável milu...)
2º exemplo (lembro este porque, embora pequeno face a muito mais papeis que foram posteriormente impostos, a designação "projectos" também usada na Medida 3 do Plano de Acção para a Matemática - embora, obviamente, eu nada tenha contra a ideia em si, pelo contrário - mo fez recordar dado que, a meu ver, não deixou de ter alguns efeitos perversos): Os projectos curriculares de turma.
Também nenhum professor negará a pertinência de um conselho de turma, a partir das características da mesma e dos seus diferentes alunos quanto a atitudes, desempenho escolar e outras, definir objectivos prioritários e estratégias de actuação comum ou convergente, adequadas/adaptadas àquela. Igualmente me parece inquestionável a necessidade de contrariar tendências das disciplinas se fecharem em compartimentos, criando-se (ou melhorando) perspectivas de inter e trans disciplinaridade a concretizar na prática.
Não era necessária, em tempos quiçá já passados, a imposição da redacção de um documento intitulado Projecto Curricular de Turma, extra ao que se registava em acta no âmbito de objectivos e estratégias ajustados à respectiva turma, para que, no geral dos conselhos de turma, se definissem prioridades de acção e se identificassem os contributos de várias disciplinas para concretização de projectos da ou com a turma. Será verdade que se ficava aquém do desejável, quer reduzindo-se a ideia de interdisciplinaridade para apenas multidisciplinaridade, quer ficando-se, no âmbito de prioridades, por discussão de pouco mais do que estratégias para criação de ambiente de aula indispensável à aprendizagem face a problemas de comportamento/disciplina, permanecendo a confinação de cada disciplina a si própria no desenvolvimento de competências nos alunos, apesar de estas não passarem apenas pelas competências muito específicas de cada disciplina. Mas, também é verdade que, sendo os conselhos de turma de final de período demasiado preenchidos pelo que é prioritário fazer neles, os conselhos intercalares, que seriam oportunidades privilegiadas para cumprirem melhor as finalidades desejáveis, dispõem de insuficiente tempo, nesse seu encaixe, ao longo de duas, três ou mais semanas, nas horas de que as escolas podem dispor para reuniões, já bastante ocupadas pelas do CP, dos DCs, do CDT, etc.
Neste quadro, a imposição de um projecto curricular de turma formalmente redigido só veio, até pelo remar contra o tempo, provocar recurso a modelos previamente feitos e usados em todos os conselhos, em boa parte preenchidos antecipadamente pelo director de turma, e completados nos conselhos mediante a passagem a primeiro plano de redacções que era necessário caberem no tempo já escasso, para ficarem como papelada que ninguém volta a ler porque, ou bem que o seu conteúdo já estava na cabeça dos professores antes da redacção e nem a posterior leitura nem a própria redaccão extensa lhes são necessárias, ou bem que (ou mal) não se estabeleceram em cabeças, com o contributo de todos, e essas menos ainda se lembrarão de ir ler. Papelada que, em suma, pelo efeito que têm documentos obrigatórios e com prazo nem sempre adequado, acaba por pouco contribuir ou acrescentar, antes desvia de (ou deixa ainda menos tempo para) intervenções no sentido da desejável maior sensibilização para as perspectivas inter e trans disciplinares que referi.
Já me alonguei demasiado e vou alongar-me ainda mais, mas este meu cantinho é de memórias, são muitas vezes elas que intervêm na minha escrita, além de que escrevo para exprimir e guardar aqui o meu pensamento independentemente de alguém ter paciência para ler.
Compare, cada um que me leia, o que significa um departamento de disciplina, empenhadamente, analisar, discutir/reflectir conjuntamente e decidir quais as estratégias e medidas a adoptar, bem como os meios necessários, compare, dizia, com o seu próprio planeamento de aulas, individual ou em trabalho colaborativo, quando empenhado. Pense como planeia as suas aulas, tantas vezes continuando em momentos ou lugares insólitos tais como já estar na cama para dormir e, na mente, ter aquela turma difícil, ou aqueles desastrosos resultados em testes que acabou de corrigir, ou aqueles alunos que já pensava "agarrados" no caminho da autoconfiança e da motivação e que lhe estão a "fugir" outra vez. E, lembre-se agora dos planos que, no estágio, não ficavam só na cabeça e nuns tópicos no papel, mas eram morosamente redigidos para o orientador analisar e poder formar - nessa altura, sim, redacção morosa mas útil porque se tratava ainda da aprendizagem do que significa planear uma aula organizada, consciencializar objectivos, perceber didácticas adequadas às idades e fazer um percurso de autonomização na concepção das diversas estratégias possíveis face a turmas e alunos diferentes; pense, então, no que seriam, depois, os seus anos de trabalho profissional se os seus planos, ao preparar as aulas ou, por exemplo na situação que referi de até já estar na cama ainda com os alunos na cabeça, requeressem redacção, e acrescento dela saltando da cama, em "formato" com todos os rr e ss de um documento formal. Seriam anos infelizes e desmotivadores devido à papelada, certo?
(Em Setembro último, como coordenadora de Matemática do 3º Ciclo, até levei redigidas, para o Grupo, "Prioridades para o Ano Lectivo de 2005/2006", incluindo a sua justificação decorrente da nossa análise da situação, as quais foram discutidas, apoiadas e cumpridas, mas as duas páginas e meia, corridas (e que não devem as minhas colegas ter precisado de andar a reler, pois o conteúdo era nas nossas cabeças que estava), teriam que ser "formatadas à maneira" se se destinasem a enviar e submeter ao ME, em muitas mais horas do que as do serão em que as escrevi).
sábado, junho 24, 2006
Para recordação de uma tarde com a Arte
Tive muito poucas oportunidades de ver originais dos Génios, ou dos Grandes, mas foram suficientes para não esquecer a emoção que então sentira ao estar diante de alguns. Não há comparação entre ver reproduções em livros sobre arte ou navegar por galerias da Net e estar diante de alguns originais.
Digo alguns, mesmo entre os que já vi, porque, embora saiba reconhecer a arte contida em tantas obras guardadas como património de vários séculos, uma coisa é reconhecer essa arte, outra é ela emocionar-me - as minhas atracções são subjectivas e, nem sequer sendo 'entendida', não tenho qualquer pretensão de as saber justificar.
Assim, por vezes percorro exposições sem me deter em todos os quadros expostos, e, no caso desta, como já sabia qual o conteúdo, depois de procurar El Greco na primeira sala, percorri as imediatas um tanto rapidamente, excepções feitas a alguns quadros, porque onde queria chegar depressa era à dos impressionistas (são gostos, atracções...).
Como recordação, coloco aqui três imagens. São só uma amostra daquelas pelas quais, no final, voltei atrás para, revendo-as, as manter nos olhos após sair.
Dois Monet, porque já tenho trazido Claude Monet para este cantinho, ao procurar algo que o meu estado de espírito, no momento, precisa, seja para se exprimir, seja para se libertar.


Paul Signac, porque o seu "neo" estilo não estava nas minhas atracções especiais, pelo que foi uma surpresa ter ficado tanto tempo presa a este quadro (é a tal grande diferença entre o original perto dos olhos e o que aqui se vê)
E Pierre Bonnard, como bom finalizar da amostra porque gosto muito de janelas abertas.
sexta-feira, junho 23, 2006
Adenda

Como, amanhã, parecerá insignificante uma ministra em que hoje nos centramos empolando consequências da sua breve passagem.
De súbito... entendi!!!
Abro um parêntesis, antes de continuar e para que ninguém me interprete erradamente, a fim de salientar, com todos os sublinhados que sejam necessários, que a minha associação a partir daquele livro não tem implícita qualquer mínima comparação com o regime de ditadura na China, com o desenvolvimento desta em esquecimento dos milhões de chineses em pobreza extrema e à custa da submissão de mais outros milhões de trabalhadores ao trabalho pago com salários com que só conseguem sobreviver em condições impensáveis para os ocidentais, ou com quaisquer outros atentados aos direitos humanos que se verifiquem nesse país. A minha associação partiu apenas de um "pormenor" - partiu somente de um dos argumentos que os detentores do poder na China (até há pouco fechada enquanto decorriam períodos e massacres de que as nações com regimes democráticos se iam apercebendo ou tinham conhecimento, horrorizadas), agora expõem no exterior, na procura de justificar a sua recusa de abdicação de um regime ditatorial (aliás, já sem grande necessidade nesse exterior de memória curta quando lhe convém).
Numa coisa tem "razão" o governo chinês: as regras da democracia seriam um empate, um impedimento à conseguida ascenção rapisíssima às primeiras filas do domínio tecnológico (e científico), as regras da democracia provocam inevitável demora no alcance de objectivos nem por todos perfilhados, mais demora ainda (ou mesmo impedimento) no recurso a métodos eficazes na prossecução desses objectivos quando tais métodos não são susceptíveis de obter um consenso, mínimo sequer, indispensável a alguma estabilidade interna. E, passo por cima do que tem de falaciosa tal "razão", ou dos perigos de, a médio prazo, essa "razão" culminar em consequências desastrosas para os próprios e para um país e seu povo, após, no imediato, ter mostrado "espectaculares" resultados.
É estúpido que fosse preciso este exemplo, despropositado e injusto pelo exagero, para a minha mente finalmente entender a impossibilidade de Maria de Lurdes Rodrigues ter uma atitude não prepotente ao aceitar determinadamente a incumbência de dar um considerável contributo para o problema nacional que é o défice ou o estado da economia portuguesa, num dos sectores do funcionalismo público - o sector docente. Sim, não seria possível esse contributo no curto espaço de um mandato e, para mais, com urgência de ser completado com algum tempo de antecedência da seguinte campanha eleitoral, tendo ele a oposição dos visados, seja pelos seus interesses/direitos profissionais, seja pela identificação da hipocrisia dos argumentos "a bem" da educação/ensino das crianças e jovens, não seria possível, dizia, a não ser pela eliminação dos obstáculos decorrentes dessa oposição. Ou seja, a não ser pelo pisar de direitos adquiridos, pela destruição do Estatuto da Carreira Docente democraticamente conquistado e imposição de outro estatuto "conveniente" e quase logo anunciado como só susceptível de negociação "nalguns aspectos" ("como o tempo e o modo de aplicação de algumas medidas"*), portanto, pelo passar por cima de leis conquistadas e estabelecidas no quadro e na sequência da Constituição da República, incluída a legislação que estabelece e regulamenta a Negociação Colectiva, pelo passar por cima, em suma, de preceitos de um Estado de Direito e, até, pelo despudor de dispensar a aprovação do novo decreto ao antecipá-lo mediante normas*, já em Despacho**assinado, para preparação do próximo ano lectivo sem que estejam sequer aprovadas.
Não, não era possível a Maria de Lurdes Rodrigues cumprir zelosa e atempadamente o papel para que foi escolhida se se submetesse aos "empates" de alguns preceitos democráticos.
(Perdoe-se-me que este escrito tenha decorrido da ideia de empates causados pelos direitos democráticos, implícita num dos argumentos dos dirigentes chineses em defesa do seu regime, pois as minhas denúncias de atropelos de normas democráticas por parte da actual Ministra da Educação, por mais duras que ainda venham a ser, obviamente que não me levam a compará-los com as práticas dessa ditadura)
Adenda:
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quarta-feira, junho 21, 2006
Adenda
* Fátima Bica (2005). O Diário da Stôra Lili. Edições Colibri.
E porque hoje é um dia qualquer...
(Eu sempre achei que o universo não é doido, portanto o nosso planeta também não, mas o nosso planeta é habitado, os seres que nele habitam perderam os sonhos, uns porque se embriagam em banhos de notas, outros porque não têm nem uns trocos para sobreviver, e os primeiros são loucos e põem os segundos loucos. Mas ainda há uns terceiros que têm a sorte de não ter nenhum monte ou montinho de notas, mas ficam-lhes umas moeditas até para ir comprando livros, acho que ainda são os que conseguem ir arranjando protecções para não virarem doidos)
Afinal, escrevi umas palavritas, mas é mesmo verdade que não me apetece escrever até ao fim de semana.
Bom trabalho para todos!
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*Federico Rampini (2006). O Século Chinês. Editorial Presença. (Original publicado em 2005)
segunda-feira, junho 19, 2006
Porque ontem foi domingo - II
Criamos as nossas crianças, desde pequeninas a desejar saber ajudá-las a, um dia, ganharem asas para voarem. A uma dada altura, olhamos para elas, reparamos que estão a crescer tão depressa, que estão quase a deixar de ser pequeninas, e ficamos assim a olhá-las como que a querer deter o tempo, a querer senti-lo a 'andar' mais devagarinho durante mais um bocadinho de tempo. Sabemos que o que mais desejamos é que ganhem asas (e fortes), sabemos que a nossa felicidade depende de um dia as vermos voar com asas sólidas, livres, autónomas, mas... não tinha mal demorar-se o tempo, antes disso, distraído de si, detido também a contemplá-las.
Mas, a canção das mães (e pais, e avós também) tem que ser, só pode ser, uma como esta que deixo (hoje este cantinho só tem canções de Toquinho, não as procurei, vieram por acaso ter comigo - acaso, ou, em geral, não reparamos em "acasos"?)
Canção O Caderno, de Toquinho, com ilustrações de Jaime Barbosa em P.P.
Porque ontem foi domingo - I
[Memória de três mais crescidas que, para certas pessoas, têm nome sem sobrenome, como apenas seres iguais a muitos outros a quem vêem sem olhar, como já levemente aludi há dias - e, para tais casos, não tenho qualquer complacência, não silencio, ao aperceber-me deles ou deles ter conhecimento, que também temos dessas pessoas, para possível azar no futuro de determinadas crianças se um acaso faz alguma de tais pessoas ter grande peso no trabalho e actuação com a respectiva turma (repetindo que acredito que, mais em minoria do que maus profissionais, raros mesmo, serão os que escolhem a profissão de professor, competentes ou menos competentes como ministradores de instrução, mas com reduzida sensibilidade e envolvimento humanos). Embora só revele personalizadamente o que penso aos próprios, sem que, obviamente, abrisse a boca em público se fossem susceptíveis de ser identificados por mais alguém a não ser eles mesmos, caso fossem capazes de se ver num espelho - perdoe-se-me ainda não ter ultrapassado esta memória, ao fim de 10 dias, e de uma semana depois de já a ter deixado transparecer neste cantinho.]
Canção de todas as crianças - Gente sem sobrenome
Todas as coisas têm nome,
Casa, janela e jardim.
Coisas não têm sobrenome,
Mas a gente sim.
Todas as flores têm nome:
Rosa, camélia e jasmim.
Flores não têm sobrenome,
Mas a gente sim.
(...)
Todo brinquedo tem nome:
Bola, boneca e patins.
Brinquedos não têm sobrenome,
Mas a gente sim.
Coisas gostosas têm nome:
Bolo, mingau e pudim.
Doces não têm sobrenome,
Mas a gente sim.
(...)
(Da letra da canção de Toquinho,
Canção de todas as crianças. Gente tem sobrenome.)
domingo, junho 18, 2006
Obrigada...
Não mudei o título, como sugeriu o Miguel Pinto, mas digo agora:
Até já! ;)
As pétalas, deixo-as eu; mas as flores (para quase todos - outros, como a Amélia, já receberam) são das crianças que, ainda tantas, ao crescerem um pouco mais, vos passarão pelas mãos (mesmo que, então, lhes não ocorra o gesto, mesmo que então ainda não tenham consciência de que as colheram e guardaram para vós).


(gettyimages)
sexta-feira, junho 16, 2006
End
Hoje foi o meu último dia de escola - por um acaso, até sem ter que assinar livro de ponto, dado ser o meu dia livre. Terminei o que determinara cumprir, o que me levara a não pedir a aposentação (a que tenho direito desde meados do ano lectivo anterior) logo depois daquelas reuniões de avaliação do 1º Período em que, em vez de se falar de alunos e estratégias convergentes, se preencheu papelada, cada um os seus compartimentos em papeis a rodarem.
Hoje dei a segunda das duas aulas suplementares, já não oficiais, que combinara com os meus nonos anos. O meu oitavo também tem o programa praticamente completado e a avaliação feita (e sem pressas).
Agora, antes de mais, vou cuidar de mim, já que algumas gotas de água me fizeram transbordar no ponto a que, chame-se-lhe o meu "calcanhar de Aquiles", sou mesmo sensível - as crianças ou adolescentes que não deixam de ser também ainda crianças - pelo que o meu estado durante os últimos oito dias justifica (e, ao olhar mais lúcido do meu médico, impõe) que coisas já não importantes me não atrapalhem o regresso a bom estado.
quarta-feira, junho 14, 2006
segunda-feira, junho 12, 2006
domingo, junho 11, 2006
E hoje, que é domingo...
... quero estar tranquila, passear com a Inês e depois jantar com ela e com o Nuno. Mas também quero para eles um país em que mediocridades saiam do caminho para não o impedirem de ser um país não medíocre! E, para isso, também é necessária intranquilidade... e seria bom que ela começasse a despertar nalgumas consciências - umas que tão tranquilamente se querem apresentar diante das câmaras que lhes tiram o retrato para ser exibido ao povo português, também outras que tão tranquilamente estão ao lado de certas crianças sem as olhar. (Para algumas destas crianças reservo memórias muito recentes que não deixarei de escrever um dia)
Tishman, Walking to Tomorrow
sábado, junho 10, 2006
Hoje...
Greve do dia 14
O que eu quero deixar aqui dito é que agradeço a quem, no seu pleno direito, não faça a greve, que não me encha mais os ouvidos (ou os de outros que lutam) com indignações porque a Ministra insultou, porque foi conivente, pelo silêncio, com todos os insultos na praça pública aos professores (não a alguns, "aos"), para já nem falar de indignações com o seu projecto de ECD.
P.S. E se eu argumentasse que já não apanho com o Estatuto em cima e que não vou mais aturar as injúrias da srª ministra??? Ora poupem-me a argumentos, poupem-me sobretudo a queixas que ouço e que também "ouço" lendo (basta ter ido de vez em quando ao Educare ao longo deste ano lectivo para ouvir, ouvir, ouvir).... sejam Livres, mas passem a poupar-me(nos) os ouvidos!
sexta-feira, junho 09, 2006
Adenda: colaboração e "colaboração"
Acólitos (autor desconhecido)______________________________________
"Raramente os acólitos aparecem no seu estado puro. São híbridos e multifacetados. São pessoas. E como todas as pessoas procuram a sua transcendência. O problema é que o sentido que quiseram dar à vida perdeu-se no sentido que deram às coisas. "
(Miguel Pinto, 15 de Janeiro de 2004)
Achega para resposta a uma pergunta
Creio que não há grande distinção entre o significado de colaboração (co-laboração) e o de cooperação (co-operação), pelo que lembro a clássica definição de cooperação de M. Deutsch (1973) referente a situações ou estruturas de trabalho: Uma situação é cooperativa quando se verifica uma interdependência estimulante ("promotive interdependence") de tal modo que os objectivos dos participantes estão tão ligados que cada um pode atingir o objectivo próprio se - e só se - os outros também puderem chegar aos seus. Enquanto uma estrutura de competição já implica que os objectivos de um (ou uns) só possam ser atingidos se os dos outros não o forem, distinguindo ainda o mesmo autor o contexto ou situação de individualização, em que a actividade se processa em mera independência de objectivos. E, se não nos cingirmos a uma estrutura de trabalho e passarmos para o domínio mais geral dos comportamentos ou dos traços de personalidade, teremos a definição de individualismo como não mais do que o maximizar de resultados pessoais 'com indiferença pelos dos outros' (Liebrand e McClintock), diferente de 'contra os outros', pelo que o que oponho a cooperação é mesmo competição.
Resta é discernir quando os objectivos de um grupo colaborativo são os de competição com os restantes elementos de uma estrutura de trabalho.
Assim, a resposta à pergunta do Miguel parece-me ser: Quem controla o significado de colaboração são, em princípio, os que colaboram entre si, e, se a colaboração é promovida do exterior ao grupo, colaboram os participantes e o promotor ou, dito de outra forma, colaboram os participantes entre si e com o promotor - de qualquer modo, os objectivos de cada um são atingidos se "e só se" o forem os de todos os participantes nessa colaboração.
E o meu raciocínio chega, então, à convicção que a questão está nos objectivos, pelo que o controlo do significado de colaboração decorre deles e... aqui é que pode estar a "ratoeira". Ou não? - estou a divagar? Se calhar estou, nunca me tinha lembrado de associar cooperação à possibilidade de ratoeiras. À ideia de cooperação está associado correntemente um valor, pelo que, afinal, talvez seja preferível distingui-la de colaboração, alargando esta aos funcionamentos colaborativos visando quaisquer fins, sinceros ou hipócritas, e mantendo a primeira com o seu valor implícito habitual. Valor, mas também conceito que levava Piaget (1932) a dizer (ingenuamente??) "quer a cooperação seja um produto ou uma causa da razão, ou ambos ao mesmo tempo, a razão tem necessidade de cooperação na medida em que ser racional consiste em se situar para submeter o individual ao universal". (Jean Piaget, ingénuo??!! Hum... não será antes a racionalidade que anda em muito lado em baixo, por vezes a bater no fundo?)
[Divagações minhas... a milu, pelos vistos, já me põe a divagar, provocando-me pensamentos que aqui ficam... sei que pouco explicitados, mas julgo que legíveis em entrelinhas].
terça-feira, junho 06, 2006
O que aguardo agora?
Assim, dizia em 20 de Setembro passado: "Agora, opto por parar e esperar. Porque o tempo está nublado, não há visibilidade para vislumbrar o evoluir deste momento. Resta, portanto, aguardar. (E desejar que o que for trigo cresça e o que for joio vá para a lixeira)".
Também dizia em 31 de Janeiro : "Preciso de reflectir antes de voltar a escrever (opinar) sobre o estado do sistema educativo.(...) Sobre a próxima revisão do nosso ECD, as minhas apreensões começam nas motivações da Srª Ministra para a fazer, mas como se deve dar o benefício da dúvida mesmo quando o que parece... até parece mesmo, estou a conter os meus dedos nas teclas...".
Mas... voltando atrás, em 27 de Setembro intitulava uma entrada: "Ao menos nisto, passividade... Não!"
Hoje, estranhamente, sinto-me de novo a aguardar, mas não pelas mais que previsíveis actuações da srª ministra. A aguardar com uma sensação, não sei se de cansaço (o calor põe-me de rastos), se de tristeza realista (a ausência de ingenuidade lança-me em guerra comigo porque eu não quero desistir de... talvez utopias), se de uma alergia, um Estar Farta.
segunda-feira, junho 05, 2006
A táctica da omissão
Nota 1
Durante um ano inteiro, jornalistas e outros comentadores foram incansáveis na descredibilização dos professores perante a opinião pública, em afirmações de culpabilização, em acusações de falta de trabalho, de incompetência - usando-se a expressão "os professores", não, sequer, alguns professores. Não se pretendendo intervenção do ME contra a liberdade de imprensa ou de opinião, não deixa o silêncio de ser uma conivência, não deixa de ser verdade que em nenhuma intervenção pública ou entrevista por parte da Ministra ou de seus secretários foi emitida alguma opinião (já que se trata de liberdade de opinião) contrária a essas "opiniões" que encheram a cabeça dos portugueses leigos nas questões da educação.
Nota 2
O projecto de novo ECD é, indubitavelmente, antes de mais, uma medida economicista. Ora, uma coisa é serem necessárias medidas economicistas no estado em que está o país, outra é camuflar isso com outros (pseudo)argumentos.
Para a pergunta do Miguel "Teremos razões para acreditar na boa fé negocial?"... venham então outras respostas, que a minha, até agora, continua a ser Não.













