sexta-feira, junho 23, 2006

De súbito... entendi!!!

Nada esperava eu, quando me despedi até ao fim de semana para me dedicar ao prazer de ler, que, de repente, algo no livro que até já quase tinha terminado há umas semanas (O Século Chinês, que abaixo referi) me viesse à memória e provocasse uma associação, como um 'flash', tornando-me claro que a actuação da Ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues não poderia, não poderia mesmo, deixar de decorrer numa atitude prepotente, pouco democrática, digamos que ditatorial. (Agora confirmada - Anexo*)

Abro um parêntesis, antes de continuar e para que ninguém me interprete erradamente, a fim de salientar, com todos os sublinhados que sejam necessários, que a minha associação a partir daquele livro não tem implícita qualquer mínima comparação com o regime de ditadura na China, com o desenvolvimento desta em esquecimento dos milhões de chineses em pobreza extrema e à custa da submissão de mais outros milhões de trabalhadores ao trabalho pago com salários com que só conseguem sobreviver em condições impensáveis para os ocidentais, ou com quaisquer outros atentados aos direitos humanos que se verifiquem nesse país. A minha associação partiu apenas de um "pormenor" - partiu somente de um dos argumentos que os detentores do poder na China (até há pouco fechada enquanto decorriam períodos e massacres de que as nações com regimes democráticos se iam apercebendo ou tinham conhecimento, horrorizadas), agora expõem no exterior, na procura de justificar a sua recusa de abdicação de um regime ditatorial (aliás, já sem grande necessidade nesse exterior de memória curta quando lhe convém).

Numa coisa tem "razão" o governo chinês: as regras da democracia seriam um empate, um impedimento à conseguida ascenção rapisíssima às primeiras filas do domínio tecnológico (e científico), as regras da democracia provocam inevitável demora no alcance de objectivos nem por todos perfilhados, mais demora ainda (ou mesmo impedimento) no recurso a métodos eficazes na prossecução desses objectivos quando tais métodos não são susceptíveis de obter um consenso, mínimo sequer, indispensável a alguma estabilidade interna. E, passo por cima do que tem de falaciosa tal "razão", ou dos perigos de, a médio prazo, essa "razão" culminar em consequências desastrosas para os próprios e para um país e seu povo, após, no imediato, ter mostrado "espectaculares" resultados.

É estúpido que fosse preciso este exemplo, despropositado e injusto pelo exagero, para a minha mente finalmente entender a impossibilidade de Maria de Lurdes Rodrigues ter uma atitude não prepotente ao aceitar determinadamente a incumbência de dar um considerável contributo para o problema nacional que é o défice ou o estado da economia portuguesa, num dos sectores do funcionalismo público - o sector docente. Sim, não seria possível esse contributo no curto espaço de um mandato e, para mais, com urgência de ser completado com algum tempo de antecedência da seguinte campanha eleitoral, tendo ele a oposição dos visados, seja pelos seus interesses/direitos profissionais, seja pela identificação da hipocrisia dos argumentos "a bem" da educação/ensino das crianças e jovens, não seria possível, dizia, a não ser pela eliminação dos obstáculos decorrentes dessa oposição. Ou seja, a não ser pelo pisar de direitos adquiridos, pela destruição do Estatuto da Carreira Docente democraticamente conquistado e imposição de outro estatuto "conveniente" e quase logo anunciado como só susceptível de negociação "nalguns aspectos" ("como o tempo e o modo de aplicação de algumas medidas"*), portanto, pelo passar por cima de leis conquistadas e estabelecidas no quadro e na sequência da Constituição da República, incluída a legislação que estabelece e regulamenta a Negociação Colectiva, pelo passar por cima, em suma, de preceitos de um Estado de Direito e, até, pelo despudor de dispensar a aprovação do novo decreto ao antecipá-lo mediante normas*, já em Despacho**assinado, para preparação do próximo ano lectivo sem que estejam sequer aprovadas.
Não, não era possível a Maria de Lurdes Rodrigues cumprir zelosa e atempadamente o papel para que foi escolhida se se submetesse aos "empates" de alguns preceitos democráticos.

(Perdoe-se-me que este escrito tenha decorrido da ideia de empates causados pelos direitos democráticos, implícita num dos argumentos dos dirigentes chineses em defesa do seu regime, pois as minhas denúncias de atropelos de normas democráticas por parte da actual Ministra da Educação, por mais duras que ainda venham a ser, obviamente que não me levam a compará-los com as práticas dessa ditadura)

Adenda:
Lamento não me recordar de qual a escola (provavelmente não única, mas foi aquela de que se ouviu falar aqui pelas bandas de Lisboa) cujo presidente do c.e. fez aquilo a que de facto era obrigado, logo no início do ainda corrente ano lectivo: conhecer e cumprir a legislação em vigor, no que se inclui devolver ou ignorar ordens contidas em despachos que contrariem normativos legais com força superior. Com tão escassas recusas de atropelos de leis ou decretos-lei, Maria de Lurdes Rodrigues poude verificar que os primeiros passinhos nesses atropelos lhe permitiam avançar para outros maiores, já que partidos, incluindo o seu, chamado Partido Socialista, silenciam um pedacinho de ditadura (espero e até acredito temporária e circunstancial) em nome de "prioridades" para a saída do país de um buraco, e não se sabendo se o Presidente da República que temos actualmente está voltado para ser o garante da democracia, sempre, sem permitir precedentes, perigosos sobretudo num mundo "global" a que não escapamos e no qual o desenfreado neo-liberalismo ou "vírus liberal" (como designa, em alerta, Samir Amin), tornou a democracia apenas "um luxo dos ricos" (expressão também sua).
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*Anexo:

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quarta-feira, junho 21, 2006

Adenda

A propósito de livros, transcrevo o comentário de Fátima Bica na minha entrada anterior, e a minha resposta. (A nota de rodapé é acrescentada por mim)
«Espero que se tenha divertido tanto a ler a Stôra Lili* como eu a escrevê-la.Um abraço
fatimabica»
«Diverti-me imenso, sim, li-o no verão passado e creio que o referi, nessa altura, aqui no meu cantinho. Andamos a precisar muito de humor, mas crítico, e sem proteger a escola também do sentido crítico, sendo mais agradável fazê-lo com bom humor no âmbito de: "Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas, nomes, factos, ou acontecimentos da vida real terá sido coincidência". ;) Um abraço.»
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* Fátima Bica (2005). O Diário da Stôra Lili. Edições Colibri.

E porque hoje é um dia qualquer...

Não me apetece escrever, vou para a cama ler. Tenho um livro para acabar, pois meti pelo meio um poema em prosa (estava a precisar), mas vou acabá-lo hoje - O Século Chinês*. Ainda não tinha lido um ponto da situação tão completo e, se já andava com dificuldade em imaginar este século com os vertiginosos "progressos" da China (que me sejam desculpadas as aspas, mas o conceito de progresso cá para mim anda desvirtuado pelo planeta inteiro), agora, com este relato, se tento conceber previsões, quem fica doida sou eu.
(Eu sempre achei que o universo não é doido, portanto o nosso planeta também não, mas o nosso planeta é habitado, os seres que nele habitam perderam os sonhos, uns porque se embriagam em banhos de notas, outros porque não têm nem uns trocos para sobreviver, e os primeiros são loucos e põem os segundos loucos. Mas ainda há uns terceiros que têm a sorte de não ter nenhum monte ou montinho de notas, mas ficam-lhes umas moeditas até para ir comprando livros, acho que ainda são os que conseguem ir arranjando protecções para não virarem doidos)

Afinal, escrevi umas palavritas, mas é mesmo verdade que não me apetece escrever até ao fim de semana.
Bom trabalho para todos!
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*Federico Rampini (2006). O Século Chinês. Editorial Presença. (Original publicado em 2005)

segunda-feira, junho 19, 2006

Porque ontem foi domingo - II

(Domingo com uma neta)

Criamos as nossas crianças, desde pequeninas a desejar saber ajudá-las a, um dia, ganharem asas para voarem. A uma dada altura, olhamos para elas, reparamos que estão a crescer tão depressa, que estão quase a deixar de ser pequeninas, e ficamos assim a olhá-las como que a querer deter o tempo, a querer senti-lo a 'andar' mais devagarinho durante mais um bocadinho de tempo. Sabemos que o que mais desejamos é que ganhem asas (e fortes), sabemos que a nossa felicidade depende de um dia as vermos voar com asas sólidas, livres, autónomas, mas... não tinha mal demorar-se o tempo, antes disso, distraído de si, detido também a contemplá-las.
Mas, a canção das mães (e pais, e avós também) tem que ser, só pode ser, uma como esta que deixo (hoje este cantinho só tem canções de Toquinho, não as procurei, vieram por acaso ter comigo - acaso, ou, em geral, não reparamos em "acasos"?)

Canção O Caderno, de Toquinho, com ilustrações de Jaime Barbosa em P.P.




Porque ontem foi domingo - I

(Domingo com a minha companheirinha de oito anos, mas ainda com a marca de uma memória recente)

[Memória de três mais crescidas que, para certas pessoas, têm nome sem sobrenome, como apenas seres iguais a muitos outros a quem vêem sem olhar, como já levemente aludi há dias - e, para tais casos, não tenho qualquer complacência, não silencio, ao aperceber-me deles ou deles ter conhecimento, que também temos dessas pessoas, para possível azar no futuro de determinadas crianças se um acaso faz alguma de tais pessoas ter grande peso no trabalho e actuação com a respectiva turma (repetindo que acredito que, mais em minoria do que maus profissionais, raros mesmo, serão os que escolhem a profissão de professor, competentes ou menos competentes como ministradores de instrução, mas com reduzida sensibilidade e envolvimento humanos). Embora só revele personalizadamente o que penso aos próprios, sem que, obviamente, abrisse a boca em público se fossem susceptíveis de ser identificados por mais alguém a não ser eles mesmos, caso fossem capazes de se ver num espelho - perdoe-se-me ainda não ter ultrapassado esta memória, ao fim de 10 dias, e de uma semana depois de já a ter deixado transparecer neste cantinho.]


Canção de todas as crianças - Gente sem sobrenome



Todas as coisas têm nome,
Casa, janela e jardim.
Coisas não têm sobrenome,
Mas a gente sim.
Todas as flores têm nome:
Rosa, camélia e jasmim.
Flores não têm sobrenome,
Mas a gente sim.

(...)

Todo brinquedo tem nome:
Bola, boneca e patins.
Brinquedos não têm sobrenome,
Mas a gente sim.
Coisas gostosas têm nome:
Bolo, mingau e pudim.
Doces não têm sobrenome,
Mas a gente sim.

(...)

(Da letra da canção de Toquinho,
Canção de todas as crianças. Gente tem sobrenome.)

domingo, junho 18, 2006

Obrigada...

... a todos os que me escreveram no meu post anterior.

Não mudei o título, como sugeriu o Miguel Pinto, mas digo agora:

Até já! ;)

As pétalas, deixo-as eu; mas as flores (para quase todos - outros, como a Amélia, já receberam) são das crianças que, ainda tantas, ao crescerem um pouco mais, vos passarão pelas mãos (mesmo que, então, lhes não ocorra o gesto, mesmo que então ainda não tenham consciência de que as colheram e guardaram para vós).













(gettyimages)

sexta-feira, junho 16, 2006

...

René Magritte (1967). La page blanche.
(Silence... please!)

End

Pelo andar da caravana, é pouco provável que a manifestação do dia 14 tenha sido a última em que participe. Mas a greve, essa sim, foi a última, pois ninguém pode fazer greve quando deixa de ter patrão ou serviço a que faltar. Nem por solidariedade, nem por luta pelas crianças, pelo seu futuro e futuro do país em que vão crescer e viver, mesmo que entre elas estejam os próprios netos.
Hoje foi o meu último dia de escola - por um acaso, até sem ter que assinar livro de ponto, dado ser o meu dia livre. Terminei o que determinara cumprir, o que me levara a não pedir a aposentação (a que tenho direito desde meados do ano lectivo anterior) logo depois daquelas reuniões de avaliação do 1º Período em que, em vez de se falar de alunos e estratégias convergentes, se preencheu papelada, cada um os seus compartimentos em papeis a rodarem.
Hoje dei a segunda das duas aulas suplementares, já não oficiais, que combinara com os meus nonos anos. O meu oitavo também tem o programa praticamente completado e a avaliação feita (e sem pressas
).

Agora, antes de mais, vou cuidar de mim, já que algumas gotas de água me fizeram transbordar no ponto a que, chame-se-lhe o meu "calcanhar de Aquiles", sou mesmo sensível - as crianças ou adolescentes que não deixam de ser também ainda crianças - pelo que o meu estado durante os últimos oito dias justifica (e, ao olhar mais lúcido do meu médico, impõe) que coisas já não importantes me não atrapalhem o regresso a bom estado.

domingo, junho 11, 2006

E hoje, que é domingo...

... quero estar tranquila, passear com a Inês e depois jantar com ela e com o Nuno.

Mas também quero para eles um país em que mediocridades saiam do caminho para não o impedirem de ser um país não medíocre! E, para isso, também é necessária intranquilidade... e seria bom que ela começasse a despertar nalgumas consciências - umas que tão tranquilamente se querem apresentar diante das câmaras que lhes tiram o retrato para ser exibido ao povo português, também outras que tão tranquilamente estão ao lado de certas crianças sem as olhar. (Para algumas destas crianças reservo memórias muito recentes que não deixarei de escrever um dia)

Tishman, Walking to Tomorrow

sábado, junho 10, 2006

Hoje...


... estou nitidamente FARTA!



De muitas coisas "escolares"
(de algumas delas não falo em público),
na 6ª feira enchi e transbordei
(nada a ver com greves ou ECDs),
quero paz de espírito!




Larry Brown, Peace of Mind

Greve do dia 14

Decidir fazer ou não fazer greve é direito de qualquer professor. Ninguém, (pelo menos nenhum professor democrata) deixará de respeitar as decisões individuais, por isso, quem não a quer fazer poupe os outros a justificações/argumentos que ninguém lhes pede e que, esses sim, lhes ficam mal.
"O dia é oportunista... entre dois feriados" (aliás um, só em Lisboa).
'São necessários 10 dias úteis para meter o Pré-aviso de greve. Depois das ofensas da Srª Ministra e de receber a proposta do ME, o Secretariado Nacional da FENPROF reuniu, de emergência, a convocação da greve só poderia ser feita para os dias: 13, 14 e 16 ou, na semana seguinte, de 19 a 23.' (in site da FENPROF - outros sindicatos aderiram à greve). 13 é feriado em Lisboa e 16 dá ponte para todo o país. Mas se fosse entre 19 e 23, o argumento seria o prejuízo dos alunos com exames adiados (adiamento que também é uma chatice para professores com serviço de exames...)
Etc. (argumentos variam). Mas deixemos isso, argumentar ou justificar não é proibido, só já é esquisito quando com eles se faz campanha para também demover outros)

O que eu quero deixar aqui dito é que agradeço a quem, no seu pleno direito, não faça a greve, que não me encha mais os ouvidos (ou os de outros que lutam) com indignações porque a Ministra insultou, porque foi conivente, pelo silêncio, com todos os insultos na praça pública aos professores (não a alguns, "aos"), para já nem falar de indignações com o seu projecto de ECD.
O dia 14 é o momento de manifestar a indignação, de exigir respeito, de requerer diálogo de boa-fé e de lembrar que nada melhorará o sistema de ensino sem os professores ou contra eles.
Por isso, por favor, quem não quiser manifestar isso nesse dia de oportunidade para o afirmar publicamente, deixe de se queixar e indignar só na intimidade das salas de professores! A Escola não precisa de queixumes, mas de acção. E, se os queixumes são sintoma de desmoralização e de desmotivação, então precisam de luta contra o que causa isso, que a obrigação do professsor é motivar-se para trabalhar empenhadamente no ensino (de preferência sem ser preciso que sejam só os "outros" a lutar).

P.S. E se eu argumentasse que já não apanho com o Estatuto em cima e que não vou mais aturar as injúrias da srª ministra??? Ora poupem-me a argumentos, poupem-me sobretudo a queixas que ouço e que também "ouço" lendo (basta ter ido de vez em quando ao Educare ao longo deste ano lectivo para ouvir, ouvir, ouvir).... sejam Livres, mas passem a poupar-me(nos) os ouvidos!

sexta-feira, junho 09, 2006

Adenda: colaboração e "colaboração"

Cooperação (autor desconhecido)

Acólitos (autor desconhecido)
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"Raramente os acólitos aparecem no seu estado puro. São híbridos e multifacetados. São pessoas. E como todas as pessoas procuram a sua transcendência. O problema é que o sentido que quiseram dar à vida perdeu-se no sentido que deram às coisas. "
(Miguel Pinto, 15 de Janeiro de 2004)


Achega para resposta a uma pergunta

Pergunta o Miguel Pinto, em entrada intitulada "Colaboração por decreto...": "Afinal, quem é que guia e controla o significado da colaboração?".

Creio que não há grande distinção entre o significado de colaboração (co-laboração) e o de cooperação (co-operação), pelo que lembro a clássica definição de cooperação de M. Deutsch (1973) referente a situações ou estruturas de trabalho: Uma situação é cooperativa quando se verifica uma interdependência estimulante ("promotive interdependence") de tal modo que os objectivos dos participantes estão tão ligados que cada um pode atingir o objectivo próprio se - e só se - os outros também puderem chegar aos seus. Enquanto uma estrutura de competição já implica que os objectivos de um (ou uns) só possam ser atingidos se os dos outros não o forem, distinguindo ainda o mesmo autor o contexto ou situação de individualização, em que a actividade se processa em mera independência de objectivos. E, se não nos cingirmos a uma estrutura de trabalho e passarmos para o domínio mais geral dos comportamentos ou dos traços de personalidade, teremos a definição de individualismo como não mais do que o maximizar de resultados pessoais 'com indiferença pelos dos outros' (Liebrand e McClintock), diferente de 'contra os outros', pelo que o que oponho a cooperação é mesmo competição.
Resta é discernir quando os objectivos de um grupo colaborativo são os de competição com os restantes elementos de uma estrutura de trabalho.

Assim, a resposta à pergunta do Miguel parece-me ser: Quem controla o significado de colaboração são, em princípio, os que colaboram entre si, e, se a colaboração é promovida do exterior ao grupo, colaboram os participantes e o promotor ou, dito de outra forma, colaboram os participantes entre si e com o promotor - de qualquer modo, os objectivos de cada um são atingidos se "e só se" o forem os de todos os participantes nessa colaboração.

E o meu raciocínio chega, então, à convicção que a questão está nos objectivos, pelo que o controlo do significado de colaboração decorre deles e... aqui é que pode estar a "ratoeira". Ou não? - estou a divagar? Se calhar estou, nunca me tinha lembrado de associar cooperação à possibilidade de ratoeiras. À ideia de cooperação está associado correntemente um valor, pelo que, afinal, talvez seja preferível distingui-la de colaboração, alargando esta aos funcionamentos colaborativos visando quaisquer fins, sinceros ou hipócritas, e mantendo a primeira com o seu valor implícito habitual. Valor, mas também conceito que levava Piaget (1932) a dizer (ingenuamente??) "quer a cooperação seja um produto ou uma causa da razão, ou ambos ao mesmo tempo, a razão tem necessidade de cooperação na medida em que ser racional consiste em se situar para submeter o individual ao universal". (Jean Piaget, ingénuo??!! Hum... não será antes a racionalidade que anda em muito lado em baixo, por vezes a bater no fundo?)

[Divagações minhas... a milu, pelos vistos, já me põe a divagar, provocando-me pensamentos que aqui ficam... sei que pouco explicitados, mas julgo que legíveis em entrelinhas].

terça-feira, junho 06, 2006

...

Faltava a adenda...


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Rose against a Cloudy Sky

Martin Johnson Heade (1876)

O que aguardo agora?

Saltitei por alguns posts meus antigos. Não me detive nos (muitos) em que denunciei políticas educativas ou males do sistema, mas, sim, num ou noutro em que revelava necessidade de pausa para reflectir, para, talvez, dar a esta ministra o benefício da dúvida.
Assim, dizia em 20 de Setembro passado: "Agora, opto por parar e esperar. Porque o tempo está nublado, não há visibilidade para vislumbrar o evoluir deste momento. Resta, portanto, aguardar. (E desejar que o que for trigo cresça e o que for joio vá para a lixeira)".
Também dizia em 31 de Janeiro : "Preciso de reflectir antes de voltar a escrever (opinar) sobre o estado do sistema educativo.(...) Sobre a próxima revisão do nosso ECD, as minhas apreensões começam nas motivações da Srª Ministra para a fazer, mas como se deve dar o benefício da dúvida mesmo quando o que parece... até parece mesmo, estou a conter os meus dedos nas teclas...".
Mas... voltando atrás, em 27 de Setembro intitulava uma entrada:
"Ao menos nisto, passividade... Não!"

Hoje, estranhamente, sinto-me de novo a aguardar, mas não pelas mais que previsíveis actuações da srª ministra. A aguardar com uma sensação, não sei se de cansaço (o calor põe-me de rastos), se de tristeza realista (a ausência de ingenuidade lança-me em guerra comigo porque eu não quero desistir de... talvez utopias), se de uma alergia, um Estar Farta.
A aguardar pelo comportamento da classe profissional a que pertenço. Não pelo daqueles, ainda bastantes, que conheço e sei que lutam sempre, mas pelo da maioria. E volto a dizer-me: "não há visibilidade para vislumbrar o evoluir deste momento". Detesto o que me é nebuloso, em geral saio fora, mas, às vezes, não quero distanciar-me e os ambientes invadem-me. E, apesar de já o ter dito há quase um ano, ainda volto a dizer também, agora: ao menos nisto, passividade... Não!

segunda-feira, junho 05, 2006

A táctica da omissão

Em cima do "Diga lá Excelência", na TV2, hoje com a Ministra da Educação, duas notas, de algum modo ainda à margem do conteúdo da entrevista e das palavras de Maria de Lurdes Rodrigues.

Nota 1
Durante um ano inteiro, jornalistas e outros comentadores foram incansáveis na descredibilização dos professores perante a opinião pública, em afirmações de culpabilização, em acusações de falta de trabalho, de incompetência - usando-se a expressão "os professores", não, sequer, alguns professores. Não se pretendendo intervenção do ME contra a liberdade de imprensa ou de opinião, não deixa o silêncio de ser uma conivência, não deixa de ser verdade que em nenhuma intervenção pública ou entrevista por parte da Ministra ou de seus secretários foi emitida alguma opinião (já que se trata de liberdade de opinião) contrária a essas "opiniões" que encheram a cabeça dos portugueses leigos nas questões da educação.

Nota 2
Do recente discurso da Ministra na sessão de abertura do Debate Nacional sobre Educação, na Maia, conhecem-se afirmações expressas em frases que, mesmo isoladas do restante discurso, dizem exactamente o que dizem. Frases como 'um trabalho - quer das escolas, quer dos professores - "que não se encontra ao serviço dos resultados e das aprendizagens".'; 'ela (a cultura profissional dos professores) é marcada pela actualização dos conhecimentos científicos, mas "não é uma cultura em que os principais desafios sejam os resultados".' 'A cultura profissional dos professores não os orienta para os casos mais difíceis (...)'.
Diz agora a srª Ministra que não disse o que disse, que não falou contra os professores, ou que foi mal interpretada, mas, na verdade, além de esses aspectos que referi na nota 1 e das palavras que efectivamente pronunciou, que têm sido recebidos por tantos e tantos professores como insultos, faltas de respeito e elementos desmoralizadores/desmotivadores, mal terem sido aflorados hoje e logo passados "adiante", o dito discurso não foi publicado - pelo menos não o encontro em lado nenhum e ainda nenhum professor me disse que o encontrou. Porquê?
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Adenda
A seguir a estas notas, passei no blogue do Miguel Pinto, em que, a dada altura da sua entrada, ele pergunta: "Teremos razões para acreditar na boa-fé negocial?"
Consideremos dois exemplos:
a) Com a medida das chamadas substituições, que a Ministra apresentou inicialmente repetindo até à saturação o objectivo primeiro de proteger os alunos de "perigos" de estarem desocupados (lembram-se?), essa titular da pasta da Educação, prepotente, não ouviu os professores. A maioria das escolas não tinha (não tem) condições de meros espaços para implementar núcleos de actividades efectivamente de reforço educativo e até motivadoras para determinados alunos, motivação que, essa sim, pode melhorar o insucesso escolar. Mas isso não convinha ouvir, pois implicava proporcionar tais recursos, sem os quais a medida se tornava uma antipedagogia. E, se os professores, como profissionais e únicos verdadeiros conhecedores do "terreno", não souberem o que é pedagogicamente eficaz e o que é aberração pedagógica, mais ninguém o saberá, pelo que a ausência de audição dos professores e o despreso por esta, a meu ver, não foi mais do que uma hipócrita atitude a esconder os verdadeiros objectivos da medida.
b) Com o arsenal de papelada burocrática que retirou qualquer espaço aos conselhos de turma e aos conselhos pedagógicos para, em equipa, discutirem e planearem o essencial, a ministra pretendeu à força diminuir as taxas de insucesso, nomeadamente, dificultando (quase proibindo) retenção de alunos, o que não é preocupação pelo efectivo sucesso, mas apenas por taxas fictícias. Vir agora falar da necessidade de trabalho de equipa, depois de ter colocado de parte os alertas e as queixas de muitos professores por terem ficado esvaziados os espaços de procura conjunta de estratégias devido ao enchimento dos mesmos de papelada, nomeadamente os conselhos de turma de avaliação logo no 1º Período, mais uma vez torna difícil não ver nisso uma "conversa" hipócrita.

O projecto de novo ECD é, indubitavelmente, antes de mais, uma medida economicista. Ora, uma coisa é serem necessárias medidas economicistas no estado em que está o país, outra é camuflar isso com outros (pseudo)argumentos.
No quadro dos dois exemplos que dei e após um ano de desprezo por pareceres competentes de professores e de campanha consentida contra eles, que resta pensar senão que, num irresponsável esquecimento de que, sem os docentes e contra eles, nada melhoraria, mais não houve que hipocrisia (ou má fé) a camuflar preocupações que, embora tenham que estar também presentes face à desastrosa situação económica-financeira do país, não foram causadas pelos professores, nem pelos mesmos ou pelas escolas foi causada a degradação do sistema de ensino derivada, sim, de sucessivas políticas de desresponsabilização, de experimentações imaturas, de mediocrização dos modelos de formação inicial e contínua dos docentes, de bloqueamento da autoridade e da acção punitiva-formativa (quando indispensável e integrada numa prática democrática e de estímulo) face à indisciplina, hoje generalizada em aspectos apelidados de moderados para distinguir de comportamentos extremos de agressão/violência. Como, também, a meu ver, mais não é do que uma conveniência hipócrita começar por uma tão forte (e até punitiva) avaliação dos professores, bem como das escolas (embora ela seja necessária), ao invés de começar por ter a coragem de mexer, por exemplo, em certas (muitas) formações de professores, medíocres e protegidas por interesses (bastantes) instalados em algumas (várias) instituições formadoras (inclusive, também, de formação contínua) - veja-se a acção de "reciclagem" em Matemática no 1º Ciclo, feita em grande parte pelos mesmos que ministraram deficientes formações - pelo que a tão falada coragem da Srª Ministra afigura-se-me bem limitada.

Para a pergunta do Miguel "Teremos razões para acreditar na boa fé negocial?"... venham então outras respostas, que a minha, até agora, continua a ser Não.

quinta-feira, junho 01, 2006

No Dia da Criança...

...Sem tempo, precisamente por estar ocupada com os netos, deixo apenas a "carta aos meus netos", de José Mário Branco, e uma imagem que já usei algures, mas que me parece oportuna.


Wait for Me!

Sophie Anderson

quarta-feira, maio 31, 2006

Para a serenidade

Deixara, há dois dias, a memória de duas canções, porque 'precisamos de vozes para agir'. Depois, zanguei-me (como se pode ver na entrada de ontem e não me arrependo dela), mas continuo sempre a (re)buscar a serenidade.
Lembrei-me desse poema de Kipling - mas eu, neste como noutros, por vezes lembro ou releio apenas os versos que, no momento, me "falam" -, creio que não será pecado recordar (a mim, mas dedicado a vós também, se aqui passardes desalentados) somente recortes.
(Para não ser pecado, deixarei em "rodapé" o poema total)

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
(...)

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
(...)
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build'em up with worn-out tools;

(...)
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

(...)
Yours is the Earth and everything that's in it,
(...)
___________
If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man, my son!
Rudyard Kipling, If

Petição ao PR

Corre, desde ontem, uma petição ao PR - aqui

Nota: Tem um anexo desnecessário, que, pessoalmente, preferia que não tivesse, mas ainda não dei conta de outra iniciativa, assinei porque estou disponível para reforçar iniciativas rápidas, desde que os textos se afigurem correctos.

terça-feira, maio 30, 2006

Só porque tenho uma ética

(que não tem a ministra da educação - com minúsculas, sim, não é distracção)

Se não fosse incapaz de fazer os meus alunos pagarem pelos insultos com que a ministra me atinge (não só a mim, claro), não punha mais os pés na escola a partir de amanhã (a reforma está pedida e o atestado médico não seria fraude, não conhecia o insulto, conheci o respeito em toda a vida profissional, este final de carreira tem sido uma enorme agressão psicológica).
"(...)nas escolas a cultura profissional dos professores não os orienta para os casos mais difíceis. No seu entender, há uma aristocracia nas escolas que reserva os melhores alunos para os professores mais experientes, e os piores alunos para os professores mais novos na profissão. (...)" (Pode ler-se o resto da notícia, sobre as palavras da ministra, que acabei mesmo agora de ler no Jornal de Notícias)
Talvez existam situações dessas, estamos fartos de dizer que nenhuma profissão está isenta de casos indesejáveis, mas a ministra insulta a torto e a direito.
No ano passado tomei um dos meus actuais nonos anos, era a turma mais difícil do 8º (e continua a ser muito difícil no nono), sem que ninguém me obrigasse, fui eu que optei dado que a experiência de tantos anos sempre ajuda, em vez de tomar, como era habitual, as novas turmas no 7º. Neste ano, novamente tomei uma turma bem difícil do 8º, quando podia ter tido um dos bons sétimos que temos este ano na escola - outro desafio, para mim e outros colegas (e consideráveis progressos foram conseguidos por este conjunto). Também, pela experiência que tem, uma colega igualmente de Matemática aceitou este ano nonos anos (sem os ter tido no 8º ou 7º, tal como já fizera no ano anterior) sem ser obrigada - mais por esta colega e amiga do que por mim mesma, manifesto a minha indignação a uma ministra que a ninguém respeita, pois é uma colega que sofreu no ano passado o maior drama que pode acontecer a uma mãe, mas nem assim optou pelo mais fácil).
Ao meu 8º já não faço falta, o programa está praticamente dado e a avaliação praticamente feita. Mas, deixar os meus dois nonos a umas semanas do exame (na minha escola, os professores de Português e de Matemática continuam a disponibilizar as suas aulas nas 'férias de ponto'), seria deixá-los com um sentimento de enorme insegurança, apesar de o programa estar dado e possuir todos os elementos de avaliação de que preciso)


Desculpe, quem me ler, por este desabafo, eu nem preciso de desabafar, quero, sim, deixar aqui dito à srª ministra que o que mais me custa é não lhe poder dar um bofetão - meu e, mais ainda, pela minha colega e amiga A.L. (e por todos os que desejassem, justamente, que o desse)

Prioritário - ECD: leitura e propostas

"ECD lado-a-lado" aqui (ECD em vigor e proposta do ME, colocado pelo Miguel Pinto) , ou aqui (link directo)

"Aragem urgente" e adendas no Aragem (análise/crítica, propostas, algumas acções imediatas - uma resposta em 48h, muito participada)

segunda-feira, maio 29, 2006

...

As flores, contemplamos; precisamos de jardins para repousar.
As canções, cantamos; precisamos de vozes para agir.
Hoje não deixo flores, deixo a memória de duas canções.


"Nós lutámos tanto!"

Na 5ª feira encontrei a Antonieta, amiga sempre e colega, muitos anos, nas mesmas escolas. Entretanto, viemos a separar-nos quando concorreu para escola acabada de construir, enquanto eu, preguiçosamente, me deixei ficar a uns metros de casa esperando a substituição dos velhos pavilhões, montados algures no tempo como provisórios (já não estarei na nova construção que, julga-se, surgirá finalmente em 2007).
A Antonieta está igual, o tempo não parece passar por ela. Professora de Português prestigiada e mulher d'armas, foi mais previdente do que eu ao aposentar-se no ano passado. Saturada de uma escola, digamos antes, de um sistema educativo que só mudou no sentido da degradação, e (como eu) a já estar bem somente na sala de aula, com os putos, decidiu cessar a sua carreira (aliás, bem recheada) logo que a isso teve direito, pelo que foi a tempo de não terminar uma vida profissional empenhada, dedicada e respeitada com um ano de despudorado desrespeito, na praça pública, pelo nome Professor.
Deste encontro ficou-me, sobretudo, a repetir-se na minha mente, a sua frase exclamativa e desconsolada (referindo-se ao ensino), que deixo a terminar este escrito de homenagem a esta amiga: "Nós lutámos tanto!..."
:(

domingo, maio 28, 2006

ECD isolado do contexto/fundo para que não querem olhar

De casa da filha, enquanto as crianças estão entretidas, venho tentar contribuir para o apelo urgente feito no Aragem, de uma forma pouco desejável que é a da pressa, mas destacando o que essencialmente já pensava. E não me detenho no articulado inaceitável ou mais gravoso, pois esse está a ser apontado por outros, pelo menos no Aragem e, julgo, no OutrÒÓlhar - vou para o "antes disso".
1.
O ECD faz parte da história da luta e das conquistas dos professores, e, de repente, uma ministra arrogou-se o direito de, sem um sério estudo e uma credível fundamentação, começar por o torpedear preparando terreno para, num ápice, de facto o revogar. Que deve ser revisto, que, nomeadamente, a questão da formação contínua, da avaliação dos professores e da consequente progressão na carreira deve ser assumida e discutida, é verdade. Mas esta ministra, além de não ter na sua "natureza" o sentido do diálogo, já revelou sobejamente a sua obsessão fanática de perseguição dos professores. Porque, sem os professores e contra eles, é provocar o suicídio do sistem educativo, a minha primeira proposta a quem, eventualmente, tenha influência junto de Sócrates, é que use, nem que seja como táctica, o que penso que foi a táctica de Eduardo Prado Coelho no artigo recente que todos lemos: Sem pôr Sócrates em causa, antes pelo contrário, insinuou a necessidade de demisssão da ministra como estando a prestar àquele um mau serviço, o que o mesmo não teria tempo para observar atentamente.
2.
A população, que não está "por dentro", louva a ministra por ver nela uma determinação em melhorar o sistema de ensino, e isso compreende-se. Mas nós sabemos que, se é necessário resolver o problema dos maus professores, desleixados e desinteresssados de uma formação contínua (que os há, embora eu continue crendo que são uma minoria), sabemos também que, para uma avaliação correcta e isenta do trabalho dos professores, urge primeiro rever/avaliar alguns modelos de formação inicial e repor um sistema de formação contínua (o direito a ela foi uma reivindicação dos professores, ainda se lembram?) que não volte a degradar-se pela formação de "pelouros" nos centros de formação, centros que nunca procederam a levantamentos das necessidades concretas dos professores das escolas que abrangem, e que se foram fechando e privilegiando as ofertas que ao grupinho dos formadores instalados convinha manter e repetir (trabalho já feito, só fazer render considerável remuneração em anos consecutivos) - esta é uma realidade, não sei se geral, mas sei que bastante existente. Por isso, a minha segunda proposta a quem, eventualmente, tenha influência junto de Sócrates, é que lhe aponte a prioridade de avaliar e, corajosamente, escolher um novo ministro e respectivos acessores, não vinculados a interesses, que se debrucem sobre os sistemas de formação (inicial e contínua) e ajam sobre os que, instalados, muito mau serviço têm prestado ao ensino.
3.
Que o eventual novo ECD, estabelecendo uma carreira sobre a hierarquização agora proposta e lançando a competição entre professores, terá consequências muito nefastas na vida e ambiente das escolas, com o negativo reflexo nos alunos, inevitável numa escola desestabilizada, parece evidente. Mas não o é para a cabeça de uma ministra que, além de agir sob preocupações prioritariamente economicistas e coadjuvada por um secretário a quem pessoalmente interessa tudo menos "mexer" nalguns males, opta pelo mais fácil (mas ineficaz), que é pôr ( e pela intimidação e prepotência) para cima dos professores o que a estes compete e mais tudo o que compete à política educativa e social, assim levando ao extremo a desresponsabilização, que já era tendência de outros governos. Assim, a minha terceira proposta a quem, eventualmente, tenha influência junto de Sócrates, é que lhe abra os olhos para as evidentes consequências negativas que referi no início deste ponto 3.
(Terceira e última proposta, por agora, nesta corrida sobre as teclas)

Para Inês

Crescem, mas...
meu coração continua murmurando
a Canção de embalar


Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão
E a estrela ia subindo azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga.(Diário)



No dia dos teus oito anos,
do meu pensamento vai para ti esse Brinquedo.
Avó Isabel

Adenda ao "Intercalando"

Porque este fim de semana era dedicado à minha Inês, isto é mesmo só um intercalar rápido, até porque o projecto de alteração do ECD requer uma luta que já não será minha - daqui a poucas semanas terei deixado definitivamente a escola. Nem fui lê-lo ao site da Fenprof, passei no blog do Miguel Pinto, usei o link e não fui a mais nenhum, embora calcule que seja o assunto deste dia e próximos na blogosfera "docente".


Quero apenas antecipar duas notas, que são a minha opinião pessoal.
1ª nota:
Penso que os professores perderam oportunidades, no decorrer do ano lectivo, de reagirem. Deixemos as formas de luta tradicionais, a verdade é que não houve sequer tomadas de posição das escolas, fundamentadas pedagogicamente, face à desfuncionalização e à burocratização imensa do trabalho docente. Certo que presidentes de CEs bateram palmas à ministra, mas não creio que tal seja a posição da maioria. E, se um presidente sózinho não cumpre uma medida, pode ter um processo disciplinar, mas se muitos presidentes se organizassem para não a cumprirem colectivamente, com suporte dos sindicatos, não teria sido difícil travar a srª ministra (Sabe-se que, em Julho passado, nas primeiras reuniões com os presidentes dos CEs, ficou admirada com tão fácil aceitação daquelas primeiras medidas). Muitas medidas desviaram as escolas do fundamental, que é a formação e a instrução dos jovens, e o papel tradicional dos sindicatos é a defesa dos professores, não propriamente da pedagogia. Lembro-me de firmes posições enviadas pelo CP da minha escola em tempos idos (e não era só o da minha escola que o fazia) em nome de todos os docentes que o mesmo representava, sem que para tal fossem precisas sugestões dos sindicatos.
2ª nota:
Agora trata-se do ECD, já tropedeado por esta equipa do ME, mas, desta vez, como projecto de um novo ECD. Agora sentirão os sindicatos que desencadear lutas é seu papel. Espero que não caiam na armadilha que muito conviria a toda a estratégia usada pela ministra (que foi a de colocar os professores como os principais responsáveis da degradação e inadequação do sistema educativo e ter todo o mundo a bater-lhe palmas) com greves a exames ou avaliações, neste momento contrárias ao que já foram: a maior arma dos professores. Receio que a passividade e até o estranho medo da generalidade dos professores ao longo deste ano façam com que apenas reste esperar que pais, pedagogos com a cabeça no lugar e, sobretudo, políticos (de qualquer cor) com lucidez para conhecerem as verdareiras e profundas causas da ineficácia e degradação do nosso sistema de ensino comecem a tomar consciência NÃO SÓ de que foram cometidos erros que, ao desestabilizarem as escolas e ao bloquearem o trabalho educativo mediante uma imensidão de tarefas burocráticas, já por si prejudicam a preparação dos nossos jovens, e que tal será agravado pelas consequências da imposição de um ECD tal como o que foi apresentado, nomeadamente (mas não apenas) a criação de climas de escola gerados por divisões e competições, MAS TAMBÉM E SOBRETUDO que tomem consciência de que intenções de melhoria do sistema pela guerra contra os professores, ao invés de os ouvir e ganhar como aliados, arrisca ser o próprio suicídio desse sistema. Em suma, receio que, perdido este ano lectivo, reste esperar esse "acordar" mais geral que tire o tapete à ministra, a isole e a despeça.

sábado, maio 27, 2006

Intercalando (desculpa-me, Inês)

Ouvi o noticiário das 22h. A Ministra da Educação está (ou é) mentalmente doente, o país está cego, e os pais aprovam porque não lhes passa pela cabeça a reciprocidade: serem avaliados pelos professores e outros utentes dos serviços que prestam. O doente avalia a competência do diagnóstico e da receita, o queixoso avalia a competência do processo instaurado pelo seu advogado, o camionista que todos os dias irá passar numa ponte avalia a competência do projecto para a mesma. Quanto aos pais jornalistas e outros "escribas" que bem prepararam o actual terreno, esses sabem que os professores até têm competência para avaliar a sua escrita, o seu rigor intelectual, as suas montagens, mas esses... estão a salvo de avaliações pela "liberdade de imprensa".
Creio que é de Glauco Matoso o dito: Só há duas maneiras de governar, pela força ou pela farsa. Acho que a força é, muitas vezes, resultado de paranóia ou esquizofrenia, a farsa é muitas vezes a capa da hipocrisia, mas neste ME já nem vejo uma coisa nem outra, vejo uma mais simples, a irresponsabilidade dos BURROS (desculpem-me a comparação, simpáticos animais que ninguém acusa por não serem da espécie 'animal racional')

Dois domingos

(Em véspera de domingo de festa, recordo os dois anteriores)

Eu sabia que ela ia gostar muito, mas havia sempre outros programas a adiar este, aliás, duplo - dos dois últimos domingos. No domingo passado, foi a ida ao Museu Nacional do Traje, mas detenho-me no anterior.
Nesse, levei a minha princesa a ver os coches das princesas (shiu, eu sei que não eram só de princesas e ela também sabe).
Quando passámos ao piso de cima, ao fundo de um corredor estreito, sentado numa cadeira, um vigilante observava-a de longe, ela parando demoradamente em frente de cada vitrina, comentando ou perguntando. Quando ficaram próximos, ele começou a conversar com ela. E eu fui sentido que devia manter-me discretamente silenciosa, fui sentindo que aquele homem que passa horas, muitas vezes solitárias, no fundo de um corredor, não estava explicando e contando apenas por ofício, ele tinha carinho por aquelas peças e, creio, percebeu na pequena Inês uma cúmplice para voar a um tempo passado.
Mas, uma coisa eu não sei como ele adivinhou. '_Vês, esses são de senhora. _E estes também... e tão bonitos?! _Sabes, eram usados pelas princesas, por princesas como tu.' Mas como adivinhou ele que ela era uma princesa??!!
Eu só gosto de princesas de contos infantis, talvez também, na história (que correctamente sabe contar) daquelas peças com quem convive na missão solitária de as proteger, ele tenha criado um imaginário, talvez por isso ele tenha falado para a minha princesa parecendo esquecido da minha presença e... foi isso que eu achei lindo ;)

Depois do museu, fomos ao jardim próximo. Ela também se encanta com muitas coisas que vê nos jardins, e em fachadas de prédios, coisas tantas em que eu já não repararia, que é um prazer passear com ela.

Depois, no último domingo... bem, não conto - faltaria alguém no conto, sentado numa cadeira no fundo de um estreito corredor ;)
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Tashimoto, Becoming To Be

sexta-feira, maio 26, 2006

Nota aos amigos

Não tenho feito visitas na blogosfera, o tempo, esta semana, não dá - só para uns rápidos sinais de vida aqui no cantinho. Afazeres extra, inclusive familiares. Devo estar a perder debates, momentos de riso e outros de poesia, mas se passo "ali" não resisto e detenho-me, se passo "acolá" há um link a despertar interesse... assim, tive que decidir não passar :(
Pronto, isto é só para esclarecer que o "efeito milu" não me despenhou, por alguma janela da blogosfera, para o fundo do mar do silêncio (aliás, sei nadar). ;)
Deixo-vos este jardim de Monet para, se cá vierem, colherem flores e, também, um abraço meu :)



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P.S. E, se estiverem de mau humor, façam clic aqui (com o som ligado) e recordem...

(xiiiii.... creio que é do meu tempo de teen-ager!)

quinta-feira, maio 25, 2006

(Adenda) Não lhes tirem esses anéis!!!!!

The Freedom Ring

Eastman Johnson (1860)

Tanta gente... e tão poucos...

Fere-me esta idolatria mais do que todos os crimes:
Tanto fervor desviado e perdido!
Tanta gente ajoelhando à passagem do tempo
e tão poucos lutando para lhe abrir caminho!
(...)
Jorge de Sena (Panfleto)

terça-feira, maio 23, 2006

grrrrr (adenda)

E lá interrompi eu a minha pausa! grrrrrr...

Stop!

Mark Morgan, Stop

Caça às bruxas ou paranóia?

Hoje, reunião de departamento. Apenas uma colega do grupo fora aplicadora de provas de aferição do 6ºano. Para surpresa de todos os restantes elementos do grupo (Matemática do 2º e 3º ciclos), a colega contou da sua estranheza por, além de (julgo que pela primeira vez) as provas terem o nome dos respectivos alunos, haver um espaço para indicar o nome do professor que leccionara a disciplina neste ano. Não cabendo aos aplicadores esse preenchimento, a minha colega ainda tinha a dúvida se "nome do professor" não significaria apenas nome do aplicador.
De imediato se foi esclarecer o caso junto do Conselho Executivo - era mesmo do professor da disciplina o nome que acompanharia as provas de cada turma.
A pergunta de todo o departamento 'O que andam os professores a fazer, calados, perante processos que já são pidescos?' ficou na acta e direccionada para o Conselho Pedagógico como alerta, pois terão sido raros os docentes, na minha escola, que se aperceberam do caso.

Não temos medo de avaliação individual, não recusamos (pelo contrário) uma avaliação de desempenho efectivamente correcta, mas que seja baseada em critérios e meios fidedignos (e, já agora, também queremos uma avaliação de todo o sistema, incluindo a avaliação das instituições e modelos de formação de professores, da adequação dos currículos e da eficácia das medidas até aqui tomadas.

Para o acaso de alguém estranhar a nossa indignação, permito-me transcrever, como pequeno exemplo, extractos dos comentários deixados pela Teresa na minha recente entrada "Testes, testes e mais testes" :
"Ai, digo eu, depois de falar com a minha DT sobre o que fizeram na prova de aferição. E sinto o mesmo que tu. Erros imperdoáveis de alunos que nunca os dão nas aulas... faltas de atenção de concentração nas coisas mais simples... (...). Mas estou progressivamente a desligar. Sei o que eles sabem e têm feito com entusiasmo. Eu sei que as crianças falharam em coisas por razões que não saberei nunca (As tais causas que podem ser mil) (...) houve professores que marcaram TPCs enormes e testes para a semana das provas... tive alunas a chorar sem saber para onde se virar - têm 11 anos !!!! "
"Já não estou... (refere-se a preocupada) Eles têm trabalhado tanto...Cresceram tanto este ano em tantas competências importantes..."

sexta-feira, maio 19, 2006

:)





Lá porque tenho três turmas de testes em mãos, não vou deixar o cantinho com o tema provas-exames pendurado na janela enquanto ando em crise de escrita!
Prefiro uma flor...










Claude Monet (1883), White Poppy

Tudo queimou
felizmente, as flores
tinham acabado de florir.
Hokushi
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Adenda
:
A todos os que costumam comentar neste cantinho peço desculpa por aparecerem outra vez as chatas letrinhas, mas tive dois infindáveis ataques de spam, nem sei se consegui apagá-los todos. Se alguém souber como evitar por outro processo, diga-me, p. f.

Adenda 2
:
Encontrei, no blogue de Henrique Santos, este Post Aberto à Ministra da Educação, voltei aqui para o referir.

quinta-feira, maio 18, 2006

Adenda

Tencionava deixar "O pequeno Azul" durante a minha ausência da escrita, porque queria mesmo interromper escritos durante uns dias, além de querer também deixar de escrever por impulso de momento, como faço quase todas as vezes, e, mais ainda, querer conter o texto longo, que assim sai por carregar no "publish" sem, à hora tardia em que escevo, ainda tentar resumi-lo.
Afinal, tinha uma "síntese" no meu próprio cantinho, numa entrada passada, recoloco-a, pois Paulo Abrantes e Hans Freudenthal ajudaram-me a exprimir o que estou a pensar...


(Cabeçalho de documento de arquivo, in www.apm.pt/apm/revista/pabrantes/EM16-1990.pdf )

(Quando ponho o meu cantinho em pausa, gosto de deixar uma imagem bonita. Mas, em tempo de provas globais e, a seguir, exames, porque não deixar esta?)

Testes, testes e mais testes

Estava a conter-me de escrever sobre o assunto, mas uma passagem no Inquietações Pedagógicas só para ver o que lá havia de novo antes de ir, de imediato, para a caminha acabar um interessante livro fez-me clicar para o meu "posting", motivada pelo artigo que me apareceu mesmo a propósito. Permita-se-me que ponha só mais abaixo o link para ele, já agora desabafo primeiro.

Tive o cuidado de deixar marcado nas respectivas folhas dos livros de ponto um (UM) teste de Matemática para os meus nonos anos, antes de entrar em férias da Páscoa. Mas, pelos vistos, devia ter tido esse cuidado logo em Setembro, pois foi uma complicação! Não têm prova global porque têm exame, mas é importante (para eles, muito mais do que para mim) terem um teste global antes de passarem por um exame que até abrange o programa de todo o 3º Ciclo.
Tenho uma das turmas desde o 8º, a outra desde o 7º, bolas (!), um professor não sabe já bem o que cada aluno sabe e o que não sabe, as competências que já desenvolveu ou não? O curto 3º Período (encurtado para os nonos) era-me muito mais preciso e precioso para (além de cumprir o programa, que é preciso acabar todo, todinho, não é? - não vá sair nesse tal exame logo um temazinho deixado para o fim porque eu o acho pouco relevante, mas quem elabora o exame pode não achar), repito, era-me muito mais precioso este tempo de recta final para umas "coisas" que a minha cabeça pensa serem mais importantes, a saber: Apelar a um esforço de mais trabalho e concentração na aula e aproveitar a receptividade ao apelo devida ao momento de proximidade de uma avaliação final ; insistir em mostrar-lhes, em cima da resolução de mais problemas, as causas de não os resolverem, tantas vezes residentes apenas nesse flagelo que é o lerem enunciados a correr e depois procurarem na memória algo que pareça servir ao problema, em vez de lerem atentamente e soltarem o raciocínio que até têm - e esse tempo de resolver problemas sempre a provar-lhes isso até já, finalmente, os fez parecerem outros; dizer àqueles a quem dei negativa no 2º Período que ainda estavam a tempo, que teriam oportunidades de recuperar, de colmatar lacunas significativas, e, sobretudo, provar isso com uma medida que é sempre muito encorajadora para eles - essas aulas a que chamamos (eu e eles) de recuperação, nas quais faço mais ginástica do que no ginásio, porque as dificuldades de cada um são de cada um e o apoio tem que ser individualizado - mas valendo, como ajuda, que os putos são solidários, pois, nessas aulas, os outros a quem entrego por exemplo uma ficha de problemas, procuram mesmo apresentá-la terminada no fim da aula, "desembrulhando-se" sem me chamarem e ajudando-se uns aos outros, pois sabem que se os vir parados tenho que tirar tempo aos colegas que estão "em recuperação".


Mas, porque estarei eu a escrever estas linhas todas, alguém me impede de aproveitar o tempo assim? - perguntará quem eventualmente me leia. Impede(m), sim. Ainda hoje me zanguei com a minha melhor turma, na realidade, verdade se reconheça, excessiva e algo injustamente, por estarem muitos deles desatentos na própria véspera do meu teste. Eles estão desconcentrados, cansados, a pensarem nos testes que terão a seguir, que requerem mais estudo com memorização do que a Matemática e que, para alguns, são decisivos (o decisivo é UM teste?), eles há mais de uma semana que quase não há dia em que não tenham um teste, o que seria normal se não fosse esta a semana que precede imediatamente aquela em que começam as provas globais. Começam 3ª feira, até na 2ª têm um teste (só por acaso não são dois testes em dias seguidos nessa disciplina porque não calhou a primeira prova global ser a da dita. E EU NÃO ENTENDO! (E não me contive, disse-o há dias nas turmas em voz alta - os miúdos lamentam-se e, quando têm razão, seria feio dizer-lhes, ou dizer-lhes somente, qualquer coisa no género Se estudassem regularmente, não andavam agora tão aflitos)

Testes antes das provas globais, eu entendo, claro, mas com um tempinho de intervalo, até porque o teste só é a última prova de que não aprenderam quando já não há tempo para esse importante momento que é o da aprendizagem na correcção individual dos testes, aproveitando os erros para os compreenderem, aproveitando o professor para mais um 'forcing' para que compreendam ou corrijam noções mal assimiladas. Agora, dois testes seguidinhos, multiplicados por n disciplinas, preenchendo considerável percentagem do tempo de um curto 3º Período... e os professores de Matemática e de Português que apanhem depois com o alarido das taxas de insucesso nos exames - sim, esses professores que tiveram as turmas, com tantos alunos difíceis e fraquitos, preocupadas com TESTE, TESTE durante semanas em que ainda era o tempo de ensinar um bocadinho mais e, para alguns, dado ser a altura em que se sentem mais responsabilizados, de aprenderem talvez dois ou três bocadinhos mais. Eu consegui um "buraquinho", ou seja, um dia sem terem outro teste, para o meu, mas não estou nada preocupada por ter feito só UM (enquanto colegas fazem dois e mais prova global), estou é aborrecida comigo por - em vez de ter perguntado a mais professores do que àqueles dois a quem cheguei a perguntar, afobados com matrizes, testes e provas globais, se pensavam que os professores de Matemática e de Português não precisavam de fazer teste nenhum e se achavam que nada tinham a ver com estas duas disciplinas - ir ainda zangar-me com a minha melhor turma, como hoje, cheinha de testes desde a semana passada, nervosos, alguns com essa coisa bloqueadora que é o medo ou ansiedade perante uma situação 'diferente' porque para a semana terão outros com um nome diferente, que até não faria grande diferença se não fosse envolvido por um ambiente também diferente, todo formal, onde nem haverá a presença do seu professor (não ajudaria a resolver a prova, mas um sorriso tranquilizador ao passar e olhar ou uma simples expressão no olhar, daquelas que eles entendem como 'Pensa mais um bocadinho', até ajuda sem qualquer fraude).
Às vezes dizemos: têm 15 anos, já não podem ser tão pouco responsáveis. Mas era bom que, nessa história dos exames nacionais que virá a seguir, se pensasse um pouco: ainda têm 15 anos, alguns 14, e, ainda por cima... isso bonito, mas difícil, que se chama adolescência.

O artigo que me deu algum apoio, fazendo-me desatar a escrever o desabafo, em vez de ir para a cama, artigo de João Filipe Matos - até o conheço, foi meu professor de metodologias de investigação qualitativa, "pegámo-nos" numa das primeiras aulas, mas depois demo-nos muito bem, coisa que também acontece comigo e alguns alunos indisciplinados ;) - está
aqui

segunda-feira, maio 15, 2006

Adenda

Betsy Cameron, There's Always Tomorrow

O pequeno Azul

"O pequeno Azul pergunta ao seu velho e sábio avô:
- Como chegar ao amanhã?
E o velho sábio responde:
Primeiro, para chegar ao amanhã, é preciso querer chegar lá ...
Em seguida, devemos escolher as pousadas aonde descansar e refletir acerca do próximo caminho a percorrer.
Depois, a cada passo do caminho, perguntar o que fazer com as pedras encontradas na estrada, nas margens e no horizonte.
Manter o olhar alternadamente no futuro e a um metro dos pés.
Finalmente e sempre:
- sentir e caminhar, caminhar e sentir, sentir e caminhar...
Como o pequeno Azul, caminhando e, sobretudo, sentindo, chegaremos ao amanhã..."

Autor desconhecido, Como chegar ao amanhã. Em www.metaforas.com.br

domingo, maio 14, 2006

Um ano depois (ou Um projecto desviado)

Faz hoje um ano, este bloguezinho. Não refiro o facto para comemorar - não apago velinha, nem trago bolo (para cantar, deixo o Chico, mas hesitei entre a fantasia e... ela desatinou ;) ). Refiro-o para contar aos que, inesperadamente, vieram a ser "compagnons de route" neste perturbado ano lectivo (e eventualmente queiram ler o conto), o que me levou a criar este cantinho, afinal com uma ideia muito depressa desviada.

Não frequentava a blogosfera, não costumava ler nenhum blog, mas a modalidade atraiu-me como meio prático de ir teclando uns escritos, aliado a um aspecto motivador da escrita que era o de me propiciar também ter um cantinho onde, além de ir nele guardando esses escritos, de vez em quando libertar este ou aquele estado de espírito mediante uma imagem ou um poema - já que não sei pintar nem escrever poesia, a procura de uma expressão metafórica de um pensamento ou estado de espírito ora me diverte, ora me permite extravasar uma zanga, ora me proporciona tranquilidade ou silêncio.
Criei o blogue prematuramente em Maio devido a ter-me posto a experimentar o manejo técnico, pois, como então disse, na entrada inicial, era um projecto a começar verdadeiramente só nas férias, dado que não queria ficar por memórias ou episódios, precisava da disponibilidade dessas férias para começar a rebuscar alguns fundamentos (nas minhas fontes de teoria/investigação), do que, com alguns dos relatos soltos, implicitamente defenderia, tendo em mente referências ou curtas notas, ao mesmo tempo que aproveitaria para ir organizando uma "revisão-síntese" pessoal, independente de uso para o blogue. Na verdade, pensei neste entretenimento como pequeno baú de "soltos" para mais tarde o abrir - nesse tempo de reformada que nem estava projectado para tão próximo como afinal ficou pelo repentino "tirem-me deste filme" - e então pensar em "sim ou não" fazer alguma coisa com as minhas memórias de prof. (Mas, este relato também é, já, somente uma memória)

Entretanto, pesquisei por blogues de professores, já não me lembro se terei deixado algum comentário ao Miguel Pinto, mas ele descobriu-me (é perito na descoberta de cantinhos de colegas) mais ou menos ao mesmo tempo, julgo, que Julho desviava o meu projecto antes do Agosto em que imaginara prossegui-lo "direitinho" (e devagar). Esse Julho em que começou, a meu ver, o maior erro no sistema educativo que vi em toda a minha vida adulta - a partir do "escândalo" dos resultados em Matemática dos exames nacionais realizados pela primeia vez no 9º ano, começou o achincalhar da classe docente, já que seria pouco lógico ficarem pelos professores de Matemática, elegendo-os como espécie aparte, vocacionada para a incompetência.
O Miguel foi o grande dinamizador de troca de opiniões e mesmo debates, e creio poder dizer que não fui só eu que fiz um percurso que, tendo, embora, momentos mais emotivos, passou também por bastantes de disponibilidade para interrogar, auto-interrogar, reflectir e tentar atitudes construtivas, mas foi acabando, progressivamente, por chegar à evidência de tanto e tamanho acumular de erros do actual ME e seus ajudantes, que já não há apelo credível ao papel dos professores no meio do descalabro que esvazia esse papel.
E, assim, neste meu cantinho, já não sei, agora, o que escrever. Mais do mesmo sobre esse descalabro, não vale a pena - é repetitivo, cansa e desmoraliza. Quanto ao meu projecto inicial sobre o ensino-aprendizagem, particularmente da Matemática, e também sobre experiências ou memórias relativas ao acto educativo global, isso pareceria insólito neste momento caótico, como embrulho lançado por extraterrestre num ambiente nada oportuno caracterizado pelo tudo ser feito para humilhar, desmotivar e desviar os professores de disponibilidades para dialogar e reflectir sobre os seus modos de ensinar e educar. Além de que uma prioridade se está tornando cada vez mais urgente - a reflexão e busca de soluções face ao problema da indisciplina dos alunos nos seus vários aspectos, incluindo a simples, mas generalizada indisciplina de trabalho. Problema, a meu ver, a requerer cada vez mais urgência, como disse, (se acaso não passa primeiro pelo problema da educação do cidadão adulto), e também mais urgente do que assuntos que entravam no meu pequeno projecto de escrita.

Já que pus de parte esse projecto, humilde, mas decorrente de experiência de uma vida profissional inteira, não vou terminar esta entrada sem, ao menos, referir uma das questões que me são mais caras, uma questão em torno da qual pugnaram (pugnámos) bastantes professores de Matemática do Básico - a dos métodos de ensino-aprendizagem da matemática nas idades da escolaridade obrigatória. Deve ter sido pela década de 80 (?, não me apetece fazer contas) que
vimos essa questão fortemente assumida e apoiada pela Direcção Geral do Básico, através do seu Departamento de Matemática, num governo de que nem estou certa da cor (lá teria que fazer contas), o que é (deveria ser) irrelevante nesse âmbito. E há que deixar de omitir que certas inovações, que requerem (re)aprendizagens e procedimentos faseados que alteram os "timings" que professsores estão habituados a querer rápidos para terem depressa uma turma a funcionar "bem", tenderam à imediata desistência de também bastantes colegas, após um "vou experimentar". Tal como há que deixar de omitir, de forma mais geral, isto é, não circunscrita à matemática, que, se é verdade que o 25 de Abril eliminou aqueles métodos expositivos e controladores dirigidos a turmas que se queriam passivas, não deixa de ser ainda pertinente cada um perguntar-se até que grau foi significativa a mudança (embora havida, obviamente), pois, provavelmente, os que mudam e inovam sempre o fizeram por predisposição, mas também haverá os que precisam de criar disposição, aceitando perguntar primeiro a si próprios se as sucessivas roupinhas novas, que até, por exemplo, a força das novas tecnologias acaba por obrigar a vestir, significam sempre, de facto, mudança por baixo da roupa.
Ups...


P.S.:

Mas também há uma pergunta a saber-se fazer a si próprio ao fim (e ao longo) de um percurso: Estas ou aquelas perspectivas de um tempo ainda são adequadas a situações de outro tempo? Sob pena de, não se sabendo fazê-la, não se ter percebido que são os novos que saberão responder aos novos tempos (e, se não souberem, mais ninguém poderá dar, por eles, as respostas).

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Adenda - Os novos.... E os outros, que papel?
(Contradição? Contra-argumento? Mas, se eu parar de discutir comigo, será a paragem de mim própria, e não estou a pensar parar eu o motor antes de ele parar por si)

Building Memories


Jack Sorenson

quarta-feira, maio 10, 2006

Fases...

Eu e meu blogue andamos em fase de alguma incompatibilidade. Crises... pequenas crises... se fazem parte da vida, também podem fazer parte de um simples blogue, ora pois!
(No domingo explicarei melhor, hoje fica só a fase em "quadradinhos".






P.S.: Autores não identificados? Não tenho culpa que ponham à disposição na net imagens sem assinatura, nem sei a quem pedir desculpa por uns "toques" em duas delas!

segunda-feira, maio 08, 2006

Rótulos (Adenda)

Refere-se Rousseau na entrada anterior e sorri para mim mesma lembrando-me de rótulos que certos "analistas" do pensar dos outros tão facilmente colocam. Mas, sejam romantismo, eduquês, outros ou os contrários, na minha testa não colam. Penso que filosofias ou ideias contrárias dinamizam e fazem crescer o pensamento, aprendi a deixar dogmatismos, os legados filosóficos que sobrevivem aos tempos têm sempre ao menos algum quê que contribui para pensar o mundo, a vida e os humanos (e até, alguns, a ciência). Aliás, entendo que o próprio conflito de contrários é que gera pensamento novo e, muitas vezes (ou todas as vezes?), transformação verdadeira de situações. Se não tivesse esta percepção (seja certa ou seja errada), não me entenderia com nada, muito menos comigo mesma.

O azar é que entre considerar isso e conseguir encontrar as pontas dos fios de novelos vai uma grande distância... se calhar infinita.


Pois... e ora aqui está uma boa e sensata ideia para esta e algumas outras noites em que os dedos se precipitam demais para as teclas...

Uma memória escrita (II)

Como disse em nota na entrada anterior, a segunda parte desse meu escrito, um TPC, foi composta (correspondendo ao pedido da professora de levarmos algo de um poeta ou de peça literária) por colagens de excertos da Oração de Sapiência de Boaventura de Sousa Santos, a qual (ampliada) foi publicada em livro.
Já que ambas as entradas são de um só escrito, começo nesta por retomar, a fazer a ligação, as últimas linhas da entrada anterior.

(...) E, soubera-me tão bem encontrar, em português - nosso, original - se não poesia, pelo menos o belo no horizonte projectado pelo olhar do próprio cientista, sociólogo, professor, que outro não procurei.
Não caberá dentro do programa de Psicologia Educacional. Mas só porque, creio, é esta que cabe, como ciência humana, em "Um discurso sobre as ciências".
Boaventura de Sousa Santos desculpar-me-ia, decerto, esta composição de extractos da sua Oração de Sapiência, pois creio não ter, em nada, deturpado o seu pensamento ao retirá-los do restante contexto.

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Tenho comigo uma criança(1) que há precisamente duzentos e trinta e cinco anos fez algumas perguntas simples sobre as ciências e os cientistas. Como ela, estamos de novo perplexos; instalou-se em nós uma sensação de perda irreparável tanto mais estranha quanto não sabemos ao certo o que estamos em vias de perder; admitimos mesmo, noutros momentos, que essa sensação de perda seja apenas a cortina de medo atrás da qual se escondem as novas abundâncias da nossa vida individual e colectiva. Mas mesmo aí volta a perplexidade de não sabermos o que abundará em nós nessa abundância.
Estamos de novo regressados à necessidade de perguntar pelas relações entre a ciência e a virtude, pelo valor do conhecimento dito ordinário ou vulgar que nós, sujeitos individuais ou colectivos, criamos e usamos para dar sentido às nossas práticas e que a ciência teima em considerar irrelevante, ilusório e falso.
De novo, como aquela criança, temos de perguntar pelo papel de todo o conhecimento científico acumulado no enriquecimento ou no empobrecimento prático das nossas vidas, ou seja, pelo contributo positivo ou negativo da ciência para a nossa felicidade. Duvidamos suficientemente do passado para imaginarmos o futuro, mas vivemos demasiadamente o presente para podermos realizar nele o futuro. Afinal, se todo o conhecimento é autoconhecimento, também todo o desconhecimento é autodesconhecimento.
Vivemos num tempo atónito que ao debruçar-se sobre si próprio descobre que os seus pés são um cruzamento de sombras, sombras que vêm do passado que ora pensamos já não sermos, ora pensamos não termos ainda deixado de ser, sombras que vêm do futuro que ora pensamos já sermos, ora pensamos nunca virmos a ser.
Tal como noutros períodos de transição, difíceis de entender e de percorrer, é necessário voltar às coisas simples, à capacidade de formular perguntas simples, perguntas que, como Einstein costumava dizer, só uma criança pode fazer mas que, depois de feitas, são capazes de trazer uma luz nova à nossa perplexidade.
Tenho comigo uma criança...
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(Colagem de extractos de:
Boaventura de Sousa Santos, 1985,(2))

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(1) Referência a Rousseau.
(2) Boaventura de Sousa Santos (1987). Um discurso sobre as ciências (6ª ed.). Coimbra: Ed. Afrontamento. pp. 6, 7, 8, 9, 58, 5, 6.
Nota: São adicionais ao texto do autor as palavras em letra reduzida: & 1,l & 3, l .