terça-feira, Janeiro 21, 2014

Eu vi... Por que não vejo agora??

"Eu vi este povo a lutar"... Por que não vejo agora, antes que seja tarde demais?

A minha Minie e o seu brinquedo

Todas as noites, ao seguir-me para o quarto para se instalar na almofada (com cobertor, claro :-)) onde passa a noite ao lado da minha cama, ela volta atrás para ir buscar o brinquedo por que ficou apaixonada desde que a minha Filhota lho trouxe no Natal. Mais ainda... de manhã volta a transportá-lo para a 'nossa' salinha de estar. E este ritual já dura há quase um mês!
(Más fotos, não consegui apanhar o momento em que o leva pelo ar a correr)

domingo, Janeiro 19, 2014

Revisitando este cantinho...

Cantinho abandonado... hoje senti saudades. 
Saudades de o 'enfeitar' com poemas e arte, saudades também de deixar para trás as memórias de prof que já não era (porque reformada) para aqui vir em impulsos de denúncia e luta contra medidas desestabilizadoras da Escola Pública e da sua qualidade, então sem imaginar (sem imaginarmos) possível assistir em breve a intenções e medidas conducentes à destruição da mesma, menos ainda a uma política de destruição do nosso país pelo empobrecimento do seu povo e pelo ataque a conquistas civilizacionais e a princípios que a nossa Constituição partilha com todas as Constituições dos países democráticos. 

O FaceBook tornou-se o espaço privilegiado para comunicar, denunciar, mobilizar... mas tenho saudades de um cantinho só meu, onde vem quem quiser, mas só se quiser, e se ninguém mais vier, venho eu... é o meu canto. 
Não sei ainda se o revisitei para voltar com frequência, mas hoje tive saudades e vim. 
E vim com o sentimento que trago em mim todos os dias destes últimos dois anos e meio... REVOLTA.



sexta-feira, Janeiro 25, 2013

Por que vou dia 26?

Aposentada há já uns anitos, por que vou? Vou pela mesma razão por que irão muitos daqueles para quem a causa da Educação foi/é uma das grandes causas das suas vidas.
Educação de qualidade para TODOS nunca foi objectivo atingido no nosso país, e muita falta de vontade política houve para tornar esse objectivo prioritário, e muitas medidas a ele perniciosas foram tomadas por motivos meramente economicistas. No entanto, desde aquele Abril de 1974, nunca como agora vi tanto em perigo esse Futuro em que todos tenham igualdade de oportunidades de acesso  à Educação de qualidade; nunca, como agora, vi a Escola Pública ameaçada de verdade porque ameaçada por bem mais do que "necessidades" economicistas, porque ameaçada também por mentes ideologicamente enviesadas e perigosas.
Confesso que não espero nada que venham aqueles cem mil que vieram por causa do modelo da ADD de MLR. Mas desejo estar enganada pois, se não vierem, embora respeite os motivos e as motivações de cada um, não conseguirei deixar de sentir vergonha.

segunda-feira, Novembro 12, 2012

Como se impede uma manifestação sem a proibir

Ou como, mais do que o medo que tem da Democracia, o governo demonstra esconder de A. Merkel o sentir largamente maioritário do Povo que deveria representar

Não está em questão a máxima segurança a garantir à chanceler alemã em todos os seus percursos. Mas foram também todos os acessos que nada tinham a ver com essa segurança, a algum local numa área de quilómetros à volta de Belém, que foram interditos não só a transportes privados, mas também a públicos, incluindo taxis. E indo ao pormenor de proibir as habituais paragens dos comboios na estação de Belém. 
Num horário de trabalho, a grande maioria dos que poderiam ir manifestar-se, como queriam, só poderia ser de reformados e de desempregados. E a idade dos reformados já não permite (senão aos de invulgar saúde e resistência física) tão grandes percursos a pé.
Mas, aos referidos expedientes providenciados pela prepotência deste governo, acresceu outra medida que raiou o ridículo. O alto gradeamento que rodeou o CCB foi colocado a tal distância que, mesmo que fossem muitos milhares a gritarem à máxima potência das suas vozes, não seria mais do que um murmúrio o som que chegaria ao CCB.
Exagero? Não observei pessoalmente?
Não, não exagero pois observei directamente com os meus olhos, após uma aventura a que nem deveria ter-me arriscado dado que todos temos o dever de preservar o bem mais precioso, que é a saúde. (No caso, a física e também a mental) 
Não me meti nesta aventura de hoje por nenhum "heroísmo", mas simplesmente porque não previa que até os comboios estivessem impedidos de parar. Não previa tanto "requinte". No tempo da ditadura não eram permitidas manifestações e os que a elas se atrevessem apanhavam logo com a polícia de choque a toda a força. PC foi mais requintado, decerto para que não lhe chamassem ditador - e de 'meia-tigela', diga-se.

sábado, Novembro 03, 2012

A minha indignação ainda consegue subir!

Agora também o "modelo alemão" para a Educação. Nem consigo escrever muitas linhas. Haverá muita diferença (se é que há alguma) entre decidir os destinos das crianças aos 9-10 anos e decidi-los à nascença?
Mas estas notícias-medidas merecem pouca atenção à comunicação social, não suscitam múltiplas entrevistas e debates, pelo que as famílias dos que serão maiores vítimas pouco se aperceberão atempadamente. Restaria aqueles de cuja profissão-missão se esperaria uma preocupação primordial pela Educação e pelo Futuro das crianças que frequentam ou frequentarão a Escola Pública.
Infelizmente para todas essas crianças, não espero que os professores saiam em massa à rua (oxalá me engane). Não se trata de subida de impostos, e mais desempregos não é coisa para já, já. Não é que eu não ache legítimo que se saia à rua por razões da austeridade imposta cegamente - mais do que legítimo, acho imperioso. Mas a verdade é que a actual equipa governamental  vai prepotente e criminosamente ainda mais longe, pronta a destruir valores civilizacionais e de justiça, bem mais irremediáveis a longo prazo - essa prepotência própria dos medíocres, e esses crimes mais próprios de psicopatas.
Professores, vão consentir?

domingo, Outubro 14, 2012

A Cultura saiu à Rua

Acabo de regressar da Praça de Espanha. Em defesa da Cultura, manifestação? protesto? espetáculo de oito horas? Eu diria apenas que a poesia, a canção, as artes - a cultura - (também) sairam à rua. 
Trago nos ouvidos e no espírito o ACORDAI, cantado depois de dito em seis línguas por declamadores dos respectivos países. Trago também a Grândola, a terminar após o Acordai.
Eu sei que já não posso ter a certeza de não morrer como nasci - em ditadura. Mas, na verdade, tenho vivido e sentido, nas últimas semanas, ambientes em que se sente um  cheiro a vésperas de novo Abril.
Não me lembro (perdoem-me se a memória me trai), não me lembro de, depois do 1º de Maio de 1974, sentir o povo português assim. O povo em geral, o povo que então ainda não tinha partido e agora está farto de partidos - dos partidos que nos têm governado pondo a proteção dos interesses dos grandes lobbies e, tantas vezes, os seus próprios interesses eleitorais acima dos interesses do povo português e dos valores da Pátria.
Talvez um governo de homens e mulheres de sólidos, corajosos e incorruptíveis ideais de justiça e de humanismo seja utopia. (Embora..."Se as coisas são inatingíveis... ora! / não é motivo para não querê-las. / Que tristes os caminhos, se não fora / a mágica presença das estrelas!") 
Mas não é exigir muito clamar por um governo ao menos de homens e mulheres patriotas, lúcidos, estudiosos e experientes que urgentemente substituam a submissão, o culto cego e insensível dos números e o atabalhoamento que caracterizam a actual governação (para não usar outros termos).
Assim o povo português queira. Assim o povo português não esqueça as palavras que mais têm sido gritadas ultimamente: O Povo é quem mais ordena.

domingo, Setembro 16, 2012

Eu vi este povo a lutar

E há que continuar!
A indignação não se manifesta num só dia!

O 15 de Setembro

O povo unido jamais será vencido - Foi o que mais se ouviu na colossal manifestação em Lisboa 

Para os meus arquivos:

   
Foto do Sapo Notícias

Eu

sexta-feira, Setembro 14, 2012

Fora!!!!

AGORA! AMANHÃ PODE SER TARDE!

ACORDAI!
Não deixemos destruir o nosso país e destroçar o futuro dos nossos filhos!

Sim, o Estado Português assumiu um compromisso em Maio de 2011, mas NÃO assinou nenhuma condenação dos portugueses à pobreza, nenhuma destruição do património de Portugal, nenhuma afronta à Constituição da República, nenhuma condenação à morte da Democracia, nem nenhuma submissão do Povo à prepotência de técnicos facciosos, cegos, ajoelhados diante dos ocupantes do seu país até com oferendas que estes nem lhes pedem, e destituídos de qualquer sentimento de justiça e humanidade.

BASTA!

O povo é quem mais ordena - é tempo de o lembrar!

sexta-feira, Julho 13, 2012

"Primeiro levaram...... Não era nada comigo"

Vieram 120 mil... Todos eram atingidos, vieram quase todos.

Agora levam milhares...  _mas não sou contratado, não é nada comigo
Agora outros milhares apanham com uma coisa que se chama "horário zero"..._' mas não acredito que me possam despedir  ("depois lavaram-me a mim, mas já era tarde")

Aquela avaliação atingia todos. Vieram quase todos (muitos  pelos moldes dessa avaliação, alguns porque, secretamente, não  queriam avaliação nenhuma)

Tu, que agora preferiste não ter o incómodo de vir, não te moves por solidariedade, mas... também não te moves pelo descalabro da Educação que recai sobre os teus alunos?  Não te moves por causa dos mega agrupamentos e das mega turmas?  Nem pelas razões que levam milhares de colegas teus ao desemprego? Não são precisos??!!  A dita "reforma curricular", que dispensa a formação integral das crianças e adolescentes (e, por isso, dispensa hoje milhares de colegas teus) não te preocupa e revolta?

terça-feira, Julho 10, 2012

Só nas Honduras?...

A liberdade é isto?

Carlos, um rapaz das Honduras, é uma das cerca de quarenta milhões de crianças que, por não terem lar, vivem abandonadas à sua sorte nas ruas das cidades latino--americanas. Muitas delas ainda têm pais, mas estes são tão pobres que não podem tomar conta dos filhos. Há cinco anos que Carlos ganha o sustento como engraxador de sapatos. Não é nada fácil sobreviver.

O meu maior problema é dormir. Não é nada fácil encontrar um lugar seguro onde não seja incomodado. Eu não quero juntar-me a nenhum bando e começar a roubar. Isso não é futuro. Mas como não estou em nenhum bando, também não tenho ninguém que me proteja. Às vezes é horrível não ter ninguém no mundo que goste de mim. É preciso ser-se muito forte para aguentar.

Há dias em que tenho a impressão de que toda a gente me detesta. Alguns olham-me, furiosos, quando pergunto: “Quer engraxar os sapatos?” Outros insultam-me porque estou sujo. Mas já me habituei a ser insultado só por ser pobre. A vida na rua é difícil. Quando comecei a trabalhar, havia rapazes mais velhos e mais fortes que me tiravam o dinheiro todo e até me batiam. Os polícias também me bateram várias vezes. Uma vez, meteram-me num lar, mas era como estar numa prisão. Ao fim de algumas semanas, fugi. A maioria das pessoas não fala comigo quando me manda engraxar os sapatos. Lê o jornal ou olha em frente. Mas também há quem me diga: “Dá-te por feliz por poderes viver em liberdade, por ninguém te dar ordens”, ou coisas parecidas. Isto põe-me furioso.

É liberdade ter fome?

É liberdade não poder ir à escola por ter de trabalhar?

É liberdade não poder aprender uma profissão e ser talvez condenado a passar a vida inteira na rua?

Hannelore Bürstmayr

Grün wie die Regenzeit

Mödling, Verlag St. Gabriel, 1986

(Tradução e adaptação)
Via Clube das Histórias




















segunda-feira, Junho 11, 2012

O país está com a memória tão curta??

10 minutos que demonstram como a ganãncia do poder passa por cima da honestidade e da vergonha...

catastroika

"Todas as experiências feitas com a privatização e desregulamentação falharam mesmo em economias das mais poderosas do planeta. Os maiores falhanços prenderam-se com infra-estruturas como caminhos de ferro, água e redes eléctricas."


A MAIORIA DOS PORTUGUESES CONHECE, NO ESSENCIAL, O QUE ESPERA COM A IDEOLOGIA EM QUE VITOR GASPAR CRÊ CEGAMENTE E... CONSENTE!

Os filhos não perdoarão a apatia dos pais.

http://youtu.be/Qam7h1jMIwI

domingo, Junho 10, 2012

Se nossos governantes estivessem à altura deste discurso...

(Ainda não consegui o vídeo)

Discurso do Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Prof. Doutor António Sampaio da Nóvoa  (Aqui)

Lisboa, 10 de junho de 2012

As palavras não mudam a realidade. Mas ajudam-nos a pensar, a conversar, a tomar consciência. E a consciência, essa sim, pode mudar a realidade.
As minhas primeiras palavras são, por inteiro, para os portugueses que vivem situações de dificuldade e de pobreza, de desemprego, que vivem hoje pior do que viviam ontem.
É neles que penso neste 10 de Junho.
A regra de ouro de qualquer contrato social é a defesa dos mais desprotegidos. Penso nos outros, logo existo (José Gomes Ferreira). É o compromisso com os outros, com o bem de todos, que nos torna humanos.
Portugal conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa, agora, sem as redes das sociedades tradicionais.
Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização.
Façamos um armistício connosco, e com o país. Mas não façamos, uma vez mais, o erro de pensar que a tempestade é passageira e que logo virá a bonança. Não virá. Tudo está a mudar à nossa volta. E nós também.
Afinal, a História ainda não tinha acabado. Precisamos de ideias novas que nos deem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. Há sempre alternativas.
A arrogância do pensamento inevitável é o contrário da liberdade. E nestes estranhos dias, duros e difíceis, podemos prescindir de tudo, mas não podemos prescindir nem da Liberdade nem do Futuro.
O futuro, Minhas Senhoras e Meus Senhores, está no reforço da sociedade e na valorização do conhecimento, está numa sociedade que se organiza com base no conhecimento.
Há a liberdade de falar e há a liberdade de viver, mas esta só existe quando se dá às pessoas a sua irreversível dignidade social (Miguel Torga).
Gostaria de recordar o célebre discurso de Franklin D. Roosevelt, proferido num tempo ainda mais difícil do que o nosso, em 1941. A democracia funda-se em coisas básicas e simples: igualdade de oportunidades; emprego para os que podem trabalhar; segurança para os que dela necessitam; fim dos privilégios para poucos; preservação das liberdades para todos.
Numa situação de guerra, Roosevelt sabia que os sacrifícios têm de basear-se numa forte consciência do social, do interesse coletivo, uma consciência que fomos perdendo na vertigem do económico; pior ainda, que fomos perdendo para interesses e grupos, sem controlo, que concentram a riqueza no mundo e tomam decisões à margem de qualquer princípio ético ou democrático. É uma “realidade inaceitável”.
Em mar de águas revoltas, é preciso manter o rumo, ter a sabedoria de separar o acessório do fundamental. A Europa não é uma opção, é a nossa condição. Uma Europa com uma nova divisa: liberdade, diversidade, solidariedade.
A Europa é o nosso futuro, mas não nos iludamos. Ou nos salvamos a nós, ou ninguém nos salva (Manuel Laranjeira). Falemos, pois, de Portugal e dos portugueses.
Pelo Tejo fomos para o mundo… mas quantas vezes estivemos ausentes dentro de nós? Preferimos a Índia remota, incerta, além dos mares, ao bocado de terra em que nascemos (Teixeira de Pascoaes).
A Terra ou o Mar? Portugal ou o Mundo? A pergunta foi feita por todos aqueles que pensaram Portugal.
No final do século XIX, um homem da Geração de 70, Alberto Sampaio, explica que as nossas faculdades se atrofiaram para tudo que não fosse viajar e mercadejar. Nunca nos preocupámos com a agricultura, nem com a indústria, nem com a ciência, nem com as belas-artes. As riquezas que fomos tendo “mal aportavam, escoavam-se rapidamente, porque faltava uma indústria que as fixasse”, e o património da comunidade, esse, “em vez de enriquecer, empobrecia”.
Nos momentos de prosperidade não tratámos das duas questões fundamentais: o trabalho e o ensino. Nos momentos de crise é tarde: fundas economias na administração aumentariam os desempregados, e para a reorganização do trabalho falta o capital; falta o tempo, porque a fome bate à porta do pobre. Então a emigração é o único expediente: silenciosa e resignadamente cada um vai partindo, sem talvez uma palavra de amargura.
Este texto foi escrito há 120 anos. O meu discurso poderia acabar aqui. Em silêncio.
Senhor Presidente da República,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
É esta fragilidade endémica que devemos superar. O heroísmo a que somos chamados é, hoje, o heroísmo das coisas básicas e simples – oportunidades, emprego, segurança, liberdade. O heroísmo de um país normal, assente no trabalho e no ensino.
Parece pouco, mas é muito, o muito que nos tem faltado ao longo da história.
Porque Portugal tem um problema de organização dentro de si:
- Num sistema político cada vez mais bloqueado;
- Numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício;
- Numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial.
Estão a surgir, é certo, sinais de uma capacidade de adaptação e de resposta, de baixo para cima. Precisamos de transformar estes movimentos numa ação sobre o país, numa ação de reinvenção e de reforço da sociedade.
Chegou o tempo de dar um rumo novo à nossa história.
Portugal tem de se organizar dentro de si, não para se fechar, mas para se abrir, para alcançar uma presença forte fora de si.
Não conseguiremos ser alguém na Europa e no mundo, se formos ninguém em nós.
Não é por sermos um país pequeno que devem ser pequenas as nossas ambições. O tamanho não conta; o que conta, e muito, é o conhecimento e a ciência.
Senhor Presidente de República,
O convite de V. Ex.ª, que muito agradeço, é um gesto de reconhecimento das universidades e do seu papel no futuro de Portugal.
Em Lisboa, na célebre Conferência do Casino (1871), Antero disse o essencial: A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos.
Antero tinha razão e o século XX ainda mais razão lhe veio dar. O drama de Portugal, do nosso atraso e da nossa dependência, tem sido sempre o afastamento de sociedades que evoluíram graças ao conhecimento e à ciência.
Nas últimas décadas, realizámos um esforço notável no campo da educação (da escola pública), das universidades e da ciência.
Pela primeira vez na nossa história, começamos a ter a base necessária para um novo modelo de desenvolvimento, para um novo modelo de organização da sociedade.
É uma base necessária, mas não é ainda uma base suficiente.
Existe conhecimento. Existe ciência. Existe tecnologia. Mas não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego.
É este o nosso problema: a ligação entre a universidade e a sociedade. É esta a questão central do país: uma organização da sociedade com base na valorização do conhecimento.
Insisto. Apesar de todos os contratempos, Portugal tem hoje uma capacidade instalada, nas universidades e na ciência, que nos permite sair de uma posição menor, periférica, e superar o fosso tecnológico que se cavou entre nós e a Europa.
Não temos tempo para hesitações. As universidades vivem de liberdade, precisam de ser livres para estarem à altura do que a sociedade lhes pede.
É por aqui que passa o nosso futuro, pela forma como conseguirmos ligar as universidades e a sociedade, pela forma como conseguirmos que o conhecimento esteja ao serviço da transformação das nossas instituições e das nossas empresas.
É por aqui que passa o nosso futuro, um outro futuro para Portugal.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Também Lisboa se está a transformar graças à criação, à energia da cultura e da ciência, graças aos estudantes que aqui chegam de todas as partes do mundo.
Lisboa é dos poetas. Em abril, a poesia esteve na rua e fez-nos emergir da noite e do silêncio. A poesia volta sempre à rua, através desta língua que é a nossa mátria, desta língua que nos permite estar connosco e com os outros, nas comunidades que nos multiplicaram pelo mundo e nos países que são parte de nós.
25 anos depois, não esqueço José Afonso: Enquanto há força, cantai rapazes, dançai raparigas, seremos muitos, seremos alguém, cantai também.
Cantemos todos. Por um país solidário. Por um país que assegura o direito às coisas básicas e simples. Por um país que se transforma a partir do conhecimento.
Não podemos ser ingénuos. Mas denunciar as ingenuidades não significa pôr de lado as ilusões, não significa renunciar à busca de um país liberto, de uma vida limpa e de um tempo justo (Sophia).
Foi esta busca que me trouxe ao Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

sábado, Junho 09, 2012

Gostar do professor - II

Creio que não tem sentido perguntar se um aluno gosta do professor sem uma pergunta prévia: O professor gosta do aluno?


Que impressão me causava ouvir um(a) colega dizer, num Conselho de turma, “não gosto nada dele(a)”! E, mesmo que disfarce, não há aluno que não “sinta”, para não falar daqueles alunos que, tendo baixo autoconceito, a investigação constata que tendem para grande desconfiança mesmo quando não é verdade que o professor não gosta dele.

Neste segundo post sobre o tema, propus-me focar o aspecto da exigência do professor quanto aos comportamentos: Os alunos gostam de professores não permissivos, e severos face a maus comportamentos, nomeadamente faltas de respeito?

A minha resposta é segura: Sim, gostam, mas com a condição de que constatem que o professor os respeita sempre e que gosta deles – costumamos dizer que se trata do professor que pune com uma mão (em sentido figurado, claro) tendo sempre a outra pronta a encorajar e ajudar.

Não me vou deter em relatos dos poucos casos em que um aluno me faltou ao respeito em toda a minha vida profissional. Mas não omito uma verdade: depois de ter tratado os casos com grande (muito grande!) severidade (e muito à minha maneira, indiferente quanto a sanções legisladas), esses foram dos alunos que mais ganhei em respeito e consideração. Porquê? Porque, por muitos erros que tenha cometido como professora, nunca a condição que referi acima faltou a um aluno meu, acho que isso era inato em mim.

Prefiro deixar o relato de um caso que tem muito a ver com a tal pergunta prévia: “O professor gosta do aluno?”

O M. começara o 5º ano, e eu não comecei da melhor forma com ele. Era pouco amigo do estudo e mostrava-se agressivo. Nas primeiras semanas, a nossa relação falhou, foi má. E o caso andava na minha cabeça.

Planeei então falar com o M. daquela maneira que às vezes usei – perguntas de chofre, frontais e com autenticidade.

Na primeira oportunidade em que o encontrei no recreio (íamos ter aula), detive-o e disse-lhe que tínhamos que falar. Comecei por dizer que a nossa relação não estava nada boa e, logo de seguida: “Não gostas nada de mim, pois não?” Lembro-me bem de que ele ficou hesitante, eu disse-lhe que podia ser sincero, que não ficaria aborrecida senão não perguntava, e o M. então respondeu “Não gosto muito...”. De imediato (eu cá tinha a minha ideia), perguntei: “E achas que também não gosto de ti, não é?”

Pronto, estava começada a conversa pelo lado que eu pretendia.

Já não recordo os pormenores dela, sei que lhe expliquei que não era verdade, que eu gostava muito de ser professora e gostava de todos os meus alunos, mas que tinha que ser severa com maus comportamentos, que isso não significava que não me preocupasse com todos e que estava a conversar com ele porque gostava dele e era preciso que ele colaborasse,….. enfim, terá sido mais ou menos isto.

Penso que basta contar o fim: Estávamos perto da sala de aula, a turma esperava à porta, e o M. disparou a correr para junto dos colegas : “A professora de matemática gosta de mim!” – ouvi-o repetir, aos saltos.

Diz-se que quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto. Mas não, não estou a ampliar nadinha. Isto foi há muitos anos, ficou na minha memória, e o M., que até é meu vizinho, ainda hoje é  meu amigo. Na altura, logo a nossa relação mudou, o M. nunca mais voltou a ser agressivo e tive nele um colaborador durante os seus 5º e 6º anos, como lhe pedira.




quinta-feira, Junho 07, 2012

Gostar do professor - I


Começo por este tema porque constatei ao longo da vida que é um tema que se presta a equívocos.

Os alunos, desde cedo, são avaliadores dos seus professores mais criteriosamente do que se julga. Como crianças que são, aderem ao professor “compincha” e permissivo, o que é natural e previsível perante um “aliado” das suas brincadeiras. Mas, quando chega a altura de porem em questão a própria aprendizagem, é como professor que o avaliam, não como companheiro. E, se há indisciplina, embora esta advenha dos alunos e estes dela abusem, peça-se-lhes a verdadeira opinião e logo se verá como sabem ser lucidamente críticos.

Sempre fui vista pelos meus alunos como exigente (muito exigente para alguns). Guardo para outro post o aspecto dos comportamentos, cinjindo-me neste à exigência no trabalho e na aprendizagem.

Os alunos mais velhos (tive a experiência até ao 9º ano) sabem apreciar essa exigência, desde que acompanhada por todo o apoio e todas as oportunidades para superarem as dificuldades. Mas os mais novos, muitas vezes, só a apreciam quando a recordam posteriormente.

Sobre isto, teria bastantes testemunhos para deixar. Fico por um, a título de exemplo.


Quando ainda lecionava só no 2º Ciclo, encontrei no autocarro uma ex-aluna que tinha transitado para o 7º ano. Trunco o diálogo para não me alongar e também porque tenho que me cingir ao que a memória reteve:

_ Setôra, tenho-me lembrado tanto de si! …… Confesso que cheguei a achar qua a setôra era injusta, eu trabalhava tanto e nunca mais me dava o cinco! ……. Agora é que eu vejo como era preciso que puxasse sempre mais por mim…… Eu agora vejo bem como teria dificuldades no 7º ano se não tivesse puxado por mim daquela maneira.


De facto, só lhe dei o cinco – então certo segundo os meus critérios – no final do 6º ano, apesar de se tratar de uma aluna com esse nível nas outras disciplinas. E creio que este episódio muito antigo, que poderia repetir com outros parecidos, demonstra o que disse acima.




Regresso ao meu bloguesito

 As minhas memórias estão desactualizadas. No entanto, creio que há aquisições pegagógicas que são válidas em todos os tempos.

Neste blogue, guardo recordações. Mas a minha experiência de vida de professora-educadora guarda algumas constatações. Apetece-me escrevê-las a pouco e pouco, ao sabor da disponibilidade. Raríssimos as lerão, mas este meu cantinho é um pedacinho da minha vida profissional.

quarta-feira, Maio 30, 2012

Até sempre, Amiga Amélia!

Há momentos em que não tenho palavras, só a lágrima que rola devagarinho.
Ia escrever a saber se estava bem, pois há dias não recebo aquele poema logo pela manhã...
Nunca esquecerei a Amélia Pais.
Até sempre, Amiga Amélia!


ao longe os barcos de flores


segunda-feira, Maio 07, 2012

F. Hollande... uma esperança

Não sei o que conseguirá, mas estou feliz porque estou convicta de que se inicia uma importante mudança, benéfica para o nosso país, para a própria França e para a Europa.

quinta-feira, Março 29, 2012

Mais exames... Um regresso ao antigamente?

Exames no 6º ano, exames no 4º ano...
Porque (dizem) os professores são pouco exigentes. Não se interrogam sobre as razões do progressivo abaixamento de exigência (excepto daqueles professores a quem nenhuma intimidação faz abrir mão da exigência).
Deixem a obsessão de classificar e pensem em formar! Não lhes faltam meios já instituídos, falta-lhes, sim, a vontade política.
Instituíram as provas de aferição. Deixem de querer só estatísticas dos resultados! Invistam na análise das principais lacunas detectadas nessas provas, enviem as conclusões para as respectivas escolas e dêem a estas condições e autonomia para que cada um dos Departamentos de Língua Portuguesas e Matemática possa debater e concretizar sem medo um ensino mais exigente e uma avaliação justa dos alunos no final de um processo em que os mesmos tenham o apoio diferenciado de que necessitam e formas de avaliação formativa.
Criaram um sistema de avaliação de professores. Se a "preocupação" com as aprendizagens dos alunos não fosse hipocrisia, deixariam de fazer desse sistema um meio para economizar na progressão na carreira docente para fazer dele um meio de avaliação primordialmente formativa, um meio estimulante e destituído de perversões, em que os professores pudessem cooperar e trabalhar com os alunos com entusiasmo e sem medos.
Nada sabem do árduo trabalho dos professores e nada sabem de ensino-aprendizagem. Nada sabem também, nem têm quem saiba, sobre a difícil e complexa tarefa de elaboração de provas de exame fidedignas. E nada os preocupará se muitos professores passarem a trabalhar na sala de aula para o treino das crianças para as ditas provas. Talvez com tal treino se venham a verificar" boas notas", e eu não sei se não sabem ou se não querem saber de tudo o que de verdadeiramente importante para o real desenvolvimento cognitivo dos alunos ficará excluído com o estúpido "treinar para o exame".
Em suma: Se é mesmo com a preparação dos alunos - de todos - para as suas vidas futuras que estão preocupados, então só tenho a lamentar a presunção irresponsável de um ministro que, antes de o ser, sobejamente mostrou a sua tacanhez de conhecimento sobre Educação. Um lamento profundo porque serão as crianças as cobais de experiências assentes em ideias obsessivas de tal ministro.

(Escrito sem adesão ao novo A.O.)
____________
Adenda
Uma memória que concorre para a minha posição: Aqui

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quarta-feira, Março 21, 2012

Primavera...

1º dia de Primavera... Dia em que, há anos, fui avó pela 1ª vez.

Claude Monet (1886), Le Printemps

sábado, Fevereiro 11, 2012

Impressionante! Mas eu quero acreditar no povo português.



Eça de Queirós escreveu em 1872:

"Nós estamos num estado comparável apenas à Grécia: a mesma pobreza, a mesma indignidade política, a mesma trapalhada económica, a mesmo baixeza de carácter, a mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se em paralelo, a Grécia e Portugal"
In As Farpas

Mas Eça considerou a crise de então "sem cura":

“Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: - mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura.” 
in Correspondência (1891)

 A História não o comprovou, e eu quero acreditar, não nos governantes, não nos políticos do dito "arco da governação", não nos poderosos lobbys (todos eles mantendo as características que Eça então denunciava ("A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse. A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio" - in Distrito de Évora, 1867) mas no povo português, na consciencialização deste bem como dos povos da europa (e do mundo).


terça-feira, Fevereiro 07, 2012

Sebastião da Gama partiu há 60 anos



Do Professor...
"Cada vez me apetece menos classificar os rapazes, dar-lhes notas, pelo que eles «sabem». Eu não quero (ou dispenso) que eles metam coisas na cabeça; não é para isso que eu dou aulas. O saber - diz o povo - não ocupa lugar; pois muito bem; que eles saibam, mas que o saber não ocupe lugar, porque o que vale, o que importa (e para isso pode o saber contribuir e só contribuir) é que eles se desenvolvam, que eles cresçam, que eles saibam «resolver», que eles possam perceber."
(In Diário, Eds Ática 1962)

Do poeta...
Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas ...


Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?


Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.


E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.


Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!


Povo anêmico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!
(In Jornal de Poesia)

domingo, Janeiro 22, 2012

Considerações sobre dois pensamentos sábios

O maior bem que podemos fazer aos outros não é oferecer-lhes a nossa riqueza, mas levá-los a descobrir a deles. Louis Lavelle

Nós não temos todos o mesmo talento, mas todos nós deveríamos ter a mesma oportunidade de desenvolver os nossos talentos. John F. Kennedy

Estes pensamentos até poderiam ser interpretados erradamente em tempos passados, quando a escolaridade não era obrigatória, estudar era para as "elites". A frase que ouvi algumas vezes de um pai ou uma mãe - "o meu filho não tem jeito para os estudos" - poderia significar que o "talento" do aluno não dava para mais do que vir a ser qualquer coisa como ajudante de pedreiro (sem desprimor da minha parte para os ajudantes de pedreiro).

Não! O que me leva a considerar aqueles pensamentos situa-se no âmbito das estratégias para o sucesso escolar de todos através da motivação e da elevação da autoconfiança dos alunos que revelam (aparentes) dificuldades de aprendizagem ou até dificuldade de integração na Escola. Eu explico:

1º - Todas as crianças revelam algum talento ou aptidão, mesmo que não seja no âmbito curricular. A descoberta por um professor dessa aptidão pode ser muito importante, não numa perspetiva que não faz sentido para mim de um ensino diferenciado assente em aptidões precoces, mas sim como indicador de uma primeira estratégia de motivação e ganho de autoconfiança. A proposta à criança de uma tarefa baseada na aptidão descoberta, por parte de um professor, ou de um diretor de turma numa atividade extra-curricular, permitirá valorizar o sucesso dessa criança na tarefa, o que a fará feliz e logo elevará as suas auto-imagem e auto-estima no seio da turma. Tenho escrito várias vezes que até os comportamentos agressivos e desestabilizadores de alguns alunos não são mais do que modos pouco conscientes de afirmação de quem, no fundo, não vê em si mesmo outro modo de afirmação - outra capacidade que seja positiva.

2º - Também evoquei várias vezes resultados de investigações, por exemplo no âmbito da psicologia da aprendizagem, que fundamentam a minha crença de que toda a criança (não portadora de deficiência profunda) tem capacidade para aprender, significando as dificuldades que muitas revelam que simplesmente ainda não descobriram (ou consciencializaram) como direcionar a sua mente nas situações de aprendizagem/estudo - como "meterem a cabeça" no problema a resolver ou no texto a interpretar, em vez de estarem preocupados a encontrar na memória algo que estudaram e encaixe na tarefa, sem de facto usarem o raciocínio. E isto agora já tem a ver com a "riqueza" ou o "talento" pessoal mais geral, que é a capacidade de raciocinar, a capacidade de monitorar a mente em contexto escolar, ainda escondida - ainda não descoberta ou aprendida. 
Isto levar-me-ia à minha defesa de que os professores aprendam "técnicas", digamos antes 'estratégias' de colocação dos alunos em situação de experiência metacognitiva  durante ou imediatamente a seguir a uma tarefa cognitiva. Mas não vou dissertar sobre esse tema, tenho neste bloguezito vários escritos sobre ele com a etiqueta "metacognição".

domingo, Janeiro 15, 2012

E porque hoje é domingo...

... um belo poema (com o agradecimento à Amélia Pais)

Nesta terra as mulheres crescem à sombra,
como os cogumelos, o musgo ou a razão,
em ponto de cruz a saudade vai sendo domesticada,
o mais honesto e obediente animal puxado por uma trela dourada
feita de medo e outras coisas que ligam
o seu viso tem a expressão de todos
e é nestas caras quentinhas que descem ainda as lágrimas de Eros
mudando por dentro o nome do continente, outra cara, possível Começo
sem nome, sem coisa nenhuma, é às vezes o sal
que cai destas caras que tempera o prato, porque todo o sal não chega
para compensar o amargo que veio morar para a boca
cansada de saber que a linguagem não chega
porque eles fugiram, cada um em seu barco:
os filhos
Nesta terra as mulheres crescem à sombra
E têm sombra nos olhos, que o eco veio pintar
a lápis de cor por cima da paisagem humana
que se aloja debaixo de tudo o que a alma espelha,
veias, artérias, vasos, curvas fininhas que o tempo vai moldando
A anatomia rasgando o cosmos à escala humana, soprando-o para longe
Transbordo que a sede cria,
E enquanto as filhas vão ao poço, sol, risos, perfeita anatomia
As sombras crescem. Pequeninas rendinhas em baús
Terços, santinhos, livros de areia, um dente de leite
o fio de ouro a que está ligado,
e são de sombra os seus gestos porque quando se movem
são os braços de outros que ganham vida e retiram à paisagem
a natureza para pôr nela a arte, a civilização, a linguagem e a vitória
a mais alemã invenção,
e o seu sorriso é uma espécie de Deus
e quanto mais se enrola na paisagem mais deus é
Até parece que a razão dorme dentro delas,
e a razão dorme dentro delas – o capitão do navio dá-lhes duas opções
Ou embarcam no barco do amor ou embarcam no barco do amor
Mas vão ter ainda de o Criar para o atravessar, e partir as árvores, da madeira fazer o barco
e calafetá-lo e dar-lhe um nome, e baptizá-lo, porque tudo aquilo em que se toca também se é
A sede vai-lhes toda para os olhos,
Urgente era que as sombras saíssem, como o fumo adocicado dos pulmões
Para dentro doutros pulmões.
Estas mulheres seriam modelos se as estátuas de sono não dormissem dentro delas
Se não fossem só alma,
O planeta chama-as do centro, as rugas vão rasgando a sua pele
Mas elas riem pouco,
E há poucos jovens
Estão todos no meio da Europa, Lisboa, Porto
Em Lisboa está a arte e no Porto está a arte
E no Couço está a arte e em todo o lado está a arte
Se não fossem só alma teriam visto mais vezes o mar
Não são filhas da revolução nem são filhas de ninguém
os seus filhos estão todos na taberna e são mais velhos que elas
À noite estas sombras limpam com um guardanapo o beiço dos velhos
Porque desce-lhes azeite pelos queixos, e esses guardanapos podiam ser a página 100
de uma História Contemporânea, edição de luxo, a meio da investigação os eruditos
folheavam o guardanapo em Lisboa onde está a arte ou no Porto onde está a arte.
Exportámos marmelada para a Austrália ou para os armazéns de retalho da capital
que importa se toda a geografia é interior? – Enquanto dormem até de deus são mães
E entre as suas pernas as almofadas (penas de pato, segredos ou outros novelos).
As suas casas são feitas de queda, de verticais os muros ganham contornos,
a mais cara renda que são os dias a vir
formas breves, novas formas, dias que incham
parecem areia soprada pelo fogo
com que se faz o vidro e se embacia o espelho
um dia também ele será inventado pelas mãos quentes de um artesão etrusco
antes mesmo de haver as moedas para o comprar
e que levarão os nossos filhos para longe,
Para o Canadá, Luxemburgo, Cantões,
nos navios, nas bagagens, nos aviões, todos com o seu preço
calafetado por dentro e por fora, impregnado na paisagem,
claves de sol pontilham a paisagem, por cima do trigo, a picotado
As sombras destas mulheres são às vezes música, entra nos búzios
Não só por nos lembrarem que elas provêm do sol,
como tudo o que parte, mas por nos erguerem como o caule de um girassol
a sua voz é a sua seiva, está dentro da nossa espinha, é o nosso equilíbrio
uma balança onde se pesam as palavras que ficaram por dizer
Futura-te
Também a rede quer dormir mas não é da natureza das redes dormirem
e a rede pede que lhe cortem as pontas, que tragam uma tesoura
E alguém corta as pontas, mas as pontas crescem com mais força, como uma estrela
-do-mar, a tesoura é também informação e acrescenta-se à rede, tudo é soma nesta nova anatomia
Coisas que entram
Abre as portas, vem muita gente atrás e todos querem entrar em ti,
Entrar é ser gente, crescer é ser rede,
homens e redes nunca dormem verdadeiramente,
Em Manchester as fábricas enchem-se de música e no Couço
cresce o trigo dos latifúndios e todos estes homens precisam
de equadores ao mesmo tempo que precisam de pólos
E todas estas mulheres precisam um pouco mais de calor
Não só para deixarem de ser sombras
mas para saberem que de se descarrilarem se fazem novos caminhos
Nas carruagens vai este gado
Já não de ferro nem de vento são os caminhos em que é feita a viagem
Sem pontes de aço, betão ou de cimento, só ultrapassagem
No Portugal dos pequeninos os filhos que se vão perder em todos os continentes
das suas perdas novos filhos nascerão: Filhos da revolução. Qual?
Na natureza nada se apaga
Na natureza não existe amanhã
Mas o homem põe a manta da civilização por cima da natureza
e por baixo da manta fica o escuro e alguns animais sem expressão
às vezes fica também o riso,
a razão fica a sobrevoar a manta
e ficam mulheres debaixo da manta
danças primitivas, ecos, sonhos,
capitães de mar nenhum ficam também
debaixo da manta a razão de ser da literatura,
definir poesia é dar as mãos
Só a gente e paisagem não desce para baixo da manta da razão
E as mãos aquecem agora mais

Nuno Brito
(Nuno Brito nasceu no Porto em 1981)