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sexta-feira, janeiro 19, 2007

Hoje deixo outro poeta...

... completaria hoje 84 anos - Eugénio de Andrade.

[Onde me levas...]

Onde me levas rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos e com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante;
que seja nessa face que me perca.


Eugénio de Andrade
_____________________
ADENDA
Eugénio de Andrade é um dos poetas de que gosto tanto que, sabendo que seria hoje o seu aniversário, tinha que deixar um poema seu. Além disso, quando penso que vou deixar o meu cantinho um tanto em pausa, gosto de deixar um poema (ou uma pintura - as obras de arte são poemas). Contudo, desta vez em que também me parece que vou fazer (ou retomar) alguma pausa, deixo o desejo de que o tema do meu post anterior (resumido: o professor generalista para o 2º ciclo) se torne tema de combate a tal visão, inclusivamente na blogosfera)

domingo, janeiro 14, 2007

Para o domingo (e não só), deixo um poeta

[Prévio: "Ainda pior que a convicção do não, é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase! (...) Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu." (Luís Fernando Veríssimo - de um pps que corre pela net)]
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Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro, Quase (13 de Maio de 1913)
________
P.S.: Bom domingo e boa semana!
_________________________________________
ADENDA ("extra")
O meu destaque (extra-educação/ensino): Artigo no Público de hoje, aqui.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Do velho para o novo ano...

Receita de ano novo
(Carlos Drummond de Andrade)

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


_______________________________




______________________________
Nota:
Andarei ausente. Até... 2007! Entrem todos no novo ano... ia escrever com o pé direito, como se costuma dizer, mas não... Que entrem bem! E com os dois pés ;)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Intervalo para um poema

O RELÓGIO
(adereço conceptual para usar no pulso)

Pára-me um tempo por dentro
Passa-me um tempo por fora.

O tempo que foi constante
no meu contratempo estar
passa-me agora adiante
como se fosse parar.
Por cada relógio certo
no tempo que sou agora
há um tempo descoberto
no tempo que se demora.

Fica-me o tempo por dentro
passa-me o tempo por fora.
Ary dos Santos. Adereços, Endereços (1965)

domingo, novembro 26, 2006

Evocação

De Mário Cesariny, um poema*...

Ai dele que tanto lutou e afinal
está tão só. Tão sòzinho. Chora.
Direcção da Companhia Tantos de Tal.
Cincoenta e três anos. Chove, lá fora.

Chora, porquê? Ora, chora.
Uma crise de nervos, coisa passageira.
É, talvez, pela mulher que o adora?
(A êle ou à carteira?)

Seis horas. Foi-se o pessoal.
O homem que venceu está sòzinho.
Mas reage:que diabo. Afinal...
E olha para o cofre cheínho.

Sim estou só ainda bem porque não? ele diz
batengo com os punhos na mesa.
Lutei e venci. Sou feliz
E bate com os punhos na mesa.

Seis e meia. Ó neurastenia
o homem que venceu está de borco
e sente uma grande agonia
que afinal é da carne de porco
que comeu no outro dia.

É da carne de porco ele diz
vendo a chuva que cai num saguão.
É da carne de porco. Sou feliz.
E ampara a cabeça com as mãos.

Durante toda a vida explorou o semelhante.
Por causa dele arruinaram-se uns cem.
Agora, tem medo. E o farsante
diz que é feliz diz que está muito bem.

Sim, reage. Que diabo. Terei medo?
E vê as horas no relógio vizinho.
Mas, ai, não é tarde nem cedo.
Ele, que venceu, está sòzinho.

Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros
Os outros, os que o queriam vencer!
Arruinou-os, matou-os aos poucos.
Então não o queriam lá ver?

Sim, reage: Esta noite a Leonor
amanhã de manhã o Sàlemos
e depois? Ah o novo motor
veremos veremos veremos

Mas pouco do que diz tem sentido.
Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho.
O homem que venceu está vencido.
O dinheiro tapou-lhe o caminho.

Os filhos? esperam que êle morra.
A mulher? espera que êle morra.
O sócio? Pede a Deus que êle morra!
Só a Anita não quer que êle morra!
Ai, maldita carne, murmura
vendo a água que há no saguão.
Tinha demasiada gordura!
E veste o casaco e o gabão.

Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se.
Vai sair. Talvez vá jantar?
É inverno. Lá fora, faz frio.

O homem que venceu matou-se
na margem mais escura do rio
ao volante dum belo Packard


________
* Rua do Ouro

segunda-feira, outubro 30, 2006

Derrapando sobre versos de um poema (Momentos passageiros)

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?


Carlos Drummond de Andrade. José.

terça-feira, outubro 24, 2006

Voltando sempre a... utopia e realidade.

De escritos meus, este cantinho continua em intervalo (depois contarei como a falta de horários obrigatórios pode gerar o caos na organização do tempo e... falta de horas suficientes em cada dia, numa incoerência - pelo menos aparente - com a quase total ausência de obrigações!!!)
No entanto, não gosto de ter este cantinho em prolongado silêncio, por isso venho deixar dois poemas da Sophia de Mello Breyner Andresen. Porque ontem, antes de adormecer, apeteceu-me reler um pouquinho dela e um poema estava a mover-me a pô-lo aqui, mas... logo quatro páginas adiante, outro pequenino fez-me desistir. Hoje, acabei por optar por pôr os dois.

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

(A Forma Justa)


Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos

Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga


(Poema)

terça-feira, outubro 17, 2006

Hoje... apenas uma citação e um poema

___

"A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida."
John Dewey (1859-1952)

___

Das Utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!
Mário Quintana

___

sexta-feira, setembro 15, 2006

Bom fim de semana!

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Mário Quintana, Poeminha do Contra


Flores para o vosso fim de semana
___________________________
Quando era noite do princípio do dia deixei aqui o cartaz de luta. Quando era manhã, tive que ir à secretaria da minha ex-escola, para isso ia atravessar o pátio onde estariam alunos e encarregados de educação (hoje as actividades eram ainda de recepção) e, dos colegas que lá vi, só uma tinha achado que valia a pena esse gesto simples, mas não apenas simbólico visto que poderia proporcionar perguntas de alunos e respostas de esclarecimento a eles e pais. Não tive vontade de ir à sala de professores - pela amostra, é possível que o preto fosse só dessa colega (e meu) -, apenas voltei para casa a desejar que tenha havido bem menos alheamento pelas outras escolas. E agora, que já é noite de fim do mesmo dia, vou fazer o meu fim de semana a alhear-me eu. A alhear-me do meu último ano de escola, escola agora tão diferente da mesma que foi a minha durante anos, ela própria tendo enchido, com as anteriores em que estive, as minhas memórias de modo bem mais esperançoso e apaixonante do que "realidades actuais" permitiram à minha memória recente.

quinta-feira, agosto 24, 2006

...

(Momentos... pensamentos... estradas... curvas de estrada... Mas Agosto ainda tem uma semana, eu destinei Agosto ao repouso do pensar a fim de ficar em forma para novos 'pensares', este cantinho é-me útil para tirar da mente pensamentos rebeldes àquela decisão e aqui os fechar quietinhos, assim em jeito só de metáforas que os meus poetas e pintores me proporcionam dispensando-me de me deter nos insinuados pensamentos por alguma tentação de os deixar desenvolverem-se, inclusive pela escrita, o que quebraria o repouso)

MENDIGO do que não conhece,
Meu ser na 'strada sem lugar
Entre estragos amanhece...
Caminha só sem procurar...


Fernando Pessoa (Poesias Inéditas)



Paul Cézanne (1885)

sábado, julho 15, 2006

E porque é a 1ª noite do fim de semana...

...Bom fim de semana! :)

De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.

Eugénio de Andrade


Frederick Church, Crepúsculo na Imensidão

quarta-feira, junho 28, 2006

E para esquecer o Plano de Acção para a Matemática...

... Um visual novo (obrigada, Miguel) e um poema à Matemática.

Ai, o ponteiro da tortura

naquela sala

que a matemática tornava mais escura

em vez de iluminá-la.

Felizmente só o nada-de-mim ficava lá dentro

O resto corria no pátio-em-que-nos-sonhamos,

pássaro a aprender os cálculos do vento

aos saltos do chão para os ramos.

Mas só quando voltava para casa à tardinha

encontrava a minha verdadeira matemática à espera

na lógica dura das teclas do piano,

no perfil-oiro-pedra da vizinha,

na flauta de água macia do tanque

- chuva de Mozart nos zincos da Primavera...

Matemática cantante.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, maio 31, 2006

Para a serenidade

Deixara, há dois dias, a memória de duas canções, porque 'precisamos de vozes para agir'. Depois, zanguei-me (como se pode ver na entrada de ontem e não me arrependo dela), mas continuo sempre a (re)buscar a serenidade.
Lembrei-me desse poema de Kipling - mas eu, neste como noutros, por vezes lembro ou releio apenas os versos que, no momento, me "falam" -, creio que não será pecado recordar (a mim, mas dedicado a vós também, se aqui passardes desalentados) somente recortes.
(Para não ser pecado, deixarei em "rodapé" o poema total)

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
(...)

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
(...)
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build'em up with worn-out tools;

(...)
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

(...)
Yours is the Earth and everything that's in it,
(...)
___________
If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man, my son!
Rudyard Kipling, If

quinta-feira, dezembro 15, 2005

...

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade, excerto de A Flor e a Náusea

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Breve refúgio

Adenda 2:
A não perder: aqui

Adenda:
Bom feriado, bom fim de semana!

Vincent van Gogh (1887), Fishing in Spring, Pont de Clichy

Eu pecador que junto ao mar me purifico
lançando e recolhendo a linha e olhando alerta
o infinito e o finito e tantas vezes fico
como o último homem na praia deserta.

Eu pescador de cana e de caneta
que busco o peixe o verso o número revelador
e tantas vezes sou o último no planeta
de pé a perguntar. Eu pescador.

Eu pecador que nunca me confesso
senão pescando o que se vê e não se vê
e mais que o peixe quero aquele verso
que me responda ao quando ao quem ao quê.

Manuel Alegre, excerto de Oitavo Poema do Pescador

sexta-feira, novembro 18, 2005

Contrastes

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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A fuga

Mário Eloy Pereira

sexta-feira, outubro 07, 2005

...

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, setembro 25, 2005

Ode à poesia

(...)
Poesía,
porque contigo
mientras me fui gastando
tú continuaste
desarrollando tu frescura firme,
tu ímpetu cristalino,
como si el tiempo
que poco a poco me convierte en tierra
fuera a dejar corriendo eternamente
las aguas de mi canto.

Pablo Neruda

(Ode à poesia, extracto)

quarta-feira, junho 15, 2005

Poema

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

domingo, maio 22, 2005

Poema

Ai o ponteiro da tortura
naquela sala
que a matemática tornava mais escura
em vez de iluminá-la.

Felizmente só o nada-de-mim ficava lá dentro.

O resto corria no pátio-em-que-nos-sonhamos,
pássaro a aprender os cálculos do vento
aos saltos do solo para os ramos.

Mas só quando voltava para casa à tardinha
encontrava a minha verdadeira matemática à espera
na lógica dura das teclas do piano,
no perfil-oiro-pedra da vizinha,
na flauta de água macia do tanque
- chuva de Mozart nos zincos da Primavera...

Matemática cantante.
-
(José Gomes Ferreira, 1957-58)