segunda-feira, setembro 12, 2005

A minha prioridade

Uma das turmas de 9º que vou ter, e que já tive no 8º, já me anda na cabeça antes de começarmos. A pergunta "como vou fazer?" segue-se à pergunta que me fazia no 3º Período do ano anterior, "posso fazer alguma coisa?"
Como isto tem a ver com as preocupações no país com o déficit de preparação dos alunos em Matemática, mas os actuais alunos não podem ficar à espera dos resultados de medidas sobre o 1º Ciclo, a minha prioridade é a de saber o que faço numa situação com que, decerto, muitos outros professores de Matemática se deparam. Mas, começo por enquadrar o problema, deixando para post posterior a questão do "posso fazer alguma coisa"? (ou a questão do "podemos fazer alguma coisa?")
"...é necessário encontrar apoios para ajudar os alunos a ultrapassar as suas dificuldades. Há muito insucesso porque, muitas vezes, um aluno pára num certo nível de escolaridade e não se criam meios para o ajudar a recuperar." (Manuela Pires, APM - aqui)
O direito a apoios e complementos educativos está consagrado na LBSE para todos os alunos da escolaridade obrigatória que deles necessitem. Esse direito veio a ser concretizado com, nomeadamente, a instituição de aulas de apoio pedagógico acrescido (APAs), prioritariamente em Matemática e Português. Enquanto decorreram na minha escola (principalmente no 6º ano), o balanço foi sempre positivo - grande parte dos alunos abrangidos (sob condição de empenho e assiduidade e dando lugar a outros quando esta não se verificava) colmataram lacunas e progrediram, conseguindo mesmo completar o ano sem a reprovação em Matemática que tinham tido no ano anterior. A seguir, o crédito de horas foi cortado, restringindo-se actualmente essas aulas às NEE. Este corte reflectiu-se muito significativamente no aumento do número de alunos que chegam ao 8º ano desistentes em Matemática devido a que foram transitando desde o 5º ou 6º ano sempre com nível negativo nessa disciplina. A sequencialidade/verticalidade desta dá-lhes a consciência da quase impossibilidade de acompanharem as aulas, mesmo quando, pela maior maturidade, desejam modificar a situação. E, num ano já tão adiantado, o professor não faz milagres, pois tem limites a sua capacidade de se multiplicar por um trabalho de recuperação destes alunos e por mais outras estratégias e apoios individualizados a outros tantos que, embora sem aquela falta das mais elementares bases, também chegam reprovados do ano anterior, quando acontece que a turma é maioritariamente frágil na aprendizagem.
O corte do crédito de horas para estes reforços não foi feito por causa do actual déficit, foi ainda feito no tempo das "vacas gordas" dos fundos europeus. Na turma que referi e recebi no 8º ano, 26% dos alunos vinham desistentes da Matemática e, apesar de até os ter conseguido estimular e motivar, antes do 3º Período já estavam de novo desistentes, pois a recuperação de bases indispensáveis a conseguirem ser bem sucedidos era demasiado extensa, acrescendo, ao limite de capacidade dos professores que referi acima, que a generalidade destes alunos não tem apoio em casa nem para aquisição de hábitos de aí cumprirem tarefas esforçadamente, muito menos condições económicas para explicações. Com estes alunos (que, compreensivelmente até, não conseguem permanecer 90 minutos, desistentes do trabalho, sem perturbar o funcionamento da aula), com a maioria dos restantes a requererem muita atenção individualizada e persistência do professor, e... com aumento do número de alunos com um conjuntinho de alunos repetentes que não conheço, mas sei já que vou ter na turma...


Este post não é nenhum queixume pessoal. É, sim...
uma queixa, muito mais em nome dos alunos do que no meu, a quem, das prioridades na educação, fez sempre discursos, e dos desinvestimentos e cortes, fez sempre várias práticas (também na formação de professores). Por falta de verbas, ou por prioridades no seu destino, de que vão vindo a público pequenas amostras (ou ínfimas...)?

Entretanto, aguardemos!

1 comentário:

Miguel disse...

De facto, a nossa vida torna-se complicada quando (quase)tudo fazemos para que os nossos alunos superem as dificuldades e a burocracia do costume e o apertar do cinto são realidades que não nos ajudam no nosso trabalho; antes pelo contrário, apenas afundam ainda mais o barco...