sábado, setembro 27, 2008

Ainda a auto-estima

A estória do post anterior fez-me ficar a pensar na auto-estima das crianças. Por que não escrever um pouco ao correr do pensamento?

Referindo primeiro o autoconceito - no qual podemos integrar a auto-estima como componente avaliativa -, lembro-me que muitas vezes na minha vida de professora-educadora pensei que eram assustadoras as indicações, da investigação, de que se define bastante cedo na criança uma tendência que vai persistir na evolução do seu autoconceito, ou seja, que são criados cedo aspectos básicos do autoconceito que irão tender a manter-se estáveis e mesmo resistentes à mudança. No entanto, também sabemos que o autoconceito tem várias facetas com diferentes graus de estabilidade e de mutabilidade.

Ora, nas avaliações que as crianças vão fazendo de si mesmas influi poderosamente o "feedback" que recebem e que apreendem não só nas palavras e suas ênfases, mas também nos olhares e nas expressões faciais daqueles com quem convivem - olhares e expressões que captam até mesmo quando o emissor mal se deu conta de que as emitiu. Pensando agora nos professores, é grande a responsabilidade que lhes cabe em gerir com supremo e sensível cuidado as apreciações que vão emitindo continuamente sobre o trabalho escolar de cada aluno e sobre o próprio aluno.
Penso que é tarefa dos professores descobrirem em cada criança que têm nas suas turmas tudo o que nela é valorizável a fim de a guiar para o que ela já pode fazer e, daí, levá-la à autoconfiança para empreender o que ainda não sabe fazer.
Mas, por vezes, são os próprios professores que carecem de expectativas mais positivas que lhes permitam transmitir confiança aos alunos, incluindo àqueles que vão recorrendo a expedientes inadequados para se afirmarem. Se há coisa que eu tive oportunidade de aprender cedo na minha vida de professora foi o poder das minhas próprias expectativas positivas. Nas tantas vezes em que apostei nelas, julgo que era uma autêntica confiança em que os alunos seriam capazes de corresponder que se transmitia. Provavelmente, com os alunos que perdi não soube fazer essa aposta - ou, para alguns desses, já era tarde. De qualquer modo, não se trata de empreendimentos para um só professor, nem sequer só para os professores, pois as crianças não convivem de perto só com estes, e antes de terem estes já havia a família e o restante meio social próximo.
Todos temos conhecido alunos que procuram afirmar-se mediante comportamentos negativos. Eles exibem os rótulos que lhes atribuíram ou se auto-atribuíram, e sabemos que as crianças tendem a reforçar esses rótulos. Mudá-los não é tarefa fácil, mas cabe aos educadores serem mais persistentes a empreender mudá-los do que as crianças a conservá-los!

4 comentários:

Miguel Pinto disse...

Há alguns anos, num tempo em que a escola era pensada como um espaço essencialmente educativo, ou pelo menos era essa crença que eu gostava de alimentar na altura [hoje ao pensar na escola penso numa empresa fabril], tinha um clube escolar, um clube do desporto escolar que fora criado para dar mais atenção e cuidado àqueles alunos que ainda não tinham encontrado qualquer sentido na escola. As tuas memórias transportaram-me até lá, Isabel... :)
Com esta azáfama toda ainda acabamos por perder a memória :(

henrique santos disse...

Esta é uma questão essencial no ensino e nas relações humanas. Lembra-me uma das "teses" de um texto magnífico do Rui Grácio, bastante conhecido, em que ele fala da identidade e da forma como o educador se deve relacionar com o aluno.
"... certas experiências e inovações da pedagogia escolar vieram realçar a importância das atitudes e comportamentos do professor na natureza e qualidade da relação pedagógica; tais estudos e experiências comprovaram a influência favorável no aproveitamento escolar dos alunos - portanto na remoção ou minoração do insucesso escolar - de certas atitudes do professor: aceitação da pessoa do aluno, empatia com relação às suas dificuldades, encorajamento dos aspectos positivos da sua conduta. Tais atitudes seriam o suporte de uma relação pedagógica produtiva, porque valorizadora da identidade pessoal do aluno, e, assim condição basilar da sua evolução favorável, do seu construtivo progresso, do seu sucesso escolar."

IC disse...

Pois, Miguel... No tempo em que os clubes escolares eram criados para dar mais atenção e cuidado a certos alunos... Provavelmente já aqui não voltas para ler a minha pergunta: que se passa actualmente com os clubes escolares? (Algumas escolas continuavam a tê-los até há dois anos atrás)

IC disse...

Henrique
Dessas atitudes do professor, vejamos por exemplo a empatia em relação às dificuldades dos alunos. Várias vezes ouvi alunos lamentarem-se por este ou aquele professor não gostar que pusessem dúvidas e pedissem para explicar outra vez. Há casos em que até é irónico falar de empatia em relação às dificuldades dos alunos. Mas vamos sempre confiando que esses casos constituam uma pequena minoria...
Mas a questão de cuidar da auto-estima e do autoconceito das crianças é mesmo uma questão importantíssima.