terça-feira, fevereiro 14, 2006

Lembrei-me de Sócrates (o Outro, claro)...


... e achei melhor voltar a meter a ponta do fio lá bem dentro do emaranhado das minhas meadas!





Mas também conjecturei cá com os meus botões que Sócrates pensava no Conhecimento (até escrevo com maiúscula) e eu deparo-me com nada saber a um nível bem mais comezinho, apesar de toda a informação a que tenho acesso. (Toda? Informação? Ora deixem-me rir!).

Começando pelas escolas deste nosso país, agora tão faladas e discutidas, vem-me à memória o tempo em que lhes sentia o pulsar (com seus ritmos mais acelerados ou mais lentos) naqueles encontros de delegados de disciplina que o Ministério da Educação até promovia, não para ouvirmos debitar medidas, mas em que trabalhávamos, trocávamos interrogações e experiências, e também naqueles encontros de coordenadores de directores de turma igualmente havidos (alguém por aqui é desse tempo?) - levávamos a seguir para a nossa escola o enriquecimento ganho nas nossas trocas e reflexões conjuntas. E agora, para além de uns pouquinhos testemunhos que recolhemos nesta blogosfera onde falamos de escola porque na escola não há tempo (e não foi só neste ano lectivo que deixou de haver, neste há é ainda menos), resta-me a (des)informação da dita comunicação social, à qual só me apetece responder gritando: Dêem-me números! (Sim, números que falem, não a balela de resultados de um exame - este ou aquele - a quantificarem a qualidade dos professores).

Passando a seguir para a política no meu país, nem os orgãos de comunicação estão empenhados numa informação completa, nem, se estivessem, conseguiriam penetrar nos meandros de muitos interesses e conluios cuidadosamente ocultos.

Mas, o que mais me faz sentir sufocação no pensamento é a política internacional, comandada pelos governos das grandes potências (se calhar pouco mais do que por uma), eles mesmos guiados ou comandados por outros poderes, sem que eu consiga duvidar de que os seres humanos comuns vivem, impotentes, sob uma enorme teia cujas malhas se estendem pelo mundo e em cujos meandros subterrâneos nem, provavelmente, penetram as cadeias de televisão que (não só, mas também muito) fazem definir a nossa época como a época da informação e comunicação - sim, notícias e imagens de acontecimentos em qualquer lugar do planeta entram de imediato pela minha casa, mas de quantos deles não ficam escondidas causas e conluios que os discursos escondem?
Deparei-me por acaso com o escrito que se segue (não sei se como poema ou apenas desabafo) de um poeta brasileiro, Cláudio Portella, que não conheço - mas o texto exprime de algum modo (ainda que, a meu ver, parcialmente e só um pouco, esclareço que o tomo apenas como uma metáfora) o muro invisível mas existente que me permite só supor o que está do lado de lá dele, pois sinto há muito tempo que é um muro cujo poder de filtragem desafia até à exaustão qualquer mente com alguma lucidez.

"Nada sei sobre meu planeta
nada sei acerca dos conflitos orientais
só leio jornais
nada sei acerca dos conflitos orientais
como posso querer ser humano
se só leio jornais sem datas
se não posso me embriagar em Bagdá
se tudo que conheço sobre o Iraque
é o filme que vi na Globo
“ O Ladrão de Bagdá”
a Globo e a Folha de São Paulo são o planeta Terra?"

7 comentários:

3za disse...

Talvez por isso mesmo aqui em casa tenhamos alguma dificuldade em ver as notícias (tentamos... mas frequentemente desistimos). Há uma sensação de "irreal" em tanta aparente realidade. Muito jogo escondido (disso conversamos entre nós, com amigos e família, pouco mais). Uma sensação de se estar a ser enganado de mil maneiras enquanto as aparentes evidências desfilam pela TV e por todo o lado. Só me resta agradecer o facto de nos ter, a alguns, sobrado cabeça para pensar nas "realidades e aparências" do que nos chega... A nossa maior e melhor arma. Mas depois defendemo-nos de quem? De quê? Fazemos como?
Hoje estou um bocadinho a pensar nos "depois" das coisas sobre as quais reflectimos. Já passei pelo Miguel e caí no mesmo. Há dias assim. Aqueles a quem sobrou cabeça (e muitos andam por aqui, felizmente) vão partilhando estas coisas fundamentais, estes olhares, estas visões... e isso é muito enriquecedor e útil. Mas hoje apetecia-me "algo"... Eu sei que a vida é mesmo assim. Que perguntas são muitas, respostas frequentemente poucas (eu então... é mais perguntas)... mas... Não sei se me pegaram a doença do novelo (inventada por ti)... eu que já sou uma enovelada por natureza... Fico por aqui. É melhor!

IC disse...

"Só me resta agradecer o facto de nos ter, a alguns, sobrado cabeça para pensar nas "realidades e aparências" do que nos chega..." - escreveu a Teresa. Talvez tenha algo a ver com o comentário que deixei no micómio ao 1º dos 3 posts do Adkalendas "Enovelado", ou seja, com o principal papel da educação: desenvolvimento intelectual -> autonomia (gostava que lesses e desses a tua opinião, Teresa).

"Não sei se me pegaram a doença do novelo (inventada por ti)" - ó Teresa, uma pequenina rectificação, que muda muito nisso de "pensar nos "depois" das coisas sobre as quais reflectimos" - é que eu não chamei doença! E não chamar doença faz o novelo mais saudável, ou seja, desenrolá-lo (ou desemaranhá-lo) com uma perspectiva de um "depois" positivo, optimista :) Mas, como hoje também digo "Fico por aqui. É melhor!", não consigo pensar na palavra adequada para substituir "doença" ... que tal ficarmos por agora com "mania"? Mania do novelo... [riso... ou só sorriso?... já sei, sorriso com piscadela de olho para o Miguel Pinto, que anda a fugir ao desafio das "manias educativas"] :)))))

3za disse...

Desculpa o rótulo "doentio" ao novelo (eu que adoro novelinhos fofos e... teias!). Mania, sim, ou uma palavrita melhor que te venha a ocorrer... Vício saudável (como comer fruta... que só nos faz bem!) Quanto ao teu outro comentário, como a conversa lá já vai muito adiantada... vim só dizer aqui que... continuamos de acordo, completamente. Nem sei que mais diga! Sem autonomia, capacidade para pensar com rigor, muitos dos saberes perdem-se como areia em peneira... é uma questão de tempo. Diria, como Virgílio Ferreira. "A verdade de um curso não está no que aí se aprende mas do que disso sobeja"... Esqueci tanta coisa... mas esta vontade de pensar e de tomar iniciativas procurando dirigir a vida em vez de deixar que ela me dirija... ficou! Talvez por isso esta mania de me pôr à prova com testes surpresa, sem revisões de véspera. Exijo muito e depois quero mesmo saber o que sobrou... o que fui capaz de comunicar e ficou. MAs sempre com tudo docemente enovelado: Matemática e o "resto".
E aqui me fico. Até ver...

Miguel Pinto disse...

Ambrósio...hoje apetecia-me algo... :)) Fugir ao desafio? Eu? Agrada-me a tua persistência, Isabel. ;) Mas, deixa-me escolher a ocasião... dirás que é um recuo estratégico… será que andei na escola da Milu?

3za disse...

Isabel, vim aqui em busca do tal comentário... provavelmente interpretei mal as tuas palavras e era a este que te referias, ao qual eu já havia dado resposta. Seria? Ou será que falta aqui alguma coisa nesta história (um segundo comentário teu que não consigo ver)?
Beijinhos e bom fim-de-semana!

IC disse...

Teresa, julgo que te referes ainda à questão da função do professor que o Adkalendas retomou, respondeste sim. (A menos que o meu galo na testa me tenha tirado o sentido de orientação por estes blogs e posts lol )

Miguel, a Milu andou na escola???
(hi hi hi)

3za disse...

Pronto. Mistério resolvido. Acho que quem estava baralhada era eu... afinal esta coisa de proteger os galos e não lhes pôr gelo em cima dá mau resultado. Perco-me nas conversas e nas contra-conversas... Não querem ir todos para a minha sala de stores para me facilitar a vida? :)