segunda-feira, maio 01, 2006

Memória do 1º de Maio de 1974

Iniciei este blogue de memórias em Maio passado, vai fazer um ano no dia 14, é inevitável que, depois de há dias ter evocado Abril, também nele queira deixar a memória desse 1º de Maio na primeira vez que há um 1 de Maio desde que entrei na blogosfera.

É uma memória única: Não houve mais em Portugal outro 1º de Maio assim. O que, aliás, é natural, pois festejava-se a libertação, os abraços eram entre todos, mas, por essa libertação começava a democracia, seguir-se-iam, pois, oposições entre partidos, divergências ideológicas/políticas, divisões, tal é inerente a um sistema democrático. Evoco esse 1º de Maio de 1974 porque, simplesmente, ele de facto foi único.

Porque as filhotas eram pequenitas e eu queria que "vissem", comecei por as levar de carro, no meu saudoso boguinhas de motor a dois tempos, a elas e aos seus avós paternos, pela Avenida de Roma, antes de ir eu para o estádio que se chamou 1º de Maio (a que se acedia a pé, pela avenida paralela). Carros e multidão mal se deslocavam.
Todas as mãos se agitavam com dois dedos em V, todos os rostos sorriam e riam para os rostos desconhecidos do lado, parecia que ninguém tinha ficado em casa ou deixado de acenar à janela, a não ser os que fugiam para o Brasil ou permaneciam, de persianas cerradas, fazendo o luto pelo 24 de Abril. Não se pensava em divisões partidárias, a euforia era a da libertação. O banho de carros e de multidão que, a pé, atalhava o caminho para o estádio, os braços e os dedos no ar, as buzinas, os sorrisos e risos de todos para todos, essa manifestação assim foi tão inesquecível que ficou também gravada na memória das minhas pequenitas.
Quando consegui desviar e deixar as crianças entregues, era como abaixo se vê.

(Para o meu próprio arquivo documental, fui pesquisar as fotos na net, pois é muito difícil encontrar jornais da época naquelas prateleiras junto ao teto tão cheinhas de livros e documentos que já uma vez desmoronaram e foi um pandemónio cá em casa)



5 comentários:

Madalena disse...

É deste primeiro de maio que eu tão bem recordo também!!!!!bjinho Isabel!

TsiWari disse...

E se os professores conseguissem, entre si, uma vez que fosse, uma união assim?

Seriam reformados aos 65 anos? Aceitariam mudanças tão profundas no seu estatuto caladinhos que nem ratos encarneiradinhos?

E se...?

IC disse...

Vivemos muitas coisas, Madalena, temos assistido a muitas coisas, aqui e no mundo, quase demasiadas para uma só vida, mas aquelas vivências ninguém nos tira, creio que a imagem delas nos ajuda a sermos capazes de acompanhar as evoluções (ou involuções) sem nos atordoarmos e mantendo referências, valores, quando hoje ouvimos jovens confessarem que vivem sem valores. Bjinho!

E se...? Tsiwari, há tantos possíveis que as próprias pessoas no seu conjunto tornam impossíveis...

IsaMar disse...

Viva o dia do Trabalhador

bjs

Tit disse...

Obrigada Isabel, pela partilha... para nós que vivemos após o Abril de 74, é impossível olharmos estas datas e estes acontecimentos com o sentido que verdadeiramente tiveram. Só com a vossa ajuda os podemos entender melhor e ajudar a guardar na memória de todos...
Beijinho