domingo, abril 06, 2008

Memórias de alunos problemáticos - I

Agostinho

Foi pelos finais da década de 70 do anterior século. O Agostinho era meu aluno no 2º Ciclo, eu era a directora de turma.
Ele não era um aluno violento, nem propriamente o que se chama malcriado. Mas era muito agitado, nas aulas falava a despropósito talvez por necessidade de chamar a atenção, causava nelas pequenos desacatos e, no recreio, mais e maiores.
Como acontece em geral com os directores de turma, comigo era mais dócil. No entanto, eu andava com ele na cabeça, pensando como resolver as queixas que recebia de professores e funcionários, quase sempre só orais pois, com excepção de um professor com quem o Agostinho entrara um tanto em conflito, todos procuravam lidar com ele com muita paciência dado que pressentiam nele uma perturbação emocional cujas causas não eram perceptíveis. Eu já recebera manifestações de preocupação de um ou outro encarregado de educação inquieto porque aquele aluno prejudicava o funcionamento das aulas, mas as crianças da turma também achavam, como os professores, que devia haver algum problema, talvez em casa, e, num dia em que o Agostinho faltara e eu falara com elas pedindo que ajudassem o colega a andar calmo e a integrar-se, a turma já estava disponível para isso.
Vivia só com a mãe, uma senhora com pouca instrução mas mãe preocupada e dedicada, e o ambiente social, embora economicamente baixo, não era degradado. A mãe era mãe solteira e o Agostinho nunca conhecera o pai, mas não falava dele, o assunto não parecia presente no seu espírito.

Não alongo este relato, passo já para o dia em que se revelou a causa - ou uma das causas - do comportamento do menino. Aconteceu na minha própria aula que o Agostinho se levantou de repente atirando ao ar o material escolar e começando a fazer o mesmo com o dos colegas de mesa. Ao dirigir-me de imediato a ele, ainda fugiu para o meio da sala, repetindo "setôra, deixe-me, setôra deixe-me" e outras frases de que já não me lembro, em estado de grande agitação. Consegui reconduzi-lo ao lugar com a ajuda de duas ou três crianças a que fizera sinal para ajudarem, não porque houvesse propriamente resistência física da parte do Agostinho (embora fosse alto e parecesse um pouco mais velho do que os seus 11 anos), mais como quem apazigua um estado de espírito fora de si. E o resto da aula decorreu com os colegas de grupo procurando acalmá-lo e integrá-lo no trabalho. Creio que não passou pela cabeça de nenhum dos alunos que eu devesse ter expulsado o colega da aula ou mencionado sequer alguma sanção - o estado perturbado do Agostinho era evidente.
À saída, tinha a mãe do Agostinho à minha espera. Estava perturbada e chorava. O que acontecera fora que descobrira nessa manhã que o filho trazia por dentro da camisa, encostada ao peito, uma fotografia do pai - uma fotografia de que a senhora mal se lembrava de existir em casa e que o menino encontrara no fundo de uma gaveta sem ter feito qualquer comentário ao achado. A mãe deduzira que ele traria a foto consigo há algum tempo sem nada dizer, e, nessa manhã, o filho ficara muito perturbado pela descoberta da mãe.
O Conselho Directivo já conhecia bem o Agostinho, ele já tivera repreensões registadas propostas por mim. Encetou de imediato diligências para um acompanhamento psicológico - tal apoio ainda não existia nas escolas e já não me lembro por intermédio de quem ou de que instituição local foi conseguido -, ajudei a mãe a convencer o Agostinho a aceitar o acompanhamento e, passado algum tempo, o menino começou a pouco e pouco a andar mais sereno.

Nota final:
Este nem foi um caso muito difícil de ultrapassar. Trago para aqui esta memória porque, sendo dos princípios da minha vida profissional (embora já efectiva), penso hoje (tanto mais que, sendo a minha memória muito má para nomes, ela guarda ainda o deste aluno) que terá contribuído para que eu olhasse sempre os casos de alunos problemáticos - meus alunos ou outros com que contactei - procurando empaticamente perceber o que estava por detrás dos maus comportamentos, ou no íntimo das crianças mesmo que pouco conscientemente nelas (o que, aliás, creio que quase todos os professores tentam perceber). E, se em muitos casos as causas são facilmente detectáveis pelos degradados meios sociais e familiares em que nasceram e crescem, nem em todos é assim, como não era no caso do Agostinho.

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Adenda:
Curiosa coincidência!... Eu, que me lembro de bastantes alunos, mesmo antigos, mas não dos seus nomes, guardo na memória o nome deste e de outro "aluno problemático", de tempo posterior, também esse, por coincidência, de nome Agostinho - um dos 13 Engenhocas de que já falei algures e não deixarei de voltar a falar se se seguirem mais memórias com o título deste post.

1 comentário:

Peixoto disse...

Os casos concretos de alunos com problemas difíceis de resolver são cada vez mais uma regra nas nossas escolas. A banalização do facilitismo e da indisciplina tomaram conta ds nossas escolas.
Há que não desistir e continuar a ser exigente: para bem dos bons alunos e com vista a "acordar" os alunos menos bons para a vida.