terça-feira, julho 17, 2007

Compartimentos

Quando falo com algum amigo (ou amiga) que ainda está no activo e lecciona no ensino superior, fico com maior percepção de quanto as questões de educação-ensino andam compartimentadas.
Como não vou descrever em público conversas particulares, deixo apenas um ou dois exemplos vagos e não situados:

1 - Se eu abordar a questão do novo regime jurídico da habilitação profissional para a docência no ensino não superior e, nomeadamente, a do professor generalista, já sei que é melhor preparar-me para ouvir alguma resposta no género de 'já é assim em muitos países da Europa'. E cá temos a ideia falaciosa instilada pela "política global" de que o que é é o que deve ser ou o que tem que ser.

2- E se eu for mais longe e lembrar a ideia (que ainda não é uma proposta, mas que já apareceu publicamente como hipótese a considerar) de fusão dos 1º e 2º ciclos do Ensino Básico num só, a resposta então é certa: "Isso não é possível, é claramente contra a Lei de Bases do Sistema Educativo". E cá fico eu com a sensação de que o meu interlocutor do ensino superior se anda a dar pouco conta do que, dizendo mais respeito ao ensino não superior, tem vingado com atropelos de direitos adquiridos e ambiguidades em termos constituicionais, ultrapassando-se rapidamente ilegalidades mediante revogação de decretos e aprovação de novos. (Alterações profundas a uma lei são mais difíceis? Ora! Vamos ver o (pouco) tempo que vão demorar alterações à Lei Sindical...)

Podia dar outros exemplos mais elucidativos dessa percepção de compartimentação das preocupações de professores de graus diferentes de ensino, mas já teria que descrever conversas tidas - não que elas tenham algo que não se possa contar (apenas significam que cada um está envolvido no seu 'terreno', e isso até é natural, ainda que, a meu ver, não deva bastar).
Quis apenas deixar esta breve nota sobre compartimentos - estes e muitos outros compartimentos se verificam nas questões do ensino.
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P.S.:
Ao escrever as linhas acima, eu estava a pensar mais nas grandes questões do ensino em si e nas opções das políticas educativas que marcam o rumo da educação no nosso país. Por isso, estava também a pensar em alheamentos que se andam a verificar entre aqueles que nelas podem e devem intervir com independência face a interesses meramente políticos, necessitando, para isso, de se manterem atentos e detentores de uma visão global - globalidade em que as diversas medidas se vão encaixando e vão tendo consequências interferentes umas com as outras.
Mas, depois voltei aqui ao lembrar-me de que, não havendo nada que valha ao sistema educativo sem professores mobilizados e com estatuto de carreira que os motive e dignifique, também os ataques e as medidas prepotentes relativas às carreiras docentes (e que a mais não obedecem do que a prioridades economicistas) não deviam ser consideradas "questões deles" (dos que as sofrem) - não deviam ficar em compartimentos. Não deviam, porque vão ter reflexos no próprio ensino, e ensino em qualquer grau ou nível devia ser objecto da preocupação de todos. (Além de que não deviam ser deixados para compartimentos dos directamente interessados ou lesados também para que, quando chegar a vez a outros, não seja tarde - Brecht bem deixou o aviso)

1 comentário:

paulo g. disse...

Essa compartimentação é ral e triste, em especial quando existe quem se coloque num plano de superioridade intelectual.

Mas curiosa e lamentavelmente chega a acontecer nas próprias escolas entre colegas de diferentes ciclos de ensino, mesmo se partilham as habilitações académicas.