quinta-feira, janeiro 25, 2007

Pois... mais virada para leitura do que para escrita.

Fechei a última página de A Varanda do Frangipani, de Mia Couto, que li quase de uma assentada.

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"Foi então que uma explosão se tremendeou pelo forte, parecia o mundo se fogueirava. Nuvens espessas escureceram o céu. Aos poucos, os fumos se dispersaram. Quando já tudo clareava sucedeu que, daquele depósito sem fundo, se soltaram andorinhas, aos milhares, enchendo o firmamento de súbitas cintilações. As aves relampejavam sobre as nossas cabeças e se dispersaram, voando sobre as colinas azuis do mar. Num instante, o céu ganhava asas e escoava para longe do mundo."

"Era a árvore do frangipani. Dela restava um tosco esqueleto, dedos de carvão abraçando o nada. Tronco, folhas, flores: tudo se vertera em cinzas. (............)
Recordei ensinamentos do pangolim. A árvore era o lugar de milagre. Então, desci do meu corpo, toquei a cinza e ela se converteu em pétala. Remexi a réstia do tronco e a seiva refluiu, como sémen da terra. A cada gesto meu o frangipani renascia."

"_Espere, eu vou consigo, meu irmão.
Era Navaia Caetano, o velho-menino. (...)
Segurei a sua mão. Mas então reparei que ele trazia, a tiracostas, o arco de brincar. Lhe pedi para que deixasse fora o inutensílio. Lá os metais eram interditos. Mas a voz do pangolim me chegou, corrigente:
_Deixe o brinquedo entrar. Este não é um caso de última vez..."

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Me perdoe Mia Couto (que, na minha humilde opinião, é um grande, acho que me atrevo a dizer um enorme escritor) por usar excertos* retirados subjectivamente do contexto do último capítulo (e mais ainda do contexto de todo o livro), mas não os uso como marcas desta obra, retiro-os pelo último pensamento que ficou em mim, sempre tão pessoal da parte de cada leitor.
E antes de o pensamento regressar ao quotidiano, despeço-me da árvore perfumada que renasce de monte de cinzas e também das andorinhas que saiem voando de abismo que engoliu armas - quanto ao arco de brincar, há muitos sótãos que guardam brinquedos de infâncias longínquas...
(Mas não me despeço de A Varanda do Frangipani, esse fica comigo ao lado de outros, belos também)
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* Excertos: pp 149; 150, 151; 151, 152 (Ed. Caminho, 8ª edição)

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Outras leituras:
Porque nem se trata de obra literária, nem é temática dentro dos assuntos deste blogue, não deixo aqui o link para uma entrevista com Arno J. Mayer - é já de 2002, encontrei agora -, interessantíssima (a meu ver), que li de um fôlego. Mas deixei o link ali.

2 comentários:

Professorinha disse...

Anda tudo a ler Mia Couto menos eu... Agora ando numa de romances mais da zona da Irlanda... Mas adoro Mia Couto :)

Beijos

Marina disse...

Ola IC!
E eu que gosto muito do que ja li de Mia Couto!
Mas sera que posso perguntar (santa ignorância) o que é um Frangipani?
Toda a vida eu achei que era uma pessoa, mas neste post aparece sempre em minusculas...
Acho que fiquei confusa...
Acho que vou ja a procura para tentar saber!

Beijitos