quinta-feira, dezembro 01, 2005

Tempo de desencanto II

Sergei Samsonov
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Vivi o tempo em que acontecimentos e mudanças começaram a suceder-se muito depressa. Vivi num só tempo de vida várias grandes mudanças, inclusive pessoais - nos hábitos e ritmos, nos modos de convívio e comunicação, nos meus instrumentos de trabalho e em muito mais. Vivi, num só tempo de vida, vertiginosos avanços tecnológicos. Vivi, num só tempo de vida, diferentes Tempos. Vivi muito, pois nunca fiquei parada em nenhum desses tempos.

O terrível paradoxo é o de tudo ter mudado no mundo e o mundo nada ter mudado. Não é preciso mostrar estas estatísticas aqui, pois todos as conhecem.

Alguém que já viveu também tantos Tempos num só tempo de vida - Amélia Pais - deixou no meu post anterior um comentário lindo, como lindo igualmente o que escreveu no seu blog: "Volte sempre -por aqui navega-se entre flores." Refiro-o porque revela esse olhar positivo semelhante ao que sempre teimei, e teimei, e teimei manter. Mas a realidade no presente é mesmo essa que afirmei acima: o mundo nada mudou, as estatísticas nada mudaram - as estatísticas da pobreza e do sofrimento e também as da riqueza que violentamente afrontam tão enorme parte da humanidade. E há estatísticas por fazer, uma delas, a dos jovens delinquentes por raiva e desespero.
Eu sei que tanto tempo numa vida é um nada, eu sei que o progresso é processo historicamente lento, eu sei que a transformação pode requerer um caminho primeiro, até ao bater no fundo. Por isso, pude teimar e teimar num pensamento positivo, por isso o manterei sempre ao pensar o mundo humano. Mas, porque é um pensamento para além do meu tempo, e eu vivo o dia a dia do meu tempo, nem sempre o dia a dia consegue fugir ao desencanto.

Também porque é um pensamento sobre o mundo, e eu vivo num pequeno país em que não deixam de ser pequenas aquelas diferenças estatísticas, face à enormidade das mundiais.
Eu vivo num pequeno país em que um dia agarrei a mãozinha de cada uma das minhas filhas com a indizível emoção que gritava dentro de mim: elas vão crescer num país livre! Mas o país não se manteve à altura dos homens e mulheres de então - dos que saíram das prisões, dos que já nelas tinham morrido, dos que puderam regressar para fazer um país novo. E, ainda que alguns dos que tinham lutado contra um poder tenham depois afrouxado perante poderes exteriores, ainda que o pequeno país não tivesse condições para não estar hoje na cauda da Europa em desenvolvimento económico, teve as condições para não ser um medíocre país no desenvolvimento cultural. Cultura que significa consciência, inclusive política, cultura que significa visão e humanismo, cultura que significa lucidez e capacidade de dizer não, cultura que significa também património dos valores daqueles homens e mulheres - patrinómio que os filhos não parecem ter tomado dos pais.
Eu vivo num país em que não são diferentes cores partidárias que o tornam medíocre, são sim algumas escolhas individuais medíocres que se propõem para mexerem os cordéis do poder político, escolhas que por sua vez vão fazendo algumas outras escolhas mais medíocres ainda para completar as governações. País em que igualmente escolhas dos que mexem os cordéis do portentoso poder da comunicação social são medíocres ou subjugadas, ou simplesmente demissionárias do papel que poderiam ter na consciência e na cultura de um povo, do papel que poderiam ter também na educação, ao invés de alienação dos nossos jovens. Eu vivo hoje num país que se deixou tornar medíocre, apesar de possuir muitos homens e mulheres lúcidos e sabedores, mas deixados na prateleira ou sem voz pública.

É também tempo de Natal. E, se na intimidade da família e na alegria das minhas crianças ele é bom, não deixa de ser o momento do ano em que o exterior me parece mais alienado, o que deve estar a concorrer um pouquito para esta minha "crise" de desencanto.

3 comentários:

Miguel Pinto disse...

É uma reflexão bonita… :)

Amélia disse...
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Amélia disse...

Sim...a da «austera, apagada e vil tristeza» de que já falava Camões...mas temos de acreditar -ou fingir que acreditamos - que virão dias em que os portugueses se mereçam, percam o MEDO, e cumpram o sonho.Porque, costumo eu dizer, para me confortar e aos outros, as estrelas estão lá...mesmo que não as vejamos...Obrigada pelas palavras amigas.E um abraço e desejo, como se diz, de «alma até Almeida» -sob pena de nos irmos todos deitar ao mar...è essa capacidade de sonhar,sem perda de lucidez que nos faz dizer é bom ser professor...