terça-feira, janeiro 29, 2008

Mais uma perda

O Correio da Educação cessa.
Ando demasiado triste (e atónita) com o que anda a acontecer à Educação e, por isso - talvez também por estar já fora da escola e, ao olhar para os anos todos em que a minha vida profissional decorreu, me perguntar como foi possível chegar-se ao que anda a acontecer - acabei por ficar sem vontade de escrever, as palavras faltam-me. Assim, digo apenas que andamos a ter muitas perdas, que nos deixam mais pobres. Agora, o fim do Correio da Educação é mais uma. :(
Bem-haja,
José Matias Alves, por tudo o que deu nele.
Sei que vai continuar a dar, e bem-haja também por isso.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Só o tempo dirá...

O ar que se respira no interior das escolas públicas já não é o que respiro no meu quotidiano, mas parece que ele me entra pela casa dentro quando leio mais e mais legislação que vai surgindo, projectos desta e regulamentações. E o que pressinto é uma atmosfera que gera desgastes, que empurra para inversões das prioridades que seriam desejáveis, que sufoca o gosto por educar e ensinar e que até torna impossíveis objectivos necessários (basta pensar no decreto da avaliação do desempenho dos professores e nos prazos absurdos determinados no respectivo decreto regulamentar).

Se outros vêem no que está a acontecer uma "reforma", eu talvez esteja com perda de visão, pois só consigo ver uma correria de decretos, lançados com a precipitação que decorre sempre das pressas, alguns cerceando objectivos expressos noutros (veja-se a questão da autonomia), mais uns tornando a sua operacionalização e a sua prática séria num quebra-cabeças (veja-se a já referida avaliação de desempenho), e mais uns ainda requerendo debate para que não há tempo (veja-se a mudança de modelo de gestão, e até o novo programa de Matemática do Ensino Básico homologado sem que quase ninguém se tenha dado conta). E uma imensa papelada a ter que se elaborar para que a inspecção veja, mesmo que só dê para ler e arquivar.

Porque tempo é preciso, e tempo é o que cada vez menos anda a restar nas escolas para ponderar, discutir, pensar nos que deveriam ser os destinatários de tantas medidas cujas justificações nem sequer começam por ser claras - não é preciso dizer que nada fará sentido se os destinatários não forem os alunos, a bem de um sistema de educação-ensino de efectiva qualidade para todas as crianças e todos os adolescentes do nosso país.

E só o tempo dirá qual o saldo de tudo isto que está a acontecer em nome da, e na, nossa escola pública.


Entretanto, qualquer gosto meu por este cantinho tem vindo a eclipsar-se. Porque o que eu gostaria de falar (ou recordar) nele seria principalmente e directamente sobre ensinar, educar, formar crianças e adolescentes, discutir sobre como encorajar, motivar, envolver, disciplinar e incutir hábitos de trabalho e esforço, enfim, sobre coisas destas que a sociedade tem parecido andar a assumir tão pouco. Mas agora instila-se nessa mesma sociedade pouco respeito pelos professores ao mesmo tempo que se desmoralizam os melhores deles e se tomam medidas que, ao invés de estimularem o trabalho colaborativo e formativo, ameaçam punições esvaziadas de conteúdo formativo ou de condições para a vertente formativa sem a qual nenhuma avaliação de professores, por si, melhorará o trabalho de ninguém.


Termino repetindo o que já disse acima: Só o tempo dirá qual o saldo de tudo isto que está a acontecer em nome da, e na, nossa escola pública.


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W.G.Barry (1864-1941). Time Flies


sábado, janeiro 05, 2008

Novo Modelo de Gestão das Escolas - Debate

Copio para "primeiro plano" as minhas adendas ao post anterior:

(1)
E, para (mau) começo do Novo Ano, temos o projecto de Novo Modelo de Gestão das Escolas. Por agora, remeto os meus eventuais leitores para aqui e para aqui, sugerindo veementemente que acompanhem os posts do Paulo Guinote que se seguirão a esses.

(2)
Ainda sobre a Gestão das Escolas, destaco também os posts de JMA - aqui - e o debate no Aragem.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Em jeito de balanço

No início de novo ano é costume fazerem-se balanços sobre o ano findo. Não me meto a tentar fazer um sobre a política educativa, pois seria exaustivo e repetitivo do muito que foi escrito na blogosfera "docente". Limito-me a umas considerações simples e somente sobre alguns dos aspectos dessa política.

Todos sabemos que a prioridade de Maria de Lurdes Rodrigues como ministra da Educação foi de natureza economicista, o que, por muito que se compreenda o problema do deficit, se afigurou desde logo muito pouco conciliável com uma verdadeira prioridade à Educação no sentido de uma efectiva melhoria do nosso sistema de ensino público, tão necessária ao progresso do país. Mas, até é possível que Maria de Lurdes Rodrigues também tenha tido algumas boas intenções com vista a essa melhoria. De qualquer modo, boas intenções não bastam, elas precisariam de ser baseadas quer num profundo conhecimento das questões em causa - o que não consigo vislumbrar que esta ministra tenha - e das realidades das escolas, quer numa visão de futuro a médio prazo e respectivo planeamento, em vez de uma precipitação em medidas avulsas, numa pressa de mostrar trabalho e de propagandear resultados mediante números obtidos a quase qualquer preço e de significados pouco claros.
Como diz Reijo Laukkannen (perito e conselheiro do Ministério da Educação da Finlândia, citado no artigo que podem ler aqui): "É crucial compreender que em educação não é possível reformar de um momento para o outro. Leva tempo, muita paciência e coerência. Primeiro que nada é preciso decidir aonde se quer ir". E diz também: "Temos vindo a trabalhar nisto desde finais dos anos 60 e desde o início tomamos a direcção que hoje seguimos. Um rumo que mantivemos apesar da mudança de sucessivos governos". (Destaques meus)

Do montão de decretos, despachos e ofícios emanados do nosso actual Ministério da Educação, vou referir-me apenas a duas medidas tomadas. Escolho-as porque, para elas, os professores estariam totalmente disponíveis e receptivos em princípio, não tivesse Maria de Lurdes Rodrigues uma enorme falta de noção de quanto é incompatível com um trabalho docente preparado e exercido com a competência, a iniciativa, a criatividade e a dedicação que a profissão requer para ser bem sucedida, de quanto isso é incompatível, dizia, com, por um lado, a burocracia, a papelada em resmas, por outro lado, com a falta de convicção dos professores em medidas tomadas arrogantemente no desprezo pela sua opinião fundada no conhecimento das realidades das escolas e na experiência, e, por outro lado ainda, com pressões ameaçadoras como se a baixa do insucesso e do abandono escolar apenas dependesse dos docentes e devessem estes (e só estes) ser punidos pelo não alcance dos objectivos desejados.

A primeira medida que quero referir é a da avaliação de desempenho. A generalidade dos professores já reconhecia a necessidade de implementação de uma avaliação de verdade; mas também sabia que não é fácil instituir um sistema de avaliação sério e justo, garantindo a isenção e sendo exequível nas condições de trabalho das escolas. Além de que uma avaliação que não tenha condições para ser essencialmente formativa não será, decerteza, uma avaliação útil ao próprio sistema de ensino.
Mas, Maria de Lurdes Rodrigues achou que tinha a chave na mão. E não parece ter qualquer noção lúcida do que contribui para um factor muito importante, que é o de um bom "clima" de escola, e do que, ao contrário, pode gerar "climas" insuportáveis e perniciosos.
E não vale a pena dizer mais sobre o decreto da avaliação de desempenho, pois todos conhecem e têm já descrito os erros e as dificuldades de cumprimento sério desse decreto.

A outra medida que refiro é a do plano de acção para a Matemática. Ela abrange directamente apenas os professores dessa disciplina, mas todos os outros reconhecem quer a necessidade de um reforço de investimento nela, quer o facto de o insucesso em Matemática não ter a ver apenas com essa disciplina nem ter só consequências no âmbito dos respectivos conhecimentos propriamente ditos.
Também aqui não vale a pena lembrar a questão da formação de professores - todos se recordam decerto do novo regime de formação para a docência. (Mas voltarei ao assunto noutro post). Detenho-me agora apenas no plano de cada escola para a Matemática.
Um aspecto, embora talvez menos relevante, foi o das minúcias tão ao gosto deste ME - que muito passou a falar de autonomia das escolas depois de as ter enchido de imposições e sugestões pormenorizadas. Estou a lembrar-me de um pequeno exemplo, uma sugestão que pressionou muitos professores e escolas a encherem os alunos, até à saturação, de matemática e mais matemática nas horas destinadas ao Estudo Acompanhado e à Área de Projecto, mais aulas de apoio mesmo que os alunos só precisem de se esforçar um bocadinho, mais salas de estudo de frequência obrigatória, enfim, um contributozito para aumentar a já alargada aversão àquela disciplina em vez de serem os professores estimulados a, com autonomia e condições de trabalho colaborativo, investirem em métodos e estratégias que criem nos alunos gosto pela mesma e gosto pelo 'pensar'.
Outro aspecto, que considero de efeitos muito perniciosos, foi o da pressão sempre ameaçadora àcerca dos resultados de exames e provas de aferição, como se a aquisição de competências pelos alunos fosse uma questão de treino para exames. Pressionados e muitos não conseguindo escapar ao medo dos efeitos desses resultados na sua própria avaliação e na opinião pública, dificilmente os (bons) professores mantêm com segurança e firmeza os objectivos que sabem serem primordiais no processo de ensino-aprendizagem daquela disciplina, a importância que atribuem à avaliação formativa e até os critérios de avaliação que consideram correctos. Acresce que não vi preocupação do ME ou dos seus colaboradores em que sejam estudados (porque não junto dos alunos?) o comportamento dos nossos estudantes em situação de exame, nas idades do Ensino Básico, e os múltiplos factores que possivelmente contribuem para desempenhos nessa situação inferiores aos habituais, já que tantos obtêm nas provas de exame classificações inferiores às que habitualmente obtêm na avaliação interna.

Quanto a tudo o mais nas medidas de Maria de Lurdes Rodrigues, limito-me a repetir que (na minha opinião) o mais crasso e profundo erro desta ministra foi o de ignorar arrogantemente que nenhuma reforma pode ser bem sucedida sem se ganhar uma convicção mínima nessa reforma por parte dos professores, e muito menos impondo-a contra eles. E, se é verdade que não há só professores muito bons ou bons, se é verdade que também há os assim assim e até maus mesmo, se é ainda verdade que não sabemos contabilizar isso, outra verdade se constatou já - a maioria dos melhores professores foram desmoralizados, assoberbados de acréscimos de trabalho de utilidade duvidosa, e bastantes foram injustiçados na sua carreira. O sistema educativo não se podia dar ao luxo de perder o entusiasmo e empenho de muitos dos seus melhores docentes, mas nem cuidado houve para que tal não acontecesse ou não aconteça a curto prazo.

Termino voltando ao artigo sobre a Finlândia acima indicado, não porque não saiba que a diferença abissal entre as condições desse país e as do nosso não se ultrapassam do pé para a mão nem pouco mais ou menos, mas porque as medidas viáveis a curto prazo não deveriam deixar de se inserir numa visão de futuro para a qual se procure caminhar a passo e passo (mas essa visão é ideologicamente variável, claro... - infelizmente para os que nascem em condições desfavorecidas):
"O ano de 1985 regista um importante marco na reforma da educação finlandesa. Naquele ano o Governo decidiu eliminar o sistema conhecido como 'streaming', muito expandido na Europa, segundo o qual as crianças de idade mais avançada são classificadas em diferentes níveis e tipos de educação de acordo com o seu rendimento. (...) Mas simultaneamente decidimos concentrar o grosso do nosso orçamento da educação nos primeiros anos da secundária (nos estudantes de 12 a 15 anos). Cancelar o 'streaming' sem aumentar os recursos para contar com mais professores e organizar turmas com menos alunos (...). Teríamos obtido um sistema de oportunidades iguais, mas de duvidosa qualidade." (destaque meu)
Dispenso-me de comentar - acho que não é preciso...
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Adenda
E, para (mau) começo do Novo Ano, temos o projecto de Novo Modelo de Gestão das Escolas. Por agora, remeto os meus eventuais leitores para aqui e para aqui, sugerindo veementemente que acompanhem os posts do Paulo Guinote que se seguirão a esses.

Adenda 2
Ainda sobre a Gestão das Escolas, destaco também os posts de JMA - aqui - e o debate no Aragem.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

... E não desistam de sonhos!

No início de um novo ano, imaginemos... sonhemos...

Deixo só a canção...






Ah... pensando melhor, tem que ser também na voz de John Lennon, e aproveito para um vídeo de recordações...



quarta-feira, dezembro 19, 2007

BOAS FESTAS!

Um Natal com alegria e um 2008 feliz

para todos os amigos e colegas



E como eu festejo o Natal por causa dos sonhos das crianças...


Inté... Volto no próximo ano... ;)

domingo, dezembro 09, 2007

Sugestão de leitura

(Fonte: The Economist. Tradução e adaptação de Maria Helena Henriques Marques).

O meu destaque vai para a formação de professores nos países que o PISA indicia terem melhor qualidade de ensino, particularmente o que o artigo revela sob o subtítulo Formação prática, e para o apoio extra dado por esses países aos alunos que se encontram mais atrasados.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Educação para a sustentabilidade

Estava hoje vagueando pelo portal da UNESCO (opção em espanhol) - por acaso hoje, dia em que parece que houve interpelação ao governo sobre Educação. (Digo "parece que houve" porque, numa vista de olhos ao jornal Público, o que encontrei sobre o assunto foi um destaque para Paulo Portas como se este fosse a grande e única figura do dia no que respeita à dita interpelação, e, assim, não me dei ao trabalho de procurar noutros jornais).
Lembrei-me então de fazer uma pergunta, ao ler esta breve declaração:
"El objetivo del Decenio de las Naciones Unidas de la Educación con miras al Desarrollo Sostenible (2005-2014) consiste en integrar los principios, valores y prácticas del desarrollo sostenible en todas las facetas de la educación y el aprendizaje. Esta iniciativa educativa fomentará los cambios de comportamiento necesarios para preservar en el futuro la integridad del medio ambiente y la viabilidad de la economía, y para que las generaciones actuales y venideras gocen de justicia social." (Aqui)

A minha pergunta (porque eu sou muito distraída, às vezes não me dou conta de importantes iniciativas governamentais aqui pelo nosso país), é esta: Que medidas tomou Maria de Lurdes Rodrigues com vista ao objectivo acima referido, definido pelas Nações Unidas para o decénio de 2005 a 2014?

Hum... já estou a achar que é uma pergunta ingénua e também pouco importante já que os nossos políticos não a têm feito... Nem sei o que me deu para voltar a este meu cantinho, mas, pronto... já estou em retirada!

sábado, novembro 03, 2007

... (Poema *)

A hora do cansaço

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade


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* Foi-me facultado pela Amélia Pais

quinta-feira, novembro 01, 2007

Do Inimaginável... Um conselho de turma disciplinar

É o título de um post do JMA, ao qual acrescentou um comentário testemunho que lhe deixei. Como a esse post já se seguiram outros, destaco-o (ler aqui) porque a situação descrita pelo JMA não é tão pouco frequente como se possa pensar, e talvez o testemunho que dei possa ser sugestivo de actuações firmes e eficazes sobre comportamentos inadmissíveis de alguns alunos, embora saiba que ficam outros casos por resolver - casos que a escola nunca poderá resolver sozinha, nunca poderá resolver ou atenuar sem apoios especializados e vontade política dos governos de implementar medidas que conduzam de facto à integração social.

sexta-feira, outubro 26, 2007

A escola básica com os piores resultados nacionais em Português

ou

De acordo com a notícia, terá sido a escola básica com piores resultados na disciplina de Português. Mas, como também nos revela a mesma notícia (ler aqui), o trabalho por ela realizado é frutífero e exemplar.
Este é um pequeno exemplo do que as estatísticas não mostram. Mas o que interessa mostrar ao público, neste momento da febre de números que ameaça contagiar também professores, não parece ser a realidade que está por detrás das estatísticas, menos ainda o trabalho abnegado e persistente de muitos dos docentes que trabalham em contextos sociais altamente desfavorecidos. O que se impinge, em primeiras páginas, são os rankings a enaltecerem escolas para elites abastadas e seleccionadas - escolas privadas, claro.

terça-feira, outubro 23, 2007

Flores

Quando ando arredia da escrita, gosto de deixar o meu cantinho bonito.
Podem levar uma rosa ou uma anémona, elas não se gastam - estas são imortais ;)

Van Gogh (1890). Roses et Anémones

domingo, outubro 21, 2007

O Poder dos Professores

Esse é o título do Círculo Aberto, do JMA, no último número do Correio da Educação. Sugiro vivamente a leitura - pode ser lido aqui. (Sugiro não só a leitura, como também a participação na procura de caminhos face às questões colocadas)

terça-feira, outubro 16, 2007

Intervalando...


Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!


Alberto Caeiro

segunda-feira, outubro 15, 2007

Para lá do sistema educativo

O sistema educativo é o tema central para nós, professores. Mas há que estender para além dele uma consciência atenta e lúcida.

Sabemos que a política educativa entre nós não é mais do que a cópia subserviente dos ditames da globalização e, muito em particular, da União Europeia. Entretanto, as interrogações sobre o estado de saúde (ou de falta de saúde) da democracia são bem mais latas do que as questões específicas da Educação.

Eu até nem gostava muito dos artigos de António Barreto, mas ultimamente tenho gostado.
Deixo excertos do seu artigo de ontem, no Público, (destaques meus) podendo ser lido na íntegra aqui.

"(...) os governos da União preparam-se para aprovar, esta semana, em Lisboa, ou mais tarde em qualquer outra capital, a absurda Constituição, ora rebaptizada de Tratado. (...) O Tratado é tão diferente da Constituição derrotada como um ovo branco é diferente de um branco ovo. (...) A elaboração deste Tratado foi feita em circuito fechado. A discussão em segredo. A aprovação será furtiva. Para os dirigentes europeus, a União é mais importante do que a democracia. E a Europa mais importante do que os povos europeus.
Evitar os referendos, despachar a aprovação do Tratado e contornar o debate público são as prioridades de quase todos os dirigentes europeus. Que não se esquecerão, depois, de carpir sobre o "défice democrático europeu" e a "distância crescente entre dirigentes e cidadãos". (...)
Tarde ou cedo, haverá acordo e Tratado. E quase todos estão disponíveis para evitar os referendos e proceder, assim, sem a voz dos povos, à liquidação dos parlamentos nacionais. Estes serão, de futuro, tão importantes como uma Associação de Antigos Estudantes ou como a Confraria do Besugo. Os dias que aí vêm são o princípio da morte da democracia nacional. Sem que haja uma democracia europeia que a substitua e a melhore. É pena que a presidência portuguesa seja a agência funerária. Que o primeiro-ministro português seja o mestre-de-cerimónias. E que o cangalheiro, presidente da Comissão, seja também português. Triste vocação! "

quarta-feira, outubro 10, 2007

escola e cultura...

"Num tempo e num lugar de descasos sucessivos e clamorosos em relação à cultura (...)" - assim começa o artigo de Vasco Graça Moura no DN de hoje (foi-me enviado pela Amélia Pais, mas pode ler-se aqui , embora eu pretenda destacar as suas frases iniciais e finais). E, a propósito do Panteão Nacional e da recente trasladação de Aquilino Ribeiro, Graça Moura refere o "panteão da memória" como requerendo "menos pompas oficiais do que bons programas escolares", e termina: "O panteão da memória é uma pedra angular desse sistema em que todos somos responsáveis. A escola não pode ser transformada em panteão da... desmemória!".

Vem isto a propósito do rumo que cada vez mais os seguidismos político-ideológicos de governos, em particular do actual e da sua equipa do ME, vêm impondo à nossa escola pública. Que fazer (?) para contrariar esse rumo fazendo prevalecer a importante e decisiva prioridade da escola, prioridade que o Miguel Pinto tão bem define nesta sua crónica
aqui - "realizar a inserção dos sujeitos na cultura" .
Que fazer? Como fazer para contrariar o rumo para que estão empurrando a escola - o de uma escola essencialmente utilitária na perspectiva dos interesses do mercado (e, mesmo assim, de forma duvidosa)?

Mantendo-me hoje em citações, lembro-me do título
Pedagogia: o dever de resistir , de um post do JMA, que tem insistido em que os professores têm mais poder do que pensam ter, e deixo no ar também a pergunta: Como organizarem esse poder?

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Adenda
(13-10.2007)

Bom fim de semana!
Estou com pouca inspiração e, como ainda não tive resposta à pergunta acima, vou deixar o post uns dias a marinar ;)

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terça-feira, outubro 09, 2007

Breve aparte - Destaque de imprensa

Analfabetos... mas diplomados - de Santana Castilho, no Público de hoje.
Como só está acessível online para assinantes, copiei para aqui para quem não tenha lido.