sábado, novembro 03, 2007

... (Poema *)

A hora do cansaço

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade


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* Foi-me facultado pela Amélia Pais

6 comentários:

Madalena disse...

Dói, Isabel! Um beijinho

Marina disse...

O cansaço...um inimigo terrivel...
Este poema deixa me quase sem palavras. Dói mesmo pensar na efemeridade das coisas... e de nós.

Beijitos IC e ate breve

3za disse...

POis...
Beijinhos

TsiWari disse...

a imagem da moldura de granito é fortíssima.

o rebaixar do amor ao seu estado utilitário é tristíssimo...


***

arte por um canudo 2 disse...

Lindo..Bom fim de semana.Bjs

Matilde disse...

Será mesmo assim?... Sempre assim?
Há pessoas que amamos que são eternas. Há outras que não. Mas há umas que sim... não tenho dúvidas disso. E talvez nunca venha a ter. Talvez não seja apenas alguma inocência a falar por mim.
Talvez não...

Um beijinho grande IC. Fica bem. ;)