terça-feira, julho 04, 2006

Sortes e azares no acaso - I

Neste caso de memória tão antiga, foi, foi mesmo um acaso que mudou uma menina triste para uma menina feliz, com consequências decisivas da sua vida pelo menos a curto e médio prazo.

Iam começar as aulas, soubemos uns dois dias antes que havia naquela nova turma de 5º ano uma aluna com uma deficiência, mas ninguém sabia dizer qual a aluna e de que deficiência se tratava. A professora do apoio comunicara apenas essa informação e ainda não pudera comparecer na escola.
Calhou ser a minha aula a primeira da turma, pelo que me coube fazer a identificação do caso. Mas, recebendo os alunos e conversando, nada notei - nos anos anteriores tinha tido um aluno com deficiência visual acentuada e duas alunas com paralisia cerebral, pelo que esperava uma deficiência facilmente detectável. Recorri então a um expediente: Ao distribuir umas fichas habituais para preenchimento de alguns dados, disse aos alunos que mas viessem entregar ao terminarem, um de cada vez, e que se alguém tivesse algum problema (dei o exemplo de não ver ou não ouvir bem) mo dissesse então (o que era fácil de suceder privadamente, pois a sala era grande, havia suficiente distância entre a minha mesa e as primeiras dos alunos).
Quando a Helena me veio entregar a sua ficha, disse _Eu tenho um problema. E, quase de imediato, declarou, exactamente assim: _Sou atrasada mental.

Salto, neste relato, o choque que procurei não evidenciar perante afirmação tão crua e o diálogo com ela, também a confirmação do atraso pelo relatório médico que a professora de apoio finalmente trouxe, e ainda o período que decorreu até ao acaso que veio a suceder.

A Helena era tímida, tinha um ar triste, e inibia-se de intervir se não fosse solicitada, sendo também nítida a inibição para responder, mesmo sabendo. No entanto, trabalhando em Matemática no grupo em que estava a melhor aluna (simpática, dinâmica e com grande espírito de ajuda), foi perdendo a inibição com os colegas de grupo e, curiosamente, em particular com essa colega - ou não tão curiosamente assim, pois tive muitos alunos a quem cheguei a dizer, brincando, que tinha que partilhar o meu salário com eles ;)
Um dia - o dia do referido acaso -, aproximava-me eu do grupo da Helena quando, com espanto, a ouvi discutindo com a colega, que lhe explicava a resolução de um exercício sem que a nossa Helena estivesse de acordo. E logo se tratava de um dos assuntos de iniciação mais difícil para 5º ano - a propriedade distributiva da multiplicação e sua aplicação inversa -, e o exercício tinha, pela primeira vez, um pormenor em que habitualmente todos começavam por "escorregar", era o que estava a acontecer à melhor aluna da turma enquanto fui ouvindo, discretamente, a Helena discorrer e tentar explicar à colega o erro desta. O acaso foi o de eu estar a aproximar-me sem repararem, pois a Helena tinha-se desinibido com os pares do grupo, no entanto mantinha grande inibição com qualquer professor (apesar de ser encorajada e do cuidado em não fazer perguntas que a inferiorizassem mas aproveitando-se para as fazer quando se verificara ou percebera que saberia a resposta, a inibição não era ultrapassada), o que condicionava a oportunidade de a ouvir raciocinar e explicar.
Depois de intervir, não deixando de dar os parabéns bem sinceros à Helena pelo seu bom raciocínio no exercício, só desejava que a aula acabasse para correr à procura da Luisa - a directora de turma - e, mal a vi, disse-lhe que tinha acontecido uma coisa extraordinária, uma prova de que a Helena conseguia raciocinar normalmente. Contei-lhe o caso, com a descrição do exercício em pormenor, e a Luisa ficou tão excitada quanto eu. Ela também já andava a reparar que, fora do contexto da sua disciplina, em debates 'não curriculares' que se proporcionam mais a um director de turma, a Helena começava a desinibir-se e a manifestar as suas opiniões e argumentos com uma inteligência normal, isto é, não revelando aí atrasos em relação aos colegas.

Entretanto, ambas já tínhamos começado a ter uma suspeita, embora nos parecesse ilógica. A suspeita era de que a Helena ouvia mal, mas parecia-nos ilógica porque, apesar de família pobre, tivera diagnóstico médico e acompanhamento, viera para o 2º Ciclo por se considerar que não adiantava continuar retida, mas estava a ser apoiada escolarmente num centro especializado onde ia umas duas vezes por semana, pelo que nos parecia impossível que, a haver uma deficiência auditiva, não tivesse sido detectada - a nossa suspeita era ainda incipiente pois, embora a Helena, quando interpelada, pedisse com frequência para repetirmos, tal podia dever-se a estar distraída ou a dificuldade de compreender a pergunta.
Face ao caso sucedido na minha aula, lembrámo-nos logo daquela suspeita e a Luisa pediu de imediato a comparência da mãe para lhe perguntar se não tinha nenhuma indicação de que a menina pudesse ouvir mal. À mãe nunca tal tinha ocorrido, mas disse que, de facto, a filha muitas vezes começava por dizer 'anh?' quando lhe falava um pouco de longe, o que atribuía a ela estar frequentemente distraída, pensando até que o 'anh?' se tornara uma espécie de hábito. Claro que a Helena foi logo a uma consulta e... foi mesmo detectada uma deficiência auditiva!!!!!!

Salto de novo este relato já tão longo. O Conselho de Turma decidiu que a Helena transitasse para o 6º ano com alguns níveis "esticados", e ela, informada de que as suas dificuldades de aprendizagem logo no 1º Ciclo podiam ter sido devidas a não ouvir bem e não o dizer (ou não se aperceber), perdeu o seu ar triste, foi ultrapassando a grande inibição e veio a fazer o percurso do 6º ano com um desempenho progressivamente mais satisfatório, sendo aprovada com níveis positivos que já não precisavam de ser "esticados".

Aprovada, mas não só. A Helena viu realizado o seu sonho de conseguir obter o 6º ano e começar a preparar-se para ser costureira, para o que tinha muito jeito e era a sua ambição, pois não a deixámos ir embora sem obtermos a colaboração da Junta de Freguesia para que lhe fosse oferecida a máquina de costura que as posses da família não permitiam adquirir - máquina de costurar e bordar, pois claro, não íamos deixar que a Junta diligenciasse menos! :)

Assim, um acaso numa aula foi um acaso de sorte, a transformar uns olhos tristes em olhos sorridentes. Sem esse acaso, será que teria avançado a incipiente e ilógica suspeita de que um problema de audição podia ser a causa de dificuldades logo no início da escolaridade e de posteriores inibições, bem como de bloqueios de raciocínio resultantes de um rótulo cruamente colado e assumido??? Não sei responder, mas inclino-me para que não, todas as características que aquela menina parecia revelar remavam contra ela - iríamos pensar que um médico se ficara pelo seu diagnóstico e que um centro de apoio especial deixava por descobrir um problema que, embora não sendo perfeitamente evidente, não deixava de tornar incompreensível não ser detectado até aos 14-15 anos???

Para a Helena, onde esteja

(Brian Cody)

6 comentários:

Tit disse...

Obrigada Isabel por esta memória.
São bons estes episódios para nos fazer pensar, para não nos deixarmos adormecer em discursos muitas vezes fatalistas de professores e alunos acerca dos seus desempenhos/capacidades.
Os alunos são muitas vezes o que esperamos deles - todos já ouvimos isto, mas este episódio serve como mais uma prova de que isso acontece.
E acontece todos os dias, em todas as idades, e em todas as disciplinas - sendo a Matemática talvez um dos exemplos onde mais acontece, uma vez que tantas vezes as baixas expectativas dos alunos, que acabam por contagiar as dos professores, que por sua vez arrasam as poucas que os alunos ainda têm, se traduzem numa catadupa de insucessos.
Quantas vezes vemos um aluno "supostamente" muito fraco a mostrar bons raciocínios matemáticos quando lhes damos espaço para ser ele próprio?

TsiWari disse...

que sorte teve a Helena.


foste(s) um(ns) daqueles anjos para ela.

beijo

IC disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
IC disse...

Peço desculpa por ter apagado um comentário meu, agora já só deixo beijinhos para ambos, Tit e Tsiwari, e para quem mais aqui tenha passado :)

AnaCristina disse...

E se o problema da Helena não tivesse sido percebido?
Juntar-se-ia às montanhas de casos similares e rótulos de deficientes...

Anónimo disse...

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