sexta-feira, outubro 14, 2011

O DIA EM QUE VERDI DERROTOU BERLUSCONI

(Não me lembro se não será a segunda vez que trago aqui este episódio, mas hoje um email recordou-mo)

A Itália festejava o 150º aniversário da sua unificação e uma das muitas comemorações da importante data decorreu na Ópera de Roma, com a apresentação da obra Nabucco, dirigida por Ricardo Muti. Antes da apresentação, Gi anni Alemanno, prefeito de Roma, subiu ao palco para pronunciar um discurso denunciando os cortes no orçamento dirigido à cultura que haviam sido feitos pelo governo (apesar de Alemanno ser membro do governo e amigo de Berlusconi). Esta intervenção política num momento cultural dos mais simbólicos para a Itália produziria um efeito inesperado, ao qual Berlusconi, em pessoa, foi obrigado a assistir.
Quando o coro chegou ao fim do famoso canto Va Pensiero, ouviram-se vários pedidos de bis, começaram os gritos de Viva  Italia e Viva Verdi e as pessoas nas galerias atiraram pequenos papéis escritos com mensagens patrióticas. Então,
 Muti voltou-se para o público - e para Berlusconi - e disse:
 "Logo que  cessaram os gritos de bis, vocês começaram a gritar Longa Vida à  Itália. Sim, estou de acordo com isto: Larga vida à Itália. Mas... Já   não tenho trinta anos e vivi minha vida.  Percorri o mundo e, hoje, tenho vergonha do que acontece no meu país. Por isso, vou aceitar os vossos  pedidos para apresentar Va Pensiero novamente. Não só pela alegria patriótica que sinto neste momento mas, sim, porque enquanto dirigia o  coro que cantou Ai meu país belo e perdido pensei que, se continuarmos assim, vamos matar a cultura sobre a qual erguemos a história da  Itália. E, nesse caso, nossa pátria também estaria bela e perdida. (...)


quarta-feira, outubro 12, 2011

Obrigada, Mia Couto!

(Deram-lhe só sete minutos... teve que ler. Na TV, não sei se lhe dedicaram alguns... não me espanta se dedicaram zero... as verdades e a lucidez não são nada "convenientes"!)

segunda-feira, outubro 10, 2011

Uma mensagem de referência para os jovens

Em intervalo devido a várias  tarefas, aproveito para deixar aqui esse discurso, especialmente para o meu neto que agora inicia a vida universitária.

sábado, outubro 08, 2011

Mia Couto recebe prémio Eduardo Lourenço


Embora Mia Couto já tenha sido galardoado com vários prémios literários, li a notícia e vim direita aqui ao meu cantinho. Porque Mia Couto e a sua obra literária fascinam-me.
E, enquanto o novo acordo ortográfico me exaspera, sabe-me bem recordar como Mia Couto, ao contrário de desvirtuar a Língua Portuguesa, mas usando tanto o léxico de regiões moçambicanas, a enriquece, como que a recria de uma forma  extasiante.




Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato
morro
no mundo por que
nasço

Setembro de 1977. In Raiz de Orvalho e Outros Poemas, Ed. Caminho, 1999

Um regresso à blogosfera

O Henrique Santos regressou com novos blogues dedicados ao basquetebol. Mas, a seguir, regressou também ao seu blogue Educrítica, com o que fiquei muito contente.
Claro, o basquetebol é importante, o meu neto pratica-o e ainda bem, significa que pratica desporto, tão importante na sua idade (e não só), mas destaco o regresso do Henrique ao seu antigo blogue porque a Educação no sentido mais global até faz bastante ruído na blogosfera, mas não é desse ruído que precisam a nossa Escola Pública e a Cultura que desejamos ver transmitida aos nossos jovens.

quinta-feira, outubro 06, 2011

"Mudaste a minha vida"

Há poucas semanas encontrei-me com duas amigas, mãe e filha, encontro onde conheci o recente marido da última. Nessas coisas que se dizem em apresentações, a mãe mencionou-me como tendo sido "professora" de Matemática da I.
Entre aspas, pois não fui professora da I. Apenas a acompanhei quando, com 11 anitos, começou a vir a minha casa porque a mãe estava preocupada não só com o muito pouco gosto da I. pela Matemática, como também com a professora, com formação para a lecionação de Ciências e pouco dada ao ensino da referida disciplina.
E a I. (agora já na casa dos 30) aqui continuou a vir até meados do seu 10º ano, em que já ia longe o tempo da nota positiva "pequenina". E ainda bem que esse tempo ia longe, pois precisou de alta média em Matemática para o curso que seguiu.

Até aqui, nada de especial nesta estória. Mas, o que foi especial, o que foi não digo revelação, mas alguma surpresa, foi a I. ter-me dito: "Sem dúvida que mudaste a minha vida, e sei isso bem; eu detestava a Matemática e hoje é com ela que lido todos os dias".

Não, não fui eu, foi ela, pois o mérito do trabalho e da responsabilidade foi dela desde pequenita. Contudo, ainda agora estou a vê-la ali na mesa comigo, e a ouvi-la logo num dos primeiros dias em que cá veio, 11-12 anitos: "Ah! Que engraçado! Nunca me tinham explicado isso assim!" Como também ainda me lembro que foi essa expressão "que engraçado" que me fez logo pensar que não ia ser difícil mudar a sua aversão à matemática em gosto.

Por favor, não deixem avançar a ideia dos professores generalistas para o 2º Ciclo! Sendo muito importante um bom 1º Ciclo, não deixa de ser verdade que é no 2º que verdadeiramente se inicia a Matemática, e que este ciclo pode ser decisivo para o bem ou para o mal do futuro de muitos alunos.

Critérios jornalísticos...

Passando os olhos pelas capas dos jornais (que recebo no mail), hoje noto mais uma vez habituais critérios divergentes nos títulos das notícias, consoante as 'tendências' dos jornalistas ou dos respectivos orgãos de "informação".

«FMI: Buraco na Madeira força revisão da ajuda a Portugal»  (Diário Económico)

«FMI diz que Portugal não precisa de novo resgate» (Diário de Notícias)

Os conteúdos das notícias acabam por não ser diferentes, mas a verdade é que é no título que se pretende o 'impacto'...

Mais que o Dia do Professor, importa o dia seguinte...

Ser Professor
 (A mensagem do JMA)

terça-feira, outubro 04, 2011

Respondendo à crítica de um amigo

Tenho um grande amigo, que não é autor de blogue, que me critica por agora escrever muito pouco, por agora denunciar muito pouco...
Talvez tenha alguma razão, dado que escrevi muito no tempo de MLR e rebati muito a sua política educativa apoiada por José Sócrates. Mas, nessa altura, este meu cantinho centrava-se essencialmente nas questões da Educação. Ora, acontece que, no actual momento, por mais que me preocupe o rumo da Educação, o meu pensamento, as minhas preocupações, os meus desgostos e as minhas revoltas não conseguem isolar um pouco a política educativa porque a global é (para mim) demasiado triste,  preocupante, revoltante e destituída de qualquer boa perspectiva.
A minha esperança (que nunca perco) passou para longo prazo.
Há, sim, alternativa ao actual rumo (e esse é o meu grito, que não preciso de repetir pois permanece bem "audível" aí no topo do meu blogue).  Mas não basta haver alternativa: É precisa uma lucidez generalizada, que não existe; é precisa uma tomada de consciência muito ampla, que gere aquela Liberdade que Marx definia como "a consciência da necerssidade"; é preciso que o povo português deixe de ser matraqueado por comentadores que o alienam ou lhe instalam o medo a fim de que permaneça dócil perante os verdadeiros objectivos do neoliberalismo exacerbado; é preciso, muito provavelmente, que também os outros povos da Europa gritem em uníssono um enorme NÃO aos senhores que comandam, nomeadamente os povos que até deram o poder aos mais soturnos líderes (como também cá, com a diferença que os líderes de cá  nada mandam, apenas são subservientes, com gosto e crença).

O que tenho respondido ao meu amigo? Tenho respondido que a minha escrita não tem visibilidade, pelo que não faz sentido andar a repetir mais do mesmo. Não que não seja preciso que as vozes imprescindíveis, as que conseguem ter alguma audição,  não se cansem de repetir mais do mesmo enquanto for sempre mais do mesmo (e sempre a somar) os actos governamentais a denunciar. Quanto à minha quase invisível pessoa, quem por aqui passar que ouça o meu grito aí acima. E, se quiser saber o que penso, o que denuncio nos últimos tempos de poucos escritos (poucos, saliento, não só no tempo mais recente de novo governo ), pois tem as "etiquetas" aí ao lado, é só clicar nas de "política" que logo fica disponível o meu pensamento.

ACORDAI! 

quinta-feira, setembro 29, 2011

Quando um governo perfilha ideologicamente os reais objectivos de "troikas"...

«(...)O objectivo dos ideólogos, escondidos sob o “manto diáfano” da competência técnica, como Vítor Gaspar e outros membros deste Governo, a começar por Passos Coelho, é o lançamento irreversível das bases económicas que permitam construir um outro modelo de sociedade. Um modelo que nada tem de novo – um modelo repescado do que começou a ser posto em prática, com outros meios e noutras conjunturas, principalmente a partir das últimas duas décadas do século XIX com o desenvolvimento do capitalismo è escala transnacional. Numa palavra o que hoje se pretende é: assegurar ao capital a maior liberdade de movimentos, fazer regressar o trabalho à condição de mercadoria igual a qualquer outra e reconduzir o Estado ao exercício de funções mínimas: defesa da propriedade e garantia da liberdade de acção dos titulares dos meios de produção. E mais uma ou outra função imposta pelas específicas situações do tempo presente.(...)
Claro que as alternativas existem. Mas fora do sistema, não dentro. Por isso não serão fáceis de pôr em prática e levarão anos a consolidar-se…»
JM Correia Pinto
(O meu agradecimento ao Francisco pelo texto, que pode ser lido na íntegra aqui)

Rir faz bem

(Deixo aqui no meu cantinho para quando estiver muiiiiito necessitada de rir)

domingo, setembro 25, 2011

Regressando...

Por hoje, só um poema...




Encontro com a Poesia


Solitária,


a Poesia percorre a Terra.


Sua voz possui as notas da


dor do mundo.


Ela nada pede,


sequer palavras.


Vem de longe, jamais


avisa a hora de sua chegada:


suas são as chaves da porta.


Entra. Olha-nos profundamente.


Depois, suas mãos se abrem:


Entrega-nos uma flor,


um seixo? Algo secreto,


tão intenso que o coração


dispara.


Então, despertamos.



Eugénio Montejo


Tradução: Sandra Baldessin

(Via Amélia Pais)

quarta-feira, setembro 21, 2011

Intervalo alongado

Há bastantes dias que tenho este meu cantinho esquecido. Hoje vim cá confidenciar-lhe que vou estar mais uns dias ausente, agora não por esquecimento, mas por uns dias de férias "hospitalares".
Bom motivo para dizer que há que aproveitar enquanto posso ter estas "férias" quase gratuitas. Sou simplesmente professora aposentada, o que, até há pouco tempo, ninguém diria que isso me (nos) inclui na classe dos ricos. Mas agora, já não sei... Se calhar este Governo vai alargar os critérios que definem os que podem pagar a saúde, e... o que é monetariamente uma operação cirúrgica para os "ricos" ? Os ricos sem aspas nunca dispensaram as comodidades de clínicas particulares, pelo que não é por aí que o sr. PC e o sr. VG conseguirão aumentos fáceis de receitas (ou, como preferem dizer, diminuições de despesas do Estado).


terça-feira, setembro 13, 2011

Visão necessária que talvez não agrade a professores

Começo por acentuar o que é dito no documento entregue por Mário Nogueira a Passos Coelho:
(...) A crise não pode servir de justificação para que se destrua o essencial, a base da construção do futuro; a Educação é, efetivamente, a base dessa construção! (...)

Não tive acesso ao jornal, mas Paulo Guinote mostra no seu blogue um caderno incluído no Público, no qual Mário Nogueira terá dito, em entrevista, o que, em parte, a seguir se lê, e que, por muito que pese aos professores, especialmente aos "umbiguistas", na minha opinião revela a honesta coragem de uma visão necessária, sabendo MN que não será a visão "popular" para muitos(?) dos associados na FENPROF.


Não falo assim por agora estar de fora como professora aposentada, nem por continuar a ser sindicalizada no maior sindicato da FENPROF - o SPGL. Falo como cidadã muito preocupada (e muito triste) com o rumo e o futuro do meu país, e toda a minha vida, embora lutando sempre pela Educação na Escola Pública, mantive a consciência da responsabilidade da cidadania.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Aos netos da madrugada...

Zeca cantou 'Filhos da Madrugada'. Vinde, também, netos da madrugada!
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"O que faz falta é animar a malta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta é empurrar a malta"
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"Não me obriguem a vir para a rua gritar"

Ainda trabalhei no tempo da ditadura; vivi com indescritível alegria aquela "madrugada", agarrando as mãozinhas das minhas filhas pequenotas e repetindo, repetindo a mim mesma: Elas vão viver num país livre!
Agora sou velhota, mas disposta a ainda ir para a rua gritar.
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(Publicado previamente no FB mas tendo como
 ttítulo o que agora se lê no topo desta página) 

domingo, setembro 11, 2011

Aos blogues de docentes faço um voto...

Terminou (pelo menos por uns tempos) a história (de demasiadas páginas) da ADD.  Cada professor considerará, consoante o seu ponto de vista, que o final foi feliz, ou assim assim, ou infeliz, ou omisso para que cada um, individual ou coletivamente, o redija. (A mim, parece-me que o final da história, por si, não contém tragédias ou dramas, embora as malfadadas quotas tenham muito que se lhes diga; parece-me também que o muito desejável é organizarem-se as escolas de modo a permitirem tempo e a fomentarem o trabalho colaborativo/formativo)

O voto que deixo aos blogues de docentes é que agora passem a propiciar e partilhar reflexões, em primeiro lugar sobre as aulas, os alunos, e as práticas, ou, nos casos mais vocacionados para outras grandes questões relativas à Escola Pública, que tragam para as postagens as análises, os alertas, as denúncias e a mobilização em torno de políticas que têm sido e continuam a ser perniciosas ou mesmo destrutivas da qualidade da Educação a que todas as crianças e todos os jovens têm direito, bem como o país precisa para ter um futuro digno.
Nessas questões incluo:
- (a recusa de) revisões curriculares desqualificadoras  e feitas por opções economicistas, ainda que publicamente negadas;
- (a exigência de)  melhoria das formações inicial e contínua nos múltiplos casos em que os respectivos cursos e acções são deficientes ou inadequados;
- (a mobilização em torno da) revisão do atual regime de autonomia e gestão das escolas.

sexta-feira, setembro 09, 2011

Ah! Terão sido os "States" que fizeram a cabeça de Nuno Crato?

Via JMA, fui ter a este artigo, do qual retiro alguns destaques:

«So, Finland basically focuses on teachers and not on domestic testing. Those PISA tests that you cite are international assessments.»

«This is the antithesis of what we're hearing about in the United States in terms of so-called education "reform." When you hear the debate in the United States over education, the idea is that we need to demonize teachers and that the real way to fix our education system is to simply test the hell out of kids. Why do you think there is such a difference between the attitudes of our two countries? »

Então terá sido esta influência das ideias de reforma nos EU que Nuno Crato "assimilou" e o levou a andar a defender na TV exames e mais exames? Pois então... mandará fazer os exames (se tiver dinheiro), e é possível que, a seguir, venha a  alardear a sua satisfação com os resultados, já que é capaz de ser fácil (infelizmente) levar a maioria dos professores a não fazerem outra coisa que treinar e treinar os meninos para responderem bem às questões desses exames, mesmo que os meninos esqueçam as respostas no dia seguinte aos ditos exames. E se os nossos alunos aprenderem a decorar em vez de aprenderem a pensar, quando isso se perceber Nuno Crato estará fora do governo, ilibado, como é costume,  de responsabilidades sobre o que tenha feito à Educação das nossas crianças.

Já agora, continuo mais um bocadinho com o artigo:

«But beyond that, what I find so striking is that the reforms in [the U.S.] have been driven and led by businesses for the last quarter century. It was David Kearns at Xerox and Lou Gerstner at IBM calling for a national summit on education and they didn't invite any educators. They invited CEOs and governors and senators and congressmen.
Now, I understand and respect business needs for better skills, and I understand a certain mistrust of the education system based on the fact that it's the only profession where you're guaranteed a job for life. But what's different in Finland is that there has been a bipartisan consensus over 30 years about the importance of education and the importance of high-quality teaching as the real solution. It's been a partnership between businesses, policy makers and educators, and that's what we need in this country but don't have.»

«This is what Finland has done that's different - they've defined what is excellent teaching, not just reasonable teaching, and they have a standard for that. Second, they've defined what is most important to learn, and it's not a memorization-based curriculum, but a thinking-based curriculum. So even in our wealthiest districts we're not approaching that global standard of success and excellence.» (Destaque meu)

«How did Finland manage to elevate the role of teacher in the eyes of the population to something that is not just an honorable profession, but a revered profession, whereas in the United States, teachers are so regularly denigrated?
They really think about teachers as scientists and the classrooms are their laboratories. (...) They're taking content courses that enable them to bring a higher level of intellectual preparation into the classroom.
The second point is that they've defined professionalism as working more collaboratively. They give their teachers time in the school day and in the school week to work with each other, to continuously improve their curriculum and their lessons. We have a 19th century level of professionalism here, or worse, it's medieval. A teacher works alone all day, everyday, and isolation is the enemy of improvement and innovation, which is something the Finns figured out a long time ago. Get the teachers out of their isolated circumstances and give them time to work together.» (destaques meus neste parágrafo)

Pois... Rever a formação dos professores e investir nela custa dinheiro (Onde estava Nuno Crato quando havia dinheiro?)

segunda-feira, setembro 05, 2011

Será que...?

"Será que cada um tem apenas direito ao tipo de cultura que pode comprar?"

Esta é a pergunta com que termina o comentário do Fred ao meu último post. Mais do que um comentário, é um texto como que "irmão" do meu, e que trago para aqui.


«Fico, às vezes a olhar a estante com não sei já numerar que geração de livros, dado que os mais antigos repousam encaixotados na cave, imprestáveis, à espera da minha coragem de os selecionar para enviar doação a um país de expressão oficial portuguesa, sempre a pensar comigo, egoisticamente, “será que os vão tratar bem?”
Livros que a minha filha não quis levar quando casou e a minha neta não quer ler porque tem mais o que fazer. Tristes, defendidos da poeira mas não do amarelar do tempo, um ou outro obsoleto, desprezados, humilhados e, contudo, sei que basta abrir um caixote para que saltem de novo à minha mão, como cães alegres com o regresso dos donos.
Já soube encontrar neles as imagens de que precisei em determinada altura. Hoje apenas sei dizer “esse já li há muitos anos”. Tenho na memória o título e o autor, se algo me despertar esse meandro cerebral onde arquivei tanta coisa que me ensinaram. Por isso hesito em dá-los. Devia fazê-lo para lhes dar uma nova vida e tenho pena de o fazer, porque ninguém deita fora um amigo e até talvez se riam por os ver tão simples, tão “de bolso”, tão pouco encadernados, tão velhos.
Talvez seja só preguiça. Na estante, por trás de mim, alinham-se os últimos que comprei e ainda muitos das velhas gerações que eu reli ou planeei reler e que, de certa maneira, ainda me consolam apenas com a visão da lombada e a recordação imediata do essencial do seu conteúdo. Os pormenores, a localização de trechos, perderam-se há muito nas teias de aranha que a idade vai tecendo à volta das recordações.
De vez em quando, tiro um da prateleira, procuro com dificuldade algo que sei estar lá e leio para a minha neta, na esperança que ela me peça para o levar. Debalde. Decididamente, os livros já não fazem parte da vida das pessoas; contudo, nunca vi publicar tantos livros como agora, disponíveis nos escaparates dos supermercados, sobre todos os assuntos, muitas vezes valendo-se de um nome que os meios de comunicação elegeram por motivos pouco intelectuais. Será que se vendem? Pergunto-me. Mas se não se vendessem, não se publicariam, por certo.
O que será que se pode aprender com a vida íntima de uma princesa, a experiência de balneário de um futebolista, o golpe maquiavélico de um burlão ou o crime passional de um maluco qualquer? Também há alguns livros sérios, com esplêndidas encadernações e ilustrações, a preços proibitivos, claro. Será que cada um tem apenas direito ao tipo de cultura que pode comprar?»

Frederico

sexta-feira, agosto 26, 2011

Os livros... Outrora?

Ontem tive pinturas na minha casa. O pintor, que é meu conhecido e amigo, às tantas perguntou-me:
_ Não quer fazer mudanças? Esta estante podia sair daqui!
Isto porque tenho a estante a ocupar toda uma parede da minha sala de trabalho e estar, e o televisor que uso é o mais pequeno cá de casa, pois só cabe mesmo à medida num espaço mais alto da dita estante. Ora, estou em vias de substituir um outro pelo que era da minha mãe, bem grande e mais moderno, que poderia pôr ao pé de mim na parede, se tivesse espaço.
Respondi:
_Ah, isso nem pensar! Os livros são uma companhia, gosto muito de os ter aqui ao meu lado.
E perguntou ele:
_Leu estes livros todos?
_ Alguns são para consulta, os outros li, sim, e boa parte quando era adolescente e jovem adulta (respondi eu, que tenho os livros menos antigos e os recentes no quarto, uns arrumados, outros empilhados à espera de prateleiras).
Seria difícil explicar ao meu amigo pintor por que é que os livros da minha salinha de estar são uma companhia, como que viva, quando a minha memória de galinha não consegue descrever os seus conteúdos. Mas, aqui, posso explicar...
Não é por já não conseguir descrever os conteúdos que os livros me são menos familiares. Conheço-os todos, seja por ideias essenciais - algumas marcantes -, seja por emoções, seja pela memória de encantamentos. Todos fazem parte da minha vida, e são sobretudo os de leitura mais longínqua que são companhia mais viva. Porque eu sei que, sem os ter lido, seria uma pessoa diferente, uma pessoa mais pobre interiormente - sem dúvida.

Naquele tempo, quando casei, para mobília o dinheiro só dava para aquela estritamente indispensável, mas a estante não era dispensável e, então, era improvisada com uns cubos  abertos e sobrepostos. E o valor do recheio da casa era criado só pelos livros para os quais os salários tinham que esticar (no meu caso, também com a coleção de clássicos do meu avô paterno, que não conheci).
Hoje, os netos não lhes atribuem o valor que lhes dávamos (e que as minhas filhas ainda deram também). Não estou a pensar que os jovens de hoje vão ser interiormente mais pobres - eles têm agora outros meios de formação e comunicação. Nem penso que isso tenha a ver com serem criados com grandes estantes em casa e com estímulos à leitura, pois conheço bem um parzinho querido de irmãos - ele (17 anos) pouco mais leu que os livros obrigados pela escola, e ela (13 anos) é mais receptiva ao estímulo mas, mesmo assim, demora a ler um livro o tempo que a mãe (e a avó) levava a devorar vários.

Isto não é um escrito saudosista, é só uma constatação de tempos tão aceleradamente novos, embora sem deixar de conter um ponto de interrogação. De qualquer modo, este é um blogue de memórias...

Contraste numa casa do 'antigamente'

domingo, agosto 21, 2011

Poema...

GACELA DEL AMOR DESESPERADO

La noche no quiere venir
para que tú no vengas,
ni yo pueda ir.

Pero yo iré,
aunque un sol de alacranes me coma la sien.

Pero tú vendrás
con la lengua quemada por la lluvia de sal.

El día no quiere venir
para que tú no vengas,
ni yo pueda ir.

Pero yo iré
entregando a los sapos mi mordido clavel.

Pero tú vendrás
por las turbias cloacas de la oscuridad.

Ni la noche ni el día quieren venir
para que por ti muera
y tú mueras por mí.



-1898-1936


Com o agradecimento à Amélia Pais

quinta-feira, agosto 11, 2011

Será o consumismo produto da inveja?

(Moral desta estória: Afinal, todos seríamos mais felizes seguindo os conselhos da Grande Coruja!)



Os esquilos Diogo e Diego moravam perto um do outro. Eram como irmãos gémeos, embora Diogo tivesse uma cauda totalmente ruiva e a cauda de Diego tivesse alguns pêlos brancos. Diogo tinha construído a sua casa no buraco de uma nogueira e Diego tinha escolhido uma aveleira. Cada um tinha decorado o ninho a seu gosto e ambos gostavam muito de cozinhar. Um dia, Diego levou um frasco de compota de avelãs a Diogo e este ofereceu-lhe licor de noz. Foi um comportamento gentil, não foi? E, contudo, nenhum deles pensou nisso. Enquanto provava a compota, Diogo ia pensando: "Estas compotas de avelã têm um sabor delicioso de madeira recém-cortada, de manteiga e de trigo." E a inveja apoderou-se dele. Enquanto sorvia o seu licor de noz, Diego resmungava: "Realmente, há quem tenha tudo. Este licor de noz é verdadeiramente suculento! Quando penso que o Diogo pode bebê-lo todas as noites." E o seu coração encheu-se de amargura.
A partir desse dia, cada um olhava o outro com inveja. Quando Diego pensava no ninho soberbo de Diogo, com uma cobertura mole de penas de avestruz, tinha vontade de amuar até ao raiar do sol. Quando Diogo pensava na cama de rede que Diego tinha fabricado, tinha vontade de lhe morder o nariz até fazer sangue.
Um dia, Diego cheirou um odor delicioso de Pinhão nº 5.
— Cheira tão bem em tua casa — disse, sem conseguir esconder o descontentamento.
— Foi uma prenda da minha tia — respondeu Diogo, que semicerrou os olhos para ver melhor o boné de Diego, feito de plumas de avestruz cosidas à mão. "Trá-lo de propósito para me fazer inveja", pensou logo Diogo.
— Que boné! — exclamou, fazendo uma careta.
— Oh, é uma coisinha de nada — respondeu Diego, que era muito vaidoso. — Uma prenda da minha tia costureira.
Nessa mesma noite, Diego pensou na despensa de Diogo e Diogo pensou no guarda-roupa de Diego. Quanto mais o tempo passava, mais eles pensavam no que não tinham: uma colecção de conchas de noz, um bocado de vaso encontrado num campo, uma espiga de milho para decorar a casa… A menor quinquilharia punha-os verdes de inveja. Tudo o que um deles tinha, o outro também
queria ter. Chegavam a brigar duramente para arrancar das mãos do outro uma casca de noz ou um pedacinho de castanha.
Um dia, quando Diego encontrou um trevo de quatro folhas, Diogo pôs-se a choramingar: o trevo era seu, fazia parte do seu território. E quando Diogo apanhou um ramo de papoilas, Diego bateu à porta do amigo para lhe pedir metade do ramo. Diego teve ciúmes do aniversário de Diogo e Diogo teve ciúmes da tosse convulsa de Diego. Diogo teve ciúmes da varicela de Diego e Diego teve ciúmes da constipação de Diogo.
Os ciúmes e a inveja davam-lhes dores de barriga. "Alguém me quer mal", pensava Diego, "a floresta já não gosta tanto de mim, já não me dá tantas coisas como outrora". Acabaram por fazer tanta algazarra que todos os vizinhos do bosque (as rolas, as andorinhas, as pombas e os ratos) se reuniram para trocar impressões.
— Não estamos para aturar as vossas disputas!
— Falem mais baixo!
— Já ninguém se entende!
Toda esta barulheira acabou por chegar aos ouvidos da Grande Coruja, que se deslocou pessoalmente para avaliar a disputa.
Ouviu então as queixas dos dois esquilos.
— O ninho dele é mais macio do que o meu!
— O dele é maior do que o meu!
— Até teve a varicela!
— E ele teve a tosse convulsa!
— Pois, mas a varicela é melhor do que a tosse convulsa! Faz comichão, mas não dói tanto!
A Grande Coruja ria-se por detrás dos seus óculos.
— Daqui a pouco quem tem ciúmes de vocês sou eu. Têm tantas coisas! E, no entanto, nunca estão contentes. Isso é pena! Se fosse a ti, Diego, teria orgulho em ter um amigo como o Diogo. E tu, Diogo, devias estar contente por teres um amigo que faz compota de avelãs tão bem! Vou ensinar-vos como uma pessoa aprende a gostar ainda mais de outra. Diego, tu vais dar compota de avelãs ao Diogo e vais fazer para ele um boné de plumas. Quanto a ti, Diogo, vais fazer licor de noz para o Diego e algumas almofadas para ele decorar o seu pequeno ninho. Sugiro ainda que, de vez em quando, troquem de casa. Terão assim a impressão de ir de férias.
E foi o que aconteceu.
Diego fez um boné de plumas soberbo para o seu amigo Diogo usar no Inverno e Diogo fez pequenas almofadas cheias de lasquinhas de avelã trituradas para Diego. De vez em quando, durante o fim-de-semana, trocavam de casa, só para sentirem como as suas próprias casas eram confortáveis. E Diogo e Diego tornaram-se os melhores amigos do mundo!

Cent histoires du soir
Paris, Ed. Marabout, 2000
Sophie Carquain
(Tradução e adaptação via Clube das Histórias)

domingo, agosto 07, 2011

Tenho esperança nos jovens...

NOTA PRÉVIA: Não pretendo reproduzir com precisão palavras de Eduardo Lourenço na última parte da entrevista ontem na SIC (não as anotei), nem sequer traduzir fielmente pensamento seu; a nossa mente receptora reinterpreta subjectivamente de acordo com a sua disponibilidade ou até necessidade.

De súbito, vem-me esperança renovada - esperança nos jovens, nas novas gerações de jovens.
"Cada geração só transmite à outra aquilo que ela não é"
Sim, parece-me que cada geração 'velha' já não é transmissora: A nova geração recebe (ou adopta?) não o que foi ou é da de seus pais, mas o que não é.

Os jovens de hoje juntam-se, fazem 'ajuntamentos', para estarem acompanhados - uma juventude que não sabe o que a espera. Vazios de  um sentido...? Ou despojados de um sentido? Ou carentes de um sentido? Ou para encontrarem um sentido colectivo?
Não sei.  Eduardo Lourenço ontem falou de triunfo do niilismo e definiu a crise ocidental como essencialmente crise de sentido civilizacional. O meu pedido de desculpa por eu não ter tido tempo para apreender (e o entrevistador não lhe deu mais tempo) se deixou uma mensagem de esperança... de esperança nos jovens, mas falou de um talvez nostalgia de qualquer coisa, ou talvez simplesmente um recomeço. De qualquer modo, fez-me ficar a pensar neles - nos jovens de hoje -, e não acredito que os jovens deixem de procurar um sentido, não acredito que deixem ou desistam de (re)construir um sentido para a humanidade. 

Não me detenho a explicar (ou a explicar-me) porquê. Fiquei, de súbito, com uma nova esperança.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Em férias... humor faz bem

Anedota Búlgara

Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.

Carlos Drummond de Andrade
(Via Amélia Pais)

terça-feira, julho 26, 2011

UAU!

Não há ninguém que não saiba que conceber um modelo de ADD simultaneamente, por um lado, fiável e justo, e, por outro lado, viável para já, é extraordinariamente difícil. E, conseguir isso em poucas semanas... isso então é um feito genial.
Estou indecisa entre a total incredulidade e a expectativa de que Nuno Crato descobriu (ou alguém descobriu e lhe apresentou) uma cabeça genial algures neste nosso Portugal.

terça-feira, julho 19, 2011

"Exames! - disse ele"

Exames! - disse ele". Exames para professores. Exames para alunos do 9º e do 12º ano.. Exames para alunos do 6º e, já agora, do 4º ano.
Não negamos as virtualidades dos exames. Mas se a receita se fica por aí, a educação rapidamente cederá à "explicacite" nacional. Será que é esta a nova taumaturgia educacional, nova pomada santa jibóia de aplicação universal?
Não é, por isso, com agrado, que aqui lembramos a Nuno Crato que "há mais vida para além do 'eduquês' ". (*pp 47-48)
(...) um capítulo-talismã, uma proposta-pérola: os exames, a obsessão central de toda a sua obra. Mas, aguerrrido na sua batalha, Nuno Crato seguramente dispõe de generais. Vejamos quais.
Convoca  (..., ...,...,..................)? Não. Etc., etc., etc.
Refere Nuno Crato algum outro investigador que, seriamente, se ocupe da problemática da avaliação? Das suas vantagens? Dos seus limites? Dos seus riscos? Das suas virtudes? Não refere um único. Nem uma só palavra sobre um único (insistimos) dos problematizadores da avaliação. É no mínimo paradoxal que o capítulo quarto, justamente sobre A polémica dos exames, tenha como bibliografia de fundamentação uns quantos textos de jornal. Não será escandaloso de mais para poder ser verdade?
(...) Mas essa é uma atitude própria da ciência ou da doxa? É uma busca ou é uma ? Ao não analisar um único teórico da avaliação, um único teórico da docimologia, um único analista dos testes e suas metamorfoses, Nuno Crato deixa na sombra toda a complexíssima problemática que subjaz à sua proposta.
Estas questões são estudadas, há décadas, por gente que não é nem menos séria, nem menos rigorosa, nem menos exigente que o Professor Crato. Não são questões fáceis, como pode parecer de algumas antinomias simplistas; nem são o restolho de ideologias. São conquistas civilizacionais. E são estudos longitudinais, reflectidos, cientificamente irrepreensíveis. (*pp 52-54)
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(*) Álvaro Gomes (2006). Blues pelo Humanismo Educacional? Edições Flumen.

sexta-feira, julho 15, 2011

quinta-feira, julho 14, 2011

Silêncio... não perturbar...

Meditation

Simone Martini (1312-1317), Meditation

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ADENDA POSTERIOR
Comentário do Professor Álvaro Gomes, que, com o meu agradecimento, trancrevo para aqui pois foi escrito, alusivo a este post, numa posterior (mais actualizada) postagem minha.

«Presenteou-nos, há dias, a I. C. com um belíssimo quadro de Simone Martini. A ausência de comentários a uma obra-prima como aquela dever-se-á, quero imaginar, à meditação profunda que esse quadro em nós provoca. Permita-me, no entanto, I. C., que rompa este silêncio e, mesmo se com algum atraso, aqui venha agradecer-lhe aquele precioso brinde.

Primeiro, pela representação. Martinho, personalidade escolhida pelo pintor, acaso por ser seu homónimo (Martini), é aquela figura popular que está na base dos nossos “S. Martinho, castanhas e vinho.”, “Em dia de S. Martinho, vai à adega e prova o vinho...” ou o “Verão de S. Martinho”, etc. Mas nele assenta também a ideia de solidariedade, pois é uma das primeiras representações deste conceito. Conta a lenda que, ao ver um pobre, não lhe deu uma esmola: rasgou o seu manto a meio e partilhou-o com ele. Impressiva lição esta! Quem há, entre nós, que consiga partilhar, 'a meias', o muito ou o pouco que possui?
Ora, ao contemplarmos este quadro, o que verdadeiramente surpreende é aquele olhar, fechado mas sereno, em meditação profunda, estático e quase extático, num recolhimento alheio ao contexto que o envolve. E surpreende-nos tanto mais, quanto uma das marcas mais impressivas deste pintor é, para quem conhece a sua obra, a força expressiva que ele imprime ao olhar das suas personagens, que exibem, genericamente, olhares vivos (directos, uns; oblíquos, outros), mas de uma força interior que marca e toca, vivamente, quem as contempla...

Depois, pela substância. A meditação parece ser a força daquele olhar que se recolhe, se alheia, se interioriza... numa espécie de som do silêncio, de que, contraditando algumas tecnocracias da moda, nós falávamos em obra já longínqua. “Um educador – escrevíamos – é aquele que, por excelência, sabe criar momentos de silêncio profundo, nos seus alunos. [...] É nesses momentos de assombro que a sua acção vibra neles, em ressonâncias sentidas de uma comunicação ímpar, de uma comunicação única, de uma comunicação irrepetível.” [In Á. G. (2000). Do Som do Silêncio. Lisboa: Didáct. Editora, p. 97.]”
Ora, a palavra meditação tem muito a ver com a ideia de avaliação. Ambas são palavras oriundas da medicina. Ambas têm a ver com a saúde. Com efeito, se meditação (*i-e. med-) é cognata de medicação, médico, medicina, medicamento, mezinha..., a avaliação (*i-e. val-) é, por seu lado, cognata de valer, convalescer, válido, inválido, valência, validar, valimento, valioso, valor, valorizar...
É, pois, de saúde, de vigor, que falamos: saúde biológica, saúde institucional, saúde política.


Por fim, pela essência e pela fragrância. Este Martinho, de barba já grisalha, era um amadurecido bispo [em grego, [epi]scopein significa ver de cima, equivalendo ao latim [super]videre – com idêntico significado; cf. supervisor); paradoxalmente, neste quadro, se bem que ostentando os sinais exteriores, Martinho “não olha de cima”; alheio, absorto e como que distanciando-se da sua condição, ele “olha para dentro”, em profunda introspecção, buscando os sinais interiores da sua humanidade.
Num tempo em que tanto se fala da avaliação externa (dos professores e dos alunos, mas raramente dos sistemas e dos políticos – nesses confia-se ou fia-se!), Simone Martini (1284/1344) convida-nos, há 700 anos!, à ponderação, à meditação, ao recolhimento, à auto-análise, ao exame interior...
E é para a urgência desta meditação interior, deste repensar, que, num tempo de decisões imponderadas e imponderáveis, de enxurradas mediáticas, da banalização de cursos, concursos ou discursos, Isabel Campeão etereamente nos convida e nos convoca, através do subtil e sublime quadro que nos propõe. Gratos lhe deveríamos ficar, por isso. Eu estou. Porque ‘este’ Martini é um grande aperitivo...

Á. G.
27/7/11 10:46 AM »

domingo, julho 10, 2011

Pela Grécia...Pelo Património Cultural mundial

Brilhante... Imprescindível visualizar.
Com o agradecimento ao Professor Á.G. e salientando que começou por o colocar no YouTube em francês, mas... essa versão foi retirada!!!



sábado, julho 09, 2011

Do estado de graça ao 'nim' foi um passo, mas falta o salto de grande altura

Com todo o respeito e solidariedade que tenho pela "classe docente", da qual me sentirei sempre a fazer parte, apesar de aposentada, é inegável e os próprios professores reconhecem em si um defeito que desde sempre foi uma característica da maioria: só se informam devidamente, só lêem legislação (e, agora, programas eleitorais), só começam a prestar atenção pelas suas próprias cabeças ao que lhes diz respeito quando males já estão a cair em cima da sua. Os professores não têm que ser muito politizados, mas deveriam assumir aquilo que se espera deles: serem intelectualmente informados, pesquisadores, se necessário, das ideias daqueles em quem vão votar e daqueles que andam "na berra" como possíveis ministros, especialmente da Educação; e também participarem activamente nos seus sindicatos em vez de se limitarem a atirar culpas aos dirigentes, como se os sindicatos fossem apenas as direcções e não tb os próprios sindicalizados.
 Eu e bastantes outros, se conhecemos bem Nuno Crato há que tempos não foi por que tenhamos feito algum curso para identificar ideias e ignorâncias!
Além disto, a obcessão com a ADD (embora havendo toda a razão para contestar fortemente modelos de avaliação injustos, não formativos mas sim penalizadores por motivos economicistas, carregados de burocracia e desestabilizadores das relações de trabalho e da cooperação) cegou muitos quanto ao resto, nomeadamente quanto ao perigo de destruição da Escola Pública de qualidade para todos.
O povo português foi iludido, mas depressa o percebeu, o que se observa nos comentários "de rua" de pessoas com pouca instrução mas que já descortinaram esse "programa oculto" sob o chamado "programa do governo", que se irá revelando a pouco e pouco. Por isso, custa-me dizer, mas é preciso dizer aos caros colegas professores que têm obrigação de descortinar mais depressa o programa do governo, ao menos no que respeita à Educação-Ensino (embora esta parte não se possa desligar do todo). Além de que não se pode ser bom professor quando a cabeça se descentra (e é empurrada por bastante "blogosfera" a desviar-se) da sala de aula, dessa sala onde pais e mães desde a classe média até à mais desfavorecida deverão poder ter os seus filhos, confiantes de que serão instruídos e bem formados.

quinta-feira, julho 07, 2011

Carta Aberta de Á.G. à Moody's

Nota prévia:
Agradeço ao Professor Álvaro Gomes a simpatia com que respondeu ao meu pedido de autorização para trazer para aqui a brilhante e reconfortante Carta Aberta à Moody's que deixou na caixa de comentários deste post do fsantos.
Foi ontem e, inesperadamente, o "augúrio", o "vaticínio" e o "oráculo" expressados nessa Carta começaram a indiciar-se já hoje. Que essa pequenininha luz hoje vislumbrada lá no fundo do túnel não se extinga e anime os povos da Europa a exigirem "ratings" criteriosos e isentos.

Carta Aberta à
Moody’s

Caros sábios da sábia Moody’s.
Eu já tinha muita consideração pelo vosso centenário crânio (tendes, sensivelmente, a mesma idade do nosso Manoel de Oliveira – em rigor, ele tem um aninho mais). Mas, enquanto este cineasta é mestre e antigo, vossências são discípulos velhos e caducos. Sem engenho e sem arte, vosselências (perdoar-me-ão, mas) vão de tombo em tombo. E é meu pio dever em vosso socorro vir.
Ainda há pouco garantiam ser investimento de primeira água um banco que, dias depois, mergulhava na (des)dita e os banqueiros Irmãos Lehman afogaram-se nas bóias da vossa segura garantia… Vossas insolências garantiam ser investimento do mais alto quilate o país de ouro que a Islândia é e quase em bancarrota entrou, logo a seguir.
Com tais acertos e tais rigores, é uma bênção para nós vê-los fal(h)ar assim, pois que melhor garantia do nosso vigor poderíamos nós buscar?
Apesar de tantos e tão sábios oráculos, estão vosselências mui prudentes. É sabido que não conhecem Portugal, nem este piccolo país lhes diz seja o que for. Mas, justamente por isso, sentem-se legitimados para oracular, augurar, vaticinar, pitonisar…
Só que eu, generoso que sou, graciosamente os informo: Portugal é um rectângulo quase (im)perfeito; mas daí a vossas insolências o tomarem por “bola” de trapo, vai um abismo lógico. Têm-na pontapeado a vosso bel-prazer e acabam, agora, de a chutar para lixo. Por nós, ficámos muito gratos ao vosso augúrio, pois, ao entrarmos na lixeira, fomos lá encontrar, justamente, não apenas a vossa bela terra (sim, os states e os united ), mas também os nipões e, paradoxo dos paradoxos!, a sábia Moody’s… Conhecem?
Este meu país, sabem?, vive há quase mil anos. Eu sei que não sabiam, mas eu informo-os de bom grado. Nós, lusos, veremos passar muitas moddy’s, muitas fitch’s… e muitas poor’s… nas passerelles da rapina! Vossências passarão, nós fi(n)caremos.
Numa irrepreensível lógica, vossências vaticinam e pitonisam segundo elementares forças, pois tudo delas depende. Se não, vejamos:

Sol e Chuva
Vai chover? Descem o ranking, pois inundações haver pode. E, se houver míngua, podem secar as albufeiras.
Vai fazer sol? Descem o ranking, não vá haver fogos. Há nuvens? Baixam o ranking, pois a atmosfera será sombria. Não há nuvens? Baixam o ranking, por haver luz em excesso, o que exige óculos da mafia…

Eclipses
Vai haver eclipse? Descem o ranking, porque é sinal de mau agoiro. Não vai haver eclipse? Descem o ranking, porque, não havendo astral, haverá eclipse financeiro.

Vento
Não há vento? Baixam o ranking, que as eólicas não produzem. Há vento? Baixam o ranking, não venha aí algum tornado.

Mar
O mar está encapelado? Baixam o ranking, não vá naufragar algum petroleiro. Está calmo, baixam o ranking, pois não haverá campeonato de windsurf.

Petróleo
Sobe o preço do petróleo? Descem o ranking, porque isso agravará a nossa balança. Desce o petróleo? Descem o ranking, porque isso afectará o vosso balanço.

Europa
A Europa diz que acredita em nós? Descem o ranking, porque suspeitam de mentirola diplomática. A Europa diz que não acredita em nós? Descem o ranking, porque a Europa é credível.

Ouro
Sobe o ouro? Descem o ranking, pois desce o euro. Sobe o euro? Descem o ranking, pois baixa o ouro…

Espirro
Espirra a Grécia? Baixam o ranking, não venha aí o H5N1. Aprova o parlamento o programa da troika? Baixam o ranking, pois “quem mais jura mais mente”. Portugal elegeu novo governo? Baixam o ranking, porque é inexperiente. No governo anterior baixavam o ranking, porque eram experientes de mais.

Ora, com critérios tão lineares e tão cientóides como os vossos, doer, só me dói que os terreiros dos passos (perdão, dos paços) ou os presépios de belém, perante vossências, andem a imodium e se ponham de giolhos. Mas eu, que nutro profundérrima simpatia por tudo quanto me cheire a moddy’s e a blues, há um augúrio, um vaticínio, um oráculo que quero, em português suave, reservar para vossências: “Vão… passear (à Lua. Far-lhes-á bem uma mudança “d’ares”… E por lá fiquem, sem oxigénio, que nós ficaremos bem, graças a vós!)”!
Á. G.

Quando tenho a sensação de ausência de flores...

... vou olhar as que cultivo na minha varanda feita jardim


quarta-feira, julho 06, 2011

Tocata e Fuga

TOCATA E FUGA
É tudo aquilo que só existe no ar,        
0 que de nós, além de nós, se expande.
É a vertigem para o alto, igual à grande          
Tocata e fuga em ré menor de Bach.
É o delírio de um bêbedo num bar       
É um não sair do chão por mais que se ande
Tudo que em mim, somente em mim existe,
Me transporta, me absorve, me suspende,
Me faz sorrir embora eu esteja triste,   
Triste naquele universal sentido          
Que a música interpreta e se compreende       
Dante Milano (Brasil,1899-1991)
(via Amélia Pais)


Também detesto Sócrates, mas detestemos com isenção e justiça...

...Detesto Sócrates e nunca votei no seu partido (nem em nenhum à sua direita!)

Jornal i de 5 de Julho de 2011 :  ....77 escolas em obras mas só dinheiro até Janeiro
(...) O actual programa de requalificação foi da iniciativa do executivo de José Sócrates, que criou a Parque Escolar, em 2008, para garantir a requalificação de 213 escolas a nível nacional.
(...)Chegou-se também à conclusão que na maioria dos casos, e à medida que os estabelecimentos eram renovados, o nível de absentismo e de violência baixou. Para comprovar esses dados foram encomendados alguns estudos.
(...)








Etc., etc. 
Fui para a minha última escola quando foi inaugurada como escola autónoma, há muitos anos mas constituída por  já velhos pavilhões prefabricados e "provisórios", antes anexos da escola secundária ao lado. E lá se ia fazendo remendos quando chovia nesta ou naquela sala de aula, graças ao engenho e dedicação de um dos nossos funcionários, enquanto os alunos fugiam para a pequena sala de convívio quando chovia nos páteos. O ambiente físico era propício às agressividades nos recreios pois era difícil a vigilância de tantos espaços entre os ditos pavilhões. Só há dois anos tive o prazer de ver, ao ir à escola pela primeira vez depois de aposentada, uma nova construção com condições e apetrechamento incomparáveis com aqueles em que trabalhei tantos anos. (Trata-se da EB 2.3 Professor Lindley Cintra, sede de agrupamento e, há um ano, integrada em mega-agrupamento)

sexta-feira, julho 01, 2011

Já cumpri o primeiro dever face ao novo Governo

Antes de me referir a DEVER, devo salientar o DIREITO de todos os portugueses sem excepção poderem ter acesso às intenções programáticas do novo Governo. Só não vale a pena lembrar factos irreversíveis tais como as omissões na campanha eleitoral (aliás habituais, infelizmente, em campanhas anteriores dos partidos do chamado arco governativo) porque o povo português legitimou a actual maioria e o actual governo e, portanto, agora é momento de olhar para a frente, não para trás. 

Entretanto, sem deixar de afirmar que o povo português não é nada estúpido ou parvo, há todos aqueles que emitem opiniões (quer com grande visibilidade/audição, quer apenas no seu pequeno círculo de convívio, ou nos seus escritos lidos por raros) que são mais "alfabetizados politicamente" (deixem-me usar esta expressão para simplificar). E são estes que, primordialmente, têm o DEVER (ou deveriam sentir esse DEVER) de começar por fazer o que eu hoje já cumpri.

Por uma questão de honestidade intelectual, esvaziei a minha cabeça das ideias ou juízos que já tinha pré-concebidos para assim ler o programa apresentado pelo Governo e ouvir com atenção quer as respostas principalmente do Primeiro Ministro e do Ministro das Finanças na Assembleia da República, quer as dúvidas, críticas e discordâncias das Oposições (tendo em consideração que o Partido Socialista está vinculado ao acordo com a troika, mas não deixa, por isso, de poder ser oposição quanto a medidas não explícitas nesse acordo).
Li e ouvi sinceramente com a minha cabeça como disse acima, pois este é o governo que foi eleito para enfrentar e gerir o Levantar do meu país, humilhado e quase afundado. 

Cumprido o que considerei ser meu DEVER conseguir  começar por cumprir, passo agora à questão de dar (ou não dar) a este Governo o benefício da dúvida.
E não, não me é possível dar mais do que o benefício da espera - uma espera de que o 1º Ministro cumpra uma coisa que afirmou: que estará aberto a obter consensos mais alargados pela atenção a todos os partidos da oposição. É o benefício da espera para ver se essa sua afirmação corresponderá a uma reflexão da sua parte sobre, ao menos, políticas parcelares ainda vagas, que atenuem um pouco a injustiça de fazer o povo pagar mais e mais a dívida que não é sua poupando os responsáveis por ela (que não são só o Estado), e também sobre as opções que muitos economistas consideram invertidas em termos de prioridade no sentido de gerar investimento na produtividade e desenvolvimento (aqui sou leiga, só posso dar o tal benefício da espera em termos de desejar reflexões correctas)

Propriamente o benefício da dúvida não dou. Porque, com este exercício honesto que me obriguei a fazer, eu não deixei de ser a mesma que colocou o post anterior com o título "Mensagem que urge gritar aos povos: Este não é o único mundo possível".

Um mundo conformado com o neoliberalismo (acerbado) não é o único mundo possível. E uma Europa a subjugar-se e a desistir de si mesma nos valores que já teve não tem que ser inevitável. E há um país que, apesar de ser nela dos "pequenos", tem os olhos dessa Europa postos nele, em primeiro lugar a seguir à Grécia. Esse país é o nosso, merecia, por isso,  ter um governo menos conivente, um governo que pugnasse por manter ao menos o Estado Social mínimo que ainda seria possível manter, em vez de, muito provavelmente, o reduzir a Zero.

Nota: Este meu cantinho é um blogue sobre Educação. Mas, neste momento, considero que o programa governamental para a Educação está inserido numa ideologia global que abrangerá toda a política concernente ao que deveria ser - e não será - uma das prioridades: Uma Educação e um Ensino de qualidade para todos. Por isso, de pouco valeria centrar a atenção no programa específico para a Educação (intitulado, como que por ironia, "O desafio do futuro") desinserido do programa geral.

sexta-feira, junho 24, 2011

Mensagem que urge gritar aos povos

Este não é o único mundo possível

E outro mundo possível está na barriga do actual. Será parido, não por parto normal, mas porque a barriga rebentará - acho eu, é nisso que acredito e é isso que espero.

segunda-feira, junho 20, 2011

Comentário ao discurso do novo Ministro da Educação

O discurso já é bem conhecido e pode ser ouvido AQUI.
Comentei-o na rede Interactic 2.0, pelo que me limito a copiar para aqui esse meu comentário, com alguns pequenos prolongamentos.

-Começando por apontar um ponto positivo: Valorizar os professores. Mas, onde fez Nuno Crato ouvir a sua voz quando, após a LBSE, a formação dos professores de Matemática do Ensino Básico, especialmente do crucial 2º Ciclo(falo desta disciplina porque a lecionei durante 37 anos, primeiro no 2º Ciclo - e ainda no "Ciclo Preparatório" da Reforma Veiga Simão -, depois no 3º Ciclo), baixou muitíssimo de qualidade, juntando a formação científica à formação pedagógica, praticamente eliminando verdadeiros estágios pedagógicos, tudo com a mesma duração que antes tinha a formação científica? E com que força procurou opor-se ao ainda pior Novo Regime de formação de professores, quando do processo de Bolonha? (Não tenho voz pública, mas, no meu humilde blogue, muito denunciei tudo isso)

-"Ensino em espiral":  NC critica, e valoriza conteúdos, mas esquece que, no E. Básico, além de uma boa preparação nos conhecimentos, essencial para os alunos que virão a prosseguir para áreas com Matemática ( e boa preparação a nível de conhecimentos não é simplesmente  decorá-los de modo a não serem esquecidos até realizarem exames), é fundamental criar os hábitos (e o gosto) de raciocinar, de rigor, de pensar criticamente, e proceder desde relativamente cedo à iniciação em CONCEITOS, os quais só ficam elaborados por sucessivas retomas. A matemática do (decorar) "como se faz" em nadinha contribui para a Formação Matemática e desenvolvimento do pensamente rigoroso sem a aquisição de conceitos, e estes só ficam elaborados após o tal "ensino em espiral" (que Nuno Crato de algum modo caricaturiza - talvez se encontre aí a explicação para a falta de rigor de alguns dos seus escritos, nada própria de um matemático)

- Nunca adopto a expressão "Ciências da Educação" (e gosto de ter no meu registo biográfico "mestrado em Educação", pelo Departamento de Educação da FCUL - departamento que é avesso à expressão acima). Mas muito importantes são as Ciências tais como Psicologia Cognitiva, Psicologia da Aprendizagem", etc., do âmbito da investigação científica (essas sim, Ciências), pelas suas aplicações em educação-ensino-aprendizagem. NC tem na sua cabeça um "eduquês" que ridicularizou com bastante ignorância e recurso a método nada próprio de quem deveria ter rigor intelectual, como já disse acima - um "eduquês" completamente irreal nas escolas.
O que não é compatível, é juntar a formação científica sólida (o professor tem que saber bem mais do que o que tem que ensinar a determinadas idades) com essas ciências num curso de formação inicial com a mesma duração que tinha no meu tempo só a licenciatura científica especializada. E os verdadeiros estágios pedagógicos foram tornados caricaturas de estágios por motivos economicistas (pelo menos para lecionar 2º Ciclo, onde tive o que guardo como triste memória quando, uma única vez, aceitei ser professora cooperante - não confundir com professor orientador). NC denuncia o actual regime de formação inicial de professores, relacionado com o Processo de Bolonha, mas não diz que vai ter coragem para o alterar.

- Por último: NC tem-se mostrado assustadoramente retrógado, pois tem insistido na sobreposição dos conteúdos e na memorização, desvalorizando os processos. Além de que mais exames pressionarão os professores para o treino para estes, quando a aprendizagem da Matemática, precisando, claro, também de treino, não chega a ser aprendizagem que dure sem os processos que levam os alunos ao pensar, à compreensão, e ao ganho de autonomia numa relação com gosto e com esforço no prosseguimento do estudo dessa disciplina.

Perdoem-me o pecado de pouca humildade, mas tenho que dizer que tenho autoridade para opinar pois os meus alunos sempre provaram prosseguir bem preparados, e, no respeitante ao 9º ano, quer aqueles a quem atribuí o nível mais elevado (5) mantiveram, na escala de notas do Secundário, a excelência (própria das elites sobre as quais parece predominar o pensamento de NC), quer alunos a quem atribuí aquele nível 3 "baixinho" e prosseguiram para a escolaridade não obrigatória, aguentaram-se muitas vezes até para além das minhas expectativas. (Eu tinha notícias de quase todos porque a Escola Secundária era ao lado da minha E2,3).
Eu seria decerto apelidada por NC de "eduquesa", mas, por minha vez, eu considero-o não "moderno", mas sim com um pensamento extraordinariamente antiquado e voltado para as elites de alunos. Revela-o pouco no vídeo, mas não é pelo vídeo que eu o conheço (que nós o conhecemos).