quinta-feira, setembro 29, 2011

Quando um governo perfilha ideologicamente os reais objectivos de "troikas"...

«(...)O objectivo dos ideólogos, escondidos sob o “manto diáfano” da competência técnica, como Vítor Gaspar e outros membros deste Governo, a começar por Passos Coelho, é o lançamento irreversível das bases económicas que permitam construir um outro modelo de sociedade. Um modelo que nada tem de novo – um modelo repescado do que começou a ser posto em prática, com outros meios e noutras conjunturas, principalmente a partir das últimas duas décadas do século XIX com o desenvolvimento do capitalismo è escala transnacional. Numa palavra o que hoje se pretende é: assegurar ao capital a maior liberdade de movimentos, fazer regressar o trabalho à condição de mercadoria igual a qualquer outra e reconduzir o Estado ao exercício de funções mínimas: defesa da propriedade e garantia da liberdade de acção dos titulares dos meios de produção. E mais uma ou outra função imposta pelas específicas situações do tempo presente.(...)
Claro que as alternativas existem. Mas fora do sistema, não dentro. Por isso não serão fáceis de pôr em prática e levarão anos a consolidar-se…»
JM Correia Pinto
(O meu agradecimento ao Francisco pelo texto, que pode ser lido na íntegra aqui)

Rir faz bem

(Deixo aqui no meu cantinho para quando estiver muiiiiito necessitada de rir)

domingo, setembro 25, 2011

Regressando...

Por hoje, só um poema...




Encontro com a Poesia


Solitária,


a Poesia percorre a Terra.


Sua voz possui as notas da


dor do mundo.


Ela nada pede,


sequer palavras.


Vem de longe, jamais


avisa a hora de sua chegada:


suas são as chaves da porta.


Entra. Olha-nos profundamente.


Depois, suas mãos se abrem:


Entrega-nos uma flor,


um seixo? Algo secreto,


tão intenso que o coração


dispara.


Então, despertamos.



Eugénio Montejo


Tradução: Sandra Baldessin

(Via Amélia Pais)

quarta-feira, setembro 21, 2011

Intervalo alongado

Há bastantes dias que tenho este meu cantinho esquecido. Hoje vim cá confidenciar-lhe que vou estar mais uns dias ausente, agora não por esquecimento, mas por uns dias de férias "hospitalares".
Bom motivo para dizer que há que aproveitar enquanto posso ter estas "férias" quase gratuitas. Sou simplesmente professora aposentada, o que, até há pouco tempo, ninguém diria que isso me (nos) inclui na classe dos ricos. Mas agora, já não sei... Se calhar este Governo vai alargar os critérios que definem os que podem pagar a saúde, e... o que é monetariamente uma operação cirúrgica para os "ricos" ? Os ricos sem aspas nunca dispensaram as comodidades de clínicas particulares, pelo que não é por aí que o sr. PC e o sr. VG conseguirão aumentos fáceis de receitas (ou, como preferem dizer, diminuições de despesas do Estado).


terça-feira, setembro 13, 2011

Visão necessária que talvez não agrade a professores

Começo por acentuar o que é dito no documento entregue por Mário Nogueira a Passos Coelho:
(...) A crise não pode servir de justificação para que se destrua o essencial, a base da construção do futuro; a Educação é, efetivamente, a base dessa construção! (...)

Não tive acesso ao jornal, mas Paulo Guinote mostra no seu blogue um caderno incluído no Público, no qual Mário Nogueira terá dito, em entrevista, o que, em parte, a seguir se lê, e que, por muito que pese aos professores, especialmente aos "umbiguistas", na minha opinião revela a honesta coragem de uma visão necessária, sabendo MN que não será a visão "popular" para muitos(?) dos associados na FENPROF.


Não falo assim por agora estar de fora como professora aposentada, nem por continuar a ser sindicalizada no maior sindicato da FENPROF - o SPGL. Falo como cidadã muito preocupada (e muito triste) com o rumo e o futuro do meu país, e toda a minha vida, embora lutando sempre pela Educação na Escola Pública, mantive a consciência da responsabilidade da cidadania.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Aos netos da madrugada...

Zeca cantou 'Filhos da Madrugada'. Vinde, também, netos da madrugada!
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"O que faz falta é animar a malta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta é empurrar a malta"
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"Não me obriguem a vir para a rua gritar"

Ainda trabalhei no tempo da ditadura; vivi com indescritível alegria aquela "madrugada", agarrando as mãozinhas das minhas filhas pequenotas e repetindo, repetindo a mim mesma: Elas vão viver num país livre!
Agora sou velhota, mas disposta a ainda ir para a rua gritar.
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(Publicado previamente no FB mas tendo como
 ttítulo o que agora se lê no topo desta página) 

domingo, setembro 11, 2011

Aos blogues de docentes faço um voto...

Terminou (pelo menos por uns tempos) a história (de demasiadas páginas) da ADD.  Cada professor considerará, consoante o seu ponto de vista, que o final foi feliz, ou assim assim, ou infeliz, ou omisso para que cada um, individual ou coletivamente, o redija. (A mim, parece-me que o final da história, por si, não contém tragédias ou dramas, embora as malfadadas quotas tenham muito que se lhes diga; parece-me também que o muito desejável é organizarem-se as escolas de modo a permitirem tempo e a fomentarem o trabalho colaborativo/formativo)

O voto que deixo aos blogues de docentes é que agora passem a propiciar e partilhar reflexões, em primeiro lugar sobre as aulas, os alunos, e as práticas, ou, nos casos mais vocacionados para outras grandes questões relativas à Escola Pública, que tragam para as postagens as análises, os alertas, as denúncias e a mobilização em torno de políticas que têm sido e continuam a ser perniciosas ou mesmo destrutivas da qualidade da Educação a que todas as crianças e todos os jovens têm direito, bem como o país precisa para ter um futuro digno.
Nessas questões incluo:
- (a recusa de) revisões curriculares desqualificadoras  e feitas por opções economicistas, ainda que publicamente negadas;
- (a exigência de)  melhoria das formações inicial e contínua nos múltiplos casos em que os respectivos cursos e acções são deficientes ou inadequados;
- (a mobilização em torno da) revisão do atual regime de autonomia e gestão das escolas.

sexta-feira, setembro 09, 2011

Ah! Terão sido os "States" que fizeram a cabeça de Nuno Crato?

Via JMA, fui ter a este artigo, do qual retiro alguns destaques:

«So, Finland basically focuses on teachers and not on domestic testing. Those PISA tests that you cite are international assessments.»

«This is the antithesis of what we're hearing about in the United States in terms of so-called education "reform." When you hear the debate in the United States over education, the idea is that we need to demonize teachers and that the real way to fix our education system is to simply test the hell out of kids. Why do you think there is such a difference between the attitudes of our two countries? »

Então terá sido esta influência das ideias de reforma nos EU que Nuno Crato "assimilou" e o levou a andar a defender na TV exames e mais exames? Pois então... mandará fazer os exames (se tiver dinheiro), e é possível que, a seguir, venha a  alardear a sua satisfação com os resultados, já que é capaz de ser fácil (infelizmente) levar a maioria dos professores a não fazerem outra coisa que treinar e treinar os meninos para responderem bem às questões desses exames, mesmo que os meninos esqueçam as respostas no dia seguinte aos ditos exames. E se os nossos alunos aprenderem a decorar em vez de aprenderem a pensar, quando isso se perceber Nuno Crato estará fora do governo, ilibado, como é costume,  de responsabilidades sobre o que tenha feito à Educação das nossas crianças.

Já agora, continuo mais um bocadinho com o artigo:

«But beyond that, what I find so striking is that the reforms in [the U.S.] have been driven and led by businesses for the last quarter century. It was David Kearns at Xerox and Lou Gerstner at IBM calling for a national summit on education and they didn't invite any educators. They invited CEOs and governors and senators and congressmen.
Now, I understand and respect business needs for better skills, and I understand a certain mistrust of the education system based on the fact that it's the only profession where you're guaranteed a job for life. But what's different in Finland is that there has been a bipartisan consensus over 30 years about the importance of education and the importance of high-quality teaching as the real solution. It's been a partnership between businesses, policy makers and educators, and that's what we need in this country but don't have.»

«This is what Finland has done that's different - they've defined what is excellent teaching, not just reasonable teaching, and they have a standard for that. Second, they've defined what is most important to learn, and it's not a memorization-based curriculum, but a thinking-based curriculum. So even in our wealthiest districts we're not approaching that global standard of success and excellence.» (Destaque meu)

«How did Finland manage to elevate the role of teacher in the eyes of the population to something that is not just an honorable profession, but a revered profession, whereas in the United States, teachers are so regularly denigrated?
They really think about teachers as scientists and the classrooms are their laboratories. (...) They're taking content courses that enable them to bring a higher level of intellectual preparation into the classroom.
The second point is that they've defined professionalism as working more collaboratively. They give their teachers time in the school day and in the school week to work with each other, to continuously improve their curriculum and their lessons. We have a 19th century level of professionalism here, or worse, it's medieval. A teacher works alone all day, everyday, and isolation is the enemy of improvement and innovation, which is something the Finns figured out a long time ago. Get the teachers out of their isolated circumstances and give them time to work together.» (destaques meus neste parágrafo)

Pois... Rever a formação dos professores e investir nela custa dinheiro (Onde estava Nuno Crato quando havia dinheiro?)

segunda-feira, setembro 05, 2011

Será que...?

"Será que cada um tem apenas direito ao tipo de cultura que pode comprar?"

Esta é a pergunta com que termina o comentário do Fred ao meu último post. Mais do que um comentário, é um texto como que "irmão" do meu, e que trago para aqui.


«Fico, às vezes a olhar a estante com não sei já numerar que geração de livros, dado que os mais antigos repousam encaixotados na cave, imprestáveis, à espera da minha coragem de os selecionar para enviar doação a um país de expressão oficial portuguesa, sempre a pensar comigo, egoisticamente, “será que os vão tratar bem?”
Livros que a minha filha não quis levar quando casou e a minha neta não quer ler porque tem mais o que fazer. Tristes, defendidos da poeira mas não do amarelar do tempo, um ou outro obsoleto, desprezados, humilhados e, contudo, sei que basta abrir um caixote para que saltem de novo à minha mão, como cães alegres com o regresso dos donos.
Já soube encontrar neles as imagens de que precisei em determinada altura. Hoje apenas sei dizer “esse já li há muitos anos”. Tenho na memória o título e o autor, se algo me despertar esse meandro cerebral onde arquivei tanta coisa que me ensinaram. Por isso hesito em dá-los. Devia fazê-lo para lhes dar uma nova vida e tenho pena de o fazer, porque ninguém deita fora um amigo e até talvez se riam por os ver tão simples, tão “de bolso”, tão pouco encadernados, tão velhos.
Talvez seja só preguiça. Na estante, por trás de mim, alinham-se os últimos que comprei e ainda muitos das velhas gerações que eu reli ou planeei reler e que, de certa maneira, ainda me consolam apenas com a visão da lombada e a recordação imediata do essencial do seu conteúdo. Os pormenores, a localização de trechos, perderam-se há muito nas teias de aranha que a idade vai tecendo à volta das recordações.
De vez em quando, tiro um da prateleira, procuro com dificuldade algo que sei estar lá e leio para a minha neta, na esperança que ela me peça para o levar. Debalde. Decididamente, os livros já não fazem parte da vida das pessoas; contudo, nunca vi publicar tantos livros como agora, disponíveis nos escaparates dos supermercados, sobre todos os assuntos, muitas vezes valendo-se de um nome que os meios de comunicação elegeram por motivos pouco intelectuais. Será que se vendem? Pergunto-me. Mas se não se vendessem, não se publicariam, por certo.
O que será que se pode aprender com a vida íntima de uma princesa, a experiência de balneário de um futebolista, o golpe maquiavélico de um burlão ou o crime passional de um maluco qualquer? Também há alguns livros sérios, com esplêndidas encadernações e ilustrações, a preços proibitivos, claro. Será que cada um tem apenas direito ao tipo de cultura que pode comprar?»

Frederico

sexta-feira, agosto 26, 2011

Os livros... Outrora?

Ontem tive pinturas na minha casa. O pintor, que é meu conhecido e amigo, às tantas perguntou-me:
_ Não quer fazer mudanças? Esta estante podia sair daqui!
Isto porque tenho a estante a ocupar toda uma parede da minha sala de trabalho e estar, e o televisor que uso é o mais pequeno cá de casa, pois só cabe mesmo à medida num espaço mais alto da dita estante. Ora, estou em vias de substituir um outro pelo que era da minha mãe, bem grande e mais moderno, que poderia pôr ao pé de mim na parede, se tivesse espaço.
Respondi:
_Ah, isso nem pensar! Os livros são uma companhia, gosto muito de os ter aqui ao meu lado.
E perguntou ele:
_Leu estes livros todos?
_ Alguns são para consulta, os outros li, sim, e boa parte quando era adolescente e jovem adulta (respondi eu, que tenho os livros menos antigos e os recentes no quarto, uns arrumados, outros empilhados à espera de prateleiras).
Seria difícil explicar ao meu amigo pintor por que é que os livros da minha salinha de estar são uma companhia, como que viva, quando a minha memória de galinha não consegue descrever os seus conteúdos. Mas, aqui, posso explicar...
Não é por já não conseguir descrever os conteúdos que os livros me são menos familiares. Conheço-os todos, seja por ideias essenciais - algumas marcantes -, seja por emoções, seja pela memória de encantamentos. Todos fazem parte da minha vida, e são sobretudo os de leitura mais longínqua que são companhia mais viva. Porque eu sei que, sem os ter lido, seria uma pessoa diferente, uma pessoa mais pobre interiormente - sem dúvida.

Naquele tempo, quando casei, para mobília o dinheiro só dava para aquela estritamente indispensável, mas a estante não era dispensável e, então, era improvisada com uns cubos  abertos e sobrepostos. E o valor do recheio da casa era criado só pelos livros para os quais os salários tinham que esticar (no meu caso, também com a coleção de clássicos do meu avô paterno, que não conheci).
Hoje, os netos não lhes atribuem o valor que lhes dávamos (e que as minhas filhas ainda deram também). Não estou a pensar que os jovens de hoje vão ser interiormente mais pobres - eles têm agora outros meios de formação e comunicação. Nem penso que isso tenha a ver com serem criados com grandes estantes em casa e com estímulos à leitura, pois conheço bem um parzinho querido de irmãos - ele (17 anos) pouco mais leu que os livros obrigados pela escola, e ela (13 anos) é mais receptiva ao estímulo mas, mesmo assim, demora a ler um livro o tempo que a mãe (e a avó) levava a devorar vários.

Isto não é um escrito saudosista, é só uma constatação de tempos tão aceleradamente novos, embora sem deixar de conter um ponto de interrogação. De qualquer modo, este é um blogue de memórias...

Contraste numa casa do 'antigamente'

domingo, agosto 21, 2011

Poema...

GACELA DEL AMOR DESESPERADO

La noche no quiere venir
para que tú no vengas,
ni yo pueda ir.

Pero yo iré,
aunque un sol de alacranes me coma la sien.

Pero tú vendrás
con la lengua quemada por la lluvia de sal.

El día no quiere venir
para que tú no vengas,
ni yo pueda ir.

Pero yo iré
entregando a los sapos mi mordido clavel.

Pero tú vendrás
por las turbias cloacas de la oscuridad.

Ni la noche ni el día quieren venir
para que por ti muera
y tú mueras por mí.



-1898-1936


Com o agradecimento à Amélia Pais

quinta-feira, agosto 11, 2011

Será o consumismo produto da inveja?

(Moral desta estória: Afinal, todos seríamos mais felizes seguindo os conselhos da Grande Coruja!)



Os esquilos Diogo e Diego moravam perto um do outro. Eram como irmãos gémeos, embora Diogo tivesse uma cauda totalmente ruiva e a cauda de Diego tivesse alguns pêlos brancos. Diogo tinha construído a sua casa no buraco de uma nogueira e Diego tinha escolhido uma aveleira. Cada um tinha decorado o ninho a seu gosto e ambos gostavam muito de cozinhar. Um dia, Diego levou um frasco de compota de avelãs a Diogo e este ofereceu-lhe licor de noz. Foi um comportamento gentil, não foi? E, contudo, nenhum deles pensou nisso. Enquanto provava a compota, Diogo ia pensando: "Estas compotas de avelã têm um sabor delicioso de madeira recém-cortada, de manteiga e de trigo." E a inveja apoderou-se dele. Enquanto sorvia o seu licor de noz, Diego resmungava: "Realmente, há quem tenha tudo. Este licor de noz é verdadeiramente suculento! Quando penso que o Diogo pode bebê-lo todas as noites." E o seu coração encheu-se de amargura.
A partir desse dia, cada um olhava o outro com inveja. Quando Diego pensava no ninho soberbo de Diogo, com uma cobertura mole de penas de avestruz, tinha vontade de amuar até ao raiar do sol. Quando Diogo pensava na cama de rede que Diego tinha fabricado, tinha vontade de lhe morder o nariz até fazer sangue.
Um dia, Diego cheirou um odor delicioso de Pinhão nº 5.
— Cheira tão bem em tua casa — disse, sem conseguir esconder o descontentamento.
— Foi uma prenda da minha tia — respondeu Diogo, que semicerrou os olhos para ver melhor o boné de Diego, feito de plumas de avestruz cosidas à mão. "Trá-lo de propósito para me fazer inveja", pensou logo Diogo.
— Que boné! — exclamou, fazendo uma careta.
— Oh, é uma coisinha de nada — respondeu Diego, que era muito vaidoso. — Uma prenda da minha tia costureira.
Nessa mesma noite, Diego pensou na despensa de Diogo e Diogo pensou no guarda-roupa de Diego. Quanto mais o tempo passava, mais eles pensavam no que não tinham: uma colecção de conchas de noz, um bocado de vaso encontrado num campo, uma espiga de milho para decorar a casa… A menor quinquilharia punha-os verdes de inveja. Tudo o que um deles tinha, o outro também
queria ter. Chegavam a brigar duramente para arrancar das mãos do outro uma casca de noz ou um pedacinho de castanha.
Um dia, quando Diego encontrou um trevo de quatro folhas, Diogo pôs-se a choramingar: o trevo era seu, fazia parte do seu território. E quando Diogo apanhou um ramo de papoilas, Diego bateu à porta do amigo para lhe pedir metade do ramo. Diego teve ciúmes do aniversário de Diogo e Diogo teve ciúmes da tosse convulsa de Diego. Diogo teve ciúmes da varicela de Diego e Diego teve ciúmes da constipação de Diogo.
Os ciúmes e a inveja davam-lhes dores de barriga. "Alguém me quer mal", pensava Diego, "a floresta já não gosta tanto de mim, já não me dá tantas coisas como outrora". Acabaram por fazer tanta algazarra que todos os vizinhos do bosque (as rolas, as andorinhas, as pombas e os ratos) se reuniram para trocar impressões.
— Não estamos para aturar as vossas disputas!
— Falem mais baixo!
— Já ninguém se entende!
Toda esta barulheira acabou por chegar aos ouvidos da Grande Coruja, que se deslocou pessoalmente para avaliar a disputa.
Ouviu então as queixas dos dois esquilos.
— O ninho dele é mais macio do que o meu!
— O dele é maior do que o meu!
— Até teve a varicela!
— E ele teve a tosse convulsa!
— Pois, mas a varicela é melhor do que a tosse convulsa! Faz comichão, mas não dói tanto!
A Grande Coruja ria-se por detrás dos seus óculos.
— Daqui a pouco quem tem ciúmes de vocês sou eu. Têm tantas coisas! E, no entanto, nunca estão contentes. Isso é pena! Se fosse a ti, Diego, teria orgulho em ter um amigo como o Diogo. E tu, Diogo, devias estar contente por teres um amigo que faz compota de avelãs tão bem! Vou ensinar-vos como uma pessoa aprende a gostar ainda mais de outra. Diego, tu vais dar compota de avelãs ao Diogo e vais fazer para ele um boné de plumas. Quanto a ti, Diogo, vais fazer licor de noz para o Diego e algumas almofadas para ele decorar o seu pequeno ninho. Sugiro ainda que, de vez em quando, troquem de casa. Terão assim a impressão de ir de férias.
E foi o que aconteceu.
Diego fez um boné de plumas soberbo para o seu amigo Diogo usar no Inverno e Diogo fez pequenas almofadas cheias de lasquinhas de avelã trituradas para Diego. De vez em quando, durante o fim-de-semana, trocavam de casa, só para sentirem como as suas próprias casas eram confortáveis. E Diogo e Diego tornaram-se os melhores amigos do mundo!

Cent histoires du soir
Paris, Ed. Marabout, 2000
Sophie Carquain
(Tradução e adaptação via Clube das Histórias)

domingo, agosto 07, 2011

Tenho esperança nos jovens...

NOTA PRÉVIA: Não pretendo reproduzir com precisão palavras de Eduardo Lourenço na última parte da entrevista ontem na SIC (não as anotei), nem sequer traduzir fielmente pensamento seu; a nossa mente receptora reinterpreta subjectivamente de acordo com a sua disponibilidade ou até necessidade.

De súbito, vem-me esperança renovada - esperança nos jovens, nas novas gerações de jovens.
"Cada geração só transmite à outra aquilo que ela não é"
Sim, parece-me que cada geração 'velha' já não é transmissora: A nova geração recebe (ou adopta?) não o que foi ou é da de seus pais, mas o que não é.

Os jovens de hoje juntam-se, fazem 'ajuntamentos', para estarem acompanhados - uma juventude que não sabe o que a espera. Vazios de  um sentido...? Ou despojados de um sentido? Ou carentes de um sentido? Ou para encontrarem um sentido colectivo?
Não sei.  Eduardo Lourenço ontem falou de triunfo do niilismo e definiu a crise ocidental como essencialmente crise de sentido civilizacional. O meu pedido de desculpa por eu não ter tido tempo para apreender (e o entrevistador não lhe deu mais tempo) se deixou uma mensagem de esperança... de esperança nos jovens, mas falou de um talvez nostalgia de qualquer coisa, ou talvez simplesmente um recomeço. De qualquer modo, fez-me ficar a pensar neles - nos jovens de hoje -, e não acredito que os jovens deixem de procurar um sentido, não acredito que deixem ou desistam de (re)construir um sentido para a humanidade. 

Não me detenho a explicar (ou a explicar-me) porquê. Fiquei, de súbito, com uma nova esperança.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Em férias... humor faz bem

Anedota Búlgara

Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.

Carlos Drummond de Andrade
(Via Amélia Pais)

terça-feira, julho 26, 2011

UAU!

Não há ninguém que não saiba que conceber um modelo de ADD simultaneamente, por um lado, fiável e justo, e, por outro lado, viável para já, é extraordinariamente difícil. E, conseguir isso em poucas semanas... isso então é um feito genial.
Estou indecisa entre a total incredulidade e a expectativa de que Nuno Crato descobriu (ou alguém descobriu e lhe apresentou) uma cabeça genial algures neste nosso Portugal.

terça-feira, julho 19, 2011

"Exames! - disse ele"

Exames! - disse ele". Exames para professores. Exames para alunos do 9º e do 12º ano.. Exames para alunos do 6º e, já agora, do 4º ano.
Não negamos as virtualidades dos exames. Mas se a receita se fica por aí, a educação rapidamente cederá à "explicacite" nacional. Será que é esta a nova taumaturgia educacional, nova pomada santa jibóia de aplicação universal?
Não é, por isso, com agrado, que aqui lembramos a Nuno Crato que "há mais vida para além do 'eduquês' ". (*pp 47-48)
(...) um capítulo-talismã, uma proposta-pérola: os exames, a obsessão central de toda a sua obra. Mas, aguerrrido na sua batalha, Nuno Crato seguramente dispõe de generais. Vejamos quais.
Convoca  (..., ...,...,..................)? Não. Etc., etc., etc.
Refere Nuno Crato algum outro investigador que, seriamente, se ocupe da problemática da avaliação? Das suas vantagens? Dos seus limites? Dos seus riscos? Das suas virtudes? Não refere um único. Nem uma só palavra sobre um único (insistimos) dos problematizadores da avaliação. É no mínimo paradoxal que o capítulo quarto, justamente sobre A polémica dos exames, tenha como bibliografia de fundamentação uns quantos textos de jornal. Não será escandaloso de mais para poder ser verdade?
(...) Mas essa é uma atitude própria da ciência ou da doxa? É uma busca ou é uma ? Ao não analisar um único teórico da avaliação, um único teórico da docimologia, um único analista dos testes e suas metamorfoses, Nuno Crato deixa na sombra toda a complexíssima problemática que subjaz à sua proposta.
Estas questões são estudadas, há décadas, por gente que não é nem menos séria, nem menos rigorosa, nem menos exigente que o Professor Crato. Não são questões fáceis, como pode parecer de algumas antinomias simplistas; nem são o restolho de ideologias. São conquistas civilizacionais. E são estudos longitudinais, reflectidos, cientificamente irrepreensíveis. (*pp 52-54)
____________
(*) Álvaro Gomes (2006). Blues pelo Humanismo Educacional? Edições Flumen.

sexta-feira, julho 15, 2011