segunda-feira, setembro 05, 2011

Será que...?

"Será que cada um tem apenas direito ao tipo de cultura que pode comprar?"

Esta é a pergunta com que termina o comentário do Fred ao meu último post. Mais do que um comentário, é um texto como que "irmão" do meu, e que trago para aqui.


«Fico, às vezes a olhar a estante com não sei já numerar que geração de livros, dado que os mais antigos repousam encaixotados na cave, imprestáveis, à espera da minha coragem de os selecionar para enviar doação a um país de expressão oficial portuguesa, sempre a pensar comigo, egoisticamente, “será que os vão tratar bem?”
Livros que a minha filha não quis levar quando casou e a minha neta não quer ler porque tem mais o que fazer. Tristes, defendidos da poeira mas não do amarelar do tempo, um ou outro obsoleto, desprezados, humilhados e, contudo, sei que basta abrir um caixote para que saltem de novo à minha mão, como cães alegres com o regresso dos donos.
Já soube encontrar neles as imagens de que precisei em determinada altura. Hoje apenas sei dizer “esse já li há muitos anos”. Tenho na memória o título e o autor, se algo me despertar esse meandro cerebral onde arquivei tanta coisa que me ensinaram. Por isso hesito em dá-los. Devia fazê-lo para lhes dar uma nova vida e tenho pena de o fazer, porque ninguém deita fora um amigo e até talvez se riam por os ver tão simples, tão “de bolso”, tão pouco encadernados, tão velhos.
Talvez seja só preguiça. Na estante, por trás de mim, alinham-se os últimos que comprei e ainda muitos das velhas gerações que eu reli ou planeei reler e que, de certa maneira, ainda me consolam apenas com a visão da lombada e a recordação imediata do essencial do seu conteúdo. Os pormenores, a localização de trechos, perderam-se há muito nas teias de aranha que a idade vai tecendo à volta das recordações.
De vez em quando, tiro um da prateleira, procuro com dificuldade algo que sei estar lá e leio para a minha neta, na esperança que ela me peça para o levar. Debalde. Decididamente, os livros já não fazem parte da vida das pessoas; contudo, nunca vi publicar tantos livros como agora, disponíveis nos escaparates dos supermercados, sobre todos os assuntos, muitas vezes valendo-se de um nome que os meios de comunicação elegeram por motivos pouco intelectuais. Será que se vendem? Pergunto-me. Mas se não se vendessem, não se publicariam, por certo.
O que será que se pode aprender com a vida íntima de uma princesa, a experiência de balneário de um futebolista, o golpe maquiavélico de um burlão ou o crime passional de um maluco qualquer? Também há alguns livros sérios, com esplêndidas encadernações e ilustrações, a preços proibitivos, claro. Será que cada um tem apenas direito ao tipo de cultura que pode comprar?»

Frederico

sexta-feira, agosto 26, 2011

Os livros... Outrora?

Ontem tive pinturas na minha casa. O pintor, que é meu conhecido e amigo, às tantas perguntou-me:
_ Não quer fazer mudanças? Esta estante podia sair daqui!
Isto porque tenho a estante a ocupar toda uma parede da minha sala de trabalho e estar, e o televisor que uso é o mais pequeno cá de casa, pois só cabe mesmo à medida num espaço mais alto da dita estante. Ora, estou em vias de substituir um outro pelo que era da minha mãe, bem grande e mais moderno, que poderia pôr ao pé de mim na parede, se tivesse espaço.
Respondi:
_Ah, isso nem pensar! Os livros são uma companhia, gosto muito de os ter aqui ao meu lado.
E perguntou ele:
_Leu estes livros todos?
_ Alguns são para consulta, os outros li, sim, e boa parte quando era adolescente e jovem adulta (respondi eu, que tenho os livros menos antigos e os recentes no quarto, uns arrumados, outros empilhados à espera de prateleiras).
Seria difícil explicar ao meu amigo pintor por que é que os livros da minha salinha de estar são uma companhia, como que viva, quando a minha memória de galinha não consegue descrever os seus conteúdos. Mas, aqui, posso explicar...
Não é por já não conseguir descrever os conteúdos que os livros me são menos familiares. Conheço-os todos, seja por ideias essenciais - algumas marcantes -, seja por emoções, seja pela memória de encantamentos. Todos fazem parte da minha vida, e são sobretudo os de leitura mais longínqua que são companhia mais viva. Porque eu sei que, sem os ter lido, seria uma pessoa diferente, uma pessoa mais pobre interiormente - sem dúvida.

Naquele tempo, quando casei, para mobília o dinheiro só dava para aquela estritamente indispensável, mas a estante não era dispensável e, então, era improvisada com uns cubos  abertos e sobrepostos. E o valor do recheio da casa era criado só pelos livros para os quais os salários tinham que esticar (no meu caso, também com a coleção de clássicos do meu avô paterno, que não conheci).
Hoje, os netos não lhes atribuem o valor que lhes dávamos (e que as minhas filhas ainda deram também). Não estou a pensar que os jovens de hoje vão ser interiormente mais pobres - eles têm agora outros meios de formação e comunicação. Nem penso que isso tenha a ver com serem criados com grandes estantes em casa e com estímulos à leitura, pois conheço bem um parzinho querido de irmãos - ele (17 anos) pouco mais leu que os livros obrigados pela escola, e ela (13 anos) é mais receptiva ao estímulo mas, mesmo assim, demora a ler um livro o tempo que a mãe (e a avó) levava a devorar vários.

Isto não é um escrito saudosista, é só uma constatação de tempos tão aceleradamente novos, embora sem deixar de conter um ponto de interrogação. De qualquer modo, este é um blogue de memórias...

Contraste numa casa do 'antigamente'

domingo, agosto 21, 2011

Poema...

GACELA DEL AMOR DESESPERADO

La noche no quiere venir
para que tú no vengas,
ni yo pueda ir.

Pero yo iré,
aunque un sol de alacranes me coma la sien.

Pero tú vendrás
con la lengua quemada por la lluvia de sal.

El día no quiere venir
para que tú no vengas,
ni yo pueda ir.

Pero yo iré
entregando a los sapos mi mordido clavel.

Pero tú vendrás
por las turbias cloacas de la oscuridad.

Ni la noche ni el día quieren venir
para que por ti muera
y tú mueras por mí.



-1898-1936


Com o agradecimento à Amélia Pais

quinta-feira, agosto 11, 2011

Será o consumismo produto da inveja?

(Moral desta estória: Afinal, todos seríamos mais felizes seguindo os conselhos da Grande Coruja!)



Os esquilos Diogo e Diego moravam perto um do outro. Eram como irmãos gémeos, embora Diogo tivesse uma cauda totalmente ruiva e a cauda de Diego tivesse alguns pêlos brancos. Diogo tinha construído a sua casa no buraco de uma nogueira e Diego tinha escolhido uma aveleira. Cada um tinha decorado o ninho a seu gosto e ambos gostavam muito de cozinhar. Um dia, Diego levou um frasco de compota de avelãs a Diogo e este ofereceu-lhe licor de noz. Foi um comportamento gentil, não foi? E, contudo, nenhum deles pensou nisso. Enquanto provava a compota, Diogo ia pensando: "Estas compotas de avelã têm um sabor delicioso de madeira recém-cortada, de manteiga e de trigo." E a inveja apoderou-se dele. Enquanto sorvia o seu licor de noz, Diego resmungava: "Realmente, há quem tenha tudo. Este licor de noz é verdadeiramente suculento! Quando penso que o Diogo pode bebê-lo todas as noites." E o seu coração encheu-se de amargura.
A partir desse dia, cada um olhava o outro com inveja. Quando Diego pensava no ninho soberbo de Diogo, com uma cobertura mole de penas de avestruz, tinha vontade de amuar até ao raiar do sol. Quando Diogo pensava na cama de rede que Diego tinha fabricado, tinha vontade de lhe morder o nariz até fazer sangue.
Um dia, Diego cheirou um odor delicioso de Pinhão nº 5.
— Cheira tão bem em tua casa — disse, sem conseguir esconder o descontentamento.
— Foi uma prenda da minha tia — respondeu Diogo, que semicerrou os olhos para ver melhor o boné de Diego, feito de plumas de avestruz cosidas à mão. "Trá-lo de propósito para me fazer inveja", pensou logo Diogo.
— Que boné! — exclamou, fazendo uma careta.
— Oh, é uma coisinha de nada — respondeu Diego, que era muito vaidoso. — Uma prenda da minha tia costureira.
Nessa mesma noite, Diego pensou na despensa de Diogo e Diogo pensou no guarda-roupa de Diego. Quanto mais o tempo passava, mais eles pensavam no que não tinham: uma colecção de conchas de noz, um bocado de vaso encontrado num campo, uma espiga de milho para decorar a casa… A menor quinquilharia punha-os verdes de inveja. Tudo o que um deles tinha, o outro também
queria ter. Chegavam a brigar duramente para arrancar das mãos do outro uma casca de noz ou um pedacinho de castanha.
Um dia, quando Diego encontrou um trevo de quatro folhas, Diogo pôs-se a choramingar: o trevo era seu, fazia parte do seu território. E quando Diogo apanhou um ramo de papoilas, Diego bateu à porta do amigo para lhe pedir metade do ramo. Diego teve ciúmes do aniversário de Diogo e Diogo teve ciúmes da tosse convulsa de Diego. Diogo teve ciúmes da varicela de Diego e Diego teve ciúmes da constipação de Diogo.
Os ciúmes e a inveja davam-lhes dores de barriga. "Alguém me quer mal", pensava Diego, "a floresta já não gosta tanto de mim, já não me dá tantas coisas como outrora". Acabaram por fazer tanta algazarra que todos os vizinhos do bosque (as rolas, as andorinhas, as pombas e os ratos) se reuniram para trocar impressões.
— Não estamos para aturar as vossas disputas!
— Falem mais baixo!
— Já ninguém se entende!
Toda esta barulheira acabou por chegar aos ouvidos da Grande Coruja, que se deslocou pessoalmente para avaliar a disputa.
Ouviu então as queixas dos dois esquilos.
— O ninho dele é mais macio do que o meu!
— O dele é maior do que o meu!
— Até teve a varicela!
— E ele teve a tosse convulsa!
— Pois, mas a varicela é melhor do que a tosse convulsa! Faz comichão, mas não dói tanto!
A Grande Coruja ria-se por detrás dos seus óculos.
— Daqui a pouco quem tem ciúmes de vocês sou eu. Têm tantas coisas! E, no entanto, nunca estão contentes. Isso é pena! Se fosse a ti, Diego, teria orgulho em ter um amigo como o Diogo. E tu, Diogo, devias estar contente por teres um amigo que faz compota de avelãs tão bem! Vou ensinar-vos como uma pessoa aprende a gostar ainda mais de outra. Diego, tu vais dar compota de avelãs ao Diogo e vais fazer para ele um boné de plumas. Quanto a ti, Diogo, vais fazer licor de noz para o Diego e algumas almofadas para ele decorar o seu pequeno ninho. Sugiro ainda que, de vez em quando, troquem de casa. Terão assim a impressão de ir de férias.
E foi o que aconteceu.
Diego fez um boné de plumas soberbo para o seu amigo Diogo usar no Inverno e Diogo fez pequenas almofadas cheias de lasquinhas de avelã trituradas para Diego. De vez em quando, durante o fim-de-semana, trocavam de casa, só para sentirem como as suas próprias casas eram confortáveis. E Diogo e Diego tornaram-se os melhores amigos do mundo!

Cent histoires du soir
Paris, Ed. Marabout, 2000
Sophie Carquain
(Tradução e adaptação via Clube das Histórias)

domingo, agosto 07, 2011

Tenho esperança nos jovens...

NOTA PRÉVIA: Não pretendo reproduzir com precisão palavras de Eduardo Lourenço na última parte da entrevista ontem na SIC (não as anotei), nem sequer traduzir fielmente pensamento seu; a nossa mente receptora reinterpreta subjectivamente de acordo com a sua disponibilidade ou até necessidade.

De súbito, vem-me esperança renovada - esperança nos jovens, nas novas gerações de jovens.
"Cada geração só transmite à outra aquilo que ela não é"
Sim, parece-me que cada geração 'velha' já não é transmissora: A nova geração recebe (ou adopta?) não o que foi ou é da de seus pais, mas o que não é.

Os jovens de hoje juntam-se, fazem 'ajuntamentos', para estarem acompanhados - uma juventude que não sabe o que a espera. Vazios de  um sentido...? Ou despojados de um sentido? Ou carentes de um sentido? Ou para encontrarem um sentido colectivo?
Não sei.  Eduardo Lourenço ontem falou de triunfo do niilismo e definiu a crise ocidental como essencialmente crise de sentido civilizacional. O meu pedido de desculpa por eu não ter tido tempo para apreender (e o entrevistador não lhe deu mais tempo) se deixou uma mensagem de esperança... de esperança nos jovens, mas falou de um talvez nostalgia de qualquer coisa, ou talvez simplesmente um recomeço. De qualquer modo, fez-me ficar a pensar neles - nos jovens de hoje -, e não acredito que os jovens deixem de procurar um sentido, não acredito que deixem ou desistam de (re)construir um sentido para a humanidade. 

Não me detenho a explicar (ou a explicar-me) porquê. Fiquei, de súbito, com uma nova esperança.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Em férias... humor faz bem

Anedota Búlgara

Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.

Carlos Drummond de Andrade
(Via Amélia Pais)

terça-feira, julho 26, 2011

UAU!

Não há ninguém que não saiba que conceber um modelo de ADD simultaneamente, por um lado, fiável e justo, e, por outro lado, viável para já, é extraordinariamente difícil. E, conseguir isso em poucas semanas... isso então é um feito genial.
Estou indecisa entre a total incredulidade e a expectativa de que Nuno Crato descobriu (ou alguém descobriu e lhe apresentou) uma cabeça genial algures neste nosso Portugal.

terça-feira, julho 19, 2011

"Exames! - disse ele"

Exames! - disse ele". Exames para professores. Exames para alunos do 9º e do 12º ano.. Exames para alunos do 6º e, já agora, do 4º ano.
Não negamos as virtualidades dos exames. Mas se a receita se fica por aí, a educação rapidamente cederá à "explicacite" nacional. Será que é esta a nova taumaturgia educacional, nova pomada santa jibóia de aplicação universal?
Não é, por isso, com agrado, que aqui lembramos a Nuno Crato que "há mais vida para além do 'eduquês' ". (*pp 47-48)
(...) um capítulo-talismã, uma proposta-pérola: os exames, a obsessão central de toda a sua obra. Mas, aguerrrido na sua batalha, Nuno Crato seguramente dispõe de generais. Vejamos quais.
Convoca  (..., ...,...,..................)? Não. Etc., etc., etc.
Refere Nuno Crato algum outro investigador que, seriamente, se ocupe da problemática da avaliação? Das suas vantagens? Dos seus limites? Dos seus riscos? Das suas virtudes? Não refere um único. Nem uma só palavra sobre um único (insistimos) dos problematizadores da avaliação. É no mínimo paradoxal que o capítulo quarto, justamente sobre A polémica dos exames, tenha como bibliografia de fundamentação uns quantos textos de jornal. Não será escandaloso de mais para poder ser verdade?
(...) Mas essa é uma atitude própria da ciência ou da doxa? É uma busca ou é uma ? Ao não analisar um único teórico da avaliação, um único teórico da docimologia, um único analista dos testes e suas metamorfoses, Nuno Crato deixa na sombra toda a complexíssima problemática que subjaz à sua proposta.
Estas questões são estudadas, há décadas, por gente que não é nem menos séria, nem menos rigorosa, nem menos exigente que o Professor Crato. Não são questões fáceis, como pode parecer de algumas antinomias simplistas; nem são o restolho de ideologias. São conquistas civilizacionais. E são estudos longitudinais, reflectidos, cientificamente irrepreensíveis. (*pp 52-54)
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(*) Álvaro Gomes (2006). Blues pelo Humanismo Educacional? Edições Flumen.

sexta-feira, julho 15, 2011

quinta-feira, julho 14, 2011

Silêncio... não perturbar...

Meditation

Simone Martini (1312-1317), Meditation

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ADENDA POSTERIOR
Comentário do Professor Álvaro Gomes, que, com o meu agradecimento, trancrevo para aqui pois foi escrito, alusivo a este post, numa posterior (mais actualizada) postagem minha.

«Presenteou-nos, há dias, a I. C. com um belíssimo quadro de Simone Martini. A ausência de comentários a uma obra-prima como aquela dever-se-á, quero imaginar, à meditação profunda que esse quadro em nós provoca. Permita-me, no entanto, I. C., que rompa este silêncio e, mesmo se com algum atraso, aqui venha agradecer-lhe aquele precioso brinde.

Primeiro, pela representação. Martinho, personalidade escolhida pelo pintor, acaso por ser seu homónimo (Martini), é aquela figura popular que está na base dos nossos “S. Martinho, castanhas e vinho.”, “Em dia de S. Martinho, vai à adega e prova o vinho...” ou o “Verão de S. Martinho”, etc. Mas nele assenta também a ideia de solidariedade, pois é uma das primeiras representações deste conceito. Conta a lenda que, ao ver um pobre, não lhe deu uma esmola: rasgou o seu manto a meio e partilhou-o com ele. Impressiva lição esta! Quem há, entre nós, que consiga partilhar, 'a meias', o muito ou o pouco que possui?
Ora, ao contemplarmos este quadro, o que verdadeiramente surpreende é aquele olhar, fechado mas sereno, em meditação profunda, estático e quase extático, num recolhimento alheio ao contexto que o envolve. E surpreende-nos tanto mais, quanto uma das marcas mais impressivas deste pintor é, para quem conhece a sua obra, a força expressiva que ele imprime ao olhar das suas personagens, que exibem, genericamente, olhares vivos (directos, uns; oblíquos, outros), mas de uma força interior que marca e toca, vivamente, quem as contempla...

Depois, pela substância. A meditação parece ser a força daquele olhar que se recolhe, se alheia, se interioriza... numa espécie de som do silêncio, de que, contraditando algumas tecnocracias da moda, nós falávamos em obra já longínqua. “Um educador – escrevíamos – é aquele que, por excelência, sabe criar momentos de silêncio profundo, nos seus alunos. [...] É nesses momentos de assombro que a sua acção vibra neles, em ressonâncias sentidas de uma comunicação ímpar, de uma comunicação única, de uma comunicação irrepetível.” [In Á. G. (2000). Do Som do Silêncio. Lisboa: Didáct. Editora, p. 97.]”
Ora, a palavra meditação tem muito a ver com a ideia de avaliação. Ambas são palavras oriundas da medicina. Ambas têm a ver com a saúde. Com efeito, se meditação (*i-e. med-) é cognata de medicação, médico, medicina, medicamento, mezinha..., a avaliação (*i-e. val-) é, por seu lado, cognata de valer, convalescer, válido, inválido, valência, validar, valimento, valioso, valor, valorizar...
É, pois, de saúde, de vigor, que falamos: saúde biológica, saúde institucional, saúde política.


Por fim, pela essência e pela fragrância. Este Martinho, de barba já grisalha, era um amadurecido bispo [em grego, [epi]scopein significa ver de cima, equivalendo ao latim [super]videre – com idêntico significado; cf. supervisor); paradoxalmente, neste quadro, se bem que ostentando os sinais exteriores, Martinho “não olha de cima”; alheio, absorto e como que distanciando-se da sua condição, ele “olha para dentro”, em profunda introspecção, buscando os sinais interiores da sua humanidade.
Num tempo em que tanto se fala da avaliação externa (dos professores e dos alunos, mas raramente dos sistemas e dos políticos – nesses confia-se ou fia-se!), Simone Martini (1284/1344) convida-nos, há 700 anos!, à ponderação, à meditação, ao recolhimento, à auto-análise, ao exame interior...
E é para a urgência desta meditação interior, deste repensar, que, num tempo de decisões imponderadas e imponderáveis, de enxurradas mediáticas, da banalização de cursos, concursos ou discursos, Isabel Campeão etereamente nos convida e nos convoca, através do subtil e sublime quadro que nos propõe. Gratos lhe deveríamos ficar, por isso. Eu estou. Porque ‘este’ Martini é um grande aperitivo...

Á. G.
27/7/11 10:46 AM »

domingo, julho 10, 2011

Pela Grécia...Pelo Património Cultural mundial

Brilhante... Imprescindível visualizar.
Com o agradecimento ao Professor Á.G. e salientando que começou por o colocar no YouTube em francês, mas... essa versão foi retirada!!!



sábado, julho 09, 2011

Do estado de graça ao 'nim' foi um passo, mas falta o salto de grande altura

Com todo o respeito e solidariedade que tenho pela "classe docente", da qual me sentirei sempre a fazer parte, apesar de aposentada, é inegável e os próprios professores reconhecem em si um defeito que desde sempre foi uma característica da maioria: só se informam devidamente, só lêem legislação (e, agora, programas eleitorais), só começam a prestar atenção pelas suas próprias cabeças ao que lhes diz respeito quando males já estão a cair em cima da sua. Os professores não têm que ser muito politizados, mas deveriam assumir aquilo que se espera deles: serem intelectualmente informados, pesquisadores, se necessário, das ideias daqueles em quem vão votar e daqueles que andam "na berra" como possíveis ministros, especialmente da Educação; e também participarem activamente nos seus sindicatos em vez de se limitarem a atirar culpas aos dirigentes, como se os sindicatos fossem apenas as direcções e não tb os próprios sindicalizados.
 Eu e bastantes outros, se conhecemos bem Nuno Crato há que tempos não foi por que tenhamos feito algum curso para identificar ideias e ignorâncias!
Além disto, a obcessão com a ADD (embora havendo toda a razão para contestar fortemente modelos de avaliação injustos, não formativos mas sim penalizadores por motivos economicistas, carregados de burocracia e desestabilizadores das relações de trabalho e da cooperação) cegou muitos quanto ao resto, nomeadamente quanto ao perigo de destruição da Escola Pública de qualidade para todos.
O povo português foi iludido, mas depressa o percebeu, o que se observa nos comentários "de rua" de pessoas com pouca instrução mas que já descortinaram esse "programa oculto" sob o chamado "programa do governo", que se irá revelando a pouco e pouco. Por isso, custa-me dizer, mas é preciso dizer aos caros colegas professores que têm obrigação de descortinar mais depressa o programa do governo, ao menos no que respeita à Educação-Ensino (embora esta parte não se possa desligar do todo). Além de que não se pode ser bom professor quando a cabeça se descentra (e é empurrada por bastante "blogosfera" a desviar-se) da sala de aula, dessa sala onde pais e mães desde a classe média até à mais desfavorecida deverão poder ter os seus filhos, confiantes de que serão instruídos e bem formados.

quinta-feira, julho 07, 2011

Carta Aberta de Á.G. à Moody's

Nota prévia:
Agradeço ao Professor Álvaro Gomes a simpatia com que respondeu ao meu pedido de autorização para trazer para aqui a brilhante e reconfortante Carta Aberta à Moody's que deixou na caixa de comentários deste post do fsantos.
Foi ontem e, inesperadamente, o "augúrio", o "vaticínio" e o "oráculo" expressados nessa Carta começaram a indiciar-se já hoje. Que essa pequenininha luz hoje vislumbrada lá no fundo do túnel não se extinga e anime os povos da Europa a exigirem "ratings" criteriosos e isentos.

Carta Aberta à
Moody’s

Caros sábios da sábia Moody’s.
Eu já tinha muita consideração pelo vosso centenário crânio (tendes, sensivelmente, a mesma idade do nosso Manoel de Oliveira – em rigor, ele tem um aninho mais). Mas, enquanto este cineasta é mestre e antigo, vossências são discípulos velhos e caducos. Sem engenho e sem arte, vosselências (perdoar-me-ão, mas) vão de tombo em tombo. E é meu pio dever em vosso socorro vir.
Ainda há pouco garantiam ser investimento de primeira água um banco que, dias depois, mergulhava na (des)dita e os banqueiros Irmãos Lehman afogaram-se nas bóias da vossa segura garantia… Vossas insolências garantiam ser investimento do mais alto quilate o país de ouro que a Islândia é e quase em bancarrota entrou, logo a seguir.
Com tais acertos e tais rigores, é uma bênção para nós vê-los fal(h)ar assim, pois que melhor garantia do nosso vigor poderíamos nós buscar?
Apesar de tantos e tão sábios oráculos, estão vosselências mui prudentes. É sabido que não conhecem Portugal, nem este piccolo país lhes diz seja o que for. Mas, justamente por isso, sentem-se legitimados para oracular, augurar, vaticinar, pitonisar…
Só que eu, generoso que sou, graciosamente os informo: Portugal é um rectângulo quase (im)perfeito; mas daí a vossas insolências o tomarem por “bola” de trapo, vai um abismo lógico. Têm-na pontapeado a vosso bel-prazer e acabam, agora, de a chutar para lixo. Por nós, ficámos muito gratos ao vosso augúrio, pois, ao entrarmos na lixeira, fomos lá encontrar, justamente, não apenas a vossa bela terra (sim, os states e os united ), mas também os nipões e, paradoxo dos paradoxos!, a sábia Moody’s… Conhecem?
Este meu país, sabem?, vive há quase mil anos. Eu sei que não sabiam, mas eu informo-os de bom grado. Nós, lusos, veremos passar muitas moddy’s, muitas fitch’s… e muitas poor’s… nas passerelles da rapina! Vossências passarão, nós fi(n)caremos.
Numa irrepreensível lógica, vossências vaticinam e pitonisam segundo elementares forças, pois tudo delas depende. Se não, vejamos:

Sol e Chuva
Vai chover? Descem o ranking, pois inundações haver pode. E, se houver míngua, podem secar as albufeiras.
Vai fazer sol? Descem o ranking, não vá haver fogos. Há nuvens? Baixam o ranking, pois a atmosfera será sombria. Não há nuvens? Baixam o ranking, por haver luz em excesso, o que exige óculos da mafia…

Eclipses
Vai haver eclipse? Descem o ranking, porque é sinal de mau agoiro. Não vai haver eclipse? Descem o ranking, porque, não havendo astral, haverá eclipse financeiro.

Vento
Não há vento? Baixam o ranking, que as eólicas não produzem. Há vento? Baixam o ranking, não venha aí algum tornado.

Mar
O mar está encapelado? Baixam o ranking, não vá naufragar algum petroleiro. Está calmo, baixam o ranking, pois não haverá campeonato de windsurf.

Petróleo
Sobe o preço do petróleo? Descem o ranking, porque isso agravará a nossa balança. Desce o petróleo? Descem o ranking, porque isso afectará o vosso balanço.

Europa
A Europa diz que acredita em nós? Descem o ranking, porque suspeitam de mentirola diplomática. A Europa diz que não acredita em nós? Descem o ranking, porque a Europa é credível.

Ouro
Sobe o ouro? Descem o ranking, pois desce o euro. Sobe o euro? Descem o ranking, pois baixa o ouro…

Espirro
Espirra a Grécia? Baixam o ranking, não venha aí o H5N1. Aprova o parlamento o programa da troika? Baixam o ranking, pois “quem mais jura mais mente”. Portugal elegeu novo governo? Baixam o ranking, porque é inexperiente. No governo anterior baixavam o ranking, porque eram experientes de mais.

Ora, com critérios tão lineares e tão cientóides como os vossos, doer, só me dói que os terreiros dos passos (perdão, dos paços) ou os presépios de belém, perante vossências, andem a imodium e se ponham de giolhos. Mas eu, que nutro profundérrima simpatia por tudo quanto me cheire a moddy’s e a blues, há um augúrio, um vaticínio, um oráculo que quero, em português suave, reservar para vossências: “Vão… passear (à Lua. Far-lhes-á bem uma mudança “d’ares”… E por lá fiquem, sem oxigénio, que nós ficaremos bem, graças a vós!)”!
Á. G.

Quando tenho a sensação de ausência de flores...

... vou olhar as que cultivo na minha varanda feita jardim


quarta-feira, julho 06, 2011

Tocata e Fuga

TOCATA E FUGA
É tudo aquilo que só existe no ar,        
0 que de nós, além de nós, se expande.
É a vertigem para o alto, igual à grande          
Tocata e fuga em ré menor de Bach.
É o delírio de um bêbedo num bar       
É um não sair do chão por mais que se ande
Tudo que em mim, somente em mim existe,
Me transporta, me absorve, me suspende,
Me faz sorrir embora eu esteja triste,   
Triste naquele universal sentido          
Que a música interpreta e se compreende       
Dante Milano (Brasil,1899-1991)
(via Amélia Pais)


Também detesto Sócrates, mas detestemos com isenção e justiça...

...Detesto Sócrates e nunca votei no seu partido (nem em nenhum à sua direita!)

Jornal i de 5 de Julho de 2011 :  ....77 escolas em obras mas só dinheiro até Janeiro
(...) O actual programa de requalificação foi da iniciativa do executivo de José Sócrates, que criou a Parque Escolar, em 2008, para garantir a requalificação de 213 escolas a nível nacional.
(...)Chegou-se também à conclusão que na maioria dos casos, e à medida que os estabelecimentos eram renovados, o nível de absentismo e de violência baixou. Para comprovar esses dados foram encomendados alguns estudos.
(...)








Etc., etc. 
Fui para a minha última escola quando foi inaugurada como escola autónoma, há muitos anos mas constituída por  já velhos pavilhões prefabricados e "provisórios", antes anexos da escola secundária ao lado. E lá se ia fazendo remendos quando chovia nesta ou naquela sala de aula, graças ao engenho e dedicação de um dos nossos funcionários, enquanto os alunos fugiam para a pequena sala de convívio quando chovia nos páteos. O ambiente físico era propício às agressividades nos recreios pois era difícil a vigilância de tantos espaços entre os ditos pavilhões. Só há dois anos tive o prazer de ver, ao ir à escola pela primeira vez depois de aposentada, uma nova construção com condições e apetrechamento incomparáveis com aqueles em que trabalhei tantos anos. (Trata-se da EB 2.3 Professor Lindley Cintra, sede de agrupamento e, há um ano, integrada em mega-agrupamento)