Nota prévia:
Agradeço ao Professor Álvaro Gomes a simpatia com que respondeu ao meu pedido de autorização para trazer para aqui a brilhante e reconfortante Carta Aberta à Moody's que deixou na caixa de comentários deste post do fsantos.
Foi ontem e, inesperadamente, o "augúrio", o "vaticínio" e o "oráculo" expressados nessa Carta começaram a indiciar-se já hoje. Que essa pequenininha luz hoje vislumbrada lá no fundo do túnel não se extinga e anime os povos da Europa a exigirem "ratings" criteriosos e isentos.
Carta Aberta à
Moody’s
Caros sábios da sábia Moody’s.
Eu já tinha muita consideração pelo vosso centenário crânio (tendes, sensivelmente, a mesma idade do nosso Manoel de Oliveira – em rigor, ele tem um aninho mais). Mas, enquanto este cineasta é mestre e antigo, vossências são discípulos velhos e caducos. Sem engenho e sem arte, vosselências (perdoar-me-ão, mas) vão de tombo em tombo. E é meu pio dever em vosso socorro vir.
Ainda há pouco garantiam ser investimento de primeira água um banco que, dias depois, mergulhava na (des)dita e os banqueiros Irmãos Lehman afogaram-se nas bóias da vossa segura garantia… Vossas insolências garantiam ser investimento do mais alto quilate o país de ouro que a Islândia é e quase em bancarrota entrou, logo a seguir.
Com tais acertos e tais rigores, é uma bênção para nós vê-los fal(h)ar assim, pois que melhor garantia do nosso vigor poderíamos nós buscar?
Apesar de tantos e tão sábios oráculos, estão vosselências mui prudentes. É sabido que não conhecem Portugal, nem este piccolo país lhes diz seja o que for. Mas, justamente por isso, sentem-se legitimados para oracular, augurar, vaticinar, pitonisar…
Só que eu, generoso que sou, graciosamente os informo: Portugal é um rectângulo quase (im)perfeito; mas daí a vossas insolências o tomarem por “bola” de trapo, vai um abismo lógico. Têm-na pontapeado a vosso bel-prazer e acabam, agora, de a chutar para lixo. Por nós, ficámos muito gratos ao vosso augúrio, pois, ao entrarmos na lixeira, fomos lá encontrar, justamente, não apenas a vossa bela terra (sim, os states e os united ), mas também os nipões e, paradoxo dos paradoxos!, a sábia Moody’s… Conhecem?
Este meu país, sabem?, vive há quase mil anos. Eu sei que não sabiam, mas eu informo-os de bom grado. Nós, lusos, veremos passar muitas moddy’s, muitas fitch’s… e muitas poor’s… nas passerelles da rapina! Vossências passarão, nós fi(n)caremos.
Numa irrepreensível lógica, vossências vaticinam e pitonisam segundo elementares forças, pois tudo delas depende. Se não, vejamos:
Sol e Chuva
Vai chover? Descem o ranking, pois inundações haver pode. E, se houver míngua, podem secar as albufeiras.
Vai fazer sol? Descem o ranking, não vá haver fogos. Há nuvens? Baixam o ranking, pois a atmosfera será sombria. Não há nuvens? Baixam o ranking, por haver luz em excesso, o que exige óculos da mafia…
Eclipses
Vai haver eclipse? Descem o ranking, porque é sinal de mau agoiro. Não vai haver eclipse? Descem o ranking, porque, não havendo astral, haverá eclipse financeiro.
Vento
Não há vento? Baixam o ranking, que as eólicas não produzem. Há vento? Baixam o ranking, não venha aí algum tornado.
Mar
O mar está encapelado? Baixam o ranking, não vá naufragar algum petroleiro. Está calmo, baixam o ranking, pois não haverá campeonato de windsurf.
Petróleo
Sobe o preço do petróleo? Descem o ranking, porque isso agravará a nossa balança. Desce o petróleo? Descem o ranking, porque isso afectará o vosso balanço.
Europa
A Europa diz que acredita em nós? Descem o ranking, porque suspeitam de mentirola diplomática. A Europa diz que não acredita em nós? Descem o ranking, porque a Europa é credível.
Ouro
Sobe o ouro? Descem o ranking, pois desce o euro. Sobe o euro? Descem o ranking, pois baixa o ouro…
Espirro
Espirra a Grécia? Baixam o ranking, não venha aí o H5N1. Aprova o parlamento o programa da troika? Baixam o ranking, pois “quem mais jura mais mente”. Portugal elegeu novo governo? Baixam o ranking, porque é inexperiente. No governo anterior baixavam o ranking, porque eram experientes de mais.
Ora, com critérios tão lineares e tão cientóides como os vossos, doer, só me dói que os terreiros dos passos (perdão, dos paços) ou os presépios de belém, perante vossências, andem a imodium e se ponham de giolhos. Mas eu, que nutro profundérrima simpatia por tudo quanto me cheire a moddy’s e a blues, há um augúrio, um vaticínio, um oráculo que quero, em português suave, reservar para vossências: “Vão… passear (à Lua. Far-lhes-á bem uma mudança “d’ares”… E por lá fiquem, sem oxigénio, que nós ficaremos bem, graças a vós!)”!
Á. G.