domingo, julho 10, 2011

Pela Grécia...Pelo Património Cultural mundial

Brilhante... Imprescindível visualizar.
Com o agradecimento ao Professor Á.G. e salientando que começou por o colocar no YouTube em francês, mas... essa versão foi retirada!!!



sábado, julho 09, 2011

Do estado de graça ao 'nim' foi um passo, mas falta o salto de grande altura

Com todo o respeito e solidariedade que tenho pela "classe docente", da qual me sentirei sempre a fazer parte, apesar de aposentada, é inegável e os próprios professores reconhecem em si um defeito que desde sempre foi uma característica da maioria: só se informam devidamente, só lêem legislação (e, agora, programas eleitorais), só começam a prestar atenção pelas suas próprias cabeças ao que lhes diz respeito quando males já estão a cair em cima da sua. Os professores não têm que ser muito politizados, mas deveriam assumir aquilo que se espera deles: serem intelectualmente informados, pesquisadores, se necessário, das ideias daqueles em quem vão votar e daqueles que andam "na berra" como possíveis ministros, especialmente da Educação; e também participarem activamente nos seus sindicatos em vez de se limitarem a atirar culpas aos dirigentes, como se os sindicatos fossem apenas as direcções e não tb os próprios sindicalizados.
 Eu e bastantes outros, se conhecemos bem Nuno Crato há que tempos não foi por que tenhamos feito algum curso para identificar ideias e ignorâncias!
Além disto, a obcessão com a ADD (embora havendo toda a razão para contestar fortemente modelos de avaliação injustos, não formativos mas sim penalizadores por motivos economicistas, carregados de burocracia e desestabilizadores das relações de trabalho e da cooperação) cegou muitos quanto ao resto, nomeadamente quanto ao perigo de destruição da Escola Pública de qualidade para todos.
O povo português foi iludido, mas depressa o percebeu, o que se observa nos comentários "de rua" de pessoas com pouca instrução mas que já descortinaram esse "programa oculto" sob o chamado "programa do governo", que se irá revelando a pouco e pouco. Por isso, custa-me dizer, mas é preciso dizer aos caros colegas professores que têm obrigação de descortinar mais depressa o programa do governo, ao menos no que respeita à Educação-Ensino (embora esta parte não se possa desligar do todo). Além de que não se pode ser bom professor quando a cabeça se descentra (e é empurrada por bastante "blogosfera" a desviar-se) da sala de aula, dessa sala onde pais e mães desde a classe média até à mais desfavorecida deverão poder ter os seus filhos, confiantes de que serão instruídos e bem formados.

quinta-feira, julho 07, 2011

Carta Aberta de Á.G. à Moody's

Nota prévia:
Agradeço ao Professor Álvaro Gomes a simpatia com que respondeu ao meu pedido de autorização para trazer para aqui a brilhante e reconfortante Carta Aberta à Moody's que deixou na caixa de comentários deste post do fsantos.
Foi ontem e, inesperadamente, o "augúrio", o "vaticínio" e o "oráculo" expressados nessa Carta começaram a indiciar-se já hoje. Que essa pequenininha luz hoje vislumbrada lá no fundo do túnel não se extinga e anime os povos da Europa a exigirem "ratings" criteriosos e isentos.

Carta Aberta à
Moody’s

Caros sábios da sábia Moody’s.
Eu já tinha muita consideração pelo vosso centenário crânio (tendes, sensivelmente, a mesma idade do nosso Manoel de Oliveira – em rigor, ele tem um aninho mais). Mas, enquanto este cineasta é mestre e antigo, vossências são discípulos velhos e caducos. Sem engenho e sem arte, vosselências (perdoar-me-ão, mas) vão de tombo em tombo. E é meu pio dever em vosso socorro vir.
Ainda há pouco garantiam ser investimento de primeira água um banco que, dias depois, mergulhava na (des)dita e os banqueiros Irmãos Lehman afogaram-se nas bóias da vossa segura garantia… Vossas insolências garantiam ser investimento do mais alto quilate o país de ouro que a Islândia é e quase em bancarrota entrou, logo a seguir.
Com tais acertos e tais rigores, é uma bênção para nós vê-los fal(h)ar assim, pois que melhor garantia do nosso vigor poderíamos nós buscar?
Apesar de tantos e tão sábios oráculos, estão vosselências mui prudentes. É sabido que não conhecem Portugal, nem este piccolo país lhes diz seja o que for. Mas, justamente por isso, sentem-se legitimados para oracular, augurar, vaticinar, pitonisar…
Só que eu, generoso que sou, graciosamente os informo: Portugal é um rectângulo quase (im)perfeito; mas daí a vossas insolências o tomarem por “bola” de trapo, vai um abismo lógico. Têm-na pontapeado a vosso bel-prazer e acabam, agora, de a chutar para lixo. Por nós, ficámos muito gratos ao vosso augúrio, pois, ao entrarmos na lixeira, fomos lá encontrar, justamente, não apenas a vossa bela terra (sim, os states e os united ), mas também os nipões e, paradoxo dos paradoxos!, a sábia Moody’s… Conhecem?
Este meu país, sabem?, vive há quase mil anos. Eu sei que não sabiam, mas eu informo-os de bom grado. Nós, lusos, veremos passar muitas moddy’s, muitas fitch’s… e muitas poor’s… nas passerelles da rapina! Vossências passarão, nós fi(n)caremos.
Numa irrepreensível lógica, vossências vaticinam e pitonisam segundo elementares forças, pois tudo delas depende. Se não, vejamos:

Sol e Chuva
Vai chover? Descem o ranking, pois inundações haver pode. E, se houver míngua, podem secar as albufeiras.
Vai fazer sol? Descem o ranking, não vá haver fogos. Há nuvens? Baixam o ranking, pois a atmosfera será sombria. Não há nuvens? Baixam o ranking, por haver luz em excesso, o que exige óculos da mafia…

Eclipses
Vai haver eclipse? Descem o ranking, porque é sinal de mau agoiro. Não vai haver eclipse? Descem o ranking, porque, não havendo astral, haverá eclipse financeiro.

Vento
Não há vento? Baixam o ranking, que as eólicas não produzem. Há vento? Baixam o ranking, não venha aí algum tornado.

Mar
O mar está encapelado? Baixam o ranking, não vá naufragar algum petroleiro. Está calmo, baixam o ranking, pois não haverá campeonato de windsurf.

Petróleo
Sobe o preço do petróleo? Descem o ranking, porque isso agravará a nossa balança. Desce o petróleo? Descem o ranking, porque isso afectará o vosso balanço.

Europa
A Europa diz que acredita em nós? Descem o ranking, porque suspeitam de mentirola diplomática. A Europa diz que não acredita em nós? Descem o ranking, porque a Europa é credível.

Ouro
Sobe o ouro? Descem o ranking, pois desce o euro. Sobe o euro? Descem o ranking, pois baixa o ouro…

Espirro
Espirra a Grécia? Baixam o ranking, não venha aí o H5N1. Aprova o parlamento o programa da troika? Baixam o ranking, pois “quem mais jura mais mente”. Portugal elegeu novo governo? Baixam o ranking, porque é inexperiente. No governo anterior baixavam o ranking, porque eram experientes de mais.

Ora, com critérios tão lineares e tão cientóides como os vossos, doer, só me dói que os terreiros dos passos (perdão, dos paços) ou os presépios de belém, perante vossências, andem a imodium e se ponham de giolhos. Mas eu, que nutro profundérrima simpatia por tudo quanto me cheire a moddy’s e a blues, há um augúrio, um vaticínio, um oráculo que quero, em português suave, reservar para vossências: “Vão… passear (à Lua. Far-lhes-á bem uma mudança “d’ares”… E por lá fiquem, sem oxigénio, que nós ficaremos bem, graças a vós!)”!
Á. G.

Quando tenho a sensação de ausência de flores...

... vou olhar as que cultivo na minha varanda feita jardim


quarta-feira, julho 06, 2011

Tocata e Fuga

TOCATA E FUGA
É tudo aquilo que só existe no ar,        
0 que de nós, além de nós, se expande.
É a vertigem para o alto, igual à grande          
Tocata e fuga em ré menor de Bach.
É o delírio de um bêbedo num bar       
É um não sair do chão por mais que se ande
Tudo que em mim, somente em mim existe,
Me transporta, me absorve, me suspende,
Me faz sorrir embora eu esteja triste,   
Triste naquele universal sentido          
Que a música interpreta e se compreende       
Dante Milano (Brasil,1899-1991)
(via Amélia Pais)


Também detesto Sócrates, mas detestemos com isenção e justiça...

...Detesto Sócrates e nunca votei no seu partido (nem em nenhum à sua direita!)

Jornal i de 5 de Julho de 2011 :  ....77 escolas em obras mas só dinheiro até Janeiro
(...) O actual programa de requalificação foi da iniciativa do executivo de José Sócrates, que criou a Parque Escolar, em 2008, para garantir a requalificação de 213 escolas a nível nacional.
(...)Chegou-se também à conclusão que na maioria dos casos, e à medida que os estabelecimentos eram renovados, o nível de absentismo e de violência baixou. Para comprovar esses dados foram encomendados alguns estudos.
(...)








Etc., etc. 
Fui para a minha última escola quando foi inaugurada como escola autónoma, há muitos anos mas constituída por  já velhos pavilhões prefabricados e "provisórios", antes anexos da escola secundária ao lado. E lá se ia fazendo remendos quando chovia nesta ou naquela sala de aula, graças ao engenho e dedicação de um dos nossos funcionários, enquanto os alunos fugiam para a pequena sala de convívio quando chovia nos páteos. O ambiente físico era propício às agressividades nos recreios pois era difícil a vigilância de tantos espaços entre os ditos pavilhões. Só há dois anos tive o prazer de ver, ao ir à escola pela primeira vez depois de aposentada, uma nova construção com condições e apetrechamento incomparáveis com aqueles em que trabalhei tantos anos. (Trata-se da EB 2.3 Professor Lindley Cintra, sede de agrupamento e, há um ano, integrada em mega-agrupamento)

sexta-feira, julho 01, 2011

Já cumpri o primeiro dever face ao novo Governo

Antes de me referir a DEVER, devo salientar o DIREITO de todos os portugueses sem excepção poderem ter acesso às intenções programáticas do novo Governo. Só não vale a pena lembrar factos irreversíveis tais como as omissões na campanha eleitoral (aliás habituais, infelizmente, em campanhas anteriores dos partidos do chamado arco governativo) porque o povo português legitimou a actual maioria e o actual governo e, portanto, agora é momento de olhar para a frente, não para trás. 

Entretanto, sem deixar de afirmar que o povo português não é nada estúpido ou parvo, há todos aqueles que emitem opiniões (quer com grande visibilidade/audição, quer apenas no seu pequeno círculo de convívio, ou nos seus escritos lidos por raros) que são mais "alfabetizados politicamente" (deixem-me usar esta expressão para simplificar). E são estes que, primordialmente, têm o DEVER (ou deveriam sentir esse DEVER) de começar por fazer o que eu hoje já cumpri.

Por uma questão de honestidade intelectual, esvaziei a minha cabeça das ideias ou juízos que já tinha pré-concebidos para assim ler o programa apresentado pelo Governo e ouvir com atenção quer as respostas principalmente do Primeiro Ministro e do Ministro das Finanças na Assembleia da República, quer as dúvidas, críticas e discordâncias das Oposições (tendo em consideração que o Partido Socialista está vinculado ao acordo com a troika, mas não deixa, por isso, de poder ser oposição quanto a medidas não explícitas nesse acordo).
Li e ouvi sinceramente com a minha cabeça como disse acima, pois este é o governo que foi eleito para enfrentar e gerir o Levantar do meu país, humilhado e quase afundado. 

Cumprido o que considerei ser meu DEVER conseguir  começar por cumprir, passo agora à questão de dar (ou não dar) a este Governo o benefício da dúvida.
E não, não me é possível dar mais do que o benefício da espera - uma espera de que o 1º Ministro cumpra uma coisa que afirmou: que estará aberto a obter consensos mais alargados pela atenção a todos os partidos da oposição. É o benefício da espera para ver se essa sua afirmação corresponderá a uma reflexão da sua parte sobre, ao menos, políticas parcelares ainda vagas, que atenuem um pouco a injustiça de fazer o povo pagar mais e mais a dívida que não é sua poupando os responsáveis por ela (que não são só o Estado), e também sobre as opções que muitos economistas consideram invertidas em termos de prioridade no sentido de gerar investimento na produtividade e desenvolvimento (aqui sou leiga, só posso dar o tal benefício da espera em termos de desejar reflexões correctas)

Propriamente o benefício da dúvida não dou. Porque, com este exercício honesto que me obriguei a fazer, eu não deixei de ser a mesma que colocou o post anterior com o título "Mensagem que urge gritar aos povos: Este não é o único mundo possível".

Um mundo conformado com o neoliberalismo (acerbado) não é o único mundo possível. E uma Europa a subjugar-se e a desistir de si mesma nos valores que já teve não tem que ser inevitável. E há um país que, apesar de ser nela dos "pequenos", tem os olhos dessa Europa postos nele, em primeiro lugar a seguir à Grécia. Esse país é o nosso, merecia, por isso,  ter um governo menos conivente, um governo que pugnasse por manter ao menos o Estado Social mínimo que ainda seria possível manter, em vez de, muito provavelmente, o reduzir a Zero.

Nota: Este meu cantinho é um blogue sobre Educação. Mas, neste momento, considero que o programa governamental para a Educação está inserido numa ideologia global que abrangerá toda a política concernente ao que deveria ser - e não será - uma das prioridades: Uma Educação e um Ensino de qualidade para todos. Por isso, de pouco valeria centrar a atenção no programa específico para a Educação (intitulado, como que por ironia, "O desafio do futuro") desinserido do programa geral.

sexta-feira, junho 24, 2011

Mensagem que urge gritar aos povos

Este não é o único mundo possível

E outro mundo possível está na barriga do actual. Será parido, não por parto normal, mas porque a barriga rebentará - acho eu, é nisso que acredito e é isso que espero.

segunda-feira, junho 20, 2011

Comentário ao discurso do novo Ministro da Educação

O discurso já é bem conhecido e pode ser ouvido AQUI.
Comentei-o na rede Interactic 2.0, pelo que me limito a copiar para aqui esse meu comentário, com alguns pequenos prolongamentos.

-Começando por apontar um ponto positivo: Valorizar os professores. Mas, onde fez Nuno Crato ouvir a sua voz quando, após a LBSE, a formação dos professores de Matemática do Ensino Básico, especialmente do crucial 2º Ciclo(falo desta disciplina porque a lecionei durante 37 anos, primeiro no 2º Ciclo - e ainda no "Ciclo Preparatório" da Reforma Veiga Simão -, depois no 3º Ciclo), baixou muitíssimo de qualidade, juntando a formação científica à formação pedagógica, praticamente eliminando verdadeiros estágios pedagógicos, tudo com a mesma duração que antes tinha a formação científica? E com que força procurou opor-se ao ainda pior Novo Regime de formação de professores, quando do processo de Bolonha? (Não tenho voz pública, mas, no meu humilde blogue, muito denunciei tudo isso)

-"Ensino em espiral":  NC critica, e valoriza conteúdos, mas esquece que, no E. Básico, além de uma boa preparação nos conhecimentos, essencial para os alunos que virão a prosseguir para áreas com Matemática ( e boa preparação a nível de conhecimentos não é simplesmente  decorá-los de modo a não serem esquecidos até realizarem exames), é fundamental criar os hábitos (e o gosto) de raciocinar, de rigor, de pensar criticamente, e proceder desde relativamente cedo à iniciação em CONCEITOS, os quais só ficam elaborados por sucessivas retomas. A matemática do (decorar) "como se faz" em nadinha contribui para a Formação Matemática e desenvolvimento do pensamente rigoroso sem a aquisição de conceitos, e estes só ficam elaborados após o tal "ensino em espiral" (que Nuno Crato de algum modo caricaturiza - talvez se encontre aí a explicação para a falta de rigor de alguns dos seus escritos, nada própria de um matemático)

- Nunca adopto a expressão "Ciências da Educação" (e gosto de ter no meu registo biográfico "mestrado em Educação", pelo Departamento de Educação da FCUL - departamento que é avesso à expressão acima). Mas muito importantes são as Ciências tais como Psicologia Cognitiva, Psicologia da Aprendizagem", etc., do âmbito da investigação científica (essas sim, Ciências), pelas suas aplicações em educação-ensino-aprendizagem. NC tem na sua cabeça um "eduquês" que ridicularizou com bastante ignorância e recurso a método nada próprio de quem deveria ter rigor intelectual, como já disse acima - um "eduquês" completamente irreal nas escolas.
O que não é compatível, é juntar a formação científica sólida (o professor tem que saber bem mais do que o que tem que ensinar a determinadas idades) com essas ciências num curso de formação inicial com a mesma duração que tinha no meu tempo só a licenciatura científica especializada. E os verdadeiros estágios pedagógicos foram tornados caricaturas de estágios por motivos economicistas (pelo menos para lecionar 2º Ciclo, onde tive o que guardo como triste memória quando, uma única vez, aceitei ser professora cooperante - não confundir com professor orientador). NC denuncia o actual regime de formação inicial de professores, relacionado com o Processo de Bolonha, mas não diz que vai ter coragem para o alterar.

- Por último: NC tem-se mostrado assustadoramente retrógado, pois tem insistido na sobreposição dos conteúdos e na memorização, desvalorizando os processos. Além de que mais exames pressionarão os professores para o treino para estes, quando a aprendizagem da Matemática, precisando, claro, também de treino, não chega a ser aprendizagem que dure sem os processos que levam os alunos ao pensar, à compreensão, e ao ganho de autonomia numa relação com gosto e com esforço no prosseguimento do estudo dessa disciplina.

Perdoem-me o pecado de pouca humildade, mas tenho que dizer que tenho autoridade para opinar pois os meus alunos sempre provaram prosseguir bem preparados, e, no respeitante ao 9º ano, quer aqueles a quem atribuí o nível mais elevado (5) mantiveram, na escala de notas do Secundário, a excelência (própria das elites sobre as quais parece predominar o pensamento de NC), quer alunos a quem atribuí aquele nível 3 "baixinho" e prosseguiram para a escolaridade não obrigatória, aguentaram-se muitas vezes até para além das minhas expectativas. (Eu tinha notícias de quase todos porque a Escola Secundária era ao lado da minha E2,3).
Eu seria decerto apelidada por NC de "eduquesa", mas, por minha vez, eu considero-o não "moderno", mas sim com um pensamento extraordinariamente antiquado e voltado para as elites de alunos. Revela-o pouco no vídeo, mas não é pelo vídeo que eu o conheço (que nós o conhecemos).

sábado, junho 18, 2011

Já estava de luto pela Cultura, agora estou de luto pela Educação Escolar

Exceptuando o que toca ao novo Ministro da Educação, não comento o novo elenco ministerial, não só porque cabe pouco no âmbito deste blogue, mas também porque não tenho dados para opinar. Melhor dizendo, as questões ideológicas já estão fora da ordem do dia desde os resultados das eleições, em que, num sistema democrático, o povo é soberano (mesmo que possa mais tarde perceber que foi iludido pelas campanhas que nada esclareceram concretamente). Restam as questões de competência política e técnica para execução do programa imposto externamente, e é sobre essas que não tenho dados. 

Também vou escrever pouco sobre o novo Ministro da Educação porque, embora tenha fundamentos para estar de luto, todos têm o direito de vir a mudar, sobretudo se for por meio (meritório) de estudo que permita colmatar grandes e graves ignorâncias demonstradas fora da sua área de especialidade. Esta hipótese obriga-me a algum benefício da dúvida.

Erigido a comentador, algumas das suas ideias sobre educação-ensino preocupam-me. Mas preocupa-me ainda mais o facto de ter revelado duas facetas num livrinho que escreveu, promovido por largo tempo aos "tops" das livrarias e obtendo grande popularidade:
- Ignorância sobre  verdadeiros conceitos da teoria e da investigação internacional no âmbito da Psicologia Cognitiva, ridicularizando-os por confusão com pseudoconceitos em voga, embora não na comunidade científica.
- Falta de rigor (para não dizer falta de honestidade intelectual) ao ridicularizar, mediante um ou outro exemplo isolado e caricato,  ideias que os professores nunca tiveram, bem como ao ridicularizar o pensamento de figuras prestigiadas no campo da Educação e da Psicologia Educacional através de curtíssimas citações totalmente retiradas do contexto em que se inseriam, deturpando ou omitindo o real pensamento das pessoas citadas.

Eu poderia escrever um muito mais longo texto comprovando o que acabo de dizer, mas dispenso-me de o fazer já que comecei por conceder algum benefício da dúvida. No entanto, como não é bonito (leia-se "honesto") fazer sequer insinuações sem as provar, remeto o leitor para a 1ª Parte de um livro que comprova o que eu disse, embora eu tenha constatado o que disse por discernimento meu baseado em conhecimento  directo antes de ler o livro que cito:
Álvaro Gomes (2006), "Blues pelo Humanismo Educacional?". Eds Flumen.

segunda-feira, junho 13, 2011

Faria anos hoje...


NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fatuo encerra.

Ninguem sabe que coisa quere.
Ninguem conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ancia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro,
Tudo é disperso, nada é inteiro,
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

In Mensagem, 10-12-1928

domingo, junho 12, 2011

UBUNTU

UBUNTU
 
A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz, em Floripa (2006), nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu.


Ela  contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando  terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo; então, propôs uma brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva.

Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele  chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.

As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", instantaneamente todas   as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.

O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.

Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós  poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?"
 

Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda  não havia compreendido, de verdade,a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?

Ubuntu significa: "Sou quem sou, porque somos todos nós!"

Atente para o detalhe: porque SOMOS, não pelo que temos...

sábado, junho 11, 2011

Adequação aos tempos actuais ou acomodação aos tempos desumanos? I

Fui professora no tempo da ditadura. Um ano no ensino nocturno numa escola do Barreiro, com esses maravilhosos operários(as)-estudantes de então, que regressavam do trabalho em Lisboa para irem directamente para as aulas, com uma sanduíche engolida  a correr como jantar. Depois ingressei no então recente "Ensino Preparatório". Tive um director no primeiro caso, a seguir uma directora até ao 25 de Abril de 1974.
Ambos me manifestaram consideração como professora, acho que porque nasci com vocação para o ensino, ou seja, eu tinha algo mais inato do que meritório. Assim, não me incomodaram, muito menos me ameaçaram por as minhas aulas terem sido sempre democráticas.
No entanto, no Ensino Preparatório, o meu método para a aprendizagem da Matemática já foi o que segui  em toda a minha vida profissional, baseado numa estrutura cooperativa de aula, além de que já fazia o que  veio a chamar-se "assembleias de turma", nas quais as alunas participavam activamente, quer sobre o seu trabalho, quer sobre o funcionamento das minhas aulas, e, como directora de turma, sobre o seu trabalho escolar em geral. Por isso, a directora escutava frequentemente à porta da minha sala de aula (só o soube quando do 25 de Abril pelas funcionárias que, antes, tiveram medo de mo dizer).

Um dia, a directora veio ter comigo para me falar sobre as minhas aulas. A fim de me chamar a atenção para que eu não estava a preparar as minhas alunas para a sociedade em que iriam crescer e viver. Não usou a expressão "sociedade não democrática", mas era isso que queria dizer. Claro que não me demoveu e... passado um ano aconteceu Abril (o que ela não previa, e eu não esperava para tão cedo). Afinal, não era verdade que eu não estava a preparar as minhas alunas ao proporcionar-lhes vivências de aprendizagem da democracia.

A ditadura durara 48 anos - eram então os tempos longos "actuais" em Portugal. E mais se prolongariam se não houvesse os homens e mulheres que resistiam, tantos enfrentando a prisão e a tortura, muitos arriscando a própria vida e até perdendo-a mesmo.  Pois, se a Revolução foi feita pelos capitães de Abril, as condições de enfraquecimento e apodrecimento do regime que permitiram o sucesso foram sendo criadas por aqueles outros que nunca se "acomodaram".

(Post a continuar)

quinta-feira, junho 09, 2011

Noite com Maria Bethânia

Tinha bilhete conseguido com antecedência e a minha possibilidade de ir providenciada mas, entretanto, esqueci o bilhete. Lembrei-me a tempo, no próprio dia.   Bethânia é uma das cantoras que me encantam - não em todas as suas canções, mas em muitas.
Não sei se alterou o programa previsto como dedicado a Portugal, mas a primeira parte manteve essa dedicatória.
Foi bom ter-me lembrado do bilhete. Fez-me bem uma noite com a voz de Bethânia.


De Sophia...
(...)
E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Sacodem as suas crinas

E o espírito do mar pergunta:


«Que é feito daquele
Para quem eu guardava um reino puro
De espaço e de vazio
De ondas brancas e fundas
E de verde frio?»
(...)




De Manuel Alegre...
(...)
     Meu amor é marinheiro
     e mora no alto mar,
     Coração que nasceu livre
     Não se pode acorrentar.


De Pessoa (Álvaro de Campos)...
(...)
       Mas, afinal,
       Só as criaturas que nunca escreveram 
       Cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.
(...)

segunda-feira, junho 06, 2011

Imensa tristeza. Mas luto, não!

É fácil iludir um povo assustado quando se faz uma campanha em que são omitidas-escondidas as medidas concretas que vão ter que ser tomadas e, ainda mais, as outras para além das impostas externamente. E são feitas promessas de intenções em abstrato para bem do povo, salientando o povo mais desfavorecido, quando, na realidade, se é por profunda convicção a favor do neoliberalismo extremado, ainda que não convenha dizê-lo.
Como se pudessem renunciar à proteção dos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros, cujo apoio é o seu sustentáculo na posse do poder da governação.
Como se fossem capazes ou estivessem dispostos a, por exemplo, compensar o  abaixamento da Taxa  Social Única, imposto no acordo que assinaram, mediante taxação dos escandalosos lucros não taxados, contra o sustentáculo referido acima, evitando assim que seja o povo a compensar, evitando assim mais fome e miséria.

Imensa tristeza por ver o cravo de Abril em perigo de murchar. Mas luto, não, porque o povo pode ter sido iludido, mas o povo português não quer que esse cravo de Abril murche para sempre, e saberá regá-lo pela tomada de consciência que conduz ao NÃO, que conduz à luta que for necessária.

Há sempre os homens e mulheres que lutam... Aqui... na Europa... no Mundo...

Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis
.
B. Brecht
 
É preciso saber esperar, sim. Mesmo que a mudança qualitativa aconteça sem que os que lutam toda a vida cheguem a vê-la - mas vêem e vivem os filhos ou netos. E agora a História até "anda" mais depressa.

Para os que não se acomodem: Jamais percam a ESPERANÇA!

sexta-feira, junho 03, 2011

Enquanto candidato a novo 1º Ministro pretende eliminar Ministério da Cultura...

... movimentos de cidadania na Europa manifestam-se contra as ameaças de morte contidas em planos de cortes nos orçamentos da Cultura. E em Portugal? Ficamos (ou continuamos) indiferentes???

(Precisava de mais uns dias para voltar ao meu blogue, mas senti o DEVER de vir, mesmo sabendo que este cantinho é pouco lido)

sábado, maio 28, 2011

Mãe, não quero dizer a palavra adeus

porque partiste aconchegadinha nas almofadas que te amparavam no sofá da tua casinha, sem sentires que partias.
Quando perdemos um amigo, ficamos mais sós no mundo, mas não ficamos sós. Mas eu sabia que no dia em que te perdesse eu ficaria num grande mundo onde, perto ou longe, eu já não sentiria a presença única de um amparo, mesmo que a ele não me quisesse amparar, ou mesmo que  parecesse  já não existir por já nada poderes senão seres tu totalmente amparada - mas existia, mas existia mesmo assim, só por estares cá.
Estive independente, estive muitas vezes distante de ti - foi preciso, ou precisei. Também eras muito autónoma, e quiseste e conseguiste com admirável longevidade. Mas quando já não pudeste, estivemos tão juntas, longamente, que eu hoje, neste dia em que partiste, só sei que vou ter que aprender e que vai ser doloroso aprender  a viver sem isso, (re)aprender um quotidiano em que... um quotidiano sem que...
Mãe, eu não esperava que partisses já, todos os dias respondias "estou boa"... "estou bem".
Obrigada, Mãe, por poder recordar-te assim.

sexta-feira, maio 27, 2011

Para os meus netos (mas tenho a felicidade de me orgulhar deles)

(Via JMA)

Anjos com uma asa

Sei que, para os jovens de hoje, as coisas estão mais difíceis do que para as gerações anteriores. Como, talvez, não se possam comparar fenómenos que não são comparáveis, direi simplesmente que as coisas estão difíceis. Muitos pensam que os jovens dispõem de tudo: estudos, dinheiro, diversões, viagens, oportunidades ... Eu penso que lhes falta o mais essencial: o sentido das coisas numa sociedade que se desumaniza. Não é fácil resistir à corrente que nos arrasta, violentamente, para a competitividade, o individualismo, o relativismo moral e o conformismo.

Na sociedade em que vivemos, não é fácil conseguir um lugar, sem afastarmos os outros às cotoveladas. Não é fácil opor-se a quem tem algo para dar. Na altura em que têm de mostrar que valem para alguém ou para alguma coisa, vêem-se condenados a uma corrida interminável que acaba por conduzi-los ao desemprego.

Não sei quantos jovens de hoje subscreveriam as palavras de Camus: "Não podemos pôr-nos ao lado dos que fazem a história, mas ao serviço dos que a suportam". É mais fácil estar ao lado de quem pode distribuir prebendas, apoios, emprego ou, simples¬mente, sorrisos.
É preocupante ver como alguns jovens viram costas à esperança, mergulhados em si mesmos, nada preocupados com os problemas das pessoas e da sociedade. É preocupante ver que os que começam a caminhar já estão cansados da viagem, fartos de si mesmos, sem vontade de melhorar o percurso da vida dos que caminham a seu lado.

Nem toda a juventude assim é. Bem o sei. Há jovens entusiastas, comprometidos, empenhados. Há jovens sensatamente optimistas e, ao mesmo tempo, com um realismo empreendedor para melhorar as coisas.
Quero repetir, aqui, a mensagem que um ancião de 88 anos escreveu para os jovens. Uma pessoa que, apesar de já ter percorrido um longo caminho semeado de obstáculos, de tragédias e de dor, ainda mantém a esperança. Não de forma ingénua, evidentemente.

Ernesto Sabato escreveu o seu testamento destinado à juventude. Foi Seix Barral quem o publicou, com o título de Antes do Fim. Aos 88 anos, este doutorado em Física que abandonou os seus trabalhos sobre radiações atómicas para se dedicar, a partir de 1945, à literatura dirige-se aos que estão a iniciar um projecto de vida. E fá-lo sem dogmatismos, com humildade. As primeiras palavras da sua obra são significativas:
"Tenho vindo a acumular muitas dúvidas ... ".

Sabato constitui como destinatários do seu testamento moral os adolescentes e os jovens. Delicada etapa da vida em que se busca, ansiosamente, o sentido das coisas. Também se dirige aos idosos que, olhando para trás, se interrogam se terá valido a pena tanta dor, tanto caminho .. "Sim, escrevo isto "- diz Sabato -" sobretudo para os adolescentes e jovens, mas também para os que, como eu, nos aproximamos da morte, e nos perguntamos com que finalidade e por que razão vivemos, aguentámos, sonhámos, escrevemos, pintámos ou, muito simplesmente, empalhámos cadeiras".

Disse Camus: "Existe apenas um único problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Decidir se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia". Todas as perguntas acabam por nos conduzir a esta pergunta central que tem as suas raízes no coração humano.
Sabato não é um ingénuo. Não é um cínico. Construiu, com dor, um pequeno monte do qual se vislumbra a esperança. Muitas vezes se debruçou sobe o profundo poço do suicídio. E encontrou em si mesmo e nos outros uma réstia de esperança que o ajudou a continuar o caminho. As últimas palavras do seu testamento para os jovens são esclarecedoras: "Só os que forem capazes de encarnar a utopia estarão aptos para o decisivo combate, o de recuperar quanto de humanidade já perdemos".

Interroga-se Sabato, como já fizera antes em algumas das suas obras, sobre o sentido da pessoa na crise do nosso tempo. Estremecemos ao ler algumas das suas páginas (sobretudo o capítulo intitulado "A Dor Faz Parar o Tempo"). Como é possível manter a esperança no meio de tantos desastres, tanta miséria, tanta crueldade, tantos maus presságios?

O mais aberrante, talvez, é a desproporção da violência a que estão expostas as crianças. As torturas, a exploração, a venda, o abandono de crianças parece dar razão a Nietzsche, quando dizia: "Os valores já não valem" .

O filósofo Fernando Savater encerra a sua interessante obra As Perguntas da Vida com este poema de Heinrich Heine: "E não deixamos de interrogar-nos uma e outra vez; até que um punhado de terra/ nos cala a boca! Mas, será isto uma resposta?".
Num mundo que se desumaniza, há que pensar, com Goethe, que "a humanidade acabará por triunfar". E uma boa parte desse triunfo está nas mãos da juventude.

A comunidade caminha para a Utopia. Está em Utopia. É como a personagem da seguinte história. Era uma vez, há centenas de anos, um homem que, uma noite, caminhava pelas escuras ruas duma cidade do Oriente, com uma lâmpada acesa. Encontra-se com um amigo que, surpreendido, lhe pergunta:

- Que fazes tu, que és cego, com uma lâmpada acesa nas mãos?
Responde o cego:
- Não levo a lâmpada para poder ver o meu caminho. Conheço as ruas de cor em plena escuridão. Levo esta luz para que os outros, quando derem comigo, possam descobrir o seu caminho.

A esperança radica na ajuda mútua, na justa convivência, na solidariedade. Li numa parede da cidade de São Salvador de Jujuy este grafito: "Somos anjos com uma asa. Precisamos de nos abraçar para poder voar".

Miguel Santos Guerra. No coração da escola.