E outro mundo possível está na barriga do actual. Será parido, não por parto normal, mas porque a barriga rebentará - acho eu, é nisso que acredito e é isso que espero.
sexta-feira, junho 24, 2011
segunda-feira, junho 20, 2011
Comentário ao discurso do novo Ministro da Educação
Comentei-o na rede Interactic 2.0, pelo que me limito a copiar para aqui esse meu comentário, com alguns pequenos prolongamentos.
-Começando por apontar um ponto positivo: Valorizar os professores. Mas, onde fez Nuno Crato ouvir a sua voz quando, após a LBSE, a formação dos professores de Matemática do Ensino Básico, especialmente do crucial 2º Ciclo(falo desta disciplina porque a lecionei durante 37 anos, primeiro no 2º Ciclo - e ainda no "Ciclo Preparatório" da Reforma Veiga Simão -, depois no 3º Ciclo), baixou muitíssimo de qualidade, juntando a formação científica à formação pedagógica, praticamente eliminando verdadeiros estágios pedagógicos, tudo com a mesma duração que antes tinha a formação científica? E com que força procurou opor-se ao ainda pior Novo Regime de formação de professores, quando do processo de Bolonha? (Não tenho voz pública, mas, no meu humilde blogue, muito denunciei tudo isso)
-"Ensino em espiral": NC critica, e valoriza conteúdos, mas esquece que, no E. Básico, além de uma boa preparação nos conhecimentos, essencial para os alunos que virão a prosseguir para áreas com Matemática ( e boa preparação a nível de conhecimentos não é simplesmente decorá-los de modo a não serem esquecidos até realizarem exames), é fundamental criar os hábitos (e o gosto) de raciocinar, de rigor, de pensar criticamente, e proceder desde relativamente cedo à iniciação em CONCEITOS, os quais só ficam elaborados por sucessivas retomas. A matemática do (decorar) "como se faz" em nadinha contribui para a Formação Matemática e desenvolvimento do pensamente rigoroso sem a aquisição de conceitos, e estes só ficam elaborados após o tal "ensino em espiral" (que Nuno Crato de algum modo caricaturiza - talvez se encontre aí a explicação para a falta de rigor de alguns dos seus escritos, nada própria de um matemático)
- Nunca adopto a expressão "Ciências da Educação" (e gosto de ter no meu registo biográfico "mestrado em Educação", pelo Departamento de Educação da FCUL - departamento que é avesso à expressão acima). Mas muito importantes são as Ciências tais como Psicologia Cognitiva, Psicologia da Aprendizagem", etc., do âmbito da investigação científica (essas sim, Ciências), pelas suas aplicações em educação-ensino-aprendizagem. NC tem na sua cabeça um "eduquês" que ridicularizou com bastante ignorância e recurso a método nada próprio de quem deveria ter rigor intelectual, como já disse acima - um "eduquês" completamente irreal nas escolas.
O que não é compatível, é juntar a formação científica sólida (o professor tem que saber bem mais do que o que tem que ensinar a determinadas idades) com essas ciências num curso de formação inicial com a mesma duração que tinha no meu tempo só a licenciatura científica especializada. E os verdadeiros estágios pedagógicos foram tornados caricaturas de estágios por motivos economicistas (pelo menos para lecionar 2º Ciclo, onde tive o que guardo como triste memória quando, uma única vez, aceitei ser professora cooperante - não confundir com professor orientador). NC denuncia o actual regime de formação inicial de professores, relacionado com o Processo de Bolonha, mas não diz que vai ter coragem para o alterar.
- Por último: NC tem-se mostrado assustadoramente retrógado, pois tem insistido na sobreposição dos conteúdos e na memorização, desvalorizando os processos. Além de que mais exames pressionarão os professores para o treino para estes, quando a aprendizagem da Matemática, precisando, claro, também de treino, não chega a ser aprendizagem que dure sem os processos que levam os alunos ao pensar, à compreensão, e ao ganho de autonomia numa relação com gosto e com esforço no prosseguimento do estudo dessa disciplina.
Perdoem-me o pecado de pouca humildade, mas tenho que dizer que tenho autoridade para opinar pois os meus alunos sempre provaram prosseguir bem preparados, e, no respeitante ao 9º ano, quer aqueles a quem atribuí o nível mais elevado (5) mantiveram, na escala de notas do Secundário, a excelência (própria das elites sobre as quais parece predominar o pensamento de NC), quer alunos a quem atribuí aquele nível 3 "baixinho" e prosseguiram para a escolaridade não obrigatória, aguentaram-se muitas vezes até para além das minhas expectativas. (Eu tinha notícias de quase todos porque a Escola Secundária era ao lado da minha E2,3).
Eu seria decerto apelidada por NC de "eduquesa", mas, por minha vez, eu considero-o não "moderno", mas sim com um pensamento extraordinariamente antiquado e voltado para as elites de alunos. Revela-o pouco no vídeo, mas não é pelo vídeo que eu o conheço (que nós o conhecemos).
Eu seria decerto apelidada por NC de "eduquesa", mas, por minha vez, eu considero-o não "moderno", mas sim com um pensamento extraordinariamente antiquado e voltado para as elites de alunos. Revela-o pouco no vídeo, mas não é pelo vídeo que eu o conheço (que nós o conhecemos).
sábado, junho 18, 2011
Já estava de luto pela Cultura, agora estou de luto pela Educação Escolar
Exceptuando o que toca ao novo Ministro da Educação, não comento o novo elenco ministerial, não só porque cabe pouco no âmbito deste blogue, mas também porque não tenho dados para opinar. Melhor dizendo, as questões ideológicas já estão fora da ordem do dia desde os resultados das eleições, em que, num sistema democrático, o povo é soberano (mesmo que possa mais tarde perceber que foi iludido pelas campanhas que nada esclareceram concretamente). Restam as questões de competência política e técnica para execução do programa imposto externamente, e é sobre essas que não tenho dados.
Também vou escrever pouco sobre o novo Ministro da Educação porque, embora tenha fundamentos para estar de luto, todos têm o direito de vir a mudar, sobretudo se for por meio (meritório) de estudo que permita colmatar grandes e graves ignorâncias demonstradas fora da sua área de especialidade. Esta hipótese obriga-me a algum benefício da dúvida.
Erigido a comentador, algumas das suas ideias sobre educação-ensino preocupam-me. Mas preocupa-me ainda mais o facto de ter revelado duas facetas num livrinho que escreveu, promovido por largo tempo aos "tops" das livrarias e obtendo grande popularidade:
- Ignorância sobre verdadeiros conceitos da teoria e da investigação internacional no âmbito da Psicologia Cognitiva, ridicularizando-os por confusão com pseudoconceitos em voga, embora não na comunidade científica.
- Falta de rigor (para não dizer falta de honestidade intelectual) ao ridicularizar, mediante um ou outro exemplo isolado e caricato, ideias que os professores nunca tiveram, bem como ao ridicularizar o pensamento de figuras prestigiadas no campo da Educação e da Psicologia Educacional através de curtíssimas citações totalmente retiradas do contexto em que se inseriam, deturpando ou omitindo o real pensamento das pessoas citadas.
Eu poderia escrever um muito mais longo texto comprovando o que acabo de dizer, mas dispenso-me de o fazer já que comecei por conceder algum benefício da dúvida. No entanto, como não é bonito (leia-se "honesto") fazer sequer insinuações sem as provar, remeto o leitor para a 1ª Parte de um livro que comprova o que eu disse, embora eu tenha constatado o que disse por discernimento meu baseado em conhecimento directo antes de ler o livro que cito:
Álvaro Gomes (2006), "Blues pelo Humanismo Educacional?". Eds Flumen.
terça-feira, junho 14, 2011
segunda-feira, junho 13, 2011
Faria anos hoje...
NEVOEIRO
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fatuo encerra.
Ninguem sabe que coisa quere.
Ninguem conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ancia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro,
Tudo é disperso, nada é inteiro,
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!
In Mensagem, 10-12-1928
domingo, junho 12, 2011
UBUNTU
UBUNTU
A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz, em Floripa (2006), nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu.
Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo; então, propôs uma brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva.
Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.
As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.
O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.
Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?"
Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade,a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?
Ubuntu significa: "Sou quem sou, porque somos todos nós!"
Atente para o detalhe: porque SOMOS, não pelo que temos...
sábado, junho 11, 2011
Adequação aos tempos actuais ou acomodação aos tempos desumanos? I
Fui professora no tempo da ditadura. Um ano no ensino nocturno numa escola do Barreiro, com esses maravilhosos operários(as)-estudantes de então, que regressavam do trabalho em Lisboa para irem directamente para as aulas, com uma sanduíche engolida a correr como jantar. Depois ingressei no então recente "Ensino Preparatório". Tive um director no primeiro caso, a seguir uma directora até ao 25 de Abril de 1974.
Ambos me manifestaram consideração como professora, acho que porque nasci com vocação para o ensino, ou seja, eu tinha algo mais inato do que meritório. Assim, não me incomodaram, muito menos me ameaçaram por as minhas aulas terem sido sempre democráticas.
No entanto, no Ensino Preparatório, o meu método para a aprendizagem da Matemática já foi o que segui em toda a minha vida profissional, baseado numa estrutura cooperativa de aula, além de que já fazia o que veio a chamar-se "assembleias de turma", nas quais as alunas participavam activamente, quer sobre o seu trabalho, quer sobre o funcionamento das minhas aulas, e, como directora de turma, sobre o seu trabalho escolar em geral. Por isso, a directora escutava frequentemente à porta da minha sala de aula (só o soube quando do 25 de Abril pelas funcionárias que, antes, tiveram medo de mo dizer).
Um dia, a directora veio ter comigo para me falar sobre as minhas aulas. A fim de me chamar a atenção para que eu não estava a preparar as minhas alunas para a sociedade em que iriam crescer e viver. Não usou a expressão "sociedade não democrática", mas era isso que queria dizer. Claro que não me demoveu e... passado um ano aconteceu Abril (o que ela não previa, e eu não esperava para tão cedo). Afinal, não era verdade que eu não estava a preparar as minhas alunas ao proporcionar-lhes vivências de aprendizagem da democracia.
A ditadura durara 48 anos - eram então os tempos longos "actuais" em Portugal. E mais se prolongariam se não houvesse os homens e mulheres que resistiam, tantos enfrentando a prisão e a tortura, muitos arriscando a própria vida e até perdendo-a mesmo. Pois, se a Revolução foi feita pelos capitães de Abril, as condições de enfraquecimento e apodrecimento do regime que permitiram o sucesso foram sendo criadas por aqueles outros que nunca se "acomodaram".
(Post a continuar)
quinta-feira, junho 09, 2011
Noite com Maria Bethânia
Tinha bilhete conseguido com antecedência e a minha possibilidade de ir providenciada mas, entretanto, esqueci o bilhete. Lembrei-me a tempo, no próprio dia. Bethânia é uma das cantoras que me encantam - não em todas as suas canções, mas em muitas.
Não sei se alterou o programa previsto como dedicado a Portugal, mas a primeira parte manteve essa dedicatória.
Foi bom ter-me lembrado do bilhete. Fez-me bem uma noite com a voz de Bethânia.
De Sophia...
(...)
E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Sacodem as suas crinas
E o espírito do mar pergunta:
«Que é feito daquele
Para quem eu guardava um reino puro
De espaço e de vazio
De ondas brancas e fundas
E de verde frio?»
(...)
De Manuel Alegre...
(...)
Meu amor é marinheiro
e mora no alto mar,
Coração que nasceu livre
Não se pode acorrentar.
e mora no alto mar,
Coração que nasceu livre
Não se pode acorrentar.
De Pessoa (Álvaro de Campos)...
(...)
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
(...)
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
(...)
segunda-feira, junho 06, 2011
Imensa tristeza. Mas luto, não!
É fácil iludir um povo assustado quando se faz uma campanha em que são omitidas-escondidas as medidas concretas que vão ter que ser tomadas e, ainda mais, as outras para além das impostas externamente. E são feitas promessas de intenções em abstrato para bem do povo, salientando o povo mais desfavorecido, quando, na realidade, se é por profunda convicção a favor do neoliberalismo extremado, ainda que não convenha dizê-lo.
Como se pudessem renunciar à proteção dos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros, cujo apoio é o seu sustentáculo na posse do poder da governação.
Como se fossem capazes ou estivessem dispostos a, por exemplo, compensar o abaixamento da Taxa Social Única, imposto no acordo que assinaram, mediante taxação dos escandalosos lucros não taxados, contra o sustentáculo referido acima, evitando assim que seja o povo a compensar, evitando assim mais fome e miséria.
Imensa tristeza por ver o cravo de Abril em perigo de murchar. Mas luto, não, porque o povo pode ter sido iludido, mas o povo português não quer que esse cravo de Abril murche para sempre, e saberá regá-lo pela tomada de consciência que conduz ao NÃO, que conduz à luta que for necessária.
Há sempre os homens e mulheres que lutam... Aqui... na Europa... no Mundo...
Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.
B. Brecht
É preciso saber esperar, sim. Mesmo que a mudança qualitativa aconteça sem que os que lutam toda a vida cheguem a vê-la - mas vêem e vivem os filhos ou netos. E agora a História até "anda" mais depressa.
Para os que não se acomodem: Jamais percam a ESPERANÇA!
sexta-feira, junho 03, 2011
Enquanto candidato a novo 1º Ministro pretende eliminar Ministério da Cultura...
... movimentos de cidadania na Europa manifestam-se contra as ameaças de morte contidas em planos de cortes nos orçamentos da Cultura. E em Portugal? Ficamos (ou continuamos) indiferentes???
(Precisava de mais uns dias para voltar ao meu blogue, mas senti o DEVER de vir, mesmo sabendo que este cantinho é pouco lido)
(Precisava de mais uns dias para voltar ao meu blogue, mas senti o DEVER de vir, mesmo sabendo que este cantinho é pouco lido)
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sábado, maio 28, 2011
Mãe, não quero dizer a palavra adeus
porque partiste aconchegadinha nas almofadas que te amparavam no sofá da tua casinha, sem sentires que partias.
Quando perdemos um amigo, ficamos mais sós no mundo, mas não ficamos sós. Mas eu sabia que no dia em que te perdesse eu ficaria num grande mundo onde, perto ou longe, eu já não sentiria a presença única de um amparo, mesmo que a ele não me quisesse amparar, ou mesmo que parecesse já não existir por já nada poderes senão seres tu totalmente amparada - mas existia, mas existia mesmo assim, só por estares cá.
Estive independente, estive muitas vezes distante de ti - foi preciso, ou precisei. Também eras muito autónoma, e quiseste e conseguiste com admirável longevidade. Mas quando já não pudeste, estivemos tão juntas, longamente, que eu hoje, neste dia em que partiste, só sei que vou ter que aprender e que vai ser doloroso aprender a viver sem isso, (re)aprender um quotidiano em que... um quotidiano sem que...
Mãe, eu não esperava que partisses já, todos os dias respondias "estou boa"... "estou bem".
Obrigada, Mãe, por poder recordar-te assim.
sexta-feira, maio 27, 2011
Para os meus netos (mas tenho a felicidade de me orgulhar deles)
Anjos com uma asa
Sei que, para os jovens de hoje, as coisas estão mais difíceis do que para as gerações anteriores. Como, talvez, não se possam comparar fenómenos que não são comparáveis, direi simplesmente que as coisas estão difíceis. Muitos pensam que os jovens dispõem de tudo: estudos, dinheiro, diversões, viagens, oportunidades ... Eu penso que lhes falta o mais essencial: o sentido das coisas numa sociedade que se desumaniza. Não é fácil resistir à corrente que nos arrasta, violentamente, para a competitividade, o individualismo, o relativismo moral e o conformismo.
Na sociedade em que vivemos, não é fácil conseguir um lugar, sem afastarmos os outros às cotoveladas. Não é fácil opor-se a quem tem algo para dar. Na altura em que têm de mostrar que valem para alguém ou para alguma coisa, vêem-se condenados a uma corrida interminável que acaba por conduzi-los ao desemprego.
Não sei quantos jovens de hoje subscreveriam as palavras de Camus: "Não podemos pôr-nos ao lado dos que fazem a história, mas ao serviço dos que a suportam". É mais fácil estar ao lado de quem pode distribuir prebendas, apoios, emprego ou, simples¬mente, sorrisos.
É preocupante ver como alguns jovens viram costas à esperança, mergulhados em si mesmos, nada preocupados com os problemas das pessoas e da sociedade. É preocupante ver que os que começam a caminhar já estão cansados da viagem, fartos de si mesmos, sem vontade de melhorar o percurso da vida dos que caminham a seu lado.
Nem toda a juventude assim é. Bem o sei. Há jovens entusiastas, comprometidos, empenhados. Há jovens sensatamente optimistas e, ao mesmo tempo, com um realismo empreendedor para melhorar as coisas.
Quero repetir, aqui, a mensagem que um ancião de 88 anos escreveu para os jovens. Uma pessoa que, apesar de já ter percorrido um longo caminho semeado de obstáculos, de tragédias e de dor, ainda mantém a esperança. Não de forma ingénua, evidentemente.
Ernesto Sabato escreveu o seu testamento destinado à juventude. Foi Seix Barral quem o publicou, com o título de Antes do Fim. Aos 88 anos, este doutorado em Física que abandonou os seus trabalhos sobre radiações atómicas para se dedicar, a partir de 1945, à literatura dirige-se aos que estão a iniciar um projecto de vida. E fá-lo sem dogmatismos, com humildade. As primeiras palavras da sua obra são significativas:
"Tenho vindo a acumular muitas dúvidas ... ".
Sabato constitui como destinatários do seu testamento moral os adolescentes e os jovens. Delicada etapa da vida em que se busca, ansiosamente, o sentido das coisas. Também se dirige aos idosos que, olhando para trás, se interrogam se terá valido a pena tanta dor, tanto caminho .. "Sim, escrevo isto "- diz Sabato -" sobretudo para os adolescentes e jovens, mas também para os que, como eu, nos aproximamos da morte, e nos perguntamos com que finalidade e por que razão vivemos, aguentámos, sonhámos, escrevemos, pintámos ou, muito simplesmente, empalhámos cadeiras".
Disse Camus: "Existe apenas um único problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Decidir se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia". Todas as perguntas acabam por nos conduzir a esta pergunta central que tem as suas raízes no coração humano.
Sabato não é um ingénuo. Não é um cínico. Construiu, com dor, um pequeno monte do qual se vislumbra a esperança. Muitas vezes se debruçou sobe o profundo poço do suicídio. E encontrou em si mesmo e nos outros uma réstia de esperança que o ajudou a continuar o caminho. As últimas palavras do seu testamento para os jovens são esclarecedoras: "Só os que forem capazes de encarnar a utopia estarão aptos para o decisivo combate, o de recuperar quanto de humanidade já perdemos".
Interroga-se Sabato, como já fizera antes em algumas das suas obras, sobre o sentido da pessoa na crise do nosso tempo. Estremecemos ao ler algumas das suas páginas (sobretudo o capítulo intitulado "A Dor Faz Parar o Tempo"). Como é possível manter a esperança no meio de tantos desastres, tanta miséria, tanta crueldade, tantos maus presságios?
O mais aberrante, talvez, é a desproporção da violência a que estão expostas as crianças. As torturas, a exploração, a venda, o abandono de crianças parece dar razão a Nietzsche, quando dizia: "Os valores já não valem" .
O filósofo Fernando Savater encerra a sua interessante obra As Perguntas da Vida com este poema de Heinrich Heine: "E não deixamos de interrogar-nos uma e outra vez; até que um punhado de terra/ nos cala a boca! Mas, será isto uma resposta?".
Num mundo que se desumaniza, há que pensar, com Goethe, que "a humanidade acabará por triunfar". E uma boa parte desse triunfo está nas mãos da juventude.
A comunidade caminha para a Utopia. Está em Utopia. É como a personagem da seguinte história. Era uma vez, há centenas de anos, um homem que, uma noite, caminhava pelas escuras ruas duma cidade do Oriente, com uma lâmpada acesa. Encontra-se com um amigo que, surpreendido, lhe pergunta:
- Que fazes tu, que és cego, com uma lâmpada acesa nas mãos?
Responde o cego:
- Não levo a lâmpada para poder ver o meu caminho. Conheço as ruas de cor em plena escuridão. Levo esta luz para que os outros, quando derem comigo, possam descobrir o seu caminho.
A esperança radica na ajuda mútua, na justa convivência, na solidariedade. Li numa parede da cidade de São Salvador de Jujuy este grafito: "Somos anjos com uma asa. Precisamos de nos abraçar para poder voar".
Miguel Santos Guerra. No coração da escola.
sábado, maio 21, 2011
terça-feira, maio 17, 2011
Beco...
Beco sem saída.
Beco sem saída?
(...)
Levanta-te meu Povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.
(Do Soneto do Trabalho, de Ary dos Santos)
Beco sem saída?
(...)
Levanta-te meu Povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.
(Do Soneto do Trabalho, de Ary dos Santos)
quinta-feira, maio 12, 2011
Coisas insólitas
(Escrevo às 23h 45m)
Por favor, expliquem-me devagarinho, como se eu fosse muito, muito burra!
1. Resumo por palavras minhas (desculpem se a minha burrice deturpa):
_ Temos um programa, temos estratégias.
_ Mas como vão conseguir...?
_Teremos que estudar isso.
_ E como vão conseguir...?
_Isso é um problema a estudar.
.......
_E como sabe... como vai ter tempo para saber...?
_(Ainda) Não sei, mas só precisarei de 15 dias para saber.
2. O que me parece uma originalidade verdadeiramente histórica:
Um governo minoritário de um país democrático consegue sozinho ser todo-poderoso (e ainda por cima para gerar uma catástrofe política-económica-financeira)
(Haja decoro a lavar as mãos!)
Por favor, expliquem-me devagarinho, como se eu fosse muito, muito burra!
1. Resumo por palavras minhas (desculpem se a minha burrice deturpa):
_ Temos um programa, temos estratégias.
_ Mas como vão conseguir...?
_Teremos que estudar isso.
_ E como vão conseguir...?
_Isso é um problema a estudar.
.......
_E como sabe... como vai ter tempo para saber...?
_(Ainda) Não sei, mas só precisarei de 15 dias para saber.
2. O que me parece uma originalidade verdadeiramente histórica:
Um governo minoritário de um país democrático consegue sozinho ser todo-poderoso (e ainda por cima para gerar uma catástrofe política-económica-financeira)
(Haja decoro a lavar as mãos!)
quarta-feira, maio 11, 2011
Eu riria e diria "o velhote está xexé" se...
... se não fosse o susto de pensar que será o Ministro das Finanças se Passos Coelho vier a ser 1º Ministro (se viesse a ser... ai! balha-me deus!)
Da entrevista ao Jornal de Negócios, via Câmara Corporativa:
•Regime de rescisões voluntárias na Função Pública? Catroga: “a definir”.
• Pacote para as indemnizações aos trabalhadores do Estado? Catroga: “em moldes a definir”.
• Como financiar o pacote de indemnizações aos trabalhadores do Estado? Catroga: “Não temos o modelo estudado. É preciso estudar.”
• Que acontece aos trabalhadores dos serviços do Estado extintos? Catroga: “Isto tem de ser resolvido com cabeça.”
• Mobilidade interna no Estado? Catroga: “Tem de se definir um sistema”.
• Se os trabalhadores não aceitarem lugares em serviços longe da sua área de residência, ficam a ganhar menos? Catroga: “Não sei. Neste momento não nos debruçámos sobre a legislação que existe.”
• Como avalia os trabalhadores do Estado? Catroga: “Há muitas dessas pessoas que são muito válidas.”
• Pacote para as indemnizações aos trabalhadores do Estado? Catroga: “em moldes a definir”.
• Como financiar o pacote de indemnizações aos trabalhadores do Estado? Catroga: “Não temos o modelo estudado. É preciso estudar.”
• Que acontece aos trabalhadores dos serviços do Estado extintos? Catroga: “Isto tem de ser resolvido com cabeça.”
• Mobilidade interna no Estado? Catroga: “Tem de se definir um sistema”.
• Se os trabalhadores não aceitarem lugares em serviços longe da sua área de residência, ficam a ganhar menos? Catroga: “Não sei. Neste momento não nos debruçámos sobre a legislação que existe.”
• Como avalia os trabalhadores do Estado? Catroga: “Há muitas dessas pessoas que são muito válidas.”
segunda-feira, maio 09, 2011
quarta-feira, maio 04, 2011
segunda-feira, maio 02, 2011
Reparo a jornalismos-TV sobre a notícia do dia
Não comento a notícia do dia. Sou frontalmente contra o terrorismo, mas não sei quais as consequências do acontecimento.
Vim aqui apenas por ter acabado de ouvir (23h53m), entre as várias vozes portuguesas de jornalistas repetindo a notícia, uma referindo o atentado do 11 de Setembro como "a maior tragédia de que há memória na Histótia da humanidade". (!!!)
Claro que todos os atentados ceifando vidas são tragédias. Claro que todos os que assistimos (e repetidamente) na TV ao 11 de Setembro ficámos impressionados e revoltados, mesmo os que depois admitimos que talvez ficasse para sempre por esclarecer completamente. Mas... haja senso! E haja cuidado na escolha dos jornalistas que são admitidos para emitirem ou repetirem notícias, a qualquer hora que seja.
Foram muitas as vítimas do atentado do 11 de Setembro, mas... foram cerca de três mil.
Nem é necessário lembrar ao sr. jornalista (e a outros que tais) uma tragédia tão grande como o Holocausto, para o qual não é preciso longa memória histórica, a menos que, na sua ideia, "tragédia" só conte se nela forem abrangidos cidadãos americanos.
Parábola (?)
Sermão do Bom Ladrão
(excerto)
Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este género de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: juratur enim ut esurientem impleat animam. O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao Inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera (...) Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. - Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: - Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. - Ditosa Grécia, que tinha tal pregador!
Padre António Vieira - Sermão do Bom Ladrão, 1655
Padre António Vieira - Sermão do Bom Ladrão, 1655
(Com o agradecimento à Amélia Pais)
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