sexta-feira, março 12, 2010

quarta-feira, março 10, 2010

Clube de Scratch?

Com este vício que a 3za e o Fred me pegaram, estou a ver que ainda crio um blogue "Clube de Scratch". Podia ser um blogue colectivo, como o Aragem, em que seriam "confrades" e "comadres", além dos amigos já referidos e outros interessados, os bons scratchers que a 3za já formou como monitores, aberto à participação de todos os seus pequenotes iniciantes, com sugestões, perguntas e partilha de conhecimentos mais ou menos elementares através dos comentários e da passagem a posts quando tal tivesse maior interesse.

A comunidade de scratchers do MIT, embora seja um mundo imenso onde publicam trabalhos desde os garotos até aos matemáticos e físicos, é muito interessante pelas descobertas que vamos fazendo, só tendo o inconveniente para alguns de a linguagem comum ser em Inglês dado que há especialistas de muitas nacionalidades (incluindo, por exemplo, a chinesa). (Por cá, temos o Sapo Scratch, mas embora adultos também lá publiquem, é usado sobretudo por crianças e adolescentes)

Bem... podem sorrir e chamar brinquedo quando usado por adultos, no entanto o Scratch tem-me feito recordar e (re)estudar matemática mais avançada, muito esquecida devido a toda a vida ter ensinado só no Básico. Não é, portanto, um mero brinquedo quanto aos adultos, dado que, sendo óptimo para as crianças se iniciarem em programação e desenvolverem várias competências, o programa tem as potencialidades e ferramentas para programações bem mais complexas. Experimentem increver-se no MitEdu (fazemos tantos logins em tantos sites e redes, demora um minuto a inscrição) e instalarem o Scratch na versão do MIT (outro minuto) para poderem fazer o download de um ou outro projecto mais avançado (meio minuto), pois, ao abrir-se automaticamente no nosso programa, vemos a série de comandos e fórmulas com que foi feita a respectiva programação, para ficarem com uma ideia do que estou para aqui a dizer. E há muitos projectos adultos bem interessantes e com programação exigente, sem, contudo, serem precisas fórmulas matemáticas.

Eu sei que não "ganho" nenhum dos meus visitantes, calculo até que os que aqui passem e vejam um post sobre o Scratch não passem do título, mas este cantinho, antes de ser para eventuais visitantes, é para mim mesma, para as minhas recordações, para os meus poetas e pintores, para as minhas músicas preferidas, para... enfim... as minhas deambulações. E também, agora, para as minhas próprias produções "artísticas", já que em artes sempre fui uma completa nulidade, sempre tive uma inaptidão abaixo de zero.

Ah... este cantinho era sobretudo para a Educação, mas a minha crise de desmotivação para postar sobre esse tema essencial ainda está em fase aguda. Espero que a crise passe - as crises até são fases necessárias para mudanças qualitativas, quem sabe se retomarei o tema qualquer dia?

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Scratch Project

(Clicar na imagem se, eventualmente, quiserem ver o projecto, que é o meu segundo sobre curvas famosas)

sexta-feira, março 05, 2010

Lembrando o tempo em que éramos jovens...

E, para todos - para os mais jovens também -, bom fim de semana com muitas flores!

Um Adeus

Adeus, Rogério. O mundo ficou mais pequeno para todos os amigos e companheiros da nossa geração, também para tantos para quem foste uma referência.

Dizer Adeus é dizer Até Sempre.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

O comportamento de cada um

Quem decide por mim?

Um colunista conta uma estória em que acompanhava um amigo a uma banca de jornais.
O amigo cumprimentou o jornaleiro amavelmente, mas como retorno recebeu um tratamento rude e grosseiro.
Pegando o jornal que foi atirado em sua direção, o amigo do colunista sorriu polidamente e desejou um bom fim de semana ao jornaleiro.
Quando os dois amigos desciam pela rua, o colunista perguntou:
- Ele sempre te trata com tanta grosseria?
- Sim, infelizmente foi sempre assim...
- E você é sempre tão polido e amigável com ele?
- Sim, procuro ser.
- Por que você é tão educado, já que ele é tão inamistoso com você?
- Por que não quero que ele decida como eu devo agir.

Autor desconhecido

Matemática com o Scratch

Scratch Project

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segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Um poema... momentos... pensamentos...

VOZES DE CRIANÇAS

O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste,
é uma teia de luz cansada
onde recordo quando iam dormir.
Ainda lhes leio naquele quarto,
debaixo da lâmpada ao lado da cama,
os contos com capas duras de cores brilhantes.
De súbito, em alguma madrugada,
ouço uma criança que me chama e incorporo-me,
mas não há ninguém, só um velho
que ouviu o rumor da memória,
um leve fragor de ar na escuridão
como se uma bala atravessasse a casa.
Ao apagar a luz guardava um tesouro.

Joan Margarit

(Via Amélia Pais)

domingo, fevereiro 14, 2010

Leitura a não perder...

... e a reflectir.
Un tsunami de regalos (Miguel Santos Guerra)

O JMA publicou
aqui uma parte (As Crianças e os Tsunami de Presentes), eu sugiro a leitura de todo o artigo.

sábado, fevereiro 13, 2010

Como ficar rico

Como ficar rico




Com um euro posso comprar
uma tablete de chocolate.
Ou uma bola de Berlim.
Ou três maçãs verdes.

Com um euro posso comprar
uma borracha para a escola.
Ou dois lápis.
Ou um caderno quadriculado.

Com um euro posso comprar
uma rosa.
Ou um balão pequenino.
Ou uma rãzinha de lata.

Com um euro posso comprar
um porta-chaves.
Ou três folhas douradas.
Ou um pincel.


Enquanto não gasto o meu euro
Sou uma criança bastante rica.

Christine Nöstlinger
Via Clube de Contadores de Histórias

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Para vossos filhos (ou netos) ainda pequenotes...

O tão antigo Tangram continua actual como óptimo jogo para desenvolver a capacidade criativa dos pequenotes. Para eles, fiz dois exemplos (claro que o jogo traz um papel com sugestões, mas o papel costuma perder-se logo).

Scratch Project

Clicar na imagem

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Barcarolle num vídeo fascinante

Aurora Boreal

O poema de António Gedeão, ao som de Carmina Burana e com belas imagens.
(Pena a má qualidade dos slides do poema)
Conversão para vídeo de pps da autoria de Ney Luiz, contextura: J. A. de Oliveira

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Democracia...



Não existe ideal político mais bonito que a democracia! Porque ele se baseia na ideia de que o povo tem o direito de decidir sobre os rumos desse barco em que navegamos, e que se chama país! É preciso cuidar dele porque há suspeitas de que o seu casco esteja furado ... Os partidos políticos são as várias tripulações que disputam o controlo do barco. O problema é que todas as tripulações dizem a mesma coisa. Todas prometem consertar os furos do barco, todas prometem navegar na direcção do mesmo porto! E é o povo que deverá escolher a tripulação que vai cuidar do barco e fazê-lo navegar na direcção do porto prometido ... Se o povo escolher a tripulação errada, ai de nós: barco furado, naufragando, o povão afogando-se ... O que os partidos dizem não faz diferença, porque todos prometem a mesma coisa. A coisa complica-se quando a gente examina a composição das tribulações. Meu Deus! Que lapso freudiano acabo de fazer! A minha cabeça queria escrever "tripulação", mas_ meus dedos escreveram "tribulação" ... Com quem estará a verdade? Com a cabeça ou com os dedos? O futuro dirá ... O facto é que se consumam alianças que se acreditavam impossíveis: lobos pastando erva com cordeiros, gaviões chocando ovos de relinchas, antigos piratas abraçados e pacíficos navegantes ... Coisa complicada é a democracia, fácil de ser louvada, difícil de ser executada. No final de contas, o ideal da democracia entra pelo esgoto. O facto é que os eleitores nem sabem o que está a acontecer e nem sabem quem é quem. O que eles sabem são as montagens que aparecem na televisão, produzidas segundo a psicologia das massas, a mesma que se usa para vender cerveja, sabão em pó e absorventes higiénicos. Aquilo que o povo sabe é o que as imagens produzidas mostram. O resultado das eleições vai ser, na realidade, a entrega do "Óscar" ao melhor filme: ganha o melhor actor, o melhor roteiro, o melhor director ... Cumpre-se o dito por Maquiavel: o que importa na política não é que o governante seja justo, mas que ele parece justo.

Rubem Alves

sábado, fevereiro 06, 2010

Uma sugestão para alunos iniciados no Scratch

Melhor dizendo... uma sugestão para professores que tenham os seus alunos já iniciados no Scratch... É um trabalho em parceria com Fernando Frederico (Fred).
O projecto intitula-se "Poetas Portugueses", mas os alunos podem fazer o download, observar a programação e aproveitarem esta para um projecto semelhante sobre algum tema que se preste, de outras disciplinas. Podem mesmo, em vez de fotos ou imagens no menu inicial, escrever subtítulos do tema, aproveitando os outros "trajes" para breve texto e ilustração. O Scratch é muito motivador para os alunos, pelo que um projecto também os motiva para a aprendizagem de pesquisa criteriosa na Internet, orientada ou corrigida pelo professor. Claro, seria um trabalho de grande grupo ou mesmo de turma, por exemplo, na Área de Projecto. Aqui fica...

Scratch Project

Clicar na imagem

ATENÇÃO: O projecto só se consegue visualizar online tendo a versão java actualizada:
actualização free

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Num dia qualquer... decidi... descobri...

Se olharem Portugal com desdém...

Se um inglês ao passar me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
se tens agora o mar e a tua esquadra ingente,
fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente.
Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa,
fui eu que t'as cedi num dote de princesa.
e para te ensinar a ser correcto já,
coloquei-te na mão a xícara de chá...


E se for um francês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Recorda-te que eu tenho esta vaidade imensa
de ter sido cigarra antes da Provença.
Rabelais, o teu génio, aluno eu o ensinei
Antes de Montgolfier, um século! Voei
E do teu Imperador as águias vitoriosas
fui eu que as depenei primeiro, e ás gloriosas
o Encoberto as levou, enxotando-as no ar,
por essa Espanha acima, até casa a coxear


E se um Yankee for que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Quando um dia arribei á orla da floresta,
Wilson estava nu e de penas na testa.
Olhava para mim o vermelho doutor,
— eu era então o João Fernandes Labrador...
E o rumo que seguiste a caminho da guerra
Fui eu que to marquei, descobrindo a tua terra.


Se for um Alemão que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Eras ainda a horda e eu orgulho divino,
Tinha em veias azuis gentil sangue latino.
Siguefredo esse herói, afinal é um tenor...
Siguefredos hei mil, mas de real valor.
Os meus deuses do mar, que Valhala de Glória!
Os Nibelungos meus estão vivos na História.


Se for um Japonês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Vê no museu Guimet um painel que lá brilha!
Sou eu que num baixel levo a Europa á tua ilha!
Fui eu que te ensinei a dar tiros, ó raça
belicosa do mundo e do futuro ameaça.
Fernão Mendes Zeimoto e outros da minha guarda
foram-te pôr ao ombro a primeira espingarda.


Enfim, sob o desdém dos olhares, olho os céus;
Vejo no firmamento as estrelas de Deus,
e penso que não são oceanos, continentes,
as pérolas em monte e os diamantes ardentes,
que em meu orgulho calmo e enorme estão fulgindo:
— São estrelas no céu que o meu olhar, subindo,
extasiado fixou pela primeira vez...
Estrelas coroai meu sonho Português!


Afonso Lopes Vieira (1878-1946)

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Um poema...

... que dedico à minha amiga Isabel Preto.




La nuit n'est jamais complète

Il y a toujours
puisque je le dis
puisque je l'affirme
au bout du CHAGRIN
une fenêtre ouverte
une fenêtre éclairée
[...]

Paul Eluard






(Poema e imagem recebidos da Amélia Pais em Dezembro de 2009)

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Estória

Depois do grande temporal que destruiu a casa de Pedro, no alto da arriba, que havia Pedro de fazer? Ir pelo mundo tentar fortuna é coisa fácil nas histórias, mas não na vida. Pedro estava muito desconsolado da sua vida, sentado no alto da arriba, olhando para os buracos abertos na rocha, onde tinham estado enterradas as estacas da sua casinhota. Pedro pensava na noiva que havia de vir de longe, dali a muito pouco, mal começasse a Primavera, para viver na casinha que ele tinha construído para os dois, no alto da arriba.
Tinham feito muitos projectos. Pedro comprara um barco de pesca, pintara-o de novo; com estacas e pranchas de velhos barcos fizera a sua cabana. Arranjara-a por dentro o melhor que pudera, com esteiras de palha, móveis antigos de casa dos pais, candeias de barro envernizado, búzios e conchas dos mais belos que o mar traz à praia...
Longe, na sua aldeia da encosta, entre pomares muito verdes e casalinhos brancos, a noiva de Pedro fiava o bragal. Tinha tranças loiras no alto da cabeça e as melhores mãos de rendilheira que havia nos arredores. Pedro tinha-a conhecido na grande festa do São Miguel, no Verão do outro ano.
Pedro era pescador, trabalhava por conta dum patrão, mas com as suas economias e a sua coragem, tinha arranjado o dinheiro para comprar o barco. Deixara de aparecer aos domingos na vila, onde as tentações eram maiores — o tiro ao alvo, o jogo da malha, a «venda» do Tio Bento — e o seu barco, o «Estrela de Alva», já estava daí a pouco ancorado na baía, entre os barcos dos outros, com as redes secando ao sol, desenroladas pela areia.
O Inverno chegava ao fim, quando veio o temporal. Com a Primavera, devia chegar da aldeia da encosta a noivazinha que Pedro tinha escolhido no Verão do outro ano. Já as pobres ervas rasas das penedias começavam a espontar-se de verde e a deitar florinhas tristes. E Pedro
nesse dia tinha ido à vila, comprar uns luxos para alindar a casa: um relógio de cuco, um espelho para o quarto, e também um xaile de seda, para oferecer à sua noiva.
O dia desde manhã que ameaçava chuva, mas pela noitinha o céu carregou, começou a soprar um grande vento e a gente velha da vila, os pescadores com longos anos de mar resmungavam, abanando a cabeça:
— Grande coisa vamos ter! Grossa borrasca!...
Pedro voltava com as suas compras para a cabaninha nova das arribas, quando encontrou o Tio Sardinha:
— Olha, menino, não te metas a caminho que o mar já galgou as rochas e vem por aí acima. Se não queres que te apanhe, volta para trás...
— Mas eu vou para casa, Tio Sardinha...
— Se ainda tiveres casa a estas horas... O mar lambeu tudo o que era arribas!
Pedro já não ouviu mais nada: deitou a correr pelo caminho adiante. Depois... Depois, até é melhor não contar. Pedro nem sequer pôde chegar ao alto dos rochedos, ao lugar da sua casa, porque o mar furioso vinha por lá fora, ao seu encontro. Da cabana que ele levantara nas vésperas, com tanto amor, isso nem rasto.
Foi assim que, nessa tarde, o Pedro pescador perdeu em menos dum abrir e fechar de olhos toda a sua fortuna: casa, barco e economias; e, quando o temporal passou, viu-se sentado no alto da arriba, com um relógio de cuco, um espelho e um xaile de seda por únicos bens deste mundo.
Daí a dois dias, chegava da encosta a noivazinha, que ele escolhera no Verão do outro ano, pelo São Miguel. Havia de vir toda asseada, de blusa nova, tranças enleadas em flores, e atrás o pai, guiando o burrico com as arcas do bragal... Ela esperava com certeza que houvesse flores e sinos na igreja da vila. E que no alto das penedias estivesse a cabaninha nova em folha, feita pelas mãos de Pedro, mas toda agasalhada e bonita. E que na baía houvesse um barco pintado de verde, com redes secando ao sol.
E como se enganava!
O mar tinha comido a casa, tinha comido o barco, só deixara no alto da arriba um Pedro miserável, pobre como Job, sem casa nem trabalho...
Na igreja da vila, nem flores nem sinos: muita gente de joelhos, a pedir pelos tristes que o mau tempo apanhara no mar alto e que sabe Deus por onde andariam...
Pedro pensava nisto tudo. Daí a dois dias chegava a noivazinha... Pedro chorava de vergonha e desespero...
Uma gaivota passou, roçou-o com as asas:
— Olha, Pedro, olha como brilha o Sol! Prepara as redes, volta ao mar...
— Não tenho barco...
O Sol bateu-lhe na cara, brilhante, a pino:
— Olha que é meio-dia, Pedro, vai para casa comer as tuas sopas...
— Não tenho casa...
— Não tens casa?! — gritou ali ao pé uma voz rouca e áspera.
— Tens tal! Sempre há um recanto nas rochas mais altas para os desgraçados como tu. Terás peixe cru, sol e bom ar. À noite, a rocha viva serve de tecto e a palha seca serve de cama... Em querendo é vires...
Pedro, que voltara a cabeça, ainda viu a grande águia marinha levantar voo. Olhou pela última vez para os buracos abertos onde tinham assentado as paredes da sua casa. Pensou ainda na vergonha que seria receber na miséria a noiva que ele escolhera. Não tinha coragem, não tinha coragem...
Depois fez uma trouxa com o relógio de cuco, o espelho do quarto e o xaile de seda, e meteu-se a caminho pelas altas escarpas dos rochedos.
— Que vens tu cá fazer? — perguntaram as aguiazinhas-bebés quando viram aparecer no seu ninho de rochas aquele homem esfarrapado e sangrento.
— Venho viver convosco. Foi a mãe-águia que me convidou.
— Ah! — disseram as aguiazinhas, curiosas. — E o que sabes fazer? Sabes voar?
— Não — disse Pedro.
— E tens garras muito grandes?
— Não.
— Bico já se vê que também não tens... Afinal para que é que serves?
Então Pedro disse tudo quanto sabia fazer. Mas como nenhuma das coisas que um homem sabe fazer pode ser feita num alto ninho de águias, longe do mundo e só com as fracas mãos que os homens têm, as aguiazinhas não apreciaram por aí além os talentos de Pedro, e ele viu- -se desde logo esquecido e desprezado, e ali ficou para um canto.
Quando a noiva de Pedro chegou à aldeia, encontrou as portas das casas fechadas em sinal de luto.
— Onde mora o Pedro pescador?
— Morava lá em cima, nas arribas...
A noiva de Pedro não quis saber por que diziam «morava» e correu às arribas: mas nas arribas não havia nenhuma casa. Só restavam os buracos abertos das estacas da antiga cabana.
— O mar levou-lhe a casa... — explicaram os tojos rasteiros da penedia.
— E ele, onde está?
— Isso não sabemos...
A noiva de Pedro viu lá em baixo, à beira-mar, ao sol, homenzinhos que consertavam barcos. Desceu as arribas, e chegou à praia. Mas entre os barcos alinhados não estava o barco verde, o «Estrela de Alva».
— O mar levou-lhe o barco... — responderam os homens às perguntas da noiva de Pedro.
— E ele, onde está?
— Isso não sabemos...
— Talvez o mar o levasse também... — disse então o Tio Sardinha, que fumava ao sol o seu cachimbo. — Na tarde do temporal vi-o subir para as arribas, aconselhei-lhe cautela... O mar talvez o levasse...
— O mar leva tudo... — disseram os homens.
A noiva de Pedro tornou a subir as arribas e sentou-se nas pedras que tinham segurado as estacas da cabana de Pedro.
«O mar leva tudo...», diziam os homens.
— Mas talvez não o levasse! — disse a noiva de Pedro.
— E não levou! — disse a águia marinha passando a voar sobre as rochas da beira-mar.
— Sabes dele? — gritou a noiva de Pedro.
— Está no meu ninho! — respondeu a águia, e passou para mais longe.
As mãozinhas que passaram dias e dias fazendo dançar os bilros, fiando o linho na roca, têm a pela fina e as unhas delicadas. Os pés que andaram metidos em chinelinhas bordadas, são mimosos e doridos. Os braços que nunca levantaram mais peso do que uma abada de frutos ou de flores, são fracos, cansam-se logo. Mas os corações valentes, quando querem uma coisa, valem por mãos calejadas, valem por pés de andarilho, por braços de lutador...
E a noiva de Pedro chegou ao ninho das águias.
As águias andavam a voar ao sol. Só Pedro dormia deitado na palha.
— Pedro, acorda! Acorda, Pedro!
Pedro abriu os olhos, corou de vergonha.
— Ah! Porque vieste? O mar levou tudo...
— Não te levou a ti, Pedro. Ainda estás vivo...
— Já não tenho nada, já não valho nada...
— Vamo-nos embora, Pedro! Que não és águia marinha para viver nestas alturas...
E a noiva de Pedro fê-lo levantar. Sentados na rocha, à beira do ninho, viam lá em baixo as ondas na praia, e o Sol a afundar-se, vermelho e sem raios, na linha das águas...
— O mar levou tudo. Volta tu sozinha. Hás-de achar um noivo com casa e com barcos, mais rico e melhor... Eu é que não desço!
— Que vergonha, Pedro! Já não és um homem!
— Já não tenho nada! Olha o que me resta. — E Pedro mostrou a trouxa: era o espelho para o quarto, era o relógio de cuco e o lindo xaile de seda.
— O mar levou tudo, o mar levou tudo...
Então a noiva de Pedro pegou no espelho e pô-lo diante dele:
— Olha bem para aí, Pedro, e vê se o mar levou tudo; olha bem para aí e vê que ainda és o mesmo Pedro que comprou o «Estrela de Alva» e construiu a cabana, lá no alto das arribas...
— Sim, fui eu, e ainda aqui estou...
— E havemos de fazer os dois outra cabana, e compramos um barco mais pequeno, e vais ver Pedro, e vais ver... Vamos descer para a vila...
— Qualquer dia começamos... Hoje não, que estou cansado... Deixa passar mais um tempo... Esquecer mais esta desgraça... Esquecer que o mar levou tudo.
— Tudo não, Pedro. Deixou-te isto: olha como o tempo passa. — E a noiva de Pedro mostrou-lhe o relógio de cuco, o tiquetaque apressado, os ponteiros, gira que gira. — Olha cada minuto que passa, olha que já não volta mais. Temos de o aproveitar, mãos à obra! Vamos, Pedro!
Pedro pôs-se de pé e começaram a descer de mão dada. Já caía a tarde e fazia frio.
— Que vergonha a minha! A noiva que eu escolhi no outro ano pelo São Miguel vem-me achar de mãos vazias... O mar levou tudo, o mar levou tudo!
O vento do mar passava.
— Pedro!
— Que é?
— Não vês que eu tenho frio...?
— Põe o teu xaile de seda... Foi para ti que o comprei...
— Vês que o mar não levou tudo? Sempre tinhas que me dar...
E Pedro, todo contente, deitou pelos ombros da noiva o belo xaile de seda.
Assim voltaram à vila.
Hoje Pedro tem uma casa de pedra e cal, tem muitos barcos, que vão e vêm no mar. Mas aos filhos que vão nascendo, Pedro sempre mostra as três coisas que o mar não levou: o espelho do quarto, o relógio de cuco e o xaile de seda. O espelho, que é como a certeza de nós mesmos, e do
que podemos fazer; o relógio, que lembra a obrigação de trabalhar e de encher utilmente o tempo que não pára; o xaile de seda — para que ninguém esqueça que ainda o mais miserável tem sempre um pouco de amor para espalhar pelos outros.
E estas são três coisas que o mar de nenhuma desgraça pode levar.

Esther de Lemos
A borboleta sem asas e outras histórias
Lisboa, Editorial Verbo, 1986
Via Clube dos Contadores de Histórias

terça-feira, janeiro 19, 2010

Haiti, desastres naturais e desastres antinaturais

«(...)
Japón, 2005: un terremoto de la misma magnitud y próximo a una zona densamente poblada causó tan sólo un muerto… a causa de un infarto.
No hablemos, pues, de desastres naturales, sino de catástrofes anunciadas, perfectamente evitables, si dejamos de actuar movidos por intereses a corto plazo y nos tomamos realmente en serio la lucha contra la pobreza extrema, contra la degradación ambiental, contra el cambio climático que está incrementando la frecuencia e intensidad de los fenómenos atmosféricos extremos en Haití y en todo el mundo.
Los terremotos, huracanes, inundaciones, erupciones volcánicas, etc., son fenómenos que aparecen ligados a las "potentes fuerzas de la naturaleza", por lo que son denominados "desastres naturales". Sin embargo, el hecho de que dichos desastres estén experimentando un fuertísimo incremento llevó a Janet Abramovitz y a muchos otros investigadores, a fines del siglo XX, a reconocer el papel de la acción humana en este incremento y a hablar de "desastres antinaturales".
(...)
El drama de Haití ha de potenciar la exigencia ciudadana por el cumplimiento de los Objetivos del Milenio, de los compromisos de ayuda al desarrollo. Y hemos de movilizarnos para exigir el paso de una economía "marrón" a una economía verde, solidaria y sostenible, para lograr que este mismo año se firme en México un acuerdo efectivo, justo y vinculante contra el cambio climático. Sin todo ello, Haití y muchos otros lugares del planeta volverán a ser triste noticia de graves desastres que podemos y debemos evitar.»

Texto completo
aqui.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

O nome do meu blogue

Não chegou a ser uma mudança, foi só um acrescento. Porquê? Porque (ainda) não consigo apagar esse título de 'memórias de professora'.

A razão de não apagar é que, embora tenha deixado de escrever essas memórias, por um lado tenho bastantes nos arquivos e marcadores e, por outro lado... enquanto há vida, há esperança, não é? Esperança de que ainda volte a haver um clima na Educação propício a que recorde aqui tantas outras que não cheguei a escrever:

memórias dos tempos em que no meu grupo disciplinar todos gostavam de cooperar e partilhar, de encontrar em conjunto novas estratégias, de pôr dúvidas, de nos enriquecermos uns aos outros;

memórias dos tempos em que eram promovidos pelo próprio ministério da educação encontros regionais de delegados (agora chamados coordenadores e outras coisas como avaliadores, relatores, etc.), bem como encontros de coordenadores da direcção de turma - encontros que, também pela partilha entre todos, nos faziam regressar à escola com novas ideias a transmitir aos colegas;

memórias dos tempos em que se promoviam iniciativas extracurriculares para os alunos, proporcionando a integração dos chamados casos-problema e o crescimento de todos;

memórias dos tempos em que cheguei a ter na minha sala de aula colegas que, quando o horário permitia, iam participar para me ajudarem nalguma iniciativa experimental nada fácil de concretizar sozinha;

memórias dos tempos em que o director de turma tinha como tarefas meramente burocráticas apenas aquelas normais e indispensáveis;

memórias desses tantos anos de directora de turma em que me envolvia com a turma em iniciativas que resultavam lindas porque as turmas correspondiam como maravilha a ultrapassar as minhas melhores expectativas (embora estas sempre confiantes - essa confiança que o aluno sente e o leva a corresponder);

memórias desses tantos anos de directora de turma em que pais e mães não faltavam às reuniões porque logo no início do ano ficavam delineados os temas que os preocupavam e interessavam e percebiam que essas reuniões não seriam para uma mera distribuição de fichas de avaliação nem para pessoalizações relativas aos alunos, e em que compreendiam a importância de ao menos uma entrevista individual tão brevemente quanto a calendarização das entrevistas permitia (incluindo tempo meu disponível para receber após o horário de trabalho de alguns deles - "tempo disponível" que referir actualmente até é humor negro desrespeitador);

memórias dos tempos em que tinha tempo para inventar e preparar momentos roubados à 'matemática do programa' para proporcionar, nas aulas, daquelas actividades a que aderem os "mais difíceis" e fazem crescer as asas em todos;

memórias, enfim, das minhas aulas de porta aberta, em que umas entradas de um avaliador competente não me causariam receios de competições, de favoritismos ou de outras coisas como tais, nem de penalizações injustas na progressão na carreira.


Assim, este blogue vai continuar como anda desde o aparecimento de MLR (ou nem isso, pois já perdi a paciência quer para o ME, quer para climas de escola em que as relações interpessoais se deterioram, em vez de a política desse ministério criar, como reacção, coesão e fraternidade, o que também me fez deixar de escrever sobre a dita política educativa), ou seja, vai continuar com outras e diversas deambulações ao sabor do acaso ou da disposição. Com alguma esperança... até um dia... até um clima propício a regresso a memórias positivas que, apesar de antigas, deveriam, com os devidos ajustes, ser sempre actuais.

terça-feira, janeiro 12, 2010

terça-feira, janeiro 05, 2010

Eduquemos e cultivemos a consciência humana

«"(...) Em todos os homens existe a mesma parcela de dignidade, simplesmente nalguns está de tal modo adormecida que chegam a dar a impressão de seres inferiores, gerando os sentimentos da humilhação. A humilhação do homem perante o homem é imoral. Eduquemos e cultivemos a consciência humana, acordemo-la quando estiver adormecida, demos a cada um a consciência completa de todos os seus direitos e de todos os seus deveres, da sua dignidade, da sua liberdade. Sejamos homens livres, dentro do mais belo e nobre conceito de liberdade - o reconhecimento a todos do direito ao completo e amplo desenvolvimento das suas capacidades intelectuais, artísticas e materiais.Assim, cultura e liberdade identificam-se - sem cultura não pode haver liberdade, sem liberdade não pode haver cultura. (...)»

Bento de Jesus Caraça (1931). As universidades populares e a cultura. In A cultura integral do indivíduo. Conferências e outros escritos. Gradiva, 2008. (Reedição)

domingo, janeiro 03, 2010

Metade (Reposição)

Com outras ocupações, acho que terei que recorrer, de vez em quando, a algumas reposições para este cantinho não estar silencioso...

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, dezembro 27, 2009

Minha prenda de Natal para mim própria

A menos de duas semanas do Natal, descobri na WOOK um livro que procurava há algum tempo: uma colectânia de poesia portuguesa que fosse bastante completa. E eis que vejo esta Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, prefaciada por Vasco Graça Moura.
Ao fim de quatro dias tinha-a em casa, mas guardei-a sem abrir para pôr junto da minha árvore de Natal, pois uma pessoa tem o direito de oferecer também uma prenda a si própria!
São 2095 páginas, mais um índice alfabético de autores e um extenso índice geral por ordem cronológica dos mesmos.

Comecei por procurar Eugénio de Andrade (54 poemas).


No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

(Ofício da Paciência, 1994)


Também já contei os poemas de Fernando Pessoa e Heterónimos (cerca de 130) e os da Sophia (31).

domingo, dezembro 20, 2009

DESTAQUE

Não deixem de ouvir esta Conversa com Professores do JMA - conversa com professores à boa maneira de Rubem Alves ;)
(Às vezes o vídeo demora um bocadinho a abrir, é questão de minimizarem e continuarem a trabalhar por um minutinho)

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Só os MEDROSOS aceitam cometer injustiças

Não resisto a umas breves palavras, pois acabo de saber que a 3za, do Tempo de Teia, de cujo extraordinário trabalho com os alunos não preciso de falar pois bem o conhecemos e admiramos, e que, aliás, defendeu a sua tese de mestrado muito recentemente tendo a classificação excepcional de Excelente... a 3za, dizia, foi avaliada na sua escola com um Bom!!!
Sem comentários... o meu comentário já está no título deste post.

sábado, dezembro 12, 2009

Red Carnatiom in Portugal-Cravo de Abril

Embora muito simples e sem recursos matemáticos para obter efeitos mais bonitos, pois foi feito nesta tarde dado que há afazeres da época natalícia que tenho atrasados, gosto de o ter feito e publicado no site internacional MIT EDU (também no nosso Sapo Scratch) para que scratchers ou apenas visitantes conheçam algo do nosso Portugal (através das notas laterais ao projecto).

(Ter sido visto e comentado quase logo após a publicação por um dos mais conhecidos scratchers do MIT no domínio da aplicação da Matemática à Arte foi o estímulo deste sábado para a pouco mais do que principiante que eu sou)


Scratch Project

Clicar na imagem para ver o projecto correr e ligar o som

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Mas houve muito tempo...


A Batalha de Natal


— Só mais seis dias — disse Neli.
Enquanto a filha tentava assobiar Noite Feliz, a mãe repetiu, pensativa, numa voz que não soava alegre:
— Ainda seis dias.
Após uma curta pausa, prosseguiu, suspirando:
— Se tudo já tivesse passado!
Com o assobio suspenso no ar, Neli olhou para a mãe com ar estupefacto:
— Não estás contente?
— Claro que sim, mas já estou pelos cabelos com esta agitação toda!
Como Neli não tinha aulas à tarde, foi patinar com uma amiga. Ao cair da noite, dirigiu-se ao supermercado onde a mãe trabalhava. Havia tanto movimento que o lugar mais parecia uma colmeia. A mãe estava sentada numa cadeira giratória, diante de uma das seis caixas registadoras. Os produtos chegavam-lhe num tapete rolante. Enquanto a mão direita marcava os números no teclado, a mão esquerda rodava as embalagens para que a máquina pudesse ler os códigos. Finda a operação, os produtos eram colocados, um a um, no carrinho de compras. Quando acabava de marcar tudo, a mão direita carregava na tecla do total e rasgava o talão, enquanto a esquerda afastava o carro cheio e puxava o próximo, vazio, para junto dela.
— Que bem fazes isso — dissera-lhe Neli uma vez. — Eu faria tudo devagar e, ainda por cima, metade saía mal.
— Ora — dissera a mãe a rir. — É uma questão de treino. Quando comecei, também não era assim tão despachada. Não encontrava a etiqueta com o preço e, muitas vezes, carregava nas teclas erradas. Como tinham de esperar, as pessoas resmungavam. Agora já quase consigo fazer isto automaticamente.
— Como um robô! — Neli riu-se.
E se tivesse um robô como mãe? Nunca teria dores de cabeça, nem à noite estaria tão cansada. Mas um robô não tem coração e, por isso, Neli preferia a mãe tal como era, mesmo quando, em certas noites, quase nem conseguia falar de tão cansada!
Só mais quatro dias.
Só mais três.
As filas nas caixas eram cada vez mais longas. As pessoas abasteciam-se de comida como se o Natal durasse meio ano. Com um ruído sibilante, as portas automáticas abriam e fechavam, abriam e fechavam. A mãe sentia nas costas a corrente de ar e os cartões pendurados no tecto balançavam de um lado para o outro.
Um sino de Natal, por cima da cabeça da mãe, tinha escrito a vermelho: PROMOÇÃO: Bombons, 250 gr, a preço especial.
Perto dele balançava um anjo de papel com uma faixa nas mãos, como nas igrejas, mas onde não estava escrito Paz na terra aos homens de boa vontade, mas sim Fiambre para o Natal a 15,80€/kg.
Os altifalantes debitavam música de Natal:
Noite feliz…
Cabeça de anho
Noite feliz…
Descafeinado
Papel higiénico de três folhas
O Senhor…
Lenços com monograma
Mostarda
Nasceu em Belém…
A mãe suspirava e, com um movimento rápido, limpava o suor do lábio com as costas da mão. Os clientes, impacientes, esperavam, apoiando-se ora numa, ora na outra perna. De olhar ausente, nem olhavam para a senhora da caixa, pensando apenas no regresso a casa com os sacos pesados e o eléctrico cheio.
Ufa!
Só mais três dias, e acabaria tudo.
— Vou fazer um jantar como o do ano passado — disse a mãe, à noite, virando-se para Neli. — Patê em folhas de alface, porco assado, batatas fritas, feijão e, para sobremesa, creme de chocolate de lata com peras.
No dia 24 de Dezembro, a loja só estava aberta até às quatro horas da tarde. Em seguida, os empregados podiam comprar, com um desconto de 15%, os produtos que tinham sobrado. A mãe de Neli achava que valia a pena e, por isso, tinha guardado as compras maiores para essa altura: uma pasta escolar para Neli, uma boneca, lápis de cor, um anoraque para o pai, e a comida para a ceia de Natal.
Na sala do pessoal, houve um lanche para todos os empregados.
— A batalha de Natal foi mais uma vez vencida — alegrou-se o chefe do pessoal, que proferiu mais umas palavras elogiosas.
Depois foram servidos pãezinhos com fiambre e um copo de vinho a cada um.
Após o lanche, a mãe de Neli deixou ficar os gordos sacos de compras esquecidos na sala do pessoal. Só reparou quando já estava na paragem do autocarro. “As minhas prendas! Todas aquelas coisas boas para a ceia!”, pensou assustada.
Mas a loja já estava fechada e, antes do dia 27, não voltava a abrir. Chegou a casa de mãos vazias.
Nessa noite, apesar de tudo, festejaram o Natal. O pai acendeu as velas da árvore de Natal e Neli recitou um poema. Só se lembrou das duas primeiras estrofes e depois encravou, mas a mãe achou-o muito bonito e o pai nem reparou que ainda continuava. O jantar foi mais curto do que o planeado. Por sorte, a mãe já tinha comprado o assado e havia batatas em casa, mas não houve entrada nem sobremesa. Trincaram nozes e comeram maçãs.
— Assim, não fico com o estômago tão pesado como no ano passado — disse o pai. — Comidas pesadas não me caem bem.
Também não havia muito que desembrulhar.
Por isso, sobrou tempo. Muito tempo.
Neli foi buscar o jogo “Memory” que recebera no Natal anterior. Durante o ano inteiro, esperara, em vão, todos os domingos, que alguém tivesse tempo para jogar com ela.
Agora, os pais tinham tempo.
O pai nunca tinha jogado “Memory”. Ao fim de algum tempo, Neli já tinha encontrado sete pares de cartas, a mãe três, e o pai, que geralmente queria ganhar sempre, procurava constantemente no sítio errado.
Tentava alguns truques, pondo, sem ninguém dar conta, migalhinhas de pão em cima das cartas que tinha decorado, ou pousava as mãos na mesa, de forma a que o polegar indicasse a direcção em que estava uma determinada carta. Mas Neli descobriu-lhe a jogada. Jogaram mais duas ou três vezes e o pai não se zangou por perder sempre. Depois, ainda jogaram o jogo do assalto.
À meia-noite, o pai apagou a luz e ficaram a olhar pela janela. A neve reflectia uma luz clara e ouviam-se os sinos a tocar.
— A esta hora, há quase dois mil anos, nasceu Jesus — disse a mãe, e Neli reparou que, afinal, a mãe estava contente por ser Natal.
Ao ir para a cama, Neli disse:
— Este foi um Natal muito bonito.
— A sério? — perguntou a mãe, admirada. — Mas não houve ceia nem prendas quase nenhumas.
— Mas houve muito tempo — respondeu Neli.


Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
(Tradução e adaptação)

Via Clube de Contadores de Histórias

terça-feira, dezembro 08, 2009

Convite/Desafio Natalício

O Raul Martins, do blogue Por Um Mundo Melhor, lançou-me o desafio que consiste em revelar um pouco de nós, em época natalícia, completando as frases que foram propostas. Aqui ficam as minhas respostas e, seguindo as regras, no fim, apresento os CINCO blogues que convido a responderem ao desafio.

1. Eu já... vivi Natais longe de alguns dos meus entes mais queridos, mas com toda a força do meu pensamento e do meu infinito amor a acompanhá-los.

2. Eu nunca... deixei de fazer uma árvore de Natal muito grande e bonita para alegria, primeiro das minhas filhotas, agora dos netos que tenho perto, nem nunca deixei de satisfazer o pedido ao Pai Natal das netas que estão longe.

3. Eu sei... que o Natal é para muitos uma histeria de consumismo, enquanto para muitos mais no mundo é fome e miséria como em todos os outros dias, sem que os 'senhores do mundo' cuidem de um Natal todos os dias para todos.

4. Eu quero... que minha mãe, com os seus 96 anos, ainda viva bastantes Natais na companhia da nossa família.

5. Eu sonho... com a paz, o progresso, a liberdade e a eliminação de qualquer forma de miséria ou de discriminação para toda a humanidade, independentemente de opções religiosas.





E agora, os meus convites para adesão a este desafio (por ordem alfabética dos autores dos respectivos blogues):





- Fátima André -
Revisitar a Educação


- Isabel Preto - Histórias con(m) Vida!


- Madalena Mendonça - Chora Que Logo Bebes


- Matias Alves - Terrear


- Miguel Pinto - outrÒÓlhar


-Teresa Marques - tempo de teia





[Desculpem a incapacidade de contar até cinco ;) ]

Consertar o Mundo

A estória é conhecida, corre por email, mas acho importante não a esquecer...


clicar para ler

terça-feira, dezembro 01, 2009

Um momento de beleza...

... numa interpretação ousada.

Nota: O vídeo tem apenas a segunda parte. Podem vê-lo mais completo
aqui, onde é pena faltar no título a referência de "Ballet Chinês".

domingo, novembro 29, 2009

sexta-feira, novembro 27, 2009

Objectivo: eliminar parte da população mundial? Infelizmente, não me espanta!

Não sei se isto é totalmente verdade, mas estou convencida de que tem pelo menos algo de verdade. Sabemos que é preocupante o crescimento quase exponencial da população mundial, mas resolver o problema matando grande parte dessa população é diabólico.
E a influência e os interesses das grandes companhias farmacêuticas são terríveis.
Não deixem de ver o vídeo.

domingo, novembro 22, 2009

O fascinante "número de ouro"

Sempre me fascinou essa proporção a que alguns chamam "divina", sobretudo por se encontrar por todo o lado na natureza.

[Ando a fazer um projecto no Scratch em partilha com o meu amigo e grande Scratcher Fred para mostrar ao menos dois exemplos dessa geometria na natureza- ele está a fazer o nautilus e eu estou a tentar fazer uma pinha mostrando as espirais que a formam (ainda não sei é se conseguirei, pois uma coisa é entender a matemática no papel, outra ainda complicadíssima para mim é aplicá-la no Scratch)]


A propósito, lembrei-me de deixar aqui dois exemplos, mas não na natureza (ambos quadros de Seurat). Porque todos (ou quase todos) os grandes pintores usaram essa proporção em que a razão é o "número de ouro" (número irracional, tal como o conhecido Pi).



sábado, novembro 21, 2009

Que bom o YouTube fazer esta publicidade!

É a minha sugestão de prenda de Natal para pré-adolescentes e adolescentes que não tenham lido o Principezinho. (Para adultos também, mas que adulto dos nossos conhecidos não o terá lido?)

segunda-feira, novembro 16, 2009

A Casa de nossos filhos ou netos - a Terra - em perigo

Recebi em pps como "premiado como o mais valioso pps de 2008" (autor não identificado) e converti em vídeo, pois é importante a sua divulgação e urgente a acção de TODOS.
(Decerto haverá no YouTube outros vídeos com o mesmo alerta)


domingo, novembro 15, 2009

Descobrindo mais potencialidades pedagógicas do Scratch

Estou descobrindo como o Scratch também pode ser uma ferramenta incentivadora do gosto pela Matemática para os alunos mais velhos, do E. Secundário, sobretudo para aqueles que gostem da disciplina de EV ou gostem de projectos artísticos. Eu não tenho a mínima "veia" artística, mas vejo trabalhos lindíssimos no MIT.Edu programados mediante conhecimentos de Matemática, alguns avançados, mas outros não requerendo mais do que os que os alunos aprendem no E. Secundário (ou os professores se esforçam por que aprendam) - vale a pena uma visita aqui e aqui (não é precisa inscrição só para ver ou pesquisar, basta clicar no projecto que se quiser ver a funcionar).

É verdade que ainda não foi no projecto que publiquei hoje que me aventurei a tentar aplicar funções/equações, pois ainda sou quase principiante no Scratch, e há uma distância considerável entre saber no papel e saber aplicar no programa, mas este permite inclusivamente usar funções trigonoméricas e logatítmicas, embora com uma programação complicada na base da criação de diversas variáveis se se quiser fazer um projecto bonitinho.

No projecto que hoje acabei ainda só usei cálculos bastante simples no papel baseados apenas nos procedimentos para construção geométrica de certas curvas, mas já fiquei toda contente por ter conseguido no Scratch duas rosáceas e a conhecida (pelo menos entre o pessoal da mat) espiral de Fibonacci, que respeita a "razão áurea" - essa proporção mágica que existe tanto na natureza e é usada em muitas das grandes obras de arte (talvez em quase todas).

Penso que o meu projectozinho de hoje serve para mostrar como tanto os alunos do 2º ou do 3º ciclo podem usar, por exemplo, apenas a circunferência escolhendo raios e coordenadas de centros para obterem efeitos que, se calhar, alguns conseguirão mais bonitos dos que os meus, como podem os mais velhos apenas basear-se nas construções geométricas de outras curvas para as programar sem grande dificuldade no Scratch.


Clicar na imagem para ver o projecto e ligar o som:

Uma imagem do projecto onde se verá tenuamente o rasto do voo da borboleta
em espiral de Fibonacci
:


Nesta, como se vê, apenas arcos de circunferência
depois de completada a visualização do enchimento:


Nota: Os inscritos no MIT ou no Sapo Scratch que tenham o programa instalado podem fazer o download de qualquer projecto, o qual abre automaticamente no nosso programa permitindo vê-lo "por dentro", ou seja, como foi feita a programação (a fim de estudar procedimentos, não de copiar, claro).

__________

Adenda

Deixo aqui os meus parabéns à 3za (já lhos dei, mas repito) por o seu "Scratch Time" (clube para os alunos) estar entre os 50 finalistas (TOP50) de um concurso internacional 2009.

terça-feira, novembro 10, 2009

Flores do meu "jardim"

Entre aspas porque é um jardim na minha varanda. É bom ter flores, e eu tenho sempre, pois umas vezes são umas floreiras ou vasos que estão floridos, outras vezes são outros e... quando tal não acontece sou logo cliente do Horto do Campo Grande. ;)

Mas antes das minhas flores...


Para receber o orvalho
as flores abriram
as suas portas ao dia.

Albano Martins (*)

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__________

(*) Albano Martins (1995). Com as Flores do Salgueiro. Porto, Ed. Universidade Fernando Pessoa.

Imagem daqui

sábado, outubro 31, 2009

Haikus (ou Haikais)

Entre os meus haikus preferidos estão os de Bashô. Hoje deixo uma pequenina colecção de haikus dele. (As "ilustrações" foram escolhidas por mim neste site de arte japonesa)


Ah este caminho
que já ninguém precorre
a não ser o crepúsculo


A nuvem atenua
O cansaço das pessoas
Olharem a lua



Por este caminho,
ninguém mais passa -
tarde de outono.

Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia



Neste outono,
Como estou ficando velho!
Pássaros nas nuvens.

Não há arroz
mas tenho na malga
uma flor


quinta-feira, outubro 29, 2009

Hoje voltei aos bancos da escola ;)

Pois... Eu gosto muito de estar na situação de aluna. Gostei muito quando, em tempos, fiz um "curso pós-graduação" (entre aspas porque não sei se ainda se chama assim ou até se a modalidade ainda existe), tal como gostei muito quando fiz mestrado, então já avó. (Bem... não era assim tão velha, fui avó pela 1ª vez bastante cedo... lol).
Agora, é só um cursinho de um ano apenas com uma aula semanal, na SNBA, mas já várias pessoas me tinham dito que era muito interessante, pois o professor (por acaso meu amigo e também meu vizinho de prédio) dá-o de uma forma especial no modo como vai estabelecendo relações entre a pintura, por um lado, e outras formas de arte como o cinema e até a literatura. E esta primeira aula, hoje, até excedeu as minhas já boas expectativas.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Desejando a todos boa semana...

... hoje deixo apenas um pequeno poema.

Dir-se-ia de repente
O horizonte é mais vasto e generoso

O coração repousa
Um pouco

Distende as asas
Mas sem levantar voo


Alberto de Lacerda (1947- 2007)

(Via Amélia Pais)

domingo, outubro 25, 2009

Mudou a hora...

Anoitece mais cedo —
As estrelas brilham
Sobre o campo seco.


Buson

  Suzuki Shonen

terça-feira, outubro 20, 2009

Momento poético e musical

Poema:

Vem devagar sobre a corda da minha espera
ninguém saiu à rua mas há rosas
assim a tarde assim a mudança em disfarce

Demora-se a loucura e a camisa
e o teu corpo moreno espalha-se pelas ruas

Vem devagar
o sol teceu a tarde para o nosso encontro
o sol, caindo, insiste para que nos vejamos


Ossanha

Para acompanhar o poema:




Com o agradecimento à Amélia Pais