domingo, maio 10, 2009

Colocar a política no centro das melhorias

O título é o do último capítulo de um extenso artigo de Joaquim Azevedo, intitulado Melhor educação é possível - artigo que o JMA divulgou já há uns dias pelo Scribd, e cuja leitura integral sugiro vivamente: Aqui.

Como o artigo é extenso, destaco este seu último capítulo.

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«Precisamos muito mais de mudar de políticas educativas do que de ministros da educação! Temos de trazer a educação para a praça pública. O Presidente da República, a Assembleia da República e o Primeiro-Ministro (que tão afastados andam de uma intervenção capaz e concertada no terreno das políticas de educação e formação) têm de se entender sobre algumas prioridades básicas e colocar o pé no acelerador, anos a fio, sem hesitações e tibiezas. Temos de estabelecer compromissos políticos e compromissos sociais concretos (não consensos balofos!), desde o plano nacional ao plano local, valorizando sobretudo uma imensidade de pequenos compromissos (de preferência assinados), que possam fazer da melhoria da educação uma efectiva e concreta grande causa nacional.

O tempo da retórica devia ser encerrado. Não são necessárias mais leis encantadoras, não mais discursos encantatórios, mas sim mais compromissos concretos, mais empenhamento e envolvimento, mais trabalho, muito trabalho e ainda mais trabalho, unidos neste objectivo comum de melhorar a educação das novas gerações e de todos os portugueses, ao longo de toda a vida e com a vida.

Repito: a melhoria da educação escolar não é uma questão técnica é uma questão política. E isto mesmo há muito boa gente que ainda não percebeu. E “ocupa” a 5 de Outubro ocupando o tempo a criar mais uma disciplina, a colocar mais uns computadores, a meter mais TIC nas escolas, a descobrir mais uma circular interpretativa, a desfazer planos de estudos e a criar outros que ninguém sabe de onde brotam, tão caudalosos, a criar “a martelo” agrupamentos verticais e horizontais onde poderiam existir apenas redes de cooperação, a mudar horas lectivas de 45 para 90 minutos, a…inventar soluções técnicas para problemas que não existem e a ignorar soluções políticas que a todo o momento urgem, passando todos os dias atestados de ignorância profissional aos professores e de irresponsabilidade social aos directores das escolas. “Até quando abusarão da nossa paciência?”. Até quando vai persistir toda esta esquizofrenia, sob o encantamento das vozes populistas do “ bando do eduquês”, que dizem que tudo está mal e que o bem só pode ser alcançado com mais uns requintados retoques técnicos, esses sim, os definitivos, sempre “de uma vez para sempre”!

Vivemos num tempo novo. O paradigma da educação de todos ao longo de toda a vida irá iluminar e condicionar o desenvolvimento da educação nas próximas décadas, num contexto de mudança contínua e de incerteza. Temos de esclarecer o novo lugar da educação na “sociedade do conhecimento”, desde a educação escolar à educação social, e discernir o lugar da “nova” escola em cada comunidade: é um enclave, um contentor que ali foi colocado e face ao qual a comunidade local pouco ou nada tem a dizer? Ou é uma instituição social nuclear para pensarmos e construirmos um desenvolvimento social sustentável? Como se articula esta instituição com outras instituições locais, com papéis educativos também relevantes ? Qual deve ser aí o lugar e o papel dos professores, o que espera a sociedade deles e como é que se cruzam os seus horizontes profissionais e a sua acção com a dos pais, das associações e agentes culturais, dos empregadores…? Ficou muito claro, no Debate Nacional sobre a Educação, que muitas escolas continuam dramaticamente isoladas, seja porque se fecham sobre si mesmas seja porque a sociedade desvaloriza a educação escolar e não se compromete (para lá de uma retórica gongórica e enfadonha) na melhoria da educação.

Pergunto: queremos que o sistema de educação seja regulado exclusivamente a partir do centro (dos vários centros, tipo DRE), de um Estado que irresponsabiliza ou um sistema multiregulado, que valoriza também a participação dos docentes e a acção dos pais, das autarquias, dos interesses culturais, socioeconómicos? Até onde estamos dispostos a ir, como sociedade aberta, num novo Modelo de Governação de Educação (MGE) assente na multiregulação, na intervenção renovada, personalista, subsidiária e inteligente do Estado e valorizando a participação sociocomunitária, para atingirmos, com outra serenidade e persistência (sem andarmos aos solavancos, num “stop and go” permanente), uma educação de maior qualidade para todos os portugueses? Sem redefinirmos as prioridades, os níveis de responsabilidade e os responsáveis, continuaremos, por exemplo, como já acontece há vinte anos, a falar e a decretar a autonomia das escolas quando, efectivamente, as escolas não têm autonomia real nenhuma, simplesmente porque nada mudou no modelo de regulação ao dizermos que mudou a autonomia da escolas. Por outras palavras, que lugar é que queremos que tenha a autonomia das escolas neste novo MGE? Que atribuições, competência e responsabilidades devem ficar concentradas nos agrupamentos escolares e escolas? E que lugar é reservado para a comunidade local e para os serviços regionais e centrais? E para os directores das escolas, e para os professores e as equipas interprofissionais, a cooperar em prol da melhoria da educação? E para os pais? E para as autarquias? E para a administração central? E…Não podemos prosseguir a política do simulacro, da retórica balofa, do faz de conta e… do caos subsequente!

No processo de melhoria gradual, contínua e persistente da educação em Portugal, um imperativo social de primeira grandeza, é preciso reconstruir, por um processo de concertação e de acção-reflexão permanentes, o lugar e a função dos professores como profissionais, das equipas de professores dentro das escolas, da cooperação destes com outros profissionais, da articulação com os pais, da ligação a outros actores sociais locais. O que queremos dos professores e das equipas docentes? São correias de transmissão, são funcionários que apenas repetem matérias ou são profissionais autónomos, num novo e clarificado quadro de responsabilidades profissionais e sociais? Há ou não lugar para o desenvolvimento e aprofundamento de uma cultura escolar e para a sua valorização social? Sabemos que só uma pertinente, cuidada e persistente reflexão pedagógica sobre as situações-problema concretas, pode gerar melhorias na educação, turma a turma, escola a escola, em contextos comunitários de incentivo à educação de todos. Que dinâmicas de governação educacional devem exercer as escolas e que controlo social querem o Estado e a sociedade instituir para credibilizar e apoiar as escolas e os professores e os seus projectos de melhoria gradual da educação?

Temos de definir se queremos que o MGE seja centrado no Diário da República, como até aqui, governo após governo, ou em actores sociais e em compromissos sociais concretos em prol de mais e melhor educação, construídos com a activa e responsável participação dos portugueses, desde o nível local ao nacional (como já se teima em querer fazer em tantos locais e com a participação de alguns parceiros sociais)? Que novos compromissos sociais concretos queremos vir a estabelecer? Uma coisa parece certa: só num clima de liberdade e de confiança entre os parceiros e de responsabilização das partes será possível edificar um novo MGE.

Uma educação de qualidade para todos os portugueses, sem excepção, é demasiado importante para o nosso futuro para continuarmos a deixar de lado as questões centrais, persistindo em seguir um MGE que teima em ser centralista, uniforme, burocrático, tecnocrático, desresponsabilizante, quando não desnorteado, em contínuos solavancos, sob o signo do improviso e da inspiração do momento (de cada equipa ministerial, mesmo dentro de um mesmo governo!). Este modelo de governação gera mediocridade e desresponsabilização social. Todos os dias. Há muitos anos que precisamos de mais liberdade e de mais política, não precisamos de mais tralha técnica a cair ciclicamente dentro de um sistema fechado.
Políticas de equidade impostas pelo Diário da República, central e uniformemente, constituem atentados à liberdade e à responsabilidade e só podem gerar mediocridade. Precisamos de plataformas cívicas de participação para a reconstrução do bem público educacional, como ficou tão claro no Debate Nacional. Precisamos de política, não precisaremos tanto de “comissões técnicas de sábios”, que se nomeiam para desatar pequenos nós, quando estes pequenos nós apenas escondem os grandes nós, que, esses sim, continuam atados e bem atados. Somos nós, todos nós, em todo o país, que podemos e temos de desatar estes nós.
Precisamos de um regresso à esperança e estou certo de que nós somos bem capazes de o fazer.
À profecia decretada da incapacidade dos portugueses, temos de opor a profecia da construção social de mais e melhor educação, num renovado quadro de cooperação e de esperança.»


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Adenda

Não resisto a acrescenter uns breves excertos do capítulo, do mesmo artigo, intitulado Os professores, bodes expiatórios ou construtores do futuro?


«A ética do cuidado é o seu modo de proceder. Cuidam de cada um como se fosse único. Cuidam de cada turma como se fosse um jardim, onde a variedade das flores é o seu encanto, não o seu problema. Onde é preciso regar e nutrir todos os dias as raízes, indicar caminhos e ser luz para que os botões de cada pessoa de cada aluno despontem e as suas flores abram, únicas, humanamente resplandecentes, frutos da convocação humilde do jardineiro. Diante de tanta beleza, que é o desabrochar humano que ocorre diante dos olhos e das mãos dos professores, o professor realiza-se e é impelido a partilhar e cooperar com os seus colegas essa mesma beleza e as diversas formas de que se reveste.
Não, os botões não hão-de ficar amordaçados dentro do peito, eles têm de rebentar, de abrir, de ser gente, de amar e ser amados, de dar e de receber, de construir e ser construídos em sociedade e em comunidade. O professor é o profissional que cuida de cada flor (em cada geração) e esse é um trabalho imenso (regar, adubar, podar,..), que requer toda a atenção, carinho e rigor, que implica um trabalho imenso, muita dedicação e dádiva e a formação de equipas educativas (Boavida, 2002; Formosinho e Machado, 2008). Não perceber isto é não perceber o essencial da educação e também da educação escolar.
Este cuidado requer níveis sofisticados de atenção. Não basta o trabalho individual de cada professor, porque cada jardim conta com dez jardineiros, que têm de fazer equipa (...)

Faz falta, no entanto, entre os professores, a construção de dinâmicas de auto-formação, rotinas de trabalho semanal em equipa de docentes, de reflexão assente na acção concreta, nas dificuldades e nos êxitos alcançados, uma acção lenta e persistente, colectiva e de equipa de profissionais, de melhoria contínua. Este (árduo e apaixonante) caminho é, a meu ver, o que pode conduzir a uma real redignificação profissional dos professores, num novo quadro institucional e profissional. (...)»

sábado, maio 09, 2009

sexta-feira, maio 08, 2009

O tesouro mais precioso

Uma mulher velha e sábia fazia uma viagem através das montanhas quando, no leito do rio, encontrou uma pedra preciosa. No dia seguinte, continuando seu caminho, deparou-se com um viajante que tinha fome e, para atender o seu pedido de ajuda, a mulher abriu a bolsa para dividir com ele sua comida.
O homem deslumbrou-se com a visão da pedra e pediu à mulher que lhe desse de presente. Sem hesitar, ela lhe entregou a jóia. O viajante se foi, rejubilando-se por sua sorte. O tesouro poderia garantir-lhe segurança para toda a vida.
Mas, alguns dias depois, ele voltou à procura da mulher. Ao encontrá-la, entregou-lhe a pedra, dizendo: "Pensei muito e sei bem o valor desta pedra, mas venho devolvê-la. O que quero é algo muito mais precioso. Se for possível, me dê o que está dentro de você e que a fez capaz de me entregar um tesouro como esse."

Canfield & Hansen. Histórias para aquecer o coração 2. Ed. Sextante

segunda-feira, maio 04, 2009

Articulação curricular

Transcrevo para aqui o comentário que deixei no Aragem ao tema lançado pelo Miguel Pinto. O tema não pareceu suscitar interesse em comentar, debater ou partilhar experiências. Mas, quando escrevo sobre questões directamente respeitantes ao ensino, mesmo que me sinta a pensar sozinha em voz alta, gosto de guardar os meus pensamentos neste meu cantinho, ainda que sejam pensamentos só de mim para mim mesma.

Não vou teorizar nem dizer generalidades, mas só dar alguns exemplos da minha experiência como prof. de matemática no âmbito do que eu entendo por articulação curricular, e detendo-me nos próprios conteúdos dos programas, embora esse nem seja o principal aspecto na dita articulação.
1- A desarticulação começa pelos programas: os da cada disciplina parecem ser feitos por equipas que nem pensam em conteúdos comuns a várias disciplinas (dou os exemplos da Matemática com a Física-Quimica e da Matemática com a Educação Visual), havendo desfasamentos que impedem (ou dificultam muito) que os respectivos professores reforcem e complementem simultaneamente o trabalho de cada um. E isso seria importante, pois sobejamente a investigação refere o problema da transferência, isto é, os alunos têm muita dificuldade em transferir os conhecimentoa aprendidos num contexto para outro contexto (neste caso, de uma disciplina para outra). E, por exemplo, professores de FQ e de EV queixam-se por vezes de que os alunos não sabem o que era preciso saberem da Mat quando afinal se trata de conteúdos que o programa de Mat só prevê para mais tarde. Claro que isto poderia ser resolvido se houvesse interesse e tempo para reuniões de trabalho.
2- Os conselhos de turma intercalares, sempre com uma calendarização apertada que dá pouco tempo a cada um, são na maioria dos casos gastos a dar informações (avaliação) ao dt, a fazer queixas também ao dt de problemas de indisciplina, e não me lembro de nenhum em que tenha participado em que se falasse de alguma coisa a ver com articulação curricular, a não ser umas generalidades, mas mais em termos de estratégias para prevenir ou resolver problemas de indisciplina. Só me lembro de algum trabalho (além de breves e esporádicas conversas com outros professores) entre mim (coordenadora de mat do 3º ciclo) com a colega de Física (tb coordenadora), mas um tanto apressadamente quando os nossos horários faziam que nos encontrássemos no intervalo na sala de professores.
Quanto aos ditos projectos curriculares de turma, são pouco mais do que meros papéis.
3- A falta de trabalho em termos de articulação curricular vem de há muito tempo. Mas MLR, se percebesse alguma coisa de pedagogia e didáctica e estivesse verdadeiramente interessada em medidas que efectivamente melhorem o ensino em vez de só estar interessada em estatísticas e propaganda, e em que a escola guarde meninos nas salas, teria pensado bem na melhor utilização a dar à componente não lectiva de estabelecimento, que introduziu. Lembro-me de uma mesa redonda promovida pelo SPGL em que uma colega e minha amiga às tantas apelava à senhora ministra por "um só papelinho, um papelinho apenas" a determinar que prioritariamente fosse pensada essa componente não lectiva para possibilitar reuniões de trabalho. Mas o que a ministra fez foi atulhar, sim, os professores com reuniões para papelada e mais papelada, muitas vezes feitas para além do seus horários.
4- Uma nota sobre a articulação entre o Português e a Matemática. Pode parecer que estas disciplinas não têm a ver uma com a outra, mas têm, e muito. Todos sabemos que há uma interacção entre o desenvolvimento do rigor do pensamento e o desenvolvimento da precisão na linguagem. Além de que um dos maiores problemas dos alunos na resolução de problemas está na dificuldade de leitura atenta, compreensão e interpretação dos enunciados. Em que escolas vemos professores das duas disciplinas e com turmas em comum considerarem a necessidade de falar disso e traçarem estratégias convergentes?
5- As tão faladas competências transversais são inscritas naqueles papéis que o CP aprova sem ler, respeitantes aos objectivos/competências de cada disciplina, para serem arquivados nos dossiês de cada departamento, mas cada departamento continua a ser um compartimento fechado.

Termino com três perguntas:
- Como sensibilizar os professores para esta questão? (Só falei de algumas disciplinas, mas a questão põe-se a todas e, como disse no início, não só em termos de conteúdos a ensinar)
- Como aproveitar as reuniões existentes para que se concretize uma verdadeira articulação curricular?
- Como pode a chamada (e falsa) autonomia das escolas inserir esse trabalho nos seus projectos?

domingo, abril 26, 2009

Consertando o mundo

Um cientista vivia preocupado com os problemas do mundo e estava resolvido a encontrar meios de minorá-los. Passava dias em seu laboratório em busca de respostas para suas dúvidas...
Certo dia, seu filho, de sete anos, invadiu o seu "santuário" decidido a ajudá-lo a trabalhar. O cientista, nervoso pela interrupção, tentou fazer com que o filho fosse brincar em outro lugar.
Vendo que seria impossível demovê-lo, o pai procurou algo que pudesse ser oferecido ao filho com o objectivo de distrair sua atenção. De repente, deparou-se com o mapa do mundo e alegrou-se, pois era exactamente o que procurava! Com o auxílio de uma tesoura, recortou o mapa em vários pedaços e, junto com um rolo de fita adesiva, entregou ao filho dizendo:
- "Você gosta de quebra-cabeças? Então vou lhe dar o mundo para consertar... Aqui está o mundo todo quebrado. Veja se consegue consertá-lo bem direitinho, mas não se esqueça: faça tudo sozinho!"
Calculou que a criança levaria dias para recompor o mapa. Algumas horas depois, ouviu a voz do filho que o chamava calmamente:
- "Pai, pai, já fiz tudo. Consegui terminar tudinho!"
A princípio, o pai não deu crédito às palavras do filho. Seria impossível, na sua idade, ter conseguido recompor um mapa que jamais havia visto. Relutante, o cientista levantou os olhos de suas anotações, certo de que veria um trabalho digno de uma criança. Para sua surpresa, o mapa estava completo. Todos os pedaços haviam sido colocados nos devidos lugares. Como seria possível? Como o menino havia sido capaz? Perguntou-se o cientista e resolveu averiguar com o filho como ele tinha conseguido tal feito:
- "Você não sabia como era o mundo, meu filho, como conseguiu?"
- "Pai , eu não sabia como era o mundo, mas, quando você tirou o papel da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Quando você me deu o mundo para consertar, eu tentei... mas não consegui. Foi aí que me lembrei do homem, virei os recortes e comecei a consertar o homem, que eu sabia como era. Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que havia consertado o mundo!"

Autor desconhecido. Fonte

sexta-feira, abril 24, 2009

Tempo de Abril - Nunca deixemos cerrar as portas que Abril abriu!

(Não é preciso esperar pelo dia 25. Há que trazer a data no nosso espírito nestes dias de Abril - e não só, mas sempre, sobretudo neste tempo em que tantos ferem os valores morais, as liberdades, a democracia e a esperança)


(...)
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era liberdede.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.

(...)
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na mdrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

(...)
Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.

(...)
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu
.
(...)

Ary dos Santos. Excertos de As portas que Abri abriu.

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Nem toda
a força do pano
todo o ano

Quebra a proa
do mais forte
nem a morte

terça-feira, abril 21, 2009

Jacek Yerka

Recebi do Miguel um pps intitulado "O pintor dos sonhos". Obras de Jacek Yerka, pintor surrealista polaco, contemporâneo. Porque nos leva ao sonho, à fantasia a que só chega o imaginário das crianças, fui procurá-lo ao YouTube.

sábado, abril 18, 2009

Mimos na blogosfera

Estes foram mimos da Teresa, a quem já agradeci.



dardo


lemonade

palabras con rosas

symbelmine

Passo os prémios para a Amélia Pais, a Fátima André, o Henrique, o José Matias Alves, a Matilde, o Miguel Pinto, a Teresa Marques e o Tsiwari (ordem alfabética).
Quase todos já os receberam, mas os mimos amigos nunca são demais, não é? ;)

quarta-feira, abril 15, 2009

A terminar a minha insistência na metacognição - algumas sugestões de leitura

No meu próprio blogue tenho alguns textos sobre o tema (que se pode encontrar na lista de marcadores), mas se vou sugerir dois deles não é porque considere importante o que escrevo, mas porque são de natureza prática dado que descrevem dois exercícios metacognitivos a aplicar na sala de aula a toda a turma.

- Um é um exercício metacognitivo sobre a atenção:
aqui

- Outro é um exercício mais lato, proposto por Gibbs, G. (1981) e que adaptei ao nível etário dos meus alunos: aqui (há que saltar por cima de considerações pessoais prévias para chegar à descrição do exercício).

Passando a artigos de natureza mais teórica, deixo como sugestões de leitura:





Pronto, cesso aqui a minha insistência no tema "metacognição". Aliás, todo o professor a vai aplicando intuitivamente, mais esporadicamente ou mais frequentemente, mas a sua aplicação intencional, planeada e estruturada está ainda muito pouco integrada nas práticas. Por isso a minha insistência na actividade metacognitiva, que considero muito importante no processo de aprendizagem, na tomada de consciência pelos alunos de causas de algumas das suas dificuldades e na aprendizagem/descoberta de estratégias para melhor estudarem e aprenderem.

segunda-feira, abril 13, 2009

Ainda para o recomeço das aulas

Que tal imaginarmos que cantamos em coro? (eu também, que já não tenho alunos, mas tenho netos). Não é preciso ter boa voz, até pode ser desafinada, o que é preciso é ânimo e disposição para cantar ;)





Pensamento para o recomeço das aulas

O que me dizem, esqueço
O que me explicam, entendo
O que faço, aprendo

Confúcio


Confúcio não estaria a pensar em aulas, nós é que estamos sempre com umas (despropositadas?) associações de ideias... ;)

sábado, abril 11, 2009

Boa Páscoa!


Boa Páscoa para todos!

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Matin de Pâques

Maurice Denis (1891)
(Clicar para ampliar)

quinta-feira, abril 09, 2009

É Primavera

chegado para ver as flores,
sobre elas dormirei
sem sentir o tempo


Buson

Tradução de Olga Savary

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Claude Monet (1900)

segunda-feira, abril 06, 2009

Voltando à metacognição

Um exercício metacognitivo sobre a atenção

Tem-se estudado muito mais a psicologia da atenção do que a sua pedagogia. Há que procurar os caminhos para ajudar os alunos a gerirem mentalmente esse acto primordial na aprendizagem - o acto de atenção.
Embora o interesse seja uma condição necessária para a atenção, há, no entanto, alunos em que aquele é manifesto sem que esta seja bem conseguida. Muitos alunos têm formas inadequadas de atenção, tais como atenção impulsiva (só parte da informação é focada, e a outra ignorada) e atenção superficial ("passar" pela informação sem verdadeiramente a processar e compreender).
O primeiro passo para que o aluno possa corrigir esses hábitos deficientes é a tomada de consciência deles mediante uma auto-observação. Esta poderá ser conduzida pelo professor dando oportunidades aos alunos de aprenderem a interrogar-se sobre a existência ou não de dificuldades pessoais de atenção e sobre a necessidade de utilizarem estratégias de concentração.

O exercício que se segue pretende conduzir os alunos a auto-observarem a sua capacidade de persistência na atenção, a detectarem dificuldades pessoais de concentração, a identificarem formas deficientes de estar atento, a reconhecerem a necessidade de utilizarem estratégias de concentração e a enumerarem algumas estratégias que influenciem positivamente o processo de atenção.

Na primeira parte do exercício utiliza-se o método de auto-observação [segundo proposta de Hallahan, D. et al ( 1979), self-monitoring of attention: a play with one actor]; na segunda parte segue-se o método de discussão.

Começa-se por distribuir aos alunos um texto de estudo pedindo-se que o leiam atentamente durante alguns minutos. Com pequenos intervalos de tempo o professor faz soar uma campaínha e os alunos interrompem a leitura, interrogam-se sobre se estavam verdadeiramente atentos e assinalam num pequeno conjunto de itens o que corresponde à atenção com que estavam no momento do toque da campaínha. No final, cada aluno conta as falhas de atenção detectadas.
Passa-se então a uma discussão subordinada ao tema "às vezes parece que estou atento, mas não estou". Os alunos comentam os resultados que obtiveram e dão testemunhos espontâneos que revelam uma atenção deficiente. Discutida a situação aplicada, o debate generariza-se a outras. Finalmente, surgem - espontaneamente ou por solicitação do professor - testemunhos de estratégias de concentração (por exemplo, relativas ao ambiente de estudo - há alunos que precisam de silêncio, outros precisam de música de fundo, outros de certas características do local de estudo, etc.).

Um dos testemunhos de que me lembro quando da realização deste exercício (ainda hoje o recordo) foi: "pois... eu acho que às vezes estou tão preocupada em estar atenta que acabo por estar a pensar mais que tenho que estar atenta do que estar a ouvir mesmo a professora". Também me lembro que vários alunos contaram as suas estratégias de concentração, sobretudo no ambiente de estudo em casa, mas a memória já não me permite relatá-las.

Em suma: A questão da atenção e das dificuldades com ela é primordial, sendo muito importante que o professor observe e compreenda essas dificuldades dos alunos (mesmo que calados e parecendo atentos) e procure ajudá-los a superá-las levando-os, antes de mais, a tomarem consciência delas, bem como fazendo-os constantemente participar e mantendo-se ele próprio atento a todos. Lembro-me de um texto de La Garanderie em que este colocava na boca dos alunos: "Professor, em vez de nos dizer para estarmos atentos, diga-nos como devemos fazer para conseguirmos estar atentos".
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Adenda
Eu sei que actualmente há turmas muito indisciplinadas em que é verdadeiramente difícil gerir a atenção dos alunos. Mas as turmas não deixam de ser receptivas a um debate sobre questões da aprendizagem - neste caso, sobre a atenção. Nem em todas o professor conseguirá ser bem sucedido, mas... há que não desistir, não é?

Neste tempo de desconfiança e decadência

Hoje evoco e deixo três poemas(*)

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam

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Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
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Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos

Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga


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(*) Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, abril 03, 2009

Já que falei de metacognição...

(É um tema que me é caro. Nos anos idos da candidatura ao 8º escalão, o meu trabalho foi sobre metacognição - uma parte teórica e outra prática que deu o nome ao trabalho: Seis exercícios para aprender a aprender, exercícios esses que apliquei numa turma e que os alunos espontaneamente consideraram muito benéficos para eles. Mas ao meu blogue não trago estudos, teorias, investigações, ele não é um espaço académico, é apenas um cantinho para considerações pessoais simples - muito simples.)
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Já nos princípios do século passado Dewey escrevia: "O lado intelectual da educação consiste na formação de hábitos de pensar conscientes, meticulosos e perfeitos" (1910); "Se todos os professores compreendessem que a qualidade do processo mental, não a produção de respostas correctas, é a medida do desenvolvimento educativo, algo pouco menos do que uma revolução no ensino teria lugar na escola" (1916). Ora, passado praticamente um século sobre estas palavras, não só não parece que a dita revolução tenha acontecido, como, ainda por cima, nos debatemos com uma "crise" de (falta de) hábitos de pensar e estudar entre muitos dos nossos alunos.
Entretanto, depois da introdução do conceito de metacognição por Flavell na década de 70, muitos estudos foram feitos, muitos artigos foram escritos e muitos programas foram experimentados, alguns até cá em Portugal. No entanto, a maior parte dos professores foi estando alheia, limitando-se ao ensino directo de estratégias de estudo, sobretudo desde que foram implementadas as aulas de Estudo Acompanhado.
Os alunos mais fracos, que apresentam deficiências a nível cognitivo, são também os que mais dificilmente têm acesso a um procedimento metacognitivo. Sendo os que menos consciência têm da inadequação de algumas das suas atitudes mentais durante a aprendizagem (por exemplo, na atenção superficial, na preocupação em darem as respostas que o professor quer que dêem mais como quem tenta adivinhar do que quem quer pensar e compreender, na procura na memória da solução de um problema em vez de o interpretar, etc.), são, pois, os que menos conseguem avaliá-las e controlá-las. Cabe ao professor ajudar esses alunos a consciencializar os seus processos cognitivos a fim de que se apercebam de hábitos deficientes e descubram a necessidade de utilizar estratégias eficazes.
Não retiro importância aos conteúdos a aprender, mas muitos destes não serão os que os alunos irão necessitar na vida adulta, nesta irão ter que se actualizar, irão ter que saber aprender. Por isso sempre considerei que qualquer conteúdo de um programa deve propiciar também a oportunidade de desenvolver e monitorar o processo cognitivo - os processos, em si, de aprendizagem -, para o que muito contribui o desenvolvimento da capacidade metacognitiva. Mas tenho a impressão de que falar da importância de desenvolver nos alunos competências metacognitivas é conotado por alguns assumidos "anti-eduquês" como coisa do "eduquês" - será só impressão minha?
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Nota: Um exemplo de um exercício metacognitivo amplo pode encontrar-se pelo meio deste post aqui.

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Adenda

Um mimo de Páscoa muito fofinho, da Fátima André:

segunda-feira, março 30, 2009

Dar tempo para saber aprender

«Como espelho que são da Sociedade, as nossas salas de aula assistem diariamente a verdadeiros contra-relógios cuja meta é cumprir o programa. Em nome deste frondoso mas gasto argumento privamos os nossos alunos do tempo que necessitam para aprender verdadeiramente, fazendo deles meros depositários de saberes memorizadamente espartilhados. Ironicamente, estamos a privar-nos a nós próprios daquele que consideramos o maior prazer de um professor, ver os seus alunos aprender verdadeiramente, ou seja, a relacionar e aplicar correcta e multidisciplinarmente os conteúdos. Não defendemos o incumprimento dos programas, apenas uma mudança na sua gestão e nas estratégias que os procuram corporizar. (...)
Para aprender verdadeiramente é preciso antes de mais saber aprender! Saber aprender exige muito do conhecimento e reflexão sobre as nossas cognições – metacognição. Inúmeras e variadas investigações têm demonstrado que o uso da metacognição por parte dos alunos é a principal causa de diferenciação nas estratégias por eles usadas, e que os indivíduos com mais rendimento em qualquer idade são os que têm a capacidade de monitorar o seu próprio desempenho em determinada tarefa. (...)
Privar de uma ou duas aulas a supracitada pressa em cumprir o programa, a favor de incutir nos alunos hábitos de trabalho e estratégias metacognitivas, não é pedir demais. (...)
A metacognição passa em muito por adquirir hábitos e processos de trabalho conformes. (...) Esta aquisição é lenta no seu florescer e no seu frutificar. Não podemos pedir aos alunos na aula de hoje que adquiram hábitos metacognitivos na aula de ontem, mas sim disponibilizar-lhes a aula de amanhã. Temos de estar descerrados à mudança e encarar com normalidade a lentidão de um processo que pode fazer lembrar a adolescência. Saibamos todos ser professores adolescentes, porque adolescente é uma forma do particípio presente "adolescens" do verbo "adolesco", que significa "crescer", "amadurecer".»

sábado, março 28, 2009

Marcha Turca a quatro mãos

Recebi do Miguel por mail. Não resisti a recorrer ao YouTube para trazer para aqui.
Obrigada, Miguel... fizeste-me interromper a minha pausa :)

sexta-feira, março 13, 2009

Para uma pausa

(Fujo à palavra fim e escrevo pausa. Vou tentar sacudir o desencanto)

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar,
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en el mar.

Antonio Machado

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Poema recebido da Amélia Pais

quinta-feira, março 12, 2009

Ser professor

(No âmbito do meu post anterior, eu tinha mais para 'desabafar', sobretudo depois de ouvir hoje o desabafo da minha neta à saída da escola - as crianças também têm desabafos pertinentes e justos. Mas calo os desabafos e deixo apenas algumas palavras de Rubem Alves.)

«Eu tenho uma impressão triste... a minha impressão é a seguinte: Um grande número de professores nem sequer pensa nessa questão qual é o efeito (do trabalho do professor). São como empregados públicos que têm uma rotina, uma prática burocrática, hoje eu tenho de ir à escola, a escola começa às tantas horas, e eu tenho um plano de aula, e o meu programa é esse, e a pessoa vai lá automaticamente, ano após ano fazendo a mesma coisa, sem olhar para a criança e imaginar o que ela vai ser. (...)
A grande obrigação do professor não é para com o director, nem para com o ministério, nem para com a secretaria, nem para com o programa. O verdadeiro professor é aquele que só leva a sério as coisas que têm a ver com os alunos, inclusive a si mesmo. (...)
A grande questão da educação não está no sistema escolar, está na aula do professor. Se a gente não mudar a cabeça e o coração do professor, nada acontece.»

Rubem Alves

domingo, março 08, 2009

Matemática detestada

_ Então como vai a escola?
_ Vai bem.
_ E a Matemática? Conta como vai!
_ Assim assim... é chata.
A mãe, aproveitando a oportunidade:
_ Ela tem teste para a semana...
_ Ah! Queres ajuda? Podemos fazer umas revisões...
_ Pode ser...
A I. é filha de uma amiga minha, tem 10 anos e anda no 5º ano. Comecei por pedir para ver o caderno para me "ambientar" com o professor dela. Pareceu-me muito vocacionado para treinar e treinar procedimentos e obrigar a cálculos e mais cálculos à mão, decerto para que os meninos não esqueçam as contas que aprenderam e não sofram os malefícios da calculadora, mas um bocado alheado daquela importante vertente que é a resolução de problemas. Lá fiz as revisões, mas quando quis fazer umas "variações" àquela monotonia repetitiva que vi no caderno tive algumas resistências da minha amiguinha I.: "Isso não sai no teste", "o meu professor não dá isso", "o meu professor nunca me fez perguntas dessas", "eu só tenho que saber fazer, não vou ter que explicar"...
O que será que impede um professor de perceber que está a tornar a matemática chatinha para as crianças? O que o faz perder a oportunidade de ter ele próprio mais gosto em ser professor? Motivar os alunos criando-lhes o gosto pelo 'jogo' de pensar e descobrir é uma tarefa aliciante e compensadora. É verdade que não é uma tarefa bem sucedida com todos os alunos, nem com todos se consegue até porque nenhum professor é perfeito, mas não me venham dizer que estas são questões de mérito profissional quando muitas vezes são, sim, problemas de demérito.
Voltando à minha aluna de momento, eu sei que ela gostava da matemática no 1º ciclo e a mãe agora está inquieta porque a vê perder o gosto. Mas não chega a estar na situação mais extrema do título deste post. Contudo, escrevi esse título porque, a propósito de falta ou perda de gosto pela matemática, veio-me à memória um caso que foi um dos (muitos) desafios da minha vida de professora - caso que aqui descrevi em tempos sob o título Rita e o ódio à Matemática. Esse ódio declarado da Rita foi ultrapassado, nesse empreendimento todos conseguimos ser bem sucedidos - os colegas de grupo, eu e ela (principalmente ela, como é óbvio). E confesso que esta memória não deixa de me fazer sentir alguma frustração ao observar agora a fase de perda de gosto da minha amiguinha I. pela matemática. E as suas resistências aos meus desvios às rotinas repetitivas do seu professor fizeram-me lembrar Rubem Alves numa entrevista em que a dada altura recorda quando queria ajudar a filha de 10 anos na resolução de problemas de matemática: propunha-lhe um caminho para resolver dado problema e a menina rejeitava dizendo que esse não era o caminho da professora. Pois... a minha amiguinha I. também tem que seguir os caminhos do seu professor até que mude de professor quando chegar ao 3º ciclo, e aí talvez se lhe abram outros caminhos...

P.S.
Peço desculpa se fui dura. Não pequei por personalizar pois o professor em questão é um anónimo entre outros e, se faço sempre questão de salientar uma verdade que é termos muitos e muitos bons professores, excelentes até, criativos e estimulantes, isso não quer dizer que omita que também há práticas estagnadas, monótonas e desmotivantes. Omitir tal nada contribui para mudar o que há a mudar, para melhorar o que há a melhorar. As referidas práticas levam a apelar a que os respectivos professores se tornem mais reflexivos, e essas práticas - elas sim - devem ser focadas no âmbito de uma avaliação formativa, para bem dos meninos e meninas que queremos que ganhem o gosto pelos desafios da matemática e pelo "jogo" do pensar.

sábado, março 07, 2009

Um exemplo de dedicação

O festival decorreu esta semana no Teatro da Malaposta em Odivelas.
A CEDEMA é um um centro escolar para alunos maiores de 18 anos portadores de deficiência mental.
A convite de uma amiga, mãe de um aluno dessa escola, tive oportunidade de ser testemunha do que conseguem a dedicação e o amor. Sim, porque dedicação e amor formam o selo que se sente colado à amostra que vi dos trabalhos produzidos pelos alunos da CEDEMA, todos adultos mas todos como crianças ainda - desde a peça de teatro que representaram até aos trabalhos manuais expostos. Destes segue-se abaixo uma pequenina amostra, mas o que não dá para mostrar aqui são os afectos que senti em todo aquele ambiente. Os professores são quase todos ainda jovens e quem como eu teve oportunidade de estar na maravilhosa iniciativa que foi este festival apercebe-se de imediato que para eles a profissão é também uma missão, assim como se apercebe que aqueles alunos diferentes mas integrados e felizes adoram esses seus professores. Se tivesse que escolher uma só palavra para caracterizar o que testemunhei, eu diria simplesmente: Afecto. Mas como posso usar mais palavras, acrescento: Trabalho, Dedicação, Amor, Persistência, Cuidado, Inclusão, Cidadania, Vida.

sexta-feira, março 06, 2009

No aniversário de Gabriel García Márquez



Não quero deixar de assinalar o aniversário do escritor que é, talvez, a minha maior paixão na literatura. E Cem Anos de Solidão é um dos livros mais fascinantes que já li. Aqui fica um excerto, com o agradecimento à Amélia Pais.



Apesar de o coronel Aureliano Buendía continuar a acreditar e a repetir que Remédios, a bela, era, de facto, o ser mais lúcido que jamais conhecera e que o demonstrava a todo o momento com a sua assombrosa habilidade para fazer pouco de toda a gente, abandonaram-na ao deus-dará. Remédios, a bela, ficou a vaguear pelo deserto da solidão, sem cruzes às costas, amadurecendo nos seus sonhos sem pesadelos, nos seus banhos intermináveis, nas suas refeições sem horários, nos seus profundos e prolongados silêncios sem recordações, até uma tarde de Março em que Fernanda quis dobrar no jardim os seus lençóis de barbante e pediu a ajuda das mulheres da casa. Mal tinham começado quando Amaranta reparou que Remédios, a bela, estava transparente, com uma palidez intensa.
—Sentes-te mal?—perguntou-lhe.
Remédios, a bela, que segurava o lençol pela outra ponta, fez um sorriso magoado.
—Pelo contrário—disse—, nunca me senti tão bem.
Palavras não eram ditas e Fernanda sentiu que um delicado vento de luz lhe arrancou os lençóis das mãos e desdobrou-os em toda a sua amplitude. Amaranta sentiu um tremor misterioso nas rendas dos seus saiotes e tentou agarrar-se ao lençol para não cair, no momento em que Remédios, a bela, começava a elevar-se. Úrsula, já quase cega, foi a única que teve a serenidade para identificar a natureza daquele vento irreparável e deixou os lençóis à mercê da luz ao ver Remédios, a bela, que lhe dizia adeus com a mão, entre o deslumbrante adejo dos lençóis que subiam com ela, que abandonavam com ela o ar dos escaravelhos e das dálias, e passavam com ela através do ar onde acabavam as quatro da tarde e se perderam com ela para sempre nos altos ares onde não podiam alcançá-la nem os mais altos pássaros da memória.

(Gabriel García Márquez, in Cem Anos de Solidão, traduzido por Margarida Santiago)

quarta-feira, março 04, 2009

Sentindo o poema

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.



Fernando Pessoa

segunda-feira, março 02, 2009

Dificuldades de aprendizagem, idade e bloqueios do raciocínio

Quando encontro um ex-aluno, logo me vêm memórias. Foi o que aconteceu há poucos dias: encontrei a A., até recordámos as duas o seu caso das "preocupações" (ela já está na faculdade, mas ainda se lembrava muito bem), por isso o trago hoje para aqui.

A A. foi minha aluna do 7º ao 9º ano. Vinha do 6º ano com nível 5 em Matemática, pelo que, no 7º, andava muito decepcionada pois o seu desempenho apenas se situava no nível 3. No entanto, era muito trabalhadora e responsável e até dizia que a Matemática era a sua disciplina preferida.
A dada altura, a DT disse-me que os pais tinham pedido para falar comigo, ao que, naturalmente, acedi. Vinham expor a sua preocupaçãp porque a A. andava excessivamente ansiosa, a ponto de, nos dias em que tinha aula de Matemática, nem conseguir comer ao pequeno almoço. Os pais não punham qualquer questão sobre os meus critérios de avaliação nem sobre a minha relação com ela, apenas me vinham pôr a par da ansiedade da filha e pedir que falasse com ela e a ajudasse a tranquilizar-se. De imediato tive uma conversa com a menina.
Ela era muito novinha, tinha iniciado o 1º Ciclo ainda com 5 anos, pelo que comecei por lhe falar dos ritmos de desenvolvimento, explicando-lhe que era natural que a idade a obrigasse a maior esforço que colegas seus um bocadinho mais velhos, o que seria ultrapassado ao fim de um pouco mais de tempo.
No entanto, eu apercebia-me que esse não era o principal problema, mas sim a sua excessiva preocupação sempre que na aula ou em casa tinha que resolver exercícios ou problemas para ela mais difíceis. Ela reconhecia a preocupação e ansiedade, só que vai uma distância entre o aluno reconhecer isso e ser capaz de analisar os reflexos na sua actividade cognitiva ao querer executar uma tarefa que requer investimento no raciocínio. Perante um problema de matemática diferente dos já resolvidos e estudados, a A. (como, aliás, muitos alunos) preocupava-se em encontrar a resolução na memória - dizendo "não me lembro, não me lembro" - em vez de soltar o raciocínio para descobrir a estratégia adequada. Mas, além disso, encarava o problema com preocupação ansiosa, receando ser mais uma vez mal sucedida na tarefa. Em suma, o que a bloqueava podia chamar-se simplesmente preocupação - excessiva preocupação.
Assim, na aula recorri a uma 'estratégia metacognitiva', pedindo à A., logo a seguir a alguma tentativa de resolver um problema mais difícil para ela, que procurasse lembrar-se e descrever tudo o que pensara ou se passara na sua cabeça ao tentar a resolução. Fiz isso em duas ou três aulas, até ela conseguir corresponder ao que eu pretendia.
E resultou mesmo. Os progressos da A. a partir daí não aconteceram de um dia para o outro, mas foi de um dia para o outro que ela consciencializou até que ponto as referidas preocupações a impediam de soltar o raciocínio para interpretar e resolver um problema. E, então, passou a descontrair, bem como a desprender-se de buscas na memória do que lá não podia estar, tornando-se até frequente, quando estava às voltas com um exercício, fazer um comentário bem humorado sobre "preocupação", sorrindo como quem me pisca o olho.
Quanto aos seus resultados, melhoraram consideravelmente e alcançou o nível 4. Mas continuei a pensar que até iria mais longe se tivesse mais um anito. Aliás, não era a primeira vez que eu sentia um bom aluno ter que fazer maior esforço que outros colegas e não conseguir ir tão longe em matemática como ia noutras disciplinas, perguntava então com que idade ingressara no 1º Ciclo, e a resposta era a que eu esperava: ainda com 5 anos. Não estou a querer dizer que essa idade é prematura em todos os casos, estou só a querer dizer que deve ser ponderada a decisão de esperar ou não mais um ano nesses casos das crianças a quem, pela data de nascimento, a lei permite o ingresso com 5 anos ainda.
E não resisto a comentar que cá pelo nosso país não se ponderam certas questões nem se interrogam certas opções de outros países - por exemplo, na Finlândia o ingresso na escolaridade propriamente dita é aos sete anos, mas isso é assunto em que por cá não se toca...

P.S.: E, já que usei com a A. isso que certos senhores "anti-eduquês" incluem nas suas caricaturas do chamado "eduquês" - a metacognição -, ainda acrescento que esses senhores às vezes me fazem perder a paciência.

sábado, fevereiro 28, 2009

Um serão com Maria Bethânia





No Coliseu dos Recreios, a presença e a voz de Bethânia numa noite que fez bem à alma.










É verdade que não cantou algumas daquelas suas canções de que mais gosto, talvez por serem mais antigas, mas não se pode ter tudo num só espectáculo e este não deixou de ser belíssimo.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Recordando o grande Piaget em duas questões primordiais e tão pouco debatidas

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(Com uma pequena mudança na data, reponho o post de há quatro dias atrás. É que, afinal, apeteceu-me não mudar de assunto, talvez para me encorajar a, mais dia, menos dia, retomar temas do ensino e da aprendizagem. Sei que a minha disposição para isso é incerta, pois estou desmotivada, mas a verdade é que fiquei com desejo de não mudar de assunto quando andei a ler por aí umas discussões sobre o "eduquês", que não sei se alguém ainda sabe o que é, mas que de vez em quando é evocado por certos "anti-eduquês" como causa de todos os males na educação, numa tal misturada de alhos com bugalhos que uma pessoa acaba por dizer a si própria: se aqueles exemplos que dão é que são o "eduquês", então um dos males na educação é serem tão raramente levados à prática! Mas já chega de preâmbulo à reposição do post que se segue)
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Jean Piaget não foi pedagogo e sempre fez questão de o salientar. No entanto, entre a sua vastíssima obra, não deixamos de encontrar um ou outro escrito dirigido directamente aos educadores. É o caso de dois ensaios pedagógicos reunidos num pequeno livro traduzido entre nós com o título Para Onde Vai a Educação?.
Vou buscar um texto tão antigo porque, ao contrário do que dizem certas vozes - a meu ver ignorantes e ridículas -, o grande Jean Piaget não está ultrapassado, e continua a ser uma enorme referência. Quanto às questões específicas que evoco, uma é a dos métodos de ensino-aprendizagem, e a outra é a da formação dos professores, que, naturalmente, não se pode alhear da primeira.
Daqui a poucos meses, na altura dos exames nacionais, ou quando da publicação dos resultados do PISA, muito se falará mais uma vez da taxa de insucesso escolar dos nossos alunos, especialmente na disciplina de Matemática. Mas, mais uma vez também, decerto ficará à margem, como causa pouco falada como se não fosse decisiva, a influência dos métodos no sucesso-insucesso escolar.
Eu pertenço a uma geração de professores, especialmente os de Matemática, que muito pugnou pela difusão e aceitação de métodos activos no processo de ensino-aprendizagem. Mas a expressão "métodos activos" tem muitas ambiguidades, quando não chega mesmo a ser caricaturada. E essa geração a que pertenci foi insuficientemente ouvida, e o que tantos desses professores defenderam e praticaram está hoje diluído no tempo, pouco disso parece ter perdurado na memória e na prática de considerável número de docentes.
Quantas e quantas aulas continuam meramente expositivas, mesmo quando sob uma aparência de actividade participativa dos alunos? Quantos e quantos métodos se mantêm anquilosados como quase reproduções dos mesmos que os professores "sofreram" no tempo dos próprios bancos da escola? E até as "novas tecnologias" não são, bastantes vezes, mais do que "enfeites" desses métodos estagnados, com umas vistosas apresentações a substituirem o giz no quadro a fim de prenderem mais a atenção de alunos talvez assim um pouco menos entediados, mas na mesma receptores pouco construtores das aprendizagens.

Volto então a Piaget e dele deixo os pequenos excertos que se seguem, extraídos de um texto especialmente dirigido aos educadores, como acima referi.

Sobre os métodos:
"A primeira dessas condições (o autor refere-se a condições imperativas na iniciação às ciências) é naturalmente o recurso aos métodos activos, conferindo-se especial relevo à pesquisa espontânea da criança ou do adolescente e exigindo-se que toda a verdade a ser adquirida seja reinventada pelo aluno, ou pelo menos reconstruída e não simplesmente transmitida. (...) O que se deseja é que o professor deixe de ser apenas um conferencista e que estimule a pesquisa e o esforço, em vez de se contentar com a transmissão de soluções já prontas. (...) Em resumo, o princípio fundamental dos métodos activos só se pode beneficiar com a História das Ciências e assim pode ser expresso: compreender é inventar, ou reconstruir através da reinvenção, e será preciso curvar-se ante tais necessidades se o que se pretende, para o futuro, é moldar indivíduos capazes de produzir ou de criar, e não apenas de repetir."

Sobre a formação dos professores:
"Restam-nos dois problemas de ordem geral a mencionar. O primeiro relaciona-se com a preparação dos professores, o que constitui realmente a questão primordial de todas as reformas pedagógicas em perspectiva, pois, enquanto a mesma não for resolvida de forma satisfatória, será totalmente inútil organizar belos programas ou construir bela teorias a respeito do que deveria ser realizado. (...)
É preciso ainda insistir num ponto central mas que restringe essencialmente aos níveis secundários e universitários: o aspecto cada vez mais interdisciplinar que assume necessariamente a pesquisa em todos os domínios. Ora, mesmo actualmente os futuros pesquisadores continuam sendo muito mal preparados nesse particular, devido a ensinamentos que visam à especialização e resultam, com efeito, na fragmentação, por não se compreender que todo o aprofundamento especializado leva, pelo contrário, ao encontro de múltiplas interconexões. (...) Do ponto de vista pedagógico estamos pois diante de uma situação muito complexa que comporta um belo programa para o futuro mas actualmente ainda deixa muito a desejar. Com efeito, se toda a gente se põe a falar das exigências interdisciplinares, a inércia das situações adquiridas - isto é, passadas mas ainda não ultrapassadas - tende à realização de uma simples multidisciplinaridade; trata-se, pelo contrário, de multiplicar os ensinamentos, de tal forma que cada especialidade venha a ser, ela própria, abordada dentro de um espírito permanentemente interdisciplinar, ou seja, sabendo cada qual generalizar as estruturas que emprega e redistribuí-las nos sistemas de conjunto que englobam as outras disciplinas. Trata-se, por outras palavras, de os próprios mestres estarem imbuídos de um espírito epistemológico bastante amplo a fim de que, sem para tanto negligenciarem o campo da sua especialidade, o estudante possa perceber, de forma continuada, as conexões com o conjunto do sistema das ciências. Ora, tais homens são actualmente raros. "

Em suma, 'métodos de ensino-aprendizagem' e 'formação de professores' são dois tópicos que sempre me ocorrem quando reparo no título deste meu blogue e me pergunto por que o trago tão abandonado (ao título). Confesso que estou cansada de uma blogosfera docente onde quase todos vêm batendo nas mesmas teclas, raramente tocando nas que escrevem sobre a sala de aula. E como era sobre a sala de aula que eu mais pensava vir a escrever quando iniciei este blogue e lhe dei o título, mas a atenção foi tão desviada que, ao aposentar-me, me restou abandonar as memórias dessa sala, agora dá-me de vez em quando para (re)aflorar umas questões, desistindo, logo a seguir, de continuar. Há demasiado ruído para que se consiga ouvir o âmago das escolas? Há demasiada poeira a ser deitada aos olhos de todos para que se consiga ver onde estão certas questões essenciais?
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Fonte das citações: Jean Piaget (1990). Para Onde Vai a Educação? Livros Horizonte: 2ª ed., pp 28-29, 31, 35, 37, 41 (original em fr.: 1972).

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Preciosidades

Apesar de tudo (seja o que for), há sempre que agradecer à vida, há sempre que não esquecer de agradecer.

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos ...

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Lentamente...

A rã que não sabia que estava sendo cozinhada

Imagine uma panela cheia de água fria, na qual nada tranquilamente uma pequena rã. Um pequeno fogo debaixo da panela e a água aquece muito lentamente. Pouco a pouco a água fica morna e a rã, achando isso bastante agradável, continua a nadar. A temperatura da água continua a subir... Agora a água está mais quente do que a rã gostaria. Sente-se um pouco cansada, mas, não obstante, isso não a amedronta. Agora a água está realmente quente e a rã começa a achar desagradável, mas está muito debilitada. Então aguenta e não faz nada... A temperatura continua a subir, até que a rã acaba, simplesmente, morta e cozida.
Se a mesma rã tivesse sido lançada directamente na água a 50 graus, com um golpe de pernas teria pulado imediatamente da panela.


Isto mostra que, quando uma mudança acontece de um modo suficientemente lento, escapa à consciência e não desperta, na maior parte dos casos, nenhuma reação, nem um pouco de oposição ou alguma revolta.
Se você não está como a rã, já meio cozido, dê um golpe de pernas, antes que seja muito tarde.


(Recebido por mail, autor desconhecido)

Aldeia dos Músicos

Encontrei a aldeia dos músicos e apeteceu-me trazer músicas...


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sábado, fevereiro 14, 2009

Metade

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Sem regras...

A MAMÃ CAIU DE CABEÇA

Naquela manhã, quando Leonardo acordou, já o sol entrava por entre as cortinas. Deu uma olhadela ao despertador. Nove horas e meia! E era um dia de escola.
_ Mamã! Mamã!
Nenhuma resposta. Lançou-se em direcção ao quarto laranja.
_ Mamã! – gritou ofegante. – É tarde, vou chegar atrasado!
Mas a mãe, que continuava deitada, meteu a cabeça debaixo da travesseira, resmungando. Leonardo não acreditava no que os seus olhos viam. Habitualmente, era ela que tinha de o tirar da cama.
_ Tenho fome! – gemeu. – Quando é que comemos?
_ Quero lá saber – resmungou a mãe. – Vê no frigorífico.
Leonardo, furioso, dirigiu-se à cozinha. Engoliu um resto de cereais e um copo de água, à laia de pequeno-almoço, o que o deixou de muito mau humor. A mãe levantou-se finalmente por volta das onze horas, bocejou ruidosamente e ligou o televisor. Era o programa das televendas, onde se podia encomendar conjuntos de raspadores, secadores de cabelo, jóias, aparelhos de musculação e o que quer que fosse, com um simples telefonema. A mãe dizia que era um programa pateta e que era preciso estar de cabeça virada para ver aquelas tolices. Mas, naquele dia, estava toda sorridente a assistir, com os olhos arregalados como dois pires e os pés descalços em cima do sofá. À hora do almoço, pôs dois pratos e uma garrafa de ketchup em cima da mesa.
_ O que é que se come? – perguntou Leonardo cheio de esperança, porque com o ketchup vinham muitas vezes batatas fritas.
_ Pão com ketchup – respondeu a mãe.
_ E que mais?
_ É só – disse a mãe. – Ketchup e Coca-Cola.
_ E de sobremesa?
_ Um sonho descongelado.
_ Não é lá muito bom para a saúde – murmurou Leonardo, que se sentiu estranhamente triste por não ter entrada, nem prato, nem sobremesa.
_ E não vou à escola?
_ Não, hoje não vais. É o que tu queres, não é?
Leonardo perguntou-se se a mãe não estaria de cabeça para baixo. Tinha vontade de lhe gritar: _ Leva-me à escola! Manda-me vestir e escovar os dentes! Diz-me que acabe de comer o que tenho no prato!
Mas teve uma ideia melhor.
_ Posso ver televisão?
_ Claro, tudo o que quiseres - disse a mãe, entregando-lhe o telecomando. _ Eu vou deitar-me. Leonardo pegou no telecomando e devorou todos os desenhos animados proibidos, os violentos e idiotas, os mais sangrentos e ruidosos: O Doutor Niarc-Niarc e os seus trinta e seis monstros mal cheirosos, O Robô japonês sedento de sangue e O regresso do game-boy assassino.
Duas horas depois, doía-lhe horrivelmente a cabeça e viu que tinha um problema entre mãos. “O que se há-de fazer”, perguntava-se Leonardo, “quando a nossa mãe cai de cabeça? Será que se deve chamar o médico?” Ainda ontem ela se zangara quando Leonardo se tinha recusado a desligar o televisor. E hoje… fazia tudo ao contrário!
Às sete horas da tarde, Leonardo viu que ninguém o chamava para o banho. Não ouviu correr a água na banheira, como de costume.
_ Dás-me uma ajuda para o banho? – perguntou ele cheio de esperança.
_ Oh, não – disse a mãe que tinha voltado a ligar o televisor.
_ Vou ver a minha telenovela preferida.
_ E para o jantar? – perguntou Leonardo, que sentia a cólera crescer.
_ Vê no armário. Deve haver Estrelitas. Podes entreter-te a trincá-las e a beber Coca-Cola.
Leonardo sentiu saudades do cheiro do gratinado e até do das vagens cozidas a vapor.
_ Estou farto, farto, farto! – gritou.
E foi meter-se no quarto para reflectir. O que estaria a passar-se? Sentia-se empurrado de um lado para o outro. Já não havia regras em casa, toda a gente fazia o que lhe apetecia; ele gostava de sonhos, de Estrelitas e, ainda no dia anterior, tinha torcido o nariz diante das cenouras raladas e do gratinado de courgetes. Então, por que se sentia tão infeliz? Por que tinha tanta vontade de que a mãe lhe desse ordens, lhe dissesse que fosse à escola, que tomasse banho, que comesse os legumes? Sem banho, sentia-se sujo. Estava a ser um dia atroz, medonho, medonho, medonho.
Às nove horas, Leonardo escovou os dentes e enfiou o pijama. A mãe apareceu, trazendo um livro na mão. E perguntou num tom jovial:
_ Então, querido, que tal passaste o dia?
_ Horrível – resmungou Leonardo. – Pavoroso. Um verdadeiro pesadelo. Já não és a minha mãe e eu não quero ver-te mais. És uma feiticeira.
A mãe pegou em Leonardo ao colo, como fazia quando ele era bebé, e o menino deliciou-se com o seu perfume de violetas. Parecia que ela tinha voltado a ser a sua mãe. Será que caíra outra vez de cabeça e anulara o choque anterior?
_ Estou muito contente – disse a mãe – por teres compreendido. Ninguém, e muito menos as crianças, pode viver sem regras, sem leis. Por vezes, o sonho das crianças é deixar de ouvir os pais dizer: “Vai lavar os dentes, pára de ver televisão, são horas de ires para a escola, come os legumes, vais ficar enjoado de tanto comeres bombons”. E por vezes – murmurou ela – os pais também sonham com um mundo onde não tivessem de dizer ou de repetir essas coisas… Mas é impossível. Temos de respeitar certas regras de vida para sermos felizes. Sabes, se a escola não existisse, ias aborrecer-te imensamente em casa!
No dia seguinte, quando a mãe o acordou às sete e meia, dizendo-lhe carinhosamente: _ Levanta-te, querido, são horas! – Leonardo levantou-se imediatamente. Depois, dirigiu-se à cozinha, de onde vinha um cheiro agradável: havia ovos, presunto, sumo de laranja, uma boa chávena de leite… “Uau! Uau!” – pensou. Naquela manhã não foi preciso pedir-lhe que lavasse os dentes nem que pegasse na mochila. E, quando chegou da escola, podes crer que achou deliciosas as ervilhas e a perna de carneiro. Nem ketchup pediu…
Sophie Carquain
Petites histoires pour devenir grand
Paris, Albin Michel.
Via Clube dos Contadores de Histórias

(Sim, eles parecem não gostar de regras, mas gostam; a falta delas desestabiliza-os. Era bom que não se esquecesse isso em certas famílias e em certas salas de aula. )

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Voltou o sol. Mas...

Van Gogh (1889)


Depois de muitos dias de frio e chuva, voltou o sol. Mas... não se alterou o mau tempo na política educativa, nem melhorou o clima na Escola.
E, pela blogosfera docente, há espaços tão repletos de ADD e ECD que não sobra espacinho algum para debater as coisas simples mas grandes que respeitam verdadeiramente àqueles para quem a Escola existe: os alunos - coisas que estão nas mãos e quase só nas mãos dos professores.
Coisas simples mas grandes que gostaria de ver ao menos colocadas à reflexão nas escolas e também neste espaço de tão ampla participação que é a blogosfera.
Neste dia de sol, apetecia-me encontrar posts que interrogassem e suscitassem debate sobre questões que a ADD e o ECD parecem ter esfumado, questões tais como:
- como recuperar a formação para os valores, nomeadamente o do trabalho?
- que inovações se impõem nos métodos de ensino?
- quais as estratégias criativas que transformem os conteúdos dos programas em meios que estimulem o gosto pelo acto intelectual de pensar, conhecer e aprender?
- onde impor o tempo para o trabalho colaborativo que defina estratégias colectivas de acção?
Mas... neste dia de sol raros são os espaços onde transparecem essas coisas simples mas grandes. É um sol que não me aquece.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Quando os poetas me falam

Por vezes estou triste e um poeta fala-me e faz-me ficar mais triste. Então, trago o poema para o meu cantinho para me reconciliar com a tristeza.

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos

David Mourão-Ferreira