segunda-feira, maio 04, 2009

Articulação curricular

Transcrevo para aqui o comentário que deixei no Aragem ao tema lançado pelo Miguel Pinto. O tema não pareceu suscitar interesse em comentar, debater ou partilhar experiências. Mas, quando escrevo sobre questões directamente respeitantes ao ensino, mesmo que me sinta a pensar sozinha em voz alta, gosto de guardar os meus pensamentos neste meu cantinho, ainda que sejam pensamentos só de mim para mim mesma.

Não vou teorizar nem dizer generalidades, mas só dar alguns exemplos da minha experiência como prof. de matemática no âmbito do que eu entendo por articulação curricular, e detendo-me nos próprios conteúdos dos programas, embora esse nem seja o principal aspecto na dita articulação.
1- A desarticulação começa pelos programas: os da cada disciplina parecem ser feitos por equipas que nem pensam em conteúdos comuns a várias disciplinas (dou os exemplos da Matemática com a Física-Quimica e da Matemática com a Educação Visual), havendo desfasamentos que impedem (ou dificultam muito) que os respectivos professores reforcem e complementem simultaneamente o trabalho de cada um. E isso seria importante, pois sobejamente a investigação refere o problema da transferência, isto é, os alunos têm muita dificuldade em transferir os conhecimentoa aprendidos num contexto para outro contexto (neste caso, de uma disciplina para outra). E, por exemplo, professores de FQ e de EV queixam-se por vezes de que os alunos não sabem o que era preciso saberem da Mat quando afinal se trata de conteúdos que o programa de Mat só prevê para mais tarde. Claro que isto poderia ser resolvido se houvesse interesse e tempo para reuniões de trabalho.
2- Os conselhos de turma intercalares, sempre com uma calendarização apertada que dá pouco tempo a cada um, são na maioria dos casos gastos a dar informações (avaliação) ao dt, a fazer queixas também ao dt de problemas de indisciplina, e não me lembro de nenhum em que tenha participado em que se falasse de alguma coisa a ver com articulação curricular, a não ser umas generalidades, mas mais em termos de estratégias para prevenir ou resolver problemas de indisciplina. Só me lembro de algum trabalho (além de breves e esporádicas conversas com outros professores) entre mim (coordenadora de mat do 3º ciclo) com a colega de Física (tb coordenadora), mas um tanto apressadamente quando os nossos horários faziam que nos encontrássemos no intervalo na sala de professores.
Quanto aos ditos projectos curriculares de turma, são pouco mais do que meros papéis.
3- A falta de trabalho em termos de articulação curricular vem de há muito tempo. Mas MLR, se percebesse alguma coisa de pedagogia e didáctica e estivesse verdadeiramente interessada em medidas que efectivamente melhorem o ensino em vez de só estar interessada em estatísticas e propaganda, e em que a escola guarde meninos nas salas, teria pensado bem na melhor utilização a dar à componente não lectiva de estabelecimento, que introduziu. Lembro-me de uma mesa redonda promovida pelo SPGL em que uma colega e minha amiga às tantas apelava à senhora ministra por "um só papelinho, um papelinho apenas" a determinar que prioritariamente fosse pensada essa componente não lectiva para possibilitar reuniões de trabalho. Mas o que a ministra fez foi atulhar, sim, os professores com reuniões para papelada e mais papelada, muitas vezes feitas para além do seus horários.
4- Uma nota sobre a articulação entre o Português e a Matemática. Pode parecer que estas disciplinas não têm a ver uma com a outra, mas têm, e muito. Todos sabemos que há uma interacção entre o desenvolvimento do rigor do pensamento e o desenvolvimento da precisão na linguagem. Além de que um dos maiores problemas dos alunos na resolução de problemas está na dificuldade de leitura atenta, compreensão e interpretação dos enunciados. Em que escolas vemos professores das duas disciplinas e com turmas em comum considerarem a necessidade de falar disso e traçarem estratégias convergentes?
5- As tão faladas competências transversais são inscritas naqueles papéis que o CP aprova sem ler, respeitantes aos objectivos/competências de cada disciplina, para serem arquivados nos dossiês de cada departamento, mas cada departamento continua a ser um compartimento fechado.

Termino com três perguntas:
- Como sensibilizar os professores para esta questão? (Só falei de algumas disciplinas, mas a questão põe-se a todas e, como disse no início, não só em termos de conteúdos a ensinar)
- Como aproveitar as reuniões existentes para que se concretize uma verdadeira articulação curricular?
- Como pode a chamada (e falsa) autonomia das escolas inserir esse trabalho nos seus projectos?

domingo, abril 26, 2009

Consertando o mundo

Um cientista vivia preocupado com os problemas do mundo e estava resolvido a encontrar meios de minorá-los. Passava dias em seu laboratório em busca de respostas para suas dúvidas...
Certo dia, seu filho, de sete anos, invadiu o seu "santuário" decidido a ajudá-lo a trabalhar. O cientista, nervoso pela interrupção, tentou fazer com que o filho fosse brincar em outro lugar.
Vendo que seria impossível demovê-lo, o pai procurou algo que pudesse ser oferecido ao filho com o objectivo de distrair sua atenção. De repente, deparou-se com o mapa do mundo e alegrou-se, pois era exactamente o que procurava! Com o auxílio de uma tesoura, recortou o mapa em vários pedaços e, junto com um rolo de fita adesiva, entregou ao filho dizendo:
- "Você gosta de quebra-cabeças? Então vou lhe dar o mundo para consertar... Aqui está o mundo todo quebrado. Veja se consegue consertá-lo bem direitinho, mas não se esqueça: faça tudo sozinho!"
Calculou que a criança levaria dias para recompor o mapa. Algumas horas depois, ouviu a voz do filho que o chamava calmamente:
- "Pai, pai, já fiz tudo. Consegui terminar tudinho!"
A princípio, o pai não deu crédito às palavras do filho. Seria impossível, na sua idade, ter conseguido recompor um mapa que jamais havia visto. Relutante, o cientista levantou os olhos de suas anotações, certo de que veria um trabalho digno de uma criança. Para sua surpresa, o mapa estava completo. Todos os pedaços haviam sido colocados nos devidos lugares. Como seria possível? Como o menino havia sido capaz? Perguntou-se o cientista e resolveu averiguar com o filho como ele tinha conseguido tal feito:
- "Você não sabia como era o mundo, meu filho, como conseguiu?"
- "Pai , eu não sabia como era o mundo, mas, quando você tirou o papel da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Quando você me deu o mundo para consertar, eu tentei... mas não consegui. Foi aí que me lembrei do homem, virei os recortes e comecei a consertar o homem, que eu sabia como era. Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que havia consertado o mundo!"

Autor desconhecido. Fonte

sexta-feira, abril 24, 2009

Tempo de Abril - Nunca deixemos cerrar as portas que Abril abriu!

(Não é preciso esperar pelo dia 25. Há que trazer a data no nosso espírito nestes dias de Abril - e não só, mas sempre, sobretudo neste tempo em que tantos ferem os valores morais, as liberdades, a democracia e a esperança)


(...)
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era liberdede.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.

(...)
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na mdrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

(...)
Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.

(...)
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu
.
(...)

Ary dos Santos. Excertos de As portas que Abri abriu.

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Nem toda
a força do pano
todo o ano

Quebra a proa
do mais forte
nem a morte

terça-feira, abril 21, 2009

Jacek Yerka

Recebi do Miguel um pps intitulado "O pintor dos sonhos". Obras de Jacek Yerka, pintor surrealista polaco, contemporâneo. Porque nos leva ao sonho, à fantasia a que só chega o imaginário das crianças, fui procurá-lo ao YouTube.

sábado, abril 18, 2009

Mimos na blogosfera

Estes foram mimos da Teresa, a quem já agradeci.



dardo


lemonade

palabras con rosas

symbelmine

Passo os prémios para a Amélia Pais, a Fátima André, o Henrique, o José Matias Alves, a Matilde, o Miguel Pinto, a Teresa Marques e o Tsiwari (ordem alfabética).
Quase todos já os receberam, mas os mimos amigos nunca são demais, não é? ;)

quarta-feira, abril 15, 2009

A terminar a minha insistência na metacognição - algumas sugestões de leitura

No meu próprio blogue tenho alguns textos sobre o tema (que se pode encontrar na lista de marcadores), mas se vou sugerir dois deles não é porque considere importante o que escrevo, mas porque são de natureza prática dado que descrevem dois exercícios metacognitivos a aplicar na sala de aula a toda a turma.

- Um é um exercício metacognitivo sobre a atenção:
aqui

- Outro é um exercício mais lato, proposto por Gibbs, G. (1981) e que adaptei ao nível etário dos meus alunos: aqui (há que saltar por cima de considerações pessoais prévias para chegar à descrição do exercício).

Passando a artigos de natureza mais teórica, deixo como sugestões de leitura:





Pronto, cesso aqui a minha insistência no tema "metacognição". Aliás, todo o professor a vai aplicando intuitivamente, mais esporadicamente ou mais frequentemente, mas a sua aplicação intencional, planeada e estruturada está ainda muito pouco integrada nas práticas. Por isso a minha insistência na actividade metacognitiva, que considero muito importante no processo de aprendizagem, na tomada de consciência pelos alunos de causas de algumas das suas dificuldades e na aprendizagem/descoberta de estratégias para melhor estudarem e aprenderem.

segunda-feira, abril 13, 2009

Ainda para o recomeço das aulas

Que tal imaginarmos que cantamos em coro? (eu também, que já não tenho alunos, mas tenho netos). Não é preciso ter boa voz, até pode ser desafinada, o que é preciso é ânimo e disposição para cantar ;)





Pensamento para o recomeço das aulas

O que me dizem, esqueço
O que me explicam, entendo
O que faço, aprendo

Confúcio


Confúcio não estaria a pensar em aulas, nós é que estamos sempre com umas (despropositadas?) associações de ideias... ;)

sábado, abril 11, 2009

Boa Páscoa!


Boa Páscoa para todos!

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Matin de Pâques

Maurice Denis (1891)
(Clicar para ampliar)

quinta-feira, abril 09, 2009

É Primavera

chegado para ver as flores,
sobre elas dormirei
sem sentir o tempo


Buson

Tradução de Olga Savary

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Claude Monet (1900)

segunda-feira, abril 06, 2009

Voltando à metacognição

Um exercício metacognitivo sobre a atenção

Tem-se estudado muito mais a psicologia da atenção do que a sua pedagogia. Há que procurar os caminhos para ajudar os alunos a gerirem mentalmente esse acto primordial na aprendizagem - o acto de atenção.
Embora o interesse seja uma condição necessária para a atenção, há, no entanto, alunos em que aquele é manifesto sem que esta seja bem conseguida. Muitos alunos têm formas inadequadas de atenção, tais como atenção impulsiva (só parte da informação é focada, e a outra ignorada) e atenção superficial ("passar" pela informação sem verdadeiramente a processar e compreender).
O primeiro passo para que o aluno possa corrigir esses hábitos deficientes é a tomada de consciência deles mediante uma auto-observação. Esta poderá ser conduzida pelo professor dando oportunidades aos alunos de aprenderem a interrogar-se sobre a existência ou não de dificuldades pessoais de atenção e sobre a necessidade de utilizarem estratégias de concentração.

O exercício que se segue pretende conduzir os alunos a auto-observarem a sua capacidade de persistência na atenção, a detectarem dificuldades pessoais de concentração, a identificarem formas deficientes de estar atento, a reconhecerem a necessidade de utilizarem estratégias de concentração e a enumerarem algumas estratégias que influenciem positivamente o processo de atenção.

Na primeira parte do exercício utiliza-se o método de auto-observação [segundo proposta de Hallahan, D. et al ( 1979), self-monitoring of attention: a play with one actor]; na segunda parte segue-se o método de discussão.

Começa-se por distribuir aos alunos um texto de estudo pedindo-se que o leiam atentamente durante alguns minutos. Com pequenos intervalos de tempo o professor faz soar uma campaínha e os alunos interrompem a leitura, interrogam-se sobre se estavam verdadeiramente atentos e assinalam num pequeno conjunto de itens o que corresponde à atenção com que estavam no momento do toque da campaínha. No final, cada aluno conta as falhas de atenção detectadas.
Passa-se então a uma discussão subordinada ao tema "às vezes parece que estou atento, mas não estou". Os alunos comentam os resultados que obtiveram e dão testemunhos espontâneos que revelam uma atenção deficiente. Discutida a situação aplicada, o debate generariza-se a outras. Finalmente, surgem - espontaneamente ou por solicitação do professor - testemunhos de estratégias de concentração (por exemplo, relativas ao ambiente de estudo - há alunos que precisam de silêncio, outros precisam de música de fundo, outros de certas características do local de estudo, etc.).

Um dos testemunhos de que me lembro quando da realização deste exercício (ainda hoje o recordo) foi: "pois... eu acho que às vezes estou tão preocupada em estar atenta que acabo por estar a pensar mais que tenho que estar atenta do que estar a ouvir mesmo a professora". Também me lembro que vários alunos contaram as suas estratégias de concentração, sobretudo no ambiente de estudo em casa, mas a memória já não me permite relatá-las.

Em suma: A questão da atenção e das dificuldades com ela é primordial, sendo muito importante que o professor observe e compreenda essas dificuldades dos alunos (mesmo que calados e parecendo atentos) e procure ajudá-los a superá-las levando-os, antes de mais, a tomarem consciência delas, bem como fazendo-os constantemente participar e mantendo-se ele próprio atento a todos. Lembro-me de um texto de La Garanderie em que este colocava na boca dos alunos: "Professor, em vez de nos dizer para estarmos atentos, diga-nos como devemos fazer para conseguirmos estar atentos".
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Adenda
Eu sei que actualmente há turmas muito indisciplinadas em que é verdadeiramente difícil gerir a atenção dos alunos. Mas as turmas não deixam de ser receptivas a um debate sobre questões da aprendizagem - neste caso, sobre a atenção. Nem em todas o professor conseguirá ser bem sucedido, mas... há que não desistir, não é?

Neste tempo de desconfiança e decadência

Hoje evoco e deixo três poemas(*)

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam

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Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
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Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos

Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga


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(*) Sophia de Mello Breyner Andresen