sábado, janeiro 24, 2009

Quando a desconfiança sufoca a esperança...

Não sou economista, portanto não tenho competência para avaliar correctamente a adequação de certas medidas com que o Governo se propõe enfrentar e vencer a actual crise (bem como de certas propostas que as oposições contrapõem). Não é difícil discernir diferentes opções ideológicas, mas já bem difícil é, para o cidadão comum, ajuizar sobre determinadas medidas concretas do domínio da economia, tomadas ou preconizadas em nome dos superiores interesses nacionais face à mesma crise. Por isso, seria importante poder ter confiança não só no saber e na competência daqueles que decidem (ou se candidatam a decidir), como também na sua vontade de sobrepor às lutas pelo poder os interesses, o progresso e o bem-estar dos portugueses. O problema é que essa confiança não se sente, e até me parece que, estando-se numa crise internacional, Portugal tem a infelicidade acrescida de tal acontecer em ano de eleições.
Ouço discursos gritados (tenho a sensação de que o 1º Ministro José Sócrates só fala a gritar, não sei se por pensar que as audiências são surdas, se por problema próprio de surdez); vejo obsessiva propaganda de sucessos conseguidos, muitos dos quais mais não são do que sucessos balofos; ouço e vejo também certas oposições que igualmente se movem demagogicamente rumo às eleições; sinto, enfim, a desconfiança a sufocar a esperança - essa esperança em que persisto a longo prazo, mas que não é cega perante as realidades que se perspectivam a curto e mesmo a médio prazo.
Eu até já nem sonho com alternativas em que me reveja ideologicamente, já me fico pela pergunta: onde estão (se é que estão nalgum lado) homens (e mulheres), sejam de que quadrantes forem, capazes de, com saber, visão estratégica, transparência e humanismo, governar este nosso país merecendo ganhar as eleições seguintes, e não governar para as ganhar.

Mas isto são conversas minhas com os meus botões em dias em que ouço e leio notícias, das mais variadas, sobre jogos de poder - também de poderzinhos a todos os níveis.
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Adenda
No Público de hoje vem um artigo de Manuel Alegre cujo começo vem a propósito: «A moção de José Sócrates ignora a descrença e insegurança de grande parte do eleitorado».
Não estou a fazer "campanha" por Manuel Alegre, apenas me apeteceu deixar aqui três destaques (podendo ler-se todo o artigo aqui, já que só é acessível online a assinantes)
- « Não há uma análise da importância da cultura, da língua e da história para um novo modelo de desenvolvimento de Portugal. As questões geo-estratégicas também são omissas. Não se fala de paz nem de guerra, nem das desigualdades no mundo.»
- «Na parte da moção intitulada "A acção do PS", fala-se sobretudo da acção do Governo. E transmite-se a ideia de um partido contente consigo mesmo. Enunciam-se as reformas realizadas. Se algumas delas correspondem de facto a um avanço na sociedade portuguesa (...), outras, em meu entender, representam um retrocesso (...)»
- « Falta uma ruptura com a cultura do poder pelo poder, que leva ao afunilamento do Partido Socialista e à ausência de debate.»

quinta-feira, janeiro 22, 2009

O vendedor de cachorros-quentes e a crise

Um homem vivia na beira da estrada e vendia cachorros-quentes. Não tinha rádio e, por deficiência de visão, não podia ler jornais. Em compensação, vendia bons cachorros-quentes.
Colocou um cartaz na beira da estrada, anunciando a mercadoria, e ficou por ali gritando quando alguém passava: "Olha o cachorro-quente especial!!!"
E as pessoas compravam. Com isso, aumentou os pedidos de pão e salsicha, e acabou construindo uma mercearia. Então, ao telefonar para o filho que morava em outra cidade e contar as novidades, o filho disse:
- "Pai, o senhor não tem ouvido rádio? Não tem lido jornais? Há uma crise muito séria e a situação internacional é perigosíssima!"
Diante disso, o pai pensou:
- "Meu filho estuda na universidade! Ouve rádio e lê jornais... portanto, deve saber o que está dizendo!"
Então, reduziu os pedidos de pão e salsichas, tirou o cartaz da beira da estrada, e não ficou por ali apregoando os seus cachorros-quentes. As vendas caíram do dia para a noite e ele disse ao filho:
- "Você tinha razão, meu filho, a crise é muito séria!"

Autor desconhecido

quarta-feira, janeiro 21, 2009

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Mercantilização da Educação - um futuro que não é inevitável

[Eu já devia saber que, sempre que ponho o cantinho em pausa, logo me deparo com alguma coisa que me impele a vir cá. Pronto, vou deixar de anunciar pausa, até porque posso fazê-la por um mês (ou por um ano!) sem precisar de a anunciar]

De um artigo de Nico Hirtt de 2001, intitulado Les trois axes de la marchandisation scolaire, guardo aqui as conclusões finais (na tradução para espanhol, sendo os destaques meus).
2001? Desactualizado? Hum... sabemos que Portugal costuma andar atrasado...

La adecuación de la enseñanza a las nuevas expectativas de las potencias industriales y financieras tiene dos consecuencias dramáticas: la instrumentalización de la Escuela al servicio de la competencia económica y la agravamiento de las desigualdades sociales en el acceso a los saberes. La Escuela se había masificado permitiendo a los hijos del pueblo acceder parcialmente, tímidamente – a la riqueza de saberes reservados hasta ese momento a los hijos e hijas de la burguesía. Ahora que la masificación ha llegado a su término, se conmina a la enseñanza para que vuelva a situar la instrucción del pueblo dentro de los límites que nunca debió franquear: aprender a producir, a consumir y, de forma complementaria, a respetar las instituciones existentes. Ni más, ni menos.
La evolución actual de los sistemas de enseñanza se realiza en detrimento del acceso a los saberes a ya los saber-hacer que permiten comprender el mundo, que permiten también por lo tanto intervenir en él. Precisamente, es a los más explotados a quienes se priva así de armas intelectuales que necesitarían para luchar por su emancipación colectiva.
Esta escuela de la producción será, todavía más que hoy, una instancia de reproducción social. En el nombre – colmo de la hipocresía- de la lucha contra el fracaso, se selecciona y se baja el nivel de las exigencias para unos (aquellos que formarán la masa de mano de obra poco cualificada requerida por la “nueva” economía) al mismo tiempo que se incita a otros a buscar en los “proveedores de educación más innovadores” los saberes que harán de ellos las puntas de lanza de la competencia internacional: La desreglamentación de los programas y de las estructuras, la explosión de formas diversas de la enseñanza de pago, todo ello constituye el terreno abonado en el que las desigualdades de clase se transformarán, con mayor eficacia que hoy, en desigualdades de acceso a los saberes.
En cuanto a la escuela pública, ésta únicamente tendrá, según la propia confesión de la OCDE que “asegurar el acceso al aprendizaje de aquellos que nunca constituirán un mercado rentable y cuya exclusión de la sociedad en general se acentuará a medida que otros van a continuar progresando”
¿Todo esto es inevitable? Las determinaciones económicas que trabajan en este campo tienen aspecto de apisonadora, pero la marcha de la historia no es lineal. La destrucción de la Escuela pública y de sus aspiraciones democráticas, el empobrecimiento del contenido de la enseñanza obligatoria, las condiciones de trabajo cada vez más penosas, la precarización del estatus del profesorado, todo eso acaba por suscitar reacciones, resistencias, luchas.
La oposición a la mercantilización se desarrolla con la misma férrea necesidad de hierro que la propia mercantilización. También en esto, el capitalismo en marcha se hunde en las contradicciones e inevitablemente “cava su propia fosa”.
Los pensadores de la OCDE son bien conscientes de ello” la reforma a menudo más necesaria, y la más peligrosa, es la de las empresas públicas, ya se trate de reorganizarlas o de privatizarlas. Esta reforma es muy difícil porque los asalariados de este sector están a menudo bien organizados y controlan ámbitos estratégicos. Van a luchar con todos los medios posibles (...) Sin que el gobierno esté sostenido por la opinión pública(...) Cuanto más ha desarrollado un país un amplio sector público, más difícil será llevar a cabo esta reforma”.
El futuro de la enseñanza está aún por escribir. Será el fruto de esas fuerzas contrarias, de su enfrentamiento.
Las formas y lugares de la resistencia son múltiples: Hay que luchar contra las multinacionales y las organizaciones internacionales que impulsan la evolución mercantil de la escuela, contra los gobiernos que aseguran las condiciones para desarrollar esa mercantilización, contra ciertos poderes organizadores, inspecciones, direcciones, muy a menudo cómplices o celosos ejecutores. Hay que luchar contra enseñantes que dejan hacer, contra padres que siguen el discurso patronal creyendo asegurar así un futuro para sus hijos, contra alumnos a veces demasiado contentos con menores exigencias. Hay que luchar contra uno mismo, en fin, pues nadie está a salvo de la desmoralización, del repliegue corporativista o de los efectos lenificantes de la intoxicación ideológica ambiente.
Cada uno entra en la resistencia por vías que le son propias. El que milita desde hace tiempo defiende la Escuela pública contra los asaltos de la OMC y del Banco Mundial porque tiene una conciencia profundamente enraizada de la importancia del servicio público. El profesor de universidad se inquieta por las amenazas que pesan sobre la libertad académica. El investigador teme al ver la supervivencia de sus trabajos sometida a su rentabilidad económica. El profesor de prácticas en la enseñanza profesional se siente expoliado de su experiencia y de su misión en beneficio de formadores venidos del mundo de la empresa. Los enseñantes de los cursos generales se exasperan por el bajo nivel de sus alumnos. Los maestros intentan oponerse a la utilización de clases “patrocinadas” por las marcas. Una de las claves mayores hoy es la de unificar esas luchas. Hay que hacer comprender a los universitarios a los profesores de secundaria, a los maestros que su rabia debe fundirse en una resistencia común.
Hay que unir de nuevo a quienes participan en MRPs, que ven su trabajo innovador pervertido en nombre de una racionalidad de beneficio, y al sindicalista de la enseñanza, para quien la desregulación hace temer, con razón, el abandono de la escuela pública. Esto implicará sin duda que unos abandonen un cierto dogmatismo pedagógico; que los otros abran los ojos sobre lo que fue en realidad “la escuela republicana” Que unos y otros acepten que, si la escuela pública no puede ser salvada sin ser renovada, tampoco puede ser renovada sin que se dé al profesorado y al alumnado el tiempo y las condiciones necesarias.
Nico Hirtt, mayo 2001

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Adenda (19-01-2009)

Recebido da Fátima André. Muito obrigada, Fátima, pelo miminho.

As regras, para quem o receber são:
1. exibir a imagem do selo.
2. linkar o blogue pelo qual você recebeu a nomeação.
3. escolher seis mulheres a quem entregar o "BLOGUE DE OURO".
4. deixar um comentário nesses blogues, para saberem que receberam o prémio.

Porque estas escolhas são difíceis - se escolho seis, fico a pensar noutras, e também a pensar que excluo devido ao meu conhecimento limitado da blogosfera -, fico por uma única escolha porque é um grande exemplo de professora-educadora. E como a regra é ir dar a conhecer a distinção em comentário no próprio blogue designado, lá vou já...

terça-feira, janeiro 13, 2009

Mas na pausa deixo a canção...

(Canção velha, estafada de ser ouvida, mas precisamos de não desistir de imaginar, pois sem imaginar não há sonhos, e é preciso que o homem sonhe...)

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one


domingo, janeiro 11, 2009

Uma confusão (que começa a aumentar a minha necessidade de pausa)


Eu vejo por aí muitos sítios límpidos, claros, nada confusos. Mas também me vou deparando com este ou aquele ambiente a descambar para uma confusão. Trata-se da confusão entre ataque político e ataque/insulto pessoal.


É verdade que no ataque político talvez todos, por vezes, nos excedamos em adjectivações, mas há uma grande diferença entre acusações e adjectivações sobre acções e reacções políticas, e acusações e adjectivações pessoais, estas chegando até a juízos e suspeições injuriosos sobre pessoas desconhecidas cujas posições e razões nem sequer alguma vez foram ouvidas.

E, assinalada esta confusão como indesejável, cá regresso eu à minha pausa.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Regresso à pausa

...

Os ciscos na minha vista dos três últimos anos na Educação

a) No que respeita à Ministra da Educação

b) No que respeita à reacção de boa parte dos professores


a)

- Petulância

MLR considerou que a sua pessoa conseguiria fazer as reformas que todos os anteriores ministros da educação juntos não conseguiram fazer. Pior ainda, prescindindo de aconselhamento de personalidades prestigiadas do nosso país, de estudiosos da investigação em educação e dos sucessos e insucessos de experiências noutros países, e prescindindo também de qualquer estudo avaliador das nossas experiências.

- Precipitação

Foi uma correria de medidas legislativas de fundo, na pressa de cumprir os seus desígnios no tempo de um mandato eleitoral. Num governo embriagado pelo poder de maioria absoluta, não se viu qualquer preocupação em obter primeiro um consenso mínimo nacional - preocupação que houve quando tivemos a nossa Lei de Bases do Sistema Educativo. Pior ainda, desconsiderou e desprezou aqueles que aplicariam as reformas - os próprios professores.
Cito Reijo Laukkannen (perito e conselheiro do Ministério da Educação da Finlândia), embora não devesse ser preciso citar ninguém para ver o que se mete pelos olhos dentro: "É crucial compreender que em educação não é possível reformar de um momento para o outro. Leva tempo, muita paciência e coerência. (...) Temos vindo a trabalhar nisto desde finais dos anos 60 e desde o início tomamos a direcção que hoje seguimos. Um rumo que mantivemos apesar da mudança de sucessivos governos".

- Ignorância

MLR mostrou grande desconhecimento das realidades das escolas e dos principais problemas que estas enfrentam. Nomeadamente, ignorou um dos maiores problemas desde a década de 90 do anterior século - o problema da indisciplina -, agravando-o até pelo desrespeito pelos professores que instilou e permitiu que outros instilassem no público em geral.

- Mentira

Em nome da defesa da Escola Pública e da qualidade da Educação para todos, não só tomou medidas cujos reais objectivos eram meramente economicistas, como quis a todo o custo apresentar resultados estatísticos de progressos de duvidosa credibilidade, escamoteando a qualidade sob a demagogia de números que muito ocultam. Também nas simplificações do seu teimoso e prepotente modelo da ADD, continua a mentir ao país sobre o que chama uma verdadeira e feita pela primeira vez avaliação dos professores, apesar de a ter tornado afinal mera avaliação administrativa que poderá atribuir um Bom a todos os que prescindam de concorrer a mais elevada classificação, sem que o principal, que é a actividade docente com as suas componentes científica e pedagógica, seja avaliado.

- Falta de sentido do interesse nacional

Perante o caos em que lançou as escolas e a profunda desmotivação que causou nos professores, MLR não teve a humildade e o sentido de necessidade de pedir a sua demissão quando esta se impunha a tempo de não deixar o governo de Sócrates entalado.

b) (Saliento que me refiro a boa parte dos professores, não a todos de modo nenhum)

- Falta de hábito e de diligência de/na análise e estudo da legislação que lhes diz respeito

Boa parte dos professores mantém um conhecimento muito superficial, por vezes vago mesmo, sobre a legislação que lhes diz respeito directa ou indirectamente, desde as fases de ante-projectos até ao momento que lhes caia mesmo sobre a cabeça.

- Conformismo (até a ADD lhes ter caído sobre a cabeça)

Desde o início da acção de MLR até ao momento em que o seu modelo de ADD claramente se revelou inexequível e injusto, tudo foi cumprido zelosamente (por vezes com excesso de zelo, numa atitude 'mais papista que o Papa'), apesar de muitas lamentações pelos cantos das salas de professores - lamentações que, na altura, não significaram disposição para a luta nem consciência de que muito poder estava (poderia estar) nas mãos dos docentes.

- Criticismo

Culpabilização dos sindicatos, como se estes fossem apenas as suas direcções e não o conjunto de todos os associados - como se não fossem necessárias a participação nas decisões e a iniciativa das escolas e dos seus conselhos pedagógicos nas questões directamente ligadas à Educação.

- Acordar tardio

Foi preciso o caos da ADD para que boa parte dos professores se desse conta da gravidade de disposições do ECD.

- Outras desatenções

Relevo a desatenção à gravidade do novo Modelo de Gestão e do Novo Modelo de Formação para a Docência (a este último talvez por não tocar directamente os que já estão na docência, apesar de todos proclamarem que se preocupam com o futuro da Educação)
___
P.S.:
Não sei para que interrompi a minha pausa. Não foi para fazer um balanço, pois num balanço não entram só as coisas negativas, por muito negativo que seja o saldo. Acho que foi só mesmo para fazer uma síntese dos principais "ciscos" que andaram nos meus olhos nestes três anos. Não deixei de os ir referindo, mas precisei de os juntar assim num só post, a ver se os tiro da vista todos de uma vez para a aclarar com umas centelhas de esperança.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Pausa

Tenho a estranha sensação de me terem anulado as memórias de professora. Não sou dada a viver de memórias, gosto de ter os pés no presente, mas daí até anular o passado... isso não!
Posso varrê-las para um canto, talvez para um saco de lixo, mas guardo o saco para, quando voltar a dias mais disponíveis do que os que estou a ter, as meter num arquivo com o rótulo de 'coisas retrógradas', numa qualquer prateleira de antiguidades, todavia guardado e protergido.
Entretanto, espero vir a reabrir este cantinho, mesmo que só para... saldos ;)

domingo, dezembro 21, 2008

Feliz Natal e feliz 2009 para todos os amigos e colegas!

[Este ano o Pai Natal cá de casa vai ter que mudar um bocadinho o seu trajecto, não vai ser na minha árvore que deixará as prendas devido a problemas de saúde da minha mãe. Mas a situação está a melhorar, está a recompor-se, pelo que bisavó e bisnetos irão ter um Natal feliz (estou certa) e, assim, também nós - eu e família :) ]

(...)
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
(...)


Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


Carlos Drummond de Andrade






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Então é Natal...



quarta-feira, dezembro 17, 2008

Sinto falta de canções

(...)
Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Só tem medo desses muros
quem tem muros no pensar
todos sabemos do pássaro
cá dentro a qu´rer voar
se o pensamento for livre
todos vamos libertar

(...)


sábado, dezembro 13, 2008

A estrada morta (Momentos com os 'meus' escritores)

Assim começa um dos livros de Mia Couto...

A estrada morta
Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir.
Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. (...)
(*)

(Talvez tenha sido só o título que se cruzou com a minha memória de uma estrada que já não percorro mas que olho afigurando-se-me a soterrar. Oxalá seja perturbação da minha visão. Meus pensamentos andam a fugir-me para o lado triste da(s) realidade(s), o melhor é libertá-los para dar espaço ao optimismo, que anda um tanto apertadinho, e a uma visão para além do 'hoje')
________
(*) Mia Couto (1992). Terra Sonâmbula. Editorial Caminho

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Canção nostálgica

(Nostalgia?! Talvez porque sinto o tempo parado, um tempo de aguardar a reconstrução da esperança... Ontem foi o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos... a esperança está cansada... Mas o cansaço é só um momento... pronto... já passa)

Adiós, ríos; adiós, fontes;
adiós, regatos pequeños;
adiós, vista d'os meus ollos,
non sei cándo nos veremos.

Miña terra, miña terra,
terra donde m'eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei.

Prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento,
paxariños piadores,
casiñas d'o meu contento.

Muiño d'os castañares,
noites craras d'o luar,
campaniñas timbradoiras
d'a igrexiña d'o lugar.

Amoriñas d'as silveiras
que eu lle daba ô meu amor,
camiñiños antr'o millo,
¡adiós para sempr'adiós!

¡Adiós, gloria! ¡Adiós, contento!
¡Deixo a casa onde nascín,
deixo a aldea que conoço,
por un mundo que non vin!

Deixo amigos por extraños,
deixo a veiga pol-o mar;
deixo, en fin, canto ben quero...
¡quén puidera non deixar!

Adiós, adiós, que me vou,
herbiñas d'o camposanto,
donde meu pai se enterrou,
herbiñas que biquei tanto,
terriña que nos criou.

Xa s'oyen lonxe, moi lonxe,
as campanas d'o pomar;
para min, ¡ai!, coitadiño,
nunca máis han de tocar.

Xa s'oyen lonxe, máis lonxe...
Cada balad'é un delor;
voume soyo, sin arrimo...
miña terra, ¡adiós!, ¡adiós!

¡Adiós tamén, queridiña...
Adiós por sempre quizáis!...
Dígoche este adiós chorando
desd'a veiriña d'o mar.

Non m'olvides, queridiña,
si morro de soidás...
tantas légoas mar adentro...
¡Miña casiña!, ¡mue lar!

Rosalía de Castro (Cantares Galegos)





quarta-feira, dezembro 10, 2008

Uma Declaração Universal por cumprir

Nos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, não é possível lembrá-la sem olhar imagens do seu incumprimento e recordar tantas outras que o vídeo não mostra. Resta-nos a canção?

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Sobre convicções

«(...)
Convicções são entidades mais perigosas que os demônios. E o problema é que não há exorcismo capaz de expulsá-las da cabeça onde se alojaram, pela simples razão de que elas se apresentam como dádivas dos deuses. Os recém-convertidos estão sempre convictos de que, finalmente, contemplaram a verdade. Daí a transformação por que passam: seus ouvidos, órgãos de audição, se atrofiam, enquanto as bocas, órgãos da fala, se agigantam. Quem está convicto da verdade não precisa escutar. Por que escutar? Somente prestam atenção nas opiniões dos outros, diferentes da própria, aqueles que não estão convictos de ser possuidores da verdade. Quem não está convicto está pronto a escutar - é um permanente aprendiz.
(...)
Dizia Nietzsche que "as convicções são piores inimigos da verdade que as mentiras". Estranho isso? Não. Absolutamente certo. Porque quem mente sabe que está mentindo, sabe que aquilo que está dizendo é um engano. Mas quem está convicto não se dá conta da própria bobeira. O convicto sempre pensa que sua bobeira é sabedoria.
As inquisições se fazem com pessoas convictas. (...)
Mas os demônios das convicções têm atributos dos deuses: são omnipresentes. Escorregam da religião. Emigram para a política. (...)
Nenhuma instituição está livre dos demônios das convicções. Nem mesmo a ciência.
(...)»
Rubem Alves
(In: O que é científico? Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2007, pp 45-47)

sábado, novembro 29, 2008

Aproxima-se a hora de avaliar coerência

E a coerência tem que ser avaliada, e a opinião pública tem direito a poder avaliá-la no próximo dia 3.

Peço desculpa, este blogue está em pausa (e vai continuar), mas eu não ficaria bem comigo mesma se não fizesse mais esta breve interrupção.

terça-feira, novembro 25, 2008

Algumas das coisas que sempre agridem a minha cabeça

(Cabeça agredida não consegue ponderar com lucidez e isenção, por isso este blogue está em pausa - este post é apenas um breve desabafo e um pequeno parêntesis nessa pausa)

- Atitudes prepotentes
- Da falta de rigor até à verdadeira desonestidade intelectual
- Irresponsabilidade impune no lançamento precipitado e a toda a pressa eleitoralista de experiências reformistas, nomeadamente as que tornam as nossas crianças e jovens em cobaias (falta de responsabilidade e coragem políticas para procurar previamente consensos nacionais mínimos para o delineamento e o prosseguimento, no médio prazo necessário, de reformas em domínios cruciais como o da educação)
- Subversão de normas de funcionamento de um estado de direito, torneando-se leis fundamentais e alterando por simples despachos (ou menos) leis e decretos-lei, sem que haja ao menos um presidente da república que se mostre preocupado com isso
- Argumentos inconsistentes e contraditórios por parte de quem o futuro do país exige competência e ausência de trapalhadas remendonas
- Falta de profissionalismo jornalístico (Mais do que o servilismo - facilmente detectável pela opinião pública -, incomoda-me o estudo/conhecimento extremamente superficial da parte de jornalistas e comentadores)
- Exacerbação de grandes questões nacionais até à irracionalidade (da parte de sejam quais forem os intervenientes)
- Hipocrisia e oportunismos político-eleitorais

sexta-feira, novembro 21, 2008

Pausa (Estou a precisar de um tempo de silêncio)

EL SILENCIO

Me alejo del ruidoso mundo
refugiándome en el bosque del silencio,
huyéndole a molestos decibeles
que perturban mi agobiado pensamiento.

Descansando en la quieta soledad,
en mis reflexiones inmerso,
nuevas ideas estimulan mi intelecto
cual feliz renacimiento.

Me embarga una intensa calma
que invade mi interno fuero,
refresca su sed mi deshidratada mente
bebiendo del manantial del sosiego.

Embriágame el perfume de las flores
que me llega cabalgando sobre el viento,
oigo el conversar de sus olores,
como dulce susurro de barlovento.

Percibo los nostálgicos recuerdos
que vienen de muy lejos,
lejanía que refleja una distancia,
distancia que se alarga con el tiempo.

Inapreciable compañía es el silencio
con su mudo acento,
cuando se retiran nuestros tímpanos
a un merecido asueto.

Silencio que permite disfrutar
de un sordo momento,
en el que podemos soñar,
ya dormidos, ya despiertos.

En esta dimensión sin ruidos
donde rige el silencio,
descanso mi mente,
descanso mi cuerpo.

Cástulo Gregorisch

quinta-feira, novembro 20, 2008

Encontro sempre em Eugénio de Andrade poemas que me falem, poemas de que preciso...

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

_________________


Onde me levas, rio que eu cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas? Que me custa tanto!

Não quero que conduzas ao silêncio
de uma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos e com espasmos.

Canção vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca
Há outra face na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.

...

No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, novembro 12, 2008

Ausente por uns dias





Não, não vou em viagem turística. Vou só, desta vez em corpo, lá onde meu pensamento está sempre a ir, transportando o infinito amor de mãe, esse amor que vela sem distâncias em constante prece à vida.



Escassos seis dias? Ora... que é afinal isso a que se chama tempo?



E não deixarei de aranjar uns instantes para seguir as notícas... só as da Educação, não vá perder alguma 'bombástica'... basta clicar uma vez por dia para um só blog onde tudo se sabe em cima do momento ;)

Até já...

terça-feira, novembro 11, 2008

Quando o que se diz é tão redutor do que se passa...

Jornalistas e comentadores não são analfabetos, mas não sei para que lhes serve saberem ler se nunca (ou raramente) estudam a matéria de que falam. E assim se vai insinuando ao país que os professores (ou pelo menos 80% deles) andam a fazer tão grande alarido por causa do preenchimento de duas fichazitas.
Mas já que só referem avaliação, avaliação, e até concluíram que se trata apenas de umas fichas a preencher, pois a Senhora Ministra assim o disse, ao menos podiam ir averiguar que perversidades têm as tais fichas. Ao menos, ao menos podiam reparar nalguma dessas perversidades, numa, numazinha só, por exemplo naquela que faz pesar na avaliação do professor as tachas de insucesso e de abandono escolar.
E sobre a burocracia de que se queixam os professores, ninguém informa a opinião pública sobre a papelada que já os estava a atolar antes das grelhas da avaliação. E voltando ao modelo de avaliação, jornalistas e comentadores (salvo raríssimas excepções) ignoram ou acham de somenos importância os critérios com que os avaliadores chegaram à categoria que lhes permite assumir tal função, bem como isso de um professor de uma disciplina ir avaliar um colega de outra área científica, isto para não falar de delegação de competências a efectuar agora para deixar de ser ilegal daqui a dois ou três meses; também ignoram ou acham de somenos importância qualquer confusão entre autonomia e arbitrariedade de escola para escola - confusão que começa a arrepiar-me, confesso.
Bem... já que o tema que anda nos ouvidos de todos é o modelo de avaliação do desempenho dos professores, não vou pedir (por agora) aos senhores jornalistas e comentadores que estudem outras preocupações relacionadas com a escola pública. Mas confesso que tenho uma vozinha dentro de mim a perguntar-me baixinho se Maria de Lurdes Rodrigues se manteria ainda tão intolerante e teimosa caso aquela figura de Director da escola não andasse já a tomar forma e a fazer os seus estragos numas tantas cabeças.

domingo, novembro 09, 2008

Uma responsabilidade dos governantes

Já passou o dia 8, mas a minha hora de deitar ainda me mantém nele. E, como vivo em Lisboa, a partir das 20h já pude estar em casa a ouvir noticiários. Ouvi o da TV1 das 20h e, depois, fui ouvindo os da SIC Notícias até quase à meia-noite.
Assim, começo por referir as declarações de MLR que ouvi nesse período de tempo, especialmente as primeiras porque nelas fez duas afirmações que me deixaram atónita.
(Não anotei as palavras exactas, mas memorizei bem o que disse)

Uma: Que o modelo de avaliação foi negociado em cerca de "100 reuniões" e que foi o resultado do acordo negocial. Acordo??!! (Pergunto e exclamo eu). Note-se que se trata do decreto da avaliação - Decreto Regulamentar n.º 2/2008 -, não do posterior 'Memorando de Entendimento', nem este caucionou o modelo.

Outra: Que o modelo de avaliação veio a ser validado pelo Conselho Científico, orgão independente. Validado??!! (pergunto e exclamo eu de novo). Bastaria MLR ter lido a introdução à Recomendação n.º 2/CCAP/2008 para não poder fazer aquela afirmação.

Não, não vou ofender MLR acusando-a de mentir. Pergunto apenas que confusões faz na sua cabeça.

Quanto a outras afirmações de MLR, também me fico por perguntar quem a informa e, pronto, sobre elas fico por aqui. Ah... já gora pergunto também se tem dos professores a ideia de que pelo menos mais de dois terços deles são mentecaptos manipulados por sindicatos.

Mas tudo o que disse acima até é o menos importante. Pois, neste momento, eu já nem me detenho no esforço de procurar isentamente compreender razões (maiores ou menores) de ambas as partes - governo e professores. Porque, mesmo que houvesse algumas razões 'teóricas' correctas nas intenções da Ministra e nem todo o descontentamento dos professores fosse justificado, um facto se sobrepõe a isso: a desmoralização e a desmotivação dos professores, incluindo tantos e tantos dos melhores que o país tem (ou tinha). E só isso deveria preocupar todo o país. E só isso deveria preocupar os que governam a Educação e Ensino. E só isso deveria, se a política não fosse o que tristemente é, levar esses governantes a suspender (para rever) o que está a fazer tantos professores perderem o gosto e o entusiasmo pela sua profissão, pois nenhuma reforma ou medida educativa compensará essa perda, nenhuma reforma ou medida na Educação poderá substituir o imprescindível: estabilidade e bom 'clima' nas escolas, gosto pelo ensino e condições para dedicação aos alunos. Encontrem-se as medidas para elevar a qualidade de ensino dos professores que precisem de a melhorar e encontre-se um modelo de avaliação justo e credível, mas sem deixar de, simultaneamente, zelar para que não se perca o (muito) que se tem de bom.
O país precisa que os bons professores sejam acarinhados e respeitados, e que os menos bons sejam formados e estimulados, mas isto não se faz à força e sem respeito, muito menos por processos de competência e credibilidade duvidosas.
_____________________________________
Adenda
Para os meus (nossos) arquivos de memórias... (De M.N. Bravo. O YouTube é de facto precioso!)

terça-feira, novembro 04, 2008

Aproxima-se o dia 8...

Não vou escrever sobre ele. Cada um tem a sua cabeça para pensar.

Então...até sábado! ;)
Lá estarei...

Por um rápido regresso da tranquilidade e da confiança às escolas; pelos estímulos externos ao prazer de ensinar e educar, prazer que cegamente um ministério da educação tem vindo a cercear; pelo respeito pela profissão docente e pela sua dignificação; e, sobretudo, por uma escola pública democrática e de qualidade para todos.


Adenda (06-11-2008)

Novo e definitivo percurso da manif - aqui. Ponto de partida: Terreiro do Paço.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Descubra as diferenças...


Essa "malha apertada" verifica-se na Finlândia, enquanto por cá também se verifica uma malha apertada para que as notas escolares melhorem em flecha nas estatísticas.
Dispenso-me de indicar as diferenças. Sugiro esse trabalho a Maria de Lurdes Rodrigues.

sábado, novembro 01, 2008

sexta-feira, outubro 31, 2008

Já tardava...

O comunicado conjunto da FENPROF e Movimentos de Professores já foi amplamente divulgado, no entanto não é totalmente claro quanto ao dia 8 de Novembro. Só fiquei completamente esclarecida com o pequeno texto que a FENPROF colocou no seu site, além do referido comunicado:

Sabe-se que a união faz a força. Já tardava que esse saber se aplicasse.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Um testemunho que deveria fazer MLR pensar

Primeira escola pública do ranking, a Infanta D. Maria, de Coimbra, está a ser penalizada pelo abandono dos professores mais experientes.

"Com a instabilidade que aqui se vive, não será por muito tempo que nos mantemos como a primeira escola pública no ranking."

"A avalancha de pedidos de reforma tem transformado a escola num inferno."

No Público de hoje. Como o link para o jornal não é permenente, leia-se o texto integral colocado pelo Paulo Guinote aqui.

Prémio "Dardos"

Agradeço ao Miguel o carinho de contemplar este meu cantinho com o prémio “Dardos”, mais uma das nossas correntes blogosféricas, no qual (passo a transcrever) «se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web”

Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:

1. - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogues a que entregar o Prémio Dardos.»

Passo a fazer as minhas quinze nomeações, sem critério específico de ordem. (Alguns dos blogues que indico não serão "outros" blogues, mas não conseguiria evitar repetições)

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outrÒÓlhar
-
Terrear
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Tempo de teia
- Da Crítica da Educação à Educação Crítica
- (Re)Flexões
- Ao londe os barcos de flores
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Chora Que Logo Bebes
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4thefun
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Existente Instante
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Professores Sem Quadro
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Conversamos?!
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Revisitar a Educação
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Arte por um Canudo 2
-
Universos paralelos
-
O Canto do Vento

quinta-feira, outubro 23, 2008

Mais do mesmo (mas num crescendo imparável). Até quando?

Diariamente se escreve mais do mesmo na blogosfera docente, e o mesmo é a ADD. Mais testemunhos ou notícias pouco acrescentam ao que já foi escrito antes e antes, pouco acrescentam até ao que foi previsto logo que se conheceu o desastroso decreto 2/2008. No entanto, esse escrever mais e mais sobre a mesma ADD tem sido, parece-me, o reflexo do mal-estar e do descontentamento que continuam a crescer nas escolas, já bem evidente no 8 de Março, mas agora avolumado pela generalização da aplicação do referido decreto no quotidiano concreto das escolas. O que, durante um tempo, foi uma denúncia por previsão ou antecipação das perversidades do modelo de avaliação do desempenho dos docentes criado por Maria de Lurdes Rodrigues, está agora a ser uma constatação que gera maior consciência não só do peso da burocracia que o modelo impõe, mas (e sobretudo, talvez) da sua perda de credibilidade perante as diversas situações que começaram a evidenciar-se como atropelos à seriedade que um processo de avaliação requer.

O que já não sei é se esse aumento novamente crescente de mal-estar e descontentamento, feito de fadiga a que não se reconhece utilidade para aqueles a quem se destina a escola e de descrença na exequibilidade de uma avaliação séria, justa e formativa, vai culminar numa força negocial que os professores só podem ter se quiserem e souberem unir-se, e não terão se se dispersarem por descontentamentos ao mesmo tempo contra as medidas da actual ministra da Educação e contra as organizações legalmente instituídas para os representar.

E é mais que altura de os professores não embarcarem em dispersões que mais não são que tiros nos próprios pés. Porque é mais que tempo de suspender um processo que anda a envenenar a vida nas escolas. E, quem sabe (?), talvez haja que fazer dessa pedra envenenada que está a ser a ADD a primeira pedra a arrancar do edifício de uma reforma que Maria de Lurdes Rodrigues fabricou, a fim de que as atenções possam voltar a dirigir-se para outras pedras talvez mais basilares desse mesmo edifício e que parecem esquecidas. Pedras tais como, além do ECD - que é pano de fundo da ADD -, o novo modelo da gestão e o novo regime de formação para a docência - o primeiro andando relegado para segundo plano, e o segundo não tendo estado nunca em primeiro plano como alvo das atenções (talvez porque se sabe que se enfrentariam demasiados poderes e interesses, independentemente de qualquer governo do momento).

Enfim... que mais e mais do mesmo tenha efeito depressa, que os professores tenham discernimento para se unirem impondo a rápida revisão do actual modelo da avaliação do desempenho docente, pois, se este está a ser um veneno que urge depurar, outras questões basilares esperam espaço para as atenções.
Ah... E também esperam espaço para as atenções "pequenos" temas como colaboração, ambiente humano...

terça-feira, outubro 21, 2008

Sobre Amizade

Ajudando a chorar

A menina chegou em casa atrasada para o jantar.
Sua mãe tentava acalmar o nervoso pai enquanto pedia explicações sobre o que havia acontecido. A menina respondeu que tinha parado para ajudar Janie, sua amiga, porque ela tinha levado um tombo e sua bicicleta tinha se quebrado.
- "E desde quando você sabe consertar bicicletas?" perguntou a mãe.
- "Eu não sei consertar bicicletas!" disse a menina. "Eu só parei para ajudá-la a chorar".

sábado, outubro 18, 2008

Contemplação (Pensamento para o longe)


Adriano Correia de Oliveira. Contemplação.

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Claude Monet (1888). Les Montagnes de Esterel.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Momentos

Há dias que anoitecem de repente muito antes do anoitecer. Depois há que não desistir de recuperar a luz do Sol.

domingo, outubro 12, 2008

As minhas páginas web - uma memória

ou
A propósito da frenética campanha de implementação das tic no ensino

(Na sequência do post anterior, ocorreu-me esta memória; depois, o meu pensamento regressou à actualidade, por isso o subtítulo)

Estávamos ainda na década de 90 do anterior século quando envolvi a minha turma de dt do 9º ano na criação da nossa primeira página da escola - uma página de Matemática que os meus alunos baptizaram de RacioMat. Há muito que a desactivei, mas ainda guardo a recordação do grupo de alunos voluntários que prosseguiram com a incumbência da sua actualização ao nível dos conteúdos.

Posteriormente, criei a página Eu e a Matemática, com a ajuda da mão do meu amigo Francisco no 'visual'. Estava engraçada, apelativa para os miúdos, e chegou a ser bastante concorrida. Contudo, isto dos 'visuais' tem as suas modas, depressa ultrapassadas, pelo que fiquei surpreendida com um prémio recente (que referi aqui).


Entretanto, a primeira página RacioMat tivera uma secção que transpus para o placard da minha sala de aula na forma de concurso (mensal, às vezes quinzenal), concurso que suscitava grande contentamento entre os alunos de cada vez que era afixada a lista dos vencedores do mês. No final do ano lectivo eram apurados os três vencedores do ano e não esqueço que, no último ano em que o concurso funcionou, o primeiro vencedor foi um dos meus alunos mais fraquinhos - não esqueço o seu sorriso de orelha a orelha perante a vitória. Os problemas eram de lógica, não requeriam especiais conhecimentos de matemática, pelo que era frequente um aluno mais fraco acertar enquanto que outros melhores se precipitavam na entrega das respostas e erravam - por isso o concurso era motivador.

Foi o tipo de problemas desse concurso que me levou à experiência que relatei no post anterior - a página Lógica para Todos, abandonada por mim logo que a alojei, o que me devia envergonhar (mas eu só queria penetrar no css e no xhtml, e depois não continuei).


Mas tudo isto vem à minha memória a propósito da actual campanha frenética dos computadores na escola, e mais os quadros interactivos, e agora o computador Magalhães, campanha eleitoralista ignorante do facto de as tic jamais poderem constituir por si só solução para os problemas de insucesso escolar.
E eu não deixo de achar curioso que, tendo-me empenhado no uso dos computadores com os alunos logo que tive na escola uns escassos e já velhos pcs, não sinta agora grande contentamento com o investimento do governo em computadores para as escolas e os alunos, não que esse investimento em si não seja bem-vindo, mas porque as tic não se introduzem à pressão (influindo até o seu uso na avaliação dos professores) como se contivessem dentro de si ou por si só as inovações desejáveis nos tradicionais métodos de ensino - como se o computador, a internet e todos os recursos cada vez mais acessíveis fizessem sozinhos o milagre de mudar os métodos anquilosados de ensino que ainda se constatam em bastantes situações.

Desde aquelas minhas primeiras páginas web não passaram assim muitos anos, no entanto a rápida evolução fez delas páginas velhas e fora de moda. Entretanto, desejo que os ímpetos de modernidade dos nossos governantes de hoje sirvam bons intentos pedagógicos, acima de intentos eleitorais que nada têm a ver com a escola e a formação a que os alunos têm direito.

Página feita... página abandonada!

Foi a última que fiz destinada a alunos de 2º e 3º ciclo. Para aí há uns dois anos, não me lembro com precisão. Foi mesmo só uma página web pequenina, eu andava a querer experimentar um modelo css, em xhtml (nem sei bem se são correctas estas designações, não devia escrever sem perguntar a um amigo informático, mas como estou livre da avaliação de desempenho não faz mal). É assim como nos blogues, mas estes são criados automaticamente e depois uma pessoa lá vai aprendendo a mexer nos códigos, enquanto que criar uma página sem ser só "siga os passos 1, 2, 3" é mais complicado. Eu bem quis usar o meu velho e querido FrontPage, mas não é que ficava tudo fora do sítio de cada vez que acrescentava qualquer coisa?! Então lá fiz a página toda à mão, lá vi onde mudava códigos - enquanto outros continuavam (e continuam) chinês para mim. Eu, que já percebia bem o velho html, deparei-me (e continuo a daparar-me nos blogues) com mais o "x", pois, se não estou a dizer disparate, parece-me que o tal de xhtml encheu de mistérios o html sem x!

Mas tudo isto para contar que fiz e alojei a minha pequena e simples página de Lógica para Todos e depois... pronto, lá ficou abandonada, nunca mais a actualizei. Coitadita, lá vai tendo uma ou duas visitas por dia, que isso de as pessoas andarem a pesquisar no Google lá as vai levando aos sítios mais recônditos, mas a verdade é que hoje lembrei-me dela e fui revê-la. Ui! Aqueles problemas de lógica precisavam de variar, pus os primeiros só para levar a cabo aquela experiência, é uma vergonha não os acrescentar e mudar... só não sei por que não estou a ter vergonha de mostrar a página a quem queira seguir o link... mas por que hei-de ter vergonha se ela lá está com o meu nome?!

E pronto, já tive um pretexto para mais um post, que isto de querer manter o cantinho e andar com tanta falta de inspiração, motivação, disposição (sei lá qual o "ão" mais adequado!) não é fácil.

sábado, outubro 11, 2008

A minha neta e o ábaco

A minha neta Inês (10 anos) mostrou-me um ábaco no seu livro de Matemática e lembrei-me que tinha um arrumado algures cá em casa. Ela quis logo que eu o procurasse e achei-o.


Estivemos a brincar com ele, nas contas ficámos na subtracção porque entretanto a mãe veio buscá-la. Fez quatro ou cinco subtracções e a última já fez num instante. Nada de papel e lápis nem de calculadora, cálculo mental também não que este de hoje seria muito difícil para ela.
Quando se foi embora, o último resultado ficou no ábaco. Pedira-lhe para subtrair 714 a...

(1 124 630)

Ora descubra o leitor como fazer! Lembre-se de que cada haste tem 10 peças. A Inês fez - vê-se abaixo o resultado que deixou - e ao leitor eu dou 20 segundos para pensar como, e já é muito pois li algures que alunos chineses fazem cálculos no ábaco em menos tempo do que levam os nossos a digitar os números no teclado da calculadora.

O leitor descobriu em menos de 20 segundos como fazer? Ora confesse... ;)

sexta-feira, outubro 10, 2008

Mixwit

Roubei-o à Tit (ela deu licença) e fui experimentar. Provavelmente conhecem este serviço Mixwit (gratuito, claro), mas eu não conhecia. Bem... é só um brinquedo, mas até dá para pôr várias músicas na mesma 'cassete', como podem verificar.
Pus duas apenas para ver se resultava, aproveitando para recordar a voz da Joan Baez e lembrar que, apesar de desesperanças que às vezes temos, há sempre motivos para dar "gracias a la vida"...



quarta-feira, outubro 08, 2008

Adenda ao post anterior (ainda sobre a metacognição)

Como já disse, durante o que chamei 'a minha fase da metacognição' concebi e apliquei exercícios 'metacognitivos' em sessões para o efeito. Mas depois deixei de realizar essas sessões formais, já tinha aprendido a provocar deliberadamente situações de 'experiência metacognitiva', passei a provocá-las pontualmente quando necessário e oportuno. Lembrei-me agora de que já tenho descrita neste cantinho uma memória como exemplo dessas situações, e essa memória até é bastante especial pois a situação mudou mesmo a vida de uma aluna na Matemática.
Uma dificuldade frequente dos alunos na resolução de problemas, sobretudo nos mais novos - do 2º Ciclo -, reside na preocupação em encontrar a resolução na memória apesar de ela não estar lá se o problema é diferente dos que já resolveram. "É isso... eu estou a querer saber a solução do problema, estou é preocupada a querer lembrar-me em vez de pôr a cabeça dentro do problema" - este é um tipo de comentário-descoberta que ainda tenho gravado na memória de uma ou outra das sessões que referi acima.
Neste âmbito, o caso da Cláudia foi exemplar. Pode parecer que era rápido de resolver, mas não, porque há alunos que estão de tal maneira habituados a estudar Matemática e a proceder na base de memorização que julgam que estão a raciocinar quando de facto não chegam a estar, e assimilam a recomendação do professor para primeiro compreenderem continuando a integrá-la no seu esquema habitual de estudo ou funcionamento mental.
O caso da Cláudia está descrito aqui. Acho que vale a pena ler.

segunda-feira, outubro 06, 2008

A minha Fase da Metacognição

Nota 1:
Ao chamar "fase" não quero dizer que, depois dela, tenha abandonado o meu interesse pela aplicação da metacognição no processo de aprendizagem dos alunos; quer apenas dizer que foi um período em que me embrenhei em literatura teórica e da investigação sobre o assunto, ao mesmo tempo que fazia algumas experiências, tudo assim em jeito de investigação-acção, nesse vai-vem entre teoria e prática pelo qual se vai desenvolvendo a formação do professor.

Nota 2:
Esta memória está desactualizada, tem quase 20 anos, mas, como disse no post anterior, escrevo-a para o meu "album" de recordações. No entanto, os diversos 'exercícios metacognitivos' que, na altura, fui propondo a alunos (além do que vou descrever aqui) parecem-me adequados a aulas de Estudo Acompanhado, que então ainda não existiam.

Quando li pela primeira vez um artigo sobre a metacognição e sua aplicação na sala de aula, fiquei especialmente interessada na ideia de "experiência metacognitiva". Flavell, o autor que introduziu o termo "metacognição" no início da década de 70 do passado século, distinguia "conhecimento metacognitivo" de "experiência metacognitiva", ocorrendo esta durante ou a seguir a um empreendimento cognitivo.
Ora, qualquer professor, mesmo no tempo em que ainda não tinha ouvido a expressão "metacognição", já utilizava intuitivamente o conceito com os alunos, já os ia fazendo 'pensar sobre o pensar'. Mas o que me interessou especialmente foi aprender a provocar intencional e planeadamente situações de experiência metacognitiva da parte dos alunos.
Não têm aqui cabimento considerações teóricas relativas a diferentes conceptualizações e classificações no domínio referido. Apenas pretendo registar uma memória.


Quando li um pequeno livro de G. Gibbs em que o autor descrevia seis exercícios para 'aprender a aprender' (*), achei particularmente interessante o primeiro desses exercícios e decidi experimentá-lo na então minha turma de dt. Nessa altura a minha escola ainda só tinha 2º Ciclo. Gibbs aplicava o exercício com alunos universitários e eu sabia que poderia ser prematuro para as idades de 6º ano, mas a turma de dt que eu tinha era uma boa turma, era heterogénea mas muito interessada e participativa, pelo que adaptei o exercício facilitando-o por instruções também por escrito numa ficha apelativa e apropriada à idade dos alunos. Além disso, disse-lhes que iriam experimentar realizar uma actividade difícil pois costumava ser aplicada a alunos mais velhos, mas que conseguiriam desde que a executassem com grande concentração, sobretudo logo na primeira parte.
Talvez tenha sido o aviso de que seria difícil associado à minha convicção de que seriam capazes que os fez corresponderem daquela maneira que consegue surprender-nos quando eles ultrapassam as nossas melhores expectativas.

O exercício decorria pelo método 'em pirâmide' (método que eu viria a chamar para mim mesma 'bola de neve' pelo efeito que tinha e adiante referirei). Compunha-se de quatro partes:
Na primeira, cada aluno procurava recordar uma qualquer situação de aprendizagem em que se tivesse sentido especialmente mal sucedido (estávamos numa hora "roubada" à aula de Matemática, mas a situação não tinha que ser nesta disciplina). Evocada a situação, tentava então identificar factores pessoais (expressão obviamente descodificada na ficha de instruções) que tivessem concorrido para o insucesso, anotando-os. Depois, o mesmo para uma situação em que se tivesse sentido bem sucedido, identificando agora factores pessoais concorrentes para esse sucesso.
Na segunda parte do exercício, os alunos, em pares, contavam um ao outro as experiências pessoais recordadas, reparando se haveria eventuais semelhanças nas causas atribuídas.
Na terceira parte, em grupos de quatro (dois dos pares anteriores), enumeravam e anotavam factores (sempre só pessoais) que, agora mais em geral, considerassem contribuir para sucesso ou para insucesso nas situações de aprendizagem.
Finalmente, a última parte consistia num debate de toda a tuma: rotativamente, cada grupo escolhia e lançava à discussão um dos itens que tinha anotado, e os colegas pediam esclarecimentos e comentavam.
O debate foi muito vivo e a participação foi sendo crescente. Os alunos estariam a pensar pela primeira vez no que diziam, às vezes era como se estivessem a pensar em voz alta, mas o método mostrou ter o efeito de bola de neve que mencionei acima, e alguns alunos davam testemunhos pessoais, desinibindo-se progressivamente.

Gravei o debate porque experimentara o exercício tendo também em vista um trabalho para um curso que então frequentava. Pedi aos alunos que não ligassem ao gravador e, de facto, esqueceram-se completamente dele. Foram deliciosos, crescidos, e eu estava mesmo surpreendida e encantada.
Aliás, tendo transcrito só excertos do debate, a professora para cuja disciplina fiz o trabalho também ficou tão entusiasmada que me pediu para ouvir toda a gravação. (Era longa, pois quando tocou para a saída da aula houve vários "Oh! Já?" e a turma pediu para continuar na aula seguinte, ao que acedi com algum receio de que a quebra fosse inadequada, mas a verdade é que a discussão continuou e durou toda essa segunda aula).

Como tenho guardado o trabalho, fui agora dar-lhe uma vista de olhos e verifiquei que, no final, os alunos elegeram de entre os itens discutidos os dois que mais os preocupavam: dificuldades em estar atento ("pois... eu às vezes estou preocupada em estar atenta e estou é a pensar que tenho que estar com atenção em vez de estar mesmo a ouvir") e bloqueios do raciocínio ("não sei como é que isto se chama, mas quando estamos a querer perceber ficamos assim... bloqueados e não conseguimos perceber nada").

Enfim... memórias preciosas que guardo! E o mérito foi da turma - faço sempre questão de o dizer.
Mas não devo deixar de acrescentar que o sucesso desse exercício metacognitivo teve como condição muito importante a obtenção de séria concentração e reflexão dos alunos logo na primeira parte, decisiva para o desenrolar das seguintes, e também que, a meu ver, a realização de exercícios como aquele deve ser ponderada consoante as idades e as características das turmas para que não aconteça ser uma situação mal sucedida.

Adenda
Vim a realizar com a mesma turma mais cinco sessões, agora com 'exercícios metacognitivos' criados por mim, embora inspirados em leituras, relacionados respectivamente com a atenção, a evocação, as 'tendências auditivas' / 'tendências visuais', as estratégias de estudo e as estratégias de resolução de problemas. Essas sessões também tiveram em vista um trabalho, agora para a prova de candidatura ao 8º escalão. Os alunos manifestaram grande apreço por esses exercícios e foi a avaliação que faziam deles que me levou a prosseguir.

Posteriormente, convidei quatro colegas de diferentes disciplinas para um projecto de escola e, aprovado este pelo CP, realizámo-lo durante dois anos lectivos, ao fim dos quais foi abandonado devido a três dessas colegas terem mudado de escola. As actividades foram concebidas por nós e tornaram-se populares entre os alunos, que as baptizaram de aa (de 'aprender a aprender'), sendo, aliás, de tipo apropriado para as aulas de Estudo Acompanhado, que na altura ainda não existiam.
Também é uma memória muito boa que guardo dessa minha "fase da metacognição" - memória muito boa relativamente aos alunos participantes (voluntários, em conjuntos de 10 sessões para cada leva de alunos, abrangendo em qualquer dos dois anos cerca de 60% dos alunos do 6º ano da escola), memória também muito boa do envolvimento e entusiasmo das colegas que participaram.
___________
(*)Gibbs, G. (1981). Teaching Students to Learn: a Student-Centred Aproach. Philadelphia: Open University Press.

Restam-me as memórias, por que não voltar a elas?


E o que aconteceu comigo foi que, ficando velho, dei-me conta de que os anos que me restavam não me davam tempo para acompanhar a literatura que se produzia sobre a educação. Parei de ler e tratei de gozar e cuidar dos meus próprios pensamentos sobre o assunto - que nada têm de científico, pois não se baseiam em estatísticas.
Rubem Alves*

É-me difícil ter pensamentos actualizados sobre educação pois, mesmo que tentasse acompanhar a literatura sobre o assunto, faltar-me-ia agora estar por dentro do contexto - "estar no terreno", como costumo dizer. Mas neste meu blogue já há alguns registos que são como páginas de um album de recordações, não há mal se escrever outras linhas que nada mais sejam que recordação.

Acho que vou trazer para aqui uma memória que tem quase 20 anos. Irá para a entrada a seguir.
_________
*In Gaiolas ou Asas. Edições Asa (2004), p. 51.

segunda-feira, setembro 29, 2008

We are the world, we are the children... - Relembrando uma canção

para começar a semana...



Boa semana para todos!
[Vou estar ocupada, é provável que esteja ausente deste cantinho toda a semana. Mas ele já está habituado às minhas intermitências ;) ]

domingo, setembro 28, 2008

O ser humano é para a economia ou a economia para o ser humano?

É a pergunta com que termina um artigo de hoje no Público, de Frei Bento Domingues (não sou religiosa, mas isso nada interessa para o caso).
O autor não deixa de lembrar que os progressos na história da humanidade decorreram muitas vezes de males históricos - guerras, por exemplo. Será um processo dialéctico, contudo, apesar de a dialéctica nos ser indispensável para compreender a história e a realidade, o homem é chamado de ser racional, de ser inteligente, pelo que a sua acção bem podia ter menos contradições!
Como o artigo só está disponível online para assinantes, deixo, com a sugestão de leitura, o início do artigo com link para o texto integral: Quando só o lucro interessa, a consciência humana corre o risco de ser visitada por um anjo inquietante!

sábado, setembro 27, 2008

Ainda a auto-estima

A estória do post anterior fez-me ficar a pensar na auto-estima das crianças. Por que não escrever um pouco ao correr do pensamento?

Referindo primeiro o autoconceito - no qual podemos integrar a auto-estima como componente avaliativa -, lembro-me que muitas vezes na minha vida de professora-educadora pensei que eram assustadoras as indicações, da investigação, de que se define bastante cedo na criança uma tendência que vai persistir na evolução do seu autoconceito, ou seja, que são criados cedo aspectos básicos do autoconceito que irão tender a manter-se estáveis e mesmo resistentes à mudança. No entanto, também sabemos que o autoconceito tem várias facetas com diferentes graus de estabilidade e de mutabilidade.

Ora, nas avaliações que as crianças vão fazendo de si mesmas influi poderosamente o "feedback" que recebem e que apreendem não só nas palavras e suas ênfases, mas também nos olhares e nas expressões faciais daqueles com quem convivem - olhares e expressões que captam até mesmo quando o emissor mal se deu conta de que as emitiu. Pensando agora nos professores, é grande a responsabilidade que lhes cabe em gerir com supremo e sensível cuidado as apreciações que vão emitindo continuamente sobre o trabalho escolar de cada aluno e sobre o próprio aluno.
Penso que é tarefa dos professores descobrirem em cada criança que têm nas suas turmas tudo o que nela é valorizável a fim de a guiar para o que ela já pode fazer e, daí, levá-la à autoconfiança para empreender o que ainda não sabe fazer.
Mas, por vezes, são os próprios professores que carecem de expectativas mais positivas que lhes permitam transmitir confiança aos alunos, incluindo àqueles que vão recorrendo a expedientes inadequados para se afirmarem. Se há coisa que eu tive oportunidade de aprender cedo na minha vida de professora foi o poder das minhas próprias expectativas positivas. Nas tantas vezes em que apostei nelas, julgo que era uma autêntica confiança em que os alunos seriam capazes de corresponder que se transmitia. Provavelmente, com os alunos que perdi não soube fazer essa aposta - ou, para alguns desses, já era tarde. De qualquer modo, não se trata de empreendimentos para um só professor, nem sequer só para os professores, pois as crianças não convivem de perto só com estes, e antes de terem estes já havia a família e o restante meio social próximo.
Todos temos conhecido alunos que procuram afirmar-se mediante comportamentos negativos. Eles exibem os rótulos que lhes atribuíram ou se auto-atribuíram, e sabemos que as crianças tendem a reforçar esses rótulos. Mudá-los não é tarefa fácil, mas cabe aos educadores serem mais persistentes a empreender mudá-los do que as crianças a conservá-los!

Auto-estima (estória)

Agora gosto de mim

Tive uma grande sensação de alívio quando comecei a entender que um jovem precisa de mais do que apenas um assunto. Sei bem matemática, e a ensino bem.
Eu achava que isso era tudo o que precisava fazer. Agora, ensino crianças, e não matemática.
Aceito o facto de que posso ter sucesso apenas parcial com algumas.
Quando não tenho que saber todas as respostas, parece que consigo ter mais respostas do que quando tentava ser o especialista.
O jovem que realmente me fez entender isso foi Eddie. Certo dia, perguntei-lhe por que achava que estava muito melhor do que no ano anterior. Ele deu sentido a toda a minha nova conduta.
"É porque agora gosto de mim quando estou com você", disse ele.


sexta-feira, setembro 26, 2008

Ser ou não ser subserviente

Pão e Ervilhas

Nasrudin estava sobrevivendo numa dieta miserável de pão e ervilhas. Seu vizinho, que também se dizia um homem sábio, morava num palacete e deliciava-se com refeições sumptuosas oferecidas pelo próprio imperador. Um dia o vizinho interpelou Nasrudin;
- Se você ao menos aprendesse a bajular o imperador e ser subserviente como eu não precisaria viver de pão e ervilhas
- E se você ao menos aprendesse a viver de pão e ervilhas como eu não precisaria bajular e ser subserviente ao imperador – respondeu Nasrudin.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Outono - II


vimeo

De novo Vivaldi e Van Gogh para celebrar o Outono que eu queria Verão ainda, mas que tem também encantos.
Uma belíssima composição musical e pictórica (como no vídeo do Verão) - valem a pena os 11 minutos de duração.

terça-feira, setembro 23, 2008

domingo, setembro 21, 2008

sábado, setembro 20, 2008

Campanha de ajuda a Cuba

O Henrique deixou-me o alerta - com pedido de divulgação, a que me associo - de uma Campanha de Solidariedade com Cuba face às necessidades prementes de alguns bens essenciais devidas à devastação dos últimos furações que por lá passaram.

“Amigos(as)
Aqui segue uma lista de instituições que se encontram a recolher os bens alimentares para ajuda ao povo cubano.
O primeiro avião com alimentos parte no dia 24 de Setembro, na próxima 4ª feira.
Ainda temos tempo para fazer chegar uma primeira ajuda a estes locais.
Depois deste outros se seguirão.
Toda a nossa disponibilidade solidária é importante!
Refiro os alimentos necessários:
- leite em pó
- massa
- arroz
- conservas

beijinhos a todos
Manuela Silva

locais de recolha de alimentos:
PORTOCOMCUBA
Rua Barão Forrester, 790
4050-272 Porto
Telefones: 962 539 884 / 966 316 201 / 938 460 221
Casa Sindical de Vila do Conde
Rua do Lidador, 46 - R/C - 4480-791 VILA DO CONDE - Telef. 252631478
Sindicato do Comércio, Escritórios - CESP (Delegação Porto)
Rua Fernandes Tomás, 626 - 4000-211 PORTO - Telef. 222073050
Delegação do CESP na Póvoa de Varzim
Rua da Junqueira, 2 - 4490-519 PÓVOA DE VARZIM - Telef. 252621687
CASA SINDICAL (TVC)
Av. da Boavista, 583 - 4100-127 PORTO - Telef. 226002377
Sindicato dos Professores do Norte
Rua D. Manuel II, 51-3.º - 4050-345 PORTO - Telef. 226070500
Sindicato da Construção e Madeiras
Rua de Santos Pousada, 611 - 4000-487 PORTO - Telef. 225390044
Casa Sindical de Santo Tirso
Rua Tomás Pelayo, - 4780-557 SANTO TIRSO - Telef. 252855470
União Local de Felgueiras
R. dos Bombeiros Voluntários, R/C - Esq.-T. - FELGUEIRAS - Telef. 252631478
Casa Sindical USP
Rua Padre António Vieira, 195 - 4300-031 PORTO - Telef. 225198600
Casa da Paz - (Secretariado permanente da Campanha)
Rua Rodrigo da Fonseca, 56 - 2º - Lisboa (perto do Marquês de Pombal)
Contactos
Telefones: 213 863 375 / 213 863 575
Fax: 213 863 221
Telemóveis: 962 022 207, 962 022 208, 966 342 254, 914 501 963

Campanha de ajuda humanitária ao povo de Cuba.
Porto mobiliza-se para a ajuda ao povo de Cuba.

A PORTOCOMCUBA, organização promotora da campanha de ajuda humanitária ao povo de Cuba lançada em Portugal na sequência da dramática devastação provocada pela passagem de dois furacões e uma tempestade tropical, apelou hoje em conferência de imprensa, à mobilização de todos os portugueses em torno do objectivo de, até dia 24 de Setembro, se reunir o maior número de embalagens de Leite em pó, massa, arroz e conservas para a ajuda imediata ao povo cubano.
A PORTOCOMCUBA reafirmou que sempre esteve e sempre estará solidária com o povo cubano nos momentos mais ou menos difíceis da sua história, e que assumirá a ajuda fraterna nesta circunstância de maior necessidade. Apelou ainda à compreensão geral da população em relação a estas necessidades imediatas do povo cubano.

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A União de Sindicatos do Porto também se solidarizou com a campanha de recolha de alimentos para as vítimas dos furacões em Cuba, levada a cabo pela Comissão PortoComCuba.”