terça-feira, abril 21, 2009

Jacek Yerka

Recebi do Miguel um pps intitulado "O pintor dos sonhos". Obras de Jacek Yerka, pintor surrealista polaco, contemporâneo. Porque nos leva ao sonho, à fantasia a que só chega o imaginário das crianças, fui procurá-lo ao YouTube.

sábado, abril 18, 2009

Mimos na blogosfera

Estes foram mimos da Teresa, a quem já agradeci.



dardo


lemonade

palabras con rosas

symbelmine

Passo os prémios para a Amélia Pais, a Fátima André, o Henrique, o José Matias Alves, a Matilde, o Miguel Pinto, a Teresa Marques e o Tsiwari (ordem alfabética).
Quase todos já os receberam, mas os mimos amigos nunca são demais, não é? ;)

quarta-feira, abril 15, 2009

A terminar a minha insistência na metacognição - algumas sugestões de leitura

No meu próprio blogue tenho alguns textos sobre o tema (que se pode encontrar na lista de marcadores), mas se vou sugerir dois deles não é porque considere importante o que escrevo, mas porque são de natureza prática dado que descrevem dois exercícios metacognitivos a aplicar na sala de aula a toda a turma.

- Um é um exercício metacognitivo sobre a atenção:
aqui

- Outro é um exercício mais lato, proposto por Gibbs, G. (1981) e que adaptei ao nível etário dos meus alunos: aqui (há que saltar por cima de considerações pessoais prévias para chegar à descrição do exercício).

Passando a artigos de natureza mais teórica, deixo como sugestões de leitura:





Pronto, cesso aqui a minha insistência no tema "metacognição". Aliás, todo o professor a vai aplicando intuitivamente, mais esporadicamente ou mais frequentemente, mas a sua aplicação intencional, planeada e estruturada está ainda muito pouco integrada nas práticas. Por isso a minha insistência na actividade metacognitiva, que considero muito importante no processo de aprendizagem, na tomada de consciência pelos alunos de causas de algumas das suas dificuldades e na aprendizagem/descoberta de estratégias para melhor estudarem e aprenderem.

segunda-feira, abril 13, 2009

Ainda para o recomeço das aulas

Que tal imaginarmos que cantamos em coro? (eu também, que já não tenho alunos, mas tenho netos). Não é preciso ter boa voz, até pode ser desafinada, o que é preciso é ânimo e disposição para cantar ;)





Pensamento para o recomeço das aulas

O que me dizem, esqueço
O que me explicam, entendo
O que faço, aprendo

Confúcio


Confúcio não estaria a pensar em aulas, nós é que estamos sempre com umas (despropositadas?) associações de ideias... ;)

sábado, abril 11, 2009

Boa Páscoa!


Boa Páscoa para todos!

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Matin de Pâques

Maurice Denis (1891)
(Clicar para ampliar)

quinta-feira, abril 09, 2009

É Primavera

chegado para ver as flores,
sobre elas dormirei
sem sentir o tempo


Buson

Tradução de Olga Savary

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Claude Monet (1900)

segunda-feira, abril 06, 2009

Voltando à metacognição

Um exercício metacognitivo sobre a atenção

Tem-se estudado muito mais a psicologia da atenção do que a sua pedagogia. Há que procurar os caminhos para ajudar os alunos a gerirem mentalmente esse acto primordial na aprendizagem - o acto de atenção.
Embora o interesse seja uma condição necessária para a atenção, há, no entanto, alunos em que aquele é manifesto sem que esta seja bem conseguida. Muitos alunos têm formas inadequadas de atenção, tais como atenção impulsiva (só parte da informação é focada, e a outra ignorada) e atenção superficial ("passar" pela informação sem verdadeiramente a processar e compreender).
O primeiro passo para que o aluno possa corrigir esses hábitos deficientes é a tomada de consciência deles mediante uma auto-observação. Esta poderá ser conduzida pelo professor dando oportunidades aos alunos de aprenderem a interrogar-se sobre a existência ou não de dificuldades pessoais de atenção e sobre a necessidade de utilizarem estratégias de concentração.

O exercício que se segue pretende conduzir os alunos a auto-observarem a sua capacidade de persistência na atenção, a detectarem dificuldades pessoais de concentração, a identificarem formas deficientes de estar atento, a reconhecerem a necessidade de utilizarem estratégias de concentração e a enumerarem algumas estratégias que influenciem positivamente o processo de atenção.

Na primeira parte do exercício utiliza-se o método de auto-observação [segundo proposta de Hallahan, D. et al ( 1979), self-monitoring of attention: a play with one actor]; na segunda parte segue-se o método de discussão.

Começa-se por distribuir aos alunos um texto de estudo pedindo-se que o leiam atentamente durante alguns minutos. Com pequenos intervalos de tempo o professor faz soar uma campaínha e os alunos interrompem a leitura, interrogam-se sobre se estavam verdadeiramente atentos e assinalam num pequeno conjunto de itens o que corresponde à atenção com que estavam no momento do toque da campaínha. No final, cada aluno conta as falhas de atenção detectadas.
Passa-se então a uma discussão subordinada ao tema "às vezes parece que estou atento, mas não estou". Os alunos comentam os resultados que obtiveram e dão testemunhos espontâneos que revelam uma atenção deficiente. Discutida a situação aplicada, o debate generariza-se a outras. Finalmente, surgem - espontaneamente ou por solicitação do professor - testemunhos de estratégias de concentração (por exemplo, relativas ao ambiente de estudo - há alunos que precisam de silêncio, outros precisam de música de fundo, outros de certas características do local de estudo, etc.).

Um dos testemunhos de que me lembro quando da realização deste exercício (ainda hoje o recordo) foi: "pois... eu acho que às vezes estou tão preocupada em estar atenta que acabo por estar a pensar mais que tenho que estar atenta do que estar a ouvir mesmo a professora". Também me lembro que vários alunos contaram as suas estratégias de concentração, sobretudo no ambiente de estudo em casa, mas a memória já não me permite relatá-las.

Em suma: A questão da atenção e das dificuldades com ela é primordial, sendo muito importante que o professor observe e compreenda essas dificuldades dos alunos (mesmo que calados e parecendo atentos) e procure ajudá-los a superá-las levando-os, antes de mais, a tomarem consciência delas, bem como fazendo-os constantemente participar e mantendo-se ele próprio atento a todos. Lembro-me de um texto de La Garanderie em que este colocava na boca dos alunos: "Professor, em vez de nos dizer para estarmos atentos, diga-nos como devemos fazer para conseguirmos estar atentos".
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Adenda
Eu sei que actualmente há turmas muito indisciplinadas em que é verdadeiramente difícil gerir a atenção dos alunos. Mas as turmas não deixam de ser receptivas a um debate sobre questões da aprendizagem - neste caso, sobre a atenção. Nem em todas o professor conseguirá ser bem sucedido, mas... há que não desistir, não é?

Neste tempo de desconfiança e decadência

Hoje evoco e deixo três poemas(*)

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam

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Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
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Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos

Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga


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(*) Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, abril 03, 2009

Já que falei de metacognição...

(É um tema que me é caro. Nos anos idos da candidatura ao 8º escalão, o meu trabalho foi sobre metacognição - uma parte teórica e outra prática que deu o nome ao trabalho: Seis exercícios para aprender a aprender, exercícios esses que apliquei numa turma e que os alunos espontaneamente consideraram muito benéficos para eles. Mas ao meu blogue não trago estudos, teorias, investigações, ele não é um espaço académico, é apenas um cantinho para considerações pessoais simples - muito simples.)
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Já nos princípios do século passado Dewey escrevia: "O lado intelectual da educação consiste na formação de hábitos de pensar conscientes, meticulosos e perfeitos" (1910); "Se todos os professores compreendessem que a qualidade do processo mental, não a produção de respostas correctas, é a medida do desenvolvimento educativo, algo pouco menos do que uma revolução no ensino teria lugar na escola" (1916). Ora, passado praticamente um século sobre estas palavras, não só não parece que a dita revolução tenha acontecido, como, ainda por cima, nos debatemos com uma "crise" de (falta de) hábitos de pensar e estudar entre muitos dos nossos alunos.
Entretanto, depois da introdução do conceito de metacognição por Flavell na década de 70, muitos estudos foram feitos, muitos artigos foram escritos e muitos programas foram experimentados, alguns até cá em Portugal. No entanto, a maior parte dos professores foi estando alheia, limitando-se ao ensino directo de estratégias de estudo, sobretudo desde que foram implementadas as aulas de Estudo Acompanhado.
Os alunos mais fracos, que apresentam deficiências a nível cognitivo, são também os que mais dificilmente têm acesso a um procedimento metacognitivo. Sendo os que menos consciência têm da inadequação de algumas das suas atitudes mentais durante a aprendizagem (por exemplo, na atenção superficial, na preocupação em darem as respostas que o professor quer que dêem mais como quem tenta adivinhar do que quem quer pensar e compreender, na procura na memória da solução de um problema em vez de o interpretar, etc.), são, pois, os que menos conseguem avaliá-las e controlá-las. Cabe ao professor ajudar esses alunos a consciencializar os seus processos cognitivos a fim de que se apercebam de hábitos deficientes e descubram a necessidade de utilizar estratégias eficazes.
Não retiro importância aos conteúdos a aprender, mas muitos destes não serão os que os alunos irão necessitar na vida adulta, nesta irão ter que se actualizar, irão ter que saber aprender. Por isso sempre considerei que qualquer conteúdo de um programa deve propiciar também a oportunidade de desenvolver e monitorar o processo cognitivo - os processos, em si, de aprendizagem -, para o que muito contribui o desenvolvimento da capacidade metacognitiva. Mas tenho a impressão de que falar da importância de desenvolver nos alunos competências metacognitivas é conotado por alguns assumidos "anti-eduquês" como coisa do "eduquês" - será só impressão minha?
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Nota: Um exemplo de um exercício metacognitivo amplo pode encontrar-se pelo meio deste post aqui.

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Adenda

Um mimo de Páscoa muito fofinho, da Fátima André:

segunda-feira, março 30, 2009

Dar tempo para saber aprender

«Como espelho que são da Sociedade, as nossas salas de aula assistem diariamente a verdadeiros contra-relógios cuja meta é cumprir o programa. Em nome deste frondoso mas gasto argumento privamos os nossos alunos do tempo que necessitam para aprender verdadeiramente, fazendo deles meros depositários de saberes memorizadamente espartilhados. Ironicamente, estamos a privar-nos a nós próprios daquele que consideramos o maior prazer de um professor, ver os seus alunos aprender verdadeiramente, ou seja, a relacionar e aplicar correcta e multidisciplinarmente os conteúdos. Não defendemos o incumprimento dos programas, apenas uma mudança na sua gestão e nas estratégias que os procuram corporizar. (...)
Para aprender verdadeiramente é preciso antes de mais saber aprender! Saber aprender exige muito do conhecimento e reflexão sobre as nossas cognições – metacognição. Inúmeras e variadas investigações têm demonstrado que o uso da metacognição por parte dos alunos é a principal causa de diferenciação nas estratégias por eles usadas, e que os indivíduos com mais rendimento em qualquer idade são os que têm a capacidade de monitorar o seu próprio desempenho em determinada tarefa. (...)
Privar de uma ou duas aulas a supracitada pressa em cumprir o programa, a favor de incutir nos alunos hábitos de trabalho e estratégias metacognitivas, não é pedir demais. (...)
A metacognição passa em muito por adquirir hábitos e processos de trabalho conformes. (...) Esta aquisição é lenta no seu florescer e no seu frutificar. Não podemos pedir aos alunos na aula de hoje que adquiram hábitos metacognitivos na aula de ontem, mas sim disponibilizar-lhes a aula de amanhã. Temos de estar descerrados à mudança e encarar com normalidade a lentidão de um processo que pode fazer lembrar a adolescência. Saibamos todos ser professores adolescentes, porque adolescente é uma forma do particípio presente "adolescens" do verbo "adolesco", que significa "crescer", "amadurecer".»

sábado, março 28, 2009

Marcha Turca a quatro mãos

Recebi do Miguel por mail. Não resisti a recorrer ao YouTube para trazer para aqui.
Obrigada, Miguel... fizeste-me interromper a minha pausa :)

sexta-feira, março 13, 2009

Para uma pausa

(Fujo à palavra fim e escrevo pausa. Vou tentar sacudir o desencanto)

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar,
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en el mar.

Antonio Machado

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Poema recebido da Amélia Pais

quinta-feira, março 12, 2009

Ser professor

(No âmbito do meu post anterior, eu tinha mais para 'desabafar', sobretudo depois de ouvir hoje o desabafo da minha neta à saída da escola - as crianças também têm desabafos pertinentes e justos. Mas calo os desabafos e deixo apenas algumas palavras de Rubem Alves.)

«Eu tenho uma impressão triste... a minha impressão é a seguinte: Um grande número de professores nem sequer pensa nessa questão qual é o efeito (do trabalho do professor). São como empregados públicos que têm uma rotina, uma prática burocrática, hoje eu tenho de ir à escola, a escola começa às tantas horas, e eu tenho um plano de aula, e o meu programa é esse, e a pessoa vai lá automaticamente, ano após ano fazendo a mesma coisa, sem olhar para a criança e imaginar o que ela vai ser. (...)
A grande obrigação do professor não é para com o director, nem para com o ministério, nem para com a secretaria, nem para com o programa. O verdadeiro professor é aquele que só leva a sério as coisas que têm a ver com os alunos, inclusive a si mesmo. (...)
A grande questão da educação não está no sistema escolar, está na aula do professor. Se a gente não mudar a cabeça e o coração do professor, nada acontece.»

Rubem Alves

domingo, março 08, 2009

Matemática detestada

_ Então como vai a escola?
_ Vai bem.
_ E a Matemática? Conta como vai!
_ Assim assim... é chata.
A mãe, aproveitando a oportunidade:
_ Ela tem teste para a semana...
_ Ah! Queres ajuda? Podemos fazer umas revisões...
_ Pode ser...
A I. é filha de uma amiga minha, tem 10 anos e anda no 5º ano. Comecei por pedir para ver o caderno para me "ambientar" com o professor dela. Pareceu-me muito vocacionado para treinar e treinar procedimentos e obrigar a cálculos e mais cálculos à mão, decerto para que os meninos não esqueçam as contas que aprenderam e não sofram os malefícios da calculadora, mas um bocado alheado daquela importante vertente que é a resolução de problemas. Lá fiz as revisões, mas quando quis fazer umas "variações" àquela monotonia repetitiva que vi no caderno tive algumas resistências da minha amiguinha I.: "Isso não sai no teste", "o meu professor não dá isso", "o meu professor nunca me fez perguntas dessas", "eu só tenho que saber fazer, não vou ter que explicar"...
O que será que impede um professor de perceber que está a tornar a matemática chatinha para as crianças? O que o faz perder a oportunidade de ter ele próprio mais gosto em ser professor? Motivar os alunos criando-lhes o gosto pelo 'jogo' de pensar e descobrir é uma tarefa aliciante e compensadora. É verdade que não é uma tarefa bem sucedida com todos os alunos, nem com todos se consegue até porque nenhum professor é perfeito, mas não me venham dizer que estas são questões de mérito profissional quando muitas vezes são, sim, problemas de demérito.
Voltando à minha aluna de momento, eu sei que ela gostava da matemática no 1º ciclo e a mãe agora está inquieta porque a vê perder o gosto. Mas não chega a estar na situação mais extrema do título deste post. Contudo, escrevi esse título porque, a propósito de falta ou perda de gosto pela matemática, veio-me à memória um caso que foi um dos (muitos) desafios da minha vida de professora - caso que aqui descrevi em tempos sob o título Rita e o ódio à Matemática. Esse ódio declarado da Rita foi ultrapassado, nesse empreendimento todos conseguimos ser bem sucedidos - os colegas de grupo, eu e ela (principalmente ela, como é óbvio). E confesso que esta memória não deixa de me fazer sentir alguma frustração ao observar agora a fase de perda de gosto da minha amiguinha I. pela matemática. E as suas resistências aos meus desvios às rotinas repetitivas do seu professor fizeram-me lembrar Rubem Alves numa entrevista em que a dada altura recorda quando queria ajudar a filha de 10 anos na resolução de problemas de matemática: propunha-lhe um caminho para resolver dado problema e a menina rejeitava dizendo que esse não era o caminho da professora. Pois... a minha amiguinha I. também tem que seguir os caminhos do seu professor até que mude de professor quando chegar ao 3º ciclo, e aí talvez se lhe abram outros caminhos...

P.S.
Peço desculpa se fui dura. Não pequei por personalizar pois o professor em questão é um anónimo entre outros e, se faço sempre questão de salientar uma verdade que é termos muitos e muitos bons professores, excelentes até, criativos e estimulantes, isso não quer dizer que omita que também há práticas estagnadas, monótonas e desmotivantes. Omitir tal nada contribui para mudar o que há a mudar, para melhorar o que há a melhorar. As referidas práticas levam a apelar a que os respectivos professores se tornem mais reflexivos, e essas práticas - elas sim - devem ser focadas no âmbito de uma avaliação formativa, para bem dos meninos e meninas que queremos que ganhem o gosto pelos desafios da matemática e pelo "jogo" do pensar.

sábado, março 07, 2009

Um exemplo de dedicação

O festival decorreu esta semana no Teatro da Malaposta em Odivelas.
A CEDEMA é um um centro escolar para alunos maiores de 18 anos portadores de deficiência mental.
A convite de uma amiga, mãe de um aluno dessa escola, tive oportunidade de ser testemunha do que conseguem a dedicação e o amor. Sim, porque dedicação e amor formam o selo que se sente colado à amostra que vi dos trabalhos produzidos pelos alunos da CEDEMA, todos adultos mas todos como crianças ainda - desde a peça de teatro que representaram até aos trabalhos manuais expostos. Destes segue-se abaixo uma pequenina amostra, mas o que não dá para mostrar aqui são os afectos que senti em todo aquele ambiente. Os professores são quase todos ainda jovens e quem como eu teve oportunidade de estar na maravilhosa iniciativa que foi este festival apercebe-se de imediato que para eles a profissão é também uma missão, assim como se apercebe que aqueles alunos diferentes mas integrados e felizes adoram esses seus professores. Se tivesse que escolher uma só palavra para caracterizar o que testemunhei, eu diria simplesmente: Afecto. Mas como posso usar mais palavras, acrescento: Trabalho, Dedicação, Amor, Persistência, Cuidado, Inclusão, Cidadania, Vida.

sexta-feira, março 06, 2009

No aniversário de Gabriel García Márquez



Não quero deixar de assinalar o aniversário do escritor que é, talvez, a minha maior paixão na literatura. E Cem Anos de Solidão é um dos livros mais fascinantes que já li. Aqui fica um excerto, com o agradecimento à Amélia Pais.



Apesar de o coronel Aureliano Buendía continuar a acreditar e a repetir que Remédios, a bela, era, de facto, o ser mais lúcido que jamais conhecera e que o demonstrava a todo o momento com a sua assombrosa habilidade para fazer pouco de toda a gente, abandonaram-na ao deus-dará. Remédios, a bela, ficou a vaguear pelo deserto da solidão, sem cruzes às costas, amadurecendo nos seus sonhos sem pesadelos, nos seus banhos intermináveis, nas suas refeições sem horários, nos seus profundos e prolongados silêncios sem recordações, até uma tarde de Março em que Fernanda quis dobrar no jardim os seus lençóis de barbante e pediu a ajuda das mulheres da casa. Mal tinham começado quando Amaranta reparou que Remédios, a bela, estava transparente, com uma palidez intensa.
—Sentes-te mal?—perguntou-lhe.
Remédios, a bela, que segurava o lençol pela outra ponta, fez um sorriso magoado.
—Pelo contrário—disse—, nunca me senti tão bem.
Palavras não eram ditas e Fernanda sentiu que um delicado vento de luz lhe arrancou os lençóis das mãos e desdobrou-os em toda a sua amplitude. Amaranta sentiu um tremor misterioso nas rendas dos seus saiotes e tentou agarrar-se ao lençol para não cair, no momento em que Remédios, a bela, começava a elevar-se. Úrsula, já quase cega, foi a única que teve a serenidade para identificar a natureza daquele vento irreparável e deixou os lençóis à mercê da luz ao ver Remédios, a bela, que lhe dizia adeus com a mão, entre o deslumbrante adejo dos lençóis que subiam com ela, que abandonavam com ela o ar dos escaravelhos e das dálias, e passavam com ela através do ar onde acabavam as quatro da tarde e se perderam com ela para sempre nos altos ares onde não podiam alcançá-la nem os mais altos pássaros da memória.

(Gabriel García Márquez, in Cem Anos de Solidão, traduzido por Margarida Santiago)