sexta-feira, setembro 19, 2008

Não lhes estraguem o prazer de ler!



As minhas netas mais pequenitas gostam muito de ler desde que aprenderam a ler. A Inês está no 5º ano, e a Lionore na 3ª classe (esta lá longe, que eu tenho duas netas suiças).
Rubem Alves suscitou-me o que escrevi em título. (Faço uns cortes no seu texto(*) só porque não se devem pôr escritos longos nos blogues)





«Uma das minhas alegrias são as cartas que recebo das crianças. Escrevem-me a propósito dos livros infantis que escrevi. (...)
Pois eu recebi uma carta de um menininho. Não vou revelar o nome para não o comprometer diante da professora. Li a cartinha dele tantas vezes que já a sei de cor. Transcrevo:
"Prezado Rubem: (...) Li o seu livro O patinho que não aprendeu a voar. Eu gostei, porque aprendi que liberdade é fazer o que quer muito mesmo. Escreva para mim. E eu tenho uma professora demais. Com todos os livros que a gente lê ela manda fazer ditados, encontrar palavras com dígrafo, encontro consonantal e encontro vocálico."
A minha alegria inicial foi interrompida por um estremecimento de horror: eu não sei o que é dígrafo! Meu Deus! Ele, um menininho de nove anos de idade, já sabe o que é dígrafo. E eu não. Dígrafo tem de ser uma coisa muito importante, essencial, para ser incluído no currículo de um menininho de nove anos de idade. Com certeza é necessário conhecer o dígrafo para ser iniciado nos prazeres da leitura, que é a única coisa que importa. E eu não sabia disso. (...)
Quando eu estudei acho que a palavra "dígrafo" ainda não tinha sido inventada por algum gramático, como resultado de uma pesquisa linguística e uma tese. Mas os infinitamente variados nomes da análise sintáctica já existiam, embora não fossem os mesmos que existem hoje. (...) A análise sintáctica ensinou-me a ter raiva da literatura. Somente muitos anos mais tarde, depois de ter esquecido tudo o que aprendera na análise sintáctica, aprendi as delícias da língua. Aí, parei de falar os nomes anatómicos dos músculos da amada. Lia e entregava-me ao puro gozo de ler.»
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(*)Rubem Alves. Gaiolas ou asas. Edições Asa (2004), pp. 23-26.
Quadro: Jessie Wilcox-Smith

terça-feira, setembro 16, 2008

Reflexão 1 (Quer comentar?)


foto pessoal

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Esse foi o 4º post deste meu cantinho, já lá vão quase três anos e meio (só lhe acrescentei agora o parêntesis no título).
Por que o fui buscar? Foi porque fui levada por um comentário que recebi no mail (penso que todos usam a funcionalidade da recepção de comentários no mail) e que verifiquei ser a um post de Setembro de... 2005, por acaso sobre "Matemática e métodos de ensino". Fiquei então a pensar como me desviei quase logo ao princípio da intenção de escrever memórias de professora, muito especialmente no âmbito do ensino/aprendizagem da Matemática. E então tive curiosidade de contar, usando os meus marcadores, quantas vezes escrevi aqui directamente sobre esse assunto que me é tão caro. Se não contei mal, foram apenas 5 de 656 posts (6 se contar com essa pequena alusão que fui encontrar nos inícios do meu blogue e me deu para agora recolocar)

Será pretencioso ter acrescentado no título : "querem comentar?" - os meus amigos e colegas da blogosfera têm mais que fazer do que vir comentar a este canto recatado. Mas que não seja por o pensamento acima se referir à Matemática, pois creio que ele pode ser reformulado para qualquer outra disciplina - talvez assim, por exemplo: 'mais do que transmissor do seu saber, o professor tem que ser condutor do aluno na descoberta do saber .' E lá vamos para 'métodos de ensino' (Que coisa... Custa-me sempre escrever 'ensino' sem a palavrinha 'aprendizagem'). Ou não vamos? E também para instrumentos - computadores, quadros interactivos, ...

sábado, setembro 13, 2008

Pensando especialmente neles...

... nos meninos e meninas que agora se estão a sentar pela primeira vez nas cadeirinhas da escola. E também na minha neta Inês e nos outros meninos que, como ela, estão a começar uma nova escola - a do 2º Ciclo.

(...)
Um menino caminha
E caminhando chega num muro
E ali logo em frente
A esperar pela gente o futuro está

(...)



Bom fim-de-semana e boa semana para todos!

Associações de ideias...

Vim daqui da Teia da 3za já passava das duas e meia da manhã, mas o que lera fazia-me querer deixar aqui umas linhas, e não, não queria palavras minhas porque com as minhas eu não saberia dizer o que queria. E então fui folhear o Diário de Sebastião da Gama, e depressa encontrei um bocadinho da ponte que queria...

"A aula passada ao papel fica sempre mesquimha. A aula de Português acontece, como atrás ficou dito em letras grandes; mas acontece , acontece na sala 19 e não aqui, neste papel aos rectângulozinhos. Depois, eu não sei inventar nem doirar; e há uns tempos para cá nem sequer sei reproduzir - ando doente da mão." (...)
"Pertinho da sala 19 mora um pintassilgo (ou pássaro que o valha...). Volta não volta lá se põe ele a cantar e é um gosto ouvi-lo: há alegria, há ternura na sua cantiga, Por importante ou urgente que seja o que estou dizendo, é muito mais importante e muito mais urgente ouvir o pintassilgo: quebro, mal o oiço, ou a frase ou a palavra ao meio. Todos escutam." (...) (*)

As minhas associações de ideias talvez não sejam muito claras, para mais a esta hora da noite, mas acho que a 3za me percebe ;)
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(*) Sebastião da Gama. Diário. Edições Ática, 1958, pp 67-68, 75-76

sexta-feira, setembro 12, 2008

Sem comentários... (Falta-me sentido de humor quando é humor negro)

Ensino obrigatório até ao 12º ano pode “já não ser preciso”
“Criaram-se em todas as escolas sucundárias cursos profissionais, alargou-se a acção social escolar. Preparou-se o país de tal forma que até podemos hoje pensar que essa decisão pode vir a não ser necessário tomar”, explicou MLR.

(Não tenho paciência para ouvir a entrevista, creio que basta
esta notícia)

quinta-feira, setembro 11, 2008

A propósito de dificuldades de aprendizagem

Estava a ler um artigo(*) longo e a dada altura o autor referiu-se especificamente a dificuldades dos alunos na Matemática, lembrando que a falta de gosto por essa disciplina estabelece-se muitas vezes porque os professores não têm consciência das dificuldades que as crianças podem ter para compreenderem certos conceitos que parecem simples - dificuldades que eles próprios decerto tiveram quando crianças, mas de que se esqueceram. E recordou um exemplo verídico que passo a contar (não transcrevo porque vou traduzir do francês):
Foi pedido a uma criança que escrevesse trinta e três. Fácil! Ela conhece 30 e 3 e escreve os dois números lado a lado: 303. O adulto exclama: Mas não! Escreveste trezentos e três! Está com atenção! E a criança murmura: Como assim?! Escrevi bem 30 e 3! E brigam comigo! É chinês, este cálculo! Desisto de compreender alguma coisa disto!
Como o autor comentou a seguir, também eu comento que o sistema decimal não é coisa simples, o homem até precisou de séculos para inventar o zero, e muitas outras coisas para nós muito simples não o são de facto para os pequenos estudantes - e não só para os mais pequeninos.
Quantas confusões e obstáculos ficarão na cabeça dos alunos se não estivermos nós atentos à 'complicação' do que nos parece simples em vez de julgarmos que são eles que não estão atentos?
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(*) Aqui

terça-feira, setembro 09, 2008

Mas vou até o fim

(Porque não gosto do cantinho em silêncio mesmo quando não ando com disposição para escrever, e porque há momentos em que também preciso de dizer "mas vou até o fim", e porque gosto muito desses dois e os dois aí juntos estão uma delícia)

sexta-feira, setembro 05, 2008

Momentos... (E uma adenda)

Talvez O Vento Saiba

Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.

As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.

Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam
sequer em mastigar como bagaços.

Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.
Ivan Junqueira

(Mais um poema que devo à Amélia Pais )


ADENDA
Quando 'só vejo sobre a areia vagos traços', prefiro voltar a pôr o cantinho em pausa até que meus olhos fiquem mais sãos.
Talvez o poema não me tocasse tanto se eu tivesse menos anos, mas talvez também eu não fosse precisando apenas de umas pausas e este cantinho já estivesse demolido se eu não tivesse amigos com bem menos anos do que eu (e a blogosfera é um espaço onde também paira a palavra amigo e nos faz chegar palavras de amigos) que me ajudam a não me enredar e quedar nos sussurros do vento.

Continuando a corrente

A Teresa teve a simpatia de nomear este meu cantinho apesar de, como já lhe deixei dito, ele se ter tornado tão intermitente que merece mais puxões de orelhas do que prendinhas. (Ver a corrente aqui e aqui).

Depreendi que são sete as nomeações a fazer para continuar a corrente. A limitação do número torna isto sempre difícil! Mas também não consigo seguir o critério de não repetir nenhuma das nomeações da Teresa...

Aqui ficam as minhas nomeações (por ordem alfabética):









Ai... já estão oito... Não deve fazer mal, não vi escrito que tinham que ser só sete!
E até acrescento mais uma, fora da ordem alfabética porque nessa sou suspeita...

quinta-feira, setembro 04, 2008

Em jeito de adenda

Mary Cassatt (1905). Looking into the Hand Mirror


O poder do olhar do professor

O olhar do professor tem o poder de transformar uma criança em inteligente ou burra.
Rubem Alves (2003)(*)

Eu poderia testemunhar (não só eu, muitos de nós, provavelmente todos os professores) por vários casos verídicos quanto essas palavras de Rubem Alves são verdadeiras.
Vou escolher só um caso: em que uma aluna foi olhada de modos antagónicos, respectivamente pela directora de turma e pela professora de Matemática. O olhar da dt tinha "peso" junto dos alunos e de outros professores da turma; o da prof de mat (deixem abreviar assim para comodidade de escrita) tinha-o também pela disciplina, pois uma criança "burra" não conseguiria ter sucesso nela. Mas o olhar de um(a) director(a) de turma pode ter uma importância enorme (muitas vezes para sorte, algumas também para azar de quem é olhado)


Saliento como nota prévia: Não faço pessoalizações, o tempo já passado e o resumo por alto tornam o caso anónimo, digamos que é um breve exemplo abstracto de casos ("olhares") que também acontecem aqui e ali, e o bom seria nunca acontecerem.


A Maria (de outro nome, mas prefiro mudá-lo) teve a mesma dt e a mesma prof de mat do 7º ao 9º ano, mas no 9º o restante conselho de turma mudou devido a mudança de escola dos respectivos professores.
No início do 7º ano, a Maria, que transitara com nível negativo a Matemática, mostrava-se, nas aulas desta, distraída, conversadora e desinteressada. Mas não demorou muito o dia em que, em vez de desculpas evasivas, conversou com seriedade e sinceridade com a professora. Disse então que tinha "pouca queda" para os estudos e que na Matemática, "a disciplina mais difícil", nessa é que não conseguiria, que o pai até sabia e já contava com isso, e por isso é que participava tão pouco. E acrescentou, baixando a voz para que só a professora ouvisse: "é que eu sou um bocado burra, setôra".
A última afirmação, convicta, feita como quem faz uma confidência, claro que bateu forte na professora. Era daquelas situações que provocam logo um desafio, uma aposta que se tem a responsabilidade de ganhar, pois não há alunos burros, e a Maria era saudável, não tinha nenhuma deficiência.

Não interessa narrar que estímulos e estratégias a professora usou (todo o professor tem obrigação de os conhecer, ainda que cada um os use ao seu jeito pessoal). Salto já o relato para o 9º ano da Maria. (Antes, esclareço só que o programa de Matemática do 7º ano retomava os conteúdos essencias do 2º Ciclo quase como iniciação, pelo que é o ano mais propício à recuperação de alunos que aí chegam com insucesso nessa disciplina, o que também ajudou a acção da professora) Nesse 9º ano, ela já não preocupava a professora, já não precisava de especial atenção, tornara-se empenhada e trabalhadora e os seus testes já tinham passado a ser sempre positivos e, agora, nunca abaixo dos 60% pelo menos.
Mas, como acima disse, nesse ano o conselho de turma mudara, no início alguns dos novos professores anotaram as informações da dt, a qual, no caso da Maria (aliás, também em mais casos, mas eu optei por contar um só), a caracterizava como "coitadinha, tem muitas dificuldades, não dá, na minha disciplina não tem hipóteses". E não terá adiantado muito que a prof de mat a tenha rebatido, as anotações eram das informações da dt, a esta é que cabe dá-las, para mais uma dt da turma desde o 7º ano e "corre" que é uma dt muito competente... (Já agora, digo que nunca tomei nota dessas informações quando recebia novas turmas, excepto casos de doença ou outros problemas objectivos - nos meus últimos anos de ensino até recebi oitavos anos sem ter começado com eles no sétimo, mas tinha a mesma atitude, que não era por acaso nem por preguiça de tomar 'certas' notas)

Volto a abreviar (não são os intervenientes que quero focar, mas sim o tipo de situação) contando apenas que a Maria, no 3º Período do 9º ano, começou a faltar a certas aulas, até acabar por faltar a todas nas últimas semanas do ano lectivo. Mas apareceu no teste final de Matemática - um teste global -, cujo resultado não deixou de ser afectado pelas faltas, contudo até estudou e até conseguiu os 50% como positiva à justa mas sem favor (e a professora era tida como exigente).
Os pais da Maria eram pessoas pouco instruídas e que não faziam grande questão em que ela terminasse ao menos o 9º ano, pelo que lhe restavam, como incentivos (e desincentivos), "os olhares" dos professores. Entretanto a mãe, a quem a dt escrevera a pedir que enviasse justificações das faltas, acabou por as enviar. No Conselho de Turma para avaliação final a dt informou que as tinha aceite apesar de fora de prazo porque era "chato" reprovar a Maria por faltas, era melhor reprovar por notas.

Duas notas finais:

1 - A prof de mat tentara demover a Maria de desistir. Mas a úitima conversa foi curta, a professora já tinha constatado o efeito da caracterização da Maria que a dt fizera no novo conselho de turma e continuara a repetir, e sabia que, naquela altura, ela estava mesmo reprovada com três negativas, melhor dizendo, com quatro, pois nos conselhos de turma em que aparecem 3 negativas firmes é frequente ficar outro professor hesitante e logo vem a quarta para evitar "aborrecimentos" (tal como sabemos que noutros conselhos de turma tantas vezes alunos acabam por ser aprovados com mais negativas do que a Maria tinha, subidas algumas no último).
E foi nessa última conversa que voltou a ouvir a Maria repetir o que dissera no início do 7º ano, mas agora com um sorriso meio irónico, como quem pisca o olho (embora pouco alegre): "sou burra", ao que apenas respondeu que ela já sabia bem que isso não era verdade - sim, a Maria pelo menos isso já sabia, ao menos isso já não era preciso provar-lhe ;)

2 - Este caso só saiu da cabeça da prof de mat quando encontrou por acaso a Maria e esta lhe disse (contrariamente ao que receara pois ela já tinha 15 anos, já estava fora da escolaridade obrigatória) que voltara a matricular-se e regressara à escola porque afinal queria ir para determinado curso profissional e, portanto, queria terminar o 9º ano. (Afinal a "história" não acabou mal)

Ah! Mais uma nota: não gostei nada de fazer este relato, mesmo abreviado, mas as palavras de Rubem Alves que citei no início exprimem uma verdade que dá grande responsabilidade aos professores e não é coisa abstracta - e os alunos são crianças e adolescentes bem concretos, e estão quase a regressar às aulas...

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(*) Conferência promovida pela ASA (pela mão do JMA)

quarta-feira, setembro 03, 2008

Mas onde anda essa "Esquerda Crítica"? (Pergunto eu)

Eu não digo que não ande por aí, que não fale e não actue, mas aprecebo-me tão pouco dela que me pergunto se é distracção ou cegueira minha. E admito que seja, por isso a minha pergunta não é uma insinuação de que essa Esquerda Crítica mal se vê ou sente, é mesmo uma pergunta para que algum amigo tenha a paciência de me informar e abrir os olhos - eu sei que existe e tem voz, o que não sei bem é porquê se ouve pouco (ou poucos tentam ouvi-la?) e ainda menos age (ou poucos querem agir com ela?).

Passo a esclarecer a que me refiro (a transcrição está linkada para o texto integral, de João Paulo Serralheiro na Página da Educação):

A árvore da esquerda — não só da coisa educativa, mas em geral — mostra-nos ter hoje dois ramos, cada um com os seus galhos (uns vivos, outros secos). Um desses ramos é o da Esquerda Progressista, o outro o da Esquerda Crítica. O ramo progressista aceita o sistema capitalista. Parafraseando Greg Palast, a Esquerda Progressista deseja "a melhor democracia que o dinheiro pode comprar". O reflexo deste posicionamento na educação traduz-se num esforço para procurar políticas que promovam a melhor distribuição social dos benefícios do ensino e da educação, sem tocar na estrutura-base do sistema. Os pedagogos progressistas são os partidários das «coisas giras». Preocupam-se com o carinho a dar aos «meninos» e esgotam o seu esquerdismo em temas como «a igualdade de género», o acompanhamento social e psicológico dos «meninos-problema» e outros temas afins «muito giros». Nada que ponha radicalmente em causa os fundamentos do sistema, a desigualdade e a exploração capitalista. Por seu lado, o ramo crítico toma como sustentação do seu pensamento e acção o fim da exploração capitalista. Como modo de intervenção usa «o poder suave»[2], isto é, a aposta no debate, na cooperação e na renúncia a toda a acção violenta. O pensamento crítico não sendo compaginável com o capitalismo, não pode ser confundido com as «políticas de protesto» — populares num certo sindicalismo —, estas são, quando muito, um seu galho (seco), ainda que eu as veja como um epifenómeno da sociedade capitalista. O pensamento crítico, usando o poder suave, tem em conta o movimento dialéctico da sociedade e as suas rupturas. Reconhece que a maturidade política se revela em cada ser humano quando este assume livremente a sua sorte abandonando as suas pretensões infantis a mandar sozinho no Mundo e a impor-lhe as suas convicções, emoções, crenças, caprichos ou preconceitos. É o reconhecimento dos direitos políticos dos outros que nos permite assumir o nosso poder de facto, como prémio da nossa renúncia em querer para nós o poder e a verdade absoluta. Também em política «quem tudo quer tudo perde». A maioridade política é um processo em que nos inserimos e nos permite ver a democracia como a cidade onde os humanos conversam, se confrontam na Praça da República, argumentam e decidem cooperativamente sobre os caminhos mais aceitáveis. Caminhos de todos, despidos de violência e que nunca são perfeitos, ideais, acabados. São apenas caminhos públicos, aceitáveis, justos, transitórios e com rumo. O pensamento crítico, e o poder suave, trabalham para construir o colectivo (e o individual decorrente deste), numa dada geografia, num dado tempo e num projecto partilhado com os demais sujeitos do processo histórico.
P.S. O título deste post não significa que não tenha gostado do artigo de JPS - se não tivesse gostado, não o destacava.

terça-feira, setembro 02, 2008

A minha neta e o Hot Potatoes

A minha neta Inês vai iniciar o 2º Ciclo e, nos últimos dias, tem-se manifestado preocupada porque (diz ela) precisa de fazer revisões para não chegar às novas aulas com as matérias esquecidas. Eu não acho muito necessário, acho que ela pode gozar os dias de férias que ainda lhe restam sem essas preocupações, mas como foi ela que pediu, ontem retomámos um nosso antigo concurso com exercícios feitos no Hot Potatoes. Ela chama 'concurso' porque entra em competição consigo própria, a querer bater os seus "records" de pontuação, pois os exercícios dão automaticamente a pontuação obtida, o que basta para funcionarem como jogo-desafio.





Comecei por um de palavras cruzadas, achei mais adequado a tempo ainda de férias (constrói-se num instante com essa simpática e simples ferramenta)



Clicar para ampliar

Mas estou a contar isto porque me pus a pensar que o Hot Potatoes já é velhinho e que isso não é razão para o deitar fora (a ele e a alguns outros recursos assim antigos) só porque surgem novos, mais sofisticados ou mais na moda, no entanto talvez mais difíceis de dominar pelos professores que se iniciaram há pouco tempo no uso das "novas tecnologias" - para mais, alguns sob pressão dado que isso conta para a avaliação.
'Conta para a avaliação'... escrever isto até me fez lembrar a pergunta que às vezes alunos me faziam: "isto conta para a avaliação?". Mas o curioso é que eles não perguntavam como quem diz que se não conta, então não vale a pena o esforço - pelo contrário. Por exemplo, eu às vezes arriscava uma tarefa difícil e dizia-lhes que era difícil mas que não se preocupassem, se não conseguissem eu ajudaria e não iria avaliar, e ficavam logo entusiasmados, a quererem conseguir (para mais, trabalhavam em grupo, o que estimulava e ajudava todos). Sim, faça-se esquecer o papão da avaliação e dê-se a uma tarefa o caracter de desafio, e aí vão eles... (Depois crescem... depois crescemos e fica tudo mais complicado...)

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Nota:
O Hot Potatoes foi, em tempos, de download gratuito, mas, para uma versão mais recente, já há cerca de um ano tive dificuldade em o encontrar gratuitamente. Não me lembro onde encontrei, mas, se alguém quiser, comece por experimentar
aqui.

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ADENDA

Já tinha publicado este post quando li o artigo Magalhães: como funciona e para que serve?, de Vieira de Carvalho no Público de hoje. Não se trata propriamente de vir a propósito a não ser por ter a ver com o uso das TIC, inclusivamente no ensino. Gostei do artigo, que começa assim: "A prioridade deve ser dada ao uso crítico da tecnologia." Como julgo que só está acessível online para assinantes, sugiro a quem não tenha lido a sua leitura aqui.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Saber mudar os planos (Parábola)

Auditório Vazio

Um orador entrou num auditório para proferir uma palestra e, com surpresa, deu com o auditório vazio. Só havia um homem sentado na primeira fila.
Desconcertado, o orador perguntou ao homem se devia ou não dar a palestra só para ele. O homem respondeu:
- Sou um homem simples, não entendo dessas coisas. Mas se eu entrasse num galinheiro e encontrasse apenas uma galinha para alimentar, eu alimentaria essa única galinha.
O orador entendeu a mensagem e deu a palestra inteira, conforme havia preparado. Quando terminou, perguntou ao homem:
- Então, gostou da palestra?
O homem respondeu:
- Como eu lhe disse, sou um homem simples, não entendo dessas coisas... Mas se eu entrasse num galinheiro e só tivesse uma única galinha, eu não daria o saco de milho inteiro para ela.

Uma das tarefas mais importantes na nossa vida profissional é saber mudar os planos, quando a situação muda. Todos têm um plano, mas nem todos sabem o que fazer quando ele não dá certo.
www.... (Autor desconhecido)

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Adenda

A propósito de saber mudar os planos, pus-me a pensar que, se estivesse agora prestes a iniciar o novo ano lectivo, estaria decerto a dar voltas à cabeça para conseguir redefenir planos e estratégias - mas não estou a referir-me a aulas e alunos. E acho que o ideal seria não apenas tentar isso individualmente, mas colectivamente a nível de cada escola - e este parece-me um momento oportuno (sempre são duas semanas com os professores nas escolas ainda sem aulas e com as baterias recarregadas pelas férias...)

Acho que o meu blogue voltou de férias





Pelo que aqui vejo, assim parece... (Ele nem sempre me pede autorização! - A minha relação com o meu blogue às vezes é um tanto conflituosa...)




















Mas eu prefiro este Hello a fazer-me lembrar de quando me sentia um tanto extraterrestre (suponho que acontece de vez em quando a muita gente...). E também fui há dias ao cinema ver o Wall-E e uma pessoa está sempre com associações de ideias...



vladstudio.com

quinta-feira, agosto 14, 2008

...







Eu vou estando mais ou menos por aqui, mas Agosto é para deixar rotinas e máquinas (computadores) e procurar a Natureza. "Nossa cultura provocou uma transformação perversa nos seres humanos de forma que eles acreditam que, para estar bem, é preciso estar acoplado a objetos tecnológicos", como diz Rubem Alves; e, sobre a minha cidade, eu sinto como ele: "E assim foi acontecendo: a velha Campinas desaparecendo, as casas velhas sendo demolidas, o teatro municipal foi derrubado, desapareceram os bondes, e os pedestres perderam o direito às ruas, tomadas pelos automóveis... Como as andorinhas, já não encontro os cheiros de antigamente: as jabuticabeiras floridas, atrás dos muros, as murtas, nas praças, os jasmins, nos jardins... ". Os cheiros de antigamente não voltam mais, resta saber procurar recantos com cheiro a férias - férias de tecnologia sofisticada, de shopping, de ruído...

...

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.


Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, agosto 08, 2008

Ao pé de casa

Prometi a quem me lê e a mim mesma que, em Agosto, só haveria aqui ambiente de férias, pois todos precisamos de umas boas férias dos males que andam a acontecer na Educação. Mas já me escapei da cidade em Julho, agora estou por cá, embora só ouça um noticiário por dia e nada de jornais.
Mas até tenho quase ao pé de casa a frescura de árvores e água a lembrar rio ou lago, a apelarem a passear ou a sentar com um livro de leitura leve.
É a Quinta das Conchas, mais a Quinta dos Lilases - contíguas, constituindo um grande parque.
Assim ao pé de casa, sem ter que pegar no carrito... Com um bocadinho de imaginação, dá para respirar férias...
[Bem... o ar de férias é para este cantinho, que nos próximos cinco dias eu não precisarei desse parque e o cantinho ficará abandonado, outros passeios com a neta que ontem trouxe do aeroporto vão dar-me ar de superférias ;) ]


Se não vir as fotos, faça "refresh" na página





quinta-feira, agosto 07, 2008

...

Minhas mesmas emoções
São coisas que me acontecem.


Fernando Pessoa

Bienvenue Soraïa!

Je t'attends! Tu me manques beaucoup, ton séjour sera petit, mais superbe :)
J'ai saudades de tes vacances au Portugal, tu as commencé à venir seule avec l'hôtesse de l'air à l'âge de six ans - tu venais joyeuse et sans peur :)))
Je vais garder cette photo ici, je me souviens souvent de ces jours à Varandinha. Et toi, tu te souviens? Regarde...



À tout à l’heure :)

Ah... On va profiter, tu vas pratiquer un peu le portugais, d'accord? ;)

quinta-feira, julho 31, 2008

Pretextos para pôr o cantinho com ar de férias

Uma vila bonita e um mar bonito à distância máxima (cerca de 200 km) que me disporia a percorrer no meu velho carrito com dona ainda convalescente. E o carrito chegou, estacionou, e só saiu do lugar para o regresso, pois trânsito e preguiça de andar a pé não são coisas para férias.

A minha maior caminhada a pé foi para descobrir esse barco, cuja história não consegui saber - não sei quando naufragou nem como foi parar ali...




Mas a caminhada de ida e volta a pé para a praia mais bonita para onde gostávamos de ir era excessiva cá para mim. Assim, eis a solução ideal: comboio para lá e a pé para cá, ou vice-versa...



Quando iniciei este blogue não acreditaria que viria a ultrapassar memórias de professora pondo nele também fotos mais pessoais. Mas a verdade é que este espaço virtual me foi dando a sensação de cantinho mesmo, assim um cantinho meu onde me viesse sentar e guardar recordações - devia mudar-lhe o visual e pôr lá em cima um recanto com trepadeiras em flor, uma mesinha e um banco em pedra... Enfim, aí me deixo a mim mesma, já vestidinha para o jantar...


E mais umas fotos de férias aproveitando para partilhar esta ferramenta rápida para brincar com slideshow... (Se não virem as fotos, façam refresh)

segunda-feira, julho 21, 2008

Oito dias à beira-mar

Eu até não aprecio nada estar na praia a torrar ao sol. Mas gosto de olhar o mar e gosto da praia à tardinha.

E não vejo praia há um ano, por razões que não interessam para aqui mas que vão tornar os próximos dias num acontecimento especial para mim.

Assim, amanhã lá vou eu...
Depois espera-me o Agosto cá pela capital... ui... hei-de arranjar umas fugidinhas, senão não torro na praia mas torro neste forno por aqui!

Amigos e colegas, boas férias para todos!

quinta-feira, julho 17, 2008

Pensamentos de Verão





Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia
Matsuo Bashô

Um mar azul
pintou de branco
o voo das gaivotas.

Albano Martins

O dia lega
à noite, em testamento,
a lua.
Albano Martins

terça-feira, julho 15, 2008

Tocando em frente

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente

Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz



Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Eu nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz

domingo, julho 13, 2008

Saturação

Estou saturada de política educativa, de decretos e despachos, de reformas avulsas e de discursos inconsistentes; estou saturada de normas e mais normas, por vezes de constitucionalidade ou legalidade duvidosa; estou saturada de verbalizações de intenções sobre uma escola pública de qualidade, a pretenderem esconder o economicismo, a desconfiança nos docentes em geral e as pressas em melhorar estatísticas que tapam realidades; estou saturada de faltas de rigor, de palavras incongruentes que muito poucos desmontam, de precipitações incompetentes e burocracias desastrosas.

Enquanto isto, a criança espera, entregue a experiências perigosas para o seu futuro, ser abstracto para os políticos e ser concreto para o qual os educadores vão tendo cada vez menos tempo.
Enquanto isto, degradam-se os climas de escola e perdem-se os melhores e mais dedicados professores, sem que se acredite que as medidas tomadas venham a melhorar o trabalho dos que precisam de o melhorar.






Estou saturada, estou farta! Preciso de férias de observar esta política que dura há três anos. Vou, pois, dar férias à minha atenção aos assuntos da Educação. Por enquanto continuo por aqui, mas, até Setembro, quando me apetecer vir ao meu cantinho, será só para trazer ambientes de férias.



Aos amigos e colegas: Boas férias, boa recuperação de ânimo, retemperem bem a vontade de lutar por uma escola pública de qualidade para todos os nossos jovens!

quinta-feira, julho 10, 2008

A fraude das provas de Matemática

O Governo e o ME declararam o seu empenho em melhorar o ensino-aprendizagem da Matemática e esse empenho foi bem vindo dada a preocupação, desde há tantos anos, com as elevadas taxas de insucesso nessa disciplina. A implementação do Plano de Acção para a Matemática (PAM), por si só, teria trazido legítimas e correctas expectativas de melhoria das aprendizagens dos alunos em matemática, não fossem as pressas e as pressões para se apresentarem rapidamente estatísticas para inglês ver - melhor dizendo, para UE ver. As várias pressões da parte da Tutela foram criando dúvidas quanto a uma verdadeira melhoria na Educação Matemática das nossas crianças e jovens.

Uma das pressões, através da responsabilização dos professores (e só dos professores) pelos insucessos dos alunos, a ponto de aqueles serem penalizados na sua avaliação, não terá deixado de se reflectir numa inflação de notas por muitos deles.
Mas, a inflação indevida das notas na avaliação interna seria denunciada pelos resultados das provas nacionais, pelo que muitos professores não terão resistido a outra pressão: a de trabalharem com os alunos no treino em perguntas e problemas "do tipo que sai em exames", para o que não terá deixado de contribuir a insistência no banco de uma imensidade de itens do dito tipo, disponibilizado pelo GAVE. Ora, a Educação Matemática que se deseja para os nossos alunos não se faz por treinamento para exames.
Ainda uma terceira pressão se verificou através de uma sugestão da ministra (li-a, na altura, com os meus próprios olhos) de passarem a ser as aulas de Estudo Acompanhado e da Área de Projecto convertidas em aulas de Matemática, pelo que, em muitas escolas, essas áreas foram atribuídas tanto quanto possível a professores de Matemática a fim de passarem a ser mesmo aulas dessa disciplina. Não se tratando de reforços apenas para os alunos que de facto precisam de apoio suplementar (e muitos tiveram também aulas de apoio apesar de apenas precisarem de estar mais atentos e de se esforçarem), mas para a turma inteira, tivemos muitos alunos queixando-se de saturação com tanta matemática, o que tem efeito contrário ao desejável aumento do gosto pela mesma.

Assim, perante, por um lado, expectativas positivas quanto ao PAM, e, por outro, também interrogações sobre aspectos perniciosos, todos tínhamos direito a ter algum elemento de avaliação das medidas tomadas para essa disciplina, o país tinha direito a isso. Mas tal direito foi-nos sonegado pela significativa maior facilidade das provas, desde as de aferição dos 4º e 6º anos, ao exame do 9º. (Deixo de lado a prova do 12º porque, além de não poderem ser atribuídas melhorias nos resultados ao PAM, nunca leccionei nesse nível de ensino, há muito que estou pouco a par dos programas, pelo que só tenho visto por alto essas provas. Mas conheço os programas de Matemática do 2º e 3º ciclos como os dedos da mão e tenho analisado detalhadamente todas as provas do 9º ano desde que começaram a realizar-se, aliás cheguei a ser correctora na 1ª, de 2005)
Por muitas reservas que tenhamos quanto à leitura que se pode fazer dos resultados de uma só prova, para mais em alunos destas idades, um exame feito com critérios credíveis e fiáveis seria o elemento que teríamos para, de algum modo, avaliar efeitos das medidas tomadas quanto à Matemática. E esse elemento foi-nos recusado pela impossibilidade de comparações, pela indiscutível maior facilidade das provas em relação às dos anos anteriores.
Seria um elemento insuficiente, um exame não avalia tudo, um exame pode não avaliar verdadeiramente o essencial do que chamo Educação Matemática, mas seria o elemento possível a curto prazo, e já seria um indicador.

A Educação Matemática é muito mais do que aquisição de conhecimentos e domínio de procedimentos elaborados de que a maioria dos jovens nem irão precisar na vida adulta. Quaisquer que sejam os conteúdos dos programas (o que não quer dizer que estes sejam sempre os adequados), eles proporcionam uma coisa fundamental no ensino básico: oportunidades aos professores de fomentarem e desenvolverem cedo nos alunos gosto e hábitos de raciocinar, de iniciação no pensamento rigoroso (e na auto-exigência deste), de iniciação também na elaboração de conceitos - que se irão construindo melhor pela sua retomada cíclica -, e até de contribuição dessa educação para o próprio domínio da língua, pois rigor de pensamento e precisão de linguagem são capacidades em interacção.

Por tudo isto, são de recear efeitos perniciosos de pressões (directas e indirectas) sobre os professores, inclusive para trabalharem treinando para exames; por tudo isto, ficam receios ou dúvidas sobre a relação entre benefícios e prejuízos decorrentes das medidas e do clima criado; por tudo isto, todos os que se preocupam com educação-ensino tinham direito a começarem a ter indicadores credíveis que permitissem algum balanço. Mas o ME não teve a honestidade de se submeter a esse balanço, usou ou consentiu a facilitação das provas, o que é um insulto à nossa inteligência e lança sérias preocupações sobre o futuro quanto a uma formação de qualidade para os nossos jovens.
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Adenda (após os noticiários das 13h)
Senhora Ministra:
Ouvi-a recusar as acusações de facilidade do exame de Matemática do 9º ano com o argumento (o critério foi seu) de que um exame só seria demasiado fácil se as notas de excelente ultrapassassem os 5%. Perante 8,3% (contra 1,4% no ano passado), a senhora vai agora fazer esquecer essa sua afirmação?
Se a prova tivesse sido equilibrada e credível, ficaria muito bem à senhora e aos seus coadjuvantes vir dizer que os resultados continuam maus, pois é verdade. Mas já não lhes fica bem quando o dizem para salvar a face e iludir os pais e restante população quanto ao que seriam sem o facilitismo.
Prefere não se lembrar dessa afirmação que fez? Nunca pensa que, como Ministra da Educação, deveria dar o exemplo de honestidade intelectual?
Senhora Ministra, vá-se embora!

domingo, julho 06, 2008

Flores e calma numa tarde de sábado

Às vezes estou em casa a sonhar com ar puro, natureza, beleza, calma, e tudo isso se me afigura distante, como se tivesse que empreender uma caminhada longa no carrito para encontrar um lugar assim. No entanto, posso encontrar tal lugar, ainda que em miniatura, sem ter que vencer a preguiça de planear longa deslocação. E um lugar que, mesmo sendo, de certo modo, em miniatura, não deixa de ter todos aqueles ingredientes de que estou a ter necessidade.
Ontem o que fiz foi procurá-lo perto de casa - eu sabia que o tinha bem perto - para ir lavar o espírito e deixar-me invadir pela calma, a tranquilidade, a serenidade que tenho andado a precisar de beber todos os dias.
O jardim do Museu Nacional do Traje é um lugar assim, é um recanto onde se esquece o stress da cidade e o stress de coisas da vida.

(Fotos de péssima amadora, mas não vou cair em complexos por causa da minha pouca arte fotográfica!)






sábado, julho 05, 2008

;o) Avaliações (Opinião controversa, mas eu até concordo)

"Sempre deve haver avaliações. Um professor de piano que ouve um aluno seu interpretando uma peça está constantemente avaliando. Ele avalia para corrigir a performance, para que a performance fique melhor. Agora, avaliar para atribuir um número, nota, ao aluno, isso é estúpido."
Rubem Alves (Em entrevista aqui)

terça-feira, julho 01, 2008

Recordando uma canção

Há dias, como agora, em que preciso de me lembrar das flores, de falar delas, de acreditar nelas. Assim neste cantinho quieto, que não é só para pensar na Educação, é também um lugarzinho só meu.

Gosto muito desta canção. Tinha-a em vinil; depois vieram os cds, procurei-a, mas nunca encontrei nova gravação à venda. Até que, um dia, um amigo ma enviou em mp3 (eu ainda não conhecia o Emule e outros meios de obter músicas na net).
Já a deixei algures neste cantinho, mas agora, com o YouTube, (quase) tudo se encontra em vídeo.

É uma canção datada? Pois é, mas nunca há data para acreditar nas flores.
Como também nunca há data para dizer:

Quem sabe faz a hora não espera acontecer
Vem, vamos embora que esperar não é saber


Geraldo Vandré: Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores...


segunda-feira, junho 30, 2008

Apenas o prazer de ler

Acabo de ler o último livro de Mia Couto. É sempre uma delícia e um fascínio. Sempre que leio um livro de Mia Couto, acontece-me com frequência ir parando, não sei bem se a repetir, se só a contemplar as palavras. Como se o seu sentido fosse mágico, ou me hipnotizasse. Como aqui:

A casa só é nossa quando é maior que o mundo.

E há as palavras que (re)inventa e parecem imprescindíveis, insubstituíveis.
E há também, por vezes, como que um brincar com os ditos da nossa língua, fazendo deliciosamente sorrir. Como aqui:

Depois, calou-se pelos cotovelos.

Não é a primeira vez que aqui refiro uma obra de Mia Couto, que, nos últimos anos, se tornou um escritor enorme. Mas trago-o ao meu cantinho não para falar dele - não é preciso -; trago só uma emoção que a sua leitura me causa.

quinta-feira, junho 26, 2008

Momentos... (E uma pausa)

STASERA

Balaustrata di brezza

per appogiare stasera

la mia malincolia

Giuseppe Ungaretti (1916)


ESTA NOITE

Balaustrada de brisa
para amparar esta noite
minha melancolia.

Tradução de Henriqueta Lisboa


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Agradeço o poema à Amélia Pais

terça-feira, junho 24, 2008

Não resisto a comentar ao menos este item 3

Da prova de Matemática do 9º ano, 1ª chamada:

3. Numa sala de cinema, a primeira fila tem 23 cadeiras.
A segunda fila tem menos 3 cadeiras do que a primeira fila.
A terceira fila tem menos 3 cadeiras do que a segunda e assim, sucessivamente, até à última fila, que tem 8 cadeiras.
Quantas filas de cadeiras tem a sala de cinema?
Explica como chegaste à tua resposta.

(Cotação: 5 pontos)

Mal saiu do exame, o meu neto telefonou-me. Começou por dizer que a prova tinha sido fácil, acrescentando: "Até posso ter respostas erradas, mas não havia perguntas difíceis, eram todas fáceis". A seguir, assim logo mesmo pelo telefone, quis certificar-se sobre esse item 3 acima transcrito. Disse-me o enunciado e contou: "eu fiz vinte e três menos três e fui diminuindo três até chegar a oito e vi que eram seis filas. Pediam que explicasse como cheguei à resposta e então eu escrevi 23-3=20, 20-3 = 17, indiquei essas contas todas até chegar a 8. Pode ser assim? Pode ser só isto?" Um tanto incrédula sobre o enunciado, respondi-lhe que se era tal como tinha dito, estava certo, mas que depois precisava de o ler.

Faço este relato para mostrar que a perplexidade perante o item não foi só minha: até o aluno estranha que no seu exame de 9º ano apareça uma questão assim. (Ainda não tive oportunidade, mas hei-de pôr o problema à minha neta, que acabou agora o 1º Ciclo)

Para não especular sobre as intenções de quem elaborou a prova, limito-me a falar por mim: Se eu alguma vez pusesse tal questão num teste de 9º ano, das duas, uma: ou estava a considerar que tinha alunos talvez incapazes de raciocínios tão elementares, ou estava a querer oferecer um bónus de 5 pontos. E como nem uma coisa nem outra me passaria pela cabeça, fico agradecida a quem me sugira uma terceira e mais correcta razão para aquele item 3.

Nota:
O item 3 parece-me insólito, mas eu não repararia tanto nele numa outra prova em que não houvesse, como há nesta, outros itens claramente mais fáceis do que os correspondentes nas provas dos anos anteriores, incluindo mais alguns que poderiam ser propostos a alunos do 2º ciclo.
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Adenda (em 27-06-2008)
Como eu calculava, a minha neta de 10 anos, depois de perguntar se podia indicar as filas num papel, resolveu o problema e respondeu correctamente.

segunda-feira, junho 23, 2008

De regresso...



... e não é que encontrei uma prendinha do meu jardim na varanda?! Os primeiros gladíolos que consegui, depois de já ter desistido de experiências com bolbos! Terão ficado esquecidos na terra e resolveram não ficar desta vez por dar folhas estioladas, mas folhas floridas. :o)





Bem... isto é pretexto, em continuação do post anterior, para dizer que regressei, felizmente mais depressa e com mais rápida recuperação do que esperava, e para agradecer a todos os que me deixaram comentários ou me mandaram mensagens por mail ou por sms. Com um agradecimento muito especial à Madalena - ela sabe porquê. Aliás, aproveito para dizer que, se já tinha tido o prazer de conhecer pessoalmente cinco amigos da blogosfera (na manif dos 100 000), agora já conheço seis. E, apesar das circunstâncias, fiquei muito feliz com este acontecimento mais recente.

P.S.

O regresso foi a casa. Ao blogue, hoje foi só uma vinda breve, é provável que este cantinho vá continuar em intervalo. (Apesar da vontade que tenho de comentar a prova de Matemática do 9º ano - até o meu neto, que a fez, comentou -, mas... pronto, tenho que me conter, voltará a oportunidade quando saírem os resultados - suspeito que muito se irá falar sobre eles)

sábado, junho 14, 2008

Até logo! (E cuidem dos vossos jardins!)

Pausa para o dr. cirurgião me libertar de um percalço de há dez meses atrás. Mais uma operação delicada, mas trivial e sem nada de maligno.
Não é meu jeito trazer para aqui estas coisas de vida particular, mas em Setembro passado houve amigos que andaram preocupados com o meu desaparecimento da blogosfera e não resposta a emails, pelo que, como desta vez não é coisa imprevista e súbita, acho melhor dizer. Mas é coisa para ficar inteirinha e de boa saúde ;)

Entretanto, já que durante este tempo também criei e cuidei um jardim na minha varanda, deixo algumas das minhas flores a embelezar o cantinho. A jardineira é ainda muito inexperiente e as suas flores são vulgares, pois outras menos comuns esperam por melhor sucesso. Mas... ora! Todas as flores são bonitas!



_ Ó Isabel! Vais deixar aqui esses vasos simplórios?! Depois das flores tão lindas que alguns colegas teus mostram dos seus jardins?!
_ Mas estas são as minhas!!! E só não mostro mais vasos, porque começaste a troçar! Que coisa... era o que faltava uma pessoa não poder ter um jardim lá porque só tem uma varandinha num sétimo andar!!

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Adenda

«Menino, os jardins eram o lugar da minha maior felicidade. Dentro de casa os adultos estavam sempre a vigiar: "Não mexa aí, não faça isso, não faça aquilo...". O Paraíso foi perdido quando Adão e Eva começaram a vigiar-se. O inferno começa no olhar do outro que pede que eu preste contas. E como as crianças são seres paradisíacos, eu fugia para o jardim. Lá eu estava longe dos adultos. Eu podia ser eu mesmo. O jardim era o espaço da minha liberdade. (...) No pé de nêspera fiz um balanço. Já disse que balançar é o melhor remédio para a depressão. Quem balança torna-se criança de novo. Razão por que eu acho um crime que, nas praças públicas, só haja balancinhos para crianças pequenas. Há-de haver balanços grandes para os grandes! Já imaginaram o pai e a mãe, o avô e a avó, balançando? Riram? Absurdo? Entendo. Vocês estão velhos. Têm medo do ridículo. O seu sonho fundamental está enterrado debaixo do cimento. Eu já sou avô e me rejuvenesço balançando até tocar a ponta do pé na folha do caquizeiro onde o meu balanço está amarrado!"

Rubem Alves (2004). Gaiolas ou asas. Edições Asa, pp 71-72

Não posso, nem me atreveria a pôr um balouço na minha varanda. Mas RA anima-me a lembrar o que "está enterrado debaixo do cimento" para, quando voltar, ir recuperar um equivalente ao balouço das crianças. ;o)

sexta-feira, junho 13, 2008

Um poema de Eugénio de Andrade...

...querido poeta que partiu faz hoje três anos.

Onde me levas rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos e com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante;
que seja nessa face que me perca.


In Poesia em verso e em prosa, ed. Círculo de Leitores (1980)

Fernando Pessoa - Homenagem muito singela

Hoje comemora-se o nascimento de Fernando Pessoa. Faria 120 anos.
Não me atrevo a palavras de homenagem. Outros saberão lembrá-lo de uma forma que eu não sei.
Já era um dos meus poetas quando eu era adolescente - foi uma das minhas paixões de menina. Nesse tempo, foram três os meus poetas - três paixões. Uma foi efémera, mas as outras duas ficaram. Uma das que ficaram até hoje foi Fernando Pessoa.
_____________
Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fatuo encerra.

Ninguem sabe que coisa quere.
Ninguem conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ancia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa (1928). In Mensagem. Edições Ática. (5ª ed.-1954)
(Respeitando a ortografia adoptada pelo poeta)

segunda-feira, junho 09, 2008

Conversas, livros de registos e coisas importantes

Não procurei o texto para vir escrever no blogue. Ao contrário, não tencionava vir escrever, mas o texto caiu-me sob os olhos, qual alerta oportuno.

«(...) No mesmo vagão viajavam também muitos professores a caminho das escolas onde trabalhavam. Iam juntos, alegres e falantes... Por anos escutei o que falavam. Falavam sempre sobre as escolas. Era ao redor delas que giravam os seus universos. Falavam sobre directores, colegas, salários, reuniões, relatórios, férias, programas, provas. Mas nunca, nunca mesmo, eu os ouvi falar sobre os seus alunos. (...)
Participei no juri que examinou uma tese de doutoramento cujo tema eram os livros em que, nas escolas, são registadas as reuniões de directores e professores. A candidata dera-se ao trabalho de examinar tais reuniões para saber sobre o que falavam directores e professores. As coisas registadas eram as coisas importantes que mereciam ser guardadas para a posteridade. Nos livros estavam registadas discussões sobre leis, portarias, relatórios, assuntos administrativos e burocráticos, eventos, festas. Mas não havia registos de coisas relativas aos alunos. Os alunos: aqueles para os quais as escolas foram criadas, para os quais directores e professores existem: ausentes. Não, não era bem assim: os alunos estavam presentes quando se constituíam em perturbações da ordem administrativa. Os alunos, meninos e meninas, alegres, brincalhões, curiosos, querendo aprender, alunos como companheiros dessa brincadeira que se chama ensinar e aprender, sobre tais alunos o silêncio era total. (...)»

Rubem Alves (2004). Gaiolas ou asas. Ediçõas Asa. pp 121-122

Nota:
As minhas memórias de conversas entre professores não vão, não vão mesmo, ao encontro do que Rubem Alves conta das que ouvia. Pelo contrário, lembro-me que, até há tempos não muito distantes, nos meus convívios em que houvesse professores depressa estes estavam a falar das aulas e dos alunos, partilhando entusiasmos e preocupações, fazendo até os não professores protestarem: "Pronto, lá estão a falar dos alunos, vocês não pensam noutra coisa?".
Mas, no momento presente, quando estou com professores, é, de facto, só de decretos, despachos, e cansaços (de aposentação também) que se fala...
E pergunto-me: As minhas constatações, respectivamente no passado e no presente, correspondem a meras circunstâncias pessoais? Será que não revelam sintomas gerais de involução?
De qualquer modo, parece-me inquestionável que é preciso parar e inverter o actual rumo para o atolamento dos professores em papelada e em reuniões por causa de papelada. Cá para mim, governantes que não vejam isso ou estão cegos, ou têm os olhos muito desviados daqueles por causa de quem e para quem existem as escolas.

sexta-feira, junho 06, 2008

Que condições, hoje, para trabalho colaborativo entre professores?

Um paper mostrado pelo JMA, intitulado “Collaborative Cultures”, fez-me pensar, mais uma vez, nas condições de hoje nas nossas escolas - condições e estímulos - para o trabalho colaborativo entre professores. Nesse paper refere-se, por exemplo: “Teachers engage in frequent, continuous, and increasingly concrete and precise talk about teaching practice.”
Lembrei-me de uma reportagem que li há tempos (perdi-a, já não está online) sobre os professores da Finlândia - país que tanto se aponta como modelo na Educação enquanto os nossos governantes em nada nele se inspiram -, reportagem na qual se dizia que os professores têm tempos semanais para trabalho colaborativo.
Lembrei-me ainda de uma mesa redonda publicada há poucos meses, não recordo se no jornal do SPGL, se no da FENPROF, em que Lurdes Silva (uma amiga minha ex-sindicalista que continua a dar alguma colaboração à FENPROF) pedia à Ministra da Educação "um simples papelinho", "só um simples papelinho" a determinar que fosse incluído nos horários, na componente não lectiva de estabelecimento, tempo para reuniões de trabalho colaborativo entre professores. E recordei então um pequeno episódio que relato mais abaixo e que tem a ver com as prioridades de MLR para essa componente dos horários.

Mas não preciso de ir a exemplos de outros países. Encontro nas minhas memórias muitas boas recordações de trabalho colaborativo que eu própria vivenciei. Trabalho colaborativo no meu grupo de disciplina; trabalho colaborativo na concretização de projectos extracurriculares; trabalho colaborativo de apoio a jovens colegas.
Recordo, como mero exemplo, o grupo da A., da C. e da M.J., todas professoras de Matemática de longa experiência e reconhecida competência, que, no entanto, me pediam (porque eu era coordenadora) que convocasse reuniões extraordinárias, embora informalmente, sem marcação de faltas (mas o grupo comparecia todo), para debatermos, trocar ideias, partilhar estratégias e procedimentos didácticos que se revelassem mais bem sucedidos face às dificuldades dos alunos, enfim, para unirmos o nosso empenho e entusiasmo nisto de ensinar.
Essas reuniões - tal como outras entre colegas de disciplinas diferentes, em que várias vezes participei - realizavam-se voluntariamente, por gosto e com gosto, pois muitos professores davam bem mais tempo a trabalho na escola do que aquele a que o seu horário obrigava antes da tal componente não lectiva que MLR estabeleceu com vista às actividades de substituição chamadas 'não lectivas' para não custarem ao Estado.

Mas, nas minhas memórias mais recentes, já encontro recordações diferentes, digamos que recordações não boas. Nas minhas memórias mais recentes, encontro reuniões de departamento sobrecarregadas de informações e de papelada, que terminavam com a pergunta: Quando teremos tempo para falar das aulas?
E, sobre trabalho colaborativo, a minha última recordação é reveladora dos critérios e das prioridades de Maria de Lurdes Rodrigues. Eu conto (foi no meu último ano de actividade docente - ainda a procissão dos decretos e despachos ia no adro):

Sabendo que iria ser introduzida, nos nossos horários, a componente não lectiva de estabelecimento, solicitei por escrito, ao meu presidente e em nome do pequeno grupo de Matemática do 3º Ciclo (éramos apenas três), que nos fosse atribuído um tempo semanal comum para reunião de trabalho. O pedido fundamentou-se na necessidade de reforço do trabalho nessa disciplina, necessidade que os resultados dos primeiros exames nacionais do 9º ano tinham trazido para as vozes do ME e da comunicação social. O pedido foi atendido, mas o meu presidente recomendou-nos muito que fizéssemos por que passasse despercebido na escola para que outros grupos não pedissem o mesmo – nomeadamente o de Português e o do 2º Ciclo de Matemática, mais numerosos e que teriam os mesmos argumentos. A preocupação do presidente residia no facto de que lhe seria impossível atender outros pedidos para tempo de trabalho colaborativo, por muito que o considerasse necessário, dada a obsessão da Ministra em que não houvesse nenhum aluno no recreio fora dos intervalos, pelo que a grande maioria dos tempos não lectivos tinha que ser destinada a ter sempre professores disponíveis (na maior parte das vezes desocupados na sala de professores) para eventuais substituições – e assim foi essencialmente “aproveitada” a componente não lectiva de estabelecimento, nesse primeiro ano em que as escolas nem tinham tido tempo para organizarem actividades de substituição.

O exemplo que acabei de dar é hoje insignificante face a tudo o que veio depois atolar os professores em papelada – e, também, gerar climas de competição em vez de colaboração. Muitos professores passaram a ter mais reuniões, mas não para se ocuparem dos alunos ou de algo que acreditem repercutir-se positivamente no trabalho com eles e para eles.
Que condições teria hoje para prolongar as boas recordações – que são muitas – de trabalho colaborativo entre professores visando os alunos, a real melhoria das suas aprendizagens e também as iniciativas extracurriculares que contribuem para a sua formação global?
Que condições e estímulos deu Maria de Lurdes Rodrigues?

P.S.
Eu não disse, nem as minhas memórias me dizem, que todos os professores tinham uma cultura de trabalho colaborativo, e talvez se estivesse longe dessa generalização. Mas, o certo é que minar o que de bom já exista nunca é caminho sensato para melhorar seja o que for.

terça-feira, junho 03, 2008

Um NÃO que poderia ter sido dito. Poderá ainda?

Recebi por mail e já vi que o Ramiro Marques divulgou. Também não resisto a transcrever.

Hoje, o menino pintor foi à minha escola. Em vez da tela, levou pequenos autocolantes com o cravo de Maio, o lacinho preto e um NÃO. Explicou aos professores o seu sonho e todos aceitaram colocar a flor ao peito, conscientes do seu significado: não integrar nenhuma lista para o Conselho Geral, nem votar em nenhuma candidatura que, eventualmente, possa surgir. Em abono da verdade, devo dizer que não foram bem todos: um colega, pertencente ao Conselho Executivo, teve a amabilidade de declinar a oferta. Compreende-se, não é verdade? Dos restantes, o menino já nem sequer se abeirou. Mas, ao fim da manhã, a escola parecia um campo florido, em pleno mês de Abril. Que espectáculo tão belo!
O sonho desse menino é tão lindo, a sua crença é tão grande, que eu penso ser capaz de contagiar este pequeno país, de lés a lés. Por isso, mandei fazer pins com o mesmo símbolo, para que todos os meus colegas possam ostentá-lo com orgulho, transmitindo assim, constantemente, mensagens de solidariedade e reforço do espírito colectivo. Esse cravo ao peito será, diariamente, um sinal de esperança, a convicção reforçada numa vitória merecida. Esse cravo lembrará a cada professor que não está só, que pode contar com todos os seus colegas, pois todos o trarão ao peito, enquanto a causa durar.
Gostaria que todos os professores do meu país, aqueles que têm esta mesma dor e esta mesma paixão que me tritura, se unissem num amplexo nacional capaz de suplantar todas as manifestações, todas as organizações sindicais: o NÃO de cada um. Cada um de nós diz NÃO e não há força capaz de nos deter. O NÃO de cada um — acreditem — é mais forte do que o grito de cem mil. Tenham a ousadia de experimentar. Podem, se não tiverem melhor, retirar esta imagem do meu blogue (desculpem, mas eu escrevo “blogue” com as cores do meu país). Depois… ponham o milagre a funcionar. Vão ver que não dói nada!

Luís Costa

P.S. – Façam-me o favor de entregar esta mensagem a Mercúrio, o mensageiro dos deuses, para que ele a leve, num instante, a todos os cantinhos deste país cheio de defeitos, mas que tanto amamos.
______
Adenda

PETIÇÃO
Seguindo o link, a petição pode ser lida e assinada.

segunda-feira, junho 02, 2008

Eduquemos e cultivemos a consciência humana

«"(...) Em todos os homens existe a mesma parcela de dignidade, simplesmente nalguns está de tal modo adormecida que chegam a dar a impressão de seres inferiores, gerando os sentimentos da humilhação. A humilhação do homem perante o homem é imoral.
Eduquemos e cultivemos a consciência humana, acordemo-la quando estiver adormecida, demos a cada um a consciência completa de todos os seus direitos e de todos os seus deveres, da sua dignidade, da sua liberdade. Sejamos homens livres, dentro do mais belo e nobre conceito de liberdade - o reconhecimento a todos do direito ao completo e amplo desenvolvimento das suas capacidades intelectuais, artísticas e materiais.
Assim, cultura e liberdade identificam-se - sem cultura não pode haver liberdade, sem liberdade não pode haver cultura. (...)»
Bento de Jesus Caraça (1931). As universidades populares e a cultura. In A cultura integral do indivíduo. Conferências e outros escritos. Gradiva, 2008.

___________

Adenda

Conferências e outros escritos de Bento de Jesus Caraça foram recentemente reeditados, agora pela Gradiva. Eu já tinha uma edição anterior da editora Campo de Letras, mas adquiri esta pois contém mais alguns textos. Assim, mais uma vez mergulho no pensamento desse Homem que é para mim uma referência intelectual e moral muito especial - aliás, uma grande referência no nosso património cultural.
Agradeço ao Henrique ter-me avisado desta reedição.


domingo, junho 01, 2008

quinta-feira, maio 29, 2008

Os dois remos

Um viajante caminhava pelas margens de um grande lago de águas cristalinas e imaginava uma forma de chegar até o outro lado, onde era seu destino.
Suspirou profundamente enquanto tentava fixar o olhar no horizonte. A voz de um homem de cabelos brancos quebrou o silêncio momentâneo, oferecendo-se para transportá-lo. Era um barqueiro.
O pequeno barco envelhecido, no qual a travessia seria realizada, era provido de dois remos de madeira de carvalho. O viajante olhou detidamente e percebeu o que pareciam ser letras em cada remo. Ao colocar os pés empoeirados dentro do barco, observou que eram mesmo duas palavras. Num dos remos estava entalhada a palavra acreditar e no outro agir.
Não podendo conter a curiosidade, perguntou a razão daqueles nomes originais dados aos remos. O barqueiro pegou o remo, no qual estava escrito acreditar, e remou com toda força. O barco, então, começou a dar voltas sem sair do lugar em que estava. Em seguida, pegou o remo em que estava escrito agir e remou com todo vigor. Novamente o barco girou em sentido oposto, sem ir adiante.
Finalmente, o velho barqueiro, segurando os dois remos, movimentou-os ao mesmo tempo e o barco, impulsionado por ambos os lados, navegou através das águas do lago, chegando calmamente à outra margem.
Então o barqueiro disse ao viajante:
- Para que o barco navegue seguro e alcance a meta pretendida, é preciso que utilizemos os dois remos ao mesmo tempo e com a mesma intensidade
.


www..., autor desconhecido