segunda-feira, janeiro 26, 2009

Nestes dias de inverno... dois poemas de Bashô







Doente de viagem,
meus sonhos vagueiam
pelo campo seco.




Intempérie -
infiltra-se o vento
até na minha alma











Toyo Sesshu

sábado, janeiro 24, 2009

Quando a desconfiança sufoca a esperança...

Não sou economista, portanto não tenho competência para avaliar correctamente a adequação de certas medidas com que o Governo se propõe enfrentar e vencer a actual crise (bem como de certas propostas que as oposições contrapõem). Não é difícil discernir diferentes opções ideológicas, mas já bem difícil é, para o cidadão comum, ajuizar sobre determinadas medidas concretas do domínio da economia, tomadas ou preconizadas em nome dos superiores interesses nacionais face à mesma crise. Por isso, seria importante poder ter confiança não só no saber e na competência daqueles que decidem (ou se candidatam a decidir), como também na sua vontade de sobrepor às lutas pelo poder os interesses, o progresso e o bem-estar dos portugueses. O problema é que essa confiança não se sente, e até me parece que, estando-se numa crise internacional, Portugal tem a infelicidade acrescida de tal acontecer em ano de eleições.
Ouço discursos gritados (tenho a sensação de que o 1º Ministro José Sócrates só fala a gritar, não sei se por pensar que as audiências são surdas, se por problema próprio de surdez); vejo obsessiva propaganda de sucessos conseguidos, muitos dos quais mais não são do que sucessos balofos; ouço e vejo também certas oposições que igualmente se movem demagogicamente rumo às eleições; sinto, enfim, a desconfiança a sufocar a esperança - essa esperança em que persisto a longo prazo, mas que não é cega perante as realidades que se perspectivam a curto e mesmo a médio prazo.
Eu até já nem sonho com alternativas em que me reveja ideologicamente, já me fico pela pergunta: onde estão (se é que estão nalgum lado) homens (e mulheres), sejam de que quadrantes forem, capazes de, com saber, visão estratégica, transparência e humanismo, governar este nosso país merecendo ganhar as eleições seguintes, e não governar para as ganhar.

Mas isto são conversas minhas com os meus botões em dias em que ouço e leio notícias, das mais variadas, sobre jogos de poder - também de poderzinhos a todos os níveis.
______
Adenda
No Público de hoje vem um artigo de Manuel Alegre cujo começo vem a propósito: «A moção de José Sócrates ignora a descrença e insegurança de grande parte do eleitorado».
Não estou a fazer "campanha" por Manuel Alegre, apenas me apeteceu deixar aqui três destaques (podendo ler-se todo o artigo aqui, já que só é acessível online a assinantes)
- « Não há uma análise da importância da cultura, da língua e da história para um novo modelo de desenvolvimento de Portugal. As questões geo-estratégicas também são omissas. Não se fala de paz nem de guerra, nem das desigualdades no mundo.»
- «Na parte da moção intitulada "A acção do PS", fala-se sobretudo da acção do Governo. E transmite-se a ideia de um partido contente consigo mesmo. Enunciam-se as reformas realizadas. Se algumas delas correspondem de facto a um avanço na sociedade portuguesa (...), outras, em meu entender, representam um retrocesso (...)»
- « Falta uma ruptura com a cultura do poder pelo poder, que leva ao afunilamento do Partido Socialista e à ausência de debate.»

quinta-feira, janeiro 22, 2009

O vendedor de cachorros-quentes e a crise

Um homem vivia na beira da estrada e vendia cachorros-quentes. Não tinha rádio e, por deficiência de visão, não podia ler jornais. Em compensação, vendia bons cachorros-quentes.
Colocou um cartaz na beira da estrada, anunciando a mercadoria, e ficou por ali gritando quando alguém passava: "Olha o cachorro-quente especial!!!"
E as pessoas compravam. Com isso, aumentou os pedidos de pão e salsicha, e acabou construindo uma mercearia. Então, ao telefonar para o filho que morava em outra cidade e contar as novidades, o filho disse:
- "Pai, o senhor não tem ouvido rádio? Não tem lido jornais? Há uma crise muito séria e a situação internacional é perigosíssima!"
Diante disso, o pai pensou:
- "Meu filho estuda na universidade! Ouve rádio e lê jornais... portanto, deve saber o que está dizendo!"
Então, reduziu os pedidos de pão e salsichas, tirou o cartaz da beira da estrada, e não ficou por ali apregoando os seus cachorros-quentes. As vendas caíram do dia para a noite e ele disse ao filho:
- "Você tinha razão, meu filho, a crise é muito séria!"

Autor desconhecido

quarta-feira, janeiro 21, 2009

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Mercantilização da Educação - um futuro que não é inevitável

[Eu já devia saber que, sempre que ponho o cantinho em pausa, logo me deparo com alguma coisa que me impele a vir cá. Pronto, vou deixar de anunciar pausa, até porque posso fazê-la por um mês (ou por um ano!) sem precisar de a anunciar]

De um artigo de Nico Hirtt de 2001, intitulado Les trois axes de la marchandisation scolaire, guardo aqui as conclusões finais (na tradução para espanhol, sendo os destaques meus).
2001? Desactualizado? Hum... sabemos que Portugal costuma andar atrasado...

La adecuación de la enseñanza a las nuevas expectativas de las potencias industriales y financieras tiene dos consecuencias dramáticas: la instrumentalización de la Escuela al servicio de la competencia económica y la agravamiento de las desigualdades sociales en el acceso a los saberes. La Escuela se había masificado permitiendo a los hijos del pueblo acceder parcialmente, tímidamente – a la riqueza de saberes reservados hasta ese momento a los hijos e hijas de la burguesía. Ahora que la masificación ha llegado a su término, se conmina a la enseñanza para que vuelva a situar la instrucción del pueblo dentro de los límites que nunca debió franquear: aprender a producir, a consumir y, de forma complementaria, a respetar las instituciones existentes. Ni más, ni menos.
La evolución actual de los sistemas de enseñanza se realiza en detrimento del acceso a los saberes a ya los saber-hacer que permiten comprender el mundo, que permiten también por lo tanto intervenir en él. Precisamente, es a los más explotados a quienes se priva así de armas intelectuales que necesitarían para luchar por su emancipación colectiva.
Esta escuela de la producción será, todavía más que hoy, una instancia de reproducción social. En el nombre – colmo de la hipocresía- de la lucha contra el fracaso, se selecciona y se baja el nivel de las exigencias para unos (aquellos que formarán la masa de mano de obra poco cualificada requerida por la “nueva” economía) al mismo tiempo que se incita a otros a buscar en los “proveedores de educación más innovadores” los saberes que harán de ellos las puntas de lanza de la competencia internacional: La desreglamentación de los programas y de las estructuras, la explosión de formas diversas de la enseñanza de pago, todo ello constituye el terreno abonado en el que las desigualdades de clase se transformarán, con mayor eficacia que hoy, en desigualdades de acceso a los saberes.
En cuanto a la escuela pública, ésta únicamente tendrá, según la propia confesión de la OCDE que “asegurar el acceso al aprendizaje de aquellos que nunca constituirán un mercado rentable y cuya exclusión de la sociedad en general se acentuará a medida que otros van a continuar progresando”
¿Todo esto es inevitable? Las determinaciones económicas que trabajan en este campo tienen aspecto de apisonadora, pero la marcha de la historia no es lineal. La destrucción de la Escuela pública y de sus aspiraciones democráticas, el empobrecimiento del contenido de la enseñanza obligatoria, las condiciones de trabajo cada vez más penosas, la precarización del estatus del profesorado, todo eso acaba por suscitar reacciones, resistencias, luchas.
La oposición a la mercantilización se desarrolla con la misma férrea necesidad de hierro que la propia mercantilización. También en esto, el capitalismo en marcha se hunde en las contradicciones e inevitablemente “cava su propia fosa”.
Los pensadores de la OCDE son bien conscientes de ello” la reforma a menudo más necesaria, y la más peligrosa, es la de las empresas públicas, ya se trate de reorganizarlas o de privatizarlas. Esta reforma es muy difícil porque los asalariados de este sector están a menudo bien organizados y controlan ámbitos estratégicos. Van a luchar con todos los medios posibles (...) Sin que el gobierno esté sostenido por la opinión pública(...) Cuanto más ha desarrollado un país un amplio sector público, más difícil será llevar a cabo esta reforma”.
El futuro de la enseñanza está aún por escribir. Será el fruto de esas fuerzas contrarias, de su enfrentamiento.
Las formas y lugares de la resistencia son múltiples: Hay que luchar contra las multinacionales y las organizaciones internacionales que impulsan la evolución mercantil de la escuela, contra los gobiernos que aseguran las condiciones para desarrollar esa mercantilización, contra ciertos poderes organizadores, inspecciones, direcciones, muy a menudo cómplices o celosos ejecutores. Hay que luchar contra enseñantes que dejan hacer, contra padres que siguen el discurso patronal creyendo asegurar así un futuro para sus hijos, contra alumnos a veces demasiado contentos con menores exigencias. Hay que luchar contra uno mismo, en fin, pues nadie está a salvo de la desmoralización, del repliegue corporativista o de los efectos lenificantes de la intoxicación ideológica ambiente.
Cada uno entra en la resistencia por vías que le son propias. El que milita desde hace tiempo defiende la Escuela pública contra los asaltos de la OMC y del Banco Mundial porque tiene una conciencia profundamente enraizada de la importancia del servicio público. El profesor de universidad se inquieta por las amenazas que pesan sobre la libertad académica. El investigador teme al ver la supervivencia de sus trabajos sometida a su rentabilidad económica. El profesor de prácticas en la enseñanza profesional se siente expoliado de su experiencia y de su misión en beneficio de formadores venidos del mundo de la empresa. Los enseñantes de los cursos generales se exasperan por el bajo nivel de sus alumnos. Los maestros intentan oponerse a la utilización de clases “patrocinadas” por las marcas. Una de las claves mayores hoy es la de unificar esas luchas. Hay que hacer comprender a los universitarios a los profesores de secundaria, a los maestros que su rabia debe fundirse en una resistencia común.
Hay que unir de nuevo a quienes participan en MRPs, que ven su trabajo innovador pervertido en nombre de una racionalidad de beneficio, y al sindicalista de la enseñanza, para quien la desregulación hace temer, con razón, el abandono de la escuela pública. Esto implicará sin duda que unos abandonen un cierto dogmatismo pedagógico; que los otros abran los ojos sobre lo que fue en realidad “la escuela republicana” Que unos y otros acepten que, si la escuela pública no puede ser salvada sin ser renovada, tampoco puede ser renovada sin que se dé al profesorado y al alumnado el tiempo y las condiciones necesarias.
Nico Hirtt, mayo 2001

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Adenda (19-01-2009)

Recebido da Fátima André. Muito obrigada, Fátima, pelo miminho.

As regras, para quem o receber são:
1. exibir a imagem do selo.
2. linkar o blogue pelo qual você recebeu a nomeação.
3. escolher seis mulheres a quem entregar o "BLOGUE DE OURO".
4. deixar um comentário nesses blogues, para saberem que receberam o prémio.

Porque estas escolhas são difíceis - se escolho seis, fico a pensar noutras, e também a pensar que excluo devido ao meu conhecimento limitado da blogosfera -, fico por uma única escolha porque é um grande exemplo de professora-educadora. E como a regra é ir dar a conhecer a distinção em comentário no próprio blogue designado, lá vou já...

terça-feira, janeiro 13, 2009

Mas na pausa deixo a canção...

(Canção velha, estafada de ser ouvida, mas precisamos de não desistir de imaginar, pois sem imaginar não há sonhos, e é preciso que o homem sonhe...)

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one


domingo, janeiro 11, 2009

Uma confusão (que começa a aumentar a minha necessidade de pausa)


Eu vejo por aí muitos sítios límpidos, claros, nada confusos. Mas também me vou deparando com este ou aquele ambiente a descambar para uma confusão. Trata-se da confusão entre ataque político e ataque/insulto pessoal.


É verdade que no ataque político talvez todos, por vezes, nos excedamos em adjectivações, mas há uma grande diferença entre acusações e adjectivações sobre acções e reacções políticas, e acusações e adjectivações pessoais, estas chegando até a juízos e suspeições injuriosos sobre pessoas desconhecidas cujas posições e razões nem sequer alguma vez foram ouvidas.

E, assinalada esta confusão como indesejável, cá regresso eu à minha pausa.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Regresso à pausa

...

Os ciscos na minha vista dos três últimos anos na Educação

a) No que respeita à Ministra da Educação

b) No que respeita à reacção de boa parte dos professores


a)

- Petulância

MLR considerou que a sua pessoa conseguiria fazer as reformas que todos os anteriores ministros da educação juntos não conseguiram fazer. Pior ainda, prescindindo de aconselhamento de personalidades prestigiadas do nosso país, de estudiosos da investigação em educação e dos sucessos e insucessos de experiências noutros países, e prescindindo também de qualquer estudo avaliador das nossas experiências.

- Precipitação

Foi uma correria de medidas legislativas de fundo, na pressa de cumprir os seus desígnios no tempo de um mandato eleitoral. Num governo embriagado pelo poder de maioria absoluta, não se viu qualquer preocupação em obter primeiro um consenso mínimo nacional - preocupação que houve quando tivemos a nossa Lei de Bases do Sistema Educativo. Pior ainda, desconsiderou e desprezou aqueles que aplicariam as reformas - os próprios professores.
Cito Reijo Laukkannen (perito e conselheiro do Ministério da Educação da Finlândia), embora não devesse ser preciso citar ninguém para ver o que se mete pelos olhos dentro: "É crucial compreender que em educação não é possível reformar de um momento para o outro. Leva tempo, muita paciência e coerência. (...) Temos vindo a trabalhar nisto desde finais dos anos 60 e desde o início tomamos a direcção que hoje seguimos. Um rumo que mantivemos apesar da mudança de sucessivos governos".

- Ignorância

MLR mostrou grande desconhecimento das realidades das escolas e dos principais problemas que estas enfrentam. Nomeadamente, ignorou um dos maiores problemas desde a década de 90 do anterior século - o problema da indisciplina -, agravando-o até pelo desrespeito pelos professores que instilou e permitiu que outros instilassem no público em geral.

- Mentira

Em nome da defesa da Escola Pública e da qualidade da Educação para todos, não só tomou medidas cujos reais objectivos eram meramente economicistas, como quis a todo o custo apresentar resultados estatísticos de progressos de duvidosa credibilidade, escamoteando a qualidade sob a demagogia de números que muito ocultam. Também nas simplificações do seu teimoso e prepotente modelo da ADD, continua a mentir ao país sobre o que chama uma verdadeira e feita pela primeira vez avaliação dos professores, apesar de a ter tornado afinal mera avaliação administrativa que poderá atribuir um Bom a todos os que prescindam de concorrer a mais elevada classificação, sem que o principal, que é a actividade docente com as suas componentes científica e pedagógica, seja avaliado.

- Falta de sentido do interesse nacional

Perante o caos em que lançou as escolas e a profunda desmotivação que causou nos professores, MLR não teve a humildade e o sentido de necessidade de pedir a sua demissão quando esta se impunha a tempo de não deixar o governo de Sócrates entalado.

b) (Saliento que me refiro a boa parte dos professores, não a todos de modo nenhum)

- Falta de hábito e de diligência de/na análise e estudo da legislação que lhes diz respeito

Boa parte dos professores mantém um conhecimento muito superficial, por vezes vago mesmo, sobre a legislação que lhes diz respeito directa ou indirectamente, desde as fases de ante-projectos até ao momento que lhes caia mesmo sobre a cabeça.

- Conformismo (até a ADD lhes ter caído sobre a cabeça)

Desde o início da acção de MLR até ao momento em que o seu modelo de ADD claramente se revelou inexequível e injusto, tudo foi cumprido zelosamente (por vezes com excesso de zelo, numa atitude 'mais papista que o Papa'), apesar de muitas lamentações pelos cantos das salas de professores - lamentações que, na altura, não significaram disposição para a luta nem consciência de que muito poder estava (poderia estar) nas mãos dos docentes.

- Criticismo

Culpabilização dos sindicatos, como se estes fossem apenas as suas direcções e não o conjunto de todos os associados - como se não fossem necessárias a participação nas decisões e a iniciativa das escolas e dos seus conselhos pedagógicos nas questões directamente ligadas à Educação.

- Acordar tardio

Foi preciso o caos da ADD para que boa parte dos professores se desse conta da gravidade de disposições do ECD.

- Outras desatenções

Relevo a desatenção à gravidade do novo Modelo de Gestão e do Novo Modelo de Formação para a Docência (a este último talvez por não tocar directamente os que já estão na docência, apesar de todos proclamarem que se preocupam com o futuro da Educação)
___
P.S.:
Não sei para que interrompi a minha pausa. Não foi para fazer um balanço, pois num balanço não entram só as coisas negativas, por muito negativo que seja o saldo. Acho que foi só mesmo para fazer uma síntese dos principais "ciscos" que andaram nos meus olhos nestes três anos. Não deixei de os ir referindo, mas precisei de os juntar assim num só post, a ver se os tiro da vista todos de uma vez para a aclarar com umas centelhas de esperança.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Pausa

Tenho a estranha sensação de me terem anulado as memórias de professora. Não sou dada a viver de memórias, gosto de ter os pés no presente, mas daí até anular o passado... isso não!
Posso varrê-las para um canto, talvez para um saco de lixo, mas guardo o saco para, quando voltar a dias mais disponíveis do que os que estou a ter, as meter num arquivo com o rótulo de 'coisas retrógradas', numa qualquer prateleira de antiguidades, todavia guardado e protergido.
Entretanto, espero vir a reabrir este cantinho, mesmo que só para... saldos ;)

domingo, dezembro 21, 2008

Feliz Natal e feliz 2009 para todos os amigos e colegas!

[Este ano o Pai Natal cá de casa vai ter que mudar um bocadinho o seu trajecto, não vai ser na minha árvore que deixará as prendas devido a problemas de saúde da minha mãe. Mas a situação está a melhorar, está a recompor-se, pelo que bisavó e bisnetos irão ter um Natal feliz (estou certa) e, assim, também nós - eu e família :) ]

(...)
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
(...)


Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


Carlos Drummond de Andrade






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Então é Natal...



quarta-feira, dezembro 17, 2008

Sinto falta de canções

(...)
Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Só tem medo desses muros
quem tem muros no pensar
todos sabemos do pássaro
cá dentro a qu´rer voar
se o pensamento for livre
todos vamos libertar

(...)


sábado, dezembro 13, 2008

A estrada morta (Momentos com os 'meus' escritores)

Assim começa um dos livros de Mia Couto...

A estrada morta
Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir.
Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. (...)
(*)

(Talvez tenha sido só o título que se cruzou com a minha memória de uma estrada que já não percorro mas que olho afigurando-se-me a soterrar. Oxalá seja perturbação da minha visão. Meus pensamentos andam a fugir-me para o lado triste da(s) realidade(s), o melhor é libertá-los para dar espaço ao optimismo, que anda um tanto apertadinho, e a uma visão para além do 'hoje')
________
(*) Mia Couto (1992). Terra Sonâmbula. Editorial Caminho

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Canção nostálgica

(Nostalgia?! Talvez porque sinto o tempo parado, um tempo de aguardar a reconstrução da esperança... Ontem foi o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos... a esperança está cansada... Mas o cansaço é só um momento... pronto... já passa)

Adiós, ríos; adiós, fontes;
adiós, regatos pequeños;
adiós, vista d'os meus ollos,
non sei cándo nos veremos.

Miña terra, miña terra,
terra donde m'eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei.

Prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento,
paxariños piadores,
casiñas d'o meu contento.

Muiño d'os castañares,
noites craras d'o luar,
campaniñas timbradoiras
d'a igrexiña d'o lugar.

Amoriñas d'as silveiras
que eu lle daba ô meu amor,
camiñiños antr'o millo,
¡adiós para sempr'adiós!

¡Adiós, gloria! ¡Adiós, contento!
¡Deixo a casa onde nascín,
deixo a aldea que conoço,
por un mundo que non vin!

Deixo amigos por extraños,
deixo a veiga pol-o mar;
deixo, en fin, canto ben quero...
¡quén puidera non deixar!

Adiós, adiós, que me vou,
herbiñas d'o camposanto,
donde meu pai se enterrou,
herbiñas que biquei tanto,
terriña que nos criou.

Xa s'oyen lonxe, moi lonxe,
as campanas d'o pomar;
para min, ¡ai!, coitadiño,
nunca máis han de tocar.

Xa s'oyen lonxe, máis lonxe...
Cada balad'é un delor;
voume soyo, sin arrimo...
miña terra, ¡adiós!, ¡adiós!

¡Adiós tamén, queridiña...
Adiós por sempre quizáis!...
Dígoche este adiós chorando
desd'a veiriña d'o mar.

Non m'olvides, queridiña,
si morro de soidás...
tantas légoas mar adentro...
¡Miña casiña!, ¡mue lar!

Rosalía de Castro (Cantares Galegos)





quarta-feira, dezembro 10, 2008

Uma Declaração Universal por cumprir

Nos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, não é possível lembrá-la sem olhar imagens do seu incumprimento e recordar tantas outras que o vídeo não mostra. Resta-nos a canção?

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Sobre convicções

«(...)
Convicções são entidades mais perigosas que os demônios. E o problema é que não há exorcismo capaz de expulsá-las da cabeça onde se alojaram, pela simples razão de que elas se apresentam como dádivas dos deuses. Os recém-convertidos estão sempre convictos de que, finalmente, contemplaram a verdade. Daí a transformação por que passam: seus ouvidos, órgãos de audição, se atrofiam, enquanto as bocas, órgãos da fala, se agigantam. Quem está convicto da verdade não precisa escutar. Por que escutar? Somente prestam atenção nas opiniões dos outros, diferentes da própria, aqueles que não estão convictos de ser possuidores da verdade. Quem não está convicto está pronto a escutar - é um permanente aprendiz.
(...)
Dizia Nietzsche que "as convicções são piores inimigos da verdade que as mentiras". Estranho isso? Não. Absolutamente certo. Porque quem mente sabe que está mentindo, sabe que aquilo que está dizendo é um engano. Mas quem está convicto não se dá conta da própria bobeira. O convicto sempre pensa que sua bobeira é sabedoria.
As inquisições se fazem com pessoas convictas. (...)
Mas os demônios das convicções têm atributos dos deuses: são omnipresentes. Escorregam da religião. Emigram para a política. (...)
Nenhuma instituição está livre dos demônios das convicções. Nem mesmo a ciência.
(...)»
Rubem Alves
(In: O que é científico? Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2007, pp 45-47)

sábado, novembro 29, 2008

Aproxima-se a hora de avaliar coerência

E a coerência tem que ser avaliada, e a opinião pública tem direito a poder avaliá-la no próximo dia 3.

Peço desculpa, este blogue está em pausa (e vai continuar), mas eu não ficaria bem comigo mesma se não fizesse mais esta breve interrupção.

terça-feira, novembro 25, 2008

Algumas das coisas que sempre agridem a minha cabeça

(Cabeça agredida não consegue ponderar com lucidez e isenção, por isso este blogue está em pausa - este post é apenas um breve desabafo e um pequeno parêntesis nessa pausa)

- Atitudes prepotentes
- Da falta de rigor até à verdadeira desonestidade intelectual
- Irresponsabilidade impune no lançamento precipitado e a toda a pressa eleitoralista de experiências reformistas, nomeadamente as que tornam as nossas crianças e jovens em cobaias (falta de responsabilidade e coragem políticas para procurar previamente consensos nacionais mínimos para o delineamento e o prosseguimento, no médio prazo necessário, de reformas em domínios cruciais como o da educação)
- Subversão de normas de funcionamento de um estado de direito, torneando-se leis fundamentais e alterando por simples despachos (ou menos) leis e decretos-lei, sem que haja ao menos um presidente da república que se mostre preocupado com isso
- Argumentos inconsistentes e contraditórios por parte de quem o futuro do país exige competência e ausência de trapalhadas remendonas
- Falta de profissionalismo jornalístico (Mais do que o servilismo - facilmente detectável pela opinião pública -, incomoda-me o estudo/conhecimento extremamente superficial da parte de jornalistas e comentadores)
- Exacerbação de grandes questões nacionais até à irracionalidade (da parte de sejam quais forem os intervenientes)
- Hipocrisia e oportunismos político-eleitorais

sexta-feira, novembro 21, 2008

Pausa (Estou a precisar de um tempo de silêncio)

EL SILENCIO

Me alejo del ruidoso mundo
refugiándome en el bosque del silencio,
huyéndole a molestos decibeles
que perturban mi agobiado pensamiento.

Descansando en la quieta soledad,
en mis reflexiones inmerso,
nuevas ideas estimulan mi intelecto
cual feliz renacimiento.

Me embarga una intensa calma
que invade mi interno fuero,
refresca su sed mi deshidratada mente
bebiendo del manantial del sosiego.

Embriágame el perfume de las flores
que me llega cabalgando sobre el viento,
oigo el conversar de sus olores,
como dulce susurro de barlovento.

Percibo los nostálgicos recuerdos
que vienen de muy lejos,
lejanía que refleja una distancia,
distancia que se alarga con el tiempo.

Inapreciable compañía es el silencio
con su mudo acento,
cuando se retiran nuestros tímpanos
a un merecido asueto.

Silencio que permite disfrutar
de un sordo momento,
en el que podemos soñar,
ya dormidos, ya despiertos.

En esta dimensión sin ruidos
donde rige el silencio,
descanso mi mente,
descanso mi cuerpo.

Cástulo Gregorisch

quinta-feira, novembro 20, 2008

Encontro sempre em Eugénio de Andrade poemas que me falem, poemas de que preciso...

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

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Onde me levas, rio que eu cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas? Que me custa tanto!

Não quero que conduzas ao silêncio
de uma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos e com espasmos.

Canção vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca
Há outra face na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.