Canta, poeta canta!/Violenta o silêncio conformado/Cega com outra luz a luz do dia/Desassossega o sossegado/Ensina a cada alma a sua rebeldia - Miguel Torga
[Este ano o Pai Natal cá de casa vai ter que mudar um bocadinho o seu trajecto, não vai ser na minha árvore que deixará as prendas devido a problemas de saúde da minha mãe. Mas a situação está a melhorar, está a recompor-se, pelo que bisavó e bisnetos irão ter um Natal feliz (estou certa) e, assim, também nós - eu e família :) ]
(...)
Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças.
(...)
Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça, todas as mães se reconheçam, e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua que passa em muitos países. Se não me vêem, eu vejo e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo como quem ama ou sorri. No jeito mais natural dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas formam um só diamante. Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças. Carlos Drummond de Andrade
(...) Eh! Companheiro resposta resposta te quero dar Só tem medo desses muros quem tem muros no pensar todos sabemos do pássaro cá dentro a qu´rer voar se o pensamento for livre todos vamos libertar (...)
Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir. Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. (...)(*)
(Talvez tenha sido só o título que se cruzou com a minha memória de uma estrada que já não percorro mas que olho afigurando-se-me a soterrar. Oxalá seja perturbação da minha visão. Meus pensamentos andam a fugir-me para o lado triste da(s) realidade(s), o melhor é libertá-los para dar espaço ao optimismo, que anda um tanto apertadinho, e a uma visão para além do 'hoje')
________ (*) Mia Couto (1992). Terra Sonâmbula. Editorial Caminho
(Nostalgia?! Talvez porque sinto o tempo parado, um tempo de aguardar a reconstrução da esperança... Ontem foi o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos... a esperança está cansada... Mas o cansaço é só um momento... pronto... já passa)
Adiós, ríos; adiós, fontes; adiós, regatos pequeños; adiós, vista d'os meus ollos, non sei cándo nos veremos.
Miña terra, miña terra, terra donde m'eu criei, hortiña que quero tanto, figueiriñas que prantei.
Prados, ríos, arboredas, pinares que move o vento, paxariños piadores, casiñas d'o meu contento.
Muiño d'os castañares, noites craras d'o luar, campaniñas timbradoiras d'a igrexiña d'o lugar.
Amoriñas d'as silveiras que eu lle daba ô meu amor, camiñiños antr'o millo, ¡adiós para sempr'adiós!
¡Adiós, gloria! ¡Adiós, contento! ¡Deixo a casa onde nascín, deixo a aldea que conoço, por un mundo que non vin!
Deixo amigos por extraños, deixo a veiga pol-o mar; deixo, en fin, canto ben quero... ¡quén puidera non deixar!
Adiós, adiós, que me vou, herbiñas d'o camposanto, donde meu pai se enterrou, herbiñas que biquei tanto, terriña que nos criou.
Xa s'oyen lonxe, moi lonxe, as campanas d'o pomar; para min, ¡ai!, coitadiño, nunca máis han de tocar.
Xa s'oyen lonxe, máis lonxe... Cada balad'é un delor; voume soyo, sin arrimo... miña terra, ¡adiós!, ¡adiós!
¡Adiós tamén, queridiña... Adiós por sempre quizáis!... Dígoche este adiós chorando desd'a veiriña d'o mar.
Non m'olvides, queridiña, si morro de soidás... tantas légoas mar adentro... ¡Miña casiña!, ¡mue lar!
Nos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, não é possível lembrá-la sem olhar imagens do seu incumprimento e recordar tantas outras que o vídeo não mostra. Resta-nos a canção?
Convicções são entidades mais perigosas que os demônios. E o problema é que não há exorcismo capaz de expulsá-las da cabeça onde se alojaram, pela simples razão de que elas se apresentam como dádivas dos deuses. Os recém-convertidos estão sempre convictos de que, finalmente, contemplaram a verdade. Daí a transformação por que passam: seus ouvidos, órgãos de audição, se atrofiam, enquanto as bocas, órgãos da fala, se agigantam. Quem está convicto da verdade não precisa escutar. Por que escutar? Somente prestam atenção nas opiniões dos outros, diferentes da própria, aqueles que não estão convictos de ser possuidores da verdade. Quem não está convicto está pronto a escutar - é um permanente aprendiz.
(...)
Dizia Nietzsche que "as convicções são piores inimigos da verdade que as mentiras". Estranho isso? Não. Absolutamente certo. Porque quem mente sabe que está mentindo, sabe que aquilo que está dizendo é um engano. Mas quem está convicto não se dá conta da própria bobeira. O convicto sempre pensa que sua bobeira é sabedoria.
As inquisições se fazem com pessoas convictas. (...)
Mas os demônios das convicções têm atributos dos deuses: são omnipresentes. Escorregam da religião. Emigram para a política. (...)
Nenhuma instituição está livre dos demônios das convicções. Nem mesmo a ciência.
(...)»
Rubem Alves
(In: O que é científico? Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2007, pp 45-47)
(Cabeça agredida não consegue ponderar com lucidez e isenção, por isso este blogue está em pausa - este post é apenas um breve desabafo e um pequeno parêntesis nessa pausa)
- Atitudes prepotentes - Da falta de rigor até à verdadeira desonestidade intelectual - Irresponsabilidade impune no lançamento precipitado e a toda a pressa eleitoralista de experiências reformistas, nomeadamente as que tornam as nossas crianças e jovens em cobaias (falta de responsabilidade e coragem políticas para procurar previamente consensos nacionais mínimos para o delineamento e o prosseguimento, no médio prazo necessário, de reformas em domínios cruciais como o da educação) - Subversão de normas de funcionamento de um estado de direito, torneando-se leis fundamentais e alterando por simples despachos (ou menos) leis e decretos-lei, sem que haja ao menos um presidente da república que se mostre preocupado com isso - Argumentos inconsistentes e contraditórios por parte de quem o futuro do país exige competência e ausência de trapalhadas remendonas - Falta de profissionalismo jornalístico (Mais do que o servilismo - facilmente detectável pela opinião pública -, incomoda-me o estudo/conhecimento extremamente superficial da parte de jornalistas e comentadores) - Exacerbação de grandes questões nacionais até à irracionalidade (da parte de sejam quais forem os intervenientes) - Hipocrisia e oportunismos político-eleitorais
Não, não vou em viagem turística. Vou só, desta vez em corpo, lá onde meu pensamento está sempre a ir, transportando o infinito amor de mãe, esse amor que vela sem distâncias em constante prece à vida.
Escassos seis dias? Ora... que é afinal isso a que se chama tempo?
E não deixarei de aranjar uns instantes para seguir as notícas... só as da Educação, não vá perder alguma 'bombástica'... basta clicar uma vez por dia para um só blog onde tudo se sabe em cima do momento ;)
Jornalistas e comentadores não são analfabetos, mas não sei para que lhes serve saberem ler se nunca (ou raramente) estudam a matéria de que falam. E assim se vai insinuando ao país que os professores (ou pelo menos 80% deles) andam a fazer tão grande alarido por causa do preenchimento de duas fichazitas.
Mas já que só referem avaliação, avaliação, e até concluíram que se trata apenas de umas fichas a preencher, pois a Senhora Ministra assim o disse, ao menos podiam ir averiguar que perversidades têm as tais fichas. Ao menos, ao menos podiam reparar nalguma dessas perversidades, numa, numazinha só, por exemplo naquela que faz pesar na avaliação do professor as tachas de insucesso e de abandono escolar.
E sobre a burocracia de que se queixam os professores, ninguém informa a opinião pública sobre a papelada que já os estava a atolar antes das grelhas da avaliação. E voltando ao modelo de avaliação, jornalistas e comentadores (salvo raríssimas excepções) ignoram ou acham de somenos importância os critérios com que os avaliadores chegaram à categoria que lhes permite assumir tal função, bem como isso de um professor de uma disciplina ir avaliar um colega de outra área científica, isto para não falar de delegação de competências a efectuar agora para deixar de ser ilegal daqui a dois ou três meses; também ignoram ou acham de somenos importância qualquer confusão entre autonomia e arbitrariedade de escola para escola - confusão que começa a arrepiar-me, confesso.
Bem... já que o tema que anda nos ouvidos de todos é o modelo de avaliação do desempenho dos professores, não vou pedir (por agora) aos senhores jornalistas e comentadores que estudem outras preocupações relacionadas com a escola pública. Mas confesso que tenho uma vozinha dentro de mim a perguntar-me baixinho se Maria de Lurdes Rodrigues se manteria ainda tão intolerante e teimosa caso aquela figura de Director da escola não andasse já a tomar forma e a fazer os seus estragos numas tantas cabeças.
Já passou o dia 8, mas a minha hora de deitar ainda me mantém nele. E, como vivo em Lisboa, a partir das 20h já pude estar em casa a ouvir noticiários. Ouvi o da TV1 das 20h e, depois, fui ouvindo os da SIC Notícias até quase à meia-noite. Assim, começo por referir as declarações de MLR que ouvi nesse período de tempo, especialmente as primeiras porque nelas fez duas afirmações que me deixaram atónita. (Não anotei as palavras exactas, mas memorizei bem o que disse)
Uma: Que o modelo de avaliação foi negociado em cerca de "100 reuniões" e que foi o resultado do acordo negocial. Acordo??!! (Pergunto e exclamo eu). Note-se que se trata do decreto da avaliação - Decreto Regulamentar n.º 2/2008 -, não do posterior 'Memorando de Entendimento', nem este caucionou o modelo.
Outra: Que o modelo de avaliação veio a ser validado pelo Conselho Científico, orgão independente. Validado??!! (pergunto e exclamo eu de novo). Bastaria MLR ter lido a introdução à Recomendação n.º 2/CCAP/2008 para não poder fazer aquela afirmação.
Não, não vou ofender MLR acusando-a de mentir. Pergunto apenas que confusões faz na sua cabeça.
Quanto a outras afirmações de MLR, também me fico por perguntar quem a informa e, pronto, sobre elas fico por aqui. Ah... já gora pergunto também se tem dos professores a ideia de que pelo menos mais de dois terços deles são mentecaptos manipulados por sindicatos.
Mas tudo o que disse acima até é o menos importante. Pois, neste momento, eu já nem me detenho no esforço de procurar isentamente compreender razões (maiores ou menores) de ambas as partes - governo e professores. Porque, mesmo que houvesse algumas razões 'teóricas' correctas nas intenções da Ministra e nem todo o descontentamento dos professores fosse justificado, um facto se sobrepõe a isso: a desmoralização e a desmotivação dos professores, incluindo tantos e tantos dos melhores que o país tem (ou tinha). E só isso deveria preocupar todo o país. E só isso deveria preocupar os que governam a Educação e Ensino. E só isso deveria, se a política não fosse o que tristemente é, levar esses governantes a suspender (para rever) o que está a fazer tantos professores perderem o gosto e o entusiasmo pela sua profissão, pois nenhuma reforma ou medida educativa compensará essa perda, nenhuma reforma ou medida na Educação poderá substituir o imprescindível: estabilidade e bom 'clima' nas escolas, gosto pelo ensino e condições para dedicação aos alunos. Encontrem-se as medidas para elevar a qualidade de ensino dos professores que precisem de a melhorar e encontre-se um modelo de avaliação justo e credível, mas sem deixar de, simultaneamente, zelar para que não se perca o (muito) que se tem de bom.
O país precisa que os bons professores sejam acarinhados e respeitados, e que os menos bons sejam formados e estimulados, mas isto não se faz à força e sem respeito, muito menos por processos de competência e credibilidade duvidosas.
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Adenda
Para os meus (nossos) arquivos de memórias... (De M.N. Bravo. O YouTube é de facto precioso!)
Não vou escrever sobre ele. Cada um tem a sua cabeça para pensar.
Então...até sábado! ;) Lá estarei... Por um rápido regresso da tranquilidade e da confiança às escolas; pelos estímulos externos ao prazer de ensinar e educar, prazer que cegamente um ministério da educação tem vindo a cercear; pelo respeito pela profissão docente e pela sua dignificação; e, sobretudo, por uma escola pública democrática e de qualidade para todos.
Adenda(06-11-2008)
Novo e definitivo percurso da manif - aqui. Ponto de partida: Terreiro do Paço.
Essa "malha apertada" verifica-se na Finlândia, enquanto por cá também se verifica uma malha apertada para que as notas escolares melhorem em flecha nas estatísticas.
Dispenso-me de indicar as diferenças. Sugiro esse trabalho a Maria de Lurdes Rodrigues.
O comunicado conjunto da FENPROF e Movimentos de Professores já foi amplamente divulgado, no entanto não é totalmente claro quanto ao dia 8 de Novembro. Só fiquei completamente esclarecida com o pequeno texto que a FENPROF colocou no seu site, além do referido comunicado: