domingo, julho 06, 2008

Flores e calma numa tarde de sábado

Às vezes estou em casa a sonhar com ar puro, natureza, beleza, calma, e tudo isso se me afigura distante, como se tivesse que empreender uma caminhada longa no carrito para encontrar um lugar assim. No entanto, posso encontrar tal lugar, ainda que em miniatura, sem ter que vencer a preguiça de planear longa deslocação. E um lugar que, mesmo sendo, de certo modo, em miniatura, não deixa de ter todos aqueles ingredientes de que estou a ter necessidade.
Ontem o que fiz foi procurá-lo perto de casa - eu sabia que o tinha bem perto - para ir lavar o espírito e deixar-me invadir pela calma, a tranquilidade, a serenidade que tenho andado a precisar de beber todos os dias.
O jardim do Museu Nacional do Traje é um lugar assim, é um recanto onde se esquece o stress da cidade e o stress de coisas da vida.

(Fotos de péssima amadora, mas não vou cair em complexos por causa da minha pouca arte fotográfica!)






sábado, julho 05, 2008

;o) Avaliações (Opinião controversa, mas eu até concordo)

"Sempre deve haver avaliações. Um professor de piano que ouve um aluno seu interpretando uma peça está constantemente avaliando. Ele avalia para corrigir a performance, para que a performance fique melhor. Agora, avaliar para atribuir um número, nota, ao aluno, isso é estúpido."
Rubem Alves (Em entrevista aqui)

terça-feira, julho 01, 2008

Recordando uma canção

Há dias, como agora, em que preciso de me lembrar das flores, de falar delas, de acreditar nelas. Assim neste cantinho quieto, que não é só para pensar na Educação, é também um lugarzinho só meu.

Gosto muito desta canção. Tinha-a em vinil; depois vieram os cds, procurei-a, mas nunca encontrei nova gravação à venda. Até que, um dia, um amigo ma enviou em mp3 (eu ainda não conhecia o Emule e outros meios de obter músicas na net).
Já a deixei algures neste cantinho, mas agora, com o YouTube, (quase) tudo se encontra em vídeo.

É uma canção datada? Pois é, mas nunca há data para acreditar nas flores.
Como também nunca há data para dizer:

Quem sabe faz a hora não espera acontecer
Vem, vamos embora que esperar não é saber


Geraldo Vandré: Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores...


segunda-feira, junho 30, 2008

Apenas o prazer de ler

Acabo de ler o último livro de Mia Couto. É sempre uma delícia e um fascínio. Sempre que leio um livro de Mia Couto, acontece-me com frequência ir parando, não sei bem se a repetir, se só a contemplar as palavras. Como se o seu sentido fosse mágico, ou me hipnotizasse. Como aqui:

A casa só é nossa quando é maior que o mundo.

E há as palavras que (re)inventa e parecem imprescindíveis, insubstituíveis.
E há também, por vezes, como que um brincar com os ditos da nossa língua, fazendo deliciosamente sorrir. Como aqui:

Depois, calou-se pelos cotovelos.

Não é a primeira vez que aqui refiro uma obra de Mia Couto, que, nos últimos anos, se tornou um escritor enorme. Mas trago-o ao meu cantinho não para falar dele - não é preciso -; trago só uma emoção que a sua leitura me causa.

quinta-feira, junho 26, 2008

Momentos... (E uma pausa)

STASERA

Balaustrata di brezza

per appogiare stasera

la mia malincolia

Giuseppe Ungaretti (1916)


ESTA NOITE

Balaustrada de brisa
para amparar esta noite
minha melancolia.

Tradução de Henriqueta Lisboa


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Agradeço o poema à Amélia Pais

terça-feira, junho 24, 2008

Não resisto a comentar ao menos este item 3

Da prova de Matemática do 9º ano, 1ª chamada:

3. Numa sala de cinema, a primeira fila tem 23 cadeiras.
A segunda fila tem menos 3 cadeiras do que a primeira fila.
A terceira fila tem menos 3 cadeiras do que a segunda e assim, sucessivamente, até à última fila, que tem 8 cadeiras.
Quantas filas de cadeiras tem a sala de cinema?
Explica como chegaste à tua resposta.

(Cotação: 5 pontos)

Mal saiu do exame, o meu neto telefonou-me. Começou por dizer que a prova tinha sido fácil, acrescentando: "Até posso ter respostas erradas, mas não havia perguntas difíceis, eram todas fáceis". A seguir, assim logo mesmo pelo telefone, quis certificar-se sobre esse item 3 acima transcrito. Disse-me o enunciado e contou: "eu fiz vinte e três menos três e fui diminuindo três até chegar a oito e vi que eram seis filas. Pediam que explicasse como cheguei à resposta e então eu escrevi 23-3=20, 20-3 = 17, indiquei essas contas todas até chegar a 8. Pode ser assim? Pode ser só isto?" Um tanto incrédula sobre o enunciado, respondi-lhe que se era tal como tinha dito, estava certo, mas que depois precisava de o ler.

Faço este relato para mostrar que a perplexidade perante o item não foi só minha: até o aluno estranha que no seu exame de 9º ano apareça uma questão assim. (Ainda não tive oportunidade, mas hei-de pôr o problema à minha neta, que acabou agora o 1º Ciclo)

Para não especular sobre as intenções de quem elaborou a prova, limito-me a falar por mim: Se eu alguma vez pusesse tal questão num teste de 9º ano, das duas, uma: ou estava a considerar que tinha alunos talvez incapazes de raciocínios tão elementares, ou estava a querer oferecer um bónus de 5 pontos. E como nem uma coisa nem outra me passaria pela cabeça, fico agradecida a quem me sugira uma terceira e mais correcta razão para aquele item 3.

Nota:
O item 3 parece-me insólito, mas eu não repararia tanto nele numa outra prova em que não houvesse, como há nesta, outros itens claramente mais fáceis do que os correspondentes nas provas dos anos anteriores, incluindo mais alguns que poderiam ser propostos a alunos do 2º ciclo.
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Adenda (em 27-06-2008)
Como eu calculava, a minha neta de 10 anos, depois de perguntar se podia indicar as filas num papel, resolveu o problema e respondeu correctamente.

segunda-feira, junho 23, 2008

De regresso...



... e não é que encontrei uma prendinha do meu jardim na varanda?! Os primeiros gladíolos que consegui, depois de já ter desistido de experiências com bolbos! Terão ficado esquecidos na terra e resolveram não ficar desta vez por dar folhas estioladas, mas folhas floridas. :o)





Bem... isto é pretexto, em continuação do post anterior, para dizer que regressei, felizmente mais depressa e com mais rápida recuperação do que esperava, e para agradecer a todos os que me deixaram comentários ou me mandaram mensagens por mail ou por sms. Com um agradecimento muito especial à Madalena - ela sabe porquê. Aliás, aproveito para dizer que, se já tinha tido o prazer de conhecer pessoalmente cinco amigos da blogosfera (na manif dos 100 000), agora já conheço seis. E, apesar das circunstâncias, fiquei muito feliz com este acontecimento mais recente.

P.S.

O regresso foi a casa. Ao blogue, hoje foi só uma vinda breve, é provável que este cantinho vá continuar em intervalo. (Apesar da vontade que tenho de comentar a prova de Matemática do 9º ano - até o meu neto, que a fez, comentou -, mas... pronto, tenho que me conter, voltará a oportunidade quando saírem os resultados - suspeito que muito se irá falar sobre eles)

sábado, junho 14, 2008

Até logo! (E cuidem dos vossos jardins!)

Pausa para o dr. cirurgião me libertar de um percalço de há dez meses atrás. Mais uma operação delicada, mas trivial e sem nada de maligno.
Não é meu jeito trazer para aqui estas coisas de vida particular, mas em Setembro passado houve amigos que andaram preocupados com o meu desaparecimento da blogosfera e não resposta a emails, pelo que, como desta vez não é coisa imprevista e súbita, acho melhor dizer. Mas é coisa para ficar inteirinha e de boa saúde ;)

Entretanto, já que durante este tempo também criei e cuidei um jardim na minha varanda, deixo algumas das minhas flores a embelezar o cantinho. A jardineira é ainda muito inexperiente e as suas flores são vulgares, pois outras menos comuns esperam por melhor sucesso. Mas... ora! Todas as flores são bonitas!



_ Ó Isabel! Vais deixar aqui esses vasos simplórios?! Depois das flores tão lindas que alguns colegas teus mostram dos seus jardins?!
_ Mas estas são as minhas!!! E só não mostro mais vasos, porque começaste a troçar! Que coisa... era o que faltava uma pessoa não poder ter um jardim lá porque só tem uma varandinha num sétimo andar!!

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Adenda

«Menino, os jardins eram o lugar da minha maior felicidade. Dentro de casa os adultos estavam sempre a vigiar: "Não mexa aí, não faça isso, não faça aquilo...". O Paraíso foi perdido quando Adão e Eva começaram a vigiar-se. O inferno começa no olhar do outro que pede que eu preste contas. E como as crianças são seres paradisíacos, eu fugia para o jardim. Lá eu estava longe dos adultos. Eu podia ser eu mesmo. O jardim era o espaço da minha liberdade. (...) No pé de nêspera fiz um balanço. Já disse que balançar é o melhor remédio para a depressão. Quem balança torna-se criança de novo. Razão por que eu acho um crime que, nas praças públicas, só haja balancinhos para crianças pequenas. Há-de haver balanços grandes para os grandes! Já imaginaram o pai e a mãe, o avô e a avó, balançando? Riram? Absurdo? Entendo. Vocês estão velhos. Têm medo do ridículo. O seu sonho fundamental está enterrado debaixo do cimento. Eu já sou avô e me rejuvenesço balançando até tocar a ponta do pé na folha do caquizeiro onde o meu balanço está amarrado!"

Rubem Alves (2004). Gaiolas ou asas. Edições Asa, pp 71-72

Não posso, nem me atreveria a pôr um balouço na minha varanda. Mas RA anima-me a lembrar o que "está enterrado debaixo do cimento" para, quando voltar, ir recuperar um equivalente ao balouço das crianças. ;o)

sexta-feira, junho 13, 2008

Um poema de Eugénio de Andrade...

...querido poeta que partiu faz hoje três anos.

Onde me levas rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos e com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante;
que seja nessa face que me perca.


In Poesia em verso e em prosa, ed. Círculo de Leitores (1980)

Fernando Pessoa - Homenagem muito singela

Hoje comemora-se o nascimento de Fernando Pessoa. Faria 120 anos.
Não me atrevo a palavras de homenagem. Outros saberão lembrá-lo de uma forma que eu não sei.
Já era um dos meus poetas quando eu era adolescente - foi uma das minhas paixões de menina. Nesse tempo, foram três os meus poetas - três paixões. Uma foi efémera, mas as outras duas ficaram. Uma das que ficaram até hoje foi Fernando Pessoa.
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Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fatuo encerra.

Ninguem sabe que coisa quere.
Ninguem conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ancia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa (1928). In Mensagem. Edições Ática. (5ª ed.-1954)
(Respeitando a ortografia adoptada pelo poeta)

segunda-feira, junho 09, 2008

Conversas, livros de registos e coisas importantes

Não procurei o texto para vir escrever no blogue. Ao contrário, não tencionava vir escrever, mas o texto caiu-me sob os olhos, qual alerta oportuno.

«(...) No mesmo vagão viajavam também muitos professores a caminho das escolas onde trabalhavam. Iam juntos, alegres e falantes... Por anos escutei o que falavam. Falavam sempre sobre as escolas. Era ao redor delas que giravam os seus universos. Falavam sobre directores, colegas, salários, reuniões, relatórios, férias, programas, provas. Mas nunca, nunca mesmo, eu os ouvi falar sobre os seus alunos. (...)
Participei no juri que examinou uma tese de doutoramento cujo tema eram os livros em que, nas escolas, são registadas as reuniões de directores e professores. A candidata dera-se ao trabalho de examinar tais reuniões para saber sobre o que falavam directores e professores. As coisas registadas eram as coisas importantes que mereciam ser guardadas para a posteridade. Nos livros estavam registadas discussões sobre leis, portarias, relatórios, assuntos administrativos e burocráticos, eventos, festas. Mas não havia registos de coisas relativas aos alunos. Os alunos: aqueles para os quais as escolas foram criadas, para os quais directores e professores existem: ausentes. Não, não era bem assim: os alunos estavam presentes quando se constituíam em perturbações da ordem administrativa. Os alunos, meninos e meninas, alegres, brincalhões, curiosos, querendo aprender, alunos como companheiros dessa brincadeira que se chama ensinar e aprender, sobre tais alunos o silêncio era total. (...)»

Rubem Alves (2004). Gaiolas ou asas. Ediçõas Asa. pp 121-122

Nota:
As minhas memórias de conversas entre professores não vão, não vão mesmo, ao encontro do que Rubem Alves conta das que ouvia. Pelo contrário, lembro-me que, até há tempos não muito distantes, nos meus convívios em que houvesse professores depressa estes estavam a falar das aulas e dos alunos, partilhando entusiasmos e preocupações, fazendo até os não professores protestarem: "Pronto, lá estão a falar dos alunos, vocês não pensam noutra coisa?".
Mas, no momento presente, quando estou com professores, é, de facto, só de decretos, despachos, e cansaços (de aposentação também) que se fala...
E pergunto-me: As minhas constatações, respectivamente no passado e no presente, correspondem a meras circunstâncias pessoais? Será que não revelam sintomas gerais de involução?
De qualquer modo, parece-me inquestionável que é preciso parar e inverter o actual rumo para o atolamento dos professores em papelada e em reuniões por causa de papelada. Cá para mim, governantes que não vejam isso ou estão cegos, ou têm os olhos muito desviados daqueles por causa de quem e para quem existem as escolas.

sexta-feira, junho 06, 2008

Que condições, hoje, para trabalho colaborativo entre professores?

Um paper mostrado pelo JMA, intitulado “Collaborative Cultures”, fez-me pensar, mais uma vez, nas condições de hoje nas nossas escolas - condições e estímulos - para o trabalho colaborativo entre professores. Nesse paper refere-se, por exemplo: “Teachers engage in frequent, continuous, and increasingly concrete and precise talk about teaching practice.”
Lembrei-me de uma reportagem que li há tempos (perdi-a, já não está online) sobre os professores da Finlândia - país que tanto se aponta como modelo na Educação enquanto os nossos governantes em nada nele se inspiram -, reportagem na qual se dizia que os professores têm tempos semanais para trabalho colaborativo.
Lembrei-me ainda de uma mesa redonda publicada há poucos meses, não recordo se no jornal do SPGL, se no da FENPROF, em que Lurdes Silva (uma amiga minha ex-sindicalista que continua a dar alguma colaboração à FENPROF) pedia à Ministra da Educação "um simples papelinho", "só um simples papelinho" a determinar que fosse incluído nos horários, na componente não lectiva de estabelecimento, tempo para reuniões de trabalho colaborativo entre professores. E recordei então um pequeno episódio que relato mais abaixo e que tem a ver com as prioridades de MLR para essa componente dos horários.

Mas não preciso de ir a exemplos de outros países. Encontro nas minhas memórias muitas boas recordações de trabalho colaborativo que eu própria vivenciei. Trabalho colaborativo no meu grupo de disciplina; trabalho colaborativo na concretização de projectos extracurriculares; trabalho colaborativo de apoio a jovens colegas.
Recordo, como mero exemplo, o grupo da A., da C. e da M.J., todas professoras de Matemática de longa experiência e reconhecida competência, que, no entanto, me pediam (porque eu era coordenadora) que convocasse reuniões extraordinárias, embora informalmente, sem marcação de faltas (mas o grupo comparecia todo), para debatermos, trocar ideias, partilhar estratégias e procedimentos didácticos que se revelassem mais bem sucedidos face às dificuldades dos alunos, enfim, para unirmos o nosso empenho e entusiasmo nisto de ensinar.
Essas reuniões - tal como outras entre colegas de disciplinas diferentes, em que várias vezes participei - realizavam-se voluntariamente, por gosto e com gosto, pois muitos professores davam bem mais tempo a trabalho na escola do que aquele a que o seu horário obrigava antes da tal componente não lectiva que MLR estabeleceu com vista às actividades de substituição chamadas 'não lectivas' para não custarem ao Estado.

Mas, nas minhas memórias mais recentes, já encontro recordações diferentes, digamos que recordações não boas. Nas minhas memórias mais recentes, encontro reuniões de departamento sobrecarregadas de informações e de papelada, que terminavam com a pergunta: Quando teremos tempo para falar das aulas?
E, sobre trabalho colaborativo, a minha última recordação é reveladora dos critérios e das prioridades de Maria de Lurdes Rodrigues. Eu conto (foi no meu último ano de actividade docente - ainda a procissão dos decretos e despachos ia no adro):

Sabendo que iria ser introduzida, nos nossos horários, a componente não lectiva de estabelecimento, solicitei por escrito, ao meu presidente e em nome do pequeno grupo de Matemática do 3º Ciclo (éramos apenas três), que nos fosse atribuído um tempo semanal comum para reunião de trabalho. O pedido fundamentou-se na necessidade de reforço do trabalho nessa disciplina, necessidade que os resultados dos primeiros exames nacionais do 9º ano tinham trazido para as vozes do ME e da comunicação social. O pedido foi atendido, mas o meu presidente recomendou-nos muito que fizéssemos por que passasse despercebido na escola para que outros grupos não pedissem o mesmo – nomeadamente o de Português e o do 2º Ciclo de Matemática, mais numerosos e que teriam os mesmos argumentos. A preocupação do presidente residia no facto de que lhe seria impossível atender outros pedidos para tempo de trabalho colaborativo, por muito que o considerasse necessário, dada a obsessão da Ministra em que não houvesse nenhum aluno no recreio fora dos intervalos, pelo que a grande maioria dos tempos não lectivos tinha que ser destinada a ter sempre professores disponíveis (na maior parte das vezes desocupados na sala de professores) para eventuais substituições – e assim foi essencialmente “aproveitada” a componente não lectiva de estabelecimento, nesse primeiro ano em que as escolas nem tinham tido tempo para organizarem actividades de substituição.

O exemplo que acabei de dar é hoje insignificante face a tudo o que veio depois atolar os professores em papelada – e, também, gerar climas de competição em vez de colaboração. Muitos professores passaram a ter mais reuniões, mas não para se ocuparem dos alunos ou de algo que acreditem repercutir-se positivamente no trabalho com eles e para eles.
Que condições teria hoje para prolongar as boas recordações – que são muitas – de trabalho colaborativo entre professores visando os alunos, a real melhoria das suas aprendizagens e também as iniciativas extracurriculares que contribuem para a sua formação global?
Que condições e estímulos deu Maria de Lurdes Rodrigues?

P.S.
Eu não disse, nem as minhas memórias me dizem, que todos os professores tinham uma cultura de trabalho colaborativo, e talvez se estivesse longe dessa generalização. Mas, o certo é que minar o que de bom já exista nunca é caminho sensato para melhorar seja o que for.

terça-feira, junho 03, 2008

Um NÃO que poderia ter sido dito. Poderá ainda?

Recebi por mail e já vi que o Ramiro Marques divulgou. Também não resisto a transcrever.

Hoje, o menino pintor foi à minha escola. Em vez da tela, levou pequenos autocolantes com o cravo de Maio, o lacinho preto e um NÃO. Explicou aos professores o seu sonho e todos aceitaram colocar a flor ao peito, conscientes do seu significado: não integrar nenhuma lista para o Conselho Geral, nem votar em nenhuma candidatura que, eventualmente, possa surgir. Em abono da verdade, devo dizer que não foram bem todos: um colega, pertencente ao Conselho Executivo, teve a amabilidade de declinar a oferta. Compreende-se, não é verdade? Dos restantes, o menino já nem sequer se abeirou. Mas, ao fim da manhã, a escola parecia um campo florido, em pleno mês de Abril. Que espectáculo tão belo!
O sonho desse menino é tão lindo, a sua crença é tão grande, que eu penso ser capaz de contagiar este pequeno país, de lés a lés. Por isso, mandei fazer pins com o mesmo símbolo, para que todos os meus colegas possam ostentá-lo com orgulho, transmitindo assim, constantemente, mensagens de solidariedade e reforço do espírito colectivo. Esse cravo ao peito será, diariamente, um sinal de esperança, a convicção reforçada numa vitória merecida. Esse cravo lembrará a cada professor que não está só, que pode contar com todos os seus colegas, pois todos o trarão ao peito, enquanto a causa durar.
Gostaria que todos os professores do meu país, aqueles que têm esta mesma dor e esta mesma paixão que me tritura, se unissem num amplexo nacional capaz de suplantar todas as manifestações, todas as organizações sindicais: o NÃO de cada um. Cada um de nós diz NÃO e não há força capaz de nos deter. O NÃO de cada um — acreditem — é mais forte do que o grito de cem mil. Tenham a ousadia de experimentar. Podem, se não tiverem melhor, retirar esta imagem do meu blogue (desculpem, mas eu escrevo “blogue” com as cores do meu país). Depois… ponham o milagre a funcionar. Vão ver que não dói nada!

Luís Costa

P.S. – Façam-me o favor de entregar esta mensagem a Mercúrio, o mensageiro dos deuses, para que ele a leve, num instante, a todos os cantinhos deste país cheio de defeitos, mas que tanto amamos.
______
Adenda

PETIÇÃO
Seguindo o link, a petição pode ser lida e assinada.

segunda-feira, junho 02, 2008

Eduquemos e cultivemos a consciência humana

«"(...) Em todos os homens existe a mesma parcela de dignidade, simplesmente nalguns está de tal modo adormecida que chegam a dar a impressão de seres inferiores, gerando os sentimentos da humilhação. A humilhação do homem perante o homem é imoral.
Eduquemos e cultivemos a consciência humana, acordemo-la quando estiver adormecida, demos a cada um a consciência completa de todos os seus direitos e de todos os seus deveres, da sua dignidade, da sua liberdade. Sejamos homens livres, dentro do mais belo e nobre conceito de liberdade - o reconhecimento a todos do direito ao completo e amplo desenvolvimento das suas capacidades intelectuais, artísticas e materiais.
Assim, cultura e liberdade identificam-se - sem cultura não pode haver liberdade, sem liberdade não pode haver cultura. (...)»
Bento de Jesus Caraça (1931). As universidades populares e a cultura. In A cultura integral do indivíduo. Conferências e outros escritos. Gradiva, 2008.

___________

Adenda

Conferências e outros escritos de Bento de Jesus Caraça foram recentemente reeditados, agora pela Gradiva. Eu já tinha uma edição anterior da editora Campo de Letras, mas adquiri esta pois contém mais alguns textos. Assim, mais uma vez mergulho no pensamento desse Homem que é para mim uma referência intelectual e moral muito especial - aliás, uma grande referência no nosso património cultural.
Agradeço ao Henrique ter-me avisado desta reedição.


domingo, junho 01, 2008

quinta-feira, maio 29, 2008

Os dois remos

Um viajante caminhava pelas margens de um grande lago de águas cristalinas e imaginava uma forma de chegar até o outro lado, onde era seu destino.
Suspirou profundamente enquanto tentava fixar o olhar no horizonte. A voz de um homem de cabelos brancos quebrou o silêncio momentâneo, oferecendo-se para transportá-lo. Era um barqueiro.
O pequeno barco envelhecido, no qual a travessia seria realizada, era provido de dois remos de madeira de carvalho. O viajante olhou detidamente e percebeu o que pareciam ser letras em cada remo. Ao colocar os pés empoeirados dentro do barco, observou que eram mesmo duas palavras. Num dos remos estava entalhada a palavra acreditar e no outro agir.
Não podendo conter a curiosidade, perguntou a razão daqueles nomes originais dados aos remos. O barqueiro pegou o remo, no qual estava escrito acreditar, e remou com toda força. O barco, então, começou a dar voltas sem sair do lugar em que estava. Em seguida, pegou o remo em que estava escrito agir e remou com todo vigor. Novamente o barco girou em sentido oposto, sem ir adiante.
Finalmente, o velho barqueiro, segurando os dois remos, movimentou-os ao mesmo tempo e o barco, impulsionado por ambos os lados, navegou através das águas do lago, chegando calmamente à outra margem.
Então o barqueiro disse ao viajante:
- Para que o barco navegue seguro e alcance a meta pretendida, é preciso que utilizemos os dois remos ao mesmo tempo e com a mesma intensidade
.


www..., autor desconhecido

quarta-feira, maio 28, 2008

O ciclo único, a pedagogia única e o poder único

Esse é o título do artigo de Santana Castilho no Público de hoje.

Não me cansarei de chamar a atenção para as consequências do Decreto-lei nº 43/2007, que estabeleceu o novo regime de formação para a docência e que tanto me escandalizou - e escandaliza - quanto à formação de professores para o actual 2º Ciclo do Ensino Básico, seja este assim designado, ou venha a ser integrado num futuramente chamado 1º Ciclo (a questão não está na designação). Assim, deixo um excerto do artigo de Santana Castilho (sem link para o próprio artigo porque só é acessível online a assinantes, mas cuja transcrição pode ser lida na íntegra aqui).

«(...) A verdadeira consequência, a importante, em minha opinião, reside num novo decréscimo do conhecimento que tal sistema originará para as crianças. Um só professor a ensinar Português, Matemática, História, Geografia, Ciências da Natureza e o que mais se verá? O peso da especulação pedagógica em detrimento das tradicionais áreas do conhecimento tem conduzido as crianças portuguesas por tristes veredas de infantilização. O proposto será uma boa achega para a promoção desse pernicioso percurso e para mais uma drástica redução do número de professores em actividade, com a natural e consequente redução significativa dos custos da provisão do ensino básico a que o Estado está obrigado. (...)»

Para a minha princesa...

...no dia do seu 10º aniversário


Keghel
(Clica para veres melhor, Inês)

segunda-feira, maio 26, 2008

Um poema...

Um poema que nos transporta à crença... ao sonho da ocupação do mundo pelas rosas...

Obrigada à Ana Paula Pinto por me ter deixado o poema

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.


Natália Correia

quinta-feira, maio 22, 2008

As nossas crianças estão a ser usadas

Eu já escrevo pouco, mas, neste momento, acho que devo mesmo não escrever nada e pôr o cantinho em pausa. Porque não estou a conseguir manter a serenidade , nem a esperança de que o tempo depressa comprove os profundos erros da actual política educativa.

As crianças portuguesas - as nossas crianças - estão a ser usadas.
Usadas para diminuir o deficit;
usadas para as estatísticas que os governantes pretendem apresentar;
usadas em prejuízo de terem bons e cada vez melhores professores porque estes estão a ser transformados em burocratas e educadores generalistas;
usadas para que o país imite modelos educativos de outros, mas como quem imita receitas de cozinha pondo na panela apenas alguns dos ingredientes (e de má qualidade) porque os outros não são baratos;
usadas como cobaias em experiências apressadas e sem qualquer estudo sério que fundamente as mudanças a partir do que se tenha efectivamente comprovado necessitar de mudar;
usadas também ao sabor de cabeças que se consideram iluminadas e só ouvem opiniões que (e quando) lhes convêm, desprezando arrogantemente muitas e muitas outras de reconhecida idoneidade e competência.

Começo a olhar para esta grande causa que também foi minha (e não consigo abandonar) - a Educação - com uma tristeza que significa desesperança, e a desesperança é um sentimento que toda a vida recusei convictamente. Quero continuar a recusá-la e a apelar a outros que também a recusem, no entanto está a ser-me difícil, pois constantemente se avolumam os motivos de preocupação sobre o rumo do sistema educativo no nosso país. Assim, sendo ainda mais impotente do que os que estão no terreno da escola, dado que já lá não estou, não vale a pena tentar analisar situações ou documentos quando estou - como estou agora - a reagir ao actual rumo da Educação com pouca serenidade e cada vez maior incredulidade.
Onde está a razão, só o tempo mostrará.
Vou tentar esperar calada - calada pelo menos até conseguir escrever sem desesperança.

Adenda ao post anterior

Há 10 meses o CNE discordava e agora já concorda?
Ou estou a ler mal?
(Se estou a ler mal, corrijam-me, por favor!)
«4—Apreciação na especialidade.
4.1—No caso da formação de professores do 2º ciclo do ensino básico (...), o anteprojecto contraria a Lei de Bases do Sistema Educativo [artigo 8º, nº 1, alínea b)], dado que nela se consagra que, no 2º ciclo do ensino básico, o ensino se desenvolve «predominantemente em regime de professor por área». No entanto, o anteprojecto propõe um mesmo professor para um alargado espectro de áreas (Língua Portuguesa, Matemática, História, Ciências da Natureza e Geografia de Portugal). No nosso entender, a formação de tais professores deve conferir-lhes habilitação para a docência de uma área do 2º ciclo do ensino básico (tal como previsto na Lei de Bases do Sistema Educativo) e, simultaneamente, para serem professores coadjuvantes dessa mesma área no 1º ciclo do ensino básico. » (destaque meu)
«(…) numa altura em que as alterações ao enquadramento jurídico da formação de professores (Dec-Lei nº 43/2007 de 22 de Fevereiro) definiram uma licenciatura em educação básica comum como ponto de partida para a formação profissional pós-graduada para educadores de infância, professores do 1º CEB e professores do 2º CEB, tendo subjacente a ideia de estabelecer uma unidade educativa com identidade própria para a faixa etária dos 0 aos 12 anos. Neste contexto, importa reflectir sobre os fundamentos e os efeitos dessa reorganização do sistema educativo – relativamente à qual, desde já, se expressa a nossa concordância (…)» (destaque meu)

Com tantos documentos, alguns a carecerem que os leia com mais atenção, humildemente admito que esteja a ler mal o sentido dos excertos que citei em termos do que me parece uma contradição. Se assim é, agradeço que me corrijam.

terça-feira, maio 20, 2008

Ciclos de ensino... a questão não está no nome ou na duração

O que me preocupa e assusta não é a ideia de se passar, no nosso país, a designar como um só ciclo o que actualmente se designa por 1º ciclo e 2º ciclo. Vários países consideram como um só ciclo o ensino dos 6 aos 12 anos - a questão não está na ideia, em si, de "ciclo".

A 1ª grande questão, a meu ver, está no regime e conteúdos da formação de professores instituída ou a instituir, bem como na adequação do número de professores às exigências quer dos progressivos aprofundamentos das aprendizagens, quer das áreas especializadas que a formação de professores "generalistas" não pode abarcar com seriedade.

Assim, o que me preocupa e assusta na publicação, pelo CNE, do Relatório do Estudo "A educação das Crianças dos 0 aos 12 anos" nem é tanto o seu conteúdo (que deve ser lido, e não os "resumos" que dele faz a comunicação social), mas sim o aproveitamento que decerto a Ministra da Educação dele fará em apoio aos seus objectivos. E, porque considero que os objectivos economicistas desta ministra (e do governo a que pertence) juntamente com as desastrosas visões que tem sobre educação e ensino estão a levar o nosso sistema educativo para caminhos cujas lamentáveis consequências demorarão muito tempo a remediar, fiquei aterrada com este "apoio" do CNE .

As nossas crianças estão a ser cobaias. A quem responsabilizará o país se vier a acordar para tristes consequências das experiências precipitadas de governantes que tomam uma maioria absoluta como legitimidade para catadupas de reformas e medidas, numa correria de quem se importa muito mais com o seu percurso eleiçoeiro do que com o futuro (e o presente) dos portugueses?

Estou cansada - cansada do que observo. Já não tenho vontade de comentar. Deixo só este breve e muito superficial comentário - para escrever mais, estou cansada (ou triste, ou descrente, nem sei).
______
Adenda
A Ministra da Educação já veio a público dizer que a fusão dos 1º e 2º ciclos não está nos objectivos deste governo (para a 1ª legislatura, leia-se). (Ouvi a própria Ministra na rádio, mas outras e talvez um pouco diferentes declarações se seguirâo) Mas os primeiros alicerces foram construídos por este mesmo governo com o novo regime de formação para a docência.
O relatório do CNE diz ter como um dos seus objectivos "comparar a situação portuguesa com a situação noutros países". Então, porque descreve longamente a organização da educação das crianças dos 0-12 anos em seis países e quase nada informa sobre a formação de professores nesses países? A esta são apenas dedicados dois parágrafos que se limitam a dizer que a formação para a educação de infância é, em geral, de nível superior, que a formação para o "ensino primário" é de nível universitário e que ambas são completadas por um período de estágio profissional. Acho estranho este laconismo.

segunda-feira, maio 19, 2008

Quase...

Hoje faria anos Mário de Sá Carneiro

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que,desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

domingo, maio 18, 2008

;0) Apenas um copo de leite...

Em um certo lugar do Oriente, um Rei resolveu criar um lago diferente para as pessoas do seu povoado. Ele quis criar um lago de leite! Então pediu para que cada um de seus súbditos levasse apenas um copo de leite; com a cooperação de todos, o lago seria preenchido.
O Rei muito entusiasmado esperou até à manhã seguinte para ver o seu lago de leite. Mas, qual não foi a sua surpresa, no outro dia pela manhã, quando viu o lago cheio de água e não de leite!
Consultou o seu conselheiro, que o informou que as pessoas do povoado tiveram todas o mesmo pensamento: No meio de tantos copos de leite, se só o meu for de água, ninguém vai notar...

(Autor desconhecido)

sábado, maio 17, 2008

Falando com os meus botões

Que pressa! Na minha ex-escola já há lista de professores para o Conselho Geral Transitório e, pelas notícias que me chegam, o mesmo acontece em muitas outras escolas! Nem sei para que me dei ao trabalho de digitalizar a contracapa do Jornal da FENPROF para o post anterior! (A capa, apelando às manifestações regionais, também já sei que foi inútil)

Pois, cá por mim, que já não vou trabalhar sob as ordens do sr. director (chegaram-me os anitos em que tive sr. director antes de 1974), dou o assunto por encerrado com este gesto, pelos vistos simbólico e inútil, de recortar para aqui o último parágrafo da referida contracapa - proposta da FENPROF também, pelos vistos, inútil.



Quem leia de boa fé o memorando de entendimento entre a Plataforma Sindical e o Ministério da Educação não vislumbra nele a eliminação da perspectiva de luta em torno das questões essenciais, desde a revisão do ECD à revisão do novo modelo de gestão das escolas, e incluindo a avaliação de desempenho que se irá processar no fundamental no próximo ano lectivo. Cada um terá as suas razões se acusar o entendimento como motivo da sua própria desmobilização, e eu, cá para os meus botões, digo que cada um é que sabe das suas motivações, cada um opta livremente, e digo também que a coerência é uma coisa difícil e exigente.

Insistindo...


Contracapa do jornal da FENPROF deste mês de Maio (a capa foi de apelo às manifestações regionais)

quinta-feira, maio 15, 2008

Conselho Geral Transitório - uma oportunidade a perder?!

Sobre o alargamento do prazo para a constituição, nas escolas, dos conselhos gerais transitórios, pode ler-se no site da FENPROF, em texto que contém o memorando de entendimento comentado: "Com este alargamento de prazo, os professores poderão, agora, aprofundar a discussão sobre a forma como deverão posicionar-se perante a constituição desses conselhos, seja no plano das propostas para a revisão do modelo, seja no plano da acção reivindicativa e da luta." (Destaque meu)

Estou a estranhar algum silêncio sobre esse primeiro procedimento nas escolas decorrente do novo regime de autonomia, gestão e administração: a constituição dos conselhos gerais transitórios. O nº 8 do artº 60 do Decreto-Lei 75/2008 diz: "O conselho geral transitório só pode proceder à eleição do presidente e deliberar estando constituído na sua totalidade." Não o constituir pelo menos num grande número de escolas será uma oportunidade a perder?


Escrevia tamém: «Agir concertadamente é o sinal inequívoco de que os professores estão dispostos a resistir!» Mas, para agir concertadamente, é necessário passar a palavra, é necessário fazer correr a ideia da não participação, para que cada professor sinta que recusar participar no conselho geral transitório não será uma posição isolada, e também para que os que se estão apressando, apesar do alargamento do prazo, se lembrem que a luta não parou na manifestação dos 100 000.

E eu esperava que a ideia estivesse a correr pela blogosfera, para correr, a seguir, pelos meios actualmente habituais - mail e sms -, mas ainda não me apercebi de tal. Esmorecimento da classe docente?! O novo modelo de gestão das escolas é irreversível?! A reivindicação da revisão do modelo saiu do horizonte de luta dos professores?!
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P.S.:
Outra oportunidade a não perder...

















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Adenda
Vi agora que a FENPROF é clara sobre a oportunidade a propósito dos conselhos gerais transitórios. No seu jornal deste mês de Maio lê-se na contracapa: "(...) a FENPROF propõe que seja ponderada a possibilidade de não haver candidaturas de docentes aos Conselhos Gerais Transitórios. Dessa forma, tornariam clara a sua oposição ao modelo imposto pelo ME e a sua recusa em o consolidarem, criando condições para a sua revisão."

quarta-feira, maio 14, 2008

Uma canção - uma memória

Faz hoje 10 anos que Frank Sinatra nos deixou. Aqui fica uma sua canção muito especial: My Way


P'ra não dizer que não lembrei...

Faz hoje três anos, este blogue.








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Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.
Helena Kolody

sábado, maio 10, 2008

Jantar comemorativo - Rever companheiros

Ontem realizou-se um jantar comemorativo do 34º aniversário do SPGL - o maior sindicato de professores do nosso país, surgido poucos dias depois do 25 de Abril. Gostei de ir, gostei de rever alguns companheiros que não via há tempos - compagnons de route, juntos tantas e tantas vezes em acções e lutas, e em reuniões desde a euforia dos primeiros plenários - a euforia da liberdade e dos direitos, incluindo o de associação.
Memórias comuns, caras que se reconhecem, ideais partilhados... Vêm-me recordações, vêm-me imagens de como éramos tão novos naqueles tempos iniciais... 34 anos fizeram os cabelos brancos e as rugas, 34 anos fizeram que eu lembre agora com alguma melancolia como éramos novos, como nos conhecemos há tanto tempo...
Ai, até parece que foi um jantar de velhos! Claro que não, nada disso, eu é que me referi só aos mais antigos companheiros dessa estrada que celebrámos ontem - é natural, é a minha memória vivida. Mas, entretanto, muitos outros mais novos tomaram a estrada, e hão-de continuá-la.

Saudações ao SPGL pelo seu 34º aniversário. E Força!

sexta-feira, maio 09, 2008

Contemplo o que não vejo

Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro.
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou.


Fernando Pessoa, Cancioneiro

quinta-feira, maio 08, 2008

Também me entristeço ao ler...

... entristeço-me pelo nosso sistema educativo, pela nossa escola pública, e também por aqueles que amaram a profissão docente e agora ou desistem ou tentam apenas resistir.

"Procurarei resistir. Mas muitos estão a partir. Isso é irreversível..." - cita o JMA no seu post aqui.

Nenhum governo verdadeiramente responsável teimaria em impor medidas, por maiores que fossem as preocupações economicistas (e são estas que essencialmente têm presidido à actual política educativa, juntamente com a determinação em conseguir estatísticas de sucesso mesmo que este seja só aparente) à custa de fazer o sistema educativo perder tantos dos mais experientes professores - além de desmotivar outros tantos dos mais dedicados, que escolheram a profissão com entusiasmo e hoje vão para a escola sem alegria.
Não quero alongar-me, só escrevi estas linhas porque o post do JMA me avivou uma tristeza que também me atinge a mim pessoalmente.
Foi fácil aposentar-me pois atingira as condições requeridas sem ficar com prejuízo financeiro e, com o clima que logo MLR causou na escola e o mais que estava para vir mas já se adivinhava, na altura não hesitei em alterar o que desejara e projectara e me faria estar, hoje, ainda no activo. Mas uma mágoa me ficou, uma mágoa que ainda me acompanha e que se acentua quando olho o título deste cantinho e já não tenho para escrever nele as memórias da véspera ou da semana passada - memórias que ainda poderia estar a ter. Foi minha a decisão, de mais ninguém, e não me arrependo porque masoquista não sou, sou alérgica a imposições sem sentido, a ambientes pouco transparentes ou propícios a competições nefastas, e também a resmas de papelada surpéflua ou aberrante. No entanto, há momentos em que me doem as saudades - muitas saudades - da sala de aula.

quarta-feira, maio 07, 2008

Pequenos poemas que me tocam depois das memórias

Eu e os "meus" haikus... Mas eles exprimem momentos, estados de espírito... E eu fico assim como que sem presente quando escrevo memórias de professora... memórias de um tempo que já só é passado...

Mando embora a tristeza, mas, primeiro, preciso destes pequeninos poemas que a expressam...

sementes de algodão
agora são de vento
as minhas mãos

Nenpuku Sato

Dias que se alongam —
Cada vez mais distantes
Os tempos de outrora!

Buson



Este caminho!
sem ninguém nele,
escuridão de outono.
Bashô

terça-feira, maio 06, 2008

Memórias de directora de turma - II

As assembleias de turma

Educar para a cidadania passa por educar para a participação democrática e responsável. Nem sempre tudo vai bem com os alunos no funcionamento das aulas e na vida escolar. Mas eles são capazes de reflectir, intervir, debater, propor, e as oportunidades para o fazerem ajudam a crescer e a desenvolver a iniciativa e a autonomia. Por tudo isto, as assembleias de turma eram uma prática instituída nas minhas turmas. Assembleias para assuntos da vida escolar e para decisões sobre projectos da turma, no caso da direcção de turma; assembleias relativas a questões do funcionamento das nossas aulas em qualquer das turmas.

Os alunos podiam ser do 5º ano, podiam ter apenas 10 anos, mas, com excepção da primeira assembleia, que eu dirigia, as outras passavam a ficar a cargo deles. A minha orientação consistia em dar uma tarefa para casa: pensarem nos assuntos definidos e, para os alunos que iriam dirigir, prepararem-se especialmente para isso; consistia também em pedir a palavra e intervir com a minha opinião ou sugestão, mas apenas quando necessário.

Por tantas vezes me limitar quase só a assistir (eu disse quase, a minha intervenção era na dose q.b.), olhando com encantamento a turma e aquelas três ou quatro crianças na "mesa" a desempenharem o seu papel (uma fazia a acta), e tendo pena de não ter levado a máquina fotográfica (vídeo iria distraí-los), uma vez ou outra lembrei-me de ir prevenida. Mas quase sempre me esquecia, pelo que tenho raras fotos, aliás já postas algures neste cantinho a propósito da pergunta "infantilizar ou puxar?"


(Todas as fotos são de turmas do Ciclo)


"Mesa" de uma Assembleia de Matemática:

(Clicar para ampliar)


Assembleia dirigida pelos delegados de turma e que incluiu debate em grupos:

(Clicar - Vêem-se os delegados em pé a acompanhar os grupos. Não são uma delícia? Era 6º ano)


Outras sembleias:



Nota:
Não, não se trata de "eduquês", não se trata de coisas tais como não-directividade ou alguma espécie de basismo. Eles não corresponderiam como correspondiam, debatendo disciplinada e responsavelmente e chegando a conclusões, avaliações e propostas pertinentes se não fossem preparados para isso no quotidiano das aulas.

(Perdoe-se-me a nota, mas eu sou alérgica à expressão eduquês)

domingo, maio 04, 2008

Memórias de directora de turma - I

Colaboração Escola-Família

Porquê retomo memórias e começo pelas de directora de turma, disse-o no post anterior. São muito boas recordações que ainda nunca registei, quero guardá-las no meu cantinho.

É certo que a acção educativa e de acompanhamento directo dos alunos é a componente primordial da função do director de turma - e tem já implícita uma colaboração com as famílias -, mas não é por essa componente que começo. Porque a colaboração escola-família é decisiva e porque, a meu ver, ao director de turma também cabe envolver (ou tentar envolver) os pais ou encarregados de educação na acção que desenvolve junto dos alunos, bem como ir ao encontro das necessidades de apoio, informação e até formação que aqueles tenham.

Fazem-se diligências (e bem) para conseguir que vão à escola encarregados de educação de alunos de famílias problemáticas, mas há que não esquecer que muitas outras têm baixo nível de instrução e cultura, contudo preocupam-se e gostariam de proporcionar aos seus filhos um melhor acompanhamento, pelo que são muito receptivas a informação, formação e apoio que, nesse sentido, recebam da escola. O problema de pais e mães ausentes ou que se demitem existe, mas seria injusto julgá-lo tão extenso como por vezes parece.

Assim, sempre entendi que a direcção de turma, com as oportunidades de reuniões e entrevistas individuais com os encarregados de educação, também tem uma vertente de acção formativa junto destes sempre que tal se justifica. E creio que a razão de, nas reuniões, ter tido sempre a sala cheia, frequentemente com a presença não apenas do pai ou da mãe, mas de ambos, foi o facto de incluir em todas elas um debate temático.

Como fazia? É simples, e muitos outros directores de turma o faziam e fazem. Mas, muitos outros não significa todos e talvez não signifique maioria. Até porque, nas reuniões, a primeira tendência dos encarregados de educação é a de pessoalizar falando ou fazendo perguntas sobre os seus próprios educandos e, se o director de turma não tem reservas contra isso, lá se passa assim toda a reunião, após informações genéricas e distribuição das fichas de avaliação.
Ora, não falar dos casos individuais na presença de outros pais era para mim um princípio que estabelecia à partida, até por respeito pelos alunos - não presentes - e manutenção da confiança deles. E reduzir as reuniões a distribuição das fichas de avaliação, apreciação global da turma, algumas informações relativas à escola e uns alertas à necessidade de os filhos trabalharem mais, seria pobre e alguma perda de tempo para a maioria, bem como perda de oportunidade para a acção que referi acima.
Então, quando tinha uma nova turma, logo na primeira reunião lançava a perspectiva de aqueles nossos encontros virem a incluir temas a expor e debater, relacionados com a vida escolar e a educação, de acordo com interesses, preocupações ou necessidades que os presentes manifestassem. Era logo um começo motivador, e, em vários anos lectivos, realizei, a pedido, reuniões extraordinárias (isto é, além das estipuladas pela escola) para esses debates.
Também percorria as profissões dos pais e mães da turma, através das fichas dos alunos, para detectar alguma que eventualmente proporcionasse colaboração para algum tema mais especializado, o que aconteceu algumas vezes - foram algumas as sessões cujo sucesso fiquei a dever a um pai ou a uma mãe graças à sua especialidade oportuna em relação a interesses e preocupações dos encarregados de educação e, claro, à disponibilidade colaborante.
Mas, em geral, os temas pedidos ficavam a meu cargo. E um que quase sempre era pedido era o do acompanhamento da vida escolar dos filhos. As turmas tinham quase sempre bastantes encarregados de educação - por vezes, a maioria - de nível de instrução insuficiente para acompanharem directamente os trabalhos escolares, mas não faltam sugestões para o acompanhamento mesmo sem dominarem as matérias curriculares. E havia sempre, também, algum testemunho de um dos presentes, interessante e sugestivo para os outros.

É com prazer e gratidão que recordo aqueles pais ou mães - alguns professores, mas não só - que nada precisavam de sugestões (nesse tema e noutros), mas compareciam e, sem eu precisar de pedir colaboração, tacitamente ma davam animando e mantendo vivo o debate.

Uma nota, a terminar: Era também logo na primeira reunião que eu desmontava a ideia de que irem à escola falar individualmente com a directora de turma só se justificaria em situações preocupantes sobre aproveitamento escolar ou comportamento, e especialmente quando convocados. E logo ficava esboçado um calendário, com prioridade aos que tivessem algum problema ou preocupação a transmitir-me urgentemente, mas permitindo que tão breve quanto possível eu pudesse falar com todos, pois uma entrevista permitia um conhecimento mais amplo do aluno, quer a mim, que só o observava na escola, quer também ao encarregado de educação, que, embora conheça bem o(a) filho(a), muitas vezes ignora facetas escolares pouco reveladas em casa.
E, com a desmontagem que fazia daquela ideia que tinham sobre idas à escola, acabava por ganhar a adesão para marcação das entrevistas, nem que estas fossem por telefone quando havia dificuldade em comparecerem. (Telefone, mas para a escola, note-se, pois eu não considerava isso 'trabalho de casa'
...) E claro que também tive casos difíceis relativamente a comparência, mas julgo que actualmente isso é mais frequente, tive sorte no meu tempo de dt.

Em suma, tenho muito boa recordação das reuniões com encarregados de educação. Talvez fosse outro tempo... não sei. (Fui dt durante mais de 20 anos consecutivos, mas depois não voltei a ser)

sábado, maio 03, 2008

Novidade esquisita no blogger

Antes de dar continuidade ao post anterior, registo uma novidade esquisita do blogger. Quando publico em horário de verão, costumo adiantar uma hora à que o blogger indica, pois ele funciona com a hora de inverno e, que eu encontre, não há, nas definições, opção para a hora de verão. Hoje, ao fazer o mesmo de sempre antes de clicar em publicar, pela primeira vez a ordem não foi obedecida e apareceu-me a variante "agendado", à semelhança do que acontece com "rascunho" quando guardamos um post sem publicar. Lá tive que atrasar a hora, mas não experimentei esperar a ver se o agendado seria publicado automaticamente uma hora depois.
Bem, isto é uma curiosidade minha porque sou "picuinhas" nestas coisas, mas pode ser que alguém me leia e me diga se também tem essa novidade do post agendado. Entretanto, vou deixar este com a hora certinha de verão, depois direi em adenda se foi publicado automaticamente quando o horário do blogger deixar.
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Adenda
Ná... Como era de prever, não aconteceu nenhuma publicação automática à hora agendada. Tenho mesmo que passar a andar no inverno, como quer o blogger ;)

Hoje retomo um fio de memórias

Serão extemporâneas, mas é por isso que se chamam memórias. Este cantinho também é um album de recordações das coisas de professora que já não posso fazer.

Dessas coisas, nunca aqui recordei nenhuma de directora de turma. No entanto, durante mais de 20 anos não dispensei essa vertente de trabalho, punha até como condição para aceitar outro cargo a acumulação com aquele. Porque era nele que mais podia sentir-me não apenas professora, mas também educadora.
Depois, chegaram os primeiros computadores à escola, foi criada a sala de Informática, as horas sobrantes do meu horário foram precisas para tarefas relacionadas com as TIC, deixei então a direcção de turma. Entretanto, fui vendo os directores de turma com cada vez mais tarefas burocráticas e quando, nos meus últimos dois ou três anos, voltei a poder encarar a possibilidade de retomar a direcção de turma, esse panorama burocrático desmotivou-me de esforços para a conciliar com o meu horário.

Assim, as minhas memórias de directora de turma, que me são tão gratas, já não se enquadram no tempo actual. Mas, mesmo que seja supérfluo partilhá-las, são recordações para mim, vou guardá-las aqui.

quinta-feira, maio 01, 2008

Chega um tempo...

Um poema, enquanto tento parar o tempo. Tempo para reencontrar um fio; tempo para preencher vazios; tempo à deriva; tempo ferido; tempo, só tempo.

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade, Os Ombros Suportam o Mundo

segunda-feira, abril 28, 2008

Afinal para que quero um blogue?

(Em jeito de balanço)

Para que quis um blogue quando criei este, até sei; para que o quero agora, isso é que já não sei!

Quando criei este bloguezito, eu queria falar de alunos, de ensino e aprendizagem, de aulas, de métodos e estratégias de ensino, da minha disciplina que é a Matemática e de sucesso e insucesso nela, também de direcção de turma, de educação, de formação de alunos e de formação de professores, enfim, queria falar de escola.
E, quando comecei a conhecer colegas da blogosfera, pensei até que não falaria sozinha disso tudo, pensei que poderia não ser só falar, mas debater também. Troca de experiências, partilha, testemunho, isso era o que me atraía, embora tenha encontrado raríssimos blogues de docentes em que tal acontecesse.

Contudo, de tudo isso me fui desviando, pois quase logo apareceu a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, e eu própria andei centrada nela e na sua política. E, hoje, com esta sensação de que dirigi este meu cantinho sobretudo para essa política, lembrei-me de fazer uma contabilidade, já que tenho os meus posts quase todos etiquetados (de 590, têm marcadores quase 400, e os que não estão marcados são irrelevantes quanto a assunto). E não é que constato que, afinal, apenas 21 são sobre política educativa?! Vá lá, mesmo que estime nuns 30 os que à política educativa se referem, tenho mesmo que concluir que, afinal, não foi (só) a política do Ministério da Educação que me desviou e me desmotivou de escrever sobre o que tencionara inicialmente.

Dos temas que acima mencionei, há um que jamais abordei - e não foi por acaso. Jamais abordei um dos temas que me são mais gratos e de que tenho melhores memórias: a direcção de turma. Porque a burocracia que foi progressivamente assoberbando os directores de turma parecia-me retirar sentido às minhas memórias de mais de 20 anos consecutivos até outras tarefas terem requerido que deixasse esse cargo.

No entanto, tenho consciência de que a falta de condições e os climas de escola perturbados pela política de MLR foram apenas meia razão para abandonar as minhas memórias. Costuma dizer-me um amigo (e ainda hoje mesmo mo disse) que da outra metade do motivo da minha desmotivação nunca falei, que eu só falo da política deste ME porque omito a outra face do sistema educativo, que é a realidade no "terreno". Sei que o meu amigo tem razão, no terreno há muito do bom e até do excelente, mas bastante há também do menos bom, e o indesejável ou pernicioso não é tão insignificante quanto muitas vezes dizemos - dizemos, seja por corporativismo, seja por compreensão tolerante, ou seja por uma espécie de reserva ética.

Afinal, para que mantenho eu um blogue?

Talvez porque ainda vou esperando por condições mais propícias para falar do que é o tema mais importante para mim como professora: alunos - ensino e aprendizagem - educação. Mas pergunto-me: se voltar a falar disso, não será um monólogo? Não porque aquele não seja o tema prioritário no pensamento de muitos colegas, e aqui deixo a minha manifestação de apreço à 3za - uma companheira "bloguista" - por não ter perdido nunca a motivação para falar dos alunos, para partilhar as experiências e vivências com eles, para nos revelar a paixão de ensinar e ajudar a crescer. No entanto, no clima de escola que se tem vivido nos últimos quase três anos, a escrita da 3za e a dos poucos outros que privilegiam esse tema serão muito mais do que monólogos?


Continuando a corrente...

A Madalena desafiou-me para esta corrente, foi mesmo uma marotice escrever que "não aceitar seria uma tremenda falta de educação, de respeito e de amizade", pois não é fácil ;).
Eis o desafio: seis "coisas" que não me "importam". E depois, cada um desafia mais seis.
Se fossem coisas que me importam era muito fácil - mas, pensando bem, também não é difícil encontrar umas que não me importam. Aqui vão as seis pedidas, por ordem aleatória:

- O que os outros dizem de mim quando estão na "má língua";
- Não ter fortuna para esbanjar;

- Não ser mais velha do que sou (isto quer dizer que a idade me chateia e importa ;) )

- Futebol, quem joga, quem ganha ou perde (desde que não tenha que estar a ouvir relatos na tv)

- Problemas existenciais dos que só pensam em "trepar" na vida, especialmente dos que o fazem pisando outros;

- O que as religiões dizem que é pecado (basta-me a minha moral).

E agora passo a corrente: 3za, Tsiwari Miguel, Tit, (podem responder no Aragem), Marina, Bell

sábado, abril 26, 2008

Caminhante...

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar,
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en el mar.
(*)
Antonio Machado


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(*) Enviado pela Amélia Pais

Canções para a minha neta Inês

Ontem a minha Inês fez-me novas perguntas sobre o 25 de Abril. Ao falar-lhe das duas canções que foram senhas naquela noite, dei-me conta de que ela não conhecia a Grândola - imperdoável da nossa parte. Ouviu-a e falei-lhe então do Zeca, e do Adriano também. Fiquei comovida com a sua especial atenção e com os seus olhos emocionados ao ouvir o Adriano na Trova do Vento que Passa. Por isso aqui deixo para ela essa canção, e também uma canção especial do Zeca.


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Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa


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José Afonso - Canção de embalar


sexta-feira, abril 25, 2008

25 de Abril

Com as mãos das minhas filhas pequeninas nas minhas, imaginei um país novo para elas.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.


Foi sonho?

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.



Foi esperança!



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Em itálico: excertos de As portas que Abril abriu, Ary dos Santos.

quinta-feira, abril 24, 2008

Saturação... tédio... vazio...

...de ligar a televisão, de abrir o jornal, e mais a avaliação que professores querem e não querem, e etc. e tal.

Já só leio os títulos, de tanto que se escreve, uns a dizer o mesmo, outros a dizer outro mesmo.

(Hoje devo ter acordado mal disposta, queiram desculpar-me. Se calhar foi por ter acordado com a rádio a falar da ratificação do Tratado de Lisboa...)


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No campo queimado
ainda uma leve fumaça
Tronco resistindo

Eunice Arruda


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Rosto no vidro
uma criança eterna
olha o vazio


Alphonse Piché
Tradução de Carlos Seabra

segunda-feira, abril 21, 2008

...

A criança que fui chora na estrada

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.


Fernando Pessoa