domingo, maio 18, 2008

;0) Apenas um copo de leite...

Em um certo lugar do Oriente, um Rei resolveu criar um lago diferente para as pessoas do seu povoado. Ele quis criar um lago de leite! Então pediu para que cada um de seus súbditos levasse apenas um copo de leite; com a cooperação de todos, o lago seria preenchido.
O Rei muito entusiasmado esperou até à manhã seguinte para ver o seu lago de leite. Mas, qual não foi a sua surpresa, no outro dia pela manhã, quando viu o lago cheio de água e não de leite!
Consultou o seu conselheiro, que o informou que as pessoas do povoado tiveram todas o mesmo pensamento: No meio de tantos copos de leite, se só o meu for de água, ninguém vai notar...

(Autor desconhecido)

sábado, maio 17, 2008

Falando com os meus botões

Que pressa! Na minha ex-escola já há lista de professores para o Conselho Geral Transitório e, pelas notícias que me chegam, o mesmo acontece em muitas outras escolas! Nem sei para que me dei ao trabalho de digitalizar a contracapa do Jornal da FENPROF para o post anterior! (A capa, apelando às manifestações regionais, também já sei que foi inútil)

Pois, cá por mim, que já não vou trabalhar sob as ordens do sr. director (chegaram-me os anitos em que tive sr. director antes de 1974), dou o assunto por encerrado com este gesto, pelos vistos simbólico e inútil, de recortar para aqui o último parágrafo da referida contracapa - proposta da FENPROF também, pelos vistos, inútil.



Quem leia de boa fé o memorando de entendimento entre a Plataforma Sindical e o Ministério da Educação não vislumbra nele a eliminação da perspectiva de luta em torno das questões essenciais, desde a revisão do ECD à revisão do novo modelo de gestão das escolas, e incluindo a avaliação de desempenho que se irá processar no fundamental no próximo ano lectivo. Cada um terá as suas razões se acusar o entendimento como motivo da sua própria desmobilização, e eu, cá para os meus botões, digo que cada um é que sabe das suas motivações, cada um opta livremente, e digo também que a coerência é uma coisa difícil e exigente.

Insistindo...


Contracapa do jornal da FENPROF deste mês de Maio (a capa foi de apelo às manifestações regionais)

quinta-feira, maio 15, 2008

Conselho Geral Transitório - uma oportunidade a perder?!

Sobre o alargamento do prazo para a constituição, nas escolas, dos conselhos gerais transitórios, pode ler-se no site da FENPROF, em texto que contém o memorando de entendimento comentado: "Com este alargamento de prazo, os professores poderão, agora, aprofundar a discussão sobre a forma como deverão posicionar-se perante a constituição desses conselhos, seja no plano das propostas para a revisão do modelo, seja no plano da acção reivindicativa e da luta." (Destaque meu)

Estou a estranhar algum silêncio sobre esse primeiro procedimento nas escolas decorrente do novo regime de autonomia, gestão e administração: a constituição dos conselhos gerais transitórios. O nº 8 do artº 60 do Decreto-Lei 75/2008 diz: "O conselho geral transitório só pode proceder à eleição do presidente e deliberar estando constituído na sua totalidade." Não o constituir pelo menos num grande número de escolas será uma oportunidade a perder?


Escrevia tamém: «Agir concertadamente é o sinal inequívoco de que os professores estão dispostos a resistir!» Mas, para agir concertadamente, é necessário passar a palavra, é necessário fazer correr a ideia da não participação, para que cada professor sinta que recusar participar no conselho geral transitório não será uma posição isolada, e também para que os que se estão apressando, apesar do alargamento do prazo, se lembrem que a luta não parou na manifestação dos 100 000.

E eu esperava que a ideia estivesse a correr pela blogosfera, para correr, a seguir, pelos meios actualmente habituais - mail e sms -, mas ainda não me apercebi de tal. Esmorecimento da classe docente?! O novo modelo de gestão das escolas é irreversível?! A reivindicação da revisão do modelo saiu do horizonte de luta dos professores?!
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P.S.:
Outra oportunidade a não perder...

















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Adenda
Vi agora que a FENPROF é clara sobre a oportunidade a propósito dos conselhos gerais transitórios. No seu jornal deste mês de Maio lê-se na contracapa: "(...) a FENPROF propõe que seja ponderada a possibilidade de não haver candidaturas de docentes aos Conselhos Gerais Transitórios. Dessa forma, tornariam clara a sua oposição ao modelo imposto pelo ME e a sua recusa em o consolidarem, criando condições para a sua revisão."

quarta-feira, maio 14, 2008

Uma canção - uma memória

Faz hoje 10 anos que Frank Sinatra nos deixou. Aqui fica uma sua canção muito especial: My Way


P'ra não dizer que não lembrei...

Faz hoje três anos, este blogue.








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Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.
Helena Kolody

sábado, maio 10, 2008

Jantar comemorativo - Rever companheiros

Ontem realizou-se um jantar comemorativo do 34º aniversário do SPGL - o maior sindicato de professores do nosso país, surgido poucos dias depois do 25 de Abril. Gostei de ir, gostei de rever alguns companheiros que não via há tempos - compagnons de route, juntos tantas e tantas vezes em acções e lutas, e em reuniões desde a euforia dos primeiros plenários - a euforia da liberdade e dos direitos, incluindo o de associação.
Memórias comuns, caras que se reconhecem, ideais partilhados... Vêm-me recordações, vêm-me imagens de como éramos tão novos naqueles tempos iniciais... 34 anos fizeram os cabelos brancos e as rugas, 34 anos fizeram que eu lembre agora com alguma melancolia como éramos novos, como nos conhecemos há tanto tempo...
Ai, até parece que foi um jantar de velhos! Claro que não, nada disso, eu é que me referi só aos mais antigos companheiros dessa estrada que celebrámos ontem - é natural, é a minha memória vivida. Mas, entretanto, muitos outros mais novos tomaram a estrada, e hão-de continuá-la.

Saudações ao SPGL pelo seu 34º aniversário. E Força!

sexta-feira, maio 09, 2008

Contemplo o que não vejo

Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro.
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou.


Fernando Pessoa, Cancioneiro

quinta-feira, maio 08, 2008

Também me entristeço ao ler...

... entristeço-me pelo nosso sistema educativo, pela nossa escola pública, e também por aqueles que amaram a profissão docente e agora ou desistem ou tentam apenas resistir.

"Procurarei resistir. Mas muitos estão a partir. Isso é irreversível..." - cita o JMA no seu post aqui.

Nenhum governo verdadeiramente responsável teimaria em impor medidas, por maiores que fossem as preocupações economicistas (e são estas que essencialmente têm presidido à actual política educativa, juntamente com a determinação em conseguir estatísticas de sucesso mesmo que este seja só aparente) à custa de fazer o sistema educativo perder tantos dos mais experientes professores - além de desmotivar outros tantos dos mais dedicados, que escolheram a profissão com entusiasmo e hoje vão para a escola sem alegria.
Não quero alongar-me, só escrevi estas linhas porque o post do JMA me avivou uma tristeza que também me atinge a mim pessoalmente.
Foi fácil aposentar-me pois atingira as condições requeridas sem ficar com prejuízo financeiro e, com o clima que logo MLR causou na escola e o mais que estava para vir mas já se adivinhava, na altura não hesitei em alterar o que desejara e projectara e me faria estar, hoje, ainda no activo. Mas uma mágoa me ficou, uma mágoa que ainda me acompanha e que se acentua quando olho o título deste cantinho e já não tenho para escrever nele as memórias da véspera ou da semana passada - memórias que ainda poderia estar a ter. Foi minha a decisão, de mais ninguém, e não me arrependo porque masoquista não sou, sou alérgica a imposições sem sentido, a ambientes pouco transparentes ou propícios a competições nefastas, e também a resmas de papelada surpéflua ou aberrante. No entanto, há momentos em que me doem as saudades - muitas saudades - da sala de aula.

quarta-feira, maio 07, 2008

Pequenos poemas que me tocam depois das memórias

Eu e os "meus" haikus... Mas eles exprimem momentos, estados de espírito... E eu fico assim como que sem presente quando escrevo memórias de professora... memórias de um tempo que já só é passado...

Mando embora a tristeza, mas, primeiro, preciso destes pequeninos poemas que a expressam...

sementes de algodão
agora são de vento
as minhas mãos

Nenpuku Sato

Dias que se alongam —
Cada vez mais distantes
Os tempos de outrora!

Buson



Este caminho!
sem ninguém nele,
escuridão de outono.
Bashô

terça-feira, maio 06, 2008

Memórias de directora de turma - II

As assembleias de turma

Educar para a cidadania passa por educar para a participação democrática e responsável. Nem sempre tudo vai bem com os alunos no funcionamento das aulas e na vida escolar. Mas eles são capazes de reflectir, intervir, debater, propor, e as oportunidades para o fazerem ajudam a crescer e a desenvolver a iniciativa e a autonomia. Por tudo isto, as assembleias de turma eram uma prática instituída nas minhas turmas. Assembleias para assuntos da vida escolar e para decisões sobre projectos da turma, no caso da direcção de turma; assembleias relativas a questões do funcionamento das nossas aulas em qualquer das turmas.

Os alunos podiam ser do 5º ano, podiam ter apenas 10 anos, mas, com excepção da primeira assembleia, que eu dirigia, as outras passavam a ficar a cargo deles. A minha orientação consistia em dar uma tarefa para casa: pensarem nos assuntos definidos e, para os alunos que iriam dirigir, prepararem-se especialmente para isso; consistia também em pedir a palavra e intervir com a minha opinião ou sugestão, mas apenas quando necessário.

Por tantas vezes me limitar quase só a assistir (eu disse quase, a minha intervenção era na dose q.b.), olhando com encantamento a turma e aquelas três ou quatro crianças na "mesa" a desempenharem o seu papel (uma fazia a acta), e tendo pena de não ter levado a máquina fotográfica (vídeo iria distraí-los), uma vez ou outra lembrei-me de ir prevenida. Mas quase sempre me esquecia, pelo que tenho raras fotos, aliás já postas algures neste cantinho a propósito da pergunta "infantilizar ou puxar?"


(Todas as fotos são de turmas do Ciclo)


"Mesa" de uma Assembleia de Matemática:

(Clicar para ampliar)


Assembleia dirigida pelos delegados de turma e que incluiu debate em grupos:

(Clicar - Vêem-se os delegados em pé a acompanhar os grupos. Não são uma delícia? Era 6º ano)


Outras sembleias:



Nota:
Não, não se trata de "eduquês", não se trata de coisas tais como não-directividade ou alguma espécie de basismo. Eles não corresponderiam como correspondiam, debatendo disciplinada e responsavelmente e chegando a conclusões, avaliações e propostas pertinentes se não fossem preparados para isso no quotidiano das aulas.

(Perdoe-se-me a nota, mas eu sou alérgica à expressão eduquês)

domingo, maio 04, 2008

Memórias de directora de turma - I

Colaboração Escola-Família

Porquê retomo memórias e começo pelas de directora de turma, disse-o no post anterior. São muito boas recordações que ainda nunca registei, quero guardá-las no meu cantinho.

É certo que a acção educativa e de acompanhamento directo dos alunos é a componente primordial da função do director de turma - e tem já implícita uma colaboração com as famílias -, mas não é por essa componente que começo. Porque a colaboração escola-família é decisiva e porque, a meu ver, ao director de turma também cabe envolver (ou tentar envolver) os pais ou encarregados de educação na acção que desenvolve junto dos alunos, bem como ir ao encontro das necessidades de apoio, informação e até formação que aqueles tenham.

Fazem-se diligências (e bem) para conseguir que vão à escola encarregados de educação de alunos de famílias problemáticas, mas há que não esquecer que muitas outras têm baixo nível de instrução e cultura, contudo preocupam-se e gostariam de proporcionar aos seus filhos um melhor acompanhamento, pelo que são muito receptivas a informação, formação e apoio que, nesse sentido, recebam da escola. O problema de pais e mães ausentes ou que se demitem existe, mas seria injusto julgá-lo tão extenso como por vezes parece.

Assim, sempre entendi que a direcção de turma, com as oportunidades de reuniões e entrevistas individuais com os encarregados de educação, também tem uma vertente de acção formativa junto destes sempre que tal se justifica. E creio que a razão de, nas reuniões, ter tido sempre a sala cheia, frequentemente com a presença não apenas do pai ou da mãe, mas de ambos, foi o facto de incluir em todas elas um debate temático.

Como fazia? É simples, e muitos outros directores de turma o faziam e fazem. Mas, muitos outros não significa todos e talvez não signifique maioria. Até porque, nas reuniões, a primeira tendência dos encarregados de educação é a de pessoalizar falando ou fazendo perguntas sobre os seus próprios educandos e, se o director de turma não tem reservas contra isso, lá se passa assim toda a reunião, após informações genéricas e distribuição das fichas de avaliação.
Ora, não falar dos casos individuais na presença de outros pais era para mim um princípio que estabelecia à partida, até por respeito pelos alunos - não presentes - e manutenção da confiança deles. E reduzir as reuniões a distribuição das fichas de avaliação, apreciação global da turma, algumas informações relativas à escola e uns alertas à necessidade de os filhos trabalharem mais, seria pobre e alguma perda de tempo para a maioria, bem como perda de oportunidade para a acção que referi acima.
Então, quando tinha uma nova turma, logo na primeira reunião lançava a perspectiva de aqueles nossos encontros virem a incluir temas a expor e debater, relacionados com a vida escolar e a educação, de acordo com interesses, preocupações ou necessidades que os presentes manifestassem. Era logo um começo motivador, e, em vários anos lectivos, realizei, a pedido, reuniões extraordinárias (isto é, além das estipuladas pela escola) para esses debates.
Também percorria as profissões dos pais e mães da turma, através das fichas dos alunos, para detectar alguma que eventualmente proporcionasse colaboração para algum tema mais especializado, o que aconteceu algumas vezes - foram algumas as sessões cujo sucesso fiquei a dever a um pai ou a uma mãe graças à sua especialidade oportuna em relação a interesses e preocupações dos encarregados de educação e, claro, à disponibilidade colaborante.
Mas, em geral, os temas pedidos ficavam a meu cargo. E um que quase sempre era pedido era o do acompanhamento da vida escolar dos filhos. As turmas tinham quase sempre bastantes encarregados de educação - por vezes, a maioria - de nível de instrução insuficiente para acompanharem directamente os trabalhos escolares, mas não faltam sugestões para o acompanhamento mesmo sem dominarem as matérias curriculares. E havia sempre, também, algum testemunho de um dos presentes, interessante e sugestivo para os outros.

É com prazer e gratidão que recordo aqueles pais ou mães - alguns professores, mas não só - que nada precisavam de sugestões (nesse tema e noutros), mas compareciam e, sem eu precisar de pedir colaboração, tacitamente ma davam animando e mantendo vivo o debate.

Uma nota, a terminar: Era também logo na primeira reunião que eu desmontava a ideia de que irem à escola falar individualmente com a directora de turma só se justificaria em situações preocupantes sobre aproveitamento escolar ou comportamento, e especialmente quando convocados. E logo ficava esboçado um calendário, com prioridade aos que tivessem algum problema ou preocupação a transmitir-me urgentemente, mas permitindo que tão breve quanto possível eu pudesse falar com todos, pois uma entrevista permitia um conhecimento mais amplo do aluno, quer a mim, que só o observava na escola, quer também ao encarregado de educação, que, embora conheça bem o(a) filho(a), muitas vezes ignora facetas escolares pouco reveladas em casa.
E, com a desmontagem que fazia daquela ideia que tinham sobre idas à escola, acabava por ganhar a adesão para marcação das entrevistas, nem que estas fossem por telefone quando havia dificuldade em comparecerem. (Telefone, mas para a escola, note-se, pois eu não considerava isso 'trabalho de casa'
...) E claro que também tive casos difíceis relativamente a comparência, mas julgo que actualmente isso é mais frequente, tive sorte no meu tempo de dt.

Em suma, tenho muito boa recordação das reuniões com encarregados de educação. Talvez fosse outro tempo... não sei. (Fui dt durante mais de 20 anos consecutivos, mas depois não voltei a ser)

sábado, maio 03, 2008

Novidade esquisita no blogger

Antes de dar continuidade ao post anterior, registo uma novidade esquisita do blogger. Quando publico em horário de verão, costumo adiantar uma hora à que o blogger indica, pois ele funciona com a hora de inverno e, que eu encontre, não há, nas definições, opção para a hora de verão. Hoje, ao fazer o mesmo de sempre antes de clicar em publicar, pela primeira vez a ordem não foi obedecida e apareceu-me a variante "agendado", à semelhança do que acontece com "rascunho" quando guardamos um post sem publicar. Lá tive que atrasar a hora, mas não experimentei esperar a ver se o agendado seria publicado automaticamente uma hora depois.
Bem, isto é uma curiosidade minha porque sou "picuinhas" nestas coisas, mas pode ser que alguém me leia e me diga se também tem essa novidade do post agendado. Entretanto, vou deixar este com a hora certinha de verão, depois direi em adenda se foi publicado automaticamente quando o horário do blogger deixar.
______
Adenda
Ná... Como era de prever, não aconteceu nenhuma publicação automática à hora agendada. Tenho mesmo que passar a andar no inverno, como quer o blogger ;)

Hoje retomo um fio de memórias

Serão extemporâneas, mas é por isso que se chamam memórias. Este cantinho também é um album de recordações das coisas de professora que já não posso fazer.

Dessas coisas, nunca aqui recordei nenhuma de directora de turma. No entanto, durante mais de 20 anos não dispensei essa vertente de trabalho, punha até como condição para aceitar outro cargo a acumulação com aquele. Porque era nele que mais podia sentir-me não apenas professora, mas também educadora.
Depois, chegaram os primeiros computadores à escola, foi criada a sala de Informática, as horas sobrantes do meu horário foram precisas para tarefas relacionadas com as TIC, deixei então a direcção de turma. Entretanto, fui vendo os directores de turma com cada vez mais tarefas burocráticas e quando, nos meus últimos dois ou três anos, voltei a poder encarar a possibilidade de retomar a direcção de turma, esse panorama burocrático desmotivou-me de esforços para a conciliar com o meu horário.

Assim, as minhas memórias de directora de turma, que me são tão gratas, já não se enquadram no tempo actual. Mas, mesmo que seja supérfluo partilhá-las, são recordações para mim, vou guardá-las aqui.

quinta-feira, maio 01, 2008

Chega um tempo...

Um poema, enquanto tento parar o tempo. Tempo para reencontrar um fio; tempo para preencher vazios; tempo à deriva; tempo ferido; tempo, só tempo.

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade, Os Ombros Suportam o Mundo

segunda-feira, abril 28, 2008

Afinal para que quero um blogue?

(Em jeito de balanço)

Para que quis um blogue quando criei este, até sei; para que o quero agora, isso é que já não sei!

Quando criei este bloguezito, eu queria falar de alunos, de ensino e aprendizagem, de aulas, de métodos e estratégias de ensino, da minha disciplina que é a Matemática e de sucesso e insucesso nela, também de direcção de turma, de educação, de formação de alunos e de formação de professores, enfim, queria falar de escola.
E, quando comecei a conhecer colegas da blogosfera, pensei até que não falaria sozinha disso tudo, pensei que poderia não ser só falar, mas debater também. Troca de experiências, partilha, testemunho, isso era o que me atraía, embora tenha encontrado raríssimos blogues de docentes em que tal acontecesse.

Contudo, de tudo isso me fui desviando, pois quase logo apareceu a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, e eu própria andei centrada nela e na sua política. E, hoje, com esta sensação de que dirigi este meu cantinho sobretudo para essa política, lembrei-me de fazer uma contabilidade, já que tenho os meus posts quase todos etiquetados (de 590, têm marcadores quase 400, e os que não estão marcados são irrelevantes quanto a assunto). E não é que constato que, afinal, apenas 21 são sobre política educativa?! Vá lá, mesmo que estime nuns 30 os que à política educativa se referem, tenho mesmo que concluir que, afinal, não foi (só) a política do Ministério da Educação que me desviou e me desmotivou de escrever sobre o que tencionara inicialmente.

Dos temas que acima mencionei, há um que jamais abordei - e não foi por acaso. Jamais abordei um dos temas que me são mais gratos e de que tenho melhores memórias: a direcção de turma. Porque a burocracia que foi progressivamente assoberbando os directores de turma parecia-me retirar sentido às minhas memórias de mais de 20 anos consecutivos até outras tarefas terem requerido que deixasse esse cargo.

No entanto, tenho consciência de que a falta de condições e os climas de escola perturbados pela política de MLR foram apenas meia razão para abandonar as minhas memórias. Costuma dizer-me um amigo (e ainda hoje mesmo mo disse) que da outra metade do motivo da minha desmotivação nunca falei, que eu só falo da política deste ME porque omito a outra face do sistema educativo, que é a realidade no "terreno". Sei que o meu amigo tem razão, no terreno há muito do bom e até do excelente, mas bastante há também do menos bom, e o indesejável ou pernicioso não é tão insignificante quanto muitas vezes dizemos - dizemos, seja por corporativismo, seja por compreensão tolerante, ou seja por uma espécie de reserva ética.

Afinal, para que mantenho eu um blogue?

Talvez porque ainda vou esperando por condições mais propícias para falar do que é o tema mais importante para mim como professora: alunos - ensino e aprendizagem - educação. Mas pergunto-me: se voltar a falar disso, não será um monólogo? Não porque aquele não seja o tema prioritário no pensamento de muitos colegas, e aqui deixo a minha manifestação de apreço à 3za - uma companheira "bloguista" - por não ter perdido nunca a motivação para falar dos alunos, para partilhar as experiências e vivências com eles, para nos revelar a paixão de ensinar e ajudar a crescer. No entanto, no clima de escola que se tem vivido nos últimos quase três anos, a escrita da 3za e a dos poucos outros que privilegiam esse tema serão muito mais do que monólogos?


Continuando a corrente...

A Madalena desafiou-me para esta corrente, foi mesmo uma marotice escrever que "não aceitar seria uma tremenda falta de educação, de respeito e de amizade", pois não é fácil ;).
Eis o desafio: seis "coisas" que não me "importam". E depois, cada um desafia mais seis.
Se fossem coisas que me importam era muito fácil - mas, pensando bem, também não é difícil encontrar umas que não me importam. Aqui vão as seis pedidas, por ordem aleatória:

- O que os outros dizem de mim quando estão na "má língua";
- Não ter fortuna para esbanjar;

- Não ser mais velha do que sou (isto quer dizer que a idade me chateia e importa ;) )

- Futebol, quem joga, quem ganha ou perde (desde que não tenha que estar a ouvir relatos na tv)

- Problemas existenciais dos que só pensam em "trepar" na vida, especialmente dos que o fazem pisando outros;

- O que as religiões dizem que é pecado (basta-me a minha moral).

E agora passo a corrente: 3za, Tsiwari Miguel, Tit, (podem responder no Aragem), Marina, Bell

sábado, abril 26, 2008

Caminhante...

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar,
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en el mar.
(*)
Antonio Machado


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(*) Enviado pela Amélia Pais

Canções para a minha neta Inês

Ontem a minha Inês fez-me novas perguntas sobre o 25 de Abril. Ao falar-lhe das duas canções que foram senhas naquela noite, dei-me conta de que ela não conhecia a Grândola - imperdoável da nossa parte. Ouviu-a e falei-lhe então do Zeca, e do Adriano também. Fiquei comovida com a sua especial atenção e com os seus olhos emocionados ao ouvir o Adriano na Trova do Vento que Passa. Por isso aqui deixo para ela essa canção, e também uma canção especial do Zeca.


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Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa


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José Afonso - Canção de embalar


sexta-feira, abril 25, 2008

25 de Abril

Com as mãos das minhas filhas pequeninas nas minhas, imaginei um país novo para elas.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.


Foi sonho?

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.



Foi esperança!



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Em itálico: excertos de As portas que Abril abriu, Ary dos Santos.

quinta-feira, abril 24, 2008

Saturação... tédio... vazio...

...de ligar a televisão, de abrir o jornal, e mais a avaliação que professores querem e não querem, e etc. e tal.

Já só leio os títulos, de tanto que se escreve, uns a dizer o mesmo, outros a dizer outro mesmo.

(Hoje devo ter acordado mal disposta, queiram desculpar-me. Se calhar foi por ter acordado com a rádio a falar da ratificação do Tratado de Lisboa...)


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No campo queimado
ainda uma leve fumaça
Tronco resistindo

Eunice Arruda


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Rosto no vidro
uma criança eterna
olha o vazio


Alphonse Piché
Tradução de Carlos Seabra

segunda-feira, abril 21, 2008

...

A criança que fui chora na estrada

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.


Fernando Pessoa

domingo, abril 20, 2008

No teu aniversário

Tens flores no dia dos teus anos e todos os dias. E flores também no meu cantinho...


Renoir (1910-17). Roses dans un vase



Para a minha filha Ana Heloísa


sábado, abril 19, 2008

Momentos... pensamentos

Está vento lá fora. É primavera mas parece inverno. Fecho a janela e deixo poemas no vidro.

Quando já nada nos resta

Quando já nada nos resta
É que o mudo sol é bom.
O silêncio da floresta
É de muitos sons sem som.

Basta a brisa pra sorriso.
Entardecer é quem esquece.
Dá nas folhas o impreciso,
E mais que o ramo estremece.

Ter tido esperança fala
Como quem conta a cantar.
Quando a floresta se cala
Fica a floresta a falar.


Fernando Pessoa, Poesias Inéditas


Talvez que seja a brisa

Talvez que seja a brisa
Que ronda o fim da estrada,
Talvez seja o silêncio,
Talvez não seja nada...

Que coisa é que na tarde
Me entristece sem ser?
Sinto como se houvesse
Um mal que acontecer.

Mas sinto o mal que vem
Como se já passasse...
Que coisa é que faz isto
Sentir-se e recordar-se?


Fernando Pessoa, Poesias Inéditas

sexta-feira, abril 18, 2008

Recordando Bento de Jesus Caraça...

...no dia em que faria anos

As ilusões nunca são perdidas. Elas significam o que há de melhor na vida dos homens e dos povos. Perdidos são os cépticos que escondem sob uma ironia fácil a sua impotência para compreender e agir, perdidos são aqueles períodos da história em que os melhores, gastos e cansados, se retiram da luta, sem enxergarem no horizonte nada a que se entreguem, caída uma sombra uniforme sobre o pântano estéril da vida sem formas.

Bento de Jesus Caraça (1901-1948) in A Cultura Integral do Indivíduo-Problema Central do Nosso Tempo. Conferência proferida em 1933

Obras que destaco:

Opiniões diferentes na construção de consensos

Recebi por mail um comentário ao meu post anterior. Com autorização da autora, a Amélia Pais, cujos comentários tenho sempre em apreço, transcrevo-o, começando por salientar: "Mas ainda não é tarde: que futuramente uns e outros se entendam"

«Não estará a ser demasiado dura com quem não partilha a sua convicção de que o acordo ou entendimento foi uma coisa boa ou razoável? Eu conheço várias pessoas que exprimiram o seu descontentamento, a meu ver (mas essa é a minha opinião) e desencanto publicamente. Não terão o direito de o fazer (estamos num país em que, pelo menos, continua a haver liberdade de expressão) sem serem apodados de irresponsáveis, divisionistas ou desejosos de auto-promoção? Afinal não deveria a Plataforma ter ouvido as vozes de quem não pensava exactamente como os sindicatos - os movimentos cívicos - antes de assumir entendimentos? Mas ainda não é tarde: que futuramente uns e outros se entendam. Como a amiga, preocupa-me muito a situação do ensino e dos colegas no activo.»

Autopromoção, irrealismo ou inexperiência?

Novas associações e movimentos espontâneos tiveram recentemente um papel importante na mobilização dos professores. Contribuiram para unir, é de desejar que não contribuam agora para dividir. Que se sentisse nesses movimentos algumas 'alergias sincicais', tudo bem, há muitos professores que não são sindicalizados. Mas que esqueçam agora qual o 'alvo' comum, isso já é perigoso.
MLR começara prepotentemente por querer desvirtuar os sindicatos, os encontros não eram negociações, eram uma farsa negocial por parte do ME. Mas, pela primeira vez na história do nosso sindicalismo docente, uma plataforma sindical manteve-se unida, não se desfez a meio do percurso para uma das partes conceder uma assinatura que a grande maioria dos docentes repudiava - e esta união já foi em si uma vitória. Também vitória foi o facto de, finalmente, MLR ter que admitir que tinha que negociar no verdadeiro sentido do termo (ainda que, por enquanto pelo menos, pouco mais do que um 3º período lectivo com a indispensável serenidade). E nenhum professor, sindicalizado ou não, bem como nenhum movimento ou associação, pode esquecer que só os sindicatos têm legalmente poder/direito negocial.
MLR praticamente ignorava o direito à negociação, todos os pontos dos seus projectos eram inegociáveis com excepção de pequenos pormenores (já não se lembram?). Mas, nisso os professores venceram-na, nisso os 100 000 obrigaram a Ministra a recuar. E eu pergunto agora, perante críticas à Plataforma Sindical pelo entendimento assinado com o Ministério da Educação - críticas que procuram fazer-se ouvir amplamente na comunicação social -, que entenderiam por negociação os autores dessas críticas se tivessem assento na mesa negocial. (Decerto também se faziam ouvir quando todos denunciavam a recusa de atitude negocial por parte de MLR)
É difícil não discernir que a divisão, neste momento, é tiro nos próprios pés dos professores. E, se o uso de meios mediáticos para as contestações à Plataforma Sindical não é procura de autopromoção (não quero ser tentada a pensar isso), será então irrealismo e/ou inexperiência?

quinta-feira, abril 17, 2008

Não cresças tão depressa...

Porque hoje é 5ª feira, dia em que a vou sempre buscar à escola, dia em que jantamos sempre só as duas, dia nosso...

Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção
Senhorinha levada
Batendo palminha
Fingindo assustada
Do bicho-papão

Menininha, que graça é você
Uma coisinha assim
Começando a viver
Fique assim, meu amor
Sem crescer
Porque o mundo é ruim, é ruim
E você vai sofrer de repente
Uma desilusão
Porque a vida é somente
Seu bicho-papão

Fique assim, fique assim
Sempre assim
E se lembre de mim
Pelas coisas que eu dei
E também não se esqueça de mim
Quando você souber enfim
De tudo o que eu amei

Vinicius de Moraes

_________

Voz: Toquinho

quarta-feira, abril 16, 2008

Chaplin faria anos hoje




Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

Charles Chaplin (1889-1977) in O Grande Ditador

Em jeito de adenda...


Ai, o ponteiro da tortura

naquela sala

que a matemática tornava mais escura

em vez de iluminá-la.

Felizmente só o nada-de-mim ficava lá dentro

O resto corria no pátio-em-que-nos-sonhamos,

pássaro a aprender os cálculos do vento

aos saltos do chão para os ramos.

(...)


José Gomes Ferreira


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Poema completo: aqui

terça-feira, abril 15, 2008

Memórias de alunos problemáticos - III

Vasco

Foi meu aluno no nono ano. Com 16 anos, perto dos 17, já tinha vivências diferentes dos colegas de turma, tais como sair frequentemente à noite até altas horas.

Falador e contestatário, percebi logo que teria que usar tacto e bastante presença de espírito ao chamar-lhe a atenção ou mesmo repreendê-lo, senão ele facilmente resvalaria para algum incidente disciplinar. Mas não levámos muito tempo a estabelecer uma boa relação, e o curioso deste caso é que foi a matemática - em que ele vinha com fundas lacunas e bastante desistente - que tornou o Vasco um aluno algo original nessa minha disciplina.

O Vasco assumia declaradamente que não estudava nem fazia tpcs, tinha outros interesses a ocupar-lhe o tempo, no entanto tinha uma considerável intuição para a matemática e um excelente cálculo mental, o seu raciocínio acabava por ser notável na turma, no que a idade também ajudava. Negava teimosamente que pudesse recuperar nas lacunas que trazia, era renitente em aceitar os meus apoios, mas resolvia por vezes problemas à sua maneira, fugindo aos procedimentos que não dominava, abstraía-se dos processos que os colegas seguiam e acabava por chegar às soluções correctas. E o meu estímulo quando tinha esses sucessos foi conquistando nele momentos de empenhamento nas aulas cada vez mais frequentes. Os seus testes começaram a ser positivos e nisso já não regrediu nunca, embora mantivessem características muito 'à Vasco', pois ele lia-os e decidia logo quais os itens que nem tentaria e deixaria em branco. Um dos motivos por que eu disse acima que se tornou um aluno original, diferente do comum, era o facto de se ter tornado um bom aluno nalgumas unidades do programa e um desastre em certos conteúdos que punha de parte devido às lacunas de anos anteriores - embora, claro, tivesse colmatado algumas essenciais, sem o que não teria sido possível alcançar nível positivo, por interessantes que fossem as estratégias em que se metia e com as quais conseguia resolver certos problemas. (Não resisto a dizer que o Vasco se integraria bem nessas ideias tontas que alguns atribuem ao "eduquês", segundo as quais o ensino seria centrado nos interesses dos alunos, com o programa a seu gosto. Mas isto foi só uma piadinha minha, entre parêntesis, àcerca de tolices que já vi serem atribuídas ao tal "eduquês", embora eu nunca tenha visto colega algum praticar tal coisa)

Outra coisa incomum que me acontecia com o Vasco era de vez em quando deter-me junto dele a conversar sobre a sua vida, as suas vivências e as suas perspectivas, com a aula a decorrer, enquanto os colegas trabalhavam - coisa incomum, pois normalmente se queremos conversar com um aluno fazêmo-lo após a aula. Mas o Vasco era diferente, era como que um aluno mais velho, ainda que com garotices à mistura, inicialmente tendência mesmo para mau comportamento, por isso o englobei em "alunos problemáticos".

Na aprovação do Vasco no final do ano pesou bastante a Matemática, e eu trouxe esta memória - não antiga, já havia exames no 9º ano, que ele fez sem riscos - porque é uma memória que me faz sorrir até com algum divertimento, pois aquela matemática do Vasco era engraçada, boa numas 'coisas' mas um desastre nalgumas outras.

segunda-feira, abril 14, 2008

...

George Seurat (1883). Le arc-en-ciel.


Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
Que há pouco chorou.
Helena Kolody

sexta-feira, abril 11, 2008

Memórias de alunos problemáticos - II

Eles eram 13, os mais "cadastrados" da escola. Esta ainda era só de 2º Ciclo, mas eles tinham 14, 15 anos, um ou outro a caminho dos 16. Já há tempos lhes dediquei dois posts, mas, dado que encetei este título - memórias de alunos problemáticos -, não consigo deixar de me reportar àquela memória antes de trazer outras, pois é talvez a mais forte da minha vida profissional, e foi o projecto mais "louco" em que me meti no âmbito dessa mesma vida.
Não vou reescrever o que já escrevi, basta seguir os links: Aos "Engenhocas" - Uma memória (I) e Aos "Engenhocas" - Uma memória (II)
Do primeiro desses dois posts, transcrevo somente esta consideração final: dê-se-lhes responsabilidades, confie-se quando afirmam que as aceitam, e eles superam-se e revelam-se. E, do segundo, também o final: Confio que experiências de valorização, em que sobretudo tenham oportunidade de se sentirem valorizados aos seus próprios olhos, não são inúteis.

Mas quero acrescentar agora uma outra consideração - ou talvez seja uma pergunta...

Há iniciativas que uma pequenina equipa de professores consegue levar a cabo uma ou duas vezes, mas seria irrealista pensar que poderiam os mesmos professores continuarem a repeti-la em muitos mais anos lectivos, a não ser que se alargassem as condições e os recursos humanos. Porque, ao assumir-se a responsabilidade de certo tipo de iniciativas, é necessário dedicar-lhes bastante tempo para além do horário de trabalho e manter grande disponibilidade. No caso dos Engenhocas (nome que os próprios escolheram para o seu grupo), que eram de turmas diferentes e não eram nossos alunos (nossos - equipa de quatro professoras), o tempo semanal e comum de 50 minutos que nos foi concedido era praticamente simbólico, só encontros com eles e outras formas de comunicação requeriam muito, tanto mais que tínhamos como decisivo que se mantivessem sempre com pequenos projectos distribuídos consoante os perfis dos moços - isso era decisivo para o sucesso da iniciativa ao menos em termos de integração na escola e de cessarem os comportamentos problemáticos.
No entanto, é possível e bastante mais fácil promover e concretizar iniciativas mais simples e mais pontuais sob as mesmas perspectivas (que a experiência até demonstrou não serem meras crenças de professores ou de "eduquês"), perspectivas tais como as que se subentendem no que acima transcrevi dos meus próprios posts anteriores. Contudo, uma das constatações que fui fazendo ao longo da minha vida profissional foi a de morrerem certas experiências (com alunos problemáticos e com quaisquer outros), tidas como "mais arrojadas" ou simplesmente diferentes das rotinas instaladas, quando os respectivos promotores mudam de escola ou as cessam por qualquer outro motivo, ao invés de ficarem nas escolas como património de experiências a aproveitar, a alargar e a continuar, ainda que mais simples devido a escassez de condições.
Porquê? Nunca compreendi bem, o que sei é que esse facto, que tantas vezes se verifica, acaba por desiludir e levar professores a começarem a pouco e pouco a diminuir os seus empreendimentos para a escola e a preferirem fechá-los entre as quatro paredes da sua sala de aula, onde não há resistências de adultos e onde vale sempre a pena investir trabalho e tempo - e entusiasmo também.

domingo, abril 06, 2008

Memórias de alunos problemáticos - I

Agostinho

Foi pelos finais da década de 70 do anterior século. O Agostinho era meu aluno no 2º Ciclo, eu era a directora de turma.
Ele não era um aluno violento, nem propriamente o que se chama malcriado. Mas era muito agitado, nas aulas falava a despropósito talvez por necessidade de chamar a atenção, causava nelas pequenos desacatos e, no recreio, mais e maiores.
Como acontece em geral com os directores de turma, comigo era mais dócil. No entanto, eu andava com ele na cabeça, pensando como resolver as queixas que recebia de professores e funcionários, quase sempre só orais pois, com excepção de um professor com quem o Agostinho entrara um tanto em conflito, todos procuravam lidar com ele com muita paciência dado que pressentiam nele uma perturbação emocional cujas causas não eram perceptíveis. Eu já recebera manifestações de preocupação de um ou outro encarregado de educação inquieto porque aquele aluno prejudicava o funcionamento das aulas, mas as crianças da turma também achavam, como os professores, que devia haver algum problema, talvez em casa, e, num dia em que o Agostinho faltara e eu falara com elas pedindo que ajudassem o colega a andar calmo e a integrar-se, a turma já estava disponível para isso.
Vivia só com a mãe, uma senhora com pouca instrução mas mãe preocupada e dedicada, e o ambiente social, embora economicamente baixo, não era degradado. A mãe era mãe solteira e o Agostinho nunca conhecera o pai, mas não falava dele, o assunto não parecia presente no seu espírito.

Não alongo este relato, passo já para o dia em que se revelou a causa - ou uma das causas - do comportamento do menino. Aconteceu na minha própria aula que o Agostinho se levantou de repente atirando ao ar o material escolar e começando a fazer o mesmo com o dos colegas de mesa. Ao dirigir-me de imediato a ele, ainda fugiu para o meio da sala, repetindo "setôra, deixe-me, setôra deixe-me" e outras frases de que já não me lembro, em estado de grande agitação. Consegui reconduzi-lo ao lugar com a ajuda de duas ou três crianças a que fizera sinal para ajudarem, não porque houvesse propriamente resistência física da parte do Agostinho (embora fosse alto e parecesse um pouco mais velho do que os seus 11 anos), mais como quem apazigua um estado de espírito fora de si. E o resto da aula decorreu com os colegas de grupo procurando acalmá-lo e integrá-lo no trabalho. Creio que não passou pela cabeça de nenhum dos alunos que eu devesse ter expulsado o colega da aula ou mencionado sequer alguma sanção - o estado perturbado do Agostinho era evidente.
À saída, tinha a mãe do Agostinho à minha espera. Estava perturbada e chorava. O que acontecera fora que descobrira nessa manhã que o filho trazia por dentro da camisa, encostada ao peito, uma fotografia do pai - uma fotografia de que a senhora mal se lembrava de existir em casa e que o menino encontrara no fundo de uma gaveta sem ter feito qualquer comentário ao achado. A mãe deduzira que ele traria a foto consigo há algum tempo sem nada dizer, e, nessa manhã, o filho ficara muito perturbado pela descoberta da mãe.
O Conselho Directivo já conhecia bem o Agostinho, ele já tivera repreensões registadas propostas por mim. Encetou de imediato diligências para um acompanhamento psicológico - tal apoio ainda não existia nas escolas e já não me lembro por intermédio de quem ou de que instituição local foi conseguido -, ajudei a mãe a convencer o Agostinho a aceitar o acompanhamento e, passado algum tempo, o menino começou a pouco e pouco a andar mais sereno.

Nota final:
Este nem foi um caso muito difícil de ultrapassar. Trago para aqui esta memória porque, sendo dos princípios da minha vida profissional (embora já efectiva), penso hoje (tanto mais que, sendo a minha memória muito má para nomes, ela guarda ainda o deste aluno) que terá contribuído para que eu olhasse sempre os casos de alunos problemáticos - meus alunos ou outros com que contactei - procurando empaticamente perceber o que estava por detrás dos maus comportamentos, ou no íntimo das crianças mesmo que pouco conscientemente nelas (o que, aliás, creio que quase todos os professores tentam perceber). E, se em muitos casos as causas são facilmente detectáveis pelos degradados meios sociais e familiares em que nasceram e crescem, nem em todos é assim, como não era no caso do Agostinho.

______
Adenda:
Curiosa coincidência!... Eu, que me lembro de bastantes alunos, mesmo antigos, mas não dos seus nomes, guardo na memória o nome deste e de outro "aluno problemático", de tempo posterior, também esse, por coincidência, de nome Agostinho - um dos 13 Engenhocas de que já falei algures e não deixarei de voltar a falar se se seguirem mais memórias com o título deste post.

Regressando às minhas memórias? (Ponto prévio)

Hum... não me parece que seja bem um regresso... talvez só uma breve passagem por algumas memórias...

De tanto se falar agora de maus comportamentos de alunos a propósito de um caso filmado cujo vídeo foi mostrado ao país até à exaustão e causou uma overdose de comentários e debates, é natural que me viessem à mente memórias de alunos problemáticos - alunos que tive, outros com quem contactei nas escolas onde estive.

Jornalistas, comentadores, professores, psicólogos, políticos e até juristas discutiram ou pronunciaram-se. Por mim, não me vou meter nem por teorias nem por análises do referido caso, para mais tendo escassos dados sobre o contexto de aula e de escola em que ocorreu. E, se por associação de ideias me veio à mente o tema alunos problemáticos, as minhas memórias quase nada têm a ver com o episódio mencionado. Apenas estou a recordar alunos, e, com este cantinho tão abandonado enquanto cantinho de memórias, porque não descrever dois ou três casos?

Se ainda estivesse na escola, as memórias que escreveria seriam da véspera, ou da semana passada - não era preciso serem desactualizadas. Mas... memórias são isso mesmo: memórias.

quarta-feira, abril 02, 2008

Testemunhos de estudantes

Nada que não saibamos, mas em que é necessário reflectir.

Recortes deste vídeo (enviado por um amigo, mas que não é novo na blogosfera)

Clicar para ampliar



quarta-feira, março 19, 2008

E para não deixar uma página em branco...

...enquanto permaneço expectante sobre a 'coisa' educativa, fica um poema...

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade, Mãos dadas.

terça-feira, março 18, 2008

Vaidosa ou envergonhada?

Hoje recebi um telefonema da Ensino Magazine a convidar-me para comparecer em Castelo Branco (não anotei a data) para receber o 2º prémio de um concurso de sites - não, não tem a ver com o blogue, trata-se de uma minha velhinha página para alunos. A conversa ao princípio parecia de tontos, eu não me lembro nada de ter concorrido (nem me vejo a fazê-lo), provavelmente alguém o fez por mim, tinham os meus dados todos, até a idade - que indiscrição, eu costumo deixá-la em branco! ;o)
Criei o site em mil novecentos e noventa e tal (não sei precisar), há que tempos que está abandonado. É verdade que na altura teve alguma divulgação, por exemplo a APM referenciou-o, e o 'visual' até estava engraçado devido à ajuda, nesse aspecto, do meu amigo Francisco Cerqueira (ajuda que não está omitida na página), mas isso era naquela altura, essas coisas de visuais e técnicas de construção ficam ultrapassadas muito depressa.
E não é que lá estou eu, mais a minha página web - ali!!!

Isto até vem a propósito da velocidade a que evoluem as novas tecnologias, nomeadamente nos instrumentos e técnicas para construção de páginas web. Nessa altura eu ainda usava o velhote FontPage mais umas inclusões à mão de javascripts (digo "ainda" porque há poucos meses pus uma paginazita na net - Lógica para Todos, mas não ponho link porque foi uma experiência mais para tentar manejar o xhtml), essas técnicas estão ultrapassadas, e até designs que são engraçados numa dada altura ficam absolutamente fora de moda ao fim de dois ou três anos.

Mas... pronto, embora dividida entre ficar vaidosa ou ficar envergonhada - e claro que envergonhada não é pela dita página, é porque fico sem jeito com "prémios" -, agradeço o prémio e partilho-o aqui.

______
Adenda
Esqueci-me de dizer que o prémio também tem forma material, é um telemóvel. (Mas o meu não é arcaico, ainda não está a precisar de substituição ;o) )

sábado, março 15, 2008

Pensando em voz alta (nas últimas posições dos sindicatos)

(Pensar em voz alta/escrevendo ajuda a raciocinar)

1.
A proposta de António Vitorino de haver um período experimental no processo de avaliação de desempenho dos professores foi largamente considerada uma boa proposta (e recorde-se que AV não foi, de modo nenhum, o primeiro a apontar esse caminho). Mas, face a ela, importa que seja bem esclarecido o que significa um período experimental de um decreto.
Ora, eu não sou jurista, mas julgo que tal não significa usar umas tantas pessoas (neste caso, professores) como cobaias que possam ser (menos ainda só essas) vítimas de experiências. A ideia que tenho de um período experimental é que ele se destina a testar o processo, os métodos e os respectivos instrumentos, e a tirar conclusões sobre o que é adequado e o que não serve e até eventualmente contribua para obstáculos à seriedade e credibilidade que se deseja para uma avaliação exequível, isenta e justa. Não me tinha passado pela cabeça que desse período resultasse necessariamente avaliação de professores - então, seriam escolhidos para cobaias?! -, mas sim a avaliação do modelo. E acho que não preciso de ser jurista e saber exactamente em que termos seria decretado o período experimental para considerar que não seria lógico nem legítimo que determinados professores sofressem mesmo uma avaliação ao mesmo tempo que se tirariam conclusões sobre erros do modelo a requererem ser corrigidos antes da sua aplicação à generalidade dos professores.

2.
Não compreendo o argumento do ME de não poderem deixar de ser avaliados os professores contratados e os que estão em condições de progressão no presente ano lectivo (estes, aliás, num muito pequeno número, segundo ouvi Jorge Pedreira dizer).
Há algum impedimento legal a que os contratos sejam renovados segundo as normas que vigoravam anteriormente, dispensando também, portanto, avaliação neste ano lectivo dos respectivos professores?
Quanto aos que estão em condições de progredir, lembro-me do sucedido quando esteve instituída a candidatura ao então 8º escalão (e lembro-me muito bem pois fui abrangida por ela). Esperámos muitos meses para que os nossos currículos pormenorizados e trabalhos de natureza educacional fossem analisados e fôssemos chamados a exame, mas o atraso não nos trouxe prejuízo significativo em termos remuneratórios pois foi simplesmente decidido pelo governo o pagamento do aumento salarial por acesso ao 8º escalão com rectroactivos reportados ao momento em que atingíramos as condições de mudança de escalão.

3.
Da reunião negocial de ontem entre ME e FENPROF, declarou Mário Nogueira, em nome desta, a não aceitação do que o ME propôs. (Pelo pouco que li, creio que também a FNE tomou posição semelhante). Dispenso-me de resumir as declarações de MG, todos já as conhecemos.
Não as ouvi sem algumas interrogações iniciais cá para comigo mesma (daí o título deste post). Depois reflecti e, além das considerações anteriores, perguntei-me o que é isso de "procedimentos mínimos" de que fala o ME. Volto a dizer que não sou jurista, gostava que algum jurista viesse a público explicar que figura legal é essa de aplicação simplificada de um decreto-lei, ou de procedimentos mínimos na aplicação do mesmo. E concluí que os sindicatos não podiam deixar de tomar a posição que tomaram (ainda que corram o risco de à primeira vista parecer intransigência quando se pretende transigência por parte do ME), pois de facto um decreto ou se aplica, ou se revoga, ou se suspende, não me consta que exista a figura legal da tal aplicação simplificada mediante "procedimentos mínimos" (agravada ainda por simplificação ao critério de cada escola, em nome dessa palavra autonomia que agora anda a servir para tudo, e com todos os riscos de critérios desiguais entre os professores de escolas diferentes)

Nota: Relembro que disse estar apenas a pensar em voz alta, até nem é meu costume pronunciar-me antes de ler as propostas e respectivos fundamentos divulgados com precisão nos locais e documentos próprios - locais que não são a comunicação social, mas nesta já ouvi directamente Jorge Pedreira e Mário Nogueira após a reunião. Assim, o que escrevi é o que, para já, me parece, podendo uma informação mais pormenorizada e precisa melhorar os meus raciocínios imediatos ou corrigir algumas questões sobre isto de legalidades, nomeadamente quanto ao significado legalmente correcto seja de período experimental de um decreto, seja de aplicação simplificada ou mínima do mesmo (se é que este segundo caso pode ter qualquer ponta de cabimento legal).

quinta-feira, março 13, 2008

Manifestações que não desejo

Considero um erro esse apelo que corre por mail e sms para uma manifestação de professores à porta do comício do PS no próximo sábado, no Porto, e considero que não ficará bem a quem aderir.

Considero que manifestações à porta de reuniões partidárias (como se viu uma há pouco tempo em Lisboa), inclusivamente perturbando a entrada de quem quer participar - e em reuniões partidárias incluo comícios - tiram qualquer autoridade a quem quer que seja dos promotores e participantes quando acusarem políticos ou outros de atitudes pouco democráticas.

terça-feira, março 11, 2008

domingo, março 09, 2008

Sugestão de leitura

Por acaso o nome do autor deste artigo não me é especialmente conhecido, de momento não me recordo das ideias/posições que costume ter. Simplesmente, ao ler o seu artigo de hoje no Público, achei que põe o dedo certeiro pelo menos nalgumas feridas ("equívocos", como designa o autor - José Madureira Pinto, sóciólogo e professor na universidade do Porto).
(Julgo que o artigo só é acessível online a assinantes, por isso copiei-o par aqui).

sábado, março 08, 2008

8 de Março de 2008

Também Dia Internacional da Mulher, e também o dia em que vi uma manifestação de professores que jamais imaginara ver.







E conheci pessoalmente alguns dos amigos da blogosfera, de diferentes pontos do país - por ordem de encontro, a 3za, a Tit, a Maria Lisboa, o Tsiwari e o Miguel. Conheci-os com emoção. Adorei! :)
[Graças aos telemóveis, mas não foi fácil encontrá-los assim sem ponto de encontro prévio, como se deve imaginar! Bem... a persistência é sempre fundamental ;) ]

sábado, março 01, 2008

No dia 8 participarei porque...

...porque quero uma Escola Pública que proporcione aos meus netos e a todas as crianças e adolescentes - e em igualdade de oportunidades - Ensino e Educação de qualidade. Para isso, quero que as reformas necessárias no Sistema Educativo sejam preparadas e implementadas:

- com objectivos transparentes,


- com o respeito pela mais alta prioridade do trabalho dos professores, que é o trabalho para e com os alunos,

- sem medidas precipitadas, cuja pressa origina, para além de atropelos e contradições legais, a desestabilização do funcionamento das escolas pelo lançamento de profundas mudanças com os anos lectivos já a decorrerem.

Quero, sim, uma Escola Pública exigente quanto à formação/competência dos docentes, para o que a avaliação dos mesmos deve concorrer e é necessária, mas uma avaliação de desempenho mediante um processo formativo, estimulante, credível, justo e exequível, e não um processo burocratizado e absorvente do tempo dos docentes e dos orgãos de gestão das escolas, inevitavelmente desviante da mais alta prioridade acima referida.

Quero, sim, o que contribua para o verdadeiro sucesso educativo, sem escamoteamento desse objectivo por urgências em melhorar resultados estatísticos quaisquer que sejam os significados destes e custe o que custar, mesmo que esse custo, na verdade, venha a recair na Educação e no Futuro dos alunos, seja por facilitismo, seja por economicismo e deterioração das condições de trabalho dos professores, nomeadamente condições de tempo e exequibilidade, de colaboração, de estímulo e de respeito,
e também de salvaguarda de uma gestão democrática.

domingo, fevereiro 24, 2008

Um esclarecimento que faço questão de prestar

Este meu cantinho anda muito parado desde há bastante tempo, como sabem os que me liam. E os motivos são, em parte, por alguma falta de disposição para escrever por razões da minha vida particular, mas também e sobretudo porque (como disse mais do que uma vez) não quero alterar-lhe o título, iniciei-o para guardar memórias da minha vida de professora e também numa perspectiva de partilha - memórias sobretudo da minha prática com e para os alunos -, mas a desestabilização causada nas escolas pela política do actual ME e as suas medidas em catadupa, caracterizadas muitas vezes por uma enorme precipitação (o que já de si é insensato) (logo nos primeiros tempos do mandato desta equipa ministerial escrevi mais do que uma vez sob o título "a carroça à frente dos bois") e revelando inaceitável desconhecimento do terreno onde pretendeu implementar essas medidas, para não falar do crasso erro de pensar que qualquer reforma no ensino pode ser bem sucedida sem ganhar minimamente para ela, ou para a crença nela, os principais e fundamentais intervenientes - os professores -, muito menos numa atitude pública contra eles, essa desestabilização, dizia, e para a qual o afogamento em papelada muito contribui, torna o momento nada propício a pensar e a escrever as referidas memórias.
(Talvez eu não queira mudar o título do meu blogue e a intenção de escrita que lhe está subjacente por ter esperança de que venham a cessar todas as trapalhadas em que o actual ME se tem mostrado exímio nas regulamentações das suas medidas - a cessar e a serem corrigidas por outra equipa mais competente -, regressando-se a clima e condições mais propícias a que os professores possam, e lhes deixem tempo, para centrarem as suas atenções no que é primordial e que é o trabalho efectivamente útil com e para os alunos, continuamente reflectido, auto-avaliado, renovado e desejavelmente colaborativo. Mas "só o tempo dirá", como já escrevi em título de um post)

Mas o que quero esclarecer é o seguinte:
1º - Estou aposentada, sim, mas nadinha alheada das questões da Educação-Ensino. Portanto, também nadinha alheada das legítimas lutas dos professores.
2º - Muitas vezes tenho vontade de divulgar aqui posições e movimentações (mas não deixo de o fazer por mail aos meus contactos que sejam professores não "bloguistas"), bem como de colocar sugestões de leitura de algumas entradas pelo menos de dois blogues muito activos quanto à analise crítica da actual acção do ME - entradas que, umas, proporcionam aos professores acesso e elucidação em cima da hora sobre tudo o que vai sendo emitido pelo ME, desde decretos a despachos (e não só) - e o meu destaque vai principalmente para os blogues do JMA e do PG -, outras são divulgação de importantes materiais/documentos/artigos que elucidam e são verdadeiramente formativos - e destaco novamente o JMA, que considero prestar no seu blogue um autêntico e precioso serviço público.
Mas, já que a minha opção (ou necessidade) de momento é continuar com este meu cantinho bastante parado, raramento cedo à vontade de simplesmente sugerir as referidas leituras pela razão simples de que, sendo este um blogue insignificante e menos lido ainda do que já foi quando escrevia memórias ou escrevia assiduamente, as referidas menções/divulgações que faria não se justificariam, não são precisas dado que se tornaram amplamente conhecidas.

Em suma, o que quis esclarecer a quem vai visitando este meu cantinho é que a sua (quase) paragem não significa alheamento dos problemas e da defesa da nossa Escola Pública. E não esclareço isso porque sinta qualquer necessidade de me justificar, mas apenas para manifestar a minha solidariedade, activa no que ainda está ao meu alcance, para todos os que resistem e pugnam autenticamente por uma escola pública que de verdade progrida e melhore no seu serviço pela educação e futuro de todas as crianças e todos os adolescentes, o que, aliás, é também serviço pelo progresso do nosso país.

_______
Adenda
Acrescento aos meus destaques o blogue do RM - blogue mais recente que, inclusivamente pelos materiais que disponibiliza, também constitui, a meu ver, um valioso contributo.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Do Professor e do Poeta

Completam-se hoje 11 anos sobre a morte de Rómulo de Carvalho - António Gedeão.
Já o recordei neste cantinho, no centenário do seu nascimento e noutros momentos.
Hoje deixo...

Do Professor:

Ser Professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação.”


Do poeta:

Arma Secreta

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.
Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.
A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis da furalina.
Erecta, na torre erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.