segunda-feira, abril 28, 2008

Continuando a corrente...

A Madalena desafiou-me para esta corrente, foi mesmo uma marotice escrever que "não aceitar seria uma tremenda falta de educação, de respeito e de amizade", pois não é fácil ;).
Eis o desafio: seis "coisas" que não me "importam". E depois, cada um desafia mais seis.
Se fossem coisas que me importam era muito fácil - mas, pensando bem, também não é difícil encontrar umas que não me importam. Aqui vão as seis pedidas, por ordem aleatória:

- O que os outros dizem de mim quando estão na "má língua";
- Não ter fortuna para esbanjar;

- Não ser mais velha do que sou (isto quer dizer que a idade me chateia e importa ;) )

- Futebol, quem joga, quem ganha ou perde (desde que não tenha que estar a ouvir relatos na tv)

- Problemas existenciais dos que só pensam em "trepar" na vida, especialmente dos que o fazem pisando outros;

- O que as religiões dizem que é pecado (basta-me a minha moral).

E agora passo a corrente: 3za, Tsiwari Miguel, Tit, (podem responder no Aragem), Marina, Bell

sábado, abril 26, 2008

Caminhante...

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar,
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en el mar.
(*)
Antonio Machado


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(*) Enviado pela Amélia Pais

Canções para a minha neta Inês

Ontem a minha Inês fez-me novas perguntas sobre o 25 de Abril. Ao falar-lhe das duas canções que foram senhas naquela noite, dei-me conta de que ela não conhecia a Grândola - imperdoável da nossa parte. Ouviu-a e falei-lhe então do Zeca, e do Adriano também. Fiquei comovida com a sua especial atenção e com os seus olhos emocionados ao ouvir o Adriano na Trova do Vento que Passa. Por isso aqui deixo para ela essa canção, e também uma canção especial do Zeca.


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Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa


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José Afonso - Canção de embalar


sexta-feira, abril 25, 2008

25 de Abril

Com as mãos das minhas filhas pequeninas nas minhas, imaginei um país novo para elas.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.


Foi sonho?

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.



Foi esperança!



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Em itálico: excertos de As portas que Abril abriu, Ary dos Santos.

quinta-feira, abril 24, 2008

Saturação... tédio... vazio...

...de ligar a televisão, de abrir o jornal, e mais a avaliação que professores querem e não querem, e etc. e tal.

Já só leio os títulos, de tanto que se escreve, uns a dizer o mesmo, outros a dizer outro mesmo.

(Hoje devo ter acordado mal disposta, queiram desculpar-me. Se calhar foi por ter acordado com a rádio a falar da ratificação do Tratado de Lisboa...)


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No campo queimado
ainda uma leve fumaça
Tronco resistindo

Eunice Arruda


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Rosto no vidro
uma criança eterna
olha o vazio


Alphonse Piché
Tradução de Carlos Seabra

segunda-feira, abril 21, 2008

...

A criança que fui chora na estrada

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.


Fernando Pessoa

domingo, abril 20, 2008

No teu aniversário

Tens flores no dia dos teus anos e todos os dias. E flores também no meu cantinho...


Renoir (1910-17). Roses dans un vase



Para a minha filha Ana Heloísa


sábado, abril 19, 2008

Momentos... pensamentos

Está vento lá fora. É primavera mas parece inverno. Fecho a janela e deixo poemas no vidro.

Quando já nada nos resta

Quando já nada nos resta
É que o mudo sol é bom.
O silêncio da floresta
É de muitos sons sem som.

Basta a brisa pra sorriso.
Entardecer é quem esquece.
Dá nas folhas o impreciso,
E mais que o ramo estremece.

Ter tido esperança fala
Como quem conta a cantar.
Quando a floresta se cala
Fica a floresta a falar.


Fernando Pessoa, Poesias Inéditas


Talvez que seja a brisa

Talvez que seja a brisa
Que ronda o fim da estrada,
Talvez seja o silêncio,
Talvez não seja nada...

Que coisa é que na tarde
Me entristece sem ser?
Sinto como se houvesse
Um mal que acontecer.

Mas sinto o mal que vem
Como se já passasse...
Que coisa é que faz isto
Sentir-se e recordar-se?


Fernando Pessoa, Poesias Inéditas

sexta-feira, abril 18, 2008

Recordando Bento de Jesus Caraça...

...no dia em que faria anos

As ilusões nunca são perdidas. Elas significam o que há de melhor na vida dos homens e dos povos. Perdidos são os cépticos que escondem sob uma ironia fácil a sua impotência para compreender e agir, perdidos são aqueles períodos da história em que os melhores, gastos e cansados, se retiram da luta, sem enxergarem no horizonte nada a que se entreguem, caída uma sombra uniforme sobre o pântano estéril da vida sem formas.

Bento de Jesus Caraça (1901-1948) in A Cultura Integral do Indivíduo-Problema Central do Nosso Tempo. Conferência proferida em 1933

Obras que destaco:

Opiniões diferentes na construção de consensos

Recebi por mail um comentário ao meu post anterior. Com autorização da autora, a Amélia Pais, cujos comentários tenho sempre em apreço, transcrevo-o, começando por salientar: "Mas ainda não é tarde: que futuramente uns e outros se entendam"

«Não estará a ser demasiado dura com quem não partilha a sua convicção de que o acordo ou entendimento foi uma coisa boa ou razoável? Eu conheço várias pessoas que exprimiram o seu descontentamento, a meu ver (mas essa é a minha opinião) e desencanto publicamente. Não terão o direito de o fazer (estamos num país em que, pelo menos, continua a haver liberdade de expressão) sem serem apodados de irresponsáveis, divisionistas ou desejosos de auto-promoção? Afinal não deveria a Plataforma ter ouvido as vozes de quem não pensava exactamente como os sindicatos - os movimentos cívicos - antes de assumir entendimentos? Mas ainda não é tarde: que futuramente uns e outros se entendam. Como a amiga, preocupa-me muito a situação do ensino e dos colegas no activo.»

Autopromoção, irrealismo ou inexperiência?

Novas associações e movimentos espontâneos tiveram recentemente um papel importante na mobilização dos professores. Contribuiram para unir, é de desejar que não contribuam agora para dividir. Que se sentisse nesses movimentos algumas 'alergias sincicais', tudo bem, há muitos professores que não são sindicalizados. Mas que esqueçam agora qual o 'alvo' comum, isso já é perigoso.
MLR começara prepotentemente por querer desvirtuar os sindicatos, os encontros não eram negociações, eram uma farsa negocial por parte do ME. Mas, pela primeira vez na história do nosso sindicalismo docente, uma plataforma sindical manteve-se unida, não se desfez a meio do percurso para uma das partes conceder uma assinatura que a grande maioria dos docentes repudiava - e esta união já foi em si uma vitória. Também vitória foi o facto de, finalmente, MLR ter que admitir que tinha que negociar no verdadeiro sentido do termo (ainda que, por enquanto pelo menos, pouco mais do que um 3º período lectivo com a indispensável serenidade). E nenhum professor, sindicalizado ou não, bem como nenhum movimento ou associação, pode esquecer que só os sindicatos têm legalmente poder/direito negocial.
MLR praticamente ignorava o direito à negociação, todos os pontos dos seus projectos eram inegociáveis com excepção de pequenos pormenores (já não se lembram?). Mas, nisso os professores venceram-na, nisso os 100 000 obrigaram a Ministra a recuar. E eu pergunto agora, perante críticas à Plataforma Sindical pelo entendimento assinado com o Ministério da Educação - críticas que procuram fazer-se ouvir amplamente na comunicação social -, que entenderiam por negociação os autores dessas críticas se tivessem assento na mesa negocial. (Decerto também se faziam ouvir quando todos denunciavam a recusa de atitude negocial por parte de MLR)
É difícil não discernir que a divisão, neste momento, é tiro nos próprios pés dos professores. E, se o uso de meios mediáticos para as contestações à Plataforma Sindical não é procura de autopromoção (não quero ser tentada a pensar isso), será então irrealismo e/ou inexperiência?

quinta-feira, abril 17, 2008

Não cresças tão depressa...

Porque hoje é 5ª feira, dia em que a vou sempre buscar à escola, dia em que jantamos sempre só as duas, dia nosso...

Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção
Senhorinha levada
Batendo palminha
Fingindo assustada
Do bicho-papão

Menininha, que graça é você
Uma coisinha assim
Começando a viver
Fique assim, meu amor
Sem crescer
Porque o mundo é ruim, é ruim
E você vai sofrer de repente
Uma desilusão
Porque a vida é somente
Seu bicho-papão

Fique assim, fique assim
Sempre assim
E se lembre de mim
Pelas coisas que eu dei
E também não se esqueça de mim
Quando você souber enfim
De tudo o que eu amei

Vinicius de Moraes

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Voz: Toquinho

quarta-feira, abril 16, 2008

Chaplin faria anos hoje




Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

Charles Chaplin (1889-1977) in O Grande Ditador

Em jeito de adenda...


Ai, o ponteiro da tortura

naquela sala

que a matemática tornava mais escura

em vez de iluminá-la.

Felizmente só o nada-de-mim ficava lá dentro

O resto corria no pátio-em-que-nos-sonhamos,

pássaro a aprender os cálculos do vento

aos saltos do chão para os ramos.

(...)


José Gomes Ferreira


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Poema completo: aqui

terça-feira, abril 15, 2008

Memórias de alunos problemáticos - III

Vasco

Foi meu aluno no nono ano. Com 16 anos, perto dos 17, já tinha vivências diferentes dos colegas de turma, tais como sair frequentemente à noite até altas horas.

Falador e contestatário, percebi logo que teria que usar tacto e bastante presença de espírito ao chamar-lhe a atenção ou mesmo repreendê-lo, senão ele facilmente resvalaria para algum incidente disciplinar. Mas não levámos muito tempo a estabelecer uma boa relação, e o curioso deste caso é que foi a matemática - em que ele vinha com fundas lacunas e bastante desistente - que tornou o Vasco um aluno algo original nessa minha disciplina.

O Vasco assumia declaradamente que não estudava nem fazia tpcs, tinha outros interesses a ocupar-lhe o tempo, no entanto tinha uma considerável intuição para a matemática e um excelente cálculo mental, o seu raciocínio acabava por ser notável na turma, no que a idade também ajudava. Negava teimosamente que pudesse recuperar nas lacunas que trazia, era renitente em aceitar os meus apoios, mas resolvia por vezes problemas à sua maneira, fugindo aos procedimentos que não dominava, abstraía-se dos processos que os colegas seguiam e acabava por chegar às soluções correctas. E o meu estímulo quando tinha esses sucessos foi conquistando nele momentos de empenhamento nas aulas cada vez mais frequentes. Os seus testes começaram a ser positivos e nisso já não regrediu nunca, embora mantivessem características muito 'à Vasco', pois ele lia-os e decidia logo quais os itens que nem tentaria e deixaria em branco. Um dos motivos por que eu disse acima que se tornou um aluno original, diferente do comum, era o facto de se ter tornado um bom aluno nalgumas unidades do programa e um desastre em certos conteúdos que punha de parte devido às lacunas de anos anteriores - embora, claro, tivesse colmatado algumas essenciais, sem o que não teria sido possível alcançar nível positivo, por interessantes que fossem as estratégias em que se metia e com as quais conseguia resolver certos problemas. (Não resisto a dizer que o Vasco se integraria bem nessas ideias tontas que alguns atribuem ao "eduquês", segundo as quais o ensino seria centrado nos interesses dos alunos, com o programa a seu gosto. Mas isto foi só uma piadinha minha, entre parêntesis, àcerca de tolices que já vi serem atribuídas ao tal "eduquês", embora eu nunca tenha visto colega algum praticar tal coisa)

Outra coisa incomum que me acontecia com o Vasco era de vez em quando deter-me junto dele a conversar sobre a sua vida, as suas vivências e as suas perspectivas, com a aula a decorrer, enquanto os colegas trabalhavam - coisa incomum, pois normalmente se queremos conversar com um aluno fazêmo-lo após a aula. Mas o Vasco era diferente, era como que um aluno mais velho, ainda que com garotices à mistura, inicialmente tendência mesmo para mau comportamento, por isso o englobei em "alunos problemáticos".

Na aprovação do Vasco no final do ano pesou bastante a Matemática, e eu trouxe esta memória - não antiga, já havia exames no 9º ano, que ele fez sem riscos - porque é uma memória que me faz sorrir até com algum divertimento, pois aquela matemática do Vasco era engraçada, boa numas 'coisas' mas um desastre nalgumas outras.

segunda-feira, abril 14, 2008

...

George Seurat (1883). Le arc-en-ciel.


Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
Que há pouco chorou.
Helena Kolody

sexta-feira, abril 11, 2008

Memórias de alunos problemáticos - II

Eles eram 13, os mais "cadastrados" da escola. Esta ainda era só de 2º Ciclo, mas eles tinham 14, 15 anos, um ou outro a caminho dos 16. Já há tempos lhes dediquei dois posts, mas, dado que encetei este título - memórias de alunos problemáticos -, não consigo deixar de me reportar àquela memória antes de trazer outras, pois é talvez a mais forte da minha vida profissional, e foi o projecto mais "louco" em que me meti no âmbito dessa mesma vida.
Não vou reescrever o que já escrevi, basta seguir os links: Aos "Engenhocas" - Uma memória (I) e Aos "Engenhocas" - Uma memória (II)
Do primeiro desses dois posts, transcrevo somente esta consideração final: dê-se-lhes responsabilidades, confie-se quando afirmam que as aceitam, e eles superam-se e revelam-se. E, do segundo, também o final: Confio que experiências de valorização, em que sobretudo tenham oportunidade de se sentirem valorizados aos seus próprios olhos, não são inúteis.

Mas quero acrescentar agora uma outra consideração - ou talvez seja uma pergunta...

Há iniciativas que uma pequenina equipa de professores consegue levar a cabo uma ou duas vezes, mas seria irrealista pensar que poderiam os mesmos professores continuarem a repeti-la em muitos mais anos lectivos, a não ser que se alargassem as condições e os recursos humanos. Porque, ao assumir-se a responsabilidade de certo tipo de iniciativas, é necessário dedicar-lhes bastante tempo para além do horário de trabalho e manter grande disponibilidade. No caso dos Engenhocas (nome que os próprios escolheram para o seu grupo), que eram de turmas diferentes e não eram nossos alunos (nossos - equipa de quatro professoras), o tempo semanal e comum de 50 minutos que nos foi concedido era praticamente simbólico, só encontros com eles e outras formas de comunicação requeriam muito, tanto mais que tínhamos como decisivo que se mantivessem sempre com pequenos projectos distribuídos consoante os perfis dos moços - isso era decisivo para o sucesso da iniciativa ao menos em termos de integração na escola e de cessarem os comportamentos problemáticos.
No entanto, é possível e bastante mais fácil promover e concretizar iniciativas mais simples e mais pontuais sob as mesmas perspectivas (que a experiência até demonstrou não serem meras crenças de professores ou de "eduquês"), perspectivas tais como as que se subentendem no que acima transcrevi dos meus próprios posts anteriores. Contudo, uma das constatações que fui fazendo ao longo da minha vida profissional foi a de morrerem certas experiências (com alunos problemáticos e com quaisquer outros), tidas como "mais arrojadas" ou simplesmente diferentes das rotinas instaladas, quando os respectivos promotores mudam de escola ou as cessam por qualquer outro motivo, ao invés de ficarem nas escolas como património de experiências a aproveitar, a alargar e a continuar, ainda que mais simples devido a escassez de condições.
Porquê? Nunca compreendi bem, o que sei é que esse facto, que tantas vezes se verifica, acaba por desiludir e levar professores a começarem a pouco e pouco a diminuir os seus empreendimentos para a escola e a preferirem fechá-los entre as quatro paredes da sua sala de aula, onde não há resistências de adultos e onde vale sempre a pena investir trabalho e tempo - e entusiasmo também.

domingo, abril 06, 2008

Memórias de alunos problemáticos - I

Agostinho

Foi pelos finais da década de 70 do anterior século. O Agostinho era meu aluno no 2º Ciclo, eu era a directora de turma.
Ele não era um aluno violento, nem propriamente o que se chama malcriado. Mas era muito agitado, nas aulas falava a despropósito talvez por necessidade de chamar a atenção, causava nelas pequenos desacatos e, no recreio, mais e maiores.
Como acontece em geral com os directores de turma, comigo era mais dócil. No entanto, eu andava com ele na cabeça, pensando como resolver as queixas que recebia de professores e funcionários, quase sempre só orais pois, com excepção de um professor com quem o Agostinho entrara um tanto em conflito, todos procuravam lidar com ele com muita paciência dado que pressentiam nele uma perturbação emocional cujas causas não eram perceptíveis. Eu já recebera manifestações de preocupação de um ou outro encarregado de educação inquieto porque aquele aluno prejudicava o funcionamento das aulas, mas as crianças da turma também achavam, como os professores, que devia haver algum problema, talvez em casa, e, num dia em que o Agostinho faltara e eu falara com elas pedindo que ajudassem o colega a andar calmo e a integrar-se, a turma já estava disponível para isso.
Vivia só com a mãe, uma senhora com pouca instrução mas mãe preocupada e dedicada, e o ambiente social, embora economicamente baixo, não era degradado. A mãe era mãe solteira e o Agostinho nunca conhecera o pai, mas não falava dele, o assunto não parecia presente no seu espírito.

Não alongo este relato, passo já para o dia em que se revelou a causa - ou uma das causas - do comportamento do menino. Aconteceu na minha própria aula que o Agostinho se levantou de repente atirando ao ar o material escolar e começando a fazer o mesmo com o dos colegas de mesa. Ao dirigir-me de imediato a ele, ainda fugiu para o meio da sala, repetindo "setôra, deixe-me, setôra deixe-me" e outras frases de que já não me lembro, em estado de grande agitação. Consegui reconduzi-lo ao lugar com a ajuda de duas ou três crianças a que fizera sinal para ajudarem, não porque houvesse propriamente resistência física da parte do Agostinho (embora fosse alto e parecesse um pouco mais velho do que os seus 11 anos), mais como quem apazigua um estado de espírito fora de si. E o resto da aula decorreu com os colegas de grupo procurando acalmá-lo e integrá-lo no trabalho. Creio que não passou pela cabeça de nenhum dos alunos que eu devesse ter expulsado o colega da aula ou mencionado sequer alguma sanção - o estado perturbado do Agostinho era evidente.
À saída, tinha a mãe do Agostinho à minha espera. Estava perturbada e chorava. O que acontecera fora que descobrira nessa manhã que o filho trazia por dentro da camisa, encostada ao peito, uma fotografia do pai - uma fotografia de que a senhora mal se lembrava de existir em casa e que o menino encontrara no fundo de uma gaveta sem ter feito qualquer comentário ao achado. A mãe deduzira que ele traria a foto consigo há algum tempo sem nada dizer, e, nessa manhã, o filho ficara muito perturbado pela descoberta da mãe.
O Conselho Directivo já conhecia bem o Agostinho, ele já tivera repreensões registadas propostas por mim. Encetou de imediato diligências para um acompanhamento psicológico - tal apoio ainda não existia nas escolas e já não me lembro por intermédio de quem ou de que instituição local foi conseguido -, ajudei a mãe a convencer o Agostinho a aceitar o acompanhamento e, passado algum tempo, o menino começou a pouco e pouco a andar mais sereno.

Nota final:
Este nem foi um caso muito difícil de ultrapassar. Trago para aqui esta memória porque, sendo dos princípios da minha vida profissional (embora já efectiva), penso hoje (tanto mais que, sendo a minha memória muito má para nomes, ela guarda ainda o deste aluno) que terá contribuído para que eu olhasse sempre os casos de alunos problemáticos - meus alunos ou outros com que contactei - procurando empaticamente perceber o que estava por detrás dos maus comportamentos, ou no íntimo das crianças mesmo que pouco conscientemente nelas (o que, aliás, creio que quase todos os professores tentam perceber). E, se em muitos casos as causas são facilmente detectáveis pelos degradados meios sociais e familiares em que nasceram e crescem, nem em todos é assim, como não era no caso do Agostinho.

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Adenda:
Curiosa coincidência!... Eu, que me lembro de bastantes alunos, mesmo antigos, mas não dos seus nomes, guardo na memória o nome deste e de outro "aluno problemático", de tempo posterior, também esse, por coincidência, de nome Agostinho - um dos 13 Engenhocas de que já falei algures e não deixarei de voltar a falar se se seguirem mais memórias com o título deste post.

Regressando às minhas memórias? (Ponto prévio)

Hum... não me parece que seja bem um regresso... talvez só uma breve passagem por algumas memórias...

De tanto se falar agora de maus comportamentos de alunos a propósito de um caso filmado cujo vídeo foi mostrado ao país até à exaustão e causou uma overdose de comentários e debates, é natural que me viessem à mente memórias de alunos problemáticos - alunos que tive, outros com quem contactei nas escolas onde estive.

Jornalistas, comentadores, professores, psicólogos, políticos e até juristas discutiram ou pronunciaram-se. Por mim, não me vou meter nem por teorias nem por análises do referido caso, para mais tendo escassos dados sobre o contexto de aula e de escola em que ocorreu. E, se por associação de ideias me veio à mente o tema alunos problemáticos, as minhas memórias quase nada têm a ver com o episódio mencionado. Apenas estou a recordar alunos, e, com este cantinho tão abandonado enquanto cantinho de memórias, porque não descrever dois ou três casos?

Se ainda estivesse na escola, as memórias que escreveria seriam da véspera, ou da semana passada - não era preciso serem desactualizadas. Mas... memórias são isso mesmo: memórias.

quarta-feira, abril 02, 2008

Testemunhos de estudantes

Nada que não saibamos, mas em que é necessário reflectir.

Recortes deste vídeo (enviado por um amigo, mas que não é novo na blogosfera)

Clicar para ampliar



quarta-feira, março 19, 2008

E para não deixar uma página em branco...

...enquanto permaneço expectante sobre a 'coisa' educativa, fica um poema...

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade, Mãos dadas.

terça-feira, março 18, 2008

Vaidosa ou envergonhada?

Hoje recebi um telefonema da Ensino Magazine a convidar-me para comparecer em Castelo Branco (não anotei a data) para receber o 2º prémio de um concurso de sites - não, não tem a ver com o blogue, trata-se de uma minha velhinha página para alunos. A conversa ao princípio parecia de tontos, eu não me lembro nada de ter concorrido (nem me vejo a fazê-lo), provavelmente alguém o fez por mim, tinham os meus dados todos, até a idade - que indiscrição, eu costumo deixá-la em branco! ;o)
Criei o site em mil novecentos e noventa e tal (não sei precisar), há que tempos que está abandonado. É verdade que na altura teve alguma divulgação, por exemplo a APM referenciou-o, e o 'visual' até estava engraçado devido à ajuda, nesse aspecto, do meu amigo Francisco Cerqueira (ajuda que não está omitida na página), mas isso era naquela altura, essas coisas de visuais e técnicas de construção ficam ultrapassadas muito depressa.
E não é que lá estou eu, mais a minha página web - ali!!!

Isto até vem a propósito da velocidade a que evoluem as novas tecnologias, nomeadamente nos instrumentos e técnicas para construção de páginas web. Nessa altura eu ainda usava o velhote FontPage mais umas inclusões à mão de javascripts (digo "ainda" porque há poucos meses pus uma paginazita na net - Lógica para Todos, mas não ponho link porque foi uma experiência mais para tentar manejar o xhtml), essas técnicas estão ultrapassadas, e até designs que são engraçados numa dada altura ficam absolutamente fora de moda ao fim de dois ou três anos.

Mas... pronto, embora dividida entre ficar vaidosa ou ficar envergonhada - e claro que envergonhada não é pela dita página, é porque fico sem jeito com "prémios" -, agradeço o prémio e partilho-o aqui.

______
Adenda
Esqueci-me de dizer que o prémio também tem forma material, é um telemóvel. (Mas o meu não é arcaico, ainda não está a precisar de substituição ;o) )

sábado, março 15, 2008

Pensando em voz alta (nas últimas posições dos sindicatos)

(Pensar em voz alta/escrevendo ajuda a raciocinar)

1.
A proposta de António Vitorino de haver um período experimental no processo de avaliação de desempenho dos professores foi largamente considerada uma boa proposta (e recorde-se que AV não foi, de modo nenhum, o primeiro a apontar esse caminho). Mas, face a ela, importa que seja bem esclarecido o que significa um período experimental de um decreto.
Ora, eu não sou jurista, mas julgo que tal não significa usar umas tantas pessoas (neste caso, professores) como cobaias que possam ser (menos ainda só essas) vítimas de experiências. A ideia que tenho de um período experimental é que ele se destina a testar o processo, os métodos e os respectivos instrumentos, e a tirar conclusões sobre o que é adequado e o que não serve e até eventualmente contribua para obstáculos à seriedade e credibilidade que se deseja para uma avaliação exequível, isenta e justa. Não me tinha passado pela cabeça que desse período resultasse necessariamente avaliação de professores - então, seriam escolhidos para cobaias?! -, mas sim a avaliação do modelo. E acho que não preciso de ser jurista e saber exactamente em que termos seria decretado o período experimental para considerar que não seria lógico nem legítimo que determinados professores sofressem mesmo uma avaliação ao mesmo tempo que se tirariam conclusões sobre erros do modelo a requererem ser corrigidos antes da sua aplicação à generalidade dos professores.

2.
Não compreendo o argumento do ME de não poderem deixar de ser avaliados os professores contratados e os que estão em condições de progressão no presente ano lectivo (estes, aliás, num muito pequeno número, segundo ouvi Jorge Pedreira dizer).
Há algum impedimento legal a que os contratos sejam renovados segundo as normas que vigoravam anteriormente, dispensando também, portanto, avaliação neste ano lectivo dos respectivos professores?
Quanto aos que estão em condições de progredir, lembro-me do sucedido quando esteve instituída a candidatura ao então 8º escalão (e lembro-me muito bem pois fui abrangida por ela). Esperámos muitos meses para que os nossos currículos pormenorizados e trabalhos de natureza educacional fossem analisados e fôssemos chamados a exame, mas o atraso não nos trouxe prejuízo significativo em termos remuneratórios pois foi simplesmente decidido pelo governo o pagamento do aumento salarial por acesso ao 8º escalão com rectroactivos reportados ao momento em que atingíramos as condições de mudança de escalão.

3.
Da reunião negocial de ontem entre ME e FENPROF, declarou Mário Nogueira, em nome desta, a não aceitação do que o ME propôs. (Pelo pouco que li, creio que também a FNE tomou posição semelhante). Dispenso-me de resumir as declarações de MG, todos já as conhecemos.
Não as ouvi sem algumas interrogações iniciais cá para comigo mesma (daí o título deste post). Depois reflecti e, além das considerações anteriores, perguntei-me o que é isso de "procedimentos mínimos" de que fala o ME. Volto a dizer que não sou jurista, gostava que algum jurista viesse a público explicar que figura legal é essa de aplicação simplificada de um decreto-lei, ou de procedimentos mínimos na aplicação do mesmo. E concluí que os sindicatos não podiam deixar de tomar a posição que tomaram (ainda que corram o risco de à primeira vista parecer intransigência quando se pretende transigência por parte do ME), pois de facto um decreto ou se aplica, ou se revoga, ou se suspende, não me consta que exista a figura legal da tal aplicação simplificada mediante "procedimentos mínimos" (agravada ainda por simplificação ao critério de cada escola, em nome dessa palavra autonomia que agora anda a servir para tudo, e com todos os riscos de critérios desiguais entre os professores de escolas diferentes)

Nota: Relembro que disse estar apenas a pensar em voz alta, até nem é meu costume pronunciar-me antes de ler as propostas e respectivos fundamentos divulgados com precisão nos locais e documentos próprios - locais que não são a comunicação social, mas nesta já ouvi directamente Jorge Pedreira e Mário Nogueira após a reunião. Assim, o que escrevi é o que, para já, me parece, podendo uma informação mais pormenorizada e precisa melhorar os meus raciocínios imediatos ou corrigir algumas questões sobre isto de legalidades, nomeadamente quanto ao significado legalmente correcto seja de período experimental de um decreto, seja de aplicação simplificada ou mínima do mesmo (se é que este segundo caso pode ter qualquer ponta de cabimento legal).

quinta-feira, março 13, 2008

Manifestações que não desejo

Considero um erro esse apelo que corre por mail e sms para uma manifestação de professores à porta do comício do PS no próximo sábado, no Porto, e considero que não ficará bem a quem aderir.

Considero que manifestações à porta de reuniões partidárias (como se viu uma há pouco tempo em Lisboa), inclusivamente perturbando a entrada de quem quer participar - e em reuniões partidárias incluo comícios - tiram qualquer autoridade a quem quer que seja dos promotores e participantes quando acusarem políticos ou outros de atitudes pouco democráticas.

terça-feira, março 11, 2008

domingo, março 09, 2008

Sugestão de leitura

Por acaso o nome do autor deste artigo não me é especialmente conhecido, de momento não me recordo das ideias/posições que costume ter. Simplesmente, ao ler o seu artigo de hoje no Público, achei que põe o dedo certeiro pelo menos nalgumas feridas ("equívocos", como designa o autor - José Madureira Pinto, sóciólogo e professor na universidade do Porto).
(Julgo que o artigo só é acessível online a assinantes, por isso copiei-o par aqui).

sábado, março 08, 2008

8 de Março de 2008

Também Dia Internacional da Mulher, e também o dia em que vi uma manifestação de professores que jamais imaginara ver.







E conheci pessoalmente alguns dos amigos da blogosfera, de diferentes pontos do país - por ordem de encontro, a 3za, a Tit, a Maria Lisboa, o Tsiwari e o Miguel. Conheci-os com emoção. Adorei! :)
[Graças aos telemóveis, mas não foi fácil encontrá-los assim sem ponto de encontro prévio, como se deve imaginar! Bem... a persistência é sempre fundamental ;) ]

sábado, março 01, 2008

No dia 8 participarei porque...

...porque quero uma Escola Pública que proporcione aos meus netos e a todas as crianças e adolescentes - e em igualdade de oportunidades - Ensino e Educação de qualidade. Para isso, quero que as reformas necessárias no Sistema Educativo sejam preparadas e implementadas:

- com objectivos transparentes,


- com o respeito pela mais alta prioridade do trabalho dos professores, que é o trabalho para e com os alunos,

- sem medidas precipitadas, cuja pressa origina, para além de atropelos e contradições legais, a desestabilização do funcionamento das escolas pelo lançamento de profundas mudanças com os anos lectivos já a decorrerem.

Quero, sim, uma Escola Pública exigente quanto à formação/competência dos docentes, para o que a avaliação dos mesmos deve concorrer e é necessária, mas uma avaliação de desempenho mediante um processo formativo, estimulante, credível, justo e exequível, e não um processo burocratizado e absorvente do tempo dos docentes e dos orgãos de gestão das escolas, inevitavelmente desviante da mais alta prioridade acima referida.

Quero, sim, o que contribua para o verdadeiro sucesso educativo, sem escamoteamento desse objectivo por urgências em melhorar resultados estatísticos quaisquer que sejam os significados destes e custe o que custar, mesmo que esse custo, na verdade, venha a recair na Educação e no Futuro dos alunos, seja por facilitismo, seja por economicismo e deterioração das condições de trabalho dos professores, nomeadamente condições de tempo e exequibilidade, de colaboração, de estímulo e de respeito,
e também de salvaguarda de uma gestão democrática.

domingo, fevereiro 24, 2008

Um esclarecimento que faço questão de prestar

Este meu cantinho anda muito parado desde há bastante tempo, como sabem os que me liam. E os motivos são, em parte, por alguma falta de disposição para escrever por razões da minha vida particular, mas também e sobretudo porque (como disse mais do que uma vez) não quero alterar-lhe o título, iniciei-o para guardar memórias da minha vida de professora e também numa perspectiva de partilha - memórias sobretudo da minha prática com e para os alunos -, mas a desestabilização causada nas escolas pela política do actual ME e as suas medidas em catadupa, caracterizadas muitas vezes por uma enorme precipitação (o que já de si é insensato) (logo nos primeiros tempos do mandato desta equipa ministerial escrevi mais do que uma vez sob o título "a carroça à frente dos bois") e revelando inaceitável desconhecimento do terreno onde pretendeu implementar essas medidas, para não falar do crasso erro de pensar que qualquer reforma no ensino pode ser bem sucedida sem ganhar minimamente para ela, ou para a crença nela, os principais e fundamentais intervenientes - os professores -, muito menos numa atitude pública contra eles, essa desestabilização, dizia, e para a qual o afogamento em papelada muito contribui, torna o momento nada propício a pensar e a escrever as referidas memórias.
(Talvez eu não queira mudar o título do meu blogue e a intenção de escrita que lhe está subjacente por ter esperança de que venham a cessar todas as trapalhadas em que o actual ME se tem mostrado exímio nas regulamentações das suas medidas - a cessar e a serem corrigidas por outra equipa mais competente -, regressando-se a clima e condições mais propícias a que os professores possam, e lhes deixem tempo, para centrarem as suas atenções no que é primordial e que é o trabalho efectivamente útil com e para os alunos, continuamente reflectido, auto-avaliado, renovado e desejavelmente colaborativo. Mas "só o tempo dirá", como já escrevi em título de um post)

Mas o que quero esclarecer é o seguinte:
1º - Estou aposentada, sim, mas nadinha alheada das questões da Educação-Ensino. Portanto, também nadinha alheada das legítimas lutas dos professores.
2º - Muitas vezes tenho vontade de divulgar aqui posições e movimentações (mas não deixo de o fazer por mail aos meus contactos que sejam professores não "bloguistas"), bem como de colocar sugestões de leitura de algumas entradas pelo menos de dois blogues muito activos quanto à analise crítica da actual acção do ME - entradas que, umas, proporcionam aos professores acesso e elucidação em cima da hora sobre tudo o que vai sendo emitido pelo ME, desde decretos a despachos (e não só) - e o meu destaque vai principalmente para os blogues do JMA e do PG -, outras são divulgação de importantes materiais/documentos/artigos que elucidam e são verdadeiramente formativos - e destaco novamente o JMA, que considero prestar no seu blogue um autêntico e precioso serviço público.
Mas, já que a minha opção (ou necessidade) de momento é continuar com este meu cantinho bastante parado, raramento cedo à vontade de simplesmente sugerir as referidas leituras pela razão simples de que, sendo este um blogue insignificante e menos lido ainda do que já foi quando escrevia memórias ou escrevia assiduamente, as referidas menções/divulgações que faria não se justificariam, não são precisas dado que se tornaram amplamente conhecidas.

Em suma, o que quis esclarecer a quem vai visitando este meu cantinho é que a sua (quase) paragem não significa alheamento dos problemas e da defesa da nossa Escola Pública. E não esclareço isso porque sinta qualquer necessidade de me justificar, mas apenas para manifestar a minha solidariedade, activa no que ainda está ao meu alcance, para todos os que resistem e pugnam autenticamente por uma escola pública que de verdade progrida e melhore no seu serviço pela educação e futuro de todas as crianças e todos os adolescentes, o que, aliás, é também serviço pelo progresso do nosso país.

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Adenda
Acrescento aos meus destaques o blogue do RM - blogue mais recente que, inclusivamente pelos materiais que disponibiliza, também constitui, a meu ver, um valioso contributo.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Do Professor e do Poeta

Completam-se hoje 11 anos sobre a morte de Rómulo de Carvalho - António Gedeão.
Já o recordei neste cantinho, no centenário do seu nascimento e noutros momentos.
Hoje deixo...

Do Professor:

Ser Professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação.”


Do poeta:

Arma Secreta

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.
Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.
A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis da furalina.
Erecta, na torre erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Momentos meus... Deixo só...

...dois dos "meus" haikus

Doente de viagem,
meus sonhos vagueiam
pelo campo seco.


Bashô
Eu e meu aquecedor —
Lá fora o Senhor do Feudo
Passando ensopado.

Issa

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

E é assim que um Primeiro Ministro debate...

Que nos debates na Assembleia da República haja trocas de "piropos" viperinos, isso "faz parte" (até sabemos que, depois dessas trocas, muitos vão de braço dado tomar café). Mas o que retive do noticiário, não por relato, mas ao vivo (até fui depois ouvir à net para anotar as palavras), foi o tão baixo nível com que Sócrates se descartou de uma pergunta que, por respeito pelos professores, alunos e famílias, e pela Educação, deveria tratar com ao menos um mínimo de seriedade.

Porque a questão de os resultados dos alunos influenciarem (e não pouco) a avaliação dos professores é uma questão séria, e mesmo os que concordem não podem deixar de reconhecer que não é uma questão ligeira, muito menos "de pormenor" (como Sócrates apelidou as críticas da oposição ao sistema de avaliação de desempenho de professores - ao que está a ser implementado, pois ainda não ouvi nenhuma voz contra os professores serem avaliados).


Pergunta
(de Paulo Portas, como poderia ser de qualquer outra bancada da AR):
"O senhor como professor, sabendo que a nota do aluno conta para a progressão na carreira, o que vai fazer? Dá-lhe a nota que é merecida, respeitando a verdade escolar e arriscando ser prejudicado na carreira, ou vai inflacionar as notas para poder defender a sua posição?"

Resposta do Primeiro-Ministro: "Eu não sou seu professor, sr. Deputado. Porque, se fosse seu professor, sr. Deputado, em não lhe poderia dar em nenhuma circunstância uma nota positiva. É que eu não gosto da sua demagogia, sr. Deputado".

Eu também não gosto da demagogia desse e doutros Senhores Deputados, bem como não gosto da sua, Senhor Primeiro Ministro. Mas a demagogia é uma das "artes" dos políticos (disso nunca nos livramos), e o seu tratamento de questões sérias, talvez julgando mostrar-se jocoso para a sua bancada rir e aplaudir e limitando-se a isso, podia ao menos não ter sido uma demagogia de tão baixo nível pelo desrespeito da sua (não)resposta - não desrespeito para com o deputado PP ou qualquer outro, pois essas "tiradas" já sabemos e eu já disse acima que "fazem parte" dos vossos debates e não impedem os autores de irem depois de braço dado tomar café, mas desrespeito para com questões sérias da Educação.

sábado, fevereiro 09, 2008

Finalmente algumas boas notícias

Já estão divulgadas, inclusivamente na blogosfera, mas não posso deixar de vir aqui congratular-me. Bem está a ser preciso animar a malta!
(Espero que o link funcione, fui "roubar" o endereço através do Terrear - por aqui)
P.S.: Alterei o link para o Parecer na sequência do problema referido nos comentários .

-
"Tribunal aceita acção para travar avaliação docente"

___________
Adenda
E mais uma notícia neste fim de semana:

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Ei!

(…)
Ei você,
Não os ajude a enterrar a luz
Não se entregue sem lutar
(…)
Ei você,
Não me diga que não há nenhuma esperança
Juntos nós resistimos, separados nós caímos




(Sou do tempo dos discos de vinil. Se calhar estou desfasada nisto dos 'tempos' ao deixar essa tradução acima. Mas... pronto, apetece-me deixar a canção.)




In YouTube: "Hey You - Pink Floyd (Vinyl Recorded)"

domingo, fevereiro 03, 2008

Carnaval...

Os alunos estão em férias de Carnaval. Portanto, nas escolas é período de Carnaval.

O Sr. Presidente da República, interpelado pelos jornalistas sobre uma determinada notícia e recusando comentá-la, acrescentou que estamos em dias de nos distrairmos, de deixar preocupações para aproveitarmos os dias de Carnaval (não foram exactamente estas as palavras, não as anotei, mas o sentido foi esse).

Fiquei a pensar cá com os meus botões que, então, devemos fazer umas feriazinhas nas preocupações com a Educação. Mas senti-me um tanto perplexa... É que eu julgava que o nosso querido Ministério da Educação tinha instituído o carnaval na Educação para o ano todo!

Bem... devo andar confusa...


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Pronto... Volto-me para a arte (mas confesso que não escolho ao acaso)...



M. Cassatt (1873). On the Balcony During Carnival

W. Homer (1877). Dressing for the Carnival

Eu e o meu blogue

Ao escrever o post anterior, reparei que era o 501º. Fiz umas contas por alto e, atendendo a que pouco escrevo desde há muitos meses, e que há mais tempo ainda (antes de assumir que passaria a postagens bastante espaçadas) andei frequentemente a avisar intervalos e pausas, concluí que na fase inicial estive mesmo motivada para a escrita das memórias de prof !
Não, a desmotivação posterior não foi por me ter aposentado; foi, sim, por as minhas memórias de professora serem agredidas pelo actual ministério da educação e também pelo clima que esse ministério gerou nas escolas - assim, preferi protegê-las.

Entretanto, o template do blogue ficara uma misturada quando consegui passar para o novo blogguer sem perder o template que tinha e respectiva personalização, pelo que, para aproveitar a novidade bem prática dos marcadores nos posts, tive que introduzir uns códigos (inspirados nuns da 3za), o que deu a caixinha preta que está por aí à direita. Até embirrei que só marcaria posts que tivessem a ver com memórias mesmo do 'terreno' - memórias mesmo dos alunos ou relacionadas com eles - pois fora para os alunos, ou por eles, que sempre trabalhara. No entanto, mais tarde acrescentei ao índice uma 2ª parte com outros posts, mas só escolhi mais uns pouquitos para etiquetar.


Mas, há dois dias, ao querer deixar à 3za o link para uma canção, ainda me vi "às aranhas" para encontrar o post onde a tinha. E então pensei cá para comigo que tenho um cantinho que também é de recordações - recordações para mim mesma -, além dos meus momentos ou estados de espírito que nele ficaram de forma mais ou menos metafórica, com alguns dos "meus" haikus, também com alguns dos "meus" quadros e algumas das "minhas" canções, mas tudo isso quase tão difícil de encontrar, quando me apetecer ou precisar, como encontrar agulha num palheiro, como se costuma dizer. E lá fui percorrer outra vez aquela 'tralha' toda para pôr marcadores em mais umas dezenas de posts, o que, no caso do meu template, implica também ter que nele acrescentar à mão mais umas linhas de código, uma para cada marcador com nova designação.

Isto para comentar que eu misturo novas funcionalidades destas tecnologias com velhas quando me dá para ser um tanto conservadora de umas velhas, e depois continuo teimosa na mistura, mesmo que com mais trabalho como neste caso. Enfim... caturrices ;)

terça-feira, janeiro 29, 2008

Mais uma perda

O Correio da Educação cessa.
Ando demasiado triste (e atónita) com o que anda a acontecer à Educação e, por isso - talvez também por estar já fora da escola e, ao olhar para os anos todos em que a minha vida profissional decorreu, me perguntar como foi possível chegar-se ao que anda a acontecer - acabei por ficar sem vontade de escrever, as palavras faltam-me. Assim, digo apenas que andamos a ter muitas perdas, que nos deixam mais pobres. Agora, o fim do Correio da Educação é mais uma. :(
Bem-haja,
José Matias Alves, por tudo o que deu nele.
Sei que vai continuar a dar, e bem-haja também por isso.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Só o tempo dirá...

O ar que se respira no interior das escolas públicas já não é o que respiro no meu quotidiano, mas parece que ele me entra pela casa dentro quando leio mais e mais legislação que vai surgindo, projectos desta e regulamentações. E o que pressinto é uma atmosfera que gera desgastes, que empurra para inversões das prioridades que seriam desejáveis, que sufoca o gosto por educar e ensinar e que até torna impossíveis objectivos necessários (basta pensar no decreto da avaliação do desempenho dos professores e nos prazos absurdos determinados no respectivo decreto regulamentar).

Se outros vêem no que está a acontecer uma "reforma", eu talvez esteja com perda de visão, pois só consigo ver uma correria de decretos, lançados com a precipitação que decorre sempre das pressas, alguns cerceando objectivos expressos noutros (veja-se a questão da autonomia), mais uns tornando a sua operacionalização e a sua prática séria num quebra-cabeças (veja-se a já referida avaliação de desempenho), e mais uns ainda requerendo debate para que não há tempo (veja-se a mudança de modelo de gestão, e até o novo programa de Matemática do Ensino Básico homologado sem que quase ninguém se tenha dado conta). E uma imensa papelada a ter que se elaborar para que a inspecção veja, mesmo que só dê para ler e arquivar.

Porque tempo é preciso, e tempo é o que cada vez menos anda a restar nas escolas para ponderar, discutir, pensar nos que deveriam ser os destinatários de tantas medidas cujas justificações nem sequer começam por ser claras - não é preciso dizer que nada fará sentido se os destinatários não forem os alunos, a bem de um sistema de educação-ensino de efectiva qualidade para todas as crianças e todos os adolescentes do nosso país.

E só o tempo dirá qual o saldo de tudo isto que está a acontecer em nome da, e na, nossa escola pública.


Entretanto, qualquer gosto meu por este cantinho tem vindo a eclipsar-se. Porque o que eu gostaria de falar (ou recordar) nele seria principalmente e directamente sobre ensinar, educar, formar crianças e adolescentes, discutir sobre como encorajar, motivar, envolver, disciplinar e incutir hábitos de trabalho e esforço, enfim, sobre coisas destas que a sociedade tem parecido andar a assumir tão pouco. Mas agora instila-se nessa mesma sociedade pouco respeito pelos professores ao mesmo tempo que se desmoralizam os melhores deles e se tomam medidas que, ao invés de estimularem o trabalho colaborativo e formativo, ameaçam punições esvaziadas de conteúdo formativo ou de condições para a vertente formativa sem a qual nenhuma avaliação de professores, por si, melhorará o trabalho de ninguém.


Termino repetindo o que já disse acima: Só o tempo dirá qual o saldo de tudo isto que está a acontecer em nome da, e na, nossa escola pública.


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W.G.Barry (1864-1941). Time Flies


sábado, janeiro 05, 2008

Novo Modelo de Gestão das Escolas - Debate

Copio para "primeiro plano" as minhas adendas ao post anterior:

(1)
E, para (mau) começo do Novo Ano, temos o projecto de Novo Modelo de Gestão das Escolas. Por agora, remeto os meus eventuais leitores para aqui e para aqui, sugerindo veementemente que acompanhem os posts do Paulo Guinote que se seguirão a esses.

(2)
Ainda sobre a Gestão das Escolas, destaco também os posts de JMA - aqui - e o debate no Aragem.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Em jeito de balanço

No início de novo ano é costume fazerem-se balanços sobre o ano findo. Não me meto a tentar fazer um sobre a política educativa, pois seria exaustivo e repetitivo do muito que foi escrito na blogosfera "docente". Limito-me a umas considerações simples e somente sobre alguns dos aspectos dessa política.

Todos sabemos que a prioridade de Maria de Lurdes Rodrigues como ministra da Educação foi de natureza economicista, o que, por muito que se compreenda o problema do deficit, se afigurou desde logo muito pouco conciliável com uma verdadeira prioridade à Educação no sentido de uma efectiva melhoria do nosso sistema de ensino público, tão necessária ao progresso do país. Mas, até é possível que Maria de Lurdes Rodrigues também tenha tido algumas boas intenções com vista a essa melhoria. De qualquer modo, boas intenções não bastam, elas precisariam de ser baseadas quer num profundo conhecimento das questões em causa - o que não consigo vislumbrar que esta ministra tenha - e das realidades das escolas, quer numa visão de futuro a médio prazo e respectivo planeamento, em vez de uma precipitação em medidas avulsas, numa pressa de mostrar trabalho e de propagandear resultados mediante números obtidos a quase qualquer preço e de significados pouco claros.
Como diz Reijo Laukkannen (perito e conselheiro do Ministério da Educação da Finlândia, citado no artigo que podem ler aqui): "É crucial compreender que em educação não é possível reformar de um momento para o outro. Leva tempo, muita paciência e coerência. Primeiro que nada é preciso decidir aonde se quer ir". E diz também: "Temos vindo a trabalhar nisto desde finais dos anos 60 e desde o início tomamos a direcção que hoje seguimos. Um rumo que mantivemos apesar da mudança de sucessivos governos". (Destaques meus)

Do montão de decretos, despachos e ofícios emanados do nosso actual Ministério da Educação, vou referir-me apenas a duas medidas tomadas. Escolho-as porque, para elas, os professores estariam totalmente disponíveis e receptivos em princípio, não tivesse Maria de Lurdes Rodrigues uma enorme falta de noção de quanto é incompatível com um trabalho docente preparado e exercido com a competência, a iniciativa, a criatividade e a dedicação que a profissão requer para ser bem sucedida, de quanto isso é incompatível, dizia, com, por um lado, a burocracia, a papelada em resmas, por outro lado, com a falta de convicção dos professores em medidas tomadas arrogantemente no desprezo pela sua opinião fundada no conhecimento das realidades das escolas e na experiência, e, por outro lado ainda, com pressões ameaçadoras como se a baixa do insucesso e do abandono escolar apenas dependesse dos docentes e devessem estes (e só estes) ser punidos pelo não alcance dos objectivos desejados.

A primeira medida que quero referir é a da avaliação de desempenho. A generalidade dos professores já reconhecia a necessidade de implementação de uma avaliação de verdade; mas também sabia que não é fácil instituir um sistema de avaliação sério e justo, garantindo a isenção e sendo exequível nas condições de trabalho das escolas. Além de que uma avaliação que não tenha condições para ser essencialmente formativa não será, decerteza, uma avaliação útil ao próprio sistema de ensino.
Mas, Maria de Lurdes Rodrigues achou que tinha a chave na mão. E não parece ter qualquer noção lúcida do que contribui para um factor muito importante, que é o de um bom "clima" de escola, e do que, ao contrário, pode gerar "climas" insuportáveis e perniciosos.
E não vale a pena dizer mais sobre o decreto da avaliação de desempenho, pois todos conhecem e têm já descrito os erros e as dificuldades de cumprimento sério desse decreto.

A outra medida que refiro é a do plano de acção para a Matemática. Ela abrange directamente apenas os professores dessa disciplina, mas todos os outros reconhecem quer a necessidade de um reforço de investimento nela, quer o facto de o insucesso em Matemática não ter a ver apenas com essa disciplina nem ter só consequências no âmbito dos respectivos conhecimentos propriamente ditos.
Também aqui não vale a pena lembrar a questão da formação de professores - todos se recordam decerto do novo regime de formação para a docência. (Mas voltarei ao assunto noutro post). Detenho-me agora apenas no plano de cada escola para a Matemática.
Um aspecto, embora talvez menos relevante, foi o das minúcias tão ao gosto deste ME - que muito passou a falar de autonomia das escolas depois de as ter enchido de imposições e sugestões pormenorizadas. Estou a lembrar-me de um pequeno exemplo, uma sugestão que pressionou muitos professores e escolas a encherem os alunos, até à saturação, de matemática e mais matemática nas horas destinadas ao Estudo Acompanhado e à Área de Projecto, mais aulas de apoio mesmo que os alunos só precisem de se esforçar um bocadinho, mais salas de estudo de frequência obrigatória, enfim, um contributozito para aumentar a já alargada aversão àquela disciplina em vez de serem os professores estimulados a, com autonomia e condições de trabalho colaborativo, investirem em métodos e estratégias que criem nos alunos gosto pela mesma e gosto pelo 'pensar'.
Outro aspecto, que considero de efeitos muito perniciosos, foi o da pressão sempre ameaçadora àcerca dos resultados de exames e provas de aferição, como se a aquisição de competências pelos alunos fosse uma questão de treino para exames. Pressionados e muitos não conseguindo escapar ao medo dos efeitos desses resultados na sua própria avaliação e na opinião pública, dificilmente os (bons) professores mantêm com segurança e firmeza os objectivos que sabem serem primordiais no processo de ensino-aprendizagem daquela disciplina, a importância que atribuem à avaliação formativa e até os critérios de avaliação que consideram correctos. Acresce que não vi preocupação do ME ou dos seus colaboradores em que sejam estudados (porque não junto dos alunos?) o comportamento dos nossos estudantes em situação de exame, nas idades do Ensino Básico, e os múltiplos factores que possivelmente contribuem para desempenhos nessa situação inferiores aos habituais, já que tantos obtêm nas provas de exame classificações inferiores às que habitualmente obtêm na avaliação interna.

Quanto a tudo o mais nas medidas de Maria de Lurdes Rodrigues, limito-me a repetir que (na minha opinião) o mais crasso e profundo erro desta ministra foi o de ignorar arrogantemente que nenhuma reforma pode ser bem sucedida sem se ganhar uma convicção mínima nessa reforma por parte dos professores, e muito menos impondo-a contra eles. E, se é verdade que não há só professores muito bons ou bons, se é verdade que também há os assim assim e até maus mesmo, se é ainda verdade que não sabemos contabilizar isso, outra verdade se constatou já - a maioria dos melhores professores foram desmoralizados, assoberbados de acréscimos de trabalho de utilidade duvidosa, e bastantes foram injustiçados na sua carreira. O sistema educativo não se podia dar ao luxo de perder o entusiasmo e empenho de muitos dos seus melhores docentes, mas nem cuidado houve para que tal não acontecesse ou não aconteça a curto prazo.

Termino voltando ao artigo sobre a Finlândia acima indicado, não porque não saiba que a diferença abissal entre as condições desse país e as do nosso não se ultrapassam do pé para a mão nem pouco mais ou menos, mas porque as medidas viáveis a curto prazo não deveriam deixar de se inserir numa visão de futuro para a qual se procure caminhar a passo e passo (mas essa visão é ideologicamente variável, claro... - infelizmente para os que nascem em condições desfavorecidas):
"O ano de 1985 regista um importante marco na reforma da educação finlandesa. Naquele ano o Governo decidiu eliminar o sistema conhecido como 'streaming', muito expandido na Europa, segundo o qual as crianças de idade mais avançada são classificadas em diferentes níveis e tipos de educação de acordo com o seu rendimento. (...) Mas simultaneamente decidimos concentrar o grosso do nosso orçamento da educação nos primeiros anos da secundária (nos estudantes de 12 a 15 anos). Cancelar o 'streaming' sem aumentar os recursos para contar com mais professores e organizar turmas com menos alunos (...). Teríamos obtido um sistema de oportunidades iguais, mas de duvidosa qualidade." (destaque meu)
Dispenso-me de comentar - acho que não é preciso...
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Adenda
E, para (mau) começo do Novo Ano, temos o projecto de Novo Modelo de Gestão das Escolas. Por agora, remeto os meus eventuais leitores para aqui e para aqui, sugerindo veementemente que acompanhem os posts do Paulo Guinote que se seguirão a esses.

Adenda 2
Ainda sobre a Gestão das Escolas, destaco também os posts de JMA - aqui - e o debate no Aragem.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

... E não desistam de sonhos!

No início de um novo ano, imaginemos... sonhemos...

Deixo só a canção...






Ah... pensando melhor, tem que ser também na voz de John Lennon, e aproveito para um vídeo de recordações...



quarta-feira, dezembro 19, 2007

BOAS FESTAS!

Um Natal com alegria e um 2008 feliz

para todos os amigos e colegas



E como eu festejo o Natal por causa dos sonhos das crianças...


Inté... Volto no próximo ano... ;)

domingo, dezembro 09, 2007

Sugestão de leitura

(Fonte: The Economist. Tradução e adaptação de Maria Helena Henriques Marques).

O meu destaque vai para a formação de professores nos países que o PISA indicia terem melhor qualidade de ensino, particularmente o que o artigo revela sob o subtítulo Formação prática, e para o apoio extra dado por esses países aos alunos que se encontram mais atrasados.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Educação para a sustentabilidade

Estava hoje vagueando pelo portal da UNESCO (opção em espanhol) - por acaso hoje, dia em que parece que houve interpelação ao governo sobre Educação. (Digo "parece que houve" porque, numa vista de olhos ao jornal Público, o que encontrei sobre o assunto foi um destaque para Paulo Portas como se este fosse a grande e única figura do dia no que respeita à dita interpelação, e, assim, não me dei ao trabalho de procurar noutros jornais).
Lembrei-me então de fazer uma pergunta, ao ler esta breve declaração:
"El objetivo del Decenio de las Naciones Unidas de la Educación con miras al Desarrollo Sostenible (2005-2014) consiste en integrar los principios, valores y prácticas del desarrollo sostenible en todas las facetas de la educación y el aprendizaje. Esta iniciativa educativa fomentará los cambios de comportamiento necesarios para preservar en el futuro la integridad del medio ambiente y la viabilidad de la economía, y para que las generaciones actuales y venideras gocen de justicia social." (Aqui)

A minha pergunta (porque eu sou muito distraída, às vezes não me dou conta de importantes iniciativas governamentais aqui pelo nosso país), é esta: Que medidas tomou Maria de Lurdes Rodrigues com vista ao objectivo acima referido, definido pelas Nações Unidas para o decénio de 2005 a 2014?

Hum... já estou a achar que é uma pergunta ingénua e também pouco importante já que os nossos políticos não a têm feito... Nem sei o que me deu para voltar a este meu cantinho, mas, pronto... já estou em retirada!

sábado, novembro 03, 2007

... (Poema *)

A hora do cansaço

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade


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* Foi-me facultado pela Amélia Pais