quinta-feira, agosto 07, 2008

...

Minhas mesmas emoções
São coisas que me acontecem.


Fernando Pessoa

Bienvenue Soraïa!

Je t'attends! Tu me manques beaucoup, ton séjour sera petit, mais superbe :)
J'ai saudades de tes vacances au Portugal, tu as commencé à venir seule avec l'hôtesse de l'air à l'âge de six ans - tu venais joyeuse et sans peur :)))
Je vais garder cette photo ici, je me souviens souvent de ces jours à Varandinha. Et toi, tu te souviens? Regarde...



À tout à l’heure :)

Ah... On va profiter, tu vas pratiquer un peu le portugais, d'accord? ;)

quinta-feira, julho 31, 2008

Pretextos para pôr o cantinho com ar de férias

Uma vila bonita e um mar bonito à distância máxima (cerca de 200 km) que me disporia a percorrer no meu velho carrito com dona ainda convalescente. E o carrito chegou, estacionou, e só saiu do lugar para o regresso, pois trânsito e preguiça de andar a pé não são coisas para férias.

A minha maior caminhada a pé foi para descobrir esse barco, cuja história não consegui saber - não sei quando naufragou nem como foi parar ali...




Mas a caminhada de ida e volta a pé para a praia mais bonita para onde gostávamos de ir era excessiva cá para mim. Assim, eis a solução ideal: comboio para lá e a pé para cá, ou vice-versa...



Quando iniciei este blogue não acreditaria que viria a ultrapassar memórias de professora pondo nele também fotos mais pessoais. Mas a verdade é que este espaço virtual me foi dando a sensação de cantinho mesmo, assim um cantinho meu onde me viesse sentar e guardar recordações - devia mudar-lhe o visual e pôr lá em cima um recanto com trepadeiras em flor, uma mesinha e um banco em pedra... Enfim, aí me deixo a mim mesma, já vestidinha para o jantar...


E mais umas fotos de férias aproveitando para partilhar esta ferramenta rápida para brincar com slideshow... (Se não virem as fotos, façam refresh)

segunda-feira, julho 21, 2008

Oito dias à beira-mar

Eu até não aprecio nada estar na praia a torrar ao sol. Mas gosto de olhar o mar e gosto da praia à tardinha.

E não vejo praia há um ano, por razões que não interessam para aqui mas que vão tornar os próximos dias num acontecimento especial para mim.

Assim, amanhã lá vou eu...
Depois espera-me o Agosto cá pela capital... ui... hei-de arranjar umas fugidinhas, senão não torro na praia mas torro neste forno por aqui!

Amigos e colegas, boas férias para todos!

quinta-feira, julho 17, 2008

Pensamentos de Verão





Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia
Matsuo Bashô

Um mar azul
pintou de branco
o voo das gaivotas.

Albano Martins

O dia lega
à noite, em testamento,
a lua.
Albano Martins

terça-feira, julho 15, 2008

Tocando em frente

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente

Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz



Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Eu nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz

domingo, julho 13, 2008

Saturação

Estou saturada de política educativa, de decretos e despachos, de reformas avulsas e de discursos inconsistentes; estou saturada de normas e mais normas, por vezes de constitucionalidade ou legalidade duvidosa; estou saturada de verbalizações de intenções sobre uma escola pública de qualidade, a pretenderem esconder o economicismo, a desconfiança nos docentes em geral e as pressas em melhorar estatísticas que tapam realidades; estou saturada de faltas de rigor, de palavras incongruentes que muito poucos desmontam, de precipitações incompetentes e burocracias desastrosas.

Enquanto isto, a criança espera, entregue a experiências perigosas para o seu futuro, ser abstracto para os políticos e ser concreto para o qual os educadores vão tendo cada vez menos tempo.
Enquanto isto, degradam-se os climas de escola e perdem-se os melhores e mais dedicados professores, sem que se acredite que as medidas tomadas venham a melhorar o trabalho dos que precisam de o melhorar.






Estou saturada, estou farta! Preciso de férias de observar esta política que dura há três anos. Vou, pois, dar férias à minha atenção aos assuntos da Educação. Por enquanto continuo por aqui, mas, até Setembro, quando me apetecer vir ao meu cantinho, será só para trazer ambientes de férias.



Aos amigos e colegas: Boas férias, boa recuperação de ânimo, retemperem bem a vontade de lutar por uma escola pública de qualidade para todos os nossos jovens!

quinta-feira, julho 10, 2008

A fraude das provas de Matemática

O Governo e o ME declararam o seu empenho em melhorar o ensino-aprendizagem da Matemática e esse empenho foi bem vindo dada a preocupação, desde há tantos anos, com as elevadas taxas de insucesso nessa disciplina. A implementação do Plano de Acção para a Matemática (PAM), por si só, teria trazido legítimas e correctas expectativas de melhoria das aprendizagens dos alunos em matemática, não fossem as pressas e as pressões para se apresentarem rapidamente estatísticas para inglês ver - melhor dizendo, para UE ver. As várias pressões da parte da Tutela foram criando dúvidas quanto a uma verdadeira melhoria na Educação Matemática das nossas crianças e jovens.

Uma das pressões, através da responsabilização dos professores (e só dos professores) pelos insucessos dos alunos, a ponto de aqueles serem penalizados na sua avaliação, não terá deixado de se reflectir numa inflação de notas por muitos deles.
Mas, a inflação indevida das notas na avaliação interna seria denunciada pelos resultados das provas nacionais, pelo que muitos professores não terão resistido a outra pressão: a de trabalharem com os alunos no treino em perguntas e problemas "do tipo que sai em exames", para o que não terá deixado de contribuir a insistência no banco de uma imensidade de itens do dito tipo, disponibilizado pelo GAVE. Ora, a Educação Matemática que se deseja para os nossos alunos não se faz por treinamento para exames.
Ainda uma terceira pressão se verificou através de uma sugestão da ministra (li-a, na altura, com os meus próprios olhos) de passarem a ser as aulas de Estudo Acompanhado e da Área de Projecto convertidas em aulas de Matemática, pelo que, em muitas escolas, essas áreas foram atribuídas tanto quanto possível a professores de Matemática a fim de passarem a ser mesmo aulas dessa disciplina. Não se tratando de reforços apenas para os alunos que de facto precisam de apoio suplementar (e muitos tiveram também aulas de apoio apesar de apenas precisarem de estar mais atentos e de se esforçarem), mas para a turma inteira, tivemos muitos alunos queixando-se de saturação com tanta matemática, o que tem efeito contrário ao desejável aumento do gosto pela mesma.

Assim, perante, por um lado, expectativas positivas quanto ao PAM, e, por outro, também interrogações sobre aspectos perniciosos, todos tínhamos direito a ter algum elemento de avaliação das medidas tomadas para essa disciplina, o país tinha direito a isso. Mas tal direito foi-nos sonegado pela significativa maior facilidade das provas, desde as de aferição dos 4º e 6º anos, ao exame do 9º. (Deixo de lado a prova do 12º porque, além de não poderem ser atribuídas melhorias nos resultados ao PAM, nunca leccionei nesse nível de ensino, há muito que estou pouco a par dos programas, pelo que só tenho visto por alto essas provas. Mas conheço os programas de Matemática do 2º e 3º ciclos como os dedos da mão e tenho analisado detalhadamente todas as provas do 9º ano desde que começaram a realizar-se, aliás cheguei a ser correctora na 1ª, de 2005)
Por muitas reservas que tenhamos quanto à leitura que se pode fazer dos resultados de uma só prova, para mais em alunos destas idades, um exame feito com critérios credíveis e fiáveis seria o elemento que teríamos para, de algum modo, avaliar efeitos das medidas tomadas quanto à Matemática. E esse elemento foi-nos recusado pela impossibilidade de comparações, pela indiscutível maior facilidade das provas em relação às dos anos anteriores.
Seria um elemento insuficiente, um exame não avalia tudo, um exame pode não avaliar verdadeiramente o essencial do que chamo Educação Matemática, mas seria o elemento possível a curto prazo, e já seria um indicador.

A Educação Matemática é muito mais do que aquisição de conhecimentos e domínio de procedimentos elaborados de que a maioria dos jovens nem irão precisar na vida adulta. Quaisquer que sejam os conteúdos dos programas (o que não quer dizer que estes sejam sempre os adequados), eles proporcionam uma coisa fundamental no ensino básico: oportunidades aos professores de fomentarem e desenvolverem cedo nos alunos gosto e hábitos de raciocinar, de iniciação no pensamento rigoroso (e na auto-exigência deste), de iniciação também na elaboração de conceitos - que se irão construindo melhor pela sua retomada cíclica -, e até de contribuição dessa educação para o próprio domínio da língua, pois rigor de pensamento e precisão de linguagem são capacidades em interacção.

Por tudo isto, são de recear efeitos perniciosos de pressões (directas e indirectas) sobre os professores, inclusive para trabalharem treinando para exames; por tudo isto, ficam receios ou dúvidas sobre a relação entre benefícios e prejuízos decorrentes das medidas e do clima criado; por tudo isto, todos os que se preocupam com educação-ensino tinham direito a começarem a ter indicadores credíveis que permitissem algum balanço. Mas o ME não teve a honestidade de se submeter a esse balanço, usou ou consentiu a facilitação das provas, o que é um insulto à nossa inteligência e lança sérias preocupações sobre o futuro quanto a uma formação de qualidade para os nossos jovens.
_______
Adenda (após os noticiários das 13h)
Senhora Ministra:
Ouvi-a recusar as acusações de facilidade do exame de Matemática do 9º ano com o argumento (o critério foi seu) de que um exame só seria demasiado fácil se as notas de excelente ultrapassassem os 5%. Perante 8,3% (contra 1,4% no ano passado), a senhora vai agora fazer esquecer essa sua afirmação?
Se a prova tivesse sido equilibrada e credível, ficaria muito bem à senhora e aos seus coadjuvantes vir dizer que os resultados continuam maus, pois é verdade. Mas já não lhes fica bem quando o dizem para salvar a face e iludir os pais e restante população quanto ao que seriam sem o facilitismo.
Prefere não se lembrar dessa afirmação que fez? Nunca pensa que, como Ministra da Educação, deveria dar o exemplo de honestidade intelectual?
Senhora Ministra, vá-se embora!

domingo, julho 06, 2008

Flores e calma numa tarde de sábado

Às vezes estou em casa a sonhar com ar puro, natureza, beleza, calma, e tudo isso se me afigura distante, como se tivesse que empreender uma caminhada longa no carrito para encontrar um lugar assim. No entanto, posso encontrar tal lugar, ainda que em miniatura, sem ter que vencer a preguiça de planear longa deslocação. E um lugar que, mesmo sendo, de certo modo, em miniatura, não deixa de ter todos aqueles ingredientes de que estou a ter necessidade.
Ontem o que fiz foi procurá-lo perto de casa - eu sabia que o tinha bem perto - para ir lavar o espírito e deixar-me invadir pela calma, a tranquilidade, a serenidade que tenho andado a precisar de beber todos os dias.
O jardim do Museu Nacional do Traje é um lugar assim, é um recanto onde se esquece o stress da cidade e o stress de coisas da vida.

(Fotos de péssima amadora, mas não vou cair em complexos por causa da minha pouca arte fotográfica!)






sábado, julho 05, 2008

;o) Avaliações (Opinião controversa, mas eu até concordo)

"Sempre deve haver avaliações. Um professor de piano que ouve um aluno seu interpretando uma peça está constantemente avaliando. Ele avalia para corrigir a performance, para que a performance fique melhor. Agora, avaliar para atribuir um número, nota, ao aluno, isso é estúpido."
Rubem Alves (Em entrevista aqui)

terça-feira, julho 01, 2008

Recordando uma canção

Há dias, como agora, em que preciso de me lembrar das flores, de falar delas, de acreditar nelas. Assim neste cantinho quieto, que não é só para pensar na Educação, é também um lugarzinho só meu.

Gosto muito desta canção. Tinha-a em vinil; depois vieram os cds, procurei-a, mas nunca encontrei nova gravação à venda. Até que, um dia, um amigo ma enviou em mp3 (eu ainda não conhecia o Emule e outros meios de obter músicas na net).
Já a deixei algures neste cantinho, mas agora, com o YouTube, (quase) tudo se encontra em vídeo.

É uma canção datada? Pois é, mas nunca há data para acreditar nas flores.
Como também nunca há data para dizer:

Quem sabe faz a hora não espera acontecer
Vem, vamos embora que esperar não é saber


Geraldo Vandré: Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores...


segunda-feira, junho 30, 2008

Apenas o prazer de ler

Acabo de ler o último livro de Mia Couto. É sempre uma delícia e um fascínio. Sempre que leio um livro de Mia Couto, acontece-me com frequência ir parando, não sei bem se a repetir, se só a contemplar as palavras. Como se o seu sentido fosse mágico, ou me hipnotizasse. Como aqui:

A casa só é nossa quando é maior que o mundo.

E há as palavras que (re)inventa e parecem imprescindíveis, insubstituíveis.
E há também, por vezes, como que um brincar com os ditos da nossa língua, fazendo deliciosamente sorrir. Como aqui:

Depois, calou-se pelos cotovelos.

Não é a primeira vez que aqui refiro uma obra de Mia Couto, que, nos últimos anos, se tornou um escritor enorme. Mas trago-o ao meu cantinho não para falar dele - não é preciso -; trago só uma emoção que a sua leitura me causa.

quinta-feira, junho 26, 2008

Momentos... (E uma pausa)

STASERA

Balaustrata di brezza

per appogiare stasera

la mia malincolia

Giuseppe Ungaretti (1916)


ESTA NOITE

Balaustrada de brisa
para amparar esta noite
minha melancolia.

Tradução de Henriqueta Lisboa


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Agradeço o poema à Amélia Pais

terça-feira, junho 24, 2008

Não resisto a comentar ao menos este item 3

Da prova de Matemática do 9º ano, 1ª chamada:

3. Numa sala de cinema, a primeira fila tem 23 cadeiras.
A segunda fila tem menos 3 cadeiras do que a primeira fila.
A terceira fila tem menos 3 cadeiras do que a segunda e assim, sucessivamente, até à última fila, que tem 8 cadeiras.
Quantas filas de cadeiras tem a sala de cinema?
Explica como chegaste à tua resposta.

(Cotação: 5 pontos)

Mal saiu do exame, o meu neto telefonou-me. Começou por dizer que a prova tinha sido fácil, acrescentando: "Até posso ter respostas erradas, mas não havia perguntas difíceis, eram todas fáceis". A seguir, assim logo mesmo pelo telefone, quis certificar-se sobre esse item 3 acima transcrito. Disse-me o enunciado e contou: "eu fiz vinte e três menos três e fui diminuindo três até chegar a oito e vi que eram seis filas. Pediam que explicasse como cheguei à resposta e então eu escrevi 23-3=20, 20-3 = 17, indiquei essas contas todas até chegar a 8. Pode ser assim? Pode ser só isto?" Um tanto incrédula sobre o enunciado, respondi-lhe que se era tal como tinha dito, estava certo, mas que depois precisava de o ler.

Faço este relato para mostrar que a perplexidade perante o item não foi só minha: até o aluno estranha que no seu exame de 9º ano apareça uma questão assim. (Ainda não tive oportunidade, mas hei-de pôr o problema à minha neta, que acabou agora o 1º Ciclo)

Para não especular sobre as intenções de quem elaborou a prova, limito-me a falar por mim: Se eu alguma vez pusesse tal questão num teste de 9º ano, das duas, uma: ou estava a considerar que tinha alunos talvez incapazes de raciocínios tão elementares, ou estava a querer oferecer um bónus de 5 pontos. E como nem uma coisa nem outra me passaria pela cabeça, fico agradecida a quem me sugira uma terceira e mais correcta razão para aquele item 3.

Nota:
O item 3 parece-me insólito, mas eu não repararia tanto nele numa outra prova em que não houvesse, como há nesta, outros itens claramente mais fáceis do que os correspondentes nas provas dos anos anteriores, incluindo mais alguns que poderiam ser propostos a alunos do 2º ciclo.
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Adenda (em 27-06-2008)
Como eu calculava, a minha neta de 10 anos, depois de perguntar se podia indicar as filas num papel, resolveu o problema e respondeu correctamente.

segunda-feira, junho 23, 2008

De regresso...



... e não é que encontrei uma prendinha do meu jardim na varanda?! Os primeiros gladíolos que consegui, depois de já ter desistido de experiências com bolbos! Terão ficado esquecidos na terra e resolveram não ficar desta vez por dar folhas estioladas, mas folhas floridas. :o)





Bem... isto é pretexto, em continuação do post anterior, para dizer que regressei, felizmente mais depressa e com mais rápida recuperação do que esperava, e para agradecer a todos os que me deixaram comentários ou me mandaram mensagens por mail ou por sms. Com um agradecimento muito especial à Madalena - ela sabe porquê. Aliás, aproveito para dizer que, se já tinha tido o prazer de conhecer pessoalmente cinco amigos da blogosfera (na manif dos 100 000), agora já conheço seis. E, apesar das circunstâncias, fiquei muito feliz com este acontecimento mais recente.

P.S.

O regresso foi a casa. Ao blogue, hoje foi só uma vinda breve, é provável que este cantinho vá continuar em intervalo. (Apesar da vontade que tenho de comentar a prova de Matemática do 9º ano - até o meu neto, que a fez, comentou -, mas... pronto, tenho que me conter, voltará a oportunidade quando saírem os resultados - suspeito que muito se irá falar sobre eles)

sábado, junho 14, 2008

Até logo! (E cuidem dos vossos jardins!)

Pausa para o dr. cirurgião me libertar de um percalço de há dez meses atrás. Mais uma operação delicada, mas trivial e sem nada de maligno.
Não é meu jeito trazer para aqui estas coisas de vida particular, mas em Setembro passado houve amigos que andaram preocupados com o meu desaparecimento da blogosfera e não resposta a emails, pelo que, como desta vez não é coisa imprevista e súbita, acho melhor dizer. Mas é coisa para ficar inteirinha e de boa saúde ;)

Entretanto, já que durante este tempo também criei e cuidei um jardim na minha varanda, deixo algumas das minhas flores a embelezar o cantinho. A jardineira é ainda muito inexperiente e as suas flores são vulgares, pois outras menos comuns esperam por melhor sucesso. Mas... ora! Todas as flores são bonitas!



_ Ó Isabel! Vais deixar aqui esses vasos simplórios?! Depois das flores tão lindas que alguns colegas teus mostram dos seus jardins?!
_ Mas estas são as minhas!!! E só não mostro mais vasos, porque começaste a troçar! Que coisa... era o que faltava uma pessoa não poder ter um jardim lá porque só tem uma varandinha num sétimo andar!!

_______

Adenda

«Menino, os jardins eram o lugar da minha maior felicidade. Dentro de casa os adultos estavam sempre a vigiar: "Não mexa aí, não faça isso, não faça aquilo...". O Paraíso foi perdido quando Adão e Eva começaram a vigiar-se. O inferno começa no olhar do outro que pede que eu preste contas. E como as crianças são seres paradisíacos, eu fugia para o jardim. Lá eu estava longe dos adultos. Eu podia ser eu mesmo. O jardim era o espaço da minha liberdade. (...) No pé de nêspera fiz um balanço. Já disse que balançar é o melhor remédio para a depressão. Quem balança torna-se criança de novo. Razão por que eu acho um crime que, nas praças públicas, só haja balancinhos para crianças pequenas. Há-de haver balanços grandes para os grandes! Já imaginaram o pai e a mãe, o avô e a avó, balançando? Riram? Absurdo? Entendo. Vocês estão velhos. Têm medo do ridículo. O seu sonho fundamental está enterrado debaixo do cimento. Eu já sou avô e me rejuvenesço balançando até tocar a ponta do pé na folha do caquizeiro onde o meu balanço está amarrado!"

Rubem Alves (2004). Gaiolas ou asas. Edições Asa, pp 71-72

Não posso, nem me atreveria a pôr um balouço na minha varanda. Mas RA anima-me a lembrar o que "está enterrado debaixo do cimento" para, quando voltar, ir recuperar um equivalente ao balouço das crianças. ;o)

sexta-feira, junho 13, 2008

Um poema de Eugénio de Andrade...

...querido poeta que partiu faz hoje três anos.

Onde me levas rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos e com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante;
que seja nessa face que me perca.


In Poesia em verso e em prosa, ed. Círculo de Leitores (1980)

Fernando Pessoa - Homenagem muito singela

Hoje comemora-se o nascimento de Fernando Pessoa. Faria 120 anos.
Não me atrevo a palavras de homenagem. Outros saberão lembrá-lo de uma forma que eu não sei.
Já era um dos meus poetas quando eu era adolescente - foi uma das minhas paixões de menina. Nesse tempo, foram três os meus poetas - três paixões. Uma foi efémera, mas as outras duas ficaram. Uma das que ficaram até hoje foi Fernando Pessoa.
_____________
Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fatuo encerra.

Ninguem sabe que coisa quere.
Ninguem conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ancia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa (1928). In Mensagem. Edições Ática. (5ª ed.-1954)
(Respeitando a ortografia adoptada pelo poeta)