domingo, fevereiro 24, 2008

Um esclarecimento que faço questão de prestar

Este meu cantinho anda muito parado desde há bastante tempo, como sabem os que me liam. E os motivos são, em parte, por alguma falta de disposição para escrever por razões da minha vida particular, mas também e sobretudo porque (como disse mais do que uma vez) não quero alterar-lhe o título, iniciei-o para guardar memórias da minha vida de professora e também numa perspectiva de partilha - memórias sobretudo da minha prática com e para os alunos -, mas a desestabilização causada nas escolas pela política do actual ME e as suas medidas em catadupa, caracterizadas muitas vezes por uma enorme precipitação (o que já de si é insensato) (logo nos primeiros tempos do mandato desta equipa ministerial escrevi mais do que uma vez sob o título "a carroça à frente dos bois") e revelando inaceitável desconhecimento do terreno onde pretendeu implementar essas medidas, para não falar do crasso erro de pensar que qualquer reforma no ensino pode ser bem sucedida sem ganhar minimamente para ela, ou para a crença nela, os principais e fundamentais intervenientes - os professores -, muito menos numa atitude pública contra eles, essa desestabilização, dizia, e para a qual o afogamento em papelada muito contribui, torna o momento nada propício a pensar e a escrever as referidas memórias.
(Talvez eu não queira mudar o título do meu blogue e a intenção de escrita que lhe está subjacente por ter esperança de que venham a cessar todas as trapalhadas em que o actual ME se tem mostrado exímio nas regulamentações das suas medidas - a cessar e a serem corrigidas por outra equipa mais competente -, regressando-se a clima e condições mais propícias a que os professores possam, e lhes deixem tempo, para centrarem as suas atenções no que é primordial e que é o trabalho efectivamente útil com e para os alunos, continuamente reflectido, auto-avaliado, renovado e desejavelmente colaborativo. Mas "só o tempo dirá", como já escrevi em título de um post)

Mas o que quero esclarecer é o seguinte:
1º - Estou aposentada, sim, mas nadinha alheada das questões da Educação-Ensino. Portanto, também nadinha alheada das legítimas lutas dos professores.
2º - Muitas vezes tenho vontade de divulgar aqui posições e movimentações (mas não deixo de o fazer por mail aos meus contactos que sejam professores não "bloguistas"), bem como de colocar sugestões de leitura de algumas entradas pelo menos de dois blogues muito activos quanto à analise crítica da actual acção do ME - entradas que, umas, proporcionam aos professores acesso e elucidação em cima da hora sobre tudo o que vai sendo emitido pelo ME, desde decretos a despachos (e não só) - e o meu destaque vai principalmente para os blogues do JMA e do PG -, outras são divulgação de importantes materiais/documentos/artigos que elucidam e são verdadeiramente formativos - e destaco novamente o JMA, que considero prestar no seu blogue um autêntico e precioso serviço público.
Mas, já que a minha opção (ou necessidade) de momento é continuar com este meu cantinho bastante parado, raramento cedo à vontade de simplesmente sugerir as referidas leituras pela razão simples de que, sendo este um blogue insignificante e menos lido ainda do que já foi quando escrevia memórias ou escrevia assiduamente, as referidas menções/divulgações que faria não se justificariam, não são precisas dado que se tornaram amplamente conhecidas.

Em suma, o que quis esclarecer a quem vai visitando este meu cantinho é que a sua (quase) paragem não significa alheamento dos problemas e da defesa da nossa Escola Pública. E não esclareço isso porque sinta qualquer necessidade de me justificar, mas apenas para manifestar a minha solidariedade, activa no que ainda está ao meu alcance, para todos os que resistem e pugnam autenticamente por uma escola pública que de verdade progrida e melhore no seu serviço pela educação e futuro de todas as crianças e todos os adolescentes, o que, aliás, é também serviço pelo progresso do nosso país.

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Adenda
Acrescento aos meus destaques o blogue do RM - blogue mais recente que, inclusivamente pelos materiais que disponibiliza, também constitui, a meu ver, um valioso contributo.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Do Professor e do Poeta

Completam-se hoje 11 anos sobre a morte de Rómulo de Carvalho - António Gedeão.
Já o recordei neste cantinho, no centenário do seu nascimento e noutros momentos.
Hoje deixo...

Do Professor:

Ser Professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação.”


Do poeta:

Arma Secreta

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.
Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.
A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis da furalina.
Erecta, na torre erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Momentos meus... Deixo só...

...dois dos "meus" haikus

Doente de viagem,
meus sonhos vagueiam
pelo campo seco.


Bashô
Eu e meu aquecedor —
Lá fora o Senhor do Feudo
Passando ensopado.

Issa

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

E é assim que um Primeiro Ministro debate...

Que nos debates na Assembleia da República haja trocas de "piropos" viperinos, isso "faz parte" (até sabemos que, depois dessas trocas, muitos vão de braço dado tomar café). Mas o que retive do noticiário, não por relato, mas ao vivo (até fui depois ouvir à net para anotar as palavras), foi o tão baixo nível com que Sócrates se descartou de uma pergunta que, por respeito pelos professores, alunos e famílias, e pela Educação, deveria tratar com ao menos um mínimo de seriedade.

Porque a questão de os resultados dos alunos influenciarem (e não pouco) a avaliação dos professores é uma questão séria, e mesmo os que concordem não podem deixar de reconhecer que não é uma questão ligeira, muito menos "de pormenor" (como Sócrates apelidou as críticas da oposição ao sistema de avaliação de desempenho de professores - ao que está a ser implementado, pois ainda não ouvi nenhuma voz contra os professores serem avaliados).


Pergunta
(de Paulo Portas, como poderia ser de qualquer outra bancada da AR):
"O senhor como professor, sabendo que a nota do aluno conta para a progressão na carreira, o que vai fazer? Dá-lhe a nota que é merecida, respeitando a verdade escolar e arriscando ser prejudicado na carreira, ou vai inflacionar as notas para poder defender a sua posição?"

Resposta do Primeiro-Ministro: "Eu não sou seu professor, sr. Deputado. Porque, se fosse seu professor, sr. Deputado, em não lhe poderia dar em nenhuma circunstância uma nota positiva. É que eu não gosto da sua demagogia, sr. Deputado".

Eu também não gosto da demagogia desse e doutros Senhores Deputados, bem como não gosto da sua, Senhor Primeiro Ministro. Mas a demagogia é uma das "artes" dos políticos (disso nunca nos livramos), e o seu tratamento de questões sérias, talvez julgando mostrar-se jocoso para a sua bancada rir e aplaudir e limitando-se a isso, podia ao menos não ter sido uma demagogia de tão baixo nível pelo desrespeito da sua (não)resposta - não desrespeito para com o deputado PP ou qualquer outro, pois essas "tiradas" já sabemos e eu já disse acima que "fazem parte" dos vossos debates e não impedem os autores de irem depois de braço dado tomar café, mas desrespeito para com questões sérias da Educação.

sábado, fevereiro 09, 2008

Finalmente algumas boas notícias

Já estão divulgadas, inclusivamente na blogosfera, mas não posso deixar de vir aqui congratular-me. Bem está a ser preciso animar a malta!
(Espero que o link funcione, fui "roubar" o endereço através do Terrear - por aqui)
P.S.: Alterei o link para o Parecer na sequência do problema referido nos comentários .

-
"Tribunal aceita acção para travar avaliação docente"

___________
Adenda
E mais uma notícia neste fim de semana:

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Ei!

(…)
Ei você,
Não os ajude a enterrar a luz
Não se entregue sem lutar
(…)
Ei você,
Não me diga que não há nenhuma esperança
Juntos nós resistimos, separados nós caímos




(Sou do tempo dos discos de vinil. Se calhar estou desfasada nisto dos 'tempos' ao deixar essa tradução acima. Mas... pronto, apetece-me deixar a canção.)




In YouTube: "Hey You - Pink Floyd (Vinyl Recorded)"

domingo, fevereiro 03, 2008

Carnaval...

Os alunos estão em férias de Carnaval. Portanto, nas escolas é período de Carnaval.

O Sr. Presidente da República, interpelado pelos jornalistas sobre uma determinada notícia e recusando comentá-la, acrescentou que estamos em dias de nos distrairmos, de deixar preocupações para aproveitarmos os dias de Carnaval (não foram exactamente estas as palavras, não as anotei, mas o sentido foi esse).

Fiquei a pensar cá com os meus botões que, então, devemos fazer umas feriazinhas nas preocupações com a Educação. Mas senti-me um tanto perplexa... É que eu julgava que o nosso querido Ministério da Educação tinha instituído o carnaval na Educação para o ano todo!

Bem... devo andar confusa...


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Pronto... Volto-me para a arte (mas confesso que não escolho ao acaso)...



M. Cassatt (1873). On the Balcony During Carnival

W. Homer (1877). Dressing for the Carnival

Eu e o meu blogue

Ao escrever o post anterior, reparei que era o 501º. Fiz umas contas por alto e, atendendo a que pouco escrevo desde há muitos meses, e que há mais tempo ainda (antes de assumir que passaria a postagens bastante espaçadas) andei frequentemente a avisar intervalos e pausas, concluí que na fase inicial estive mesmo motivada para a escrita das memórias de prof !
Não, a desmotivação posterior não foi por me ter aposentado; foi, sim, por as minhas memórias de professora serem agredidas pelo actual ministério da educação e também pelo clima que esse ministério gerou nas escolas - assim, preferi protegê-las.

Entretanto, o template do blogue ficara uma misturada quando consegui passar para o novo blogguer sem perder o template que tinha e respectiva personalização, pelo que, para aproveitar a novidade bem prática dos marcadores nos posts, tive que introduzir uns códigos (inspirados nuns da 3za), o que deu a caixinha preta que está por aí à direita. Até embirrei que só marcaria posts que tivessem a ver com memórias mesmo do 'terreno' - memórias mesmo dos alunos ou relacionadas com eles - pois fora para os alunos, ou por eles, que sempre trabalhara. No entanto, mais tarde acrescentei ao índice uma 2ª parte com outros posts, mas só escolhi mais uns pouquitos para etiquetar.


Mas, há dois dias, ao querer deixar à 3za o link para uma canção, ainda me vi "às aranhas" para encontrar o post onde a tinha. E então pensei cá para comigo que tenho um cantinho que também é de recordações - recordações para mim mesma -, além dos meus momentos ou estados de espírito que nele ficaram de forma mais ou menos metafórica, com alguns dos "meus" haikus, também com alguns dos "meus" quadros e algumas das "minhas" canções, mas tudo isso quase tão difícil de encontrar, quando me apetecer ou precisar, como encontrar agulha num palheiro, como se costuma dizer. E lá fui percorrer outra vez aquela 'tralha' toda para pôr marcadores em mais umas dezenas de posts, o que, no caso do meu template, implica também ter que nele acrescentar à mão mais umas linhas de código, uma para cada marcador com nova designação.

Isto para comentar que eu misturo novas funcionalidades destas tecnologias com velhas quando me dá para ser um tanto conservadora de umas velhas, e depois continuo teimosa na mistura, mesmo que com mais trabalho como neste caso. Enfim... caturrices ;)

terça-feira, janeiro 29, 2008

Mais uma perda

O Correio da Educação cessa.
Ando demasiado triste (e atónita) com o que anda a acontecer à Educação e, por isso - talvez também por estar já fora da escola e, ao olhar para os anos todos em que a minha vida profissional decorreu, me perguntar como foi possível chegar-se ao que anda a acontecer - acabei por ficar sem vontade de escrever, as palavras faltam-me. Assim, digo apenas que andamos a ter muitas perdas, que nos deixam mais pobres. Agora, o fim do Correio da Educação é mais uma. :(
Bem-haja,
José Matias Alves, por tudo o que deu nele.
Sei que vai continuar a dar, e bem-haja também por isso.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Só o tempo dirá...

O ar que se respira no interior das escolas públicas já não é o que respiro no meu quotidiano, mas parece que ele me entra pela casa dentro quando leio mais e mais legislação que vai surgindo, projectos desta e regulamentações. E o que pressinto é uma atmosfera que gera desgastes, que empurra para inversões das prioridades que seriam desejáveis, que sufoca o gosto por educar e ensinar e que até torna impossíveis objectivos necessários (basta pensar no decreto da avaliação do desempenho dos professores e nos prazos absurdos determinados no respectivo decreto regulamentar).

Se outros vêem no que está a acontecer uma "reforma", eu talvez esteja com perda de visão, pois só consigo ver uma correria de decretos, lançados com a precipitação que decorre sempre das pressas, alguns cerceando objectivos expressos noutros (veja-se a questão da autonomia), mais uns tornando a sua operacionalização e a sua prática séria num quebra-cabeças (veja-se a já referida avaliação de desempenho), e mais uns ainda requerendo debate para que não há tempo (veja-se a mudança de modelo de gestão, e até o novo programa de Matemática do Ensino Básico homologado sem que quase ninguém se tenha dado conta). E uma imensa papelada a ter que se elaborar para que a inspecção veja, mesmo que só dê para ler e arquivar.

Porque tempo é preciso, e tempo é o que cada vez menos anda a restar nas escolas para ponderar, discutir, pensar nos que deveriam ser os destinatários de tantas medidas cujas justificações nem sequer começam por ser claras - não é preciso dizer que nada fará sentido se os destinatários não forem os alunos, a bem de um sistema de educação-ensino de efectiva qualidade para todas as crianças e todos os adolescentes do nosso país.

E só o tempo dirá qual o saldo de tudo isto que está a acontecer em nome da, e na, nossa escola pública.


Entretanto, qualquer gosto meu por este cantinho tem vindo a eclipsar-se. Porque o que eu gostaria de falar (ou recordar) nele seria principalmente e directamente sobre ensinar, educar, formar crianças e adolescentes, discutir sobre como encorajar, motivar, envolver, disciplinar e incutir hábitos de trabalho e esforço, enfim, sobre coisas destas que a sociedade tem parecido andar a assumir tão pouco. Mas agora instila-se nessa mesma sociedade pouco respeito pelos professores ao mesmo tempo que se desmoralizam os melhores deles e se tomam medidas que, ao invés de estimularem o trabalho colaborativo e formativo, ameaçam punições esvaziadas de conteúdo formativo ou de condições para a vertente formativa sem a qual nenhuma avaliação de professores, por si, melhorará o trabalho de ninguém.


Termino repetindo o que já disse acima: Só o tempo dirá qual o saldo de tudo isto que está a acontecer em nome da, e na, nossa escola pública.


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W.G.Barry (1864-1941). Time Flies


sábado, janeiro 05, 2008

Novo Modelo de Gestão das Escolas - Debate

Copio para "primeiro plano" as minhas adendas ao post anterior:

(1)
E, para (mau) começo do Novo Ano, temos o projecto de Novo Modelo de Gestão das Escolas. Por agora, remeto os meus eventuais leitores para aqui e para aqui, sugerindo veementemente que acompanhem os posts do Paulo Guinote que se seguirão a esses.

(2)
Ainda sobre a Gestão das Escolas, destaco também os posts de JMA - aqui - e o debate no Aragem.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Em jeito de balanço

No início de novo ano é costume fazerem-se balanços sobre o ano findo. Não me meto a tentar fazer um sobre a política educativa, pois seria exaustivo e repetitivo do muito que foi escrito na blogosfera "docente". Limito-me a umas considerações simples e somente sobre alguns dos aspectos dessa política.

Todos sabemos que a prioridade de Maria de Lurdes Rodrigues como ministra da Educação foi de natureza economicista, o que, por muito que se compreenda o problema do deficit, se afigurou desde logo muito pouco conciliável com uma verdadeira prioridade à Educação no sentido de uma efectiva melhoria do nosso sistema de ensino público, tão necessária ao progresso do país. Mas, até é possível que Maria de Lurdes Rodrigues também tenha tido algumas boas intenções com vista a essa melhoria. De qualquer modo, boas intenções não bastam, elas precisariam de ser baseadas quer num profundo conhecimento das questões em causa - o que não consigo vislumbrar que esta ministra tenha - e das realidades das escolas, quer numa visão de futuro a médio prazo e respectivo planeamento, em vez de uma precipitação em medidas avulsas, numa pressa de mostrar trabalho e de propagandear resultados mediante números obtidos a quase qualquer preço e de significados pouco claros.
Como diz Reijo Laukkannen (perito e conselheiro do Ministério da Educação da Finlândia, citado no artigo que podem ler aqui): "É crucial compreender que em educação não é possível reformar de um momento para o outro. Leva tempo, muita paciência e coerência. Primeiro que nada é preciso decidir aonde se quer ir". E diz também: "Temos vindo a trabalhar nisto desde finais dos anos 60 e desde o início tomamos a direcção que hoje seguimos. Um rumo que mantivemos apesar da mudança de sucessivos governos". (Destaques meus)

Do montão de decretos, despachos e ofícios emanados do nosso actual Ministério da Educação, vou referir-me apenas a duas medidas tomadas. Escolho-as porque, para elas, os professores estariam totalmente disponíveis e receptivos em princípio, não tivesse Maria de Lurdes Rodrigues uma enorme falta de noção de quanto é incompatível com um trabalho docente preparado e exercido com a competência, a iniciativa, a criatividade e a dedicação que a profissão requer para ser bem sucedida, de quanto isso é incompatível, dizia, com, por um lado, a burocracia, a papelada em resmas, por outro lado, com a falta de convicção dos professores em medidas tomadas arrogantemente no desprezo pela sua opinião fundada no conhecimento das realidades das escolas e na experiência, e, por outro lado ainda, com pressões ameaçadoras como se a baixa do insucesso e do abandono escolar apenas dependesse dos docentes e devessem estes (e só estes) ser punidos pelo não alcance dos objectivos desejados.

A primeira medida que quero referir é a da avaliação de desempenho. A generalidade dos professores já reconhecia a necessidade de implementação de uma avaliação de verdade; mas também sabia que não é fácil instituir um sistema de avaliação sério e justo, garantindo a isenção e sendo exequível nas condições de trabalho das escolas. Além de que uma avaliação que não tenha condições para ser essencialmente formativa não será, decerteza, uma avaliação útil ao próprio sistema de ensino.
Mas, Maria de Lurdes Rodrigues achou que tinha a chave na mão. E não parece ter qualquer noção lúcida do que contribui para um factor muito importante, que é o de um bom "clima" de escola, e do que, ao contrário, pode gerar "climas" insuportáveis e perniciosos.
E não vale a pena dizer mais sobre o decreto da avaliação de desempenho, pois todos conhecem e têm já descrito os erros e as dificuldades de cumprimento sério desse decreto.

A outra medida que refiro é a do plano de acção para a Matemática. Ela abrange directamente apenas os professores dessa disciplina, mas todos os outros reconhecem quer a necessidade de um reforço de investimento nela, quer o facto de o insucesso em Matemática não ter a ver apenas com essa disciplina nem ter só consequências no âmbito dos respectivos conhecimentos propriamente ditos.
Também aqui não vale a pena lembrar a questão da formação de professores - todos se recordam decerto do novo regime de formação para a docência. (Mas voltarei ao assunto noutro post). Detenho-me agora apenas no plano de cada escola para a Matemática.
Um aspecto, embora talvez menos relevante, foi o das minúcias tão ao gosto deste ME - que muito passou a falar de autonomia das escolas depois de as ter enchido de imposições e sugestões pormenorizadas. Estou a lembrar-me de um pequeno exemplo, uma sugestão que pressionou muitos professores e escolas a encherem os alunos, até à saturação, de matemática e mais matemática nas horas destinadas ao Estudo Acompanhado e à Área de Projecto, mais aulas de apoio mesmo que os alunos só precisem de se esforçar um bocadinho, mais salas de estudo de frequência obrigatória, enfim, um contributozito para aumentar a já alargada aversão àquela disciplina em vez de serem os professores estimulados a, com autonomia e condições de trabalho colaborativo, investirem em métodos e estratégias que criem nos alunos gosto pela mesma e gosto pelo 'pensar'.
Outro aspecto, que considero de efeitos muito perniciosos, foi o da pressão sempre ameaçadora àcerca dos resultados de exames e provas de aferição, como se a aquisição de competências pelos alunos fosse uma questão de treino para exames. Pressionados e muitos não conseguindo escapar ao medo dos efeitos desses resultados na sua própria avaliação e na opinião pública, dificilmente os (bons) professores mantêm com segurança e firmeza os objectivos que sabem serem primordiais no processo de ensino-aprendizagem daquela disciplina, a importância que atribuem à avaliação formativa e até os critérios de avaliação que consideram correctos. Acresce que não vi preocupação do ME ou dos seus colaboradores em que sejam estudados (porque não junto dos alunos?) o comportamento dos nossos estudantes em situação de exame, nas idades do Ensino Básico, e os múltiplos factores que possivelmente contribuem para desempenhos nessa situação inferiores aos habituais, já que tantos obtêm nas provas de exame classificações inferiores às que habitualmente obtêm na avaliação interna.

Quanto a tudo o mais nas medidas de Maria de Lurdes Rodrigues, limito-me a repetir que (na minha opinião) o mais crasso e profundo erro desta ministra foi o de ignorar arrogantemente que nenhuma reforma pode ser bem sucedida sem se ganhar uma convicção mínima nessa reforma por parte dos professores, e muito menos impondo-a contra eles. E, se é verdade que não há só professores muito bons ou bons, se é verdade que também há os assim assim e até maus mesmo, se é ainda verdade que não sabemos contabilizar isso, outra verdade se constatou já - a maioria dos melhores professores foram desmoralizados, assoberbados de acréscimos de trabalho de utilidade duvidosa, e bastantes foram injustiçados na sua carreira. O sistema educativo não se podia dar ao luxo de perder o entusiasmo e empenho de muitos dos seus melhores docentes, mas nem cuidado houve para que tal não acontecesse ou não aconteça a curto prazo.

Termino voltando ao artigo sobre a Finlândia acima indicado, não porque não saiba que a diferença abissal entre as condições desse país e as do nosso não se ultrapassam do pé para a mão nem pouco mais ou menos, mas porque as medidas viáveis a curto prazo não deveriam deixar de se inserir numa visão de futuro para a qual se procure caminhar a passo e passo (mas essa visão é ideologicamente variável, claro... - infelizmente para os que nascem em condições desfavorecidas):
"O ano de 1985 regista um importante marco na reforma da educação finlandesa. Naquele ano o Governo decidiu eliminar o sistema conhecido como 'streaming', muito expandido na Europa, segundo o qual as crianças de idade mais avançada são classificadas em diferentes níveis e tipos de educação de acordo com o seu rendimento. (...) Mas simultaneamente decidimos concentrar o grosso do nosso orçamento da educação nos primeiros anos da secundária (nos estudantes de 12 a 15 anos). Cancelar o 'streaming' sem aumentar os recursos para contar com mais professores e organizar turmas com menos alunos (...). Teríamos obtido um sistema de oportunidades iguais, mas de duvidosa qualidade." (destaque meu)
Dispenso-me de comentar - acho que não é preciso...
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Adenda
E, para (mau) começo do Novo Ano, temos o projecto de Novo Modelo de Gestão das Escolas. Por agora, remeto os meus eventuais leitores para aqui e para aqui, sugerindo veementemente que acompanhem os posts do Paulo Guinote que se seguirão a esses.

Adenda 2
Ainda sobre a Gestão das Escolas, destaco também os posts de JMA - aqui - e o debate no Aragem.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

... E não desistam de sonhos!

No início de um novo ano, imaginemos... sonhemos...

Deixo só a canção...






Ah... pensando melhor, tem que ser também na voz de John Lennon, e aproveito para um vídeo de recordações...



quarta-feira, dezembro 19, 2007

BOAS FESTAS!

Um Natal com alegria e um 2008 feliz

para todos os amigos e colegas



E como eu festejo o Natal por causa dos sonhos das crianças...


Inté... Volto no próximo ano... ;)

domingo, dezembro 09, 2007

Sugestão de leitura

(Fonte: The Economist. Tradução e adaptação de Maria Helena Henriques Marques).

O meu destaque vai para a formação de professores nos países que o PISA indicia terem melhor qualidade de ensino, particularmente o que o artigo revela sob o subtítulo Formação prática, e para o apoio extra dado por esses países aos alunos que se encontram mais atrasados.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Educação para a sustentabilidade

Estava hoje vagueando pelo portal da UNESCO (opção em espanhol) - por acaso hoje, dia em que parece que houve interpelação ao governo sobre Educação. (Digo "parece que houve" porque, numa vista de olhos ao jornal Público, o que encontrei sobre o assunto foi um destaque para Paulo Portas como se este fosse a grande e única figura do dia no que respeita à dita interpelação, e, assim, não me dei ao trabalho de procurar noutros jornais).
Lembrei-me então de fazer uma pergunta, ao ler esta breve declaração:
"El objetivo del Decenio de las Naciones Unidas de la Educación con miras al Desarrollo Sostenible (2005-2014) consiste en integrar los principios, valores y prácticas del desarrollo sostenible en todas las facetas de la educación y el aprendizaje. Esta iniciativa educativa fomentará los cambios de comportamiento necesarios para preservar en el futuro la integridad del medio ambiente y la viabilidad de la economía, y para que las generaciones actuales y venideras gocen de justicia social." (Aqui)

A minha pergunta (porque eu sou muito distraída, às vezes não me dou conta de importantes iniciativas governamentais aqui pelo nosso país), é esta: Que medidas tomou Maria de Lurdes Rodrigues com vista ao objectivo acima referido, definido pelas Nações Unidas para o decénio de 2005 a 2014?

Hum... já estou a achar que é uma pergunta ingénua e também pouco importante já que os nossos políticos não a têm feito... Nem sei o que me deu para voltar a este meu cantinho, mas, pronto... já estou em retirada!

sábado, novembro 03, 2007

... (Poema *)

A hora do cansaço

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade


_______________

* Foi-me facultado pela Amélia Pais

quinta-feira, novembro 01, 2007

Do Inimaginável... Um conselho de turma disciplinar

É o título de um post do JMA, ao qual acrescentou um comentário testemunho que lhe deixei. Como a esse post já se seguiram outros, destaco-o (ler aqui) porque a situação descrita pelo JMA não é tão pouco frequente como se possa pensar, e talvez o testemunho que dei possa ser sugestivo de actuações firmes e eficazes sobre comportamentos inadmissíveis de alguns alunos, embora saiba que ficam outros casos por resolver - casos que a escola nunca poderá resolver sozinha, nunca poderá resolver ou atenuar sem apoios especializados e vontade política dos governos de implementar medidas que conduzam de facto à integração social.

sexta-feira, outubro 26, 2007

A escola básica com os piores resultados nacionais em Português

ou

De acordo com a notícia, terá sido a escola básica com piores resultados na disciplina de Português. Mas, como também nos revela a mesma notícia (ler aqui), o trabalho por ela realizado é frutífero e exemplar.
Este é um pequeno exemplo do que as estatísticas não mostram. Mas o que interessa mostrar ao público, neste momento da febre de números que ameaça contagiar também professores, não parece ser a realidade que está por detrás das estatísticas, menos ainda o trabalho abnegado e persistente de muitos dos docentes que trabalham em contextos sociais altamente desfavorecidos. O que se impinge, em primeiras páginas, são os rankings a enaltecerem escolas para elites abastadas e seleccionadas - escolas privadas, claro.

terça-feira, outubro 23, 2007

Flores

Quando ando arredia da escrita, gosto de deixar o meu cantinho bonito.
Podem levar uma rosa ou uma anémona, elas não se gastam - estas são imortais ;)

Van Gogh (1890). Roses et Anémones

domingo, outubro 21, 2007

O Poder dos Professores

Esse é o título do Círculo Aberto, do JMA, no último número do Correio da Educação. Sugiro vivamente a leitura - pode ser lido aqui. (Sugiro não só a leitura, como também a participação na procura de caminhos face às questões colocadas)

terça-feira, outubro 16, 2007

Intervalando...


Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!


Alberto Caeiro

segunda-feira, outubro 15, 2007

Para lá do sistema educativo

O sistema educativo é o tema central para nós, professores. Mas há que estender para além dele uma consciência atenta e lúcida.

Sabemos que a política educativa entre nós não é mais do que a cópia subserviente dos ditames da globalização e, muito em particular, da União Europeia. Entretanto, as interrogações sobre o estado de saúde (ou de falta de saúde) da democracia são bem mais latas do que as questões específicas da Educação.

Eu até nem gostava muito dos artigos de António Barreto, mas ultimamente tenho gostado.
Deixo excertos do seu artigo de ontem, no Público, (destaques meus) podendo ser lido na íntegra aqui.

"(...) os governos da União preparam-se para aprovar, esta semana, em Lisboa, ou mais tarde em qualquer outra capital, a absurda Constituição, ora rebaptizada de Tratado. (...) O Tratado é tão diferente da Constituição derrotada como um ovo branco é diferente de um branco ovo. (...) A elaboração deste Tratado foi feita em circuito fechado. A discussão em segredo. A aprovação será furtiva. Para os dirigentes europeus, a União é mais importante do que a democracia. E a Europa mais importante do que os povos europeus.
Evitar os referendos, despachar a aprovação do Tratado e contornar o debate público são as prioridades de quase todos os dirigentes europeus. Que não se esquecerão, depois, de carpir sobre o "défice democrático europeu" e a "distância crescente entre dirigentes e cidadãos". (...)
Tarde ou cedo, haverá acordo e Tratado. E quase todos estão disponíveis para evitar os referendos e proceder, assim, sem a voz dos povos, à liquidação dos parlamentos nacionais. Estes serão, de futuro, tão importantes como uma Associação de Antigos Estudantes ou como a Confraria do Besugo. Os dias que aí vêm são o princípio da morte da democracia nacional. Sem que haja uma democracia europeia que a substitua e a melhore. É pena que a presidência portuguesa seja a agência funerária. Que o primeiro-ministro português seja o mestre-de-cerimónias. E que o cangalheiro, presidente da Comissão, seja também português. Triste vocação! "

quarta-feira, outubro 10, 2007

escola e cultura...

"Num tempo e num lugar de descasos sucessivos e clamorosos em relação à cultura (...)" - assim começa o artigo de Vasco Graça Moura no DN de hoje (foi-me enviado pela Amélia Pais, mas pode ler-se aqui , embora eu pretenda destacar as suas frases iniciais e finais). E, a propósito do Panteão Nacional e da recente trasladação de Aquilino Ribeiro, Graça Moura refere o "panteão da memória" como requerendo "menos pompas oficiais do que bons programas escolares", e termina: "O panteão da memória é uma pedra angular desse sistema em que todos somos responsáveis. A escola não pode ser transformada em panteão da... desmemória!".

Vem isto a propósito do rumo que cada vez mais os seguidismos político-ideológicos de governos, em particular do actual e da sua equipa do ME, vêm impondo à nossa escola pública. Que fazer (?) para contrariar esse rumo fazendo prevalecer a importante e decisiva prioridade da escola, prioridade que o Miguel Pinto tão bem define nesta sua crónica
aqui - "realizar a inserção dos sujeitos na cultura" .
Que fazer? Como fazer para contrariar o rumo para que estão empurrando a escola - o de uma escola essencialmente utilitária na perspectiva dos interesses do mercado (e, mesmo assim, de forma duvidosa)?

Mantendo-me hoje em citações, lembro-me do título
Pedagogia: o dever de resistir , de um post do JMA, que tem insistido em que os professores têm mais poder do que pensam ter, e deixo no ar também a pergunta: Como organizarem esse poder?

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Adenda
(13-10.2007)

Bom fim de semana!
Estou com pouca inspiração e, como ainda não tive resposta à pergunta acima, vou deixar o post uns dias a marinar ;)

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terça-feira, outubro 09, 2007

Breve aparte - Destaque de imprensa

Analfabetos... mas diplomados - de Santana Castilho, no Público de hoje.
Como só está acessível online para assinantes, copiei para aqui para quem não tenha lido.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Memórias do uso das TIC na sala de aula - III

A fase do computador como factor de motivação

A minha escola acabara de receber sete computadores devido a uma candidatura mediante projecto. Ficou, pois, com uma sala de Informática e foi logo incluída no currículo do 6º ano a disciplina de "Iniciação à Informática", a funcionar em desdobramento das turmas.


Essa disciplina deixava suficientes tempos livres na sala para que pudesse ser requisitada para outras aulas. Não tive dificuldade durante esse e os aninhos seguintes (até à minha aposentação), pois comecei por ser quase o único professor da escola que a requisitava e, mais tarde, quando outros (não muitos) o faziam para a Área de Projecto, tivemos mais uma sala apetrechada com computadores na sequência da introdução da disciplina TIC no currículo do 9º ano, do qual tínhamos só ora duas, ora três turmas. (Hoje essa situação de facilidade não se verificaria, é um tipo de situação própria de fases iniciais nas quais começa por haver apenas uns poucos pioneiros, mas agora há os portáteis - e quanto a ter o professor um só computador na sala de aula para seu uso poderá ser bastante útil noutras disciplinas, mas para a minha pouca utilidade teria, a meu ver)

Nessa minha primeira fase, eu não deixava de ter a perspectiva do uso dos computadores pelos alunos como meio propício à construção, produção, criação pelos próprios, mas eram poucas as unidades do programa da disciplina que se prestavam a isso, tanto mais que não tinha software específico para a matemática. Assim, comecei a deslocar de vez em quando a aula para a sala dos computadores também para meros exercícios que só diferiam de exercícios de rotina da aula pela interactividade, o ambiente visualmente atraente e por darem automaticamente a pontuação obtida pelos alunos, o que conferia algum carácter de jogo/desafio. Mas, nessa altura, eram raros os meus alunos que tinham computador em casa, este era novidade para a maioria, todos sem excepção ficavam contentes e entusiasmados quando eu anunciava que teríamos a aula na sala dos computadores.

Foi, pois, uma fase em que também usei o computador como quase mero elemento sedutor - como factor de maior gosto ou de motivação para os menos motivados. Tinha algum trabalho acrescido, até porque inicialmente ainda não tinha descoberto esse prático e fácil recurso que era (e é) o HotPotatoes, preparando as actividades com base no FrontPage mas com inclusão de códigos buscados na net. E os alunos gostavam muito, não se importavam de se sentarem incomodamente em grupos e organizavam-se muito bem para corresponderem à minha exigência de que todos participassem (o que controlava e verificava, claro).


Mas, como já disse, essa foi uma fase. Toda a vida considerei que os alunos não precisam de ser infantilizados, puxar/desafiar com o devido apoio e confiança sempre foi uma constante que me deu muitas oportunidades de constatar que não só correspondiam quase sempre às minhas expectativas, como as excediam bastantes vezes.

Assim, aquele tipo de actividades/exercícios passaria a ser reservado para aulas de final de período, para descontracção, bem como para o contributo do meu departamento para as actividades não curriculares de escola no último dia do período lectivo.

Deixo umas recordações (print screen)...




(O primeiro da Páscoa não era só para a Matemática, pedi perguntas a outros professores)


Da minha fase seguinte falarei noutro post.

domingo, outubro 07, 2007

Memórias... (?)

Memórias... Eu nem sou dada a deter-me muito em memórias, menos ainda a viver de recordações. Memórias do ensino eram também as da véspera, as das aulas e dos alunos que tinha, e isso faz-me falta para continuar a escrever.

Diziam-me amigas aposentadas antes de mim que, após o primeiro ano da aposentação, o interesse e o sentimento de envolvimento com as questões da escola iam desaparecendo, ficando apenas uma atenção à política educativa ao nível da atenção à política geral, não mais do que isso.

Ora, para mim esse ano já passou, e o "bichinho" da escola ainda não me fugiu. Talvez, em parte, porque tenho netos em idade escolar - o seu futuro não deixará de ser influenciado pela escola que temos -, motivo para esta me continuar a preocupar mesmo que outros motivos não tivesse, mesmo que desistisse de me preocupar com o futuro deste nosso país.
Sem dúvida que a blogosfera facilita muito que continue a acompanhar em pormenor as medidas da política educativa, a participar em debates, e também a sentir o estado de espírito dos professores. No entanto, faltando-me o principal, que são os alunos, não sei, não sei não até quando manterei este cantinho, mesmo com postagens espaçadas como assumi aqui que passaria a ser.

Mas não vale a pena antecipar conjecturas sobre isso - a seu tempo, logo verei. Entretanto, para já vou retomar o conjunto de três ou quatro memórias sobre o uso das TIC no ensino, que interrompi por outros motivos - motivos de saúde que são temporários, embora me mantenham ainda pouco disponível, mas sem, na verdade, haver propriamente razão para me alhear.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Intervalo forçado

Alguns percalços sucessivos levam-me a fazer um intervalo, desta vez um tanto involuntário. Voltarei a postar quando retomar o quotidiano normal.
Entretanto, irei espreitando os blogues amigos.
Bom trabalho para todos!
Aré já :)

terça-feira, setembro 04, 2007

Memórias do uso das TIC na sala de aula - II

Envolvimento dos alunos

Disse no post anterior que em meia dúzia de anos ou pouco mais ficam desactualizadas e toscas iniciativas tidas no âmbito das TIC no ensino. Mas são memórias, hoje vou deixar uma aqui guardada.

Eu já aprendera a construir páginas web com o FrontPage e mais umas inclusões manuais no html, procuradas e achadas na net. Aprendera, com umas dicas de um amigo, criando uma página para o meu neto, que acabara de fazer cinco anos. Podia dizer que ainda nem passaram nove anos, mas é mais adequado dizer que passaram quase nove anos, pois, neste campo, isso é imenso em termos de novos recursos e técnicas.

A minha escola ainda não tinha recebido aqueles sete computadores que ganhara num concurso mediante projecto, mas havia de um a três no Centro de Recursos (variação consoante avarias à espera de reparação), herdados de "velharias" de outra escola com mais sorte no apetrechamento devido a ser a sede do nosso centro de formação. Lancei numa minha turma de nono ano (a da minha direcção de turma) a proposta de construirmos uma página de Matemática da nossa escola, a ser alojada após aprovação do presidente simultaneamente do CE e CP (a escola ainda não tinha site).

Não tínhamos horário para lhes ensinar a parte técnica(*), eles participariam (após a parte inicial de sugestões para a estrutura, componentes e 'visual') nos conteúdos - procura de curiosidades relacionadas com a Matemática para uma das secções, de passsatempos matemáticos para outra secção, e de problemas um pouco do tipo quebra-cabeças de níveis de dificuldade apropriados respectivamente para 2º e 3º ciclo e destinados a um concurso mensal a que qualquer aluno poderia responder por mail desde que se identificasse, incluindo turma e escola (o prémio era apenas ver o seu nome na net, na lista dos vencedores do mês, mas os miúdos gostavam - nessa altura, a net ainda era novidade para a maior parte deles).

O nome da página - RacioMat - foi proposto por um deles entre outras propostas e escolhido quase por unanimidade em votação nessa turma e na minha outra.

Numa fase logo a seguir, constituiu-se um grupo de alunos voluntários que assumiram dinamizar a página. Mas ninguém na turma podia concorrer ao referido concurso, pois era condição para que fosse integrado um problema por eles trazido que todo o grupo soubesse previamente não só a resposta, como também explicá-la à restante turma (eles não se importavam de não poderem concorrer, sentiam-se todos co-autores da página).

Esse grupo empenhou-se nas suas responsabilidades até ao final do ano lectivo (em que partiram por terem terminado o 3º Ciclo). A página, que prosseguiu depois deles partirem, já está desactivada, mas guardo os ficheiros, pelo que posso deixar aqui a recordação desse grupo - recordação e saudades :)

(Filipe, Gonçalo, Luís, Nuno, Renato, Rudi e Sérgio - os nomes viam-se à passagem do rato)

Bem... agora viria o relato das decepções que eles teriam se eu não tivesse outra turma - só nesta havia concorrentes, mas ao menos o concurso funcionou com vencedores todos os meses, e até houve envio de uma ou duas curiosidades, por iniciativa de alunos da mesma. E não foi porque a página não estivesse divulgada, mas até na minha escola os colegas de disciplina se limitaram a manifestar contentamento porque "já temos uma página de Matemática", e depois, quanto aos alunos... ponto final. :(

Mas não entro por esse relato. Digo apenas que até havia uma dificuldade, que era o facto de os alunos nas escolas não terem acesso a mail, a menos que o professor os levasse a criar um hotmail - o que era moroso e não se justificava só por aquele concurso. (Contudo, havia outros meios - eu própria não gastava tempo com essa dificuldade, recolhia as respostas em papelinhos identificados, e o carácter de concurso tinha um efeito desafiante para os miúdos)
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(*) Cheguei a fazer uma sessão de FrontPage numa hora fora dos nossos horários para o grupo referido, apenas para terem uma ideia. Um dos alunos foi para casa decidido a construir e alojar uma página pessoal, o que fez com a minha ajuda por emails que andaram para cá e para lá - levou pouco tempo e a sua página ficou interessante e útil para colegas e amigos dele.
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Adenda

Mais tarde, o concurso deixaria de ter problemas exigindo alguns conhecimentos de matemática, para passar a requerer só raciocínio, designando-se Lógica para Todos, e passou a funcionar também no placard da nossa sala de mat. Tornou-se popular nas turmas das colegas que passaram a "alinhar" e me deixavam as respostas no armário da sala.

Acrescentei esta referência porque passou então a ser frequente alunos fraquitos acertarem e tornarem-se muito assíduos a concorrer, enquanto acontecia bons alunos errarem. E, no último ano em que funcionou, o primeiro dos três vencedores do ano (também havia esse apuramento) foi um dos meus alunos mais fraquitos, que teve um sorriso de orelha a orelha quando recebeu as palmas da turma.

(Mas não vou "dissertar" sobre nada disto...)

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Adenda 2

A propósito da nota de rodapé (alusiva à construção de uma página pessoal por um dos alunos), lembrei-me de que o meu neto, agora também a iniciar o 9º ano, criou um blogue há uns meses atrás sem precisar de ajuda, pois agora basta seguir os passos indicados e ele surge quase automaticamente. Mas disse-me, passado pouco tempo, que o abandonara porque não sabia o que escrever nele. Decerto não dirão o mesmo os adolescentes e jovens que tenham passado por experiências tais como as conduzidas pela 3za - como se pode ver aqui e aqui -, ou pelo Pedro - referidas aqui e aqui.

domingo, setembro 02, 2007

Memórias do uso das TIC na sala de aula - I

Uma questão de perspectiva

Passada meia dúzia de anos ou pouco mais, as minhas modestas memórias tornaram-se desactualizadas e toscas face à recente quantidade de novos recursos de fácil acesso e utilização. No entanto, não mudaram as diferentes perspectivas em que podem ser encaradas e utilizadas as TIC no ensino. Não mudaram porque não são as novas tecnologias que trazem em si as perspectivas e os objectivos com que podem ser usadas - isso está em cada um que as use.

Dispenso-me de citar autores que mais recentemente e com bem maior desenvolvimento colocam essa questão (colegas os têm citado na blogosfera), limitando-me a recordar a ideia essencial de um dos primeiros artigos que li sobre a mesma questão, ainda a minha escola não tinha quaisquer computadores a serem usados por professor com alunos. Perdi o artigo, também o nome do autor, mas a ideia não esqueci por ser uma das primeiras abordagens ao assunto que li. Alertava o autor para que "a introdução dos computadores na sala de aula" tanto poderia significar inovação, como poderia simplesmente perpetuar métodos tradicionais e estagnados introduzindo nestes apenas 'ambientes' e 'visuais' mais vistosos e modernos.

De facto, o envolvimento dos alunos na aprendizagem construindo-a de forma activa, a promoção da reflexão e o desenvolvimento de competências tão importantes como o espírito crítico não vêm embalados nas novas ferramentas. São, sim, objectivos que professores perseguiam sem essas novas ferramentas e continuarão a perseguir com elas, explorando as maiores potencialidades que, sem dúvida, as mesmas oferecem - e aqueles que eventualmente se contentem com ser meros transmissores de conhecimentos a turmas algo passivas continuarão iguais, ainda que com ferramentas actuais.

Ora, da parte do actual ME, vieram anúncios de investimentos (ou intenções de investimentos) na formação dos professores no âmbito das TIC. Claro que, antes de mais, os professores precisam de aprender a manejar as novas ferramentas. Mas isso, a meu ver, não basta. E, se é verdade que o professor reflecte, repensa, evolue e assume a sua formação contínua, também é verdade que tem direito a uma formação inicial e à existência de acções de formação posteriores que, no domínio das TIC, lhes abram perspectivas do uso das mesmas no sentido de elas contribuirem para maior e melhor alcance dos objectivos acima referidos. E, pelo que conheci das ditas acções de formação, já existentes, (conheci pouco diretamente, mas vi guiões e ouvi relatos), a maioria tem-se destinado a que os formandos aprendam a manejar programas e outros recursos de modo alheado a (ou independente de) perspectivas da sua aplicação no processo de ensino-aprendizagem de forma efectivamente inovadora - a aprendizagem 'técnica' já é alguma coisa, poupam muitas horas a deslindar por si, só com umas dicas de amigos, mas é pouco.

(Não haverá que inovar também no que respeita a certos promotores de acções de formação cujos pelouros parecem intocáveis, bem como a alguns "eternos" formadores?)

sábado, setembro 01, 2007

Blogue regressando de férias

O meu blogue termina as férias pois não deixa de me fazer falta um cantinho onde me sentar de vez em quando para escrever ou simplesmente deixar... enfim, nem que seja uma canção (ainda que depois me esqueça de vir mudar o "disco").

Eu sei que se quiser um blogue não apenas para recanto comigo mesma, mas para alguma partilha, intervenção ou combate (ainda que de visualidade muito limitada), ele terá que ter uma postagem regular e frequente. Mas não penso nisso e decidi assumir de uma vez por todas este cantinho como de escrita espaçada, incluindo a retoma de uma ou outra memória de prof, sem compromisso comigo mesma sobre maior ou menor frequência - esta será a que acontecer, e pronto.

Já terei dito mais do que uma vez que a política de Maria de Lurdes Rodrigues e Compª me afastou de memórias de professora pouco depois de iniciar o blogue porque o clima provocado nas escolas tornou aquelas, a meu ver, pouco oportunas. Também, posteriormente, deixei de ter alunos, os quais sempre nos dão motivo para escrever 'memórias' não de ontem, mas de hoje. Mas não seria honesta se omitisse que, juntamente com as medidas da actual ministra, também me desmotivaram, no meu último ano de ensino, o conformismo, seguidismo ou extremo zelo de muitos professores e presidentes de ce, aumentando nomeadamente a burocracia que já de si algumas medidas comportavam, em vez de, com iniciativa, criatividade e ausência de excessivos medos, a simplificarem tanto quanto possível.

Agora, passado um ano lectivo da "ressaca" de tudo isso, já penso retomar algumas memórias. Mas de vez em quando, consoante me venha vontade ou não.

Em suma, este passará a ser um blogue assumido como de postagem espaçada - se se tornar ao menos semanal (após uns escritos de arranque agora), tanto melhor, já será uma boa meta para mim -, mas sem obrigações comigo mesma, ao sabor de motivação que me venha ou não venha.

terça-feira, agosto 21, 2007

The Power of Schmooze Award

Estava a sentir problemas de consciência em interromper as férias que dei ao meu blogue até início de Setembro - isso é coisa feia que me faz lembrar certa entidade a propósito de concursos. Mas depois pensei que ele está aqui tão perto de mim, que uma interrupção só por uns minutos... ele quase que nem vai dar por ela. ;)


O motivo é este:

«Este prémio é uma tentativa de reunir os blogs que são adeptos aos relacionamentos "inter-blogs" fazendo um esforço para ser parte de uma conversação e não apenas de um monólogo. Foi criado pelo Mike do Ordinary Folk.
"Regras:
1. Se, e somente SE, você receber o "Thinking Blogger Award" ou "The Power of Schmooze Award", escreva um post indicando 5 (cinco) blogs que tem esse perfil "schmoozed" ou que tenha te "acolhido" nesta filosofia. (se não entendeu, leia a explicação no parágrafo anterior de novo).
2. Acrescente um link para quem te indicou .
3. Opcional: Exiba orgulhosamente o "Thinking Blogger Award" ou o "The Power of Schmooze Award" com um link para este post que você escreveu."»



Agradeço a indicação deste meu cantinho ao
Miguel e à Teresa.


E, como sou (fui) professora dessas "coisas terríveis" lá das matemáticas, ia ficar-me muito mal confundir 5 com 5+5 (mas gostava mais de indicar 5+5), pelo que facilitei um nadinha a questão do reduzido número optando por um único critério: Blogues que eu gostaria que fizessem "parte de uma conversação" alargada a muitos mais professores (serão numericamente bastantes os que frequentam a blogosfera, mas a percentagem no total é ainda muito pequena) porque considero que são blogues que, cada um no seu estilo (todos diferentes), 'abanariam' acomodações, estagnações e/ou conformismos.


Aqui ficam as minhas cinco indicações:







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E agora volto a deixar o meu bloguezito repousar...

quarta-feira, julho 25, 2007

Boas férias!

Que todos as possam aproveitar para descansar, descontrair e renovar o espírito (ou o estado de espírito).

Eu sairei só por uma semana, depois estarei mais ou menos por aqui, mas vou dar férias ao meu blogue. Não é que ele mereça, passou o ano em pausas e intervalos e o resto do tempo a queixar-se de enjoos que atribui a remessas de alimentos estragados que chegam a uns sítios onde continua a meter o nariz e a que chama Escola Pública e Sistema Educativo, mas o coitado até anda mesmo com evidentes sintomas de desmotivite aguda, não vou regatear-lhe as férias, não seja por falta delas que não cura a desmotivite e os enjoos, que são maleitas muito indesejáveis!

Até logo. Boas férias!

sábado, julho 21, 2007

Para o fim de semana deixo...

... deixo a beleza dos quadros de Van Gogh - e não só os quadros.
(Em qualidade da imagem, não é o melhor vídeo com essa canção de homenagem, mas optei pela versão legendada)

(...)
Agora eu entendo
O que você tentou dizer-me
E o quanto sofreu pela sua lucidez
E como você tentou libertá-los
Eles não ouviriam
Não sabiam como
Talvez agora ouçam
(...)
Agora acho que entendo
O que você tentou dizer-me
E o quanto você sofreu pala sua lucidez
E como você tentou libertá-los
Eles não ouviriam
Ainda não ouvem
Talvez nunca ouvirão

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P.S.:

Já tinha entrado em fim de semana, mas o artigo de Carlos Ceia no Público de hoje (só acessível online a assinantes) relativo ao regime jurídico da habilitação profissional para a docência faz-me transcrever um excerto, no qual consta o endereço para documento mais completo do mesmo autor.

«(...)Já expliquei em longo documento técnico os vários problemas que o decreto-lei levanta (ver www.fcsh.unl.pt/docentes/cceia/Educacao/que_profs_formar.pdf). Este parecer, o do Conselho Nacional de Educação, e todos os que as universidades e politécnicos enviaram foram ignorados até à data. Este decreto-lei não tem uma filosofia, uma literatura, uma bibliografia ou uma ciência a apoiá-lo ou a justificar as suas opções, logo o debate parece ser inútil. Mas as consequências graves que transporta para o futuro da formação inicial de professores, hipotecando a qualidade da formação das próximas gerações e afastando-se de todas as tendências internacionais nesta área, obrigam-nos a continuar o protesto. (...)»

quinta-feira, julho 19, 2007

De como um(a) aposentado(a) também precisa de férias

Eu não sei que 'diabo' de escola de vida tive (saber, sei - sei até muito bem, é só maneira de falar), que não consigo alhear-me quer das questões a que a minha profissão esteve ligada, quer do mais que se passa neste país (e não só nele). Não é porque me falte em que me ocupar.

[Não só não me falta em que me ocupar, como continuo com coisas pendentes, à espera de tempo. Aliás, é espantoso como aquela grande organização que o trabalho profissional exige para que se consiga que o tempo chegue para todas as prioridades da nossa vida faz que se encaixe tudo nas horas de cada dia ou semana e depois, quando deixa de haver horários e obrigações a cumprir (pelo menos em boa parte do tempo, pois continua a ter-se responsabilidades e obrigações - na vida elas não são só as profissionais), parece que cada dia não chega para quase nada.]

Mas, dizia eu, não consigo alhear-me especificamente das questões da educação, e pergunto-me porquê (ou para quê), dado que já não tenho que - nem posso - lidar com elas. Poder, até podia ainda escrever - não importava que fosse lida só por dois ou três, cada um dá o seu minúsculo grãozinho de contributo e, se todos dessem, já fazia um saco cheio. Mas, a verdade é que a experiência dos 'velhos' fica ultrapassada nestes tempos de mudanças vertiginosas e não faz muito sentido que os velhos continuem a ler-estudar tudo o que é necessário só para actualizarem a sua experiência quando já não a podem aplicar no terreno próprio.
Além disso, há também aquele sentimento de inutilidade/impotência que não anda só a atingir os mais velhos, também os menos velhos o têm perante tantas medidas impostas prepotentemente - mas esses têm um tempo de actividade pela frente, é questão de esperar um pouco, que as cegueiras e arbitrariedades de quem está a atolar o ensino público hão-de ter o tempo contado, as consequências hão-de tornar-se tão evidentes que até a tanta gente que anda "distraída" e tinha a obrigação/responsabilidade de não andar vai dar-se conta.

E todo este palavreado só para dizer que também estou a precisar de umas férias - férias de observar todos os dias esta política (des)educativa em curso, escape desse clima de mediocridade e de obsessões a resvalarem para doença maníaca que sinto emanar dos gabinetes que decidem, regulamentam e despacham essa "política" quer nas suas linhas de fundo, quer em múltiplos pormenores absurdos, contraditórios e impositivos de uma burocracia insana. Não sei é se consigo fazer essas férias antes da semaninha em que vou mudar de ambiente, e sem net fico sem informação, que pela tv mal chego a ela - mas falta pouco, é já de hoje a oito dias, e depois, quando voltar, apesar do Agosto no calor de Lisboa, sempre respiro ar menos poluído durante mais um mês, pois estarão os senhores governantes em férias, e os senhores deputados também (mas certos silêncios destes últimos nem se vão notar - serão só uma continuação).

terça-feira, julho 17, 2007

Compartimentos

Quando falo com algum amigo (ou amiga) que ainda está no activo e lecciona no ensino superior, fico com maior percepção de quanto as questões de educação-ensino andam compartimentadas.
Como não vou descrever em público conversas particulares, deixo apenas um ou dois exemplos vagos e não situados:

1 - Se eu abordar a questão do novo regime jurídico da habilitação profissional para a docência no ensino não superior e, nomeadamente, a do professor generalista, já sei que é melhor preparar-me para ouvir alguma resposta no género de 'já é assim em muitos países da Europa'. E cá temos a ideia falaciosa instilada pela "política global" de que o que é é o que deve ser ou o que tem que ser.

2- E se eu for mais longe e lembrar a ideia (que ainda não é uma proposta, mas que já apareceu publicamente como hipótese a considerar) de fusão dos 1º e 2º ciclos do Ensino Básico num só, a resposta então é certa: "Isso não é possível, é claramente contra a Lei de Bases do Sistema Educativo". E cá fico eu com a sensação de que o meu interlocutor do ensino superior se anda a dar pouco conta do que, dizendo mais respeito ao ensino não superior, tem vingado com atropelos de direitos adquiridos e ambiguidades em termos constituicionais, ultrapassando-se rapidamente ilegalidades mediante revogação de decretos e aprovação de novos. (Alterações profundas a uma lei são mais difíceis? Ora! Vamos ver o (pouco) tempo que vão demorar alterações à Lei Sindical...)

Podia dar outros exemplos mais elucidativos dessa percepção de compartimentação das preocupações de professores de graus diferentes de ensino, mas já teria que descrever conversas tidas - não que elas tenham algo que não se possa contar (apenas significam que cada um está envolvido no seu 'terreno', e isso até é natural, ainda que, a meu ver, não deva bastar).
Quis apenas deixar esta breve nota sobre compartimentos - estes e muitos outros compartimentos se verificam nas questões do ensino.
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P.S.:
Ao escrever as linhas acima, eu estava a pensar mais nas grandes questões do ensino em si e nas opções das políticas educativas que marcam o rumo da educação no nosso país. Por isso, estava também a pensar em alheamentos que se andam a verificar entre aqueles que nelas podem e devem intervir com independência face a interesses meramente políticos, necessitando, para isso, de se manterem atentos e detentores de uma visão global - globalidade em que as diversas medidas se vão encaixando e vão tendo consequências interferentes umas com as outras.
Mas, depois voltei aqui ao lembrar-me de que, não havendo nada que valha ao sistema educativo sem professores mobilizados e com estatuto de carreira que os motive e dignifique, também os ataques e as medidas prepotentes relativas às carreiras docentes (e que a mais não obedecem do que a prioridades economicistas) não deviam ser consideradas "questões deles" (dos que as sofrem) - não deviam ficar em compartimentos. Não deviam, porque vão ter reflexos no próprio ensino, e ensino em qualquer grau ou nível devia ser objecto da preocupação de todos. (Além de que não deviam ser deixados para compartimentos dos directamente interessados ou lesados também para que, quando chegar a vez a outros, não seja tarde - Brecht bem deixou o aviso)

sexta-feira, julho 13, 2007

A minha estranha rejeição de escrever

Abro o blogger a perguntar-me: Vou escrever o quê? Vou escrever para dizer que não quero escrever?!
Mas talvez me faça bem pensar nisso em voz alta - não que esteja à espera que ainda alguém me leia, mas isto é público, não deixa de dar a sensação de que se está a pensar em voz alta.

De náusea, ou enjoo, já falei aqui. É uma náusea espantada, também um tédio que não consegue limitar-se a tédio porque a situação não me é indiferente - a escola foi parte da minha vida e o sistema educativo foi parte das lutas em que participei, não me é possível ficar agora indiferente. Mas tanto disparate, tanta estreiteza de vista na catadupa de medidas legislativas (agora mais uma série de regulamentações que mais uma vez nenhuma negociação concreta vão aceitar), tanta avaliação que não deixa tempo para mais nada (mais parecendo doença maníaca), tanta incapacidade para perceber que todo o clima de sufoco que é gerado nas escolas (sufoco em papelada/burocracia e sufoco sob múltiplas pressões externas) só contribuirá para as afundar esvaziando-as dos objectivos e preocupações essenciais... Está a ser demais!


Talvez eu ande com uma rejeição a escrever, apesar de tanta coisa que me vem à mente, para proteger as minhas memórias. No entanto, também sei que ando como uma balança a que falta um prato - tenho só o prato, e pesado, da actual política educativa, faltando-me o outro, o das aulas, o dos alunos. Falta-me porque não o posso ter não estando já na escola, falta-me também porque dos alunos não ouço falar - a não ser por números estatísticos - nas intervenções da ministra da educação e seus colaboradores (incluido-se nestes muitas vozes "sonantes" deste país), que nem pejo têm de fazer dos alunos cobaias.

Enfim, eu, que nunca fui pessoa para ficar calada (bem o sabem todos os que me conhecem de perto), ando cada vez mais a encarar com estranha recusa este cantinho onde tenho oportunidade de falar se quiser. Talvez porque, como já tenho dito, faço questão de persistir na esperança e, estando a ficar sem ela em termos de curto prazo, prefiro não mostrar o pessimismo (ou descrença) que começa a ser inevitável. Entretanto, estou a dizer isto porque tenho a acrescentar que acredito que este meu estado de espírito seria diferente se tivesse ainda o tal outro prato da balança que agora me falta - os alunos. Porque o trabalho com estes e para estes tem que continuar, é por isso que se escolheu a profissão de professor, e essa razão maior há-de prevalecer como motivação.

É uma razão que já não me pertence concretizar, essa falta é propícia a que se me instale a náusea que me causa o que anda a encher o referido prato da minha balança, a que falta o outro prato para equilibrar e manter o espírito positivo que gosto de ter. Mas... aos professores no activo esse outro prato não falta, com ele hão-de manter/recuperar serenidade, lucidez e firmeza - firmeza sobretudo, ela anda fugida de muitos (de demasiados, incluindo presidentes de CEs), mas a sua necessidade há-de acabar por se impor. (Marx disse que a liberdade é a consciência da necessidade, e eu atrevo-me a dizer, a propósito ou a despropósito - acho que a despropósito, mas não faz mal, serve para o que quero dizer - que a maioria dos professores anda a precisar de ganhar consciência da necessidade de firmeza, em vez de conformismo. Mas as tomadas de consciência levam o seu tempo, há que ter um bocadinho de paciência para aguardar - eu é que já estou fora do meu tempo de ter paciência).

quarta-feira, julho 11, 2007

Resultados em Matemática - Acusar e pressionar professores não resultou

Não posso emitir opinião sobre as causas de terem piorado e sido tão negativos os resultados dos exames do 9º ano - só uma análise das provas feitas pelos alunos permitirá avançar com algumas explicações sobre o sucedido.
Não me pronunciei aqui sobre o grau de dificuldade da prova (ou grau de facilidade - como preferirem), mas comentei em mais do que um post publicado sobre o assunto noutros blogues que não estava tão certa como muitos acharam da facilidade dela para os nossos alunos, quer porque conheço o tipo de dificuldades que têm 'à primeira vista' de um teste (e, num exame, não pode haver quem os faça ler com uma 'segunda vista'), quer porque as notícias que tive na altura iam bastante no sentido de os alunos terem saído do exame considerando-o difícil. E, embora a prova não tivesse itens que ultrapassassem os conhecimentos e o nível de desempenho que é de exigir, a verdade é que a facilidade que parece haver aos olhos dos adultos não é confirmada pelos alunos que temos.

Mas, como comecei por dizer, não posso analisar as causas destes resultados - e não penso, de modo nenhum, que seja ao conteúdo da prova que elas se podem atribuir.
O que me parece óbvio (aliás, sempre me pareceu - não é apenas hoje que o digo) é que acusar professores, intimidá-los e pressioná-los para trabalharem para um exame treinando e treinando os alunos para ele não resulta. A educação matemática das nossas crianças está cada vez mais difícil (e, claro, os professores têm responsabilidade pelo facto, mas também a têm os ministérios da educação, as famílias e a sociedade em geral), mas não é a trabalhar com os olhos postos nas estatísticas a obter que alguma vez se irá longe numa verdadeira educação matemática (a qual, aliás, começa incutindo-se nas crianças o gosto por ela).
E, como a paciência me anda a faltar, fico por aqui.
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P.S.:
Ah! Deveria comentar também a ida de Maria de Lurdes Rodrigues à AR? Peço desculpa, mas...

sábado, julho 07, 2007

E para fim de semana deixo...

(Prevejo fim de semana prolongado para serenar)

... deixo um quadro de Chagall (1887-1985), pois hoje seria seu aniversário - agradeço à Amélia Pais ter lembrado.


Marc Chagall (1974). L’Ange du Jugement.

Mas o que é isto??

Só hoje dei conta (distracção imperdoável) - alteração à Lei Sindical, ainda por cima com atropelos ao direito constitucional à negociação!

Por agora, deixo dois destaques elucidativos:

E faço também as perguntas que faz a FENPROF:


«Surpreendente é que, apesar dos sucessivos ataques movidos pelo Governo aos Sindicatos, à liberdade de exercício da actividade sindical, às regras da negociação e, de uma forma geral, às mais elementares normas do Estado de Direito Democrático, se tenham deixado de ouvir os verdadeiros socialistas que é suposto existirem no Grupo Parlamentar do PS. Por onde andarão?! Por que continuam a assumir este insuportável silêncio?!»