quarta-feira, junho 27, 2007

Eles...

Há bastante tempo que este cantinho anda com pausas e intermitências, pelo que será natural que a semana do dizer bem fique com um número de postagens muito escasso - o contrário seria forçar a escrita quando ainda não recuperei mais disponibilidade (seja esta de tempo ou mental).
No entanto, eles vieram-me ao pensamento - eles, os alunos que já não tenho, mas que foram tanto, tanto na minha vida. Vieram ao pensamento alunos individualmente, logo a seguir turmas, acabando por virem todos mesmo que a memória já os não distinga. Mas eu sei que em cada leva os distinguia todos, todos - todos diferentes, todos particulares, todos únicos. Alguns, é certo, a ocuparem mais o pensamento da professora/directora de turma, a precisarem de maior atenção por este ou aquele motivo ou circunstância, até mesmo o excelente aluno que não dá qualquer preocupação mas que acontece estar numa turma daquelas assim medianas - quase todos a andarem pelos mínimos -, para quem é preciso também diferenciar estratégias para que não deixe de ir tão longe como pode e deseja ir.

Vezes sem conta tive momentos em que me encantei, uma vez mais a ultrapassarem as minhas expectativas naqueles desafios que lhes fazia, naquelas iniciativas em que os metia, como se isso fosse novo, como se não estivesse já habituada a isso (mas estava). E como era também linda a cooperação que se estabelecia entre eles, uma vez adquirida aquela dinâmica do trabalho em grupo!
Algumas turmas, sobretudo nos últimos anos, mais difíceis? Sim, é verdade, mas agora era 3º Ciclo e não 2º, e acho que foi também nos últimos anos que eles próprios aprenderam a dizer "stôra, estamos na adolescência..." :-)

Gostava de saber escrever-lhes um poema. Como não sei escrever poemas, deixo apenas as minhas saudades. E este recordar, nesta semana do dizer bem.

segunda-feira, junho 25, 2007

Do bem que não é falado...

«No terreno, ao percorrermos, durante décadas, centenas de escolas de Portugal, encontrámos incógnitos heróis, espalhados por essas salas de aula; falámos com educadores que nada pedem e tudo dão. E, a par de alguma (inevitável) poluição (Onde está a "Etar"?), encontrámos oceanos povoados de humanismo e de fascínio.»

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In Álvaro Gomes (2006). Blues pelo Humanismo Educacional?. Edições Flumen.

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P.S.:

A variação de estado de espírito entre os meus três posts de hoje tem a ver com a dificuldade em corresponder (mas eu até queria alinhar) à proposta da Idalina Jorge, que pode ser recordada aqui (A semana do dizer bem), e que é uma proposta muito saudável mas, nas presentes circunstâncias, deveras difícil de concretizar!


Desculpem lá, mas não sou capaz de passar a semana só a dizer bem!!! Ora vejam isto...

Pensava eu que tinha conseguido mandar embora o mau humor, como se prova no meu post anterior. Mas logo uma horinha depois vou ao blogue do Paulo Guinote e leio estas notícias!
Se há assunto que me põe a ferver é isso do professor generalista para o 2º Ciclo, e cada vez o panorama parece pior.

Sim, há muita iniciativa positiva, e há muitos professores maravilhosos, mas a verdade é que isso tudo junto não tem força contra as confusões e descalabros a que estamos assistindo.

Pronto, vou mas é tentar, durante esta semana, ler só as coisas boas. Prometo que, depois, tentarei fazer uma lista para publicar.

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Adenda

Desculpem os meus impulsos.

Já passou...

Uma opção que admirei

Neste ano lectivo que agora finda, aposentada, o meu contacto com as coisas da escola confinou-se muito à blogosfera. Mas nela, incluindo divulgação e links para iniciativas, li muita coisa que vai fazendo manter a esperança na acção educativa. O meu post anterior reflecte o tal olhar que não gosto de ter reparando na garrafa meia vazia, mas, na realidade, também não faltam recheios para uma semana do "dizer bem".

E, embora não seja muito o meu género personalizar o que admiro, vou fazer uma referência especial à decisão da
3za (por acaso do meu grupo disciplinar) cujo amor, entusiasmo e dedicação pelo ensino e pelos alunos se sente em cada post que publica. A decisão que refiro foi a de não concorrer a titular, e as razões para tal encontram-se em vários dos seus posts, nomeadamente aqui e aqui. (Desculpa, Teresa, se achares que esses dois posts não são os mais significativos - eu achei que dizem tudo...)
Não interessa se eu me interrogo se não seria possível, em vez dessa decisão sem efeito nas actuais normas e apenas prejudicando pessoalmente, lutar depois, quando titular, pelo direito a continuar a trabalhar principalmente com os alunos. Também não interessa o que eu decidiria se me tivesse confrontado com a situação. (Aliás, não sei dizer o que faria, não tive que reflectir sobre isso) A verdade é que a Teresa optou de acordo com a sua vocação e com o que pensa da "carreira" de titular, mas essa opção não deixa de a afectar em dois aspectos: Um, o material, em termos de remuneração; outro, o impedimento de continuar com uma vertente de trabalho que, embora não sendo sentida como primordial, não deixava de complementar uma realização profissional através da formação de professores, para a qual sempre foi solicitada ou eleita e para a qual se conhece bem a sua aptidão e o seu contributo.

Há pessoas que contribuem fortemente para que consigamos manter as nossas melhores crenças, nomeadamente na educação das nossas crianças. A Teresa Marques é uma delas.

Um graaaande beijinho, Teresa!

domingo, junho 24, 2007

...

Ando farta, enjoada. Este país parece uma farsa (mas um tanto trágica).
Agora nem é por precisar de pausa que não me apetece escrever. É porque a política educativa me põe de mau humor, lembrar-me de certas mazelas das escolas também. E escrever de mau humor é negativo, não gosto.
2ª feira começa a semana do dizer bem, como propôs a Idalina Jorge. Estou desejosa de ler posts a dizerem bem de coisas relacionadas com o sistema de educação-ensino, pode ser que me inspirem...

Desculpem-me, colegas que leiam estas linhas. Eu sou muito persistente na esperança (nem que seja só a médio ou mesmo a longo prazo), defendo o pensamento positivo e isso de ver a garrafa meia cheia e não meia vazia, mas de vez em quando também sofro de enjoos e preciso de deitar umas coisas para fora... Mas pronto, venha depressa essa semana do dizer bem!

quarta-feira, junho 20, 2007

Afinal o plano para a Matemática era só para o 3º Ciclo, ou MLR está baralhada??

Comecei por pensar que a minha memória estava equivocada e até fui pesquisar notícias antigas. Mas não, não estou enganada, o plano de acção para a Matemática foi mesmo previsto para 2º e 3º ciclos.
Então, o que aconteceu entretanto? Será que esqueceram todos o 2º Ciclo porque no 3º é que havia a "grande prova", o exame? Isto está a fazer-me cócegas na mente, mas devo ser eu que me prendo a "pormenores". É melhor esquecer o assunto e deixar votos para que, no próximo ano lectivo, a aprovação de novos planos (novos, pelos vistos) e o respectivo financiamento venham mais atempadamente do que aconteceu no corrente ano.

terça-feira, junho 19, 2007

"Sem partido que o incomode"...

Regresso ao país e leio um artigo de António Barreto enviado pela Amélia Pais. Nem costumo gostar muito do que escreve A.B., mas, na minha opinião, este retrato que faz é lúcido e certeiro.

«(...)
Onde estão os políticos socialistas? Aqueles que conhecemos, cujas ideias pesaram alguma coisa e que são responsáveis pelo seu passado? Uns saneados, outros afastados. Uns reformaram-se da política, outros foram encostados. Uns foram promovidos ao céu, outros mudaram de profissão. Uns foram viajar, outros ganhar dinheiro. Uns desapareceram sem deixar vestígios, outros estão empregados nas empresas que dependem do Governo. Manuel Alegre resiste, mas já não conta.
(...)
Sem partido que o incomode, sem ministros politicamente competentes e sem oposição à altura, Sócrates trata de si. Rodeado de adjuntos dispostos a tudo e com a benevolência de alguns interesses económicos, Sócrates governa. Com uma maioria dócil, uma oposição desorientada e um rol de secretários de Estado zelosos, ocupa eficientemente, como nunca nas últimas décadas, a Administração Pública e os cargos dirigentes do Estado. Nomeia e saneia a bel-prazer. Há quem diga que o vamos ter durante mais uns anos. É possível. Mas não é boa notícia. É sinal da impotência da oposição. De incompetência da sociedade. De fraqueza das organizações. E da falta de carinho dos portugueses pela liberdade.»

Texto na íntegra pode ser lido aqui.

Regresso a casa




Uma vista da varanda da casa onde ficaram as minhas saudades, parte do coração sempre lá pelo pensamento que não conhece distâncias...

sexta-feira, junho 15, 2007

Mas o que é isto?! "Que já me querem cego, surdo, mudo"...

Mas o que é isto?!
É processo disciplinar por graçola sobre um primeiro ministro; é convite de exclusão por comentário a palavras de uma ministra; é uma direcção regional a guardar "tudo o que tem saído na comunicação social, nos blogues, ..."; é a táctica intimidatória quando é convocada uma greve; é a ameaça em mesa de negociação; é o abuso do poder, o pontapé na Constituição da República, a punição a quem adoeça...

Ninguém trava estes ditardorzinhos de meia tigela? É que se lhes dão corda, eles não param!
Que se passa? Medos?

É a medo que escrevo. A medo penso.
A medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo
A medo me renego, me convenço.

A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
De outros medos. A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.

A medo durmo. A medo acordo. A medo
Invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.

A medo guardo confissão, segredo.
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo, mudo.

José Cutileiro, Os medos, in Versos da mão esquerda, 1961.

quarta-feira, junho 13, 2007

Sanções por delito de opinião - Ainda o caso da APM

Faço uma pequena interrupção no meu intervalo para deixar a notícia que a Maria Lisboa me fez chegar. Ler aqui.
É tempo de acabar com o silêncio complacente sobre a atitude de represália da actual equipa do ME e seus colaboradores face a opiniões críticas. Aguardemos...

sábado, junho 09, 2007

Intervalo


Renoir (1906). La promenade

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Marchando no tempo,
antes de tudo e após tudo,
soberbo, o silêncio.
Alexei Bueno

quarta-feira, junho 06, 2007

Quando o exemplo de cima é propício...

Quando entro em intervalo ou pausa surgem sempre acontecimentos que me batem na cabeça não me deixando ficar em silêncio.
Ainda não deixei de pensar no caso de que, como outros colegas, tive conhecimento ontem logo pela manhã. A notícia (de Fevereiro) "Com leucemia - obrigada a dar aulas" pode ser lida aqui, não a transcrevo pois já foi divulgada na blogosfera. Transcrevo, sim, esse desabafo de enorme e justificada revolta pelo qual conhecemos o triste desfecho do caso, e que o colega Francisco me deixou ontem num post meu que oportunamente encontrou intitulado "Isto já não é só arbitrariedade prepotente, é demência (e violenta)":

"Apenas vos queria comunicar que essa professora, a minha colega Manuela Estanqueiro, foi hoje a enterrar às 15.30h no Cemitério de Cacia, em Aveiro.Estou REVOLTADO. Nem sabem o que me apetece fazer.Agora percebo porquê que às vezes lemos nos jornais casos de ajustes de contas a tiro.Por muito menos o fazem, por muito menos.Desculpem a crueldade mas, dizer menos que isto, era lutar contra um sentimento de justiça que me atormenta e é bem mais forte.Estou ENOJADO.ENOJADO!!!!!!!!!!!!!Francisco"

Quando, de cima, escasseia o exemplo de moral ou ética e de sensibilidade humana, não é de admirar que se propague um clima propício a que se aliem ao excesso de zelo servil tendências para exercício prepotente de pequenos poderes, tendências essas que podem tocar impunemente as raias da crueldade, como no caso acima citado, além de, como noutros casos de que vamos tendo conhecimento, darem largas à delação, a disfarçadas perseguições, à instalação de um ambiente de medo, enfim, a pelouros onde imperam tendências autocráticas de indivíduos que apenas esperam climas favoráveis a exercê-las.
Termino repetindo apenas o título deste post: Quando o exemplo de cima é propício...

segunda-feira, junho 04, 2007

Paisagens tranquilas (para intervalo)

Desconheço os nomes significativos das artes deste país onde estou, mas achei graça ao encontrar na net, em página suiça, a referência a esse autor abaixo como "Un peintre politiquement incorrect", embora o quadro que dele deixo tenha apenas a ver com o título deste post e nada revele de política[Livra! Não me ia meter por aí! ;-)]


O.Gonet. Une escale sur le lac Leman


E, já agora, mais um(a) artista destas paragens onde tudo parece sempre calmo (numa estranha coexistência pacífica entre a banca e a política social)...


Jacqueline Bachmann (2003). Reflet estival

sábado, junho 02, 2007

Estou em atraso...

Acho que não devo adiar mais a minha resposta a este desafio, apesar de continuar em pausas e intervalos, também com pouca assiduidade em termos de visitas excepto a quatro ou cinco vizinhos. Aliás, face à disponibilidade/prioridades que tenho, há bastante tempo que as minhas rondas se limitam à "blogosfera docente" e, mesmo nesta, haverá bastantes blogues que ainda não calhou conhecer.

"Thinking Bloggers"? Bem, eu penso muito, pensar é até um vício ou mania que tenho, mas acho que as minhas escolhas "bloguistas" se guiam sobretudo por afinidades e também por procura de informação que me mantenha actualizada.

Mas, deixo-me de mais paleio prévio e aqui vão as minhas maiores pendências...

- OutrÒÓlhar, do Miguel Pinto, pela dinamização de debate que procura fazer, pela crença e defesa persistente de um modelo de escola pública com que me identifico, e também por esse elo que criei com alguns dos colegas que conheci na blogosfera.

- Da crítica da Educação à Educação Crítica, do Henrique Santos, pela afinidade que tenho sentido com os seus ideais sobre política educativa e não só educativa, pela sua intervenção forte e persistente, enfim... é também um blogue cujo acompanhamento não dispenso.

- Tempo de Teia, da Teresa Marques, pelo dinamismo, gosto de partilhar, amor pelos alunos, enfim, pela dedicação que revela, também pela persistência no optimismo e na confiança, e ainda porque me traz memórias e me faz sentir que pugna na prática docente por coisas muito parecidas com aquelas em que acreditei e por que também pugnei.

- O Canto do Vento, da Matilde, porque nesta sinto serenidade, tempo para poesia, também porque a sinto na blogosfera assim como vizinha amiga.

- A Educação do meu Umbigo, do Paulo Guinote, porque, ainda que nem com todas as suas ideias esteja de acordo, considero que o seu espírito de análise e os conteúdos dos seus fluentes textos têm sido um contributo notável na blogosfera.

Ai... já foram os cinco! Desculpem, desculpem ultrapassar o limite, mas não consigo deixar de referir...

- Terrear, do José Matias Alves, porque... pronto, acho que é mesmo um thinking blogger;

- Chora que logo bebes, da Madalena Santos, por aqueles posts que me fazem sentir tantas afinidades com ela;

- Ao longe os barcos de flores, da Amélia Pais, não só por ser um canto que diariamente proporciona poesia - em verso e em prosa -, mas também porque, paralelamente ao seu blogue, a Amélia, como eu na situação de aposentada, continua atenta e activa sobre as questões de educação/ensino, alertando e partilhando; pela poesia e não só, obrigada, Amélia!


- E ainda uma palavra para o Miguel Sousa, do
Educar para a Saúde e do Escolaridades, pelas espontâneas denúncias na defesa veemente de uma escola pública que não instrua apenas, mas também eduque, com, por vezes, "iras" impulsivas que mais não são do que leve capa de um coração que suspeito de ouro, amando a escola de facto pelos alunos.

sexta-feira, junho 01, 2007

No dia da criança... para as minhas crianças

Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
P'ra me poder aquecer
Na mão de qualquer menino

Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz
P'ra tudo o que eu sou caber
Na mão de qualquer de vós

Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Tudo em mim se pode erguer
Quando me pisam não grito

Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto
O que lá estou a fazer
Só se nota quando falto

Quando eu for grande quero ser
Ponte de uma a outra margem
Para unir sem escolher
E servir só de passagem

Quando eu for grande quero ser
Como o rio dessa ponte
Nunca parar de correr
Sem nunca esquecer a fonte

Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz

Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto

Quando eu for grande...
Quando eu for grande...

Quando eu for grande quero ter
O tamanho que não tenho
P'ra nunca deixar de ser
Do meu exacto tamanho


José Mário Branco, Quando eu for grande (Carta aos meus netos)

quinta-feira, maio 31, 2007

Desigualdade de direitos

"Em Portugal existem hoje mais de um milhão de trabalhadores que não podem fazer greve sem correr o risco imediato de perder o trabalho. Já lhes chamaram os trabalhadores do século XXI: são os contratados a prazo, os falsos recibos verdes, os temporários, os subempregados. Um contingente que tem vindo a aumentar à medida que se consolidam duas das tendências do mundo do trabalho actual. Nas empresas, há cada vez menos efectivos e cada vez mais serviços externos, frequentemente disponilizados por firmas de trabalho temporário. (...)"

(No Público de ontem)

quarta-feira, maio 30, 2007

Greve


Um modo simbólico de me juntar aos professores em greve, bem como a todos os outros trabalhadores portugueses em greve neste dia, já que a situação de aposentada não me permite outro modo de participar.

terça-feira, maio 29, 2007

Greve: Conheça os seus direitos

Há professores que fazem perguntas, tais como: A recolha de dados permite a identificação dos grevistas? É preciso comunicar a adesão à greve? Esclareça-se aqui sobre estas e outras perguntas.
____
P.S.:
Disse, no post anterior, que iria ter o meu pc desligado, e é verdade. Mas, neste recanto da Europa onde me encontro e que, por sinal, não pertence à UE, tenho um pc à minha disposição e não lhe resisto ;)

sábado, maio 19, 2007

Desligando o pc por uma dúzia de dias





Ali habitam minhas saudades. Amanhã estarei lá. Já estou ouvindo Lio a dizer todo o tempo: Viens jouer avec moi...
:)




Dia 30 ainda não estarei cá pelo país. Será que me vão chegar as notícias?
Deixo votos de que a adesão à greve no sector dos professores seja coerente com o que de facto pensam e sentem. Seja maior ou menor, que permita uma leitura que nos esclareça a todos.
(Não, não estou a ser cínica, podem crer. A greve geral é no dia 30, não foi ontem nem é daqui a um mês ou a seis, portanto, é mesmo dia 30 que vai haver oportunidade de os professores enviarem a sua mensagem a quem governa - não só os professores, claro, mas permita-se-me esta especial referência).

segunda-feira, maio 14, 2007

Breve interrupção da pausa deste blogue

Este blogue completa hoje dois anos. Não vim interromper a pausa em que ele está para trazer bolinho de festa com velinhas, nem para os amigos cantarem os parabéns (shiuuu... não esqueçam que este cantinho está mesmo parado, só cá vim deixar para mim mesma mais uma memória - sim, neste momento, vejo o projecto inicial já como uma memória).

Quando criei este blogue mal conhecia a blogosfera e ainda nem tinha procurado blogues de colegas. Aliás, criei-o em Maio, mas pensando que só nas férias seguintes teria tempo para lhe começar a dar corpo. Estava, então, bem longe de imaginar que muito brevemente a nova ministra da Educação viria desviar-me de memórias, nem que fossem memórias com poucos meses.

Criei-o pensando-me particularmente como professora de Matemática do Básico. Essa disciplina, sempre a de maior taxa de insucesso, mas tão importante na educação para os hábitos (e o gosto) de desafiar o raciocínio e procurar o rigor e a precisão (deixem que me exprima simplificadamente, não quero alongar-me), essa disciplina, cá na minha convicção, precisa de ampla partilha de experiências, especialmente sobre os métodos de ensino dela - note-se que disse experiências, pois teoria e estudos importantes não faltam.
Mas, depressa a actual política educativa me desviou do projecto inicial, ele nem chegou a passar de um vago projecto.
E, já agora, digo uma coisa que nunca disse: É que até nem foi por acaso que não cheguei a escrever nenhuma memória relativa a outra vertente de trabalho que, durante mais de vinte anos, também foi para mim uma paixão (depois, as duas horas sobrantes do meu horário foram precisas para tarefas no campo das TIC), situando-se nela boa parte das memórias que me são mais gratas como professora e educadora. Refiro-me à direcção de turma. "Coisas" para e com as turmas, também para e com os pais, e ainda com uns e outros ao mesmo tempo... disso percebi que não queria falar, pois a papelada, a burocracia que foi caindo sobre os directores de turma, mais os conselhos de turma (incluindo os intercalares) progressivamente a esvaziarem-se (apesar de parecerem encher-se, pois papelada não lhes falta para se passar o tempo todo a preenchê-la), tudo isso, e tudo o mais que hoje não vou referir (ou repetir), acabou por me exasperar e me criar a necessidade pessoal de deixar estar as minhas memórias quietinhas e protegidas. (Incluindo memórias de outro tipo, também de muitos anos, que no futuro só 'professores titulares' passarão a ter, mas sobre essas seria sempre complicado escrever, o mundo das crianças é mais simples que o dos adultos e alguns destes vão criando resistências a "aventuras" - não me refiro, claro, a aventuras perigosas, nem a aventuras nefastas ao jeito milu, valter & cª)

Depois de intermitências e de intenções de intervalos, entrei finalmente em pausa de escrita aqui (um post ou outro não altera isso). Entrei, porque não gosto de andar, em nada, a balançar entre "quero continuar" e "não quero continuar", e o meu bloguezito nem é caso para isso, não é caso para precisar de decisões, a decisão virá por si quando calhar, embora não esteja a pensar apagá-lo pois guarda algumas recordações.
E, nesta disposição para o laconismo, ao vir escrever só para não tratar tão mal o meu cantinho que nem sequer ligasse ao seu segundo aniversário, isto de tocar levemente em vários assuntos claro que tinha que dar um post sem jeito - desculpa lá, cantinho!

P.S.
Que coisa... só agora fui ver! Não é que há um ano já escrevi quase o mesmo que hoje?! (Com a diferença de ter sido um post bastante mais longo). Enfim... nem faço comentários a mim mesma, pronto.
_____
Adenda
Mas o post que eu queria deixar neste mês de Maio, já que é muito pouco provável que escreva, continua a ser o anterior, aqui.

terça-feira, maio 01, 2007

O que eu queria era um mês de Maio cheio de flores...





Quando não sei quando volto, gosto de deixar o meu cantinho bonito (recorrendo aos Grandes criadores de beleza).
Mas...



(1)

...mas, o que eu queria era um mês de Maio cheio de flores.


(Até porque acho que este Maio cá pelo nosso país vai ter 30 dias e o 31º será para balanço)


(2)
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(1) Renoir, 1912
(2) Monet, 1923-1925

domingo, abril 29, 2007

A propósito do artigo "Professores confessam ângustias em blogues"

Já que fui citada no artigo da jornalista Ângela Marques publicado hoje no Diário de Notícias (aqui), trasncrevo na íntegra o texto do meu e-mail em resposta ao pedido da minha opinião sobre o crescente uso de blogues por professores.

«Olá, Ângela Marques

Vou tentar dizer rapidamente o que penso, mas fico à disposição para algumas questões concretas que eventualmente queira colocar. E vou referir-me apenas aos blogues de professores que são assumidos como tendo por temáticas essencias as relacionadas com educação-ensino (ensino não superior).
Não me detenho no importante e óbvio aspecto geral de a blogosfera ser um espaço de liberdade de expressão e de opinião públicas aberto a todos os que o queiram utilizar.

Começo por salientar a importância de um tipo de blogues de professores voltados principalmente para a partilha de experiências e práticas, cujos autores são professores que procuram sempre inovar, que procuram novos recursos nomeadamente no campo do uso das TIC no ensino, e que partilham as suas experiências, interrogam, avaliam e proporcionam nessa partilha enriquecimento para todos os que os lêem, quer para os que também partilham as suas, quer sobretudo para os professores mais novos, dos quais há já bastantes testemunhos do apreço pelo que aprendem com outros já mais experientes. Há já bastantes blogues deste tipo, cito um apenas a título de exemplo - O Tempo de Teia:
http://tempodeteia.blogspot.com/ .
Ainda neste âmbito, há também blogues cujos autores, dominando bem as TIC, têm principalmente (ou até exclusivamente) o objectivo de divulgar os novos recursos aplicáveis ao ensino que constantemente estão a surgir, e que são preciosos para os professores que, não tendo tido uma formação nesse campo, desejam actualizar-se dado que se torna urgente a generalização do uso desses recursos, aliás motivadores para os alunos. Um exemplo: O Educação, Matemática e Tecnologias (não só recursos aplicáveis na Matemática, apesar do título):
http://blog.joseoliveira.net/

Passando para outro tipo de blog mais voltado para a política educativa e para a análise das novas medidas, é natural que encontre crítica, mas é também aí que se encontram publicadas a análise e a opinião dos que estão no "terreno", são os professores quem conhece bem este, mas são os professores precisamente os que raro espaço têm na comunicação social para serem ouvidos, mesmo quando na comunicação social são denegridos, acusados, todos metidos no mesmo saco.
Entre estes blogues, há blogues de bastante qualidade, cujos autores escolheram o ensino por vocação e, muitos, por paixão mesmo, e a exposição e debate de ideias é sempre importante como dinamização do pensamento e da reflexão, para o que há cada vez menos espaço e tempo dentro das escolas devido à catadupa de papelada e tarefas burocráticas que tem caído nas reuniões dos diversos orgãos da escola. E, se haverá professores cujos blogues possam denotar mais preocupação com a situação profissional dos docentes, outros há cujas temáticas de discussão são na defesa da escola pública e na preocupação com os alunos (os alunos todos).

Pronto, já disse o suficiente para mostrar que considero positivo o crescente interesse dos professores pela blogosfera. Como em tudo, há qualidade melhor e qualidade menor.

Mas quero ainda referir um outro uso crescente do blog pelos professores, que é a criação de blogs de turmas. Seja para a escrita de contos e poemas pelos alunos, seja para a divulgação de trabalhos destes, seja, no caso de turmas de anos mais avançados, para tratarem temas curriculares exigindo pesquisa ou proporcionando debate, etc. - o blog é motivador para os alunos e, através de um blog orientado pelo professor podem desenvolver várias competências.

Duas notas finais sobre duas observações suas:

1ª - Confesso que nunca vi dizer mal dos alunos em blogues. Mas é preciso ter em atenção dois aspectos. Um, é que há blogues de professores que são mesmo uma espécie de diário, tanto falam de outras coisas do quotidiano como das aulas, e creia que há muitos professores que quanto mais se preocupam com os alunos, mais se desesperam quando não trabalham, é natural que tenha encontrado desabafos. Outro aspecto, é que não se confunda a referência à perda de hábitos de trabalho e esforço, e à indisciplina, notoriamente crescentes nos últimos 10 ou 15 anos, com atribuição de "culpa" aos alunos. Os professores "bloguistas" mais considerados, quando referem isso, sabem e apontam que as causas são variadas, devendo preocupar toda a sociedade - pais, professores, governo, responsáveis pelos media (principalmente TV), ...

2ª - Pergunta se os blogues dos professores são lidos pelos alunos. Penso que terão pouca curiosidade por isso e, exceptuando os blogues que são criados para alunos, naturalmente que os professores não vão publicitá-los nas turmas, tal como nas aulas o que se deve é desenvolver competências de análise e de crítica fundamentada, não fazer a cabeça dos alunos com as ideias pessoais dos professores.

Desejo-lhe bom trabalho (que será decerto árduo, pois a variedade é grande e mesmo cada blogue não pode ser percebido quanto às suas temáticas predominantes por pequena amostra de postagens.

Com os melhores cumprimentos
Isabel Campeão, professora de Matemática aposentada desde Setembro último, blogue:
http://msprof.blogspot.com»

sexta-feira, abril 27, 2007

Os tempos livres das crianças

Continuo com muito pouca disponibilidade para "postar". Mas deixo a sugestão de leitura de um artigo que tem a ver com o título que dei a este post - Os ecrãs, a família e o quotidiano, de Manuel Pinto, em a Página da Educação.

quarta-feira, abril 25, 2007

33 anos depois...

... comemorar, sim, mas lutar também.






De tudo o que Abril abriu

ainda pouco se disse

e só nos faltava agora

que este Abril não se cumprisse.



Ary dos Santos (1975).
Pequeno excerto de As portas que Abril abriu.

terça-feira, abril 24, 2007

"Boys and girls need separate classes"

Que coisa, eu já tinha lido isto há quase quatro meses, e só agora é que a "novidade" chega cá?
(Por acaso tinha guardado o artigo, lembrei-me dele agora que estou a ouvir no noticiário da SIC esta ideia bombástica. Se alguém a quiser comentar, faça favor... - eu não comento, ando com falta de paciência)

domingo, abril 22, 2007

FENPROF

E agora que terminou o Congresso... Força, FENPROF!

(Se os professores assim quiserem. Não duvido da determinação dos dirigentes da FENPROF, mas a sua força dependerá sempre da firmeza e da luta a que os professores estiverem dispostos na defesa quer dos seus legítimos direitos, quer de um sistema de educação-ensino de qualidade e democrático)

sábado, abril 21, 2007

Uma dica (Sou conservadora no software)

Quando gosto de determinado programa e me habituo a ele, seja simples ou mais complicado de dominar, é-me difícil aceitar substituí-lo. Por exemplo, quanto a tratamento e montagem de imagens (fixas), ainda nada me convenceu a substituir o meu velho Corel PhotoPaint, apesar de me terem dado outro também óptimo e até ter tido o raro luxo de sessões (gratuitas) para lhe conhecer todas as funcionalidades sem andar a matar a cabeça. Mas não é nenhum programa assim desses mais complicadinhos de aprender a usar que venho referir.



Há necessidades correntes e básicas que não precisam de software complicado nem pago (ou "pirateado"). E, já que acabei de recuperar o meu velhinho visualizador gráfico - o IrfanView -, agora em versão actualizada, lembrei-me de deixar a dica para quem não o tenha. Tinha deixado de o instalar e até me esquera dele. É grátis e muito simples, mas tem várias funcionalidades que o tornam mais do que um mero visualizador (e pode ser configurado para abrirem com ele apenas ficheiros dos formatos que se desejem). Podem ver essas funcionalidades neste post aqui (foi esse post do Jazzit que mo recordou), ou aqui (pois pareceu-me que o 1º link funciona mal). Para download: IrfanView - graphic viewer.

quinta-feira, abril 19, 2007

Momentos...

Lembro-me ou não ? Ou sonhei ?

LEMBRO-ME ou não ? Ou sonhei ?
Flui como um rio o que sinto.
Sou já quem nunca serei
Na certeza em que me minto.

O tédio de horas incertas
Pesa no meu coração,
Paro ante as portas abertas
Sem escolha nem decisão.

Fernando Pessoa, Poesias Inéditas


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Feodor Vasilyev. Maré.

segunda-feira, abril 16, 2007

Uma memória do cinema

Chaplin faria anos hoje.
Já que o YouTube me permite guardar no meu cantinho imagens inesquecíveis, escolhi essas...




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P.S.
Uf!!! Tinha esta cena final do Tempos Modernos em rascunho e quando fui publicar... tinha sido retirada do YouTube! Mas eu tinha que encontrar essa cena, só levou um bocadinho de tempo ;)

domingo, abril 08, 2007

Um livro...

Embora este cantinho vá continuar em pausa, hoje fui movida por um post que descobri no blogue De Rerum Natura, post assinado por Carlos Fiolhais. Ressalvando que o texto de CF é mais lato do que o que aqui vou recordar como memória minha, emocionou-me a referência não só a Bento de Jesus Caraça, mas à obra cuja capa se vê no topo desse post:


Ignoro se ainda se encontram exemplares à venda de alguma reedição, a que tenho é esta:

Emocionou-me porque este livro foi uma obra que li sofregamente algures na década de 70. Sugiro-o vivamente, pelo menos aos professores de Matemática. Apesar da minha grande admiração por Bento de Jesus Caraça, limito-me a reforçar aqui a referência a esta obra. Um aspecto que nela me fascinou foi a perspectiva dialéctica com que o autor descreve várias evoluções na história da Matemática, nomeadamente no progressivo alargamento do campo dos números, na ultrapassagem de "impasses" gerando novas criações da mente humana no que respeita a conceitos matemáticos, inclusivamente os que se tornaram elementares. Outro aspecto que foi para mim muito interessante tem a ver com uma descrição que alia as novas criações aos contextos e necessidades sociais.

Do prefácio do próprio Bento de Jesus Caraça, datado de 1941, transcrevo a 1ª parte, intitulada Duas atitudes em face da Ciência:

«A Ciência pode ser encarada sob dois aspectos diferentes. Ou se olha para ela tal como vem exposta nos livros de ensino, como coisa criada, e o aspecto é o de um todo harmonioso, onde os capítulos se encadeiam em ordem, sem contradições. Ou se procura acompanhá-la no seu desenvolvimento progressivo, assistir à maneira como foi sendo elaborada, e o aspecto é totalmente diferente - descobrem-se hesitações, dúvidas, contradições, que só um longo trabalho de reflexão e apuramento consegue eliminar, para que logo surjam outras hesitações, outras dúvidas, outras contradições.
Descobre-se ainda qualquer coisa mais importante e mais interessante: - no primeiro aspecto, a Ciência parece bastar-se a si própria, a formação dos conceitos e das teorias parece obedecer só a necessidades interiores; no segundo, pelo contrário, vê-se toda a influência que o ambiente da vida social exerce sobre a criação da Ciência.
A Ciência, encarada assim, aparece-nos como um organismo vivo, impregnado de condição humana, com as suas forças e as suas fraquezas e subordinado às grandes necessidades do homem na sua luta pelo entendimento e pela libertação; aparece-nos, enfim, como um grande capítulo da vida humana social.

Será esta atitude que tomaremos aqui. (...)»


quarta-feira, março 21, 2007

Lembrando a chegada da Primavera

Auguste Renoir, La fille à l'arrosoir (1876)

Pour Sô

                      















Tu es née en le premier jour du printemps, ma première petite-fille, aujourd'hui une jeune fille merveilleuse. Tes anniversaires seront toujours un premier jour de printemps.
Je laisse ici, pour toi, la représentation du printemps exécuté par un grand peintre.


Parabéns, Soraïa!
Saudades... saudades... Até breve!
[Ces mots, tu connais ;)]

segunda-feira, março 19, 2007

Educação para os Media: que papel cabe à escola?

Limito-me a transcrever (os destaques são meus), na sequência da minha última visita à a Página da Educação.

Primeiro, em jeito de introdução, palavras de José Paulo Serralheiro no artigo A vida social e política ao sabor do telecomando:

"(...)
A política e a vida transformadas em espectáculo televisivo não são uma questão local mas global. Os média [em geral] deixaram desde há muito de ser espaços de discussão, de debate, de informação pertinente e fiável, de racionalidade, de análise da realidade, para serem lugares promotores de espectáculos onde cabem, cada vez mais, a vulgaridade, (...) O que cada vez mais espectadores esperam é o «espectáculo da vida» e imaginar-se participante dele.
(...)
A crença de que «o que não passa na comunicação social não existe» tem efeitos devastadores nas sociedades. E se não importa fazer, mas fazer constar que se faz, que consequências tem tal realidade na carreira e na prática docente?
(...)
Os objectivos educacionais são políticos, não são técnicos. E por isso a profissão docente não dispensa nem o pensar nem a política.
(...)
Também nesta Pós-Modernidade portuguesa, onde florescem novos «ismos», a nova gerência do Estado ambiciona dispensar-nos do pensamento critico e convida-nos a bastarmo-nos com o espectáculo comunicacional. É que não aprender a pensar é condição indispensável para se aceitar que os caminhos do mundo não são diversos, mas são só um e mais nenhum. "

A seguir, palavras de Sara Pereira, no artigo Educação para os Media: por onde começar?:

"(...) Esta reflexão surge num momento simbólico para esta área – a celebração do 25º aniversário da Declaração de Grunwald, um documento publicado pela UNESCO a 22 de Janeiro de 1982 que expressa as razões da premência e da pertinência da EPM. Um quarto de século depois desta Declaração, pouco se avançou neste domínio em Portugal. (...) Em 1993 o então Secretário de Estado dos Ensinos Básico e Secundário encomendou à Universidade do Minho um estudo que teve como finalidade apresentar propostas de implementação da EPM nos vários níveis de ensino. A iniciativa foi encarada, na altura, como uma excelente possibilidade para que esta área entrasse formalmente nos curricula de crianças e jovens, porém, com a mudança de Governo, o estudo acabou por ficar na gaveta, sem qualquer seguimento. A EPM permaneceu, deste modo, um domínio de ninguém, empurrado muitas vezes da escola para a família e vice-versa. (...) Por motivos de vária ordem, alguns conhecidos, outros ainda por apurar, esta área tem tido uma aceitação e uma recepção difíceis por parte dos que poderiam ser seus protagonistas (os vários agentes educativos – professores, pais, técnicos dos serviços educativos, etc). Um desses motivos é, necessariamente, a pouca oferta de formação dirigida aos actuais e futuros profissionais da educação (...)
Na minha perspectiva, é fundamental que as famílias sejam envolvidas na EPM pois um trabalho desta natureza unilateralmente considerado pode não ter as condições necessárias para o seu desenvolvimento e pode não alcançar resultados efectivos. (...) Porém, nas duas últimas acções desenvolvidas percebi a resistência de alguns pais em aceitar os media, especificamente a televisão, como motivo e mote de diálogo e de reflexão. Percebi alguma dificuldade em aceitarem que o seu principal meio de entretenimento, de distracção, de informação, de companhia e até de catarse dos problemas do dia-a-dia possa, também ele, constituir razão de preocupação e de discussão. A televisão assume um lugar tão central nas casas e nas vidas de algumas famílias que não é fácil deixarem, por uma noite, de ver televisão para irem falar sobre ela.
Perante este cenário, coloca-se a questão: por onde começar então esta formação considerada pela UNESCO, e por outras organizações internacionais, uma componente essencial da formação básica de qualquer cidadão? A questão fica em aberto, como apelo à reflexão do leitor. "
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Adenda
Também de Sara Pereira, um artigo mais antigo - Fevereiro de 2006 -, mas ainda pertinente (sugiro a sua leitura, até porque refere alguns dados de um estudo realizado com crianças) : Os "Morangos com Açúcar" têm lugar na escola?

sábado, março 17, 2007

E já que falei da matemática...

[Quatro posts seguidos a falar dela... mas que coisa! Pois agora, para mais um fim de semana prolongado do meu cantinho - ou pretexto para intervalo -, deixo um pensamento ainda sobre a matemática ;)]

"A Matemática pura é, à sua maneira, a poesia das idéias lógicas.

Albert Einstein               


Ainda sobre a Matemática: Culpabilização dos professores e pressão externa podem produzir actuações contraproducentes

Todos sabemos que desde há alguns anos se vem verificando uma cada vez mais ampla falta de hábitos de trabalho, de estudo e de esforço por parte dos alunos do ensino básico. Culpabilizar a escola porque não os motiva ou culpabilizar os pais porque não os educam e responsabilizam são, a meu ver, atitudes fáceis e simplistas, pelo que não refiro aquela constatação para sequer apontar causas - refiro-a apenas porque, independentemente de várias e provavelmente complexas causas (sobre elas deveria toda a sociedade reflectir), é um facto que muitas e muitas turmas exigem um enorme esforço por parte dos professores sem que muitas vezes esse esforço consiga diminuir o insucesso escolar, muito especialmente nas disciplinas em que este é maior, das quais a matemática está "à frente" (aliás, sempre esteve).

O "escândalo" dos resultados dos exames do 9º ano - exames realizados apenas nos dois últimos anos lectivos - tornou particularmente os professores de matemática do ensino básico alvo, primeiro, de ataque à sua competência, e, depois, de pressão inclusivamente para a elaboração dos tão falados planos de acção para a matemática a nível de escola. Não ponho em questão a pertinência desses planos, mas sim a pressão psicológica que tudo isto não deixou de gerar. E, por muito que saibamos da elevada percentagem de alunos que chegam aos anos terminais do 3º ciclo já desistentes em matemática ou com grandes dificuldades de recuperação (mesmo quando já mais responsabilizados e preocupados devido até à idade) porque foram transitando com insucesso naquela disciplina tão marcadamente sequencial, não deixa de ser também um facto que são os professores do 9º ano que de algum modo se sentem visionados com os resultados dos exames, mesmo se nas respectivas escolas ninguém os culpa ou, até fora delas, as causas várias de elevadas taxas de insucesso acabem por ser correctamente equacionadas.
Tudo o que foi dito publicamente sobre os professores de matemática na altura dos primeiros exames, por mais que seja evidente o absurdo da ideia que chegou a "passar" como se fossem eles a "ovelha ranhosa" do sistema educativo (ou o "rebanho ranhoso", no caso), foi uma atitude pública muito infeliz que, além de injustiçar muitos e muitos bons profissionais, não deixou também de colocar professores sob pressão psicológica e stress.

Tudo isto me vem outra vez a propósito de um pequeno e pontual caso que me aconteceu hoje. Ao encontrar-me com uma amiga e ao comentarmos a actual política educativa e seus reflexos no próprio clima das escolas e no estado de espírito de muitos professores, referiu-me ocasionalmente desabafos de alunos do 9º ano da sua escola. Posso mencioná-los aqui dado que são alunos de uma escola anónima entre tantas, obviamente não a identifico nem isso interessa absolutamente nada, é apenas um exemplo, entre possíveis e diferentes outros, do que escrevi como título deste post. Os referidos alunos têm matemática nos tempos a ela destinados e - dentro do próprio plano de acção para a matemática da sua escola - também regularmente em Estudo Acompanhado (até aqui, eu ainda nem levantaria muito grande questão) e... ainda na Área de Projecto (!) - portanto, duas áreas convertidas, no caso referido, em leccionação da matemática -, além de alguns deles terem ainda aulas suplementares de apoio incluídas nos ditos planos de recuperação (nos quais alguns professores as incluem mesmo quando do que a recuperação de facto depende é de mais atenção e empenhamento dos alunos e de preocupação da família com isso).
E, assim, o resultado é que os referidos alunos já não podem "ver" matemática à sua frente; o resultado é uma saturação e uma falta de gosto por essa disciplina ainda maior do que a que muitos já traziam.

Não trouxe este caso (provavelmente até pontual) para censurar ninguém. Trouxe-o, repito, como um pequeno exemplo do que a pressão sobre os professores de matemática pode ocasionar, inclusivamente em medidas de reforço contraproducentes, principalmente sobre aqueles mais fragilizados e com turmas mais difíceis (para não falar da dificuldade que a indisciplina cria aos professores no sentido de as aulas serem rentáveis).

Termino com uma questão bem mais geral, que mais do que uma vez apontei neste meu cantinho como um dos maiores erros do actual ministério da educação. Ainda que este tenha de algum modo retrocedido na atitude inicial de culpabilização dos professores e, em particular, dos de matemática, a campanha dos seus acólitos na comunicação social prolongou-se. Nem falando agora de toda uma política educativa que, ao invés de ganhar os professores, os pôs contra ela e foi decretada contra eles, quem vai remediar as consequências desse profundo erro que foi a culpabilização dos professores, o denegrimento da sua imagem perante a opinião pública e a sua desautorização aos olhos da mesma?

quinta-feira, março 15, 2007

O professor generalista e a matemática

Não destaco a matemática nem por ser a "minha" disciplina, nem por pensar que esta ou aquela disciplina é mais importante - todas são (podem e devem ser) importantes para a formação global dos alunos a nível do ensino básico. Destaco-a pela própria natureza da matemática e pela importância da atitude face a ela desde os primeiros anos de escolaridade.

Ora, enquanto os professores do 3º ciclo e secundário optam pelo ensino de uma disciplina ou área para que se sentem especialmente vocacionados, o que, no caso da matemática, significa decerto, em geral, um gosto, uma sensibilidade e uma formação marcada pela compreensão quer da sua natureza, quer do modo de a ensinar no sentido de uma educação matemática, o mesmo não se passará necessariamente com o "professor generalista". Por isso, foi sentida a necessidade de reforçar a formação matemática dos professores do 1º ciclo e, até aí, tudo bem (pelo menos 'teoricamente' - se, na prática, existirá de facto um reforço adequado, isso se verá). Mas, para o 2º ciclo, baixa-se de uma especialização (já de si muitas vezes apontada por vozes autorizadas como deficiente ou insuficiente nalgumas instituições formadoras) para o prolongamento a este ciclo do professor generalista.
Enquanto ninguém nega que o professor precisa de saber muito mais do que aquilo que ensina em determinado nível, também não se negará que as exigências na formação dos professores não sejam as mesmas para os diferentes níveis de ensino. A questão não está aqui, mas sim na possibilidade de cursos com determinada duração poderem propiciar, com todas as vertentes que têm que abranger - científica, didáctica, pedagógica e outras -, uma formação que altere tendências quer para a predominância do ensino de procedimentos matemáticos sem uma preparação suficiente dos professores para importantes perspectivas tais como a iniciação dos alunos na elaboração de conceitos, quer para uma marcada incidência da formação do professor na didáctica da matemática (Como diz Suzana Nápoles na publicação que abaixo vou referir, "a Matemática não pode surgir a propósito da didáctica da Matemática, a didáctica da Matemática é que deve surgir a propósito da Matemática.").

Tenho procurado no site da APM (Associação de Professores de Matemática) alguma tomada de posição relativa ao novo regime jurídico da formação de professores, mas o parecer que ali se encontra reporta-se ainda à fase de discussão do projecto (fase em que, como tem vindo a ser habitual, a actual equipa do ME se mostrou surda a pareceres que contrariassem o seu projecto de decreto ou alguma questão de fundo do mesmo). No entanto, a questão da formação inicial dos professores tem sido abordada nos últimos anos pela APM em vários documentos. No último número da revista Educação e Matemática, desta associação, é publicada uma mesa redonda, sob o título A Matemática na formação inicial de professores*. Deixo alguns excertos pois apontam para o que penso.

«(...) a principal e primeira linha de força que deve estar presente na formação matemática dos futuros professores consiste na convicção, por parte dos encarregados de organizar essa formação e dos próprios formadores, de que essa formação tem características próprias (...)»(Eduardo Veloso)

«(...) Os cursos de formação estão a preparar professores generalistas ou por áreas disciplinares, pelo que o tempo dedicado à Matemática é largamente prejudicado. Além disso, a constatação de que os conteúdos dos currículos dos 1º e 2º ciclos se resumem praticamente a abordagens elementares dos conceitos de número e forma pode induzir nos formandos a ideia de que a Matemática nos cursos de formação inicial não deve ter grande peso. Ora, é nestes níveis de ensino que se lançam as primeiras pedras para a construção do pensamento matemático, o que acarreta uma enorme responsabilidade dos professores na atitude futura dos alunos em relação à Matemática. (...) Os futuros professores devem ser levados a entender as várias facetas da Matemática: a Matemática como arte, em que se conjugam proposições, se estabelecem conexões e se encadeiam raciocínios para a construção de resultados; a Matemática como instrumento, tanto para aplicações no dia-a-dia, como na resolução de problemas tecnológicos, ou na formulação de teorias científicas; a Matemática como linguagem precisa e geral; a Matemática como desafio, que tanto pode revestir aspectos essencialmente recreativos (...) como decorrerem da constante necessidade de ir mais além na procura de respostas para o mundo que nos rodeia.
(...)
Especificamente no que diz respeito à formação de professores de Matemática para o 2º ciclo (variante Matemática /Ciências da Natureza), existe uma enorme disparidade entre a formação oferecida, tanto a nível de conteúdos curriculares como do peso da Matemática face às restantes disciplinas. Tanto constatamos a existência de um naipe de conteúdos muito vasto e desadequado aos objectivos dos cursos, como a conteúdos muito limitados subordinados à didáctica. (...)» (Suzana Nápoles)
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Resta-me deixar a pergunta: Como será que "se encadeiam raciocínios" na mente de Maria de Lurdes Rodrigues quando se mostra tão preocupada com o ensino-aprendizagem da matemática e, ao mesmo tempo, ignorando tantos alertas de que os transcritos acima são apenas um ínfimo exemplo, empurra o futuro professor do 2º ciclo para professor generalista?
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* Pareceu-me que está acessível a não sócios da APM

quarta-feira, março 14, 2007

Ainda a propósito de trabalhos dos alunos

No post anterior, a propósito do dia do Pi, lembrei-me de um dos tipos de actividades (os trabalhos referidos nesse post) a que conduzia os meus alunos quando a minha escola já tinha condições mínimas para 'aulas de Matemática nos computadores'.

Abro um perêntesis para contar que, na minha escola, todos os alunos do 3º ciclo passaram a estar já iniciados no uso da internet e de várias ferramentas no computador desde que nela se poude ter uma sala de informática minimamente equipada para permitir a inclusão no currículo do 6º ano da disciplina de "Introdução à Informática" (no âmbito dos tempos destinados a ofertas de escola e possibilitada quer por funcionamento em desdobramento das turmas, quer por a escola ter, por acaso, recursos humanos, centrados principalmente numa colega credenciada com habilitação formal para tal e completados por dois ou três professores, em que fui incluída, também habilitados, embora por formação mais informal).

Voltando aos trabalhos dos alunos, terminei o post anterior aludindo a recomendações que lhes fazia e, a propósito destas, lembrando-me de uma ou outra situação (saliento que não generalizo) que, na altura, me fez pensar cá comigo mesma na questão de valer a pena alguns professores começarem a pedir trabalhos aos alunos com recurso às "novas tecnologias", incluindo o uso da internet para pesquisa de informação. Recordo a questão, que ainda há pouco tempo tinha, a meu ver, razão para ser colocada, mas recordo-a mais para me congratular com o reconhecimento por parte do ME (este também toma algumas medidas acertadas - se chega a concretizá-las na extensão que requerem, isso já não sei), para me congratular com o reconhecimento, dizia, da necessidade de proporcionar a todos os professores formação no uso das TIC no ensino.
A pouco e pouco, sobretudo por causa da Área de Projecto (que, por acaso, até nunca me calhou no horário), alargou-se na minha escola o número, inicialmente reduzidíssimo, de professores que levavam os alunos à sala de informática, quando livre. Naquela área, os alunos realizavam, entre outros, trabalhos a apresentar baseados em pesquisa na net, pelo que, a dada altura, pensei que já não seria necessário gastar eu tempo especial para que aprendessem a seguir as minhas recomendações nos trabalhos de matemática, recomendações tais como "nada de meras colagens", "seleccionem só informação e ilustrações que já possam compreender", recolhem informação mas depois têm que a seleccionar e organizar, com redacção vossa, num texto coerente", "todos terão que saber expor o que fizerem", "não esqueçam que o trabalho tem que incluir a indicação de todas as fontes utilizadas" e - agora sobretudo para 9º - "não esqueçam que os trabalhos devem ter uma introdução e uma conclusão".
Contudo, a verdade é que continuei a deparar-me com uma ou outra turma em que ninguém parecia habituado a nada disso, apesar de já terem realizado trabalhos na dita Área de Pojecto, com vistosas capinhas, baseados em pesquisa na net sobre determinados temas, mas fazendo-o muito entregues a si mesmos. Já salientei que tal não era uma situação generalizada, mas alguns casos não deixaram de me fazer pensar cá comigo mesma que era melhor os respectivos professores, enquanto não se habituassem eles próprios a usar a net e a procurarem previamente nela fontes a indicar criteriosamente aos alunos ou a irem verificar, nas que estes encontravam, se não se tinham limitado a "copy-past" sem trabalho pessoal de redacção e organização coerente (o que, aliás, era de suspeitar pela não correcção pelos alunos de brasileirismos, dado que grande parte da informação em língua portuguesa se encontra mais profusamente em páginas brasileiras), era melhor, dizia, que enquanto esses professores não se familiarizassem com a prática pessoal que referi, prescindissem de "novas tecnologias" e orientassem as suas turmas na Área de Projecto (e não só) para pesquisas em livros da biblioteca ou disponibilizados pelo professor, como decerto faziam dantes sem que acontecesse pouca atenção tal como não repararem que os trabalhos eram meras colagens mal compreendidas, e sem parecer haver algumas demissões na orientação dos alunos para aprenderem a estruturar um trabalho - deixado demasiado entregue a eles talvez pelo facto de dominarem o uso de ferramentas em que (alguns professores) se sentiam "a zero".

Creio que estas minhas considerações são já extemporâneas. Apesar de essa fase ainda se ter estendido a tempo relativamente recente, derivada da resistência de várias gerações de professores ao uso do computador com os alunos pela insegurança decorrente de estes até os ultrapassarem em termos "técnicos", acredito que foi uma fase neste momento já vencida por grande parte dos professores (não foram, de facto, muitos os que, por iniciativa própria, nunca se deixaram desactualizar nesse campo) e que, em breve, estará ultrapassada por todos, já que a formação no uso das TIC (a começar pelo mais simples e elementar, quando necessário) finalmente se impôs.

Dia do Pi (recordação)

Ao lembrar-me que este é o dia do Pi, veio-me à memória o cartaz que sempre aparecia na minha sala de aula, ou com a canção de "aniversário", ou com um dos poemas que na net se podem encontrar dedicados a esse número. E, atrás dessa memória, veio-me a de trabalhos dos meus alunos, esses trabalhos de grupo que lhes exigem pesquisa, selecção, escrita sem meros "copy-past" e estruturação do trabalho final a apresentar à restante turma, mas que eles fazem com gosto, quer porque lhes agrada sempre irem para os computadores, quer porque os leva a descobrir curiosidades interessantes fora do "clima" do currículo "obrigatório".
Tenho alguns porque, por vezes (depois da exposição, no final do ano lectivo, de trabalhos dos alunos nas várias disciplinas), diziam-me para ficar com eles para "dar ideias" a futuras turmas. E como um desses, além de ser sobre o Pi, refere este dia, aproveito para deixar no meu cantinho uma recordação.




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Adenda
Fora do tema (O Dia do PI), mas a propósito do tipo de trabalhos dos alunos, que acima referi, a minha memória estende-se um pouco mais. Bastava-me dedicar a eles um ou dois blocos do horário da disciplina uma vez por ano (formatações e outros pequenos acabamentos ficavam por conta dos alunos já sem a minha presença) pois cada grupo tinha o seu tema (escolhido entre várias sugestões minhas se eles próprios não conseguiam sugerir), cada trabalho era depois apresentado à restante turma, pelo que se multiplicavam as oportunidades de todos descobrirem mais aprofundadamente quer a presença da matemática na própria natureza - incluindo o mundo microscópico, e não só nas formas, simetrias, etc., mas também nessa harmonia de uma proporção misteriosamente detectável também na natureza (lembro-me de trabalhos sobre o "número de ouro" - o phi ("fi") -, não referido no programa mas que era oportuno a propósito dos números irracionais) -, quer episódios da história da matemática propiciando uma melhor compreensão e distinção dos números que usavam - dos racionais aos irracionais -, quer curiosidades interessantes. E as exposições de final de ano fizeram-me ouvir, sobretudo inicialmente, colegas não de Matemática dizerem "Já aprendi coisas que não sabia" ou "Não fazia ideia que na disciplina de Matemática se fizessem trabalhos teóricos - assim chamavam a alguns, mas cá para mim trata-se de proporcionar aos alunos olharem a matemática na sua beleza ou harmonia, e também na sua história, como já disse acima, vindo por acréscimo o aproveitamento da motivação para trabalhar no computador (e também motivação por adorarem procurar, além de informação, imagens ilustrativas a seu gosto) para elaborarem eles um trabalho a apresentar.
O trabalho mostrado é escolhido por ser o único, dos que ficaram comigo, que refere o dia do Pi, e nem tem os nomes dos elementos do grupo (falha que não era habitual). Outros, sobre diferentes temas, estão devidamente identificados com os nomes dos autores pelo que até mereciam "publicação" pois são de facto trabalhos interessantes, foram de alunos ainda só no 3º ciclo, e o mérito foi deles. (À professora só cabia estímulo, orientação e algumas recomendações)

"Recomendações" - a propósito destas ocorrem-me algumas questões e comentários, mas não vou alongar-me mais, guardo isso para próximo post.

segunda-feira, março 12, 2007

Não é novidade, só me apeteceu lembrar

(Não é novidade, mas também não é assim tão simples. Ele obedece, mas os outros também. Quem governa não tem rosto, chamam-lhe Sua Excelência O Mercado. E a sociedade humana vota e fica a ver. Esperando que pensem nela?)

Como sócia do SPGL e, neste caso, como aposentada, acabei de receber não só uma convocatória para um plenário de professores aposentados, mas também uma proposta de moção cujos considerandos não se confinam estritamente às questões da aposentação. O texto* dela é longo, deixo apenas uns excertos - não trazem novidades, só me apeteceu lembrar).

«(...)
Uma primeira constatação a fazer é que as medidas tornadas neste âmbito [aposentação] em Portugal têm que ser integradas, em particular, no contexto da política que a União Europeia (UE) preconiza para todos os países que a compõem (...)
Por exemplo, de onde deriva a norma para o aumento da idade para atingir a aposentação, que em Portugal tão zelosamente está a ser posta em prática?
Ela constituiu urna decisão da Cimeira da União Europeia, realizada em Barcelona a 15 e 16 de Março de 2002.
(...)
Todo o sistema de Segurança Social tem sido reorganizado no sentido de libertar o Estado dos seus encargos sociais e, ao mesmo tempo, obrigar os trabalhadores a terem que recorrer às Seguradoras privadas para engrossar os respectivos "Fundos de pensões" - que constituem o principal sustentáculo de toda a economia especulativa, que tem como peça central a Bolsa de Wall Street, nos EUA.
(...)
O governo liderado por Sócrates - no seguimento do que fizeram os anteriores - não tem feito mais do que aplicar à risca as "reformas" ditadas pela União Europeia (note-se que cerca de 80% da legislação produzida pela Assembleia da República constitui, desde há vários anos, uma mera transcrição de directivas emanadas da Comissão Europeia).
Daí a "medalha de bom comportamento" que foi de novo atribuída ao Governo português pela Comissão Europeia, na sua Informação IP/0611730 de 12 de Dezembro de 2006: "A Comissão identifica os seguintes pontos fortes do processo de reformas de Portugal: o lançamento de reformas abrangentes da Administração pública, as medidas destinadas a facilitar a criação de empresas na hora, o ajustamento em curso dos sistemas de pensões de velhice e as vastas medidas de consolidação no sector da saúde. "
(...) »
___________
* O texto pode ser encontrado na íntrega no site do SPGL. Não posso deixar link porque não tem endereço independente, figura entre outros de uma mesma página, além de que não pretendo fazer publicidade de textos ainda não aprovados nem discutidos.

sexta-feira, março 09, 2007

Deixando um poema (e votos de bom fim de semana)

Hoje, não só o poema, também a voz do poeta.
(Memórias soltas, poemas soltos, enfim... as coisas soltas deste cantinho...)

Memória


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Memória (voz do autor)

quinta-feira, março 08, 2007

Uma memória remota a propósito dos festivais da canção

Já na noite do sábado passado me dera conta da emissão, pela RTP1, de um espectáculo em que teriam sido recordadas vozes do Festival da Canção. Vendo-o já mesmo no final, nem sei que vozes foram recordadas, nem isso importa, pois foi apenas o tema que me trouxe subitamente uma memória já quase esquecida - a do Festival Eurovisão de 1973. E agora, que também os festivais da canção foram lembrados na comemoração dos 50 anos da RTP, incluindo a canção de que me lembrara no sábado, não resisti a uma breve busca para a deixar aqui.

Naquela época, o concurso ao festival era acarinhado pelo regime, pelo que os nossos cantores de intervenção tendiam a não concorrer para não alinharem com essa conotação. Mas nem sempre assim decidiam e em 1973 Fernando Tordo concorreu com a Tourada (letra de Ary dos Santos), lembrança que agora me fez sorrir, divertida, porque a censura por vezes distraía-se, talvez por compreensão lenta, e quando se deu conta de que a canção não era nada "inocente" era tarde demais, pelo que esta foi mesmo representar a canção portuguesa ao festival da Eurovisão em Abril de 1973 (já só faltava um ano...)


Foi mais por a lembrança me ter feito sorrir que a vim deixar aqui. Se foi só por isso... bem, não o consigo garantir, mas também escusam de vislumbrar na minha cabeça outras associações de ideias quando trago tão "inocentemente" uma memória surgida por mero acaso ;)
Assim, eis a...


Tourada

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.

Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficcionada e a caduca
mais o snobismo...
e cismo!

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro aos milhões.

E diz o inteligente
que acabaram as canções.


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(Fotos: Podem encontrar-se facilmente por pesquisa em sites portugueses)

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Adenda
E... com a Tourada me estreio no vídeo aqui no meu cantinho...

sábado, março 03, 2007

O homem que caminha...

Suspeitando que este meu cantinho vai fazer mais um fim de semana prolongado, hoje deixo nele esta escultura...


Alberto Giacometti (1947), L´homme qui marche.

quinta-feira, março 01, 2007

Quimeras (Leituras soltas que de repente me apetece vir registar)

(Trechos soltos, versos soltos, pensamentos soltos, metáforas soltas, memórias soltas... Começo a descobrir que ganhei tendência para coisas soltas ao acaso - mas o meu pensamento lá sabe que não é por acaso que se detém nelas...)

Sous un grand ciel gris, dans une grande plaine poudreuse, sans chemins, sans gazon, sans un chardon, sans une ortie, je rencontrai plusieurs hommes qui marchaient courbés.

Chacun d'eux portait sur son dos une énorme Chimère, aussi lourde qu'un sac de farine ou de charbon, ou le fourniment d'un fantassin romain.

(...)

Je questionnai l'un de ces hommes, et je lui demandai où ils allaient ainsi. Il me répondit qu'il n'en savait rien, ni lui, ni les autres; mais qu'évidemment ils allaient quelque part, puisqu'ils étaient poussés par un invincible besoin de marcher.

(...)

Et le cortège passa à côté de moi et s'enfonça dans l'atmosphère de l'horizon, à l'endroit où la surface arrondie de la planète se dérobe à la curiosité du regard humain.

Et pendant quelques instants je m'obstinai à vouloir comprendre ce mystère; mais bientôt l'irrésistible Indifférence s'abbatit sur moi, et j'en fus plus lourdement accablé qu'ils ne l'étaient eux-mêmes par leurs écrasantes Chimères.

Charles Baudelaire, Chacun sa chimére.
('Poema em prosa' que pode ler-se na íntegra aqui, por ex.)

Pour Lio



Tu es loin et tu me manques. Tu sais pas encore que dans le portugais ça s'appelle saudade, mais tu sais déjà que je fais de la magie... que je suis ici et je suis là...
Bientôt tu sauras lire et je te laisserai ici um poème.

* * *