domingo, abril 08, 2007

Um livro...

Embora este cantinho vá continuar em pausa, hoje fui movida por um post que descobri no blogue De Rerum Natura, post assinado por Carlos Fiolhais. Ressalvando que o texto de CF é mais lato do que o que aqui vou recordar como memória minha, emocionou-me a referência não só a Bento de Jesus Caraça, mas à obra cuja capa se vê no topo desse post:


Ignoro se ainda se encontram exemplares à venda de alguma reedição, a que tenho é esta:

Emocionou-me porque este livro foi uma obra que li sofregamente algures na década de 70. Sugiro-o vivamente, pelo menos aos professores de Matemática. Apesar da minha grande admiração por Bento de Jesus Caraça, limito-me a reforçar aqui a referência a esta obra. Um aspecto que nela me fascinou foi a perspectiva dialéctica com que o autor descreve várias evoluções na história da Matemática, nomeadamente no progressivo alargamento do campo dos números, na ultrapassagem de "impasses" gerando novas criações da mente humana no que respeita a conceitos matemáticos, inclusivamente os que se tornaram elementares. Outro aspecto que foi para mim muito interessante tem a ver com uma descrição que alia as novas criações aos contextos e necessidades sociais.

Do prefácio do próprio Bento de Jesus Caraça, datado de 1941, transcrevo a 1ª parte, intitulada Duas atitudes em face da Ciência:

«A Ciência pode ser encarada sob dois aspectos diferentes. Ou se olha para ela tal como vem exposta nos livros de ensino, como coisa criada, e o aspecto é o de um todo harmonioso, onde os capítulos se encadeiam em ordem, sem contradições. Ou se procura acompanhá-la no seu desenvolvimento progressivo, assistir à maneira como foi sendo elaborada, e o aspecto é totalmente diferente - descobrem-se hesitações, dúvidas, contradições, que só um longo trabalho de reflexão e apuramento consegue eliminar, para que logo surjam outras hesitações, outras dúvidas, outras contradições.
Descobre-se ainda qualquer coisa mais importante e mais interessante: - no primeiro aspecto, a Ciência parece bastar-se a si própria, a formação dos conceitos e das teorias parece obedecer só a necessidades interiores; no segundo, pelo contrário, vê-se toda a influência que o ambiente da vida social exerce sobre a criação da Ciência.
A Ciência, encarada assim, aparece-nos como um organismo vivo, impregnado de condição humana, com as suas forças e as suas fraquezas e subordinado às grandes necessidades do homem na sua luta pelo entendimento e pela libertação; aparece-nos, enfim, como um grande capítulo da vida humana social.

Será esta atitude que tomaremos aqui. (...)»


quarta-feira, março 21, 2007

Lembrando a chegada da Primavera

Auguste Renoir, La fille à l'arrosoir (1876)

Pour Sô

                      















Tu es née en le premier jour du printemps, ma première petite-fille, aujourd'hui une jeune fille merveilleuse. Tes anniversaires seront toujours un premier jour de printemps.
Je laisse ici, pour toi, la représentation du printemps exécuté par un grand peintre.


Parabéns, Soraïa!
Saudades... saudades... Até breve!
[Ces mots, tu connais ;)]

segunda-feira, março 19, 2007

Educação para os Media: que papel cabe à escola?

Limito-me a transcrever (os destaques são meus), na sequência da minha última visita à a Página da Educação.

Primeiro, em jeito de introdução, palavras de José Paulo Serralheiro no artigo A vida social e política ao sabor do telecomando:

"(...)
A política e a vida transformadas em espectáculo televisivo não são uma questão local mas global. Os média [em geral] deixaram desde há muito de ser espaços de discussão, de debate, de informação pertinente e fiável, de racionalidade, de análise da realidade, para serem lugares promotores de espectáculos onde cabem, cada vez mais, a vulgaridade, (...) O que cada vez mais espectadores esperam é o «espectáculo da vida» e imaginar-se participante dele.
(...)
A crença de que «o que não passa na comunicação social não existe» tem efeitos devastadores nas sociedades. E se não importa fazer, mas fazer constar que se faz, que consequências tem tal realidade na carreira e na prática docente?
(...)
Os objectivos educacionais são políticos, não são técnicos. E por isso a profissão docente não dispensa nem o pensar nem a política.
(...)
Também nesta Pós-Modernidade portuguesa, onde florescem novos «ismos», a nova gerência do Estado ambiciona dispensar-nos do pensamento critico e convida-nos a bastarmo-nos com o espectáculo comunicacional. É que não aprender a pensar é condição indispensável para se aceitar que os caminhos do mundo não são diversos, mas são só um e mais nenhum. "

A seguir, palavras de Sara Pereira, no artigo Educação para os Media: por onde começar?:

"(...) Esta reflexão surge num momento simbólico para esta área – a celebração do 25º aniversário da Declaração de Grunwald, um documento publicado pela UNESCO a 22 de Janeiro de 1982 que expressa as razões da premência e da pertinência da EPM. Um quarto de século depois desta Declaração, pouco se avançou neste domínio em Portugal. (...) Em 1993 o então Secretário de Estado dos Ensinos Básico e Secundário encomendou à Universidade do Minho um estudo que teve como finalidade apresentar propostas de implementação da EPM nos vários níveis de ensino. A iniciativa foi encarada, na altura, como uma excelente possibilidade para que esta área entrasse formalmente nos curricula de crianças e jovens, porém, com a mudança de Governo, o estudo acabou por ficar na gaveta, sem qualquer seguimento. A EPM permaneceu, deste modo, um domínio de ninguém, empurrado muitas vezes da escola para a família e vice-versa. (...) Por motivos de vária ordem, alguns conhecidos, outros ainda por apurar, esta área tem tido uma aceitação e uma recepção difíceis por parte dos que poderiam ser seus protagonistas (os vários agentes educativos – professores, pais, técnicos dos serviços educativos, etc). Um desses motivos é, necessariamente, a pouca oferta de formação dirigida aos actuais e futuros profissionais da educação (...)
Na minha perspectiva, é fundamental que as famílias sejam envolvidas na EPM pois um trabalho desta natureza unilateralmente considerado pode não ter as condições necessárias para o seu desenvolvimento e pode não alcançar resultados efectivos. (...) Porém, nas duas últimas acções desenvolvidas percebi a resistência de alguns pais em aceitar os media, especificamente a televisão, como motivo e mote de diálogo e de reflexão. Percebi alguma dificuldade em aceitarem que o seu principal meio de entretenimento, de distracção, de informação, de companhia e até de catarse dos problemas do dia-a-dia possa, também ele, constituir razão de preocupação e de discussão. A televisão assume um lugar tão central nas casas e nas vidas de algumas famílias que não é fácil deixarem, por uma noite, de ver televisão para irem falar sobre ela.
Perante este cenário, coloca-se a questão: por onde começar então esta formação considerada pela UNESCO, e por outras organizações internacionais, uma componente essencial da formação básica de qualquer cidadão? A questão fica em aberto, como apelo à reflexão do leitor. "
______
Adenda
Também de Sara Pereira, um artigo mais antigo - Fevereiro de 2006 -, mas ainda pertinente (sugiro a sua leitura, até porque refere alguns dados de um estudo realizado com crianças) : Os "Morangos com Açúcar" têm lugar na escola?

sábado, março 17, 2007

E já que falei da matemática...

[Quatro posts seguidos a falar dela... mas que coisa! Pois agora, para mais um fim de semana prolongado do meu cantinho - ou pretexto para intervalo -, deixo um pensamento ainda sobre a matemática ;)]

"A Matemática pura é, à sua maneira, a poesia das idéias lógicas.

Albert Einstein               


Ainda sobre a Matemática: Culpabilização dos professores e pressão externa podem produzir actuações contraproducentes

Todos sabemos que desde há alguns anos se vem verificando uma cada vez mais ampla falta de hábitos de trabalho, de estudo e de esforço por parte dos alunos do ensino básico. Culpabilizar a escola porque não os motiva ou culpabilizar os pais porque não os educam e responsabilizam são, a meu ver, atitudes fáceis e simplistas, pelo que não refiro aquela constatação para sequer apontar causas - refiro-a apenas porque, independentemente de várias e provavelmente complexas causas (sobre elas deveria toda a sociedade reflectir), é um facto que muitas e muitas turmas exigem um enorme esforço por parte dos professores sem que muitas vezes esse esforço consiga diminuir o insucesso escolar, muito especialmente nas disciplinas em que este é maior, das quais a matemática está "à frente" (aliás, sempre esteve).

O "escândalo" dos resultados dos exames do 9º ano - exames realizados apenas nos dois últimos anos lectivos - tornou particularmente os professores de matemática do ensino básico alvo, primeiro, de ataque à sua competência, e, depois, de pressão inclusivamente para a elaboração dos tão falados planos de acção para a matemática a nível de escola. Não ponho em questão a pertinência desses planos, mas sim a pressão psicológica que tudo isto não deixou de gerar. E, por muito que saibamos da elevada percentagem de alunos que chegam aos anos terminais do 3º ciclo já desistentes em matemática ou com grandes dificuldades de recuperação (mesmo quando já mais responsabilizados e preocupados devido até à idade) porque foram transitando com insucesso naquela disciplina tão marcadamente sequencial, não deixa de ser também um facto que são os professores do 9º ano que de algum modo se sentem visionados com os resultados dos exames, mesmo se nas respectivas escolas ninguém os culpa ou, até fora delas, as causas várias de elevadas taxas de insucesso acabem por ser correctamente equacionadas.
Tudo o que foi dito publicamente sobre os professores de matemática na altura dos primeiros exames, por mais que seja evidente o absurdo da ideia que chegou a "passar" como se fossem eles a "ovelha ranhosa" do sistema educativo (ou o "rebanho ranhoso", no caso), foi uma atitude pública muito infeliz que, além de injustiçar muitos e muitos bons profissionais, não deixou também de colocar professores sob pressão psicológica e stress.

Tudo isto me vem outra vez a propósito de um pequeno e pontual caso que me aconteceu hoje. Ao encontrar-me com uma amiga e ao comentarmos a actual política educativa e seus reflexos no próprio clima das escolas e no estado de espírito de muitos professores, referiu-me ocasionalmente desabafos de alunos do 9º ano da sua escola. Posso mencioná-los aqui dado que são alunos de uma escola anónima entre tantas, obviamente não a identifico nem isso interessa absolutamente nada, é apenas um exemplo, entre possíveis e diferentes outros, do que escrevi como título deste post. Os referidos alunos têm matemática nos tempos a ela destinados e - dentro do próprio plano de acção para a matemática da sua escola - também regularmente em Estudo Acompanhado (até aqui, eu ainda nem levantaria muito grande questão) e... ainda na Área de Projecto (!) - portanto, duas áreas convertidas, no caso referido, em leccionação da matemática -, além de alguns deles terem ainda aulas suplementares de apoio incluídas nos ditos planos de recuperação (nos quais alguns professores as incluem mesmo quando do que a recuperação de facto depende é de mais atenção e empenhamento dos alunos e de preocupação da família com isso).
E, assim, o resultado é que os referidos alunos já não podem "ver" matemática à sua frente; o resultado é uma saturação e uma falta de gosto por essa disciplina ainda maior do que a que muitos já traziam.

Não trouxe este caso (provavelmente até pontual) para censurar ninguém. Trouxe-o, repito, como um pequeno exemplo do que a pressão sobre os professores de matemática pode ocasionar, inclusivamente em medidas de reforço contraproducentes, principalmente sobre aqueles mais fragilizados e com turmas mais difíceis (para não falar da dificuldade que a indisciplina cria aos professores no sentido de as aulas serem rentáveis).

Termino com uma questão bem mais geral, que mais do que uma vez apontei neste meu cantinho como um dos maiores erros do actual ministério da educação. Ainda que este tenha de algum modo retrocedido na atitude inicial de culpabilização dos professores e, em particular, dos de matemática, a campanha dos seus acólitos na comunicação social prolongou-se. Nem falando agora de toda uma política educativa que, ao invés de ganhar os professores, os pôs contra ela e foi decretada contra eles, quem vai remediar as consequências desse profundo erro que foi a culpabilização dos professores, o denegrimento da sua imagem perante a opinião pública e a sua desautorização aos olhos da mesma?

quinta-feira, março 15, 2007

O professor generalista e a matemática

Não destaco a matemática nem por ser a "minha" disciplina, nem por pensar que esta ou aquela disciplina é mais importante - todas são (podem e devem ser) importantes para a formação global dos alunos a nível do ensino básico. Destaco-a pela própria natureza da matemática e pela importância da atitude face a ela desde os primeiros anos de escolaridade.

Ora, enquanto os professores do 3º ciclo e secundário optam pelo ensino de uma disciplina ou área para que se sentem especialmente vocacionados, o que, no caso da matemática, significa decerto, em geral, um gosto, uma sensibilidade e uma formação marcada pela compreensão quer da sua natureza, quer do modo de a ensinar no sentido de uma educação matemática, o mesmo não se passará necessariamente com o "professor generalista". Por isso, foi sentida a necessidade de reforçar a formação matemática dos professores do 1º ciclo e, até aí, tudo bem (pelo menos 'teoricamente' - se, na prática, existirá de facto um reforço adequado, isso se verá). Mas, para o 2º ciclo, baixa-se de uma especialização (já de si muitas vezes apontada por vozes autorizadas como deficiente ou insuficiente nalgumas instituições formadoras) para o prolongamento a este ciclo do professor generalista.
Enquanto ninguém nega que o professor precisa de saber muito mais do que aquilo que ensina em determinado nível, também não se negará que as exigências na formação dos professores não sejam as mesmas para os diferentes níveis de ensino. A questão não está aqui, mas sim na possibilidade de cursos com determinada duração poderem propiciar, com todas as vertentes que têm que abranger - científica, didáctica, pedagógica e outras -, uma formação que altere tendências quer para a predominância do ensino de procedimentos matemáticos sem uma preparação suficiente dos professores para importantes perspectivas tais como a iniciação dos alunos na elaboração de conceitos, quer para uma marcada incidência da formação do professor na didáctica da matemática (Como diz Suzana Nápoles na publicação que abaixo vou referir, "a Matemática não pode surgir a propósito da didáctica da Matemática, a didáctica da Matemática é que deve surgir a propósito da Matemática.").

Tenho procurado no site da APM (Associação de Professores de Matemática) alguma tomada de posição relativa ao novo regime jurídico da formação de professores, mas o parecer que ali se encontra reporta-se ainda à fase de discussão do projecto (fase em que, como tem vindo a ser habitual, a actual equipa do ME se mostrou surda a pareceres que contrariassem o seu projecto de decreto ou alguma questão de fundo do mesmo). No entanto, a questão da formação inicial dos professores tem sido abordada nos últimos anos pela APM em vários documentos. No último número da revista Educação e Matemática, desta associação, é publicada uma mesa redonda, sob o título A Matemática na formação inicial de professores*. Deixo alguns excertos pois apontam para o que penso.

«(...) a principal e primeira linha de força que deve estar presente na formação matemática dos futuros professores consiste na convicção, por parte dos encarregados de organizar essa formação e dos próprios formadores, de que essa formação tem características próprias (...)»(Eduardo Veloso)

«(...) Os cursos de formação estão a preparar professores generalistas ou por áreas disciplinares, pelo que o tempo dedicado à Matemática é largamente prejudicado. Além disso, a constatação de que os conteúdos dos currículos dos 1º e 2º ciclos se resumem praticamente a abordagens elementares dos conceitos de número e forma pode induzir nos formandos a ideia de que a Matemática nos cursos de formação inicial não deve ter grande peso. Ora, é nestes níveis de ensino que se lançam as primeiras pedras para a construção do pensamento matemático, o que acarreta uma enorme responsabilidade dos professores na atitude futura dos alunos em relação à Matemática. (...) Os futuros professores devem ser levados a entender as várias facetas da Matemática: a Matemática como arte, em que se conjugam proposições, se estabelecem conexões e se encadeiam raciocínios para a construção de resultados; a Matemática como instrumento, tanto para aplicações no dia-a-dia, como na resolução de problemas tecnológicos, ou na formulação de teorias científicas; a Matemática como linguagem precisa e geral; a Matemática como desafio, que tanto pode revestir aspectos essencialmente recreativos (...) como decorrerem da constante necessidade de ir mais além na procura de respostas para o mundo que nos rodeia.
(...)
Especificamente no que diz respeito à formação de professores de Matemática para o 2º ciclo (variante Matemática /Ciências da Natureza), existe uma enorme disparidade entre a formação oferecida, tanto a nível de conteúdos curriculares como do peso da Matemática face às restantes disciplinas. Tanto constatamos a existência de um naipe de conteúdos muito vasto e desadequado aos objectivos dos cursos, como a conteúdos muito limitados subordinados à didáctica. (...)» (Suzana Nápoles)
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Resta-me deixar a pergunta: Como será que "se encadeiam raciocínios" na mente de Maria de Lurdes Rodrigues quando se mostra tão preocupada com o ensino-aprendizagem da matemática e, ao mesmo tempo, ignorando tantos alertas de que os transcritos acima são apenas um ínfimo exemplo, empurra o futuro professor do 2º ciclo para professor generalista?
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* Pareceu-me que está acessível a não sócios da APM

quarta-feira, março 14, 2007

Ainda a propósito de trabalhos dos alunos

No post anterior, a propósito do dia do Pi, lembrei-me de um dos tipos de actividades (os trabalhos referidos nesse post) a que conduzia os meus alunos quando a minha escola já tinha condições mínimas para 'aulas de Matemática nos computadores'.

Abro um perêntesis para contar que, na minha escola, todos os alunos do 3º ciclo passaram a estar já iniciados no uso da internet e de várias ferramentas no computador desde que nela se poude ter uma sala de informática minimamente equipada para permitir a inclusão no currículo do 6º ano da disciplina de "Introdução à Informática" (no âmbito dos tempos destinados a ofertas de escola e possibilitada quer por funcionamento em desdobramento das turmas, quer por a escola ter, por acaso, recursos humanos, centrados principalmente numa colega credenciada com habilitação formal para tal e completados por dois ou três professores, em que fui incluída, também habilitados, embora por formação mais informal).

Voltando aos trabalhos dos alunos, terminei o post anterior aludindo a recomendações que lhes fazia e, a propósito destas, lembrando-me de uma ou outra situação (saliento que não generalizo) que, na altura, me fez pensar cá comigo mesma na questão de valer a pena alguns professores começarem a pedir trabalhos aos alunos com recurso às "novas tecnologias", incluindo o uso da internet para pesquisa de informação. Recordo a questão, que ainda há pouco tempo tinha, a meu ver, razão para ser colocada, mas recordo-a mais para me congratular com o reconhecimento por parte do ME (este também toma algumas medidas acertadas - se chega a concretizá-las na extensão que requerem, isso já não sei), para me congratular com o reconhecimento, dizia, da necessidade de proporcionar a todos os professores formação no uso das TIC no ensino.
A pouco e pouco, sobretudo por causa da Área de Projecto (que, por acaso, até nunca me calhou no horário), alargou-se na minha escola o número, inicialmente reduzidíssimo, de professores que levavam os alunos à sala de informática, quando livre. Naquela área, os alunos realizavam, entre outros, trabalhos a apresentar baseados em pesquisa na net, pelo que, a dada altura, pensei que já não seria necessário gastar eu tempo especial para que aprendessem a seguir as minhas recomendações nos trabalhos de matemática, recomendações tais como "nada de meras colagens", "seleccionem só informação e ilustrações que já possam compreender", recolhem informação mas depois têm que a seleccionar e organizar, com redacção vossa, num texto coerente", "todos terão que saber expor o que fizerem", "não esqueçam que o trabalho tem que incluir a indicação de todas as fontes utilizadas" e - agora sobretudo para 9º - "não esqueçam que os trabalhos devem ter uma introdução e uma conclusão".
Contudo, a verdade é que continuei a deparar-me com uma ou outra turma em que ninguém parecia habituado a nada disso, apesar de já terem realizado trabalhos na dita Área de Pojecto, com vistosas capinhas, baseados em pesquisa na net sobre determinados temas, mas fazendo-o muito entregues a si mesmos. Já salientei que tal não era uma situação generalizada, mas alguns casos não deixaram de me fazer pensar cá comigo mesma que era melhor os respectivos professores, enquanto não se habituassem eles próprios a usar a net e a procurarem previamente nela fontes a indicar criteriosamente aos alunos ou a irem verificar, nas que estes encontravam, se não se tinham limitado a "copy-past" sem trabalho pessoal de redacção e organização coerente (o que, aliás, era de suspeitar pela não correcção pelos alunos de brasileirismos, dado que grande parte da informação em língua portuguesa se encontra mais profusamente em páginas brasileiras), era melhor, dizia, que enquanto esses professores não se familiarizassem com a prática pessoal que referi, prescindissem de "novas tecnologias" e orientassem as suas turmas na Área de Projecto (e não só) para pesquisas em livros da biblioteca ou disponibilizados pelo professor, como decerto faziam dantes sem que acontecesse pouca atenção tal como não repararem que os trabalhos eram meras colagens mal compreendidas, e sem parecer haver algumas demissões na orientação dos alunos para aprenderem a estruturar um trabalho - deixado demasiado entregue a eles talvez pelo facto de dominarem o uso de ferramentas em que (alguns professores) se sentiam "a zero".

Creio que estas minhas considerações são já extemporâneas. Apesar de essa fase ainda se ter estendido a tempo relativamente recente, derivada da resistência de várias gerações de professores ao uso do computador com os alunos pela insegurança decorrente de estes até os ultrapassarem em termos "técnicos", acredito que foi uma fase neste momento já vencida por grande parte dos professores (não foram, de facto, muitos os que, por iniciativa própria, nunca se deixaram desactualizar nesse campo) e que, em breve, estará ultrapassada por todos, já que a formação no uso das TIC (a começar pelo mais simples e elementar, quando necessário) finalmente se impôs.

Dia do Pi (recordação)

Ao lembrar-me que este é o dia do Pi, veio-me à memória o cartaz que sempre aparecia na minha sala de aula, ou com a canção de "aniversário", ou com um dos poemas que na net se podem encontrar dedicados a esse número. E, atrás dessa memória, veio-me a de trabalhos dos meus alunos, esses trabalhos de grupo que lhes exigem pesquisa, selecção, escrita sem meros "copy-past" e estruturação do trabalho final a apresentar à restante turma, mas que eles fazem com gosto, quer porque lhes agrada sempre irem para os computadores, quer porque os leva a descobrir curiosidades interessantes fora do "clima" do currículo "obrigatório".
Tenho alguns porque, por vezes (depois da exposição, no final do ano lectivo, de trabalhos dos alunos nas várias disciplinas), diziam-me para ficar com eles para "dar ideias" a futuras turmas. E como um desses, além de ser sobre o Pi, refere este dia, aproveito para deixar no meu cantinho uma recordação.




_____
Adenda
Fora do tema (O Dia do PI), mas a propósito do tipo de trabalhos dos alunos, que acima referi, a minha memória estende-se um pouco mais. Bastava-me dedicar a eles um ou dois blocos do horário da disciplina uma vez por ano (formatações e outros pequenos acabamentos ficavam por conta dos alunos já sem a minha presença) pois cada grupo tinha o seu tema (escolhido entre várias sugestões minhas se eles próprios não conseguiam sugerir), cada trabalho era depois apresentado à restante turma, pelo que se multiplicavam as oportunidades de todos descobrirem mais aprofundadamente quer a presença da matemática na própria natureza - incluindo o mundo microscópico, e não só nas formas, simetrias, etc., mas também nessa harmonia de uma proporção misteriosamente detectável também na natureza (lembro-me de trabalhos sobre o "número de ouro" - o phi ("fi") -, não referido no programa mas que era oportuno a propósito dos números irracionais) -, quer episódios da história da matemática propiciando uma melhor compreensão e distinção dos números que usavam - dos racionais aos irracionais -, quer curiosidades interessantes. E as exposições de final de ano fizeram-me ouvir, sobretudo inicialmente, colegas não de Matemática dizerem "Já aprendi coisas que não sabia" ou "Não fazia ideia que na disciplina de Matemática se fizessem trabalhos teóricos - assim chamavam a alguns, mas cá para mim trata-se de proporcionar aos alunos olharem a matemática na sua beleza ou harmonia, e também na sua história, como já disse acima, vindo por acréscimo o aproveitamento da motivação para trabalhar no computador (e também motivação por adorarem procurar, além de informação, imagens ilustrativas a seu gosto) para elaborarem eles um trabalho a apresentar.
O trabalho mostrado é escolhido por ser o único, dos que ficaram comigo, que refere o dia do Pi, e nem tem os nomes dos elementos do grupo (falha que não era habitual). Outros, sobre diferentes temas, estão devidamente identificados com os nomes dos autores pelo que até mereciam "publicação" pois são de facto trabalhos interessantes, foram de alunos ainda só no 3º ciclo, e o mérito foi deles. (À professora só cabia estímulo, orientação e algumas recomendações)

"Recomendações" - a propósito destas ocorrem-me algumas questões e comentários, mas não vou alongar-me mais, guardo isso para próximo post.

segunda-feira, março 12, 2007

Não é novidade, só me apeteceu lembrar

(Não é novidade, mas também não é assim tão simples. Ele obedece, mas os outros também. Quem governa não tem rosto, chamam-lhe Sua Excelência O Mercado. E a sociedade humana vota e fica a ver. Esperando que pensem nela?)

Como sócia do SPGL e, neste caso, como aposentada, acabei de receber não só uma convocatória para um plenário de professores aposentados, mas também uma proposta de moção cujos considerandos não se confinam estritamente às questões da aposentação. O texto* dela é longo, deixo apenas uns excertos - não trazem novidades, só me apeteceu lembrar).

«(...)
Uma primeira constatação a fazer é que as medidas tornadas neste âmbito [aposentação] em Portugal têm que ser integradas, em particular, no contexto da política que a União Europeia (UE) preconiza para todos os países que a compõem (...)
Por exemplo, de onde deriva a norma para o aumento da idade para atingir a aposentação, que em Portugal tão zelosamente está a ser posta em prática?
Ela constituiu urna decisão da Cimeira da União Europeia, realizada em Barcelona a 15 e 16 de Março de 2002.
(...)
Todo o sistema de Segurança Social tem sido reorganizado no sentido de libertar o Estado dos seus encargos sociais e, ao mesmo tempo, obrigar os trabalhadores a terem que recorrer às Seguradoras privadas para engrossar os respectivos "Fundos de pensões" - que constituem o principal sustentáculo de toda a economia especulativa, que tem como peça central a Bolsa de Wall Street, nos EUA.
(...)
O governo liderado por Sócrates - no seguimento do que fizeram os anteriores - não tem feito mais do que aplicar à risca as "reformas" ditadas pela União Europeia (note-se que cerca de 80% da legislação produzida pela Assembleia da República constitui, desde há vários anos, uma mera transcrição de directivas emanadas da Comissão Europeia).
Daí a "medalha de bom comportamento" que foi de novo atribuída ao Governo português pela Comissão Europeia, na sua Informação IP/0611730 de 12 de Dezembro de 2006: "A Comissão identifica os seguintes pontos fortes do processo de reformas de Portugal: o lançamento de reformas abrangentes da Administração pública, as medidas destinadas a facilitar a criação de empresas na hora, o ajustamento em curso dos sistemas de pensões de velhice e as vastas medidas de consolidação no sector da saúde. "
(...) »
___________
* O texto pode ser encontrado na íntrega no site do SPGL. Não posso deixar link porque não tem endereço independente, figura entre outros de uma mesma página, além de que não pretendo fazer publicidade de textos ainda não aprovados nem discutidos.

sexta-feira, março 09, 2007

Deixando um poema (e votos de bom fim de semana)

Hoje, não só o poema, também a voz do poeta.
(Memórias soltas, poemas soltos, enfim... as coisas soltas deste cantinho...)

Memória


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Memória (voz do autor)

quinta-feira, março 08, 2007

Uma memória remota a propósito dos festivais da canção

Já na noite do sábado passado me dera conta da emissão, pela RTP1, de um espectáculo em que teriam sido recordadas vozes do Festival da Canção. Vendo-o já mesmo no final, nem sei que vozes foram recordadas, nem isso importa, pois foi apenas o tema que me trouxe subitamente uma memória já quase esquecida - a do Festival Eurovisão de 1973. E agora, que também os festivais da canção foram lembrados na comemoração dos 50 anos da RTP, incluindo a canção de que me lembrara no sábado, não resisti a uma breve busca para a deixar aqui.

Naquela época, o concurso ao festival era acarinhado pelo regime, pelo que os nossos cantores de intervenção tendiam a não concorrer para não alinharem com essa conotação. Mas nem sempre assim decidiam e em 1973 Fernando Tordo concorreu com a Tourada (letra de Ary dos Santos), lembrança que agora me fez sorrir, divertida, porque a censura por vezes distraía-se, talvez por compreensão lenta, e quando se deu conta de que a canção não era nada "inocente" era tarde demais, pelo que esta foi mesmo representar a canção portuguesa ao festival da Eurovisão em Abril de 1973 (já só faltava um ano...)


Foi mais por a lembrança me ter feito sorrir que a vim deixar aqui. Se foi só por isso... bem, não o consigo garantir, mas também escusam de vislumbrar na minha cabeça outras associações de ideias quando trago tão "inocentemente" uma memória surgida por mero acaso ;)
Assim, eis a...


Tourada

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.

Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficcionada e a caduca
mais o snobismo...
e cismo!

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro aos milhões.

E diz o inteligente
que acabaram as canções.


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(Fotos: Podem encontrar-se facilmente por pesquisa em sites portugueses)

_________
Adenda
E... com a Tourada me estreio no vídeo aqui no meu cantinho...

sábado, março 03, 2007

O homem que caminha...

Suspeitando que este meu cantinho vai fazer mais um fim de semana prolongado, hoje deixo nele esta escultura...


Alberto Giacometti (1947), L´homme qui marche.

quinta-feira, março 01, 2007

Quimeras (Leituras soltas que de repente me apetece vir registar)

(Trechos soltos, versos soltos, pensamentos soltos, metáforas soltas, memórias soltas... Começo a descobrir que ganhei tendência para coisas soltas ao acaso - mas o meu pensamento lá sabe que não é por acaso que se detém nelas...)

Sous un grand ciel gris, dans une grande plaine poudreuse, sans chemins, sans gazon, sans un chardon, sans une ortie, je rencontrai plusieurs hommes qui marchaient courbés.

Chacun d'eux portait sur son dos une énorme Chimère, aussi lourde qu'un sac de farine ou de charbon, ou le fourniment d'un fantassin romain.

(...)

Je questionnai l'un de ces hommes, et je lui demandai où ils allaient ainsi. Il me répondit qu'il n'en savait rien, ni lui, ni les autres; mais qu'évidemment ils allaient quelque part, puisqu'ils étaient poussés par un invincible besoin de marcher.

(...)

Et le cortège passa à côté de moi et s'enfonça dans l'atmosphère de l'horizon, à l'endroit où la surface arrondie de la planète se dérobe à la curiosité du regard humain.

Et pendant quelques instants je m'obstinai à vouloir comprendre ce mystère; mais bientôt l'irrésistible Indifférence s'abbatit sur moi, et j'en fus plus lourdement accablé qu'ils ne l'étaient eux-mêmes par leurs écrasantes Chimères.

Charles Baudelaire, Chacun sa chimére.
('Poema em prosa' que pode ler-se na íntegra aqui, por ex.)

Pour Lio



Tu es loin et tu me manques. Tu sais pas encore que dans le portugais ça s'appelle saudade, mais tu sais déjà que je fais de la magie... que je suis ici et je suis là...
Bientôt tu sauras lire et je te laisserai ici um poème.

* * *

terça-feira, fevereiro 27, 2007

"Circunstâncias" não são irreversíveis nem imutáveis

Estava pensando com os meus botões que a consciência do aprisionamento de políticas nacionais (refiro-me a várias nações) a uma "globalização" infectada por poderoso "vírus" e a frequente centração do meu pensamento nisso (o que pouco se nota aqui porque este é um blog voltado para a educação e o ensino no nosso país) anda a desviar-me da procura de um entendimento sereno de atitudes e comportamentos que se vão propagando entre muitos dos cidadãos comuns, isto é, os cidadãos que não são detentores de poder político ou económico (incluindo professores, que são pessoas e cidadãos como todos os outros) . E o entendimento é necessário - não significa consentimento ou concordância com determinadas atitudes ou comportamentos - para que ideias ou mensagens que procurem fazer contraponto a um tempo empobrecido de valores e de pensamento crítico, no sentido de uma consciencialização (ou de uma educação preparatória dela, se se trata de crianças e adolescentes), sejam emitidas de modo a que não sejam recebidas de pé atrás devido a alguma intolerância destituída de compreensão humana. (Há os objectivos e os comportamentos para os quais sou intolerante, mas não é nesses que estou agora a pensar)
E, nesse meu cogitar, bateu-me na mente que "o homem é ele e suas circunstâncias" e muito difícil se lhe torna reagir às circunstâncias quando elas não são individuais nem especificamente situadas, mas sim instiladas na sociedade pela força que têm as políticas e ideologias dos que dominam - não já, nos dias de hoje, os governos diferentes de cada país, mas os que dominam o mundo.

Em suma, pensando nessa frasse de Ortega y Gasset, penso nas "circunstâncias" com um sentido terrivelmente amplo e avassalador, a parecerem irreversíveis, irremovíveis, imutáveis. Será de estranhar que muitos optem por não resistir, até por sentimento de impotência?
Por isso, são indispensáveis não só as vozes que apelem a resistir e não desistir, mas também uma divulgação por todos os meios possíveis do "acordar" e dos movimentos que, pelo mundo, se vão criando e ampliando contestando a inevitabilidade ou irreversibilidade que se pretende incutir nas mentes, movimentos esses que poderiam restituir a esperança, mas cujas notícias se vão mantendo abafadas a fim de se impedirem expectativas encorajadoras. A concentração e controle dos grandes meios de comunicação/informação nas mãos do poder financeiro permite bombardear as mentes e estabelecer a confusão entre "globalização" e "ideologia da globalização" (como alguém dizia, não recordo quem), mas a mundialização da resistência e da luta por uma sociedade efectivamente democrática não é uma utopia.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Adenda (?)

Ao ler este post do Henrique Santos, bem como o artigo que nele também é referido (sugiro vivamente ambas as leituras), deixei um comentário pedindo desculpa ao Henrique pela ocupação do seu espaço dado que, neste meu, continuo a precisar de um considerável intervalo, indo apenas "postando" intermitentemente para não o fechar por um tempo. Mas, depois, fui eu mesma que não aceitei as minhas desculpas, por isso venho acrescentar uma parte do comentário que deixei, de certo modo como adenda ao meu post anterior. Assim, "transcrevo -me", a mim mesma:

Não sei se vou dizer uma barbaridade, mas começo a pensar na necessidade de os professores se descentrarem do ECD para se voltarem para a denúncia do real significado das actuais políticas educativas (relativas ao ensino, aos alunos), voltadas exclusivamente para os interesses económicos e, portanto, para os interesses relativamente ao mercado de trabalho. Não são os professores sozinhos que vão conseguir lutar contra isso, claro, mas as lutas laborais sectoriais actualmente pouco ou nada demovem governos (...).
Penso que só numa ampla consciencialização de povos e em amplos movimentos se virá a conseguir fazer recuar a subserviência ao neo - liberalismo desenfreado, e que só um recuo nisso poderá ter efeitos quer na questão de fundo que é a escola pública e o direito à educação e ao ensino em igualdade de oportunidades, quer também nas próprias questões laborais. Já não acredito que, neste momento, sirva de grande coisa lutar contra cada medida isolada, são as visões e objectivos globais que estão por detrás delas que têm que ser combatidos ( e de nada serve o partido do nosso governo chamar-se socialista, quem está no governo está lá para cumprir os ditames "globais").

sábado, fevereiro 24, 2007

"Animar a malta", "acordar a malta"...

É totalmente compreensível o desânimo que o novo ECD trouxe aos professores. Mas eu não acredito que o tempo (e não muito) não venha a impor a evidência dos seus erros e a sua correcção (desde que os professores não deixem de lutar por isso). Maria de Lurdes Rodrigues destruiu o anterior ECD em poucos meses, o actual também poderá ser alterado - esta ministra mais a sua equipa têm os seus dias contados.
Mas há decretos bem mais difíceis de virem a ser emendados, além de as suas consequências demorarem muito mais tempo a tornar-se evidentes e a acordar, inclusivamente, os pais deste país cujos filhos vão ser cobaias em experiências gravemente insensatas. Estou a pensar especialmente no novo regime jurídico da formação de professores.

Não me apetece escrever, não vou alongar-me, mas este post impôs-se-me ao recordar como era a "carreira" de professor quando nela ingressei, inclusivamente no aspecto remuneratório - isso não foi eterno, e as lutas não foram inúteis! Ao recordar também que mesmo no tempo do "Estado Novo" (no qual ainda vivi já como professora) "
sempre existiu um respeito pelo saber próprio, disciplinar, dos docentes. Poderia existir um esforço de inculcação ideológica, mas não era negado o valor do saber académico e científico, a que se juntava uma formação pedagógica" - uso as palavras do Paulo Guinote não só porque, como disse, não me apetecia escrever, mas também porque o Paulo tem feito um extenso trabalho de análise e desmontagem cuja leitura recomendo a quem eventualmente não esteja a acompanhá-lo.

A degradação do ensino público no nosso país não começou, como todos sabemos, com Maria de Lurdes Rodrigues e, se a qualidade desse ensino não desceu ainda mais, tal deve-se aos professores, à sua dedicação, ao seu empenhamento (àqueles que não se podem honrar disso, avalie-se, forme-se, e excluam-se até da profissão os que eventualmente se fechem a qualquer avaliação formativa).
Penso, pois, que é preciso "animar a malta". Mas penso também que é preciso que esse ânimo se volte para o "acordar a malta" - "malta" aqui muito mais ampla, estendendo-se à tomada de consciência de uma opinião pública que a actual equipa do Ministério da Educação tacticamente começou por manipular a ponto de a senhora Maria de Lurdes Rodrigues poder atrever-se a essa frase insana "Perdi os professores mas ganhei a população".

E mais não escrevo - deixo o "animar" e o "acordar" para os mais novos (e também para os que ainda estão nas escolas por serem menos 'velhos') do que eu.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Deixou-nos há 20 anos...

No dia 23 de Fevereiro de 1987 dissemos adeus a José Afonso, dissemos:
Até sempre, Zeca!



Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia

José Afonso


quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Coisas de avó e neto

Tenho que deixar registada no meu cantinho a 4ª feira das férias de Carnaval do meu neto - então não é que pela primeira vez ele conseguiu ganhar-me no bowling?! Até seria natural, aos 13 anos já se pode jogar bem mesmo com pouco treino, mas o caso é que ele de vez em quando ainda se precipita e lá cai a bola antes de chegar a um terço do percurso, enquanto eu tenho cá na ideia que as minhas bolas quando caem é mesmo só quase quase lá no fim... (hummm... será mesmo?)

Desconfio que não estou só a registar a vitória do neto, estou é também a dar-me oportunidade para um próximo registo da desforra! [Pois claro, eu faço muita questão de me manter em forma por mais todo o tempinho possível, por várias razões, e mais uma que é a de prolongar o prazer de serem os netos a convidar-me para desafios - de bowling e outros! ;)]


(Pois... podia ser um clip de vídeo, mas não me apetece pôr vídeos no meu cantinho, pode ser que qualquer dia vá bater à porta do You Tube ou de outro seu concorrente, mas por enquanto não estou nada virada para aí)

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

...

Como sei que a expressão 'férias' de carnaval só é apropriada para os alunos (de mim pensarão muitos que agora estou sempre em férias), não digo que este cantinho vai fazer umas feriazinhas, prefiro dizer que vai fazer um intervalo (como, aliás, vem sendo frequente).
Mas deixo um quadro pendurado na parede e, na mesinha por baixo, mais um
desses poemas em que Bashô exprimia um momento, uma percepção, um estado interior, com a fascinante criação de beleza conseguida em apenas três versos.

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F. Vallotton (1893). La Manifestation.

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P.S. - Destaque para um artigo

Já tinha publicado este post (a iniciar o meu "intervalo") quando li o artigo para que o Henrique Santos chama a atenção aqui. Não resisti a vir reforçar a sugestão do Henrique, para a eventualidade de algum visitante a este cantinho não ter ainda visto essa sugestão de leitura, pois consideraria bem oportuno se o artigo fosse divulgado tanto quanto possível. E não resisti porque o referido artigo não é escrito por um português, o autor não estaria a pensar especificamente na actual política educativa no nosso país, mas (a meu ver) até poderia perfeitamente estar a pensar nela também.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O que eu esperaria agora se fosse ingénua

Esclarecimento prévio:
Este post não tem a ver com o referendo de ontem, em si, e é independente do resultado pois já estava em draft aguardando apenas pelo dia seguinte. Também (e isto sublinho) não toca os que, contrariamente ao meu voto, optaram pelo não de acordo com a sua reflexão autónoma e séria, baseada em convicções ou na interpretação que pessoalmente fizeram do seu significado - não me pronunciei em lado nenhum público e respeito todas as opções honestas de todas as pessoas que procuram pensar honestamente consigo próprias. Dado este esclarecimento, passo ao que motiva o título do post.
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Vi pouco a TV, mas o suficiente para me aperceber da grande mobilização conseguida por promotores de campanhas ou movimentos. Sei que a mobilização foi de ambos os "lados", mas foi do lado do não que se viram os cartazes "Pelo direito à vida" - o que não estou a criticar, já esclareci que respeito as convicções, além de que não viria agora falar de interpretações da pergunta referendada.

O que eu esperaria agora (se fosse ingénua) é que essa tão grande mobilização conseguida, levando a grandes manifestações "pelo direito à vida", fosse aproveitada para continuarem manifestações por esse direito nas situações verdadeiramente inequívocas. E gostaria também que a política até agora levada a cabo por quem governa me permitisse confiar que medidas sociais, medidas no domínio da assistência na saúde e também medidas que levem a todos, incluindo adolescentes, informação e apoio atempado sobre como evitar gravidez indesejada caminharão no sentido da prevenção, pois julgo que não há mulher nenhuma que tenha praticado aborto (ou que venha a praticá-lo) que não preferisse não ter tido (ou não ter) que enfrentar tal decisão - mas confiar depois de se andar a observar as prioridades do actual governo, concorde-se que não é simples.

O que eu esperaria, se fosse ingénua, era que a TV não perdesse o balanço, lembrando-se agora dos milhões de crianças que nasceram mas eu não sei se se pode chamar vida às suas vidas, morrendo milhares por dia de fome, vivendo muitos e muitos mais milhares sob o terror quotidiano no meio das guerras, inclusive aquelas (a maioria) que são desencadeadas directa ou indirectamente pelos grandes senhores do mundo sob argumentos hipócritas e interesses escondidos, enquanto outros que não são senhores do mundo mas governam em seus países fecham os olhos, subservientes às políticas "globais".
Mas esses milhões de crianças a cujas vidas é difícil chamar vida estão lá longe, noutros sítios do mundo. Pois... Certas bocas só se enchem publicamente em nome da "globalização" quando lhes convém. Denúncias e imagens na TV , por exemplo, não convêm aos que a controlam, incomodam e o que é preciso é acomodar-se - não incomodar-se. E que as pessoas comuns se distraiam, não vão elas lembrar-se, aqui e por outros países, de começarem a incomodar-se demasiado e acabarem por encher as ruas. (Países afastados e protegidos dos dramas da outra metade do mundo pois neles vidas que também não são vida são em proporção ínfima face a esses dramas - são agora, quiçá até um dia...)

(Eu disse no meu post anterior que explicaria a "estranha" associação de ideias que me levara à colocação de uma foto. Eu acredito na sinceridade de muitos que ergueram cartazes "Pelo direito à vida", como na de muitos que ergueram outros contra uma lei punitiva, agora cá, noutros países noutras alturas, mas estou farta dos hipócritas de cá e de lá (e obviamente que agora já não estou a referir-me ao referendo), esses até não precisam de descer à rua para defenderem o que querem defender, esses ou têm na mão os cordelinhos poderosos das políticas, ou penduram-se neles pois isso de não se deixarem ir a reboque exigiria coragem demais...)

sábado, fevereiro 10, 2007

Cá estou eu com as minhas estranhas associações de pensamentos...

Esta foto, logo hoje que é sábado? - sábado e domingo são repouso de fim de semana... Além disso, até vão deixar de morrer de fome em cada dia cerca de 11 mil crianças neste mundo - ou é mentira que ele está a caminho da prosperidade agora que vai ser tudo global?
Mas eu não tenho culpa que o meu pensamento faça sozinho umas associações de ideias, e eu hoje não consigo detê-lo se não lhe fizer a vontade deixando aqui escondidinha no meu cantinho essa foto... (só uma entre tantas acessíveis)
(O meu pensamento não me é assim tão insondável, acho que depois do fim de semana já poderei explicá-lo)

(Foto recolhida há um tempo na net, peço desculpa por não ter guardado o endereço)

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A grande ironia das minhas leituras

Encomendara um livro (que só comecei a ler ontem) quando ainda pensava adiar por dois ou três anos o pedido de aposentação a que já tinha direito. Trata-se de uma obra de autores de incontestada autoridade no domínio da investigação científica aplicável ao ensino-aprendizagem. (Citarei a obra mais abaixo*)
Tendo ficado ainda na Introdução, na noite passada, deparei-me hoje com um texto referenciado pelo
Henrique Santos neste seu post, e também pelo Paulo Guinote, que o transcreve no seu post aqui.
Infelizmente, esse texto não descreve uma fantasia, mas um futuro possível (e possivelmente muito próximo, pois as "evoluções" agora dão-se a velocidade vertiginosa). Por isso, ao pensar na leitura que ontem iniciei - eu, que já nem preciso de me inteirar de recentes investigações para nortear prática profissional (aliás, a 1ª edição do livro já é de 1999) -, não senti vontade de rir, também não propriamente de chorar, mas sim uma enorme ironia, como que parecendo rídicula a investigação realmente científica no terreno do ensino-aprendizagem face aos interesses, objectivos, perspectivas que imperam no mundo actual, nesta chamada sociedade do conhecimento - designação também a parecer irónica a quem vê o mundo como de e para todos e não de e para alguns apenas.

A quem eventualmente me leia e prossiga até final, peço que, se ainda o não fez, comece por ir ler o texto para o qual pus link acima, a fim de entender a que propósito aparece este meu post.
Da Introdução à obra que comecei a ler (e vou continuar) copio apenas alguns excertos - que limitam a apresentação e alcance da mesma, mas que reduzo até por serem em inglês - somente para dar uma ideia da ironia de que falei. (Ironia, mas não fatal, a meu ver, pois não desisto de uma coisa que se chama Esperança)
___
«From Speculation to Science
(...)
The revolution in the study of the mind that has occurred in the last three or four decades has important implications for education.
(...)
• Research from cognitive psychology has increased understanding of the nature of competent performance and the principIes of knowledge orga­nization that underlie people's abilities to solve problems in a wide variety of areas, including mathematics, science, literature, social studies, and his­tory.
(...)
• Research on learning and transfer has uncovered important principles for structuring learning experiences that enable people to use what they have learned in new settings.
(...)
• Emerging technologies are leading to the development of many new opportunities to guide and enhance learning that were unimagined even a few years ago .
(...)
FOCUS: PEOPLE, SCHOOLS, AND THE POTENTIAL TO LEARN
(...)
• First, we focus primarily on research on human learning (...)
• Second, we focus especially on learning research that has implica­tions for the design of formal instructional environrnents (...)
• Third, and related to the second point, we focus on research that helps explore the possibility of helping all individuals achieve their fullest potential.
(...)
Learning research suggests that there are new ways to introduce stu­dents to traditional subjects, such as mathematics, science, history and ljtera­ture, and that these new approaches make it possible for the majority of individuals to develop a deep understanding of important subject matter. (destaques meus)
(...)
»
* [Bransford, John D., Brown, Ann L. & Cocking, Rodney R. (Ed.) (2000). How People Learn: Brain, Mind, Experience, and School. Washington: National Academy Press].

sábado, fevereiro 03, 2007

Bom fim de semana!

[O meu vai ser um bocadinho prolongado ;)]



Para minha fadiga
um albergue... Mas, oh,
estas glicínias!

Matsuo Bashô
(Trad. Olga Savary)


terça-feira, janeiro 30, 2007

"As minhas" TIC com os netos

A parte do meu desktop que é só dos netos
(do resto, cada um de nós usa o que precisa)

O Nuno só tem uma pasta no ambiente de trabalho do pc da avó pois a sua fase nas TIC já é outra e está no 8º ano - dessa fase não vou falar (hoje) porque lá iria eu desviar-me para questões das escolas, do uso das novas tecnologias com os alunos (ou do ainda bastante generalizado não uso). Apenas quero guardar neste cantinho as pastinhas da Inês aos oito anos, que 'eles' crescem muito depressa, daqui a nada já serão só recordações.


Lembrei-me de pôr a imagem para reter especialmente duas das pastas da Inês. Uma, é a das artes plásicas, designação que veio dela quando me disse que queria "fazer artes plásticas no computador" - donde lhe veio a pomposa designação, não cheguei a averiguar bem.
Mas, o que importa é que largou definitivamente os programinhas já demasiado infantis, em que as composições "artísticas" são quase só feitas com clics. Iniciei-a então no Paint, incluindo busca de imagens para inserir a fim de complementar/enfeitar o trabalho pessoal com as limitadas ferramentas.
Confesso o meu desleixo na procura de recursos menos limitados, acessíveis à idade, mas também é muito pouco o tempo que lhe sobra das suas "pesquisas" na net, nos bocadinhos que está na minha casa (regularmente, só duas vezes por semana), dado que o computador dos dois manos em casa deles ainda não tem internet, e o outro tem muitas vezes prioridades profissionais.
"Pesquisas" na net... é que me aparece frequentemente com endereços de sites (são sempre infantis ou juvenis) que traz de cor, suspeito que alguns de anúncios da TV, outros devem vir dos amiguinhos da escola. E lá vai explorá-los (depois de eu ver onde entrou - sempre convém), se lhe agradam guarda na sua pasta dos Favoritos. Também recebe de vez em quando e-mails de um ou outro site que promove concursos, e lá vai ela, de respectivos username e password nos dedos. (Ainda "ontem" mal sabia ler e escrever! Mas, este pouco agradável passar dos anos para quem já tem os que eu tenho tem suas compensações, e uma é reviver o crescimento das minhas crianças)

Mas... que coisa, lá estou eu a desviar-me (coisas de avó), pois a pasta que queria referir mais é a designada por concursos. Adora quando eu faço um exercício com o Hot Potatoes, seja para o português, seja para a matemática, seja... de "cultura geral". São esses os concursos da respectiva pasta pois são desafios, dado que indicam no final a pontuação (que vai sendo registada no post-it, como se vê na imagem). Não crio estes exercícios-concurso para suprir nenhuma insuficiência da escola - a professora é excelente -, nem para motivar a Inês que, felizmente, gosta de aprender. Apenas os faço de acordo com perguntas/dúvidas que ela me coloca. Por exemplo, para reforço da correcção da ortografia em casos em que mantém hesitações ou em tipo de erros que ainda comete repetidamente, para apreender melhor um raciocínio na matemática em que noto que persistem dificuldades ou erros por precipitações automáticas e também para "puxar" pelo seu vocabulário, inclusive o "matemático", neste caso num exercício de palavras cruzadas que o Hot Potatoes permite criar com extrema facilidade.



(Mas agora ando a descurar o concurso, pois há novo entusiasmo na pasta dos jogos)



E, já agora, uma referência a essa pasta dos jogos. Embora a Inês aproveite as vindas cá a casa para os joguinhos online dos seus sites favoritos, também gosta muito do chamado software educativo. Usa-o em casa dela, mas também com frequência aqui, o que mostra que vale a pena adquiri-lo. Ainda há umas três semanas andou a pedir-me a Aventura do Corpo Humano, que chegou a encontrar cá em casa mas foi para o lixo quando verifiquei que era um daqueles que o XP fez passar à categoria de antiguidade. Comprei a versão actualizada a pensar que se não iria interessar muito, mas a verdade é que está agora no "top" dos preferidos. Além de actividades mais lúdicas, o cd tem outras que eu supunha que não a entusiasmariam, mas afinal... jogo é sempre jogo, e para as crianças ouvirem os elogios numa vozinha engraçada, acompanhados de palmas, pelos vistos até seguem atentamente as lições prévias do cd sobre nomes de ossos e outros componentes do corpo, enfim, essas "coisas chatas".
[Ei! Atenção! Estou a falar de uma criança de 8 anos, nada de confusões com 8º ano, que eu não defendo mesmo nadinha joguinhos 'toda a vida' para motivar a aprendizagem. Desafios a crescerem, isso sim - aliás, até tenho um marcador de posts designado por "infantilizar ou puxar?", embora nenhum dos posts marcados tenha a ver (explicitamente) com aprendizagem curricular, e suponho que (ainda) não escrevi nenhuma memória que se relacione com a ideia a que procurava sempre que os alunos do 2º ciclo aderissem (e julgo poder dizer que não era mal sucedida nisso) - a de a matemática e os respectivos problemas serem como um jogo, um desafio ao raciocínio, e que eram capazes do mesmo modo que revelavam ser capazes de descobrir estratégias, às vezes difíceis, para ganharem em certos dos seus jogos].



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Adenda



Ainda pelos 4-5 anos do Nuno, a mãe (minha filha) declarou que não teria que se preocupar com a "formação informática" dele pois delegava-a em mim. Pois, pois... até há um tempo atrás ainda pensávamos que isso poderia passar por nós, mas do que eles gostam é das modas lá entre eles... Por exemplo, cedo deixam de precisar que lhes ensinem a usar o msn, e lá os temos a prolongarem em casa as conversas da escola com os amiguinhos (e amiguinhas), o horário de estudo esquecido (até serem apertados com uma proibição de msn até levantarem aquelas notas negativas que começaram a aparecer nos testes por causa de tanta conversa - mas isso só fazem alguns pais, eu sei de uns que tiveram que o fazer uma vez há pouco tempo mas não vou dizer aqui em público quem era o filhote, digo só que as notas levantaram logo nos testes seguintes e ele não andou traumatizado com a proibição), e a dedicação intensiva a uma nova escrita que qualquer dia os põe a escrever português com mais erros do que quando tinham nove anos, isto se falarmos só dos que até fizeram um bom 1º ciclo.
O Nuno até criou um blog, e não fui eu que ensinei, só dei depois umas dicas que até o levaram a um primeiro contacto com html, mas depressa o abandonou por "falta de assunto" e, quanto a descobrir assunto... bem, "santos de casa não fazem milagres" (até porque são vistos como intrusos, os reconhecidos como "autoridades" são os professores nas disciplinas escolares - no mais geral ainda com nada ou pouco de TIC -, alguns amigos um pouco mais velhos noutras áreas e os publicitários das últimas modas/aliciamentos - que não são o msn, este até é um desviante menor do estudo).



Como competir com isto? Que papel cabe à escola?



Mas já saí do assunto do meu post... que mania das adendas!



_________________________
_xiiiiiii... Isabel, que post tão longo!!
_Ora, não faz mal, este foi para guardar como recordação, eu volto qualquer dia a questões implícitas na adenda...

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Pois... mais virada para leitura do que para escrita.

Fechei a última página de A Varanda do Frangipani, de Mia Couto, que li quase de uma assentada.

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"Foi então que uma explosão se tremendeou pelo forte, parecia o mundo se fogueirava. Nuvens espessas escureceram o céu. Aos poucos, os fumos se dispersaram. Quando já tudo clareava sucedeu que, daquele depósito sem fundo, se soltaram andorinhas, aos milhares, enchendo o firmamento de súbitas cintilações. As aves relampejavam sobre as nossas cabeças e se dispersaram, voando sobre as colinas azuis do mar. Num instante, o céu ganhava asas e escoava para longe do mundo."

"Era a árvore do frangipani. Dela restava um tosco esqueleto, dedos de carvão abraçando o nada. Tronco, folhas, flores: tudo se vertera em cinzas. (............)
Recordei ensinamentos do pangolim. A árvore era o lugar de milagre. Então, desci do meu corpo, toquei a cinza e ela se converteu em pétala. Remexi a réstia do tronco e a seiva refluiu, como sémen da terra. A cada gesto meu o frangipani renascia."

"_Espere, eu vou consigo, meu irmão.
Era Navaia Caetano, o velho-menino. (...)
Segurei a sua mão. Mas então reparei que ele trazia, a tiracostas, o arco de brincar. Lhe pedi para que deixasse fora o inutensílio. Lá os metais eram interditos. Mas a voz do pangolim me chegou, corrigente:
_Deixe o brinquedo entrar. Este não é um caso de última vez..."

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Me perdoe Mia Couto (que, na minha humilde opinião, é um grande, acho que me atrevo a dizer um enorme escritor) por usar excertos* retirados subjectivamente do contexto do último capítulo (e mais ainda do contexto de todo o livro), mas não os uso como marcas desta obra, retiro-os pelo último pensamento que ficou em mim, sempre tão pessoal da parte de cada leitor.
E antes de o pensamento regressar ao quotidiano, despeço-me da árvore perfumada que renasce de monte de cinzas e também das andorinhas que saiem voando de abismo que engoliu armas - quanto ao arco de brincar, há muitos sótãos que guardam brinquedos de infâncias longínquas...
(Mas não me despeço de A Varanda do Frangipani, esse fica comigo ao lado de outros, belos também)
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* Excertos: pp 149; 150, 151; 151, 152 (Ed. Caminho, 8ª edição)

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Outras leituras:
Porque nem se trata de obra literária, nem é temática dentro dos assuntos deste blogue, não deixo aqui o link para uma entrevista com Arno J. Mayer - é já de 2002, encontrei agora -, interessantíssima (a meu ver), que li de um fôlego. Mas deixei o link ali.

Mais virada para a leitura do que para a escrita...

...assim meu cantinho vai andando abandonado. Mas, às vezes eu penso nele como se não fosse um espaço virtual, mas um recanto mesmo onde me viesse sentar debaixo de uma trepadeira para soltar e depois guardar entre as pedras de um murinho uma impressão que me deixou o livro que acabei de fechar, ou a alusão a algum momento particular do dia, ou um pensamento que ou me grita ou me murmura através de alguma forma mais ou menos metafórica que me suscita a pena de um poeta ou o pincel de um artista. Ora... porque não? Um blogue não tem que ficar preso ao título, e os posts não têm que ser todos para eventuais visitantes entenderem sem ficarem a perguntar-se: A que propósito vem esta prosa ou esta imagem?

Memórias da vida de professora...? Vêm-me muitas , sobretudo das aulas, de empreendimentos como directora de turma, de casos, enfim... sobretudo memórias 'deles' - os alunos. Vêm-me ao pensamento muito mais do que vinham enquanto ainda estava no activo (nessa altura era o presente, o dia a dia, as turmas desse ano que ocupavam o pensamento). Mas... vêm e também vem logo uma recusa: "Não me apetece escrevê-las" (as memórias), "não, não quero escrever, é passado". E eu sei que isto não faz muito sentido, porque escrever memórias não tem, não tem mesmo que significar saudosismo, não foi com nenhum sentimento desses que iniciei o blogue e lhe dei o título que tem, e continua a não ser ao mantê-lo.
Mas, não vou perder tempo a deslindar o porquê desse não apetecer ou não querer. Se uma memória de prof me puxar para o teclado, escreverei, e se a seguir as memórias não continuarem a puxar para as teclas, não escreverei, e pronto - é simples.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Hoje deixo outro poeta...

... completaria hoje 84 anos - Eugénio de Andrade.

[Onde me levas...]

Onde me levas rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos e com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante;
que seja nessa face que me perca.


Eugénio de Andrade
_____________________
ADENDA
Eugénio de Andrade é um dos poetas de que gosto tanto que, sabendo que seria hoje o seu aniversário, tinha que deixar um poema seu. Além disso, quando penso que vou deixar o meu cantinho um tanto em pausa, gosto de deixar um poema (ou uma pintura - as obras de arte são poemas). Contudo, desta vez em que também me parece que vou fazer (ou retomar) alguma pausa, deixo o desejo de que o tema do meu post anterior (resumido: o professor generalista para o 2º ciclo) se torne tema de combate a tal visão, inclusivamente na blogosfera)

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Habilitações para a docência - para mim, basta desse assunto!

Perdi a paciência, afinal já estou fora, e para que hei-de preocupar-me e até ficar efervescente com as notícias, aliás ainda muito escassas, que há sobre o assunto? Hoje despeço-me dele, pois de nada serve a preocupação de um simples professor, nem de vários, nem de muitos que o conhecem bem por terem acompanhado no terreno as evoluções do sistema de formação de professores após a Lei de Bases do Sistema Educativo, especialmente no que respeita às formações para a leccionação no 2º Ciclo. Mas também não pensem os colegas do 3º Ciclo e do Secundário que o assunto não lhes diz respeito, ou então não se venham a queixar quando os futuros alunos lhes chegarem às mãos.

Bati na tecla de algumas formações vigentes para o 2º ciclo e, recentemente, alertei para a visão da actual equipa do Ministério da Educação, relativamente à qual, no respeitante ao 2º ciclo, até um grupo de trabalho constituído por responsáveis de várias ESEs esteve contra, apesar de as ESEs serem as instituições que maioritariamente têm a cargo essa formação. (Esse meu alerta, incluindo informação de pareceres, está aqui).

O novo regime de formação para a docência na Educação Pré-Escolar e nos ensinos Básico e Secundário foi aprovado em conselho de ministros em 28 de Dezembro sem que dele fosse dado conhecimento público ou aos sindicatos de professores. Foram ontem divulgados alguns aspectos desse Decreto-Lei, e as posições da FENPROF (que acabo de ler) sobre o que já é conhecido não me indiciam que tenha sido corrigida a visão que mais me preocupava, embora ainda não tenha acesso ao diploma para ler com os meus próprios olhos. Entretanto, não preciso de ler para conhecer, desde a aprovação da Lei de Bases do Sistema Educativo, quer o facto de nunca terem sido postas em prática algumas disposições dela, quer o modo como foram sendo contornados e mesmo desvirtuados princípios nela inscritos depois de processo árduo para se conseguir uma lei que, pela sua importância, requeria a obtenção de consenso.

A pôr ponto final num assunto com que me preocupei longamente (e disso, já tive quanto baste), deixo apenas e sucintamente uma memória que até devo ter escrito com mais pormenores algures neste cantinho. É a memória de quatro estagiárias que tive numa turma minha de 6º ano, a partir só de finais de Fevereiro desse ano, e tive apenas na qualidade de cooperante, não de orientadora. (Para não cometer injustiças, esclareço que não frequentavam uma ESE, mas um desses institutos privados, igualmente credenciados para a referida formação).
Eram jovens trabalhadoras, empenhadas, entusiastas e que queriam mesmo ser professoras (e boas professoras). Apesar de assoberbadas por outros trabalhos além daquele (pseudo) estágio, arranjavam disponibilidade para todas as horas (muitas) que elas próprias eram as primeiras a pedir, dado que eram críticas quanto à insuficiência da duração da formação em tantas vertentes como as científica, didáctica, pedagógica e não só. Dei-lhes muitas horas para além do que se inseria nas minhas obrigações como cooperante apenas, e dei com gosto porque elas iam tendo consciência das lacunas a nível científico e de dificuldades até elementares que queriam ultrapassar.
Desejo que estejam colocadas e não duvido de que sejam professoras competentes, mas também não tenho dúvidas que terão tido que fazer, para isso, um considerável esforço pessoal adicional à formação recebida. Porque só cabeças tais como as da actual equipa ministerial podem não perceber que não chega uma formação (agora, pelos vistos, ainda mais "generalista") que não dê a preparação científica especializada indispensável para que o professor saiba mais do que ensina, mesmo a nível ainda elementar/inicial, sob pena de não ficar capacitado para, por exemplo, iniciar os alunos no processo progressivo de aquisição/elaboração de conceitos, devido a não ter ele alguns bem elaborados ou sequer minimamente, mas correctamente, adquiridos.

E pronto. Prossigam os ministros da educação com uma política de formação de professores que fique o mais barata possível, com a justificação de que os meninos ficam traumatizados com a passagem do professor único do 1º ciclo para vários professores - justificação de que até se ririam os próprios alunos, pelo menos após a primeira ou segunda semana dessa transição -, prossigam, que eu fico-me com a minha opinião mas não vou insistir mais no assunto.

domingo, janeiro 14, 2007

Para o domingo (e não só), deixo um poeta

[Prévio: "Ainda pior que a convicção do não, é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase! (...) Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu." (Luís Fernando Veríssimo - de um pps que corre pela net)]
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Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro, Quase (13 de Maio de 1913)
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P.S.: Bom domingo e boa semana!
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ADENDA ("extra")
O meu destaque (extra-educação/ensino): Artigo no Público de hoje, aqui.